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quarta-feira, 3 de abril de 2024

5048) O Banquete dos Mendigos (3.4.2024)




 
A imprensa tem comentado um filme russo recente, O Mestre e Margarida, que está fazendo grande sucesso popular, e inquietando os censores do governo de Vladimir Putin. 
 
É mais uma adaptação cinematográfica (há várias) do famoso romance de Mikhail Bulgakov, que se não me engano já tem mais de uma tradução no Brasil.
 
Nunca o li. É um romance fantástico, muito elogiado, e está naquela lista de “500 Livros Que Preciso Ler, Nem Que Seja Depois De Morrer”. 
 
Houve uma sincronicidade interessante porque vi o anúncio desse filme mais ou menos ao mesmo tempo em que estava começando a rabiscar umas notas sobre o disco Beggars Banquet (“O Banquete dos Mendigos”, 1968) dos Rolling Stones, um dos meus preferidos na extensa obra da banda. 
 
O Banquete dos Mendigos (“Beggars Banquet”, 1968) foi um disco-porrada que os Stones lançaram na segunda metade da década de 1960, quando essa hidra-de-70-cabeças chamada “rock” brotava por toda parte. 
 
Para mim, é um dos melhores discos deles, junto com Between the Buttons, Let It Bleed, Exile on Main Street, Flowers, Some Girls e certamente mais algum título inesquecível que estou esquecendo agora. 




Os Stones sempre foram mais identificados com rockão pesado do que os Beatles, por exemplo. Eram metal-quente, e parede estremecendo. Junto deles, os Beatles eram o Trio Esperança, e o que os “salvava” era a riqueza melódica, a harmonia vocal, o imenso repertório de estilos musicais (graças principalmente a MacCartney, que cresceu ao lado de um pai músico, escutando tudo). E as letras, de Rubber Soul em diante; e o carisma sorridente
 
O lado “musicalmente beatle” dos Stones ficava por conta do multi-instrumentista Brian Jones, que morreu cedo; uma perda tão grande para o rock quanto as de Jimi Hendrix e Jim Morrison.
 
Lembro que o primeiro choque que Beggars Banquet produziu em mim e na minha turma na Paraíba foi que não era tão “rockão pesado” assim, se descontarmos “Street Fightin’ Man”. Era um cardápio variado de ritmos e sonoridades, que fazia a gente escutar de cenho franzido, pensando: “Que troço estranho. Isso é rock? Onde foram achar isso? Que troço legal.” 
 
A começar, é evidente, pela faixa que abre o disco, “Sympathy for the Devil”. Reza a lenda que as primeiras “levadas” da música surgiram quando os Stones vieram pegar uma areia ensolarada em Arembepe e outros lugarejos baianos, e de vez em quando tiravam um som com os moradores locais. 
 
O famoso e hipnótico “Uh-uuh!...”, que pontua a canção do começo ao fim, não foi trazido da Bahia, como pensei por muito tempo; foi meio que improvisado pelo produtor Jimmy Miller durante a gravação, e incorporado pela banda. Todo mundo entrou no balanço.  Não duvido que Mick Jagger e Keith Richards tenham explicado, muito convictos, aos técnicos de som: “É samba”. 
 
“Sympathy for the Devil” junta-se à capa interna do disco para explicar o diapasão mental que afinava o rock daquele tempo: luxo, decadência, esbanjamento e devassidão. O Diabo, que se apresenta nos versos, é “um homem de posses e de bom gosto”, um aristocrata. E ao mesmo tempo um conspirador dos salões e dos gabinetes, um instigador de conflitos. Ele se vangloria de estar por trás da Revolução Russa, da Blitzkrieg nazista, da morte dos Kennedys... 
 
