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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

5131) A queda de Ícaro (9.12.2024)

 

 
Wystan Hugh Auden foi um dos grandes poetas da língua inglesa do século 20. Para mim, leitor distante, tem a mesma importância de um T. S. Eliot.  Assinava-se W. H. Auden, seguindo essa moda britânica de usar duas iniciais e um sobrenome. Os dois tinham temperamentos diferentes, e alguns elementos poéticos em comum.
 
Biograficamente, foram de certa forma o avesso um do outro: Eliot (1888-1965) era um norte-americano que migrou para a Inglaterra, um ambiente sisudo e engravatado onde se sentia mais à vontade. O inglês Auden (1907-1973) era mais cosmopolita e extrovertido, e fez o percurso inverso, fugindo da Europa para os EUA às vésperas da II Guerra Mundial.
 
Acho que o primeiro poema de Auden que li, numa antologia de bolso, foi um dos mais conhecidos dele: “Musée des Beaux Arts”, no qual ele comenta a queda de Ícaro, o personagem mitológico que voou com asas postiças mas aproximou-se muito do sol e acabou caindo – o calor derreteu a cera que lhe prendia as asas.
 
O poema de Auden descreve a cena, mas dando, por assim dizer, um passo atrás, para se distanciar: descreve um quadro de Brueghel (“Paisagem com a queda de Ícaro”) que retrata o episódio mitológico. Cria, de certo modo, uma “construção em abismo”. Alguém poderia transformar o poema de Auden numa canção. E depois alguém poderia usar essa canção (com seus versos e sua melodia) para criar um balé. E depois outra pessoa poderia produzir um filme documentando (ou ficcionalizando) esse balé... As possibilidade, como sempre, são infinitas.



(Ícaro, no canto inferior direito do quadro)

 
O quadro de Brueghel mistura a lenda mitológica com uma ambientação realista. Ícaro, o personagem mais importante, está quase sumido no canto inferior direito. Brueghel mostra como mesmo os fatos mais momentosos, aqueles que serão lembrados e recontados por milhares de anos, ocorrem num ambiente humano, misturado a detalhes banais.
 
O Realismo (na pintura, na literatura, etc.) se baseia nessa percepção – de que nada acontece num vácuo.  Cada narrativa célebre ocorreu de mistura a outras narrativas menores, que se perderam.
 
O poema aparece na ótima edição bilingue da poesia de Auden (Poemas, Companhia das Letras, 1986, trad. José Paulo Paes e João Moura Jr.). Há outras traduções na Web, inclusive um trabalho meticuloso e bem argumentado de Alexandre Bruno Tonelli (UFRJ), “W. H. Auden em tradução: o verso livre de “Musée des Beaux Arts”.
 
Fiz esta tradução com algumas pequenas interferências. (Não, não é uma “tradução livre”: nenhuma tradução é livre, ou talvez todas o sejam por igual.) Quebrei algumas linhas que me pareceram longas demais (as palavras em português são em geral compridas demais comparadas ao inglês).
 
Auden não usa um esquema regular de rimas; a rima aparece em seu texto quase como por um acaso, caída do céu como o próprio Ícaro. Deixei que a versão em português ficasse aberta a essas casualidades, com eventuais rimas internas brotadas da própria língua, em diferentes pontos do texto.





******** 
 
 
No Museu de Belas Artes
(W. H. Auden – trad. BT)
 
Sabiam tudo sobre o sofrimento,
os Antigos Mestres; como ele se mistura
à condição humana;  como acontece
enquanto alguém almoça, ou abre janelas,
ou apenas caminha sem pensar;
como, enquanto os idosos aguardam
cheios de reverência e paixão
o miraculoso parto, sempre haverá
crianças, que nem se importam com isso,
patinando no lago à beira do bosque;
eles nunca esqueceram
que mesmo o martírio mais tremendo
acaba acontecendo em um recanto, algum lugar encardido
onde os cachorros vão levando
suas vidinhas de cachorros, e o cavalo do torturador
esfrega o traseiro inocente no tronco de uma árvore.
 
No “Ícaro” de Brueghel, por exemplo: como todas as coisas
dão as costas ao desastre, e o lavrador
pode até ter escutado o mergulho, o grito impotente,
mas para ele era um acidente sem importância; o sol
brilhou nas pernas brancas que sumiam na água
esverdeada; e aquele navio de luxo deve ter avistado
algo incrível, um rapaz caindo do céu,
mas estava indo para outro lugar
e continuou velejando em paz.
 
 
***********
 
Musee des Beaux Arts
W. H. Auden
 
About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.
 
In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.
 



(W. H. Auden) 





quarta-feira, 15 de março de 2023

4922) O barco de Teseu (15.3.2023)



 
O dilema filosófico do “barco de Teseu” serve de ilustração, e de ponto de partida, para uma boa discussão sobre o lado material e o lado imaterial de um ser, uma pessoa, um objeto.
 
A lenda explica que o barco que serviu ao herói Teseu em sua expedição para matar o Minotauro, no Labirinto de Creta, foi preservado por muitos séculos, e de vez em quando era levado em peregrinação de uma cidade para outra. 

Acontece que o navio era de madeira; algumas partes se quebravam, outras sofriam com o cupim, e aos poucos cada parte do navio foi sendo substituída.  A questão é: depois que trocaram todas as tábuas do casco e do convés, todos os mastros, todos os bancos, todas as velas... aquele ainda era o barco de Teseu?




O escritor Douglas Adams, criador da série de romances O Mochileiro das Galáxias, passou por uma experiência curiosa no Japão, que ele mesmo descreve:
 
Lembro que certa vez, no Japão, fui visitar o Templo do Pavilhão Dourado, em Kyoto, e fiquei um tanto surpreso com o bom estado de conservação do tempo, já que ele foi construído no século 14. O guia me explicou que ele não estava tão bem conservado assim, e que na verdade tinha se incendiado duas vezes só neste século.
– Então, este não é o templo original? – perguntei.
– Claro que é – disse ele, surpreso com a minha pergunta.
– Mas ele foi todo queimado no incêndio?
– Sim.
– Duas vezes?
– Várias vezes.
– E reconstruido?
– Mas, claro. É um edifício importante, de grande valor histórico.
– Usando materais completamente novos.
– Claro que sim. O material antigo queimou no incêndio.
– Nesse caso, como pode ser o mesmo edifício?
– É sempre o mesmo edifício.
Tive que admitir, comigo mesmo, que era um ponto de vista perfeitamente racional, apenas partia de uma premissa diferente. A idéia do edifício, sua intenção, seu design, tudo isto é imutável e constitui a essência do edifício. O que sobrevive é a intenção dos que o construíram pela primeira vez. A madeira que foi usada para isto se deteriora, e precisa ser substituída. Dar importância excessiva ao material original, que é apenas uma lembrança sentimental do passado, desvia a nossa visão do edifício propriamente dito, que continua existindo.
(“Last Chance to See”, trad. BT)
 
Um navio e um templo são objetos físicos tão imponentes que tendemos a dar um valor excessivo ao que eles têm de propriamente material. 

