É um mundo monumental, colorido, em que insensivelmente
somos levados a erguer os olhos para o céu o tempo inteiro. E não exatamente
para o céu atmosférico, mas para os tetos pintados da Capela Sistina, e outros
ambientes deslumbrantes. Os interiores do Vaticano não uma enorme
história-em-quadrinhos em escala colossal, criada pelos maiores artistas do
Renascimento. Artistas que séculos depois não foram superados.
A arquitetura, a pintura e a escultura se juntam para
produzir um ambiente de exaltação intelectual e afetiva, principalmente
naqueles homens velhos, calejados, que dedicaram a vida inteira à crença
irrestrita naquelas imagens. Vivem cercados, como dizia o poeta, por “Gênios!
Deuses! Esferas! Astros! Mundos!...”
E no meio dessa exaltação renascentista, desse verdadeiro parque-temático bíblico, ocorrem
as conspirações.
O Vaticano é certamente um dos lugares onde mais se
conspira à sorrelfa, à socapa. Onde homens taciturnos e poderosos pegam no
braço de outro e o levam a um canto do salão para fazer uma revelação
bombástica à meia-boca, para exigir juramentos de segredo e silêncio, para acenar
promessas de poder.
Imagino que essas redes de intrigas ocorram igualmente em
lugares como a sede do Partido Comunista Chinês... o Pentágono... os corredores
da ONU... o Congresso Nacional... Verdade, mas em nenhum desses lugares os
conluios mafiosos acontecem cercados de tanta espiritualidade e transcendência
artística. O Vaticano, sem dúvida alguma, consegue juntar as duas pontas
extremas da civilização.
Conclave é um
filme sobre tramóias políticas, não sobre a salvação da alma, embora esse tema seja
parte tão integrante daquele mundo quanto o mármore e a púrpura.
O roteiro é de Peter Straughan, cujo nome desconheço e
fui checar. Ele é o responsável por pelo menos dois filmes muito bem escritos: Os Homens Que Encaravam Cabras (2009) de
Grant Heslov, e Tinker, Tailor, Soldier,
Spy (2011) de Tomas Alfredson, baseado em John Le Carré. Competência não
lhe falta.
O que falta ao filme, então? Meu palpite é que falta literatura.
Quando a gente passa semanas a fio traduzindo um livro, a
gente faz um mergulho mental naquele universo. É como se cada frase do livro
estivesse bordada num pano, em letra cursiva, e a gente precisasse desmanchar
aquele bordado sem partir a linha, e depois bordar com ela uma frase
equivalente em outro idioma.
O filme Conclave reconstitui
com perfeição visual a ambientação do
livro, que ao traduzir pesquisei exaustivamente no Google, para ter idéia
daqueles salões, daqueles saguões, refeitórios, capelas, dormitórios, o
micro-ambiente onde a história acontece.
O filme tem um ótimo elenco, com pelo menos três atores
que admiro bastante (Fiennes, Lithgow, Tucci) e um que eu não conhecia e me
surpreendeu positivamente, Sergio Castellitto, que faz o reacionário e
ameaçador Cardeal Tedesco. No livro, é um velhinho maquiavélico mas fisicamente
frágil; no filme, Castellito o transforma num leão vicioso, acuado.
(Sérgio Castellitto, como o "Cardeal Tedesco")
Por duas vezes ele se levantou da cama e foi até a porta, e por duas vezes voltou e se deitou novamente. Ele sabia, é claro, que não haveria nenhum clarão ou revelação súbita, nenhuma infusão repentina de certeza. Não esperava nada desse tipo. Deus não agia dessa forma. Deus já lhe mandara todos os sinais necessários. Cabia a ele agora agir de acordo. E talvez ele tivesse sempre suspeitado de que teria que fazer aquilo afinal, e era esta a razão de não ter devolvido a chave-mestra, que tinha ficado guardada na gaveta de sua mesa de cabeceira.
(trad. BT)
Lawrence/Lomeli é aquele costumeiro cristão sincero, retalhado por dúvidas, a toda hora achando-se insuficiente, inadequado, indigno das altas tarefas que lhe cabem, consciente de suas fraquezas humanas. Mas é um homem eticamente obstinado, que cultiva uma lealdade ferrenha para com o falecido Papa. E sua angústia muda de foco a cada capítulo, à medida que revelações comprometedoras vão surgindo sobre os principais candidatos ao Trono de São Pedro.