E é aí que entra a sincronicidade com O Mestre e Margarida, o livro de Bulgakov, porque Mick Jagger sempre afirmou que “Sympathy for the Devil” tinha se inspirado nesse livro, escrito por Bulgakov entre 1928 e o ano de sua morte, 1940. A tradução inglesa, lançada em 1967 pela Grove Press, e em seguida por outras editoras, teve uma influência direta na canção dos Stones, cuja letra fala em nome do Diabo: 
 
Estou rondando por aqui há muitos anos
roubei a alma e a fé de muitos homens.
Estava por perto quando Jesus Cristo
teve o seu momento de dor e de dúvida;
e me certifiquei de que Pilatos
lavasse as mãos e selasse o seu destino.
 
O confronto entre Pilatos e Cristo é uma das linhas narrativas de O Mestre e Margarida, e Jagger o transpôs diretamente para a canção.
 
Jagger e os Stones nunca foram propriamente satanistas, ao que eu saiba. Pegaram um pouco de fama por causa dessa música. Quem teve pela vida toda um flerte com o Ocultismo e os seres-de-umbral foi gente como Jimmy Page, morador numa mansão que foi de Aleister Crowley. Os Stones intitularam um disco Their Satanic Majesties Request, mas o disco lembra mais um passeio no Mundo Imaginário do Dr. Parnassus do que uma visita ao Hades.



(Their Satanic Majesties Request)


O Diabo (dizia Guimarães Rosa) não existe: existe é o homem humano. O homem de posses e de bom gosto, apreciador de uma boa debaucheria, e que é o próprio Mick Jagger e seus ajudantes. E o disco ganhou um dos melhores títulos e uma das melhores capas internas da história do rock. 



Nessa capa interna e na faixa de abertura está concentrado o espírito de dissipação e auto-indulgência do rock daquela época. Uma farra meio surrealista promovida por alguns jovens milionários: o mais velho dos Stones, o baixista Bill Wyman, tinha 32 anos, mas os demais estavam na faixa de 25-27 anos. 



(Viridiana


O fotógrafo do disco, Michael Joseph, comenta que a idéia da foto do banquete foi do diretor de arte Mike Peters, e que este teria sido influenciado pela famosa foto do “banquete dos mendigos” de Viridiana (1961) de Luís Buñuel, numa versão satírica da Última Ceia de Leonardo da Vinci. 
 
Quase toda a comida que aparece na foto é artificial, com exceção de algumas bandejas com frutas. O local da sessão foi no norte de Londres, na mansão de Sarum Chase, em Hampstead. O supervisor da casa perguntou se na foto apareceriam mulheres nuas. “Não,” disse o fotógrafo, “vai ser somente a banda. Por que?”  E ele: “Se a foto incluir mulheres nuas, cobramos 10 libras a mais.” 
 
Ao ler isto, lembrei de um amigo meu, em Campina, olhando a capa do Banquete: “Tem bebida pra caramba, tem comida, tem porco, galinha, marreco... e não tem mulher nua. Isso é lá farra!” O que não nos impedia de correr o olho pela foto, catando detalhes; ou pela reprodução feita em Campina Grande pelo saudoso Roberto Coura, então com 16 anos, reproduzindo essa foto do banquete em nanquim sobre cartolina, em 1 metro x 2,5, e que foi parar na sala de Jakson e Marcos Agra. 
 
O banquete era uma síntese entre a vulgaridade e a sujeira dos mendigos de Buñuel, e (aqui é uma conjetura minha) a famosa capa do Bringin’ It All Back Home (1965) de Bob Dylan. Capa cuja intenção, nesta foto montada, era conferir a Dylan (que tinha uma origem rústica, de Minnesota, origem de cantor folk) a imagem sofisticada de cantor agora novaiorquino. 





A foto de Daniel Kaufman o mostra numa sala, diante de uma lareira, com um gato no colo, por entre objetos descuidadamente/cuidadosamente jogados em torno: uma revista Time, um disco de Robert Johnson, uma placa de “abrigo nuclear”... e uma mulher, vestida, mas linda, em pose relaxada e promissora (é a ex-modelo Sally Grossman, a esposa do empresário de Dylan). 
 
