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sábado, 27 de junho de 2026

5241) Alexei Bueno, 1963-2026 (27.6.2026)



 
Um antigo provérbio africano diz que a morte de um ancião equivale ao incêndio de uma biblioteca. É mais ou menos a isto que corresponde a partida de Alexei Bueno, se bem que ele não chegou a ser ancião. Morreu ontem aos 63 anos; o destino o poupou de chegar à velhice; tê-lo-ia poupado também se chegasse aos 120, porque tinha um espírito indomavelmente jovem. 
 
Jovem com tudo que isto implica de orgulhoso otimismo, de impulsividade, de felicidade guerreira, e de uma temerária fé em si próprio. Como a fé dos jovens de vinte anos que vestem uma farda, empunham uma arma, e partem para o campo de batalha pensando: “Morrerão todos, menos eu”. 
 
Ontem, durante uma reunião de trabalho, uma amiga me perguntou se eu conhecia Alexei. Falei, com a minha obrigatória jovialidade: “Claro, já bebi muito com ele”. E recebi a notícia de que ele estava internado, e nas últimas. Meu dia continuou, mas está até agora com uma metade faltando. 
 
Na verdade, nem fomos tão próximos assim; tínhamos aquelas amizades de um-encontro-por-ano, muitas vezes em função de nossa presença num colóquio literário, lançamento de livro, esses eventos providenciais que nos arrancam da poltrona e da página. Benditos eventos, que nos fazem conhecer pessoas assim. 
 
Tínhamos alguns territórios espirituais em comum: Glauber Rocha, Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos... E principalmente aquela arte milenar e quebradiça: a poesia rimada e metrificada, a poesia de forma fixa, cada vez mais empurrada para o fundo do palco, para longe dos holofotes e das câmeras, cada vez mais substituída pelo que muitos chamam de “verso livre” e que na verdade tem tanta liberdade quanto as crianças ferais criadas no mato pelos lobos.  
 
O poema de forma fixa, com estrofe, rima, métrica, é uma arte delicada e difícil, mas para quem a cultiva é fácil como uma bolha de sabão. Dele se pode dizer o que Chesterton dizia de uma taça de vidro: se lhe derem uma pancada, faz-se em pedaços, mas se a deixarem em paz durará mil anos. 
 
É ao mesmo tempo, a mais frágil e a mais duradoura das artes. 
 
Frágil porque depende de um senso absoluto de regularidade e rigor; basta uma sílaba ou uma sonoridade fora de lugar para desequilibrá-la por completo, como um tijolo mal posto que faz ruir um arranha-céu. 
 
E duradouro porque corresponde a um impulso indomável do espírito humano: o nosso impulso de ordem, tão crucial quanto o de desordem. O impulso que nos leva a procurar essa esquisita sensação de paz que nos produz a contemplação das formas harmoniosas, as estruturas simétricas, as cadências jubilosamente previsíveis. 
 
A poesia rimada e metrificada nos dá o mesmo prazer das rendas em labirinto, dos cravos bem temperados, dos vitrais em rosácea, dos grandes painéis com perspectiva renascentista. O sonho de um universo que se eleva na direção da harmonia, e não na direção do tumulto como ocorre na vida real. 
 
É uma contradição, é claro, mas não me sai da cabeça quando penso que ninguém cantou tão bem esse conúbio entre Ordem e Desordem quanto o nosso gótico-científico Augusto dos Anjos, e que a Paraíba deve a Alexei a mais criteriosa edição dos poemas e prosas do poeta do tamarindo. 
 
Alexei nunca foi uma pessoa fácil, e já o vi travando embates verbais portentosos em torno de poesia, de política, de História do Brasil, de ruas antigas do Rio de Janeiro, do prato de tira-gosto ainda fumegante. 
 
Gostava dos enfrentamentos, sentia-se à vontade ao terçar armas contra um adversário qualquer, fosse um amigo do peito ou um oponente de ocasião. Era o prazer do combate que o arrastava, o prazer de quem testa os próprios músculos empurrando uma parede que um dia há de ceder. 
 
Indivíduos assim são muitas vezes chamados de dogmáticos, radicais, impositivos... Indivíduos que não relaxam, não tergiversam, jogam cada frase na mesa como se fosse um ás de trunfo. Se Alexei fosse um time de futebol, ai do tiro-de-meta do adversário. 
 
Falo isso com admiração e cautela, porque sou o contrário disso, procuro ser líquido, adaptável. Já Alexei parecia um cara que conheci na juventude, em Campina Grande, igualmente competitivo, igualmente pintado para a guerra, e que uma vez foi participar de um debate com outro professor e abriu dizendo: “Diga alguma coisa para eu ser contra”. 
 
