Mostrando postagens com marcador Alexei Bueno. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alexei Bueno. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de junho de 2026

5241) Alexei Bueno, 1963-2026 (27.6.2026)



 
Um antigo provérbio africano diz que a morte de um ancião equivale ao incêndio de uma biblioteca. É mais ou menos a isto que corresponde a partida de Alexei Bueno, se bem que ele não chegou a ser ancião. Morreu ontem aos 63 anos; o destino o poupou de chegar à velhice; tê-lo-ia poupado também se chegasse aos 120, porque tinha um espírito indomavelmente jovem. 
 
Jovem com tudo que isto implica de orgulhoso otimismo, de impulsividade, de felicidade guerreira, e de uma temerária fé em si próprio. Como a fé dos jovens de vinte anos que vestem uma farda, empunham uma arma, e partem para o campo de batalha pensando: “Morrerão todos, menos eu”. 
 
Ontem, durante uma reunião de trabalho, uma amiga me perguntou se eu conhecia Alexei. Falei, com a minha obrigatória jovialidade: “Claro, já bebi muito com ele”. E recebi a notícia de que ele estava internado, e nas últimas. Meu dia continuou, mas está até agora com uma metade faltando. 
 
Na verdade, nem fomos tão próximos assim; tínhamos aquelas amizades de um-encontro-por-ano, muitas vezes em função de nossa presença num colóquio literário, lançamento de livro, esses eventos providenciais que nos arrancam da poltrona e da página. Benditos eventos, que nos fazem conhecer pessoas assim. 
 
Tínhamos alguns territórios espirituais em comum: Glauber Rocha, Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos... E principalmente aquela arte milenar e quebradiça: a poesia rimada e metrificada, a poesia de forma fixa, cada vez mais empurrada para o fundo do palco, para longe dos holofotes e das câmeras, cada vez mais substituída pelo que muitos chamam de “verso livre” e que na verdade tem tanta liberdade quanto as crianças ferais criadas no mato pelos lobos.  
 
O poema de forma fixa, com estrofe, rima, métrica, é uma arte delicada e difícil, mas para quem a cultiva é fácil como uma bolha de sabão. Dele se pode dizer o que Chesterton dizia de uma taça de vidro: se lhe derem uma pancada, faz-se em pedaços, mas se a deixarem em paz durará mil anos. 
 
É ao mesmo tempo, a mais frágil e a mais duradoura das artes. 
 
Frágil porque depende de um senso absoluto de regularidade e rigor; basta uma sílaba ou uma sonoridade fora de lugar para desequilibrá-la por completo, como um tijolo mal posto que faz ruir um arranha-céu. 
 
E duradouro porque corresponde a um impulso indomável do espírito humano: o nosso impulso de ordem, tão crucial quanto o de desordem. O impulso que nos leva a procurar essa esquisita sensação de paz que nos produz a contemplação das formas harmoniosas, as estruturas simétricas, as cadências jubilosamente previsíveis. 
 
A poesia rimada e metrificada nos dá o mesmo prazer das rendas em labirinto, dos cravos bem temperados, dos vitrais em rosácea, dos grandes painéis com perspectiva renascentista. O sonho de um universo que se eleva na direção da harmonia, e não na direção do tumulto como ocorre na vida real. 
 
É uma contradição, é claro, mas não me sai da cabeça quando penso que ninguém cantou tão bem esse conúbio entre Ordem e Desordem quanto o nosso gótico-científico Augusto dos Anjos, e que a Paraíba deve a Alexei a mais criteriosa edição dos poemas e prosas do poeta do tamarindo. 
 
Alexei nunca foi uma pessoa fácil, e já o vi travando embates verbais portentosos em torno de poesia, de política, de História do Brasil, de ruas antigas do Rio de Janeiro, do prato de tira-gosto ainda fumegante. 
 
Gostava dos enfrentamentos, sentia-se à vontade ao terçar armas contra um adversário qualquer, fosse um amigo do peito ou um oponente de ocasião. Era o prazer do combate que o arrastava, o prazer de quem testa os próprios músculos empurrando uma parede que um dia há de ceder. 
 
Indivíduos assim são muitas vezes chamados de dogmáticos, radicais, impositivos... Indivíduos que não relaxam, não tergiversam, jogam cada frase na mesa como se fosse um ás de trunfo. Se Alexei fosse um time de futebol, ai do tiro-de-meta do adversário. 
 