Tenho a mais tranquila certeza de que os Stones, além de ouvirem muito esse disco, examinaram muito essa capa, e três anos depois tiveram a chance de dar a resposta. A resposta não era a Dylan, na verdade, era ao jet-set londrino que no começo os esnobou tanto quanto o jet-set de Nova York esnobou Dylan; mas o sucesso doura qualquer pílula, e ambas as capas parecem estar dizendo: Fodam-se, nós agora somos ricos também. 
 
Nem tudo eram banquetes: o fotógrafo dos Stones lembra que na noite anterior à sessão de fotos a casa de Brian Jones tinha sido invadida pela polícia, em busca de drogas (não acharam nada), e ele, sempre o mais emocionalmente instável da banda, estava ainda abalado. 




O repertório do disco, curiosamente, não fica batendo na tecla da ostentação. Há várias canções quase totalmente acústicas, fugindo às muralhas de som do heavy-metal nascente. 
 
“Factory Girl” é uma homenagem às garotas que trabalham em fábricas, cantada pelo sujeito que a espera do lado de fora (quase um “Três Apitos” de Noel Rosa), uma garota “com joelhos gordinhos, com um lenço em vez de chapéu, e uma roupa com um zíper quebrado atrás”. 
 
“Salt of the Earth” é outra canção proletária, se se pode dizer isto. A banda ergue um brinde “aos humildes de berço... aos que trabalham duro... ao soldado raso que se mata de trabalhar, à sua esposa e filhos que acendem fogos e aram a terra... vamos beber a esses milhões de pessoas que precisam de líderes, mas só lhes chegam especuladores...” Aqui, os ecos se propagam até “Working Class Hero”, da carreira solo de John Lennon. 
 
Ou seja: por mais que fossem milionários recentes os Stones não cortavam seu cordão umbilical de classe, das origens não-milionárias de cada um. E mesmo quando decolavam num dos seus rocks mais pesados e rebeldes dessa fase, “Street Fighting Man”, eles perguntam: 
 
Mas afinal, o que pode um rapaz pobre fazer
a não ser cantar numa banda de rock?
Porque nesta sonolenta cidade de Londres
não há lugar para guerreiros de rua.
 
E depois, em versos que parecem pedidos-emprestados a “Sympathy for the Devil”:
 
Então... o meu nome é Distúrbio,
eu vou gritar e ulular
eu vou matar o rei
e passar o rodo nos seus servidores.
 
Keith Richard comenta que a rapaziada inglesa de então (lembrem-se, o ano era 1968) via com certa inveja as agitações estudantis francesas que fecharam a Sorbonne e pararam Paris no mês de maio. Richard lembra que as frases iniciais desta música (“Ev’rywhere I hear the sound of marching charging feet, boy..”) se baseia na sirene de duas-notas dos carros de polícia franceses. Uma inspiração semelhante à que teve John Lennon ao compor “I Am The Walrus” (“Mister-City-p’liceman-sittin’-pretty-little-p’liceman-in a row...”). 
 
Comparada à Paris de Daniel Cohn-Bendit e de Jean-Luc Godard, Londres devia parecer uma grande Boston. Talvez por isso mesmo a banda tenha convidado Godard para filmar a gravação de “Sympathy for the Devil” no estúdio – parafraseando Chico Buarque e dizendo: “pra ver se o fogo deles, guardado em ti, nos contagia um pouco”.
















sábado, 6 de novembro de 2021

4761) Eu me lembro - 23 (6.11.2021)



1.