Talvez por isso mesmo nosso diálogo fluísse tão bem, porque na verdade ele era um poço subterrâneo jorrando idéias sem parar, e a nós bastava uma pequena provocação, uma pergunta fingidamente capciosa, para que ele desembestasse numa banguela de argumentações, citações, referências, arrazoados, digressões maledicentes e divertidas. 
 
Sei que era bibliófilo, e tinha uma biblioteca magnífica, caso sejam verdadeiras todas as aquisições de que se vangloriava. Gabar-se de suas estantes é um cabotinismo inocente de todos os que pensam que os livros salvarão o mundo. Uma vez fui me gabar de que acabara de ler um livro de Vivaldo Coaracy sobre o Rio de Janeiro; Alexei produziu um comentário de quinze minutos que me fez voltar para casa e abrir o livro de novo no capítulo um. 
 
Falei um dia: “Você não me chama para beber na sua casa porque tem medo que eu furte algo de sua biblioteca”. Ele me garantiu que não tinha medo de nada, quanto mais disso, e que um dia me daria acesso a sua Golconda. Agora não dá mais. Levou-a consigo. 
 
***
 
EPISÓDIO
(Alexei Bueno, em O Sono dos Humildes, Ed. Patuá, 2021)
 
Um muito pequeno inseto
pousou no balcão do bar.
Informe, incolor, abjeto,
um nada, uma nódoa a andar.
 
Com um copo sujo esmaguei-o.
Ao vê-lo imóvel, extinto,
que estranha impressão me veio,
que absurda dor, e ainda a sinto.
 
Mas vi que ele se mexia,
nem sei qual parte. Elas, juntas,
nada eram. No entanto eu via
nelas a vida, ex-defuntas.
 
Com o mesmo copo animei-o –
com a borda – e ele se mexeu.
Depois andou, com receio,
e, súbito, ei-lo no céu.
 
O ponto morto voava,
e eu, outro átomo esquecido,
via-o. E ele, do ar, me dava
um nada, um tudo, um sentido.
 


 






quinta-feira, 3 de abril de 2025

5168) Brasileiro vende quase tudo (3.4.2025)



 
O brasileiro nasceu para ser comerciante, negociante. Acredito que existe sangue fenício entre nós, não porque tenha visto provas genéticas disto, mas porque cresci ouvindo dizer que fenício e comerciante são sinônimos. 
 
O brasileiro vende tudo? Não propriamente: mas o brasileiro acredita que tem comprador para tudo. 
 
Morei alguns anos no Catete, ali entre a Nona Delegacia e a Pedreira da Glória. 
 
Andava muito pelos arredores, que amo até hoje. O zero cartesiano do meu Rio de Janeiro fica no Largo do Machado. 
 
Frequentei muito a Biblioteca da Glória, na rua homônima, num prediozinho discreto, diante da calçada cheia de árvores de onde Pedro Nava deu adeus. 
 
As calçadas da Glória são geralmente largas, como eram as calçadas numa época em que os pedestres eram mais numerosos do que os cabriolés.  São especialmente largas naquele trecho em frente ao Palácio do Bispo. 
 
Recém-desembarcado no Rio, eu era (ainda sou) curioso com um monte de coisas que os autóctones nem ligam, porque aquilo faz parte da vida deles há mais de 400 anos. Mas é assim mesmo. Os que vêm da Europa se maravilham com maracujá, capivara, marimbondo, espada-de-são-jorge, jabuticaba, sagüim. 
 
Eu me maravilhava – não com a natureza local, mas com a cultura. Os nativos estendiam lonas bem largas na calçada, diante do Palácio do Bispo, com um tijolo em cada canto, e ali distribuíam coisas à venda. Eu parava e ficava computando. 
 
Um par de tênis usados, quatro torneiras enferrujadas, lápis de todos os tamanhos e às vezes sem ponta, óculos arranhados, sandálias havaianas às vezes desemparelhadas, um calidoscópio, três canecas de louça, dois pratos de ágata, um álbum de fotos, quatro sutiãs, vários gibis da Mônica. 
 
A vendedora era às vezes uma mulher de seus 60 anos, sentada no meio-fio, pano amarrado na cabeça, cigarro no dedo. Bastava a gente parar e ela abria um sorriso incompleto e fazia um gesto largo abrangendo tudo: 
 
-- Pode olhar, meu fio!... Pode escolher! 
 
O brasileiro acredita que existe comprador para tudo. E deve mesmo existir comprador para alguma daquelas coisas, porque senão aquela senhora não se animaria a descer a ladeira de Santo Amaro e expor seus cacarecos-relíquia. 
 
Alguma coisa ela devia vender! E no fim do dia, ao recolher aquela enorme trouxa sacolejante, podia parar ali mesmo na Padaria da esquina e comprar 3 ou 4 pães. Só quem já precisou de um pão sabe o que valem três ou quatro. 
 