Esse tema foi trazido novamente à discussão poucos anos atrás, quando a Catedral de Notre Dame sofreu um incêndio e ficou parcialmente destruída. Houve uma lamentação generalizada pela destruição de certos aspectos da catedral, mas na época transcrevi esta citação de Sara L. Uckelman, estudiosa da Idade Média (Durham Centre for Ancient and Medieval Philosophy), comentando no Facebook:
 
Eu sei como é a vida das catedrais. Elas não são monumentos estáticos ao passado. Elas são construídas, depois são incendiadas, são reconstruídas, são ampliadas, são vítimas de pilhagem, são erguidas novamente, desabam porque a construção não foi bem feita, e são erguidas mais uma vez, recebem novas ampliações, são remodeladas, são alvo de bombardeios, são construídas novamente. É a presença constante, e não a estrutura original, que tem verdadeira importância



Acho que detalhe crucial nesse contexto é o conceito de “presença constante”: a continuidade através do tempo tem tanta importância quanto a presença no espaço, e talvez mais. No caso de Notre Dame, alguns vitrais eram preciosos porque tinham duzentos anos; mas eles próprios já estavam ali substituindo vitrais ainda mais antigos, que foram destruídos dois séculos atrás por algum outro acidente.  E la nave va. 
 
É diferente o caso da destruição, por exemplo, da Biblioteca de Alexandria ou do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Porque em casos assim não se trata da destruição de um objeto que pode ser substituído, mas de milhares ou milhões de objetos únicos (livros, artefatos, manuscritos, etc.) – e quem vai produzir substitutos, ou seja, continuidade temporal, para tudo isto? 
 
No caso de um livro, é preciso distinguir a obra literária  e o objeto-livro.  O livro de Victor Hugo O Corcunda de Notre Dame, por exemplo, tem incontáveis edições e traduções mundo afora. Mesmo se pensarmos apenas na língua original, o francês, não importa quantos exemplares sejam destruídos, basta que se preserve pelo menos um para que a “presença constante” do livro tenha continuidade. 
 
É a premissa do clássico Fahrenheit 451 (livro de Ray Bradbury, filme de François Truffaut), em que os livros são preservados oralmente, na memória de pessoas capazes de recitá-los do começo ao fim.
 
Outra é a situação do manuscrito original de Victor Hugo, as folhas onde ele escreveu, com sua mão e sua caneta, a história original. Este não pode ser substituído – ganha um valor histórico de objeto único, valor que não se reduz se ele for xerografado, digitalizado e reproduzido. É a materialidade daquelas folhas, que foram tocadas e manuseadas pelo artista, que estamos reverenciando quando criamos bibliotecas destinadas à preservação de manuscrios. A obra literária está viva como nunca, reproduzindo-se lá fora – mas o objeto precioso, reverenciado pela nossa cultura enquanto existe, pertence a outra ordem de valores.



(manuscrito de Victor Hugo)
 




quarta-feira, 24 de agosto de 2022

4856) O papel do líder (24.8.2022)



(Moisés, por John Hembree)


Existe uma figura humana central, mais importante do que todos. É o Herói, é o Rei, é o Sumo-Sacerdote, é o General-em-Chefe, é o C.E.O., é o Presidente, é o Imperador, é o Líder...
 
Temos mentalidade monarquista. Precisamos de UM indivíduo onde focar nossas expectativas, nossa confiança, nossa obediência cega.  E, quando ele não corresponde, nossas expedições punitivas, com foices erguidas e archotes acesos.
 
Existem exemplos de líderes que se tornam arquétipos, alegorias da experiência humana.
 
Por exemplo: Moisés. Poucas figuras terão uma história pessoal tão cheia de episódios extraordinários, mas Moisés é sempre o símbolo evocado quando a gente quer falar de um Líder que não vive para presenciar a própria conquista. “Fulano de Tal foi uma espécie de Moisés, que conduziu o povo hebreu à Terra Prometida, mas morreu quando ela estava à vista, lá no horizonte...”
 
É o general ou presidente que morre antes do fim da guerra que ajudou a ganhar, como Franklin Roosevelt. É o craque da seleção que se machuca antes da decisão da Copa. É o líder oposicionista que segura o tombo durante os anos negros e morre às vésperas da redemocratização. Os exemplos são muitos e evocam uma imagem de tragédia por um lado (“Que pena! A pessoa que mais merecia, e o Destino negou!...”) e por outra uma imagem de desprendimento – como se ele soubesse desde o início que aquela conquista não era para ele, e sim para uma coletividade.
 
Um exemplo diferente é o do Líder egoísta, que quer a glória maior para si, porque afinal de contas ele é o Líder, e os seus vassalos que se virem.


("Balboa Avista o Pacífico", por  Tancredi Scarpelli)


A expedição de Vasco Nuñez de Balboa, atravessando horizontalmente a América do Sul, foi a primeira a avistar o Oceano Pacífico (eles tinham desembarcado, é claro, na margem do Atlântico).  Quando os índios locais garantiram que daquele morro ali adiante se avistava o mar, Balboa mandou que suas tropas se detivessem e escalou o morro sozinho – para ter a glória de ter sido o primeiro a avistar o outro oceano.
 
Comentei aqui este tipo de Líder:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/12/2742-epifania-do-lider-17122011.html
 
É o Líder que trabalha em função da sua própria imagem, como o cantor popular que diz aos músicos: “Quem tem que aparecer aqui sou eu!”.


(Ulisses e as sereias, por Robert Wallace)

 
Muito parecido com a lenda clássica de Ulisses e as sereias. O canto das sereias tinha a fama de ser belíssimo – mas enlouquecedor. Era como uma droga alucinógena: os marujos ficavam encantados com tanta beleza e perdiam o controle dos remos, do leme, das velas, e os navios se despedaçavam nos rochedos.
 
O que fez Ulisses? Chegando perto do local, mandou que seus remadores tapassem os ouvidos com cera e o amarrassem ao mastro. Para que todos continuassem surdos, obedientes, robotizados, tocando o barco para a frente. E ele, somente ele, pudesse receber a carga psicodélica da música das sereias.
 
É aquele líder que conhecemos tão bem, o líder muitas vezes bonachão, paternal, que trata os súditos ou os eleitores como crianças, crianças que não precisam saber de tudo, não precisam ser informadas sobre tudo, para que possam apenas trabalhar, cumprir seu papel e serem felizes. Gente simples, que não precisa "compartilhar as sofridas responsabilidades do Poder".
 
Exemplos não faltam, na história humana.


E um outro tipo pode ser comparado a estes todos. Michael Dirda, em seu leve e informativo Classics for Pleasure (Orlando: Harcourt, 2007), dedica um capítulo à obra de Plutarco, o grande historiador e biógrafo de vultos gregos e romanos.
 
A certa altura, ele cita a referência de Plutarco ao rei espartano Sous, que estava em combate contra os Clitorianos (sic):
 
E há também a história do rei Sous, que, cercado pelos clitorianos numa área seca e pedregosa, sem acesso a água, foi forçado a negociar com eles um acordo: devolveria a eles todas as terras que havia conquistado, sob a condição de que ele e seus homens pudessem matar a sede na fonte mais próxima. Depois dos juramentos e ratificações de praxe, ele reuniu seu soldados, e declarou que se algum deles abrisse mão da água receberia seu reino como recompensa; e quando nenhum deles foi capaz de aceitar, e depois que todos eles foram de um em um matar a sede, Sous caminhou por último até a fonte, lavou o rosto sem engolir uma só gota, diante da tropa inimiga, e recusou-se a entregar-lhes as terras conquistadas, uma vez que, de acordo com os termos do acordo, “ele e seus homens” não haviam matado a sede. (trad. BT)
 
Existem líderes e líderes.
 