Eu me lembro dos “jornais da festa”, que eram pasquins em formato tablóide, ou menor ainda, vendidos em Campina durante as festas de fim de ano. Cheios de propagandas pagas, de boa vontade, pelo comércio local, porque as tiragens eram grandes e todo mundo passava os jornais de mão em mão. Os que eu mais gostava eram “O Detetive” e “O Disco Voador”, por motivos óbvios, mas também lembro de “O Oião”, que tinha a imagem de um olho enorme. Ainda lembro de cor um versinho de pé-quebrado que fizeram com meu pai: “Nilo Tavares / parecendo o satanás / paletó lascado atrás / na festa”. Era a moda dos paletós com um corte vertical na parte traseira, que em Campina, evidentemente, dava origem a todo tipo de piada impublicável. E lembro uma décima que fizeram mangando de Zé da Guia, funcionário dos Correios e Telégrafos: “Ó monstro da estratosfera / ó sacatrapo de angola / ó boitatá, tatu-bola / ó cara de besta-fera / se Satanás que te espera / de ti não der logo cabo / há de dizer: ó quiabo, / Zé da Guia do Correio / é um bicho muito feio / termina criando rabo!”.


2.

Eu me lembro que quando conheci os gêmeos Rômulo e Romero Azevedo toda a nossa conversa era um desfilar ininterrupto de informações e todo tipo de detalhes sobre cinema, e eu ficava fascinado porque até então (eu tinha 16 anos, eles 14) nunca tinha conhecido ninguém que fosse mais nerd do que eu. Eles falavam alternadamente; quando um fazia um ponto-parágrafo e respirava, o outro pegava a frase no ar e prosseguia. E sabiam tudo de cor (ainda sabem). Naquele tempo os telefones em Campina Grande tinham quatro algarismos. O da minha casa era 3666, e eles disseram: “Eita, é a tripla Besta do Apocalipse”. Eu perguntei: “E o de vocês?” Um deles respondeu: “Um Cão Andaluz e O Manto Sagrado”. Precisei de alguns segundos para deduzir que era 2853.

 

3

Eu me lembro que com uns oito anos de idade eu gostava muito de desenhar, e tia Adiza me dava de presente cadernetas, e uns livros-razão de contabilidade, sem utilidade, cheios de páginas em branco. Uma vez eu peguei uma dessas cadernetinhas de bolso, onde há um quadrado referente a cada dia do ano, e onde tinha o anúncio de um feriado eu fazia a ilustração correspondente. “Carnaval” – eu fazia um palhaço, as curvas das serpentinas, os pontinhos dos confetes... “Descobrimento do Brasil” – eu rabiscava mal e mal uma caravela, com as velas enfunadas e uma cruz na vela grande. Aí embatuquei, porque chegou um feriado cujo nome era: PENTECOSTES. O que diabo será isso? Depois de muito pensar, desenhei um cara barbudo, com chapéu de cowboy, pendurado numa forca. Alguém viu aquilo e me perguntou por quê, e se eu sabia o que era “Pentecostes”. E eu respondi: “Isso parece o nome de um ladrão de cavalos”.

 

4

Eu me lembro do meu primeiro relógio de pulso, que era da marca “Lanco” e tinha ponteiros luminosos. Fiquei tão entusiasmado com esse pequeno prodígio científico que durante meses mantive o costume de, deitado para dormir, no quarto escuro, olhar o mostrador por baixo das cobertas, a todo instante, para ver se ele ficava aceso mesmo. Depois, já com mais de 20 anos, tive um da marca “Fortissimo”, cujo grande charme, a meu ver, era a ausência de acento agudo, o que o transformava aos meus olhos em relógio importado. Se brincar, ainda deve estar guardado, sem pulseira, em alguma das minhas caixas de traquitanas.