No outro dia eu passava e mais adiante estava uma lona também sortida, vigiada por um guri de boné pra frente com uma marmitinha do lado.
 
Uma panela de pressão com tampa, um oratório de madeira faltando uma banda, três pentes e uma escova, um mapa do Brasil plastificado, duas tampas de ralo de pia, um montinho de camisetas passadas a ferro, alguns passarinhos de plástico, um chapéu preto com peninha na fita, um colete de seda, um copo de liquidificador, uma imagem do Padre Cícero, um desentupidor de pia, alguns cadernos de espiral cheios de lições copiadas, uma gravata borboleta. 



 
Existe uma lei não-escrita do comércio que diz mais ou menos assim: se você tem 200 coisas para vender e são 200 cachimbos, você só atrai um público, o dos compradores de cachimbo. Mas se você tem 200 objetos para vender e ali tem cachimbo, vaso de louça, livro, anágua, copo, prato, chinelo... você tem mais chance de vender alguma coisa. 
 
Variedade rima com oportunidade. 
 
Claro que isto não era somente na Glória. A minha querida Rua do Catete era mostruário permanente para vendedores de livros e de elepês de vinil que viram várias vezes a cor da minha carteira. Ainda hoje começa ali um próspero mercado-persa, na esquina de frente para o MacDonalds e de quina para o caldo de cana. Mas daí em diante já são tendinhas, são barraquinhas que vão até o Cine São Luiz. Já é um comércio mais profissionalizado, mais com-estrutura. 
 
O que me atrai são as lonas e as cobertas de plástico, estendidas no chão, ao ar livre. Talvez porque me evoquem os vendedores de folheto de cordel na feira de Campina. Folhetos, aliás, que rarissimamente vi pendurados em cordéis. Sempre os vi espalhados no chão com a capa pra cima, o vento da manhã fazendo drapejarem as páginas, como pequeninas bandeiras do país da imaginação. 
 
Pois é, fico poético quando vejo a poesia dessa esperança mercantil, dessa confiança de que basta expor na calçada uma coleira-de-cachorro sem cachorro para vendê-la. Há de haver em algum lugar da cidade uma pessoa com cachorro e sem coleira, capaz de parar, erguer as mãos pro céu e dizer: “Mas olhe só que sorte a minha!...” 
 
Uma coleira-de-cachorro sem cachorro, um par de bibelôs de pastorinhas, quatro canetas-tinteiro uma sem tampa, dois pares de sapato-alto feminino, um ralador de cozinha, um estetoscópio enferrujado, uma pilha de disquetes flexíveis, um cinturão com fivela redonda, um chuveiro Lorenzetti, uma bandeja retangular de plástico, uma chupeta de bebê. 
 
Outras minas inesperadas, mas promissoras, são os arredores da Praça da Cruz Vermelha (onde fica o Instituto do Câncer; arredores de hospitais são focos permanentes de aglomeração), as imediações da Central do Brasil, as saídas do metrô do Largo do Machado, alguns trechos de calçada larga na Rua México ou Graça Aranha... 
 
Uma bola de vôlei meio murcha, um monitor empoeirado, uma vitrola portátil com tampa, um espremedor-de-laranja de vidro, uma sombrinha estampada, uma figa da Guiné em madeira, uma pilha de máscaras de carnaval, quatro benjamins, um ferro elétrico, uma viseira verde de revisor, um porta-toalhas de madeira entalhada, uma pilha de CDs sem capa, meia dúzia de frascos de remédios, um telefone preto com fio, uma gravura emoldurada de Santa Luzia, vários rolos de fio elétrico de diferentes tipos, um porta-jóias em ferro fundido. 
 
A necessidade de vender alguma coisa por alguns trocados faz o pessoal arrebanhar essa troçada, trazer com esforço, arrumar com carinho, exibir com esperança. Se a gente pergunta, eles dão de ombros e dizem: “Nunca se sabe. Pode ser que interesse a alguém.” 





Um sociólogo argumentaria, com certa razão, que essas pessoas veem-se a um passo da mendicância, mas relutam em entregar-se a ela. Em vez de pedir, preferem oferecer algo em troca, preferem sentir que ainda têm algum poder de barganha, ainda participam de transações equitativas, toma lá, dá cá. Não é esmola. 
 
Isso constitui uma faixa muito específica do conceito “comerciante”, da rubrica “comerciante”. Não é simplesmente o cara habilidoso e lucreiro. Não é simplesmente o cara bonachão e regateador. Não é simplesmente o cara raposa e impiedoso com o vacilo alheio. Não é simplesmente o cara solene e crente de que está cumprindo uma missão social. 
 