 


 







domingo, 30 de novembro de 2014

3672) O enigma da Esfinge (30.11.2014)



Todo mundo conhece o enigma que a Esfinge da mitologia grega propunha aos viajantes: “Qual o animal que de manhã caminha com quatro patas, ao meio-dia com duas, e com três quando anoitece?”.  Somente Édipo resolveu a charada, dizendo: “É o homem, que engatinha quando criança, ou seja, no amanhecer da vida, depois anda com duas pernas quando adulto, e quando velho se apóia num bastão”. 

Os comentaristas dos textos clássicos observaram vários aspectos sutis dessa lenda.  Não sei se observaram que a aparência física da Esfinge (busto de mulher, asas de águia, corpo de leão, cauda de serpente) induzia os desafiantes a imaginar um “animal” igualmente extraordinário e híbrido, quando na verdade a resposta era bem simples – o animal era ele próprio, o Homem.  Isto pode servir de metáfora à literatura fantástica, que nos propõe enigmas bizarros que, bem examinados, têm sempre como resposta o Homem, o ser humano que escreve, publica e lê essas histórias.  Somos nós, humilde e gloriosamente, o princípio e o fim de toda literatura.

Um segundo aspecto é que o enigma é apresentado no contexto da história de Édipo, que é inteligente o bastante para decifrar a charada da Esfinge mas não a sua própria história.  Édipo (que, sem o saber, matou o pai e casou com a própria mãe) se vê diante de um problema (o misterioso indivíduo cujos pecados causaram a peste que assola Tebas) e quando finalmente resolve encará-lo descobre que a resposta é ele mesmo.  O homem é ele, ele é o homem que provocou aquilo tudo.

Eu arriscaria uma terceira interpretação, desta vez de caráter ciência-ficcional. O animal de quatro patas exprime, na manhã da História, a origem animal do ser humano, o fato de que, como os outros bichos, ele começou se arrastando de quatro sobre a Terra. Evoluiu, ganhou postura ereta, destacou-se entre os primatas. Tornou-se o que é.  E agora estamos entrando no terceiro estágio, o estágio da “terceira perna”, quando pela primeira vez surge, em nossa evolução biológica, a presença de próteses, de complementos artificiais, de partes mecânicas. O homem torna-se ciborgue, torna-se um híbrido entre o biológico e o mecânico (ou o eletrônico).  Édipo, o Édipo de Sófocles, poderia dizer: “Em seu terceiro estágio, o homem terá o apoio de tecnologias artificiais extra-corpo, com as quais nunca tinha contado, mas esse elemento estranho à sua natureza biológica virá para ficar. Sem ele, o homem não conseguirá mais caminhar sozinho; sem ele, será incapaz de viver, e apesar de num primeiro momento julgar-se superior ao que fora ao meio-dia, a presença dessa muleta comprova apenas que ele está vivendo seu estágio final”.




terça-feira, 12 de abril de 2011

2528) O Morto Agradecido (12.4.2011)




Era uma vez um rapaz que, numa época de guerra e de fome, foi embora de casa para procurar trabalho. Passou por perigos e aventuras. Um dia, quando se aproximava de um povoado, viu um corpo caído na beira da estrada. Era um homem, vítima dos assaltantes, que parecia ter morrido há várias horas e continuava ali. Como pertinho havia uma fonte, o rapaz parou para beber água e descansar. Demorou mais de uma hora, e durante aquele tempo passaram dezenas de pessoas que paravam, iam olhar o cadáver, e seguiam caminho. 

O rapaz começou a propor a algumas delas que enterrassem o morto, mas todas diziam: “Pra quê? Já está morto mesmo...” Quando se decidiu a seguir caminho, o rapaz pegou um pedaço de madeira, cavou um buraco, colocou o morto lá dentro e cobriu com terra, fazendo depois uma cruz rústica com dois galhos de árvore.

Algum tempo depois, o rapaz se envolveu em um conflito, foi preso e ficou a ponto de ser enforcado. Quando parecia estar sem saída, apareceu um homem que magicamente conseguiu tirá-lo daquele aperto e levá-lo embora. Quando o rapaz agradeceu a intervenção, e perguntou ao salvador quem era ele, o homem disse: “Sou aquele que ninguém quis ajudar depois de morto, e só você se importou”. E desaparece.

A figura do Morto Agradecido está presente em muitos folclores; gerou, entre outros efeitos colaterais, o nome da banda californiana Grateful Dead. (Ao que consta, Jerry Garcia escolheu o nome aleatoriamente, como era hábito na Contracultura, abrindo um livro ao acaso.) 

Stith Thompson (The Folktale, 1977) observa que no Livro de Tobias, no Velho Testamento, este tema reaparece, sendo que o Morto Agradecido é substituído por um anjo. A história tem uma variante em que o Morto pede, em troca de sua ajuda, metade de tudo que o rapaz ganhar; quando ele se casa, o Morto sugere que a noiva seja serrada em duas (o que não chega a ser feito). Outras variantes (um duelo para ganhar a noiva, etc.) foram se juntando com o correr dos séculos.

Deixando de lado as variantes colaterais, o núcleo da história (o morto, o sepultamento, a aparição misteriosa) se mantém intacto em centenas de histórias na Ásia, na Europa e na América. 

Por um lado, a ação do rapaz serve como um termômetro de humanidade. O mundo pode estar devastado pela peste ou pela guerra, mas enquanto houver alguém capaz de sepultar os mortos existe a esperança de um retorno à normalidade, à convivência humana. 

Por outro lado, sepultar um morto que está abandonado por todos é praticar uma boa ação sem esperança de retorno ou pagamento. Quando ajudamos um vivo, há sempre a expectativa, mesmo inconsciente, de que um dia aquele indivíduo irá se lembrar de nossa ajuda e retribuí-la. 

Ajudar um morto, contudo, é uma ajuda “a fundo perdido”, pois o sujeito sequer sabe que está sendo ajudado. O aparecimento sobrenatural do Morto Agradecido é uma compensação simbólica por esse gesto de altruísmo.





terça-feira, 25 de maio de 2010

2072) Os ideogramas mitológicos (29.10.2009)



A história das religiões e das mitologias pode ser vista como um alfabeto de símbolos, os quais em si mesmos já são complexos, e quando se articulam uns aos outros geram possibilidades infinitas de interpretação. Um símbolo mitológico não é algo simples e uno como uma letra do nosso alfabeto, que só significa a si mesma. Seria mais parecido com um ideograma japonês, que é um desenho composto de desenhos menores, cada qual significando uma coisa diferente, e o sentido geral do ideograma é maior que a soma dos sentidos isolados de cada um. O exemplo clássico, muito citado nos manuais, é o do ideograma que significa “vermelho”, o qual é composto de quatro ideogramas menores que indicam “rosa”, “cereja”, “ferrugem” e “flamingo”. Vendo estes quatro ideogramas justapostos, todos eles sugerindo imagens que incluem a cor vermelha, podemos deduzir o significado geral do conjunto.