 

5

Eu me lembro que em 1968, o auge dos Beatles, a gente se reunia na casa de Jakson e Marcos Agra para ouvir um programa na BBC de Londres. Ouvir rádios estrangeiras era uma prática comum naquele tempo, porque, como diziam alguns locutores, “música não tem idioma e a arte não tem fronteiras”.  Eu sabia que a BBC era uma rádio londrina, mas era tão abestalhado que ficava surpreso com o fato de eles se darem o trabalho de ocupar um horário inteiro com um programa em português chamado “Iê-iê-iê na BBC” – na minha cabeça a BBC era uma rádio como a Rádio Borborema, tinha somente um canal de transmissão. Lembro da noite em que nos reunimos todos para acompanhar a primeira audição do “Álbum Branco” dos Beatles, lançado naquele dia. Era uma novidade atrás da outra, e a certa altura o locutor disse: “E agora uma canção de George Harrison, intitulada ‘Meu Violão Chora em Surdina’”, e eu pensei: “Vige que título cafona”.

 

 

 

 






domingo, 19 de novembro de 2017

4288) "Sgt. Pepper's", 50 anos (19.11.2017)



Pois é, rapaz. Tenho trabalhado tanto que passei batido na comemoração dos 50 anos do disco Sgt. Pepper’s dos Beatles. Parece-que-foi-ontem que eu entrei na velha casa de Seu Armando e D. Djanira, em frente à Rodoviária velha de Campina, e Jakson Agra, com a compunção de um Papa lavando os pés de um mendigo na Semana Santa, me estendeu aquela preciosidade, deixando-me perplexo pro resto da vida.

Que povo todo era aquele? E os Beatles, de bigode? Vestidos de filarmônica antiquada? As letras impressas no verso do elepê?!

Esse capítulo das letras é histórico, porque até então a gente dependia, para cantar as músicas dos Beatles, de revistinhas como Só Sucessos ou Vamos Cantar, nas quais confiávamos como um democrata confia na Constituição Federal. 

Ainda hoje canto músicas de um jeito errado porque decorei, por falta de opção, os monstrengos dadaístas que aquelas revistinhas tiradas-de-ouvido atribuíam aos rapazes, letras que deixariam três deles mortificados e Lennon, possivelmente, cofiando o bigode e pensando em mais um livrinho de poemas nonsense.

Enfim – o Netflix está oferecendo o documentário It Was Fifty Years Ago Today, dirigido por Alan Parker, cheio de entrevistas em que contemporâneos e amigos dos Beatles falam sobre a efeméride.

São figuras com conhecimento dos fatos em primeira mão, como o biógrafo Philip Norman (autor da excelente biografia Shout!), Bill Harry (autor da indispensável Beatles Encyclopedia), Julia Baird (irmã de Lennon) e vários outros.

Eles falam, sem muita informação nova, sobre os assuntos da época: a celeuma do “somos mais famosos do que Jesus Cristo”, a homossexualidade e as depressões de Brian Epstein, a encheção de saco da banda com as turnês, a breve filiação ao guru Maharishi (que nem os conhecia, sabia apenas que eram celebridades ricas).

Bem, são cinquenta anos, e eu não sou um fã dos Beatles, sou um mero admirador à distância. Anotei algumas coisas que eu não sabia, e peço aos verdadeiros fãs que me poupem cartas dizendo que TODO MUNDO já sabia esses detalhes.

Philip Norman é o autor de Shout!, o melhor relato das trapalhadas financeiras e contratuais em que Epstein e os Beatles se meteram por inexperiência, o que fez com que, mesmo milionários, eles tivessem ganho apenas uma fração do dinheiro que produziam.

Ele lembra que o pai de Paul, Jim McCartney, tinha uma banda de jazz chamada de “Jim Mac Jazz Band”, e mostra a foto de um grupo de pessoas em torno de um bombo de fanfarra, que pode ter sugerido ao filho, anos depois, o layout da capa do disco mais famoso.



Barbara O’Donnell, ex-secretária da Apple Records, lembra que durante a gravação do disco George lhe trazia as letras das canções assim que ficavam prontas, para que ela as datilografasse e as letras pudessem ser distribuídas para quem precisasse delas. “E os manuscritos originais,” diz ela, “foram todos para a lata de lixo, só ficaram as versões copiadas à máquina... ah, se eu soubesse!”.