Falo isso com admiração e cautela, porque sou o contrário disso, procuro ser líquido, adaptável. Já Alexei parecia um cara que conheci na juventude, em Campina Grande, igualmente competitivo, igualmente pintado para a guerra, e que uma vez foi participar de um debate com outro professor e abriu dizendo: “Diga alguma coisa para eu ser contra”. 
 
Talvez por isso mesmo nosso diálogo fluísse tão bem, porque na verdade ele era um poço subterrâneo jorrando idéias sem parar, e a nós bastava uma pequena provocação, uma pergunta fingidamente capciosa, para que ele desembestasse numa banguela de argumentações, citações, referências, arrazoados, digressões maledicentes e divertidas. 
 
Sei que era bibliófilo, e tinha uma biblioteca magnífica, caso sejam verdadeiras todas as aquisições de que se vangloriava. Gabar-se de suas estantes é um cabotinismo inocente de todos os que pensam que os livros salvarão o mundo. Uma vez fui me gabar de que acabara de ler um livro de Vivaldo Coaracy sobre o Rio de Janeiro; Alexei produziu um comentário de quinze minutos que me fez voltar para casa e abrir o livro de novo no capítulo um. 
 
Falei um dia: “Você não me chama para beber na sua casa porque tem medo que eu furte algo de sua biblioteca”. Ele me garantiu que não tinha medo de nada, quanto mais disso, e que um dia me daria acesso a sua Golconda. Agora não dá mais. Levou-a consigo. 
 
***
 
EPISÓDIO
(Alexei Bueno, em O Sono dos Humildes, Ed. Patuá, 2021)
 
Um muito pequeno inseto
pousou no balcão do bar.
Informe, incolor, abjeto,
um nada, uma nódoa a andar.
 
Com um copo sujo esmaguei-o.
Ao vê-lo imóvel, extinto,
que estranha impressão me veio,
que absurda dor, e ainda a sinto.
 
Mas vi que ele se mexia,
nem sei qual parte. Elas, juntas,
nada eram. No entanto eu via
nelas a vida, ex-defuntas.
 
Com o mesmo copo animei-o –
com a borda – e ele se mexeu.
Depois andou, com receio,
e, súbito, ei-lo no céu.
 
O ponto morto voava,
e eu, outro átomo esquecido,
via-o. E ele, do ar, me dava
um nada, um tudo, um sentido.
 


 






terça-feira, 27 de dezembro de 2022

4897) Leituras 2022 -- 4 (27.12.2022)


Não costumo fazer listas de “dez melhores”, mas sempre gosto de dar um balanço, no fim do ano, de alguns livros que li e que por variadas razões não comentei aqui no blog. Quisera eu ser daqueles sujeitos organizados que “ficham” cada livro que leem, redigindo pelo menos meia página de observações. Não é o meu caso. Estas anotações, porém, podem servir como dicas de leitura, ou para que o leitor compare com suas próprias impressões.
 

ENSAIO LITERÁRIO
“Riso e Melancolia” (Cia. Das Letras, 2007), de Sérgio Rouanet
Li este livro em paralelo com a leitura de Jacques, o Fatalista, de Denis Diderot. O livro de Rouanet é uma teorização (e uma detalhação aplicadamente acadêmica) de um tipo de romance que, para meu gosto, anda meio esquecido. Estamos numa época de thrillers, de narrativas super-amarradas com “começo-meio-fim”, de histórias com um frenético realismo epidérmico; romances de onde o autor parece estar ausente, a não ser como enunciador-sem-face daqueles episódios.
 
Rouanet teoriza o que ele chama do “narrador shandiano”, tomando como modelo o Tristram Shandy de Laurence Sterne, e usando como exemplos obras de Diderot (Jacques...), Xavier de Maistre (Viagem ao Redor do Meu Quarto), Almeida Garrett (Viagens na Minha Terra) e Machado de Assis (Brás Cubas).
 