Indagado sobre o título de seu romance O Nome da Rosa, visto que nenhuma rosa é mencionada com destaque no livro inteiro, Umberto Eco ponderou que a Rosa é um símbolo universal, que pode significar a vida, o renascimento, a mulher, a paixão, a efemeridade, a beleza... É uma imagem com muitas facetas, e cada uma delas poderia ser associada ou contrastada àquela narrativa de crimes, mosteiros, livros clássicos, ascetismo, luxúria, transcendência espiritual e morte. Esta é a função de um símbolo: poder ser lido de formas diferentes, quando justaposto a coisas diferentes ou enxertado em contextos diferentes. Alguém dirá: “Ora, então qualquer coisa pode ser símbolo”, e eu concordo. Um ferro-de-engomar pode ser um símbolo, uma jaca pode ser um símbolo, um acento circunflexo, um cadarço de tênis, uma rolha de garrafa, uma verruga, um cágado. O que acontece é que, por motivos variados, alguns símbolos produzem leituras mais ricas e mais complexas do que outros.

O mesmo se dá com formas geométricas, que se prestam a mil associações. Um triângulo pode ser Deus: por ser uma figura de três lados ou três angulos, representa a Santíssima Trindade. Também pode ser uma imagem erótica – um triângulo com a ponta para baixo representa (pelo menos pra mim) o púbis feminino. Pode ser um símbolo do plano, da superfície, por ser a menor figura possível com apenas duas dimensões. Pode ser um símbolo do Infinito, se o virmos como uma verticalização do ponto-de-fuga de um desenho em perspectiva: a base é onde estamos, a ponta é o horizonte remoto para onde parecem convergir as paralelas. E assim por diante.

O que a linguagem poética, iconográfica, etc. tem feito é promover combinações diferentes desses materiais. Osman Lins utilizou A Espiral e O Quadrado como base para seu livro Avalovara. Que obras (de qualquer tipo) resultariam, por exemplo, da junção entre As Asas e O Quadrado? Ou entre O Labirinto e A Nuvem? Ou entre O Relógio, A Esfera e O Crocodilo? As possibilidades, como sempre, são infinitas.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

2004) Orfeu em Solaris (11.8.2009)



(Orfeu)

No filme Solaris, de Andrei Tarkovsky, a jornada de Kris Kelvin é de certa forma uma jornada de Orfeu às avessas. Orfeu é o herói grego que penetrou no reino dos infernos para resgatar sua amada Eurídice e trazê-la de volta à vida. O deus dos infernos, Hades, atende seu pedido e diz que ele pode retornar à Terra, mas adverte que se durante o trajeto ele olhar para trás perderá Eurídice para sempre. Ora, em qualquer relato mitológico as proibições são feitas para serem desobedecidas. Orfeu, a certa altura da caminhada, começa a imaginar que Hades está trapaceando, e que ele na verdade está voltando sozinho para casa. Olha por cima do ombro... e vê Eurídice, que o seguia, desaparecer para sempre. (Não, leitor, não corra a consultar os gregos. Estou contando a versão que circula hoje. No original, vai ver que é diferente.)

Em Solaris (tanto no filme quanto no romance de Stanislaw Lem) o protagonista viaja para o planeta em busca de conhecimento. Na época (imprecisa) em que transcorre a história, já faz cerca de um século que a Humanidade descobriu o planeta Solaris, coberto por um oceano que já deu demonstrações de ser uma criatura pensante. (Imaginem um cérebro maior que os oceanos Atlântico e Pacífico somados.) Mas o contato tem sido impossível, porque o Oceano não dá mostras de perceber a presença dos humanos explorando sua superfície.

Kris Kelvin tem um nome que evoca tanto a religião (Cristo) quanto a ciência (Lord Kelvin, o físico britânico). Ele vai para o planeta em busca do conhecimento; quer decifrar o enigma de Solaris. Chegando lá, encontra na estação planetária uma réplica perfeita de sua falecida esposa, Harey, que se suicidou aos 19 anos. Fascinado mas cético, Kris a examina e descobre que ela não é um ser humano, e sim uma formação de neutrinos destinada a reproduzir (para os cinco sentidos) a pessoa que ele guardava na memória. A mulher parece ter amnésia: não sabe que morreu, não sabe como foi parar ali, sabe apenas que o ama e que quer ficar ao lado dele.

Kris é um Orfeu que foi parar no inferno, o Inferno dos Cientistas, que não é o dos tormentos físicos, mas o da incapacidade de compreender algo; e ali reencontra sua amada. Ele sabe que não é ela. Mas a réplica é tão perfeita que ele volta a se apaixonar. Os cientistas da Estação já chegaram à conclusão de que o Oceano é capaz de perscrutar seus inconscientes e materializar algo que esteja lá dentro, algo que pareça ser mais importante do que todo o resto. Eles se propõem a construir um desestabilizador de neutrinos, o que teria o poder de dissolver “Harey” em partículas subatômicas. E Kris acaba perdendo novamente sua amada, porque duvida, porque olha para trás. Ele sabe que ela não é de verdade, e permite que seja destruída. Prefere o conhecimento, mesmo precário, à ilusão do amor. Prefere destruir a cópia pirata, mesmo sabendo que o original foi perdido para sempre.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

1916) Eldorado e Juventa (30.4.2009)



Eram dois os mitos principais que atraíam conquistadores portugueses e espanhóis para as florestas, para os platôs, os cerrados, as cordilheiras e os sertões da América recém-descoberta. O primeiro era o Eldorado, a cidade fabulosa cujas ruas eram calçadas com pedras de ouro. O segundo era a Fonte de Juventa, onde brotava uma água que dava vida e juventude eternas a quem a bebesse. As ramificações literárias dessas duas idéias encheriam uma biblioteca estadual. Claro que nenhuma das duas nasceu com a América, e nas mitologias grega, nórdica, etc. encontramos suas versões beta. Mas ressurgiram como mitos tropicais da era do descobrimento. E se fincaram em nossa memória cultural.

Estão na literatura por toda parte. O País da Cocanha de Voltaire, em Cândido e o País de São Saruê de Manoel Camilo dos Santos, em seu cordel clássico, são versões diferentes do mito da riqueza a-dar-com-o-pé, dos torrões de ouro espalhados pelo chão, da fortuna banalizada porque inesgotável – mas que voltaria a ser fortuna se trazida para uma Europa depauperada pelos marajás da monarquia. “O Imortal” de Jorge Luís Borges fala de um rio cujas águas dão a imortalidade a quem as beba, e restituem a morte a quem conseguir reencontrá-las e beber de novo. É o mesmo prodígio proposto pelo suco do pajé em “O Imortal” de Machado de Assis, que foi visto pela crítica como uma sátira à homeopatia (“similia similibus curantur”, ou seja, um pouco mais daquilo mesmo produz o efeito contrário ao efeito inicial), e depois por Coelho Neto em Imortalidade (1925).

Uma cidade com ruas calçadas e ouro. Uma fonte cujas águas dão a juventude eterna. Eram mitos independentes, mas complementares. Porque - de que vale um sem o outro? De que valeria a riqueza inesgotável para um conquistador cinquentão, consumido pelas batalhas, enfraquecido pelo escorbuto e pelas doenças venéreas? A riqueza não traz a saúde nem mesmo hoje, como todo o nosso aparto high-tech, quando mais no século 16. Por outro lado, de que valeria a juventude eterna aliada à pobreza, à raiz plebéia que impedia a ascensão social num mundo de aristocratas? Ser miserável para sempre não é um bom prospecto, e mesmo que indivíduos mais aguerridos pudessem usar essa prazo-de-validade-indeterminado para tornarem-se ricos, a maioria preferiria desfrutar dos seus ilimitados vinte-anos erodindo uma ilimitada fortuna.