É a pessoa que percebeu os mil mecanismos randômicos que movem o mundo e se entregou a eles, feliz como quem preenche com uns números quaisquer as dezenas da loteria, como quem faz sua aposta onírica na mesinha do bicho. 
 
Tudo é acaso, tudo é sorte e azar, tudo paira numa neblina de possibilidades. e tudo despenca na bigorna de uma surpresa. 
 
Não sabemos o que vai vender, nem quem vai comprar. Temos aqui os nossos produtozinhos, eles são espalhados e expostos ao dedo indicador do Acaso. Não sabemos se tem comprador pra tudo. Para alguma coisa, tem. 
 


sexta-feira, 1 de novembro de 2024

5118) Tavinho Paes, 1955-2024 (1.11.2024)



O Rio de Janeiro ficou menor, menos inteligente e menos alegre com a partida do poeta Tavinho Paes. Tavinho estava hospitalizado há um tempão. Acompanhei pelo Facebook as suas postagens relatando os exames, a angústia da espera (“quando vão liberar a cirurgia?”, "autoriza, Unimed!"), os adiamentos, depois o começo da sofrida recuperação. E então... um silêncio. E por fim a notícia. 

 

Nem fui dos que conviveram muito com ele, e não devo ter muitos episódios pessoais para contar. Eram encontros na rua, no bar, na festa, em camarim de show. Quem conviveu com ele foi o Rio, a cidade que ele percorria como uma lançadeira, sem parar, impedindo que as águas estagnassem. Principalmente a Zona Sul, é claro, porque foi ali que o conheci, provavelmente nas mesas da Pizzaria Guanabara ou nos agitos do CEP 20.000, que ele ajudou a fundar. 



Fizemos parte dessa misteriosa entidade chamada de Poesia Marginal. Num tempo em que todo mundo se batia para ser publicado pelas grandes casas editoras, houve centenas de poetas jovens que deram de ombros, e começaram a publicar seus versos de forma precária, mas por conta própria. Mimeógrafo, offset, xerox, cordel. 

 

Quando cheguei aqui no Rio, percebi que para o carioca em geral, inclusive a imprensa, “marginal” era sinônimo de assassino, ladrão, bandido, estuprador. O rótulo “Poeta Marginal” vinha tingido disso tudo. 

 

Surpresa para mim, que visualizava o mercado editorial como um rio poderoso, carregando em seu “mainstream” os empaletozados poetas oficiais, enquanto nós caminhávamos no mesmo rumo – mas na margem. 

 

Íamos a pé pela margem, porque naquele tempo (Drummond já se queixava) “era livre a navegação, mas proibido fazer barcos”. 



Tavinho tinha um barco – o barquinho de papel que salva todos os poetas – e tinha um vento próprio que lhe enfunava as velas: o vento da fala, da recitação, do riso, da conversa, o sopro de vida que muitas vezes nem lembramos quando lemos o livro de alguém, mas está sempre presente quando alguém sobe num palco (numa cadeira, num caixote, num degrau) e manda ver. 

 

Seu formato preferencial era o livreto, de que a bolsa estava sempre cheia. 

 

“Toma, toma esse aqui, é o mais novo, esse aqui também é bom, leva dois, esse aqui eu lembro que você já tem, mas leva mais um e passa adiante.”  “Tavinho, eu estou sem bolsa.”  “Bota no bolso da calça. Você anda de metrô, que eu sei. Lê no metrô. Se gostar de alguma coisa, fica em pé e recita, grita, porra, acorda aquele pessoal.” 

 

Onde estão os livretos, agora que preciso deles?! Desaparecem no meio das estantes, nas gavetas, por entre as revistas, enfiados em algum livro grande. Livro pequeno é um problema. Os dele eram menores do que um folheto de cordel. 

 

“Isso aqui é um mini-cordel.”  “Chama do que você quiser, mas espalha, passa adiante.” “Você vende por quanto cada um?”  “Depende, não é essa a questão, vender é projeto, vender acontece, mas o importante é circular.” 

 

Vivia (penso eu) mergulhado naquela filosofia do “bendito quem semeia livros, livros à mão cheia...” 




E os recitais, que ele encarava com uma displicente segurança, mandando-ver com o destemor dos que têm na palavra falada o seu aviãozinho de papel. Aquela bossa de quem se sente à-vontade no fio da navalha do palco iluminado, e com aquele sotaque de malandro-erudito. 

 

Falei que ele circulava pela Zona Sul carioca?  Não tem problema, circulou por Campina Grande também, recitou nos meus bares, nos meus teatros, como quem se sente em casa. “Ô paraíba, tu tem música gravada por teu conterrâneo Genival Lacerda?...”  “Ih, rapaz... tenho não. Quem me dera.”  “Pois eu tenho.” 