A tese principal de Rouanet é que nestes livros o narrador (seja onisciente, seja um dos personagens) é o condutor principal do fio narrativo, desobedecendo às leis do tempo e espaço, produzindo digressões intermináveis, confundindo a cronologia interna, dirigindo-se ao leitor de forma desabusada e constante, comentando sem parar a excentricidade e o comportamento patético das pessoas, quebrando a “quarta parede” o tempo inteiro, abrindo mão da “ilusão ficcional” que a literatura realista buscou tão ansiosamente.
Aqui, meus próprios comentários anteriores sobre o livro de Diderot:
 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/10/4871-jacques-o-fatalista-um-romance.html
 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/06/4587-uma-literatura-ao-res-do-chao.html
 
 

CLÁSSICOS
“Seven Gothic Tales” (1934), de Isak Dinesen
A baronesa Karen Blixen, que usava esse pseudônimo, era dinamarquesa e escrevia num inglês opulento, impecável. Seus contos são quase sempre ambientados num século 19 de salões, castelos, mansões, famílias aristocráticas. Estes contos não são propriamente góticos, a não ser num sentido muito amplo, de uma realidade transfigurada onde a aparência oprime a essência, a forma determina o conteúdo. Dois são fantásticos: “The Monkey” é uma história de transformação sobrenatural, “The Supper at Elsinore” um conto de fantasma), mas o tema subjacente de todos é a dualidade real/fantasia, história acontecida versus história contada (ou imaginada), a implacabilidade dos acasos e dos destinos.
 
Uma coisa fascinante no estilo de Isak Dinesen é que cada personagem seu é capaz de, no meio de uma ação movimentada ou de uma situação de suspense, começar a contar a própria história – e com isto adiar por cinco ou dez páginas a continuação da história principal. Algo que qualquer redator de “Como Contar Uma História” desaconselharia vivamente – “porque iria quebrar o ritmo, desviar a atenão, etc. etc.”. Cada conto de Dinesen acaba se transformando, graças a esse recurso bem século 19, numa antologia de pequenos contos, porque cada um daqueles personagens aparentemente insignificantes tem sua vida, sua história, suas aventuras, seus episódios sombrios ou eufóricos... Como em certos videogames onde basta ao protagonista deter seu cavalo no meio de uma estrada e interpelar um camponês que trabalha obscuramente na plantação para ficar sabendo de uma história não apenas extraordinária e chocante, mas de importância crucial para a aventura do próprio cavaleiro – que talvez pudesse ter passado direto, a toda brida, sem sequer perceber que o camponês estava ali.  Os contos de Isak Dinesen são um tributo permanente à Estória, como grafava Guimarães Rosa.
 

AUTOR NACIONAL
“O rastro da lesma no fio da navalha” (Patuá, 2022), de Adérito Schneider
Contos de prosa rápida, precisa, numa sucessão de cenas cruéis ou estranhas. Há um leit-motif que retorna em várias histórias, uma menina morta que é repetidamente sepultada ou afastada, mas sempre retorna para assombrar o bairro. Há histórias de violência brutal e gratuita (“Road Movie”, “O Assalto”), o homem que vira executor de jacarés meio por acaso (“Do fundo daquele lamaçal, eu tirei um jacaré e o matei”), a impressora que parece mal-assombrada (“Magenta”). Alguns contos são em forma de argumento ou roteiro de filme, mas no geral todos compartilham a mesma urgência, a mesma rapidez na tentativa de registro de uma realidade que dá voltas sobre si mesma o tempo todo.
 



INSÓLITO
“Cold hand in mine” (1975), de Robert Aickman
Robert Aickman, um autor pouco traduzido no Brasil, ao que eu saiba, é um desses ficcionistas inquietantes empurrados à força para dentro da gaveta do gênero “Horror”, mas não é horror o que seus contos produzem. É estranheza, descolamento, desorientação.  Para a obra de pessoas como ele prefiro usar o termo “o Insólito”. Em vez de produzirem a descarga catártica, previsível, diante de horrores monstruosos ou de mutilações brutais, seus contos narram uma sucessão de situações espantosas, inquietantes, mas organizadas numa estrutura de aparente non sequitur, que deixa as descargas emotivas todas presas dentro de nós. Não sabemos como descarregá-las, porque a cada episódio a história vira uma esquina numa direção inesperada e sem respostas visíveis. O leitor não se sente sepultado vivo; ele se sente (para usar uma expressão atual) “sem chão”.
 
Ler Lovecraft é algo “cozy”, reconfortante, aconchegante. Já sabemos o que vamos encontrar ali. É como assistir os velhos filmes de terror da Hammer Films, estrelados por Christopher Lee ou Peter Cushing.  Ler Aickman é como ver um filme de David Lynch.
 



