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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

2367) Noites de Autógrafos de Reinaldo (7.10.2010)



Não entendo por que motivo ninguém leva os humoristas a sério. Vejam o caso do carioca Reinaldo, por exemplo. É um intelectual, conhecedor da melhor literatura, músico de jazz, mas o público só pensa nele como aquele sujeito de óculos que se veste de flamingo-cor-de-rosa no programa Casseta & Planeta. A própria imprensa, se exigida a apontar um intelectual na família, provavelmente indicará algum dos seus irmãos, como o escritor e tradutor Rubem Figueiredo ou o jornalista Cláudio Figueiredo, autor de uma ótima biografia do Barão de Itararé. E no entanto, e no entanto...

Noites de Autógrafos, o novo livro de Reinaldo (Editora Desiderata, Rio, 2010) é um passeio pelo mundo-pesadelo dessas ocasiões aparentemente festivas, em que o autor de um livro se submete à mortificação pública de ficar sentado, escrevendo dedicatórias para desconhecidos que ele logo descobre com horror tratar-se de amigos de infância, irreconhecíveis por trás de uma barba ou da ausência dela. Não há tormento maior para um autor do que perguntar, timidamente: “E o teu nome, como é?...”, apenas para ouvir algo como: “Ora, sou Fulano, teu editor, que publicou esse livrinho aí”.

Sem falar nos muitos casos em que a gente troca Leila por Lélia, Edilson por Adilson, coisas assim. Pensando nisto, as livrarias adquiriram o hábito de, na venda do livro, perguntar o nome do comprador e anotá-lo num papelzinho, para socorrer o infeliz. Mas basta o sujeito ter tomado uns chopes com o autor cinco anos atrás, para afirmar, confiante: “Não precisa! Somos amigos.” E não se sabe qual a decepção pior, a do autor ao constatar que não lembra ou a do fã ao descobrir que não é lembrado.

Parece que estou fazendo cerca-lourenço, mas não: o livro de Reinaldo é exatamente para explorar todas as gafes e desencontros possíveis nessas ocasiões. Só que, aqui, com autores consagrados. Stevenson escreve: “Para o dr. Jekyll, excelente figura humana...” enquanto Mr. Hyde brota do smoking do outro, facão em punho. Kafka contempla a barata morta diante da mesinha, junto à placa: “Esta livraria foi dedetizada”. Dom Quixote e Sancho pressionam Cervantes: “Autografa logo, porque o cavalo e o burro ficaram mal estacionados”. Jorge Luís Borges, cego, espera em vão numa mesa no centro de um enorme labirinto vazio. Machado se alegra ao ver um esqueleto: “Brás Cubas! Quem é morto-vivo sempre aparece!”. Ariano Suassuna, pedindo um autógrafo a Luís Fernando Verissimo, faz um longo discurso armorial diante do silêncio do colega.

São 61 cartuns com estes e outros personagens envolvendo-se em pequenas confusões e perplexidades diante de um livro a ser autografado. (Meus preferidos são os que envolvem Clarice Lispector, Ivan Lessa, Thomas Pynchon, Millôr Fernandes, Sartre, Lima Barreto). Todos com o traço anguloso e preciso de Reinaldo, todos revivendo a antiga arte de fazer da tragédia alheia a nossa comédia.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

1301) Reinaldo é nosso Rei (15.5.2007)



Quando ele apareceu no Pasquim, seus cartuns eram à base de texto, de piadas verbais, com bonequinhos resolvidos em poucos traços. Na época era costume adivinhar influências; eu dizia que o estilo de Reinaldo era uma imitação do de Dave Berg, da Mad. Os amigos retrucavam: “Tá maluco, não tem nada a ver”. De fato, o desenho não tinha nada a ver, mas o humor dos dois estava todo nos baluns, que em vez de apontar para personagens bem poderiam estar apontando para palavras: “Marido”, “Esposa”, “Guarda de Trânsito”.

O tempo passou e Reinaldo foi evoluindo, ou terá sido a minha percepção das coisas que se refinou. Saiu do Pasquim e fundou, com Hubert e Cláudio Paiva, o Planeta Diário – que os pernambucanos, bairristas como eles só, dizem ser uma simples imitação do recifense Papa Figo de Bione e Zé Teles (e pode até ser, visto que Teles é de Campina Grande). Depois, juntaram-se à turma de Bussunda, Marcelo Madureira “et caterva”, e criaram o Casseta & Planeta que hoje pontifica na Rede Globo. Tornaram-se milionários, e hoje todos têm contas bancárias nas Ilhas Cayman e vivem em condomínios fechados na Barra da Tijuca. Reinaldo, por exemplo, mora numa mansão desenhada por Steinberg. Diversificou suas atividades, que hoje incluem vestir-se de mulher diante de 50 milhões de telespectadores e tocar numa banda de jazz, embora esta última possa ser uma simples desculpa para que ele possa sair de casa à noite e retornar ao amanhecer exibindo leves traços de descoordenação motora.

A Teoria da Evolução pode ser confirmada cientificamente no livro Desenhos de Humor (Rio, Desiderata, 2007), que reúne em pouco mais de 120 páginas uma amostra de como a produção do desenhista se sofisticou tecnicamente. Alguns trabalhos são do tempo do Pasquim: aqueles baluns com vários hectares de extensão e texto em letras de imprensa que parecem ter sido traçadas com uma caneta-tinteiro antiga, daquelas Compactor ou Parker 51. A variedade de estilos é surpreendente, quando os desenhos são vistos de uma assentada só, comprimidos num espaço restrito (o único defeito do livro é não ter umas 600 páginas). Há inclusive uma seção sobre jazz, onde o autor afirma ser o único cartunista de jazz do país. Dois policiais contemplam um sujeito amarrado e de olhos vendados, sob uma lâmpada acesa pendurada no teto; um deles empunha um contrabaixo acústico e diz: “Chefe, acho que agora ele fala”. O outro brutamontes concorda: “É... Todo mundo começa a falar na hora do solo de contrabaixo”.

É um clichê dizer que o Brasil é “top de linha mundial” em três coisas: futebol, música popular e novelas de TV. A estas três categorias poderíamos juntar “humor gráfico”, ou que nome se queira dar ao que faz essa turma do verbo e do traço. Desde que Millôr, Appe e Borjalo começaram a me abrir os olhos no Cruzeiro e na Manchete Esportiva, nunca mais parei de tirar meu chapéu de linhas pontilhadas para esta galera cuja profissão é correr o risco.