 

Será que tinha mesmo? Não importa: ele tem música gravada pelo Trio Nordestino (“Parada Boa”) e eu não.  

 

É curioso, e triste, que em poucos dias a poesia carioca tenha perdido Antonio Cícero e Tavinho, dois poetas tão próximos e tão diferentes. 

 

Cícero era o filósofo, tímido em público, mas fluente e cristalino na escrita. O verso pensado, polido, engastado, mas na hora da leitura dando aquela impressão de que corre fácil como água da torneira. 

 

Tavinho era um camelô-de-si-mesmo, sempre com um livreto novo na ponta do braço e um trocadilho mordaz na ponta da língua. Criando e produzindo o tempo todo, dando a impressão de ser um barril transbordando, do qual a gente só percebia o que sobrava. E o que se derramava dava aquele barato que a gente só sente diante da frase brilhante, da frase salto-mortal. 



“Camelô” não é ofensa, e eu me chamo assim com frequência. O camelô descobre um belo dia que se não descer à calçada e apregoar sua água-de-coco as pessoas vão morrer de sede por não saberem que ela existe. 

 

Somos camelôs das redes sociais. Volta e meia estamos aqui compartilhando poemas, textos publicados, capas de livro, fotos de palestra, fonogramas gravados pelos amigos. Com esses tijolinhos (todos diferentes uns dos outros) estamos criando um edifício que não será nenhum Taj-Mahal – será algo que não existia antes e cujo formato final não chegaremos a ver. 

 

É a poesia que não se destina aos livros, mas à vida, ao momento, às pessoas de carne e osso. Algma coisa, claro, vai ter que resultar em livro, porque livro é uma coisa tão boa de se ter na mão, de se ter à vista, de entregar a alguém, de receber. O livro recolhe aquela parte que não se evaporou no fim de tantas conversas, tantos chopes, tantos cafés, tanto recitais, tantos bares enfumaçados. A poesia roda, roda, roda e acaba num livro, assim como a noite roda, roda, roda, e acaba no dia. 


A CIDADE DOS 1000 POETAS

Tavinho Paes

 

Eu nasci num subúrbio da maravilhosa

Cidade dos 1000 Poetas.

Nasci na noite do Iguana,

numa maternidade

ao sopé do Morro dos Ventos Uivantes

de cujo cume

o beato Sebastião via a ilha

que o cangaceiro Satanás cria ser real.


Minha mãe, naquela noite de luzes,

foi tão natural quanto a de Máximo Gorki.

 Meu pai,

cercado de famas e cronópios,

permaneceu acordado noite adentro,

fumando charutos da mesma marca

dos prediletos de Gabo

comprados naquela Tabacaria

que Pessoa via de sua janela.

Leia o resto aqui:

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/tavinho_paes.html 







sexta-feira, 11 de outubro de 2024

5111) João do Rio, o dândi carioca (11.10.2024)



Uma feliz coincidência entre dois fatos editoriais está trazendo à memória do leitor brasileiro (este amnésico contumaz) o nome e a obra de João do Rio, uma das figuras literárias mais curiosas de sua época. 

O primeiro fato é a publicação da coletânea Pavor Dentro da Noite (Editora Bandeirola~, SP), uma seleção de contos sombrios e mórbidos do autor, dentro da série “Clássicos Vintage” da editora, em sua linha de mistério. A pequena edição em capa dura traz prefácio de Hedjan C. S., posfácio de Julio França e fotos de Marc Ferrez. 

O segundo, last but not least, é a escolha do cronista como homenageado da Flip, a Festa Literária de Paraty. É um tipo de celebração sempre bem vindo, pois acarreta, se não uma corrida generalizada aos balcões de livraria, pelo menos um certo aquecimento nas discussões, análises e avaliações da obra do autor. 

João do Rio foi um contista-cronista típico dessa forma híbrida da prosa brasileira: o texto curto que ora é narrativo ora é reflexivo, oscila entre a história-onde-acontece-alguma-coisa e a elucubração íntima do narrador. O conto narra, a crônica comenta: não é de admirar que sejam muito raros os textos em que as duas tendências não aparecem misturadas. 

Seu nome era (há versões divergentes) João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, mas ele o reduziu ao thumbnail Paulo Barreto (hoje uma simpática rua de Botafogo, transversal da Voluntários da Pátria). João do Rio, o nome literário que criou para si mesmo, era mais popular, mais poético, mais verdadeiro. 

Digressão: Há em muitos artistas um movimento instintivo de atrelar ao seu nome o nome de sua cidade ou região. Alguns veem nisso uma forma de patriotada ou de bairrismo; penso, antes, que esse nome artístico – porque não é o mero nome cartorial, é uma identidade auto-construída – procura reconhecer o que há de tradição em toda novidade, e o que há de coletivo em todo indivíduo criador. 

