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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

4879) As vocações frustradas (3.11.2022)



(Amedeo Modigliani, "Auto Retrato")


Uma coisa muito enganosa que a gente vê nos livros de auto-ajuda literária (os famosos manuais de “Como Escrever Bem”, “Como Ser Um Escritor De Sucesso”, “Dicas Para um Aspirante a Escritor”, etc.) é o famoso conselho de “Nunca Desistir!”. 
 
Eu já fiz várias oficinas literárias, como aluno e como instrutor, e vejo esse conselho ser repisado de forma quase hipnótica. É bonito, mas é enganoso.
 
Tem horas em que a pessoa deve desistir, sim. É quando ela própria percebe que o que está fazendo não é bem o que ela achava que era capaz de fazer, o que valia a pena se esfalfar de trabalho para conseguir fazer.
 
Nem todo mundo tem qualidades para ser escritor. Isto não é uma lei elitista, é uma questão de bom senso. Nem todo mundo tem qualidades para ser médico, ou piloto de avião, ou comerciante, ou cantor, ou administrador de fazenda... A gente pode achar aquilo bonito, e ter vontade de ser assim. Mas a vontade não basta.

Teoricamente, idealmente, todo mundo deveria ser capaz de tudo, ao nascer. Deveria ter um potencial aberto a todas as possibilidades. Mas a cada ano de vida essas possibilidades vão se afunilando, porque umas habilidades se desenvolvem mais, e outras menos.
 
Escrever não é fácil. Também não é uma coisa astronomicamente difícil, e uma de suas belezas é sua acessibilidade. Alfabetização, estudo, muita leitura, muita discussão, muita prática... e a pessoa vai desenvolvendo sua escrita. Até que ponto? Ninguém sabe.
 
Sempre digo, a quem me pede orientação: escreva coisas pessoais, e mostre. Escreva cartas, blogs, diários. Não pense em se profissionalizar tão cedo. A profissionalização é possível – mas não para todos. Cabem 7 bilhões de escritores no mundo? Cabem 7 bilhões de pintores, de maestros, de filósofos?
 
Ser escritor é como ser músico (instrumentista). Todo mundo pode ser músico? Em princípio (no instante do nascimento), sim, todos somos iguais. No entanto, uns irão desenvolver mais capacidade do que outros.
 
O engano mais grave não é o de inculcar na cabeça de uma pessoa que ela pode se tornar escritora, pianista, poeta, ator, atriz, artista... Cada uma que vá à luta e descubra do que é capaz. Engano é tentar convencê-la de que basta se esforçar para conseguir fazer profissionalmente qualquer uma dessas coisas.
 
Os manuais de auto-ajuda estão cheios daqueles exemplos clássicos da obra literária genial que foi recusada por 20 editores e tornou milionário o vigésimo-primeiro. Na cabeça de um jovem ansioso, isso deixa de ser um fator de desalento para se transformar magicamente numa garantia de que quanto mais recusado for um manuscrito mais genial ele deve ser.  Não é.
 
Nem sempre temos talento para o que sonhamos. Uma garota pode sonhar em ser atriz, quando o seu talento é para escrever – mas ela não quer escrever, porque no meio social onde convive isso não tem valor, e ser atriz de cinema tem. Um rapaz pode sonhar em se tornar escritor, porque isso pode lhe dar dinheiro e respeito intelectual, mas não escreve tão bem assim, ou não sabe o que escrever; talvez pudesse se tornar um ótimo editor, ou tradutor, alguém ligado à criação literária.
 
Às vezes o próprio indivíduo tem uma noção meio vaga de suas qualidades e fica anos insistindo em explorar uma qualidade que não possui, em vez de investir em talentos paralelos que são igualmente importantes.
 
Saber desistir e optar por outra carreira é tão importante quanto saber persistir diante das dificuldades.


O argentino Manuel Puig queria ser diretor de cinema, mas logo percebeu que, sendo tímido e introspectivo, jamais poderia comandar de megafone em punho uma equipe de cem pessoas. Dedicou-se a escrever:
O Beijo da Mulher Aranha, A Traição de Rita Rayworth, Boquinhas Pintadas... Valeu a pena? Para mim, valeu. 
 
Dizem que Amedeo Modigliani queria ser escultor, sonhava com isso, mas nada dava certo, e ele resignou-se, meio frustrado, a ser um dos maiores pintores de sua geração. Menos mal. Modigliani era o protótipo do artista faminto, meio drogado, dependendo de vender uma tela para comer por uma semana. Podemos ter perdido o maior escultor do mundo? Talvez. Mas ganhamos Modigliani.
 
Quando o artista tem dinheiro, contudo, ele pode alimentar indefinidamente sua fantasia. Era o caso de Robert Coates (1772-1848), que recebeu o apelido de “O Pior Ator do Mundo”. Filho de um comerciante rico das Índias Ocidentais, ele patrocinava a montagem das suas peças preferidas (inclusive Shakespeare), onde ele mandava em tudo: cenários, figurinos, elenco, além de mexer no texto para favorecer a si próprio. Era uma figura folclórica da cena teatral londrina, enchendo os teatros de gente disposta a se divertir. Era péssimo. Era rico. Nunca desistiu.
 
