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terça-feira, 27 de setembro de 2022

4867) "As Trevas" - de Lord Byron a Castro Alves (27.9.2022)


 

(Lord Byron e Castro Alves)

Já comentei aqui a possibilidade de uma Antologia da Poesia Fantástica Brasileira, não por ser ela rica e abundante, mas por ser como aquelas jazidas de algum material radioativo que se decompõe com facilidade, e é mister recolhê-lo, analisá-lo, antes que se transforme em chumbo inerte.
 
Quando eu era pequeno ainda não tinha aparecido ninguém para me explicar que poesia e prosa eram países vizinhos mas levemente hostis. E que para passar de um para o outro era preciso passaporte, visto, autorização, certificado de vacina e uma declaração detalhada do que pretendia o viajante fazer além-fronteiras. Eu não sabia. Adolescente, tinha na minha estante o Poesia e Prosa de Edgar Allan Poe, os Pequenos Poemas em Prosa de Charles Baudelaire, assim como as Poesias Completas de Machado de Assis – então estava tudo em casa.
 
É curioso que algumas das minhas primeiras experiências de “poesia fantástica” (Augusto dos Anjos à parte) tenham se dado através de poemas estrangeiros traduzidos por alguns dos nossos grandes poetas. Preciso lembrar, também, que estou usando o termo “fantástico” no sentido mais amplo possível, e não no sentido de estudiosos como Todorov, Louis Vax, John Clute, e outros. O acadêmico procura passar na literatura o pente mais fino possível, para deixar de fora tudo que não tenha o puro DNA de um gênero; esta é a função do acadêmico. O poeta recolhe todo o cascalho que lhe cai nas mãos e extrai o resíduo mais tênue do que procura; esta é a função do poeta.
 
É bom lembrar a influência avassaladora do chamado Romantismo do século 19, que tomou conta do Brasil com variadas colorações. Nossos poetas liam Victor Hugo, Chateaubriand, Alfred de Musset, Baudelaire... Rótulos à parte (não vou começar a catação-de-lêndeas do “Mas isso é Romantismo... ou Simbolismo?”), cada um lia o que lhe caía nas mãos, assimilava o que entendia, reproduzia o de que era capaz. E la nave va.
 
Castro Alves (1847-1871) era um romântico “condoreiro”. Não é exagero dizer que sua maior influência foi Victor Hugo (hélas!), principalmente no arroubo imagético e na impulsividade política. No tempo dele, todo mundo que escrevia era capaz de ler algo em francês, de modo que ainda hoje acho excepcional que ele tenha traduzido um poema tão longo – do inglês. Mas Byron é Byron. O Lorde (1788-1824) foi o Bob Dylan do seu tempo.
 
“Darkness” é um poema apocalíptico, um poema de fim do mundo e de extinção da Humanidade. Li a tradução do baiano com 10 ou 11 anos. Meu pai tinha o volume das Poesias Completas – um volume não tão grande assim, afinal Castro Alves morreu com 24 anos. É a imagem de um mundo onde inexplicavelmente o sol não brilha mais, os incêndios devastam cidades e florestas, e a espécie humana regride à bestialidade.
 
Sei que não estou exagerando quando vejo ecos dessa visão apocalíptica em obras subsequentes, como os contos “Demônios” (1893) de Aluísio Azevedo e “A Escuridão” (1963) de André Carneiro, que incluí na minha antologia Páginas de Sombra (2003).  E um pouco também no meu poema-ilustrado Na Torre da Lua Cheia, em parceria com o desenhista Cavani Rosas (Recife: CEPE, 2022).
 
A tradução de Castro Alves é dedicada ao dr. Franco Meirelles, médico baiano, professor de inglês e também tradutor de Byron. O poeta manteve o formato essencial do original inglês, decassílabos sucessivos em versos brancos (=sem rima). Não há partição em estrofes regulares, é um “bife” inteiro do começo ao fim. Nas transcrições modernas, alguns editores quebram esse formato, muito pesado.
 
O verso usado por Byron é a cadência muito frequente em inglês chamada “pentâmetro iâmbico”: di-DUM, di-DUM, di-DUM, di-DUM, di-DUM. O decassílabo do baiano é mais solto ritmicamente, variando de cadência conforme as necessidades de acomodação do vocabulário. Aos ouvidos nordestinos, não passarão despercebidos, de vez em quando, os sons do martelo agalopado, como esse verso arrepiante que anuncia a visão: “Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...”
 