Daí termos Robertinho do Recife, Fafá de Belém, Mississippi John Hurt, Martinho da Vila, João Pernambuco, Memphis Slim, Salgado Maranhão, Biliu de Campina...

João do Rio foi um contemporâneo de Lima Barreto; enfrentou problemas parecidos (como o racismo) mas acabou se saindo melhor do que o autor de Isaías Caminha – romance no qual, ao que se diz, Lima o retratou com outro nome. Praticou um jornalismo pioneiro indo à rua, indo aos morros, indo aos becos, anotando as falas do povo, produzindo inclusive um trabalho fundador sobre a religiosidade popular, As Religiões no Rio (1904). 



Pavor Dentro da Noite é uma filtragem de seus contos, feita pela editora Bandeirola, selecionando – para uma coleção voltada para histórias sombrias, de mistério, de terror – algumas das suas narrativas mais próximas do insólito, do mórbido, a maioria das quais extraídas do volume Dentro da Noite  (1910). 

 

E nestas narrativas emerge o João do Rio dândi, afetado, sibarita (como se dizia na época), estroina (como se dizia na época). O jornalista que não ia apenas aos morros ou aos terreiros de Umbanda, mas frequentava o café society, os restaurantes chics, as casas de chá, os salões elegantes, as mansões aristocráticas. 

Nesses momentos, era o jornalista com peso na pena. Era bem tratado, paparicado, por mais que fosse “gordo, amulatado e homossexual”, conforme o teria retratado o Barão do Rio Branco. Não importa – imprensa é imprensa, poder é poder.  João do Rio, apesar de escarnecido e insultado, sempre bateu de frente com os outros poderes da época, sem sair de perto da sua sombra. Entrou para a Academia Brasileira de Letras aos 28 anos, morreu de enfarte aos 39, e seu enterro no cemitério de São João Batista foi seguido por 100 mil pessoas, em 1921.  




Os narradores de seus contos têm sempre algo de autobiográfico, e refletem a vivência “Dr. Jekyll e Mr. Hyde” do autor, que no início da noite podia estar jantando faisão com diplomatas e banqueiros, e horas mais tarde estar bêbado e disponível num frege das “ruas de má fama” (como se dizia na época). 

 

Perversões sexuais (“Dentro da Noite”, “A Mais Estranha Moléstia”), drogas (“Histórias de gente alegre”), cleptomania (“Aventura de hotel”), ninfomania (“O carro da Semana Santa”), aparecem lado a lado, nestas narrativas curtas, com traições políticas (“O fim de Arsênio Godard”), epidemias (“A Peste”), jogatina (“Emoções”), e flertes com o sobrenatural (“O bebê de tarlatana rosa”, “Pavor”). 

 

João do Rio nos faz entrever um Rio de Janeiro plebeu e degenerado que passava apenas ao fundo do cenário (suposto, subentendido) nos livros de Coelho Neto, Humberto de Campos, e mesmo de Lima Barreto. De certa forma, ele é precursor da ficção (também semi-jornalística) de João Antonio (Leão de Chácara, etc.), a ficção da convivência nos botequins baratos, na zona do baixo meretrício.  




Nestes contos, o “narrador” onipresente mostra como as classes altas, os granfinos, os rapazes e moças da sociedade, frequentam esses lugares em busca de bebida, de ópio, de éter, de sexo anônimo, não importa se pago ou gratuito. Os extremos sociais se tocam, se frequentam, se esfregam e se desfrutam mutuamente. Sem meias palavras e sem máscaras. 

 

Não há quem não saia no Carnaval disposto ao excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias. O desejo, quase doentio, é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente com uma... (...) Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e era uma desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparramando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar. Todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de demônios em frascos de álcool, que tem as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel de arroz.  

(“O bebê de tarlatana rosa”) 

 

Em “A mais estranha moléstia”, ele mostra um indivíduo de olfato ultra-sensível, que extrai prazer meramente do ato de sentir os cheiros mais variados, quase como o Grenouille de O Perfume, de Patrick Susskind. Todo o conto é uma exaltação ao olfato, chegando até os limites de sinestesia, da contaminação de um sentido por outro:

 

Ah! essa aflição que dá aos sentidos o cheiro de algumas flores, as violetas, cujas emanações são como sons de violino em noites de luar, as tuberosas. crispantes de cio, as rosas-chá que cheiram como carnes morenas, o resedá, a flor do resedá que o Fezensac cantou idiotamente num trocadilho e que entretanto guardam um frio e exasperante odor de gérmen fecundante, cheiro de marfim raspado... E, para notares a correspondência de cheiros idênticos nas coisas mais diversas, a flor que cheira a marfim, é também, cheiro resumo do cheiro inicial da vida, irmão odor do odor da semente criadora, estranhamente perdido entre as ervas... 