Em geral, a gente só toma conhecimento das carreiras artísticas quando elas dão certo. As que naufragam no anonimato não chegam aos nossos ouvidos, por motivos óbvios.
 
Se olharmos com cuidado as carreiras vitoriosas, no entanto, vamos encontrar muitos casos de pessoas que tinham um sonho diferente a respeito de si mesmas, mas era um sonho de quem não tinha talento real, vocação, ou, como diz o pessoal por aí, “o cacoete da coisa”.
 
Rapazes que queriam ser jogadores de futebol, jogavam mal, tornaram-se técnicos vitoriosos. Narradores que tentaram em vão ser romancistas, e viraram autores de telenovela na hora certa. Compositores sem brilho que acabaram se tornando excelentes arranjadores. Isto é fracasso? Não acho.
 
A maldição do NUNCA DESISTA já destruiu muitos talentos que podiam perfeitamente ser direcionados rumo a outros trabalhos, se o indivíduo fosse capaz de avaliar com mais clareza e menos emoção suas próprias habilidades. Se não estivesse mergulhado, como todos sempre estamos, no “espírito do tempo” para quem o Desejo é soberano, a Vontade resolve tudo. Não é assim que o mundo funciona.


(Robert Coates)




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

4199) Romances emprestados (12.1.2017)




Alguns escritores afirmam que as idéias caem do céu sobre a sua cabeça como cocô de pombo. O cara sai de casa para ir na papelaria da esquina a fim de comprar um cartucho de tinta 92 preto, e de repente sente alguma coisa quente a lhe escorrer pelo cérebro. É um conto policial pronto, protinho, saído do forno, desencadeado pela visão de um grupinho de pessoas conversando diante de um prédio enquanto um deles toca a campainha.

Por esses mecanismos inexplicáveis, ele percebe (não “imagina”; ele sabe, com a convicção dos verdadeiros ficcionistas) que aquele velhote é Fulano que tem tais ou quais objetivos inconfessáveis, aquela mocinha é Sicrana que está entrando de gaiata numa conspiração alheia, aquele senhor de terno é Beltrano que pensa estar dando um golpe mas também é vítima, aquela menina emburrada de óculos será a narradora de tudo, quando na velhice vier a entender de fato o que se passou.

Assim nascem muitos contos: como uma configuação casual que se cristaliza quando a imaginação malévola (mas em últimos termos inofensiva) de um escritor projeta sobre gente de verdade seus sonhos ou pesadelos de mentira.

Julio Cortázar comentou certa vez que a coisa que mais lhe ocorria em coquetéis ou reuniões sociais era alguém se aproximar dele e dizer algo na linha de:

-- Bem, já que você é escritor, escuta esse fato que se deu comigo, tenho certeza de que você vai fazer dele um conto sensacional.

O longilíneo Julio garante que nunca um conto lhe brotou depois de um ameaço dessa natureza, mas, em compensação, um papo casual entre algumas senhoras, entreouvido sem compromisso, lhe inspirou “Los buenos servicios”, um dos contos mais tocantes do livro Las Armas Secretas (1959) – a história de uma criada, uma mulher simples, que é contratada para fazer o papel da mãe de alguém desconhecido durante um velório.



Histórias emprestadas podem se transformar em grandes livros quando pousam no ouvido certo. Reza a lenda que o argentino Manuel Puig (o autor de O Beijo da Mulher Aranha e outros belos romances), quando morava no Rio de Janeiro, precisou fazer uma obra qualquer em sua casa e mandou vir um pedreiro. O pedreiro passava o dia trabalhando e conversando, e de seu monólogo autobiográfico Puig extraiu seu romance Sangue de amor correspondido (1982) – exercendo, sem dúvida, seu privilégio autoral de inventar quando lhe convinha.

Um dos clássicos da literatura brasileira, Memórias de um Sargento de Milícias (1852-53) foi publicado pelo seu autor, Manuel Antonio de Almeida, sob o pseudônimo de “Um Brasileiro”. Li em alguma parte – quem conhecer melhor a história que me ajude – que Almeida teve um certo pudor em se assinar como autor do romance (que saiu em folhetins nas páginas do suplemento “A Pacotilha”, do Correio Mercantil) porque toda a história lhe tinha sido passada verbalmente pelo sargento citado no título, e ele não fez mais do que registrá-la por escrito e publicá-la.



A prática do jornalismo é um dos principais canais deste veio da literatura em que a história narrada oralmente por A se transforma no romance escrito por B. No Rio de Janeiro contemporâneo os romances de Julio Ludemir sobre personagens obscuros do crime organizado têm também como base essas histórias de vida recriadas por escrito: No Coração do Comando (Ed. Record, 2002), Lembrancinha do Adeus (Ed. Planeta, 2004) e outros.




“Romance emprestado” talvez não seja o nome mais adequado para essa vertente, porque romance é o resultado final, e o que o primeiro narrador empresta é apenas o argumento errático, episódico, fragmentado, que serve de base ao trabalho estrutural e formal realizado pelo escritor. Mas não há dúvida de que quando não somos capazes, naquele momento, de conceber uma grande história, podemos pelo menos estar atento às histórias que o mundo coloca de bandeja no colo da gente.