O que é uma pena, e torna ainda mais meritório o trabalho do próprio George Harrison. A coisa mais interessante do seu volume de memórias I Me Mine (New York: Simon and Schuster, 1980) é a reprodução em fac-símile dos manuscritos de 83 letras de canções suas, nos mais variados tipos de papel. George era um “guardador” emérito: de “Within You, Without You”, sua única colaboração no disco, escapou apenas um pedaço, com fragmentos das duas primeiras estrofes.



O biógrafo Hunter Davies diz que estranhou não haver nenhum jogador de futebol na capa do disco, e só então constatou que nenhum dos Beatles era fã de futebol. Ele pressionou um pouquinho, e Lennon escolheu Albert Stubbins, um artilheiro do Liverpool durante a década de 1940. Mas não por isso, e sim porque achava o nome dele engraçado. (Ele é o cara sorridente por trás de Marlene Dietrich, na capa do disco.)


Bill Harry menciona que eles queriam ter posto na capa do disco um quadro de Magritte, de quem Lennon era fã, onde aparece uma maçã verde, mas por alguma razão não foi possível. (Não fica claro qual era o quadro, se era “La Chambre d’Écoute”, “Le Fils de l’Homme” ou outro.) A maçã verde de Magritte acabou sendo usada depois como o símbolo da Apple Records.


(La Chambre d'Écoute)


(Le Fils de l'Homme)

Outra entrevista interessante é a de Pete Best, o baterista que foi substituído por Ringo Starr. Esse músico teria todos os motivos para ser um cara amargurado, mas vi umas duas ou três entrevistas de TV que Geneton Moraes Neto fez com ele em diferentes décadas, e ele sempre me soou um cara tranquilo consigo mesmo. Ele assimilou o fato de não ter se tornado um Beatle.

No filme Best fala que seu avô serviu na Índia e tinha várias condecorações militares que a mãe dele mostrava a John, Paul e George, quando Pete tocava na banda. Quando a capa do disco estava sendo preparada, Lennon achou que as medalhas iriam combinar com as túnicas militares usadas pelos Beatles e mandou pedi-las emprestadas. A mãe de Best as enviou, mas disse (em tradução paraibana); “Tem dois V: vai e volta.” As medalhas estão lá, usadas pelos Beatles; e foram devolvidas à família. Pode ter sido um mero capricho figurinístico, mas também uma maneira delicada de dar um alô ao antigo companheiro.



É interessante a discussão entre McCartney e um jornalista de televisão sobre o LSD, que Paul afirma ter tomado pelo menos quatro vezes. O jornalista pergunta se ele não acha que, como figura pública, está incentivando outros a usarem a droga. E Paul responde:

– Olha, por mim eu nem falava nisso. É uma questão minha, pessoal. Quem está perguntando é você, e eu prefiro sempre falar a verdade. Se você acha que o que eu digo pode prejudicar a juventude, então não divulgue minha resposta. 

Não é de hoje, 2017, que a imprensa gosta de fazer perguntas indiscretas e depois punir os entrevistados por darem respostas sinceras.

Outro episódio pitoresco que mostra bem o temperamento comedido e racional de Harrison. Quando foram a Bangor seguindo o Maharishi, os Beatles, sem nenhum assessor, apenas com o biógrafo Davies, foram a um restaurante e no fim NINGUÉM tinha dinheiro nos bolsos para pagar a conta. Os Beatles não pegavam numa nota de libra há anos – havia sempre alguém com eles encarregado de saldar as despesas.

Houve um momento de tensão, e então George pôs o pé em cima da mesa do restaurante, pegou uma faca, abriu o solado da sandália oriental que estava usando... e produziu uma nota de 20 libras. E disse: “A gente nunca leva dinheiro, e eu sempre achei que algo assim ia acabar acontecendo”.