 

Nos contos aqui reunidos, João do Rio faz uma espécie de literatura que pode talvez ser chamada de “expressionista”, porque reproduz o mundo pressentido pela mente obcecada e distorcida de um personagem. O autor procura manter um certo distanciamento; ao contrário dos contos alucinatórios de Edgar Allan Poe, que são narrados pela própria vítima da alucinação ou da obsessão, João do Rio interpõe um narrador neutro entre o leitor e os fatos mórbidos que descreve. O narrador não é um indivíduo a quem sucedem coisas espantosas, é um ouvinte que atrai confidências espantosas. 

 

A literatura “Belle Époque” de João do Rio se prolongaria, após sua morte, em seguidores como Berilo Neves, ele também um contista-cronista especializado em salões de chá, recepções e jantares na alta sociedade – só que desta vez beneficiando-se das invenções da ficção científica da época. Os personagens de Berilo Neves pegam espaçonaves para tomar o chá das 5 na Lua, ou fazem sessões grupais de máquinas leitoras do pensamento (e, claro, reveladoras involuntárias de adultérios). No espaço entre João do Rio e Berilo Neves, a literatura transferiu-se por completo dos becos da Lapa para os salões de Botafogo. 

 










quarta-feira, 9 de outubro de 2024

5110) João do Rio versus Arsène Lupin (9.10.2024)




A FLIP, de Paraty, homenageia este ano o carioquíssimo João do Rio, um dos grandes talentos da nossa literatura de 100 anos atrás. A chamada “literatura Belle Époque”. 

A Editora Bandeirola (SP) lançou há pouco o volume Pavor Dentro da Noite (Ed. Bandeirola, 2024), que reúne contos do autor que se alinham com a linha de "mistério" na coleção "Vintage" da Editora. 
 
Curiosamente, “Aventura de hotel”, um dos contos de João do Rio em Pavor Dentro da Noite, me lembrou insistentemente um conto que não seria impossível João do Rio ter lido nessa época. Não me refiro a plágio, e sim ao caso do autor que pega de outro uma situação básica, cotidiana, e tenta desenvolvê-la em linhas diferentes. 
 
“Aventura de hotel” mostra uma situação clássica de “círculo fechado”: um hotel carioca –  com hóspedes meio ricos, meio remediados, mas cosmopolitas e metidos a chique – onde começam a acontecer roubos inexplicáveis. 
 
Os sustos, as desconfianças, as ironias do narrador, tudo lembra bem de perto “A prisão de Arsène Lupin” (1905), o primeiro conto de Maurice Leblanc onde aparece o famoso ladrão de casaca, praticando furtos de jóias durante uma viagem transatlântica, onde convivem socialites, militares, comerciantes ricos, diplomatas, etc.  Já o conto de João do Rio saiu em 1910.


 
Repito, não se trata de plágio nem de imitação barata. Trata-se de um recurso que todo escritor emprega: “Mas que idéia interessante... Um ambiente fechado, gente cheia da grana... um ladrão invisível... Posso fazer algo diferente com isto”. E muitas vezes a variante é melhor que a original. 
 
Vou comparar alguns detalhes, que não são exatamente iguais, claro, mas contribuem do mesmo modo para a criação de uma atmosfera, a evolução de um enredo. 
 
Maurice Leblanc:
 
O “Provence” é um transatlântico rápido, confortável, comandado pelo mais afável dos homens. A sociedade mais seleta achava-se aí reunida. Travavam-se relações, organizavam-se divertimentos. 
(Arsène Lupin, Ladrão de Casaca, Ed. Vecchi, 1951, trad. (João Távora)
 
João do Rio:
 
Naquele hotel da rua do Catete havia uma sociedade eclética, mas toda bem colocada. (...) Havia eletricidade em todos os quartos, um aparelho de duchas no terraço de cima e um cozinheiro chinês. 
 
No conto francês, o comandante é alertado de que o famoso ladrão Arsène Lupin está a bordo, disfarçado. Jóias e outros objetos de valor começam a desaparecer, tanto do narrador quanto de outros hóspedes.
 
Maurice Leblanc:
 
Lady Jerland, amiga de Miss Nelly, entrou correndo. Estava fora de si. Cercamo-la, e só depois de muito esforço ela conseguiu balbuciar: 
– Minhas jóias, minhas pérolas!... Roubaram tudo!...
Não, não haviam roubado tudo, como verificamos logo em seguida. Coisa muito curiosa: tinham escolhido! 
 