 
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AS TREVAS
(Traduzido de Lord Byron)
A meu amigo, o dr. Franco Meireles, inspirado
tradutor das Melodias Hebraicas

Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...
O sol brilhante se apagara: e os astros,
do eterno espaço na penumbra escura,
sem raios, e sem trilhos, vagueavam.
A terra fria balouçava cega
e tétrica no espaço ermo de lua.
A manhã ia, vinha... e regressava...
Mas não trazia o dia! Os homens pasmos
esqueciam no horror dessas ruínas
suas paixões. E as almas conglobadas
gelavam-se num grito de egoísmo
que demandava "luz". Junto às fogueiras
abrigavam-se... e os tronos e os palácios,
os palácios dos reis, o albergue e a choça
ardiam por fanais. Tinham nas chamas
as cidades morrido. Em torno às brasas
dos seus lares os homens se grupavam,
pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas
dos vulcões sob a tocha alcantilada!
Hórrida esp'rança acalentava o mundo!
As florestas ardiam!... de hora em hora
caindo se apagavam; crepitando,
lascado o trono desabava em cinzas.
e tudo... tudo as trevas envolviam.
As frontes ao clarão da luz doente
tinham do inferno o aspecto... Quando às vezes
as faíscas das chamas borrifavam-nas.
Uns, de bruços no chão, tapando os olhos
choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros —
firmando a barba, desvairados riam.
Outros correndo à toa procuravam
o ardente pasto pra funéreas piras.
Inquietos, no esgar do desvario,
os olhos levantavam pra o céu torvo,
vasto sudário do universo — espectro —,
e após em terra se atirando em raivas,
rangendo os dentes, blasfemos, uivavam!
Lúgubre grito os pássaros selvagens
soltavam, revoando espavoridos
num vôo tonto co’as inúteis asas!
As feras ’stavam mansas e medrosas!
As víboras rojando s’enroscavam
pelos membros dos homens, sibilantes,
mas sem veneno... a fome lhes matavam!
E a guerra, que um momento s’extinguira,
de novo se fartava. Só com sangue
comprava-se o alimento, e após à parte
cada um se sentava taciturno,
pra fartar-se nas trevas infinitas!
Já não havia amor!... O mundo inteiro
era um só pensamento, e o pensamento
era a morte sem glória e sem detença!
O estertor da fome apascentava-se
nas entranhas... Ossada ou carne pútrida
ressupino, insepulto era o cadáver.
Mordiam-se entre si os moribundos:
mesmo os cães se atiravam sobre os donos,
todo exceto um só... que defendia
o cadáver do seu, contra os ataques
dos pássaros, das feras e dos homens,
até que a fome os extinguisse, ou fossem
os dentes frouxos saciar algures!
Ele mesmo alimento não buscava...
Mas, gemendo num uivo longo e triste
morreu lambendo a mão, que inanimada
já não podia lhe pagar o afeto.
Faminta a multidão morrera aos poucos.
Escaparam dous homens tão-somente
de uma grande cidade. E se odiavam.
... Foi junto dos tições quase apagados
de um altar, sobre o qual se amontoaram
sacros objetos pra um profano uso,
que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas
reunindo nas mãos frias dos espectros,
de seus sopros exaustos ao bafejo
uma chama irrisória produziram!...
Ao clarão que tremia sobre as cinzas
olharam-se e morreram dando um grito.
mesmo da própria hediondez morreram,
desconhecendo aquele em cuja fronte
traçara a fome o nome de Duende!
O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,
populosa tornou-se numa massa
sem estações, sem árvores, sem erva,
sem verdura, sem homens e sem vida,
caos de morte, inanimada argila!
Calaram-se o oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
sem marujos! Os mastros desabando
dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
uma vaga na queda alevantassem.
Tinham morrido as vagas! e jaziam
as marés no seu túmulo... antes delas
a lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
era só trevas o universo inteiro.
 