EXPERIMENTAL
“A Visit from the Goon Squad” (2010), de Jennifer Egan
Egan é autora do excelente O Torreão (“The Keep”). Li no original, mas este livro saiu no Brasil com o título A Visita Cruel do Tempo (Intrínseca, trad. Fernanda Abreu). É aquele difícil e fascinante gênero de “romance de contos” – uma série de histórias mais ou menos independentes, interligadas por alguns arcos narrativos, ou pela simples presença de personagens de outras histórias. Os enredos envolvem bandas de rock, mercado fonográfico, gente rica e neurótica querendo ocupar o tempo livre, histórias de amor bem ou mal sucedidas... Ela entra e sai com facilidade da “voz interior” dos protagonistas de cada conto, e tem um prazer especial em criar situações bizarras, improváveis, cuja existência depende apenas do fato de que as pessoas vivem fora da realidade, são “habitantes da bolha” e por isso praticam atos patéticos, cruéis, engraçados, irremediáveis.
 
 

CLÁSSICOS
“The Street of Crocodiles” (1934, trad. Celina Wieniewska), de Bruno Schulz
Schulz é apontado por muita gente como “o Kafka polonês”. Este livro é também uma série de contos interligados, numa atmosfera soturna típica da Europa Oriental. Não é apenas Kafka, é aquele tipo de alucinação fluente do Expressionismo Alemão, um mundo taciturno sobre o qual se abatem pesadelos sem motivo. Bruno Schulz (1892-1942) era escritor e artista plástico, foi morto pelos nazistas. Este livro tem edição brasileira com o título de Lojas de Canela e Outras Narrativas (Ed. 34, 2019). O termo “realismo mágico” acabou sendo contaminado, via América Latina, de calor, de frutas, rios, batalhas ensolaradas, morenas fatais; mas pode-se argumentar a existência de um “realismo mágico” do Leste europeu, feito de neve, sótãos, matadouros, vultos encapotados, capelas góticas, becos tortuosos que mudam de lugar e abrem espaço para uma cidade de pessoas sem rosto.
 



POESIA
“O Truque da Carta e mais 11 Cordéis” (Rio, Ed. do Autor, 2022), de Mário Bag
O termo cordel é usado hoje em dia de forma às vezes excessivamente liberal, sem discriminação, para qualificar qualquer formato de poesia feita em verso de redondilha e com dicção coloquial. É um pouco como hai-kai, que está sendo usado para indicar qualquer poeminha curto entre uma e dez linhas mais ou menos.
 
Mario Bag (“disclaimer”: ele é ilustrador de dois livros meus) está migrando aos poucos da ilustração para o cordel – desta vez o cordel tradicional, canônico, escrito em sextilhas de versos setissílabos. Conforme o figurino. Depois de Mitos e Lendas do Folclore (2013), ele lança esta coletânea de poemas curtos (que dariam folhetos de 4 ou 8 páginas), “versando” histórias populares da Rússia, Lituânia, Groenlândia etc., além de enredos tirados da música popular (“Shame and Scandal in the Family”) ou dos clássicos de terror (“A Pata do Macaco”). E quando o leitor compra os versos do poeta leva de brinde as ilustrações do artista.
 



CLÁSSICOS
“Kwaidan” (1904), de Lafcadio Hearn
Eu sou um leitor antiquíssimo de histórias de fantasmas, histórias de assombração, ghost stories derivadas principalmente do modelo britânico e do modelo alemão. O problema com esse gênero é que histórias de fantasmas versam quase todas sobre pessoas que morreram e cujo espírito reaparece no mundo material (para assustar alguém, vingar-se, pedir perdão, etc.). Depois que se lê alguns milhares de histórias assim, como é o meu caso, fica tudo parecido, meio previsível. Já as histórias de terror japonesas, de que Lafcadio Hearn foi um colecionador dedicado (ele passou os últimos 15 anos de sua vida no Japão, constituiu família japonesa, e por lá morreu) mantêm o lugar comum da “reaparição dos mortos”, mas dão nisso uma bela injeção de outros elementos, seja da cultura e religião locais, seja da psicologia (japoneses reagem de modo diferente dos europeus). Kwaidan (que foi adaptado ao cinema em 1964 por Masaki Kobayashi) é uma das várias coletâneas de Hearn com histórias que, além de assombrar, surpreendem.