João do Rio:
 
(E)u que nessa noite não saí de casa, ao subir antes do chá, encontrei no corredor apenas o velho Melchior muito abatido, fechei a porta por dentro, dormi e no dia seguinte dei por falta do meu porte-monnaie de prata. Coisa estúpida, afinal! O gatuno – porque era o gatuno, não havia dúvida – o gatuno ou farsista sem graça deixara a minha carteira e deixara até os níqueis, certo para mostrar que aquilo era seu, que aquilo estava ali porque ele voltaria. 
 
Os pequenos furtos se sucedem.
 
Maurice Leblanc:
 
O “Provence” foi esquadrinhado minuciosamente. Examinaram-se todos os camarotes, sem exceção, sob o pretexto, muito justo, de que os objetos deviam estar escondidos em algum lugar, salvo no camarote do culpado. 
 
João do Rio:
 
O medo prendia as senhoras no quarto. Ninguém saía sem necessidade urgente, com receio de ser apontado pelo menos um segundo, como o fora o Antônio. Éramos os forçados daqueles crimes, tínhamos que chegar à tragédia. O gerente, lívido, armava uma polícia interna ferocíssima, os criados serviam – coitados! – com uma humildade dolorosa, temendo a suspeita, o ex-vice presidente da ex-missão do México teimava em escrever ao chefe de polícia, em revistar os quartos. 
 
Como é inevitável em situações assim, alguém é escolhido como suspeito preferencial ou bode expiatório. No navio francês, o Sr. Rozaine; no hotel carioca, o criado Antônio. 
 
João do Rio:
 
Horas depois rebentava o escândalo. Pela manhã, madame de Santarém dera queixa por lhe terem roubado um face à main de madrepérola com incrustações de ouro sob desenhos, dizia ela, de um pintor húngaro. E o gerente pôs fora o criado Antônio, porque a ele faltavam também passadores de guardanapo – dois, três por dia. Antônio saiu protestando, furioso. 
 
Maurice Leblanc:
 
E, de fato, as investigações não deram resultado algum, ou, pelo menos, os que deram não corresponderam ao esforço geral. O relógio do comandante desapareceu.
Furioso, o comandante redobrou seus esforços e começou a vigiar Rozaine ainda mais de perto, interrompendo-o diversas vezes. No dia seguinte, ironia encantadora, encontraram o relógio entre os colarinhos postiços do imediato. 
 
João do Rio:
 
Passamos assim uma semana e, com grande pasmo nosso, madame de Santarém e a atriz Zulmira Simões, no mesmo dia, à mesma hora, encontraram em cima do lavatório, uma o seu face à main, outra o seu berloque.
– É uma aventura! É um caso de diabolismo! – sentenciava o negociante tuberculoso. O hotel convulsionava-se. 
 
Pouparei o leitor de mais exemplos, até porque o que interessa aqui, do ponto de vista da criação literária, não é a correspondência ponto-a-ponto entre dois textos, e sim o modo como um escritor capta a essência de uma situação inventada por outro, e percebe uma maneira de reproduzi-la, dando-lhe outro contexto social (e explorando este novo contexto de um modo que o autor original não teria como), inventando novas peripécias (não simplesmente para estabelecer diferenças, mas pelo prazer de inventar, prazer só entendido por quem inventa) , e dando àquela situação um tipo diferente de desfecho. 
 
É no desfecho que os dois contos divergem radicalmente. Do ponto de vista da originalidade narrativa, o conto de Maurice Leblanc é muito superior, inclusive prefigurando o que eu chamo de “Gambito Ackroyd” que Agatha Christie só botaria oficialmente em circulação anos depois, em 1926. 
 
Para maiores esclarecimentos quanto aos “gambitos” da narrativa detetivesca, um bom começo é este aqui (embora cheio de spoilers):
https://hypnoticmysteries.wordpress.com/2018/08/29/the-birlstone-and-other-gambits/




O conto de Leblanc teve uma ótima repercussão junto aos leitores, ao ser publicado na revista parisiense Je Sais Tout, em 15 de julho de 1905. 
 
É um conto policial (há um crime inexplicável – um roubo – cujo autor é revelado no final) em que surge praticamente pronto um dos personagens mais famosos da literatura. O biógrafo de Maurice Leblanc, Jacques Derouard, observa que este conto despretensioso, que Leblanc possivelmente nem pensava em usar como modelo, já apresenta acima de tudo o tom das aventuras de Lupin; e o personagem, com todo seu charme e seu humor cheio de surpresas. 
 
Arsène Lupin entre nós! O inalcançável ladrão cujas proezas enchiam as páginas dos jornais havia meses! A enigmática personagem com quem o velho Ganimard, nosso melhor policial, se tinha empenhado naquele duelo de morte