 
 
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Darkness
(George Gordon, Lord Byron)
 
I had a dream, which was not all a dream.
The bright sun was extinguish'd, and the stars
Did wander darkling in the eternal space,
Rayless, and pathless, and the icy earth
Swung blind and blackening in the moonless air;
Morn came and went—and came, and brought no day,
And men forgot their passions in the dread
Of this their desolation; and all hearts
Were chill'd into a selfish prayer for light:
And they did live by watchfires—and the thrones,
The palaces of crowned kings—the huts,
The habitations of all things which dwell,
Were burnt for beacons; cities were consum'd,
And men were gather'd round their blazing homes
To look once more into each other's face;
Happy were those who dwelt within the eye
Of the volcanos, and their mountain-torch:
A fearful hope was all the world contain'd;
Forests were set on fire—but hour by hour
They fell and faded—and the crackling trunks
Extinguish'd with a crash—and all was black.
The brows of men by the despairing light
Wore an unearthly aspect, as by fits
The flashes fell upon them; some lay down
And hid their eyes and wept; and some did rest
Their chins upon their clenched hands, and smil'd;
And others hurried to and fro, and fed
Their funeral piles with fuel, and look'd up
With mad disquietude on the dull sky,
The pall of a past world; and then again
With curses cast them down upon the dust,
And gnash'd their teeth and howl'd: the wild birds shriek'd
And, terrified, did flutter on the ground,
And flap their useless wings; the wildest brutes
Came tame and tremulous; and vipers crawl'd
And twin'd themselves among the multitude,
Hissing, but stingless—they were slain for food.
And War, which for a moment was no more,
Did glut himself again: a meal was bought
With blood, and each sate sullenly apart
Gorging himself in gloom: no love was left;
All earth was but one thought—and that was death
Immediate and inglorious; and the pang
Of famine fed upon all entrails—men
Died, and their bones were tombless as their flesh;
The meagre by the meagre were devour'd,
Even dogs assail'd their masters, all save one,
And he was faithful to a corse, and kept
The birds and beasts and famish'd men at bay,
Till hunger clung them, or the dropping dead
Lur'd their lank jaws; himself sought out no food,
But with a piteous and perpetual moan,
And a quick desolate cry, licking the hand
Which answer'd not with a caress—he died.
The crowd was famish'd by degrees; but two
Of an enormous city did survive,
And they were enemies: they met beside
The dying embers of an altar-place
Where had been heap'd a mass of holy things
For an unholy usage; they rak'd up,
And shivering scrap'd with their cold skeleton hands
The feeble ashes, and their feeble breath
Blew for a little life, and made a flame
Which was a mockery; then they lifted up
Their eyes as it grew lighter, and beheld
Each other's aspects—saw, and shriek'd, and died—
Even of their mutual hideousness they died,
Unknowing who he was upon whose brow
Famine had written Fiend. The world was void,
The populous and the powerful was a lump,
Seasonless, herbless, treeless, manless, lifeless—
A lump of death—a chaos of hard clay.
The rivers, lakes and ocean all stood still,
And nothing stirr'd within their silent depths;
Ships sailorless lay rotting on the sea,
And their masts fell down piecemeal: as they dropp'd
They slept on the abyss without a surge—
The waves were dead; the tides were in their grave,
The moon, their mistress, had expir'd before;
The winds were wither'd in the stagnant air,
And the clouds perish'd; Darkness had no need
Of aid from them—She was the Universe.
 
 
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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

4266) O Caminhante-na-Terra (4.9.2017)



A literatura (e seus desdobramentos, entre eles o cinema, os quadrinhos, a filosofia) funciona à base de repetições e variantes, trazendo sempre uma mistura do que é conhecido e nos proporciona segurança, e do que é desconhecido e nos desperta a curiosidade.

É assim com certos personagens ou tipos recorrentes que fazem parte da nossa memória cultural, porque para onde a gente se vire dá de cara com uma variante deles.

Eu estava relendo um dos livros problemáticos de Philip K. Dick, A Maze of Death (1970). Digo problemáticos porque tem uma história fascinante, mas talvez seja um dos livros escritos mais descuidadamente pelo nosso grande Maluco Beleza californiano.

Em todo caso, essa aventura dark e sinistra (que já foi chamada pela crítica de “O Caso dos Dez Negrinhos no espaço interplanetário”) é uma das tentativas mais interessantes de Dick em produzir uma religião artificial.

Tanto quanto o “mercerismo” de Do Androids Dream of Electric Sheep (1968), os pesadelos fundamentalistas em Eye in the Sky (1957) e todas as fantasias cósmico-teológicas da fase final de sua vida, começando com The Divine Invasion e Valis (ambos de 1981).



Em A Maze of Death, um grupo de colonistas terrestres num planeta remoto professa uma religião própria baseada num livro sagrado chamado “The Book of Specktowsky”, relativo ao filósofo que a concebeu.