POESIA

“O Sono dos Humildes” (Patuá, 2021), de Alexei Bueno

Alexei Bueno é um dos defensores quixotescos da forma-fixa na poesia (tal como eu), e poucos a exploram tão bem quanto ele. Na poesia atual, um oceano de versos que não enxergam a si próprios, a forma fixa traz uma utopia de rigor e flexibilidade, porque ela estabelece uma medida, e cabe à voz do poeta forçar essa regra da métrica e da rima de todas as formas possíveis. Alexei usa formas variadas para refletir sobre a vida, a morte, a materialidade do instante, como em “Às Cegas”:

 

(...) Há um ser sem tempo que não concebemos.

 Que nos faz recolhendo-se ao seu ser.

Dentro do fora dele nos movemos

Sem nunca o conhecer.

Nosso acidente nada alterará.

Mas por que existe? O sempre nasce da hora

Em que o instante se apaga, o que aqui há,

E este sol negro, o agora.

 

 

-oOo-

 

Veja outros comentários das leituras do ano:



 









terça-feira, 1 de janeiro de 2019

4419) Algumas leituras de 2018 - I (1.1.2019)




Aqui vão algumas das minhas leituras de 2018. Podem valer como indicação para quem se interessa pelos mesmos assuntos. Muito do que leio são leituras de trabalho, apenas para informação. Algumas acabam se destacando. Também só comentarei abaixo os livros que li do começo ao fim. Minha leitura é fragmentária: de cada dez romances que começo, só termino um. E não é que os outros nove sejam maus livros; em geral é somente porque naquele momento não estou com vontade de ler aquele tipo de livro. O que leio, leio por prazer. Ninguém me paga e ninguém me cobra.



CULTURA POPULAR

Minhas pesquisas recentes sobre cordel e poesia popular passaram por títulos que recomendo com gosto.

O roteiro do verso popular, do português A. A. Freire, faz um breve apanhado das ligações entre a poesia popular brasileira e portuguesa, dando destaque a alguns personagens pouco conhecidos.  Deveríamos ler mais os registros portugueses sobre esse tipo de poesia. É sempre bom ver o que temos em comum com eles, e o que temos de irreprimivelmente nosso.

História da Literatura de Cordel, de Carlos Dantas, é uma pesquisa detalhada e bem documentada sobre as primeiras décadas de nossa poesia, e os primeiros pioneiros como Leandro, Chagas Batista e Athayde. Surgida de uma tese de doutorado, levanta com bastante rigor nomes, datas, locais, depoimentos e versos. Há pouca coisa escrita sobre esse período de cem anos atrás, e livros com este nível de dedicação são sempre bem vindos.

Uma História do Samba: as Origens, vol. 1 (Cia. Das Letras) de Lira Neto. O que foi dito acima vale também para o samba, embora a bibliografia neste caso seja muito maior. Lira Neto reconstitui episódios cruciais na transição musical do maxixe e outros ritmos para o que chamamos samba, destacando a origem social e os traços de personalidade dos grandes sambistas.

Água da Mesma Onda (Fortaleza: Editora Íria, 2011), de Francisca Pereira dos Santos, reproduz e comenta a correspondência, em prosa e em verso, entre Patativa do Assaré e a poetisa Bastinha. Mostra não apenas a presença meio obscura e discreta das mulheres no universo basicamente masculino da poesia do Sertão, como também o hábito, até hoje pouco analisado pelos estudos acadêmicos, de escrever cartas em versos, o que mostra a disseminação da dicção poética numa população de leitores de poesia que não se atrevem a se apresentar publicamente como poetas.

Almanaque de Brasilidades (Rio, Ed. Bazar do Tempo) , de Luiz Antonio Simas. Título auto-descritivo para um enorme apanhados de nomes, fatos, anedotas, definições, listas, registros cronológicos e históricos. Simas é um grande conhecedor de cultura popular, principalmente do samba e das religiões de matriz africana. Seu almanaque é para ser lido ao acaso, abrindo e colhendo o que se oferecer. (Embora eu o tenha lido do começo ao fim sem queixas.)



ROMANCE POLICIAL

Em matéria de livro policial, li pouco este ano.

O ano novo de Montalbano (Ed. Record) de Andrea Camilleri é mais um título das aventuras do Comissário Montalbano, de uma cidadezinha da Sicília. Desta vez é uma coletânea de contos, com algumas pequenas tramas engenhosamente concebidas, e principalmente os retratos inesperados e verossímeis de personagens miúdos. Já comentei outros livros da série aqui no blog.