No final, Simon Napier-Bell dá um conselho interessante: ouçam o disco em mono, não em estéreo. Durante a mixagem final os Beatles não estavam em Londres, estavam na Índia, e todas as decisões finais que tomaram em conjunto sobre o som foi a partir de amostras em mono que eram enviadas para eles.

O último comentário relevante sobre o disco em si é de Ray Connolly: se os Beatles tivessem incluído “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever” no disco, ele seria o melhor de todos os tempos. Essas duas músicas foram gravadas entre novembro e dezembro de 1966, e lançadas em “compacto simples” em fevereiro de 1967, quatro meses antes do álbum. Em vez de treze faixas, o disco poderia ter quinze, com a adição de duas canções peso-pesado. E a história seria outra.









sábado, 24 de outubro de 2009

1316) “Sergeant Pepper’s” (1.6.2007)




“It was twenty years ago today...” 

Não, não foi há vinte anos, e sim há quarenta. Em 1 de junho de 1967 a gravadora EMI colocou nas lojas um LP dos Beatles com o excêntrico título (para a música da época) de Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band. A capa era mais excêntrica ainda: os quatro Beatles apareciam todos de bigode, vestindo uns uniformes de banda-de-música, cheios de galões, dragonas e alamares – e cercados por uma colagem de fotos de gente que passamos as semanas seguintes identificando e anotando num caderno. 

Outra excentricidade: o disco tinha capa dupla, abria-se ao meio como um álbum, e (eu não quis acreditar quando vi, considerei aquilo um favor pessoal de Deus para comigo) as letras vinham todas impressas na contracapa. Escusado dizer que decorei todas, e sei a maioria até hoje.

Quem me revelou o Pepper’s foi o saudoso e sempre presente Jakson Agra, na sua casa da Rodoviária Velha. No tempo do Cineclube de Campina Grande, era ali que nos reuníamos para ouvir música e conversar sobre cinema, poesia, política, e tudo o mais. (Para que ninguém pense que éramos uns intelectuais pedantes, vale lembrar que também jogávamos pôquer e Olho Vivo, comíamos rapadura com coco verde, e falávamos da vida alheia). 

Sergeant Pepper’s, com sua profusão barroca de orquestrações e efeitos eletrônicos, ícones “pop” e “melting pot” político, era a cara daquele tempo. Foi a primeira e talvez única vez em que uma capa de disco popular fotografou um século por inteiro.

O disco foi repetidamente eleito como o “melhor disco de rock” de todos os tempos, embora de rock mesmo ele tenha muito pouco. (Prefiro a distinção de Roberto Muggiatti, de que “rock-and-roll” é o que Chuck Berry e Elvis Presley faziam, e “rock” é o que os Beatles inauguraram nessa época) 

Hoje, há um consenso em achar que Revolver (1966) lhe é musicalmente superior (com o que eu concordo), mas Pepper’s introduziu o “disco conceitual”, sendo composto e gravado como se se tratasse do trabalho de uma banda fictícia, com as canções se sucedendo sem interrupção. Teve seus excessos, que as gerações de roqueiros futuros, previsivelmente, e sensatamente, desancaram.

O fato é que os Beatles são um desses casos raros em que alguém conquista dinheiro e poder quase ilimitados, e em vez de utilizá-los apenas para seu próprio lazer e enriquecimento, prefere reinvestir tudo aquilo nos seus próprios meios de produção, e muda para sempre uma arte, um mercado, uma visão do mundo. 

Nesse momento em que podiam tudo, os Beatles introduziram na música popular o experimentalismo eletrônico, a filosofia oriental, o cinema de vanguarda e muito mais. Criaram pontes entre universos que até então se ignoravam. 

As portas que eles abriram há quarenta anos nunca voltaram a se fechar, e são tão largas que a galera que veio depois achou desnecessário abrir outras. A música “pop” de hoje, a boa e a ruim, é filha daquele disco.