O humor californiano de PKD sempre dilui qualquer pomposidade possível em seus conceitos, de modo que esse equivalente da Bíblia ou do Corão intitula-se na verdade Como Eu Me Ergui Dentre Os Mortos Em Minhas Horas Vagas e Você Também Pode, um saboroso tempero de ironia para um livro que traz a Verdade Suprema.



A religião pregada por Specktowsky tem, é claro, pontos em comum com o cristianismo, e postula a existência de quatro manifestações da Divindade: o Mentufaturador, o Intercessor, o Caminhante na Terra e o Destruidor das Formas. No momento, é o terceiro deles que me interessa.

O Caminhante na Terra (“the Walker-on-Earth”) é uma entidade que se materializa e vem em socorro dos humanos em momentos de necessidade. Por exemplo, no capítulo 2 ele surge como “um homem, ou pelo menos algo como um homem. Um vulto vestindo um robe solto, com cabelos longos caindo sobre seus ombros escuros e maciços.” Aborda um personagem prestes a partir num voo interplanetário e lhe diz que não pegue aquela nave, que está com defeito, pegue outra.

O Caminhante vai embora do mesmo jeito que aparece. Comparado à mitologia cristã ele se assemelha mais a um anjo do que a um dos membros da Santíssima Trindade. Os anjos nos guardam, nos aconselham, nos dão avisos, evitam que façamos bobagem e assim por diante.

No entanto, o modo elusivo e arredio como ele se comporta lembra outro tipo de caminhante: o Judeu Errante, que escarneceu de Cristo e foi condenado a caminhar sem paz pelo mundo afora, até o dia do Juízo Final.



Caminhar pelo mundo significa entrar em contato com Deus-e-o-Mundo. O Judeu Errante não é um eremita escondido no fundo de uma loca. Ele caminha, ele se mistura, mas sem nunca ter um contato real com quem quer que seja.

Como disse Castro Alves:

Viu povos de mil climas, viu mil raças,
e não pôde, entre tantas populaças,
beijar uma só mão...
(“Ahasverus e o Gênio”, 1868)

O Caminhante-na-Terra de PKD parece ter um pouco disso. Ajuda a todo mundo, mas não pode se aproximar de ninguém. Meia hora, uma hora de conversa, e ele desaparece para sempre.

As sincronicidades da Literatura Comparada me levaram a no mesmo dia enfiar no draive um DVD de um filme que eu não via há décadas, Queimada (“Burn!”, 1969). É um filme bastante glauberrochiano de Gillo Pontecorvo, descrevendo de forma até didática certos mecanismos do colonialismo no século 19, especificamente o modo como a Inglaterra financia secretamente a independência de um pequeno país negro do Caribe, apenas para tirá-lo de baixo da asa de Portugal e trazê-lo para a sua.



Quem se encarrega disso é Marlon Brando, com uma improvável peruca loura mas um à-vontade notável no papel desse agente provocador que manipula ditadores, revolucionários e capitalistas na mesma medida em que os serve. Ele é um aventureiro, um indivíduo de têmpera superior mas de personalidade instável; eu o compararia a Richard Francis Burton e a T. E. Lawrence, o da Arábia.



Acontece que no filme o personagem de Brando se chama “Walker”. Dizem que é em homenagem a um personagem real, William Walker, que andou aprontando naquela época pela Nicarágua.

Não havia como não ver no Walker de Brando uma espécie de Judeu Errante, destinado a caminhar de país em país a soldo de Sua Majestade Britânica, erguendo e derrubando líderes populares, interferindo, seduzindo, doutrinando, armando, financiando, e depois sumindo de vez para ir fazer o mesmo em outro grotão perdido do Terceiro Mundo.

Como outro Walker: aquele encarnado pelo Fantasma, de Lee Falk, um dos ídolos meio esquecidos da minha infância. The Phantom vive também no meio de pigmeus africanos, como um colonialista qualquer, trazendo-lhes os benefícios da inserção no Mercado.

Ele veste uma dessas roupas colantes e coloridas de super-herói dos quadrinhos, mas quando visita a civilização o faz de chapéu, óculos e sobretudo – e se faz chamar de “Mr. Walker”. Porque ele é no fundo o Fantasma-Que-Anda, “the Ghost-Who-Walks”.  Imortal, como o Judeu Errante.