Fogo na Carne (“Fire in the Flesh”), Edições de Ouro, de David Goodis, é um romance noir desse autor pouco convencional, que tinha leitores fiéis nos EUA dos anos 1940-50, e na França mereceu biografia e estudos críticos. A narrativa acompanha as conseqüências de um incêndio proposital com vítimas, no submundo de Filadélfia. É uma dessas histórias que decorrem praticamente ao longo de uma noite insone, com perseguições, violência, traições, personagens marginais escapando por pouco à polícia e à própria tendência autodestrutiva.

He Who Whispers de John Dickson Carr é justamente o contrário: um mistério detetivesco à moda clássica, na Londres pós-guerra, com um crime insolúvel do passado sendo deslindado no presente pelo detetive Dr. Gideon Fell e desestruturando as vidas de uma porção de pessoas. Como nos outros mistérios de Carr, muita engenhosidade, prestidigitação narrativa, uma certa concessão à coincidência e a alguma improbabilidade psicológica... Mas, como sempre, uma história de eventos inexplicáveis cuja explicação final nos deixa sem o que dizer.


POESIA BRASILEIRA

À Cidade (Fortaleza, Expressão Gráfica e Editora) de Mailson Furtado, ganhador do Prêmio Jabuti, é um livro-poema esmiuçando os minutos e os anos da vida numa cidadezinha do sertão nordestino, num ritmo recursivo cheio de sutilezas. Um livro promissor de um poeta jovem.

Sertão Japão (Ed. Casa de Irene) de Xico Sá e Grãos de Esperança (300 haikais) (Ed. Chiado) de Wilson Guerreiro Pinheiro são uma parelha de livros sobre a qual ainda pretendo escrever com mais vagar. Os dois poetas usam o haikai para comentar a natureza, as pessoas e a psicologia do Sertão. Xico com mais liberdade formal, Guerreiro com fidelidade estrita ao “modelo guilherme-de-almeidiano” do hai-kai. Ambos com flashes memoráveis de observação e delicadeza.

Anamnese (Ed. Lacre) de Alexei Bueno é mais um livro que me recupera a fé na poesia de forma fixa, as estrofes rimadas e metrificadas, que predominam aqui. Uma forma da qual Alexei é um executor da maior competência, num começo de século cada vez mais entregue às estrofes curtas de versos livres com rima eventual.

Lendário Livro (Editora Rubra) é uma antologia de que participei ao lado dos amigos Toinho Castro, Numa Ciro, Nonato Gurgel, Aderaldo Luciano e Otto. Dicções diferentes de uma trupe com diferentes focos, diferentes repertórios, e muita coisa em comum.

Quero morrer na caatinga (Ed. Areia Dourada) de Aderaldo Luciano é talvez o melhor livro de poemas do bardo de Areia. Um olhar sem ilusões e sem medo diante de um mundo em turvação, vazado em dísticos implacáveis como pancadas de enxada em terra dura.

(continua amanhã)










quarta-feira, 14 de novembro de 2012

3030) O verso indelével (14.11.2012)





A religião diz que a alma é uma essência capaz de se anexar a um corpo material e manifestar-se através dele. Isto pode não ser verdade no campo metafísico, mas é mais ou menos o que acontece no campo literário, em níveis sucessivos de complexidade. Veja-se por exemplo o caso de uma obra literária. Ela consiste em um texto, que é a alma, e que pode se traduzir nos “corpos” mais diferentes: um livrinho de bolso, uma edição de luxo, um arquivo PDF guardado num pendraive, um arquivo “.doc” gravado num CD, um folheto de cordel, um disco de vinil com o texto lido em voz alta.  Cada uma destas instâncias físicas é radicalmente diferente das outras, mas todas são capazes de reproduzir, por meios distintos, o objeto linguístico a que chamamos de texto literário (e que pode ser um poema, um conto, um romance, etc.).

Isso não se deve à arte literária em si, e si a algo muito mais básico, a própria estrutura da linguagem. A linguagem consiste em alma e corpo, ou seja, espírito e matéria, ou seja, idéia e palavra.  Nós usamos a palavra “livro”, os ingleses “book”, os franceses “livre”, e assim por diante; e todos esses conjuntos de fonemas falados ou de sinais escritos remetem à mesma idéia abstrata. É incrível que esses sinais consigam evocar em cada pessoa uma idéia equivalente. Acho que só ocorre porque há poucas coisas que a gente pratique tanto quanto a linguagem. Mas... todos concordamos sobre o significado de livro, mesa, garfo, TV, parede; mas quando começamos a discutir palavras mais abstratas (democracia, liberdade, amor, etc.) é que vemos o quanto esses termos são meras convenções, e como às vezes usamos a mesma palavra mas estamos pensando em coisas muito diferentes.