C. G. Jung afirmou que quando os alquimistas medievais buscavam a Pedra Filosofal, capaz de transformar os metais inferiores em ouro, na verdade estavam usando uma linguagem metafórica. Os anos e anos de trabalho obscuro, paciente, longe dos olhos do mundo, vencendo a preguiça, o desânimo e as tentações, não produziam um bloco de ouro, e sim uma alma humana incapaz de deixar-se corroer ou corromper pelo tempo e pela vida. O Eldorado, a Fonte de Juventa e a Pedra Filosofal são metáforas narrativas de uma intuição abstrata: eternidade é riqueza, e vice-versa.

terça-feira, 6 de abril de 2010

1875) Ronaldo Lero (13.3.2009)



Uma das melhores coisas do futebol é o fato de ser ele um pequeno laboratório de experiências mitológicas cujo arco de começo-meio-fim se dá em poucas décadas ou mesmo poucos anos, ao contrário das mitologias da História, as quais geralmente precisam de longos prazos de consolidação. Um jogador bem sucedido tem em média vinte anos de atividade, digamos dos 15 aos 35 anos. Nesse período, criam-se os grandes mitos do esporte, as grandes lendas, os grandes episódios, os momentos únicos (conquanto banais) que nos dão o orgulho de um dia dizer aos netos: “Meninos, eu vi!”

Domingo passado eu estava em São Paulo na tarde do jogo Corinthians x Palmeiras que marcou a estreia de Ronaldo Fenômeno diante da torcida corintiana, mesmo que num desses jogos canhestramente desviados para uma cidade interiorana qualquer – no caso, Presidente Prudente. O Palmeiras ganhava de 1x0. Ronaldo entrou, com aquela barriguinha de peladeiro de fim de semana, mas fez umas duas jogadas de arregalar os olhos, e aos 47 do segundo tempo enfiou um gol de cabeça.

Eu estava ao computador, trabalhando, nem me lembrava desse jogo; mas o clamor que se ergueu na capital paulistana me fez correr à janela com a impressão de que de repente estávamos numa Copa do Mundo e tinha sido gol da Seleção Brasileira. Pistolas-de-7-tiros pipocavam, havia um alarido unânime nos quatro pontos cardeais, e na sacada de um prédio vizinho surgiu um cidadão mais gordo do que o ídolo, esgoelando-se: “Ronaaaaaaldoooo!” E só então eu percebi o que tinha acontecido e liguei a TV, ainda a tempo de vê-lo, sacudindo o alambrado, todos os dentes de fora, eufórico como um menino que faz seu primeiro gol.

Claro que desde então não há outro assunto no futebol brasileiro. Os momentos históricos que Ronaldo já nos presenteou dariam um livro de crônicas e dois álbuns de fotos. Lembro-me de ter visto ao vivo, numa tarde de meio de semana, o momento em que seu joelho estourou num jogo da Inter, durante uma arrancada rumo ao gol, projetando-se para fora como se fosse uma miniatura de Alien, o Oitavo Passageiro. Vi os gols fenomenais, vi o misterioso amarelão da Copa de 98, vi a ressurreição brilhante na Copa de 2002... E agora vi o gol pelo Corinthians, que talvez fique por isso mesmo, mas bastaram esse gol e essa tarde para nos dar de novo aquela vertigem do “impossível acontece” que somente os grandes craques nos proporcionam.

Jornais italianos ironizaram: “A enésima ressurreição de Ronaldo”. Podem rir, “compagni”! Vossas redes não perdem por esperar. Só quem ressuscita “n” vezes são os mitos da estirpe do Rei Artur, de Lampião, de Ulisses. Dados dez vezes por mortos, erguem-se flamejantes e invulneráveis do lugar de onde menos se espera. Ronaldo está gordo, rico, vive na balada, bebe, fuma, falta ao treino. Mas o Mito nele não se esgotou, e a História ainda há de se curvar, outras e outras vezes, à sua presença, e seguirá na direção em que ele for.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

1725) Machado: “O Anel de Polícrates” (21.9.2008)





(Machado, por Sergio Leo)

Este conto de Machado (em Papéis Avulsos, 1882) inspira-se na lenda de Polícrates, tirano da ilha grega de Samos. Cumulado de favores pela sorte, Polícrates temeu que o Destino lhe reservasse algum castigo. Um assessor o aconselhou a fazer um sacrifício, desfazendo-se de um bem precioso. Ele atirou ao mar um anel que prezava muito; no dia seguinte, o cozinheiro do palácio abriu o ventre de um peixe, encontrou o anel, e o devolveu ao rei. 

É a versão benigna da tragédia grega. Não se pode fugir ao destino, e mesmo a sorte, quando insistente, parece uma maldição.

Isak Dinesen retoma a lenda (em “O Peixe”, no livro Contos de Inverno) para romancear a história do rei Erik da Dinamarca, que acha no ventre de um peixe um anel de pedra azul. Alguém reconhece nele o anel de uma dama da corte, Ingeborg, cujos olhos eram da mesma cor. O rei diz: 

– Quando as mulheres formosas usam jóias, procuram harmonizá-las com alguma parte do seu rosto ou do seu corpo. Pérolas exprimem a beleza do seu colo ou dos seus seios; rubis e granadas evocam seus lábios, suas unhas, seus mamilos. Você me diz, então, que esta pedra é igual aos olhos dessa dama?... 

A crônica se encerra dizendo: “Srig Andersen matou o rei Erik por vingança, depois que este seduziu sua esposa, Ingeborg”.

Freud comenta Polícrates no ensaio O Estranho (Das Unheimlich), observando que uma sorte excessiva, ou a sistemática realização de todos os desejos, não são algo para se desejar. Diz que o rei do Egito afastou-se de Polícrates horrorizado, ao ver que todos os desejos do amigo eram imediatamente satisfeitos, afirmando que “também o homem feliz tem que temer a inveja dos deuses”. 

Freud vê nessa crença uma manifestação da crença na onipotência dos pensamentos, como se cada desejo intenso que experimentamos fosse imediatamente convertido em realidade.

Machado usa o anel para ilustrar com ironia sua teoria pessoal dos memes, para mim uma visão satírica da vida cultural do Rio, com todo mundo copiando, plagiando, imitando e apropriando-se de idéias alheias. Desenvolve o mesmo tema em “Evolução” (Relíquias de Casa Velha, 1906): o narrador diz uma frase a um conhecido, e no correr dos anos vê o outro repeti-la com pequenas variantes, assenhoreando-se dela pouco a pouco.  

O protagonista de “O Anel de Polícrates", Xavier, é um típico personagem machadiano: o Sonhador Pródigo, o indivíduo com talento mas sem foco, que vive espalhando idéias, iniciando projetos que não leva a cabo, concebendo planos mirabolantes que nunca dão em nada. Machado reverte a alegoria da sorte, contida na lenda grega, usando o anel (a frase) como símbolo do caiporismo de Xavier. Inventor da frase, ele a ouve nos lábios deste e daquele mas não consegue memorizá-la de novo, apossar-se dela. 