Outro herói (este conheço pouco) que se aproxima dessa equação “judeu errante / herói mascarado” é o Phantom Stranger (DC/Vertigo).


É interessante o paralelismo desse arquétipo. Ele é uma divindade que desce até os mortais para interferir na sua vida, e é um europeu que desce até o Terceiro Mundo para fazer o mesmo (sempre de forma ambígua). E é sempre alguém de fora, um outsider, que não pertence àquele lugar. (O Fantasma de Lee Falk tem domicílio fixo numa selva, como Tarzan; não vive errando de mundo afora; mas continua a ser, sempre, um “despaisado” alguém sem pátria, alguém de fora.)

Lévi Strauss dizia (com outras palavras) que um mito não corresponde a nenhuma de suas versões, mas aos traços que se reforçam quando todas as versões são superpostas. Os arquétipos literários têm essa mesma característica.

Quem é o Caminhante-na-Terra? Não sabemos (o autor não o revela), mas ele nos parece familiar porque tem traços do Fantasma de Lee Falk e de Lawrence da Arábia; de um anjo desterrado e de um agente-provocador branco em continente negro; de alguém que não morre mas que nunca viveu; de Richard Francis Burton e do judeu errante de Castro Alves, “invejado, a invejar os invejosos”.








quinta-feira, 3 de junho de 2010

2112) “Navios negreiros” (15.12.2009)



A editora paulista Comboio de Corda lançou, num volumezinho pequeno e charmoso, com excelentes ilustrações de Maurício Negro, uma edição conjunta dos poemas homônimos “O Navio Negreiro”: um de Henrich Heine (1797-1856) e o outro de Castro Alves (1847-1871). A organização e os textos críticos são de Priscila Figueiredo, que examina e compara os dois poemas. Confesso que não conhecia o de Heine, nem sabia sequer que o poeta alemão tivesse escrito sobre tráfico de escravos. Este livro fornece informações sobre todo o contexto que inspirou os poemas, além de analisar as semelhanças e diferenças entre os dois.

O poema de Castro Alves é conhecido por todo brasileiro que se preza. Desde aquela clássica elisão que o faz começar com um apóstrofo: “’Stamos em pleno mar...” Tudo bem que era naquela época um recurso mais comum do que é hoje, mas não deixa de ser uma prova de coragem iniciar um poema com uma licença poética logo na primeira linha, na primeira palavra, no primeiro caractere! É um dos poemas mais bem estruturados do poeta baiano, ao qual a influência de Victor Hugo ensinou a compor poemas feitos de sucessivas partes, como os atos de uma peça, cada uma delas impondo um novo metro, um novo tom, numa concepção rítmica que dá ao todo a sensação de uma complexa suíte musical. É o caso deste poema, e também o de “Destruição de Jerusalém”, que foi escrito (fiquei sabendo agora, abismado) aos quinze anos de idade.

O poema de Heine é mais curto e mais simples. Dividido em duas partes, é uma sucessão de 36 quadras rimando ABCB. Seu tom é mais direto e menos oratório (previsivelmente!) do que o de Castro Alves. Heine nos mostra o navio através dos olhos dos traficantes que o conduzem, os quais se desesperam ao ver que a taxa de mortalidade dos negros só faz aumentar durante a viagem, e, para evitar que morram todos de banzo, trazem-nos para o convés e os fazem dançar, debaixo de chicote, ao som de instrumentos musicais tocados pelos tripulantes. É a mesma cena dantesca descrita pelo baiano (“Vibrai rijo o chicote, marinheiros! / Fazei-os mais dançar!”).

Priscila Figueiredo faz uma boa análise da frieza do espírito capitalista que move os personagens de Heine (“Seiscentos negros consegui / por uma nica, em Senegal; / à carne rija, aos tendões tesos / não há ferro que seja igual. // Ofereci em troca aguardente / miçangas, estanho e tecido. / Consigo quase mil por cento / se só metade houver morrido”). E lembra, com razão, que as três últimas estrofes do poema de Castro Alves estão entre as mais belas da poesia brasileira: “E existe um povo que a bandeira empresta / pra cobrir tanta infâmia e cobardia (...)... Auriverde pendão da minha terra / que a brisa do Brasil beija e balança (...)... Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo (...)”. Um excelente exemplo do mesmo tema sendo trabalhado por duas inteligências e sensibilidades diferentes.