Dias atrás escrevi aqui sobre a permanência da enunciação poética num verso escrito por Drummond, por exemplo. Dias depois, no tablóide literário curitibano Cândido, vi um poema de Alexei Bueno também dedicado ao poeta de Boitempo, onde ele diz: “Mas não, quanta mentira... O que houve um dia / nada o pode anular, nada esvazia / a fôrma do poema, quando o poeta / deixa-a, médium de si, clara e repleta”. 

É a descrição exata do fenômeno linguístico, e do poético, por extensão. O verso escrito é “médium de si” no sentido kardecista do termo. Ele recebe uma alma, e a alma que recebe é a dele mesmo. Enquanto não são lidos, aqueles sinais de tinta na página são um verso morto, sem sentido. O sentido só acontece quando ele é lido. O texto escrito é médium de si mesmo, é mídia de si mesmo, é código de si mesmo, sempre pronto para mais uma reiteração do pequeno milagre eletroquímico que se dá no cérebro quando a gente lê um verso.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

2208) O direito de imagem (6.4.2010)



De vez em quando sai uma história desse tipo na imprensa. Desta vez, pelo que vi nos jornais, foram os herdeiros de Manuel Bandeira que fizeram retirar do mercado um livro de fotos do fotógrafo José Medeiros, só porque em determinada página do livro aparecia uma foto de Bandeira ao lado de outras pessoas. O absurdo de uma tal situação me lembra o que ocorreu anos atrás quando o cineasta Rosemberg Cariry, no Ceará, fez um filme sobre os cangaceiros Corisco e Dadá; os herdeiros de Dadá exigiram uma indenização pelo uso da imagem, e a indenização era maior que o próprio orçamento do filme.

Parece uma lei da Natureza, esse negócio de ter que ir de um extremo ao outro, de sair de uma situação de total permissividade para uma de total repressão, de um estado de coisas em que tudo é de graça para outro em que tudo é pago. Abusos do direito de imagem sempre foram cometidos. Eu sou um jogador de futevôlei, fui fotografado jogando na praia, alguém usou a foto sem autorização na capa de um guia turístico. Eu sou uma modelo, desfilei usando uma roupa, e a cena do desfile é utilizada num comercial. Eu sou um sujeito famoso, tomei uma cerveja com amigos, fui fotografado, e minha foto apareceu numa propaganda da cerveja. Tudo isto são usos indevidos de imagem ou de um trabalho, e é claro que precisa haver uma regulamentação para disciplinar esse uso. De preferência, remunerando o dono da imagem; no mínimo, pedindo sua autorização.

O que acontece é que processos bem sucedidos contra o uso não-autorizado da imagem de alguém acabam criando uma situação esquisita, em que essas ações judiciais se transformam numa indústria lucrativa. Detentores dos direitos sobre uma imagem deflagram processo atrás de processo e fazem disso um meio de vida. Num texto divulgado pela Internet a respeito do episódio de Manuel Bandeira, o poeta Alexei Bueno afirma: “Há um princípio jurídico de grande importância, o da razoabilidade, que está sendo atropelado por todas essas aberrações. E mais: um sinal óbvio de civilização são os limites à propriedade, em nome do bem comum, inclusive o bem cultural. Maior exemplo não existe do que o tombamento. Se Ouro Preto não tivesse sido declarada Monumento Nacional nos anos de 1930, todas as suas casas seriam hoje cubos de concreto, com janelas basculantes de vidro blindex! Se há limites de propriedade para os bens físicos, por que não os haveria para bens imateriais, como as obras literárias, às vezes de muito maior importância?”

Por conta dessa ânsia de faturamento com imagem (e por medo dos processos resultantes) trabalhar com TV virou um pesadelo. Se você filma uma cena em que aparecem 30 pessoas, tem que pegar 30 autorizações preenchidas e assinadas, para evitar um processo. Se o “princípio da razoabilidade” existe, precisa ser posto em prática para que se distinga com clareza o que é boa ou má fé, pois há muitas maneiras de se faturar injustamente com a imagem alheia.