A frase é anel e ao mesmo tempo um peixe escorregadio ou ave arisca que sempre lhe foge: “Quando ele supunha pôr a mão em cima da idéia, ela batia as asas, plás, plás, plás, e perdia-se no ar, como as figuras de um sonho”.





domingo, 31 de janeiro de 2010

1593) O Cérbero (20.4.2008)




Conta a mitologia grega que à porta do Inferno havia um gigantesco cão de guarda, o famoso Cérbero, cão de três cabeças prontas a dilacerar qualquer incauto. “Mas pra quê?” pensava eu. “Quem diabo vai querer entrar no Inferno?” Na verdade, Cérbero estava ali para evitar que os condenados ao fogo eterno fugissem. Era um cão-de-guarda ao contrário dos que temos aqui – não guardava a entrada, guardava a saída. Mesmo assim, também cumpria a função oposta, porque somente as almas dos condenados poderiam entrar no reino de Hades. Pessoas vivas não – daí o grave incidente diplomático ocorrido quando Orfeu apareceu por lá querendo trazer de volta sua amada Eurídice. E quando Hércules chegou para levar o próprio Cérbero consigo, cumprindo o último dos seus Doze Trabalhos.

Acho que a lenda grega morre aí, mas pretendo enriquecê-la noutra direção. Por que motivo o cão se chama Cérbero? Respondo: porque ele representa o nosso Cérebro, a nossa mente pensante, a nossa consciência. Exatamente por isto ele é figurado com três cabeças (em diferentes versões da lenda, números muito maiores, que chegam até a cem). É o excesso de proteção, de controle, de censura. A função ditatorial do nosso Super-Ego ou que nome lhe queiram dar – a função controladora que nos impede de fazer bobagens mais sérias e de praticar crimes, mas ao mesmo tempo nos proíbe um comportamento mais relaxado, mais intuitivo, mais espontâneo. Toda vez que você vir aquele sujeito todo certinho, todo tenso, todo bem comportado e impecavelmente limpo, todo politicamente correto, aquele cara que na hora de pagar a conta vai até a última casa decimal e paga trinta e dois reais e sessenta e sete centavos – não duvide, amigo: é um prisioneiro de Cérbero, um prisioneiro de sua própria mente controladora.

E por qual estatuto mitológico ele é colocado justamente como guardião da saída do Inferno? A explicação mais lógica que me ocorre é que o Inferno protegido por esse cérebro não é um Inferno externo a nós, e sim interno a nós, um inferno aqui dentro. Como dizia o poeta Gilberto Gil: “Teu inferno é aqui”. O Inferno é o Inconsciente, é o lugar para onde arremessamos tudo que não presta, tudo que nos inquieta e perturba, tudo que é uma ameaça à ordem, à limpeza e à disciplina. O cérebro está ali justamente para evitar que esses pensamentos mal comportados se evadam do porão e venham perturbar o chá-das-cinco que nossa “persona” pública toma na sala de visitas, recebendo as autoridades.

Todas as vezes que tentamos acessar nosso Inconsciente (rastreando um ato falho, dissecando uma neurose, confrontando um trauma daquele bem brabos, ou meramente analisando um sonho), o Cérebro de não-sei-quantas-cabeças aparece rosnando seu recado pitbull: “Pra trás!” rosna ele. “Aqui, não! Aqui só tem o que não presta!” E recuamos, temerosos. Talvez menos com medo das 100 cabeças do Cão do que com medo do nosso verdadeiro Rosto, que estamos a ponto de enxergar.




quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

1409) As estrebarias de Augias (19.9.2007)





(André Breton)

Num dos Manifestos do Surrealismo, André Breton aconselhava aos poetas que escrevessem, escrevessem muito, escrevessem qualquer coisa, qualquer besteira, não importa o quê; escrevessem tudo que lhes viesse à cabeça, sem prejulgar, sem analisar, sem escolher. Para quê? “Para limpar as estrebarias de Augias”, dizia ele.

Breton achava que nossa mente está bloqueada pelo excesso de educação, de disciplina, de leitura de textos alheios. Quando começamos a escrever (a criar, no sentido mais amplo) estamos apenas repetindo o que já vimos, reciclando clichês, copiando lugares-comuns. É preciso jogar todo este lixo fora, escrever abundantemente, copiosamente, irresponsavelmente, para que um dia, quem sabe, a nossa própria voz comece a se fazer ouvir.

A metáfora usada por Breton diz respeito a um dos Doze Trabalhos de Hércules. O herói foi encarregado de limpar as estrebarias do Rei Augias, que tinha o maior rebanho de gado da Grécia, e cujos estábulos jamais tinham sido limpos. Havia ali décadas e décadas de cocô de gado acumulado, cristalizado, transformado numa crosta com metros de espessura, mais dura do que basalto vulcânico. E Hércules tinha que limpar aquilo tudo em apenas um dia.

Conta-se que este trabalho foi executado mas cancelado pelo Rei Euristeu (o tal rei que obrigou Hércules aos doze trabalhos). Por que? Porque ao que parece os trabalhos visavam testar a força e a coragem do herói, e neste Hércules usou a inteligência.

Quando ele chegou lá nos estábulos e viu o tamanho do problema, teve uma idéia brilhante. Em vez de pegar uma marreta e sair quebrando, ele andou alguns quilômetros e construiu com pedras uma represa, desviando o curso de dois rios próximos. Somados, os rios produziram uma enxurrada irresistível que passou por dentro dos estábulos, corroendo, minando, desagregando, esfarelando, desconjuntando toda aquela placa tectônica de cocô-de-rocha. Depois de um dia inteiro de enxurrada, os estábulos estavam mais limpos do que os salões do palácio de Euristeu.

Breton era um freudiano de primeira hora e sabia do que estava falando. As estrebarias são um símbolo de todo o dejeto mental que se acumula no nosso inconsciente, seja através das leituras, seja através dos nossos complexos, traumas e outros processos. A cabeça está suja por dentro. Há um acúmulo gigantesco de problemas não-resolvidos, de excreções que não foram jogadas fora e estão bloqueando o fluxo das emoções e das idéias. É preciso desviar para ali um fluxo irresistível de energia mental criadora – que para Breton era a “escrita automática” – para diluir, esfarelar e expulsar todos aqueles resíduos cristalizados.

O que faltou a Breton dizer, talvez, foi:

“Escreva – mas não publique. Isso aí é seu dever-de-casa terapêutico. Ainda não é literatura. Literatura é só depois que a água estiver correndo limpa, e sua voz pessoal puder se fazer ouvir. Não publique agora. Tem tempo.”






sexta-feira, 13 de novembro de 2009

1361) Os tesouros não merecidos (25.7.2007)




Nos contos fantásticos que envolvem algum tipo de comércio com o sobrenatural (lâmpada mágica, três pedidos, etc.) existe uma lei não-escrita segundo a qual tudo que se pede com facilidade acaba custando um preço inesperado. 

Em “O demônio da garrafa” de Robert Louis Stevenson, o sujeito pede à garrafa mágica uma mansão; logo vem a saber da morte de um tio, que lhe deixa de herança exatamente o dinheiro necessário para construí-la. 

Em “A pata do macaco” de W. W. Jacobs, o velho casal pede à relíquia miraculosa as 200 libras que faltam para pagar a hipoteca da casa; recebem-na como indenização trabalhista pelo acidente fatal que seu filho único sofre no dia seguinte. 

Existe uma lógica cruel no atendimento a esses pedidos ingênuos de pessoas que acreditam que a riqueza é grátis. Ora, como dizia um célebre economista norte-americano, “almoço de graça não existe”. Tudo cobra um preço, mais cedo ou mais tarde.

Outro lugar comum romanesco é a herança inesperada. Foi tão usado que virou anátema – o sujeito que usar isso hoje cai em descrédito, e nem estou me referindo à literatura, falo mesmo em novelas de TV. 

Fulana é uma viúva jovem, honesta, sofredora, que dá duro no batente para criar três filhos. Faltando dez capítulos para o fim da novela, ela recebe a notícia de que morreu uma tia-avó dela no Mato Grosso e lhe deixou de herança um milhão de reais. Surpresas desse tipo foram tão usadas para resolver problemas que perderam a credibilidade. 

Mais sábios são os criadores folclóricos, porque num conto-de-fadas não há nenhuma herança que não venha com uma maldição (“o tesouro é seu, mas você não pode se casar”) ou com uma condição misteriosa e geradora de problemas futuros (“o castelo tem 99 quartos, mas há um que você não pode abrir”).

A sabedoria popular desconfia dos tesouros não merecidos, quer dizer, daqueles que são conquistados magicamente, que caem do céu em nosso colo, que chegam às nossas mãos sem nenhum dispêndio de sangue, suor e lágrimas. Nos contos populares coexistem realidade e fantasia, por isso há tesouros que o sujeito acha simplesmente dando uma topada numa pedra (a fantasia, o desejo infantil da riqueza fácil) mas no pacote vem sempre uma ameaça ou uma punição.

Maldo eu que seja isto também uma reação freudiana (êpa!) das populações camponesas medievais, em cujo seio essas lendas brotaram, a instituições que eles viam com estranhamento, como a da herança. 

Naquele tempo feudal, em que os servos nada tinham de seu, devia ser para eles algo fantástico o modo como a morte de um nobre transferia magicamente para um parente distante seus títulos, seus brasões, seus castelos, seus vinhedos, seus servos. Uma casa nobre em ruínas e farrapos ressurgia para a riqueza devido à morte de um parente distante. Uma fortuna às vezes imerecida, geradora de contos de advertência, sinais de perigo tentando restaurar o equilíbrio de um mundo abalado por esses caprichos divinos.








sábado, 12 de setembro de 2009

1260) A diluição dionisíaca (28.3.2007)




(Dionisos)

Os filósofos descreveram estes dois aspectos do ser humano. 

O lado apolíneo, que vem do deus Apolo, é o lado do equilíbrio, da harmonia, das proporções corretas, da beleza obtida através da razão, do auto-domínio. 

O lado dionisíaco vem de Dionisos, ou Baco, que é o deus da farra. É o nosso lado exagerado, sensual, contraditório, voltado para a satisfação dos sentidos, das emoções, das paixões primitivas e corporais. 

O lado apolíneo nos conduz para as regiões mais elevadas da arte, da ciência e da filosofia; o lado dionisíaco nos conduz ao sexo, às drogas e ao rock-and-roll. 

Todo mundo tem algo de ambos, todo mundo oscila entre o predomínio de um ou do outro. Em alguns tipos humanos um deles prevalece; os nossos clichês e preconceitos nacionais se cristalizam muitas vezes em torno desses aspectos. Aos nossos olhos, um sueco ou um alemão são invariavelmente apolíneos; um jamaicano ou um camaronês têm que ser dionisíacos.

O Brasil é um quebra-cabeças em forma de colcha-de-retalhos, mas quem nos vê de longe, da Europa, digamos, tende a nos achar dionisíacos. Para eles, somos um povo eternamente voltado para a festa, a comemoração ruidosa, o prazer, a sensualidade, o hedonismo. E de fato, basta olhar em volta para ver o quanto isto está presente em nossa vida. E o quanto é justamente este aspecto que irrita e impacienta muitos dos nossos intelectuais, que vêem o povo pulando carnaval ou dançando axé-music na praça e dizem: “Por isso que o Brasil não vai pra frente!”

Esta é uma questão interessante, porque o dionismo (valha a palavra nova) não é bom nem mau, em si, é apenas uma possibilidade do ser, tanto quanto o seu reverso, o apolismo. 

Se me perguntassem a proporção ideal entre os dois eu diria que precisamos ser 51% apolíneos e 49% dionisíacos. Por que? Porque para mim existe um princípio fundamental na natureza, inclusive a natureza da alma humana, que é o equilíbrio. Sem equilíbrio, a coisa desanda; e o equilíbrio, virtude suprema, é uma característica apolínea.

Para esta questão, vale a lei do mel e da farinha: quando temos muito de um, precisamos equilibrar as coisas adicionando o outro. Quando vivemos num ambiente basicamente apolíneo, a tendência é irmos nos tornando cada vez mais sérios, cada vez mais formais, cada vez mais civilizadamente escandinavos. Aí é preciso que Dionisos entre pela janela para bagunçar as coisas, para instaurar por alguns momentos o Reino da Gréia e da Bagunça. 

Por outro lado, quando o mundo está bagunçado demais, festivo demais, permissivo e hedonista demais, e principalmente quando tem grupos econômicos fortíssimos impondo esta situação porque extraem dela enormes lucros, é preciso a gente chamar Apolo e a voz da razão. Nem a ditadura, nem o caos. Equilíbrio acima de tudo, para que Apolo e Dionisos possam conviver pacificamente. Festa é bom, mas o ano letivo tem que começar em algum momento.






sexta-feira, 14 de agosto de 2009

1198) As oferendas ao Minotauro (14.1.2007)



Quando o filme Cazuza estava em cartaz, li num jornal a carta de um leitor perplexo diante do culto que, segundo ele, nossa sociedade prestava à figura de um jovem pelo simples fato de ele ter sido homossexual, ter usado drogas e ter morrido de Aids. "Será que não temos exemplos melhores para exibir aos nossos filhos?", perguntava o aflito missivista. 

Eu entendo essas preocupações, mas discordo do diagnóstico final. Cazuza não é um cais do porto, é um farol; não é um exemplo, é um alerta. O que se celebra em torno de Cazuza é o mesmo que se celebra em torno de um piloto como Ayrton Senna ou de um alpinista como Vitor Negrete: o sacrifício voluntário de uma vida jovem no altar de uma religião inexplicável. 

Um dos mitos que cercam a figura do Minotauro de Creta diz que todos os anos a cidade de Atenas tinha que oferecer sete rapazes e sete moças para serem devorados pelo monstro. Este sacrifício parcial evitava que Atenas inteira fosse destruída por Creta, que era então militarmente superior. 

Algo parecido ocorre com os deuses-monstros que adoramos em nossa era tecnológica e industrial: a Guerra, a Droga, a Máquina, o Número

No centro de cada um deles existe um buraco-negro exercendo uma atração irresistível sobre quem se aproxima demais. Depois de ultrapassado um certo limite, não existe volta. E quem ousa aproximar-se desse limite são justamente alguns dos nossos jovens mais brilhantes, mais inquietos, mais corajosos, e, infelizmente, porque tais características muitas vezes insistem em vir juntas, mais imprudentes, mais autoconfiantes, mais egoistamente suicidas. 

Sacrificamos jovens no altar da Guerra porque ela nos traz a ampliação de territórios, a humilhação dos inimigos, a garantia de uma paz temporária. 

Sacrificamos jovens à Droga porque ela nos garante o êxtase dos paraísos artificiais, e para que um milhão possam conviver com a droga e desfrutá-la vale a pena perder sete rapazes e sete moças por ano. 

Sacrificamo-los também à Máquina, porque para criá-la e domesticá-la é preciso haver cobaias que extraiam dela o máximo, expondo seu poder e seus limites, ainda que explodindo mais cedo ou mais tarde. 

Sacrificamo-los ao Número: porque precisamos de façanhas que robusteçam nossa auto-estima como povo: somos nós o povo que foi mais longe, o que fez mais rápido, o que tem mais força, o que acerta mais vezes. 

Não sei o que responderiam os pais de Cazuza ou os de Senna se lhes fosse dado escolher que seus filhos vivessem vidas banais, felizes e pacatas até os 80 anos de idade. É uma dura escolha: é melhor ser um Mito, ou ser meramente feliz?. Todos os anos o Acaso sorteia os sete jovens com que pagaremos o tributo às forças que movem ou que inebriam nossa civilização. Por isto os admiramos: porque o destino de cada um nos mostra o umbral que não é possível cruzar vivo.





segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

0829) O Saci e o Halloween (12.11.2005)


(o Saci Pererê, de Ziraldo)

O mês de outubro espalha pelos muros do Rio as pichações: “Halloween é o cacete!”. São os nacionalistas inconformados com mais esta moda norte-americana que invade nossas escolas, nossos shopping centers, nossas TVs. De fato, o Halloween, ou Dia das Bruxas, é uma coisa típica da cultura de língua inglesa, e só recentemente está botando as unhinhas de fora, doido para penetrar no belo mercado que a classe média brasileira representa. Depois dele, meu Deus, vamos importar o que mais? O Dia de Ação de Graças? O 4 de Julho?

Parece que o deputado Aldo Rebelo, comunista histórico e defensor do idioma, deu entrada num projeto de lei instituindo o Dia do Saci. Eis aí uma contra-ofensiva folclórica que teria divertido Monteiro Lobato! Se bem que este não tinha preconceito algum contra os EUA, pelo contrário: achava que tínhamos mesmo era que imitar o pragmatismo e a seriedade dos americanos, e não hesitou em fazer de Tom Mix, o Gato Félix e Shirley Temple personagens das histórias do Sítio do Picapau Amarelo. Quem é mesmo contra os monstrinhos anglo-saxônicos é o presidente Hugo Chávez, que recentemente andou criticando a importação de hábitos norte-americanos na Venezuela, e o Halloween em particular, argumentando que isto faz parte da cultura americana: “uma cultura do terror, de instilar o medo nos outros países e em seu próprio povo”.

Devagar com o andor, Presidente Chávez. O culto ao medo, o culto aos monstros, aos seres sobrenaturais, não é uma invenção do Governo Bush. Está em todas as culturas, e está muitíssimo na nossa. Se quiséssemos produzir um Halloween tipicamente local, não precisaríamos fazer mais do que consultar a Geografia dos Mitos Brasileiros de Câmara Cascudo, obra tão fascinante e degustável quanto o Livro dos Seres Imaginários de Jorge Luís Borges.

O Halloween americano é uma festa onde se presta culto a esses seres. Nós, aqui no Brasil, não temos uma festa semelhante. Acreditamos em boitatá, mula-sem-cabeça, iara, boto, saci pererê, cramondongue e pé-de-garrafa, mas nunca organizamos essas crenças em torno de uma festa com data e rituais. E por um lado isto é bom, porque mantém essas crenças afastadas das manipulações de publicitários desocupados e comerciantes sem imaginação. Eu mesmo não gostaria de entrar num shopping no “Dia do Saci” e ver a imagem do Saci (ou de outro monstrinho merecedor de respeito) servindo de chamariz para vender tênis (“Compre um pé de Nike para seu saci, e leve o outro de graça!”), cachimbos, bonés ou sei lá o que. O Halloween é uma festa de celebração de rituais pagãos e de medos ancestrais, mas transformou-se numa evento comercial, movido pelo mais terrível medo do mundo capitalista: a Queda nas Vendas. O seu problema não é falar inglês, é falar em cifrões. O perigo que corremos não é perdermos a suposta pureza de nosso folclore, mas reafirmarmos nossa subserviência diante da máxima de que Tudo Pode Ser Vendido.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

0699) Deuses Americanos (15.6.2005)



Recomendo a quem gosta de literatura fantástica o romance de Neil Gaiman Deuses Americanos, lançado recentemente pela Conrad Editora. Gaiman é mais conhecido como roteirista da série de quadrinhos Sandman, mas de dez anos para cá tem publicados vários romances. Coraline, uma história de terror para crianças, é muito bom. Este American Gods também. A premissa do livro é que os antigos deuses e criaturas mitológicas européias se transportaram para a América do Norte durante a colonização, mas estão decadentes e sem poder. Eles andam pelas ruas, transformados em pessoas de carne e osso; têm uma enorme longevidade, mas podem morrer, tanto de morte-morrida quanto de morte-matada. E estão travando uma batalha feroz contra os Novos Deuses: os deuses da Mídia Ambiente, ou seja, da publicidade, do cinema, da TV, etc.

Gaiman é um escritor fluente e ótimo contador de histórias. Uma espécie de Stephen King sem a morbidez doentia que King muitas vezes tem, uma vontade de espremer até o fim o suco de terror e repulsa que uma cena pode fornecer. Gaiman oferece uma boa quantidade de imagens arrepiantes, mas concede apenas uma dúzia de linhas a elas, não mais, e segue em frente – o que me parece literariamente mais eficaz. O livro conta a história de Shadow, um sujeito que ao sair da prisão depois de uma pena leve por assalto vê sua vida familiar destruída e logo depois é contratado como guarda-costas de um sujeito que parece ter poderes sobrenaturais e está sendo perseguido por mafiosos igualmente estranhos.

A humanização dos deuses nórdicos, eslavos, africanos, etc. é um dos aspectos mais interessantes do livro, porque o autor consegue nos dar a idéia de que esses personagens têm poderes imensos e ao mesmo tempo são tão frágeis, complicados e indefesos quanto nós. Eles podem muita coisas que não podemos; mas não podem tudo. Eles também têm que “ir à luta”, têm que “batalhar pelo seu espaço”, etc. O mundo sobrenatural é tão competitivo quanto um escritório ou um mercado financeiro. Gaiman (que é inglês) tem um olho crítico muito arguto para certos aspectos da vida americana: os museus e atrações surrealistas de beira-de-estrada, a cidadezinha pacífica mas cheia de terrores sob a superfície ao estilo Twin Peaks, os golpes e falcatruas dos vigaristas profissionais. Tudo isto é misturado à narrativa sobrenatural com a mesma eficiência de um Tim Powers.

Cultura pop e mitologia milenar são duas galáxias em lenta colisão nos últimos cem anos da Literatura. São dois universos que à primeira vista não têm nada a ver um com o outro, mas que são gerados pelo mesmo impulso humano: o de fantasiar, criar um panteão imaginário de seres excepcionais, que nos servem de espelho, modelo, farol, alerta ou ameaça. O livro de Gaiman deveria interessar a quem gosta de ler sobre mitos. É o mesmo universo de Câmara Cascudo, Joseph Campbell, Mircea Eliade, J. G. Frazer, Umberto Eco (cultura medieval + cultura de massas).