Por que motivo a literatura de gênero (fantástico, policial, aventura, etc.) é vista como uma frivolidade de gente imatura, e a dita literatura realista seria (por esta mesma ótica) um privilégio dos adultos?
Tive remorso. Fingi não perceber, mudei bruscamente de interesse:– É Sherlock Holmes?Julinho hesitou, teve um olhar de náufrago pra o fascículo que trazia na mão.– Não. É Nick Carter.– É bom? É melhor do que o Sherlock?Os olhos de Julinho se adoçaram. Confraternizamos naquele assunto inesperado. Ele já tinha lido todos os fascículos de Sherlock, já havia lido dez ou doze de Nick Carter. Mas ia acabar com aquela besteira de livro policial. Agora ia ler somente grandes escritores. Taunay, Alencar, Machado de Assis.
A literatura de gênero (ou aquilo que em inglês se chama de “romance”) atrai o leitor jovem pela
extensão e variedade dos assuntos que aborda, pagando por isto o preço de uma
certa superficialidade. Mas ela apela ao senso de aventura, ao senso de
deslumbramento diante do improvável (o sense
of wonder), à curiosidade factual pela cultura-de-almanaque, à excitação
dos perigos, mistérios, fugas e perseguições, e a todo um conjunto de
experiências mentais que para esse leitor jovem, essa leitora jovem, estão
entre as coisas mais importantes do mundo.
A literatura mainstream,
realista, aquilo que em inglês se chama de “novel”,
atrai o leitor adulto porque conta com uma certa atitude já definida diante do
mundo. É o que os críticos chamam “a literatura burguesa”, não no sentido de
uma literatura feita por gente rica, mas feita por gente que já assumiu uma
posição definitiva diante do mundo, da vida, da sociedade. Gente que não tem
mais interesse por idéias que não rendam resultados práticos em sua vida
profissional e pessoal (familiar, sexual, financeira, etc.). O realismo tem,
para esse leitor(a) uma função utilitária, aprofundadora: conhecer melhor as
sutilezas da psicologia humana e da dinàmica da ascensão social. Mas, de
preferência, nunca sugerir a existência de outros mundos, outros planos da
realidade, outros planetas habitados, etc. etc. – outros jogos com outras
regras.
Esta é uma simplificação extrema, como toda
generalização; mas existe nela um irredutível grãozinho de verdade.
Poe era dotado de um intelecto brilhante, isto não se pode negar; mas ele me parece o intelecto que tem uma pessoa jovem, altamente dotada, antes da puberdade. Sua vívida curiosidade assume formas que são os deleites típicos de uma mentalidade pré-adolescente: maravilhas da natureza, da mecânica, do sobrenatural, cifras e criptogramas, quebra-cabeças e labirintos, autômatos que jogam xadrez e voos delirantes de especulação. A variedade e o ardor da sua curiosidade nos deleitam e nos assombram, mas no final das contas a excentricidade e a falta de coerência dos seus interesses acabam nos fatigando.(T. S. Eliot, citado em Poe Poe Poe Poe Poe Poe Poe, Daniel Hoffmann, Anchor Press, 1973, trad. BT)
Eu estava entusiasmado com a colaboração e veio-me à cabeça fazer espelhos até com as calotas do vidro soprado, vertendo-lhes o chumbo por dentro ou espargindo-o por fora: olhando-nos nesses espelhos, vemo-nos muito grandes ou muito pequenos, ou ainda inteiramente deformados; esses espelhos não agradam às mulheres mas todas as crianças querem comprá-los.
Todo o livro que leio, seja de prosa ou de verso, de pensamento ou de emoção, seja um estudo sobre a quarta dimensão ou um romance policial, é, no momento em que o leio, a única coisa que tenho lido. Todos eles têm uma suprema importância que passa no dia seguinte.(Fernando Pessoa, O Eu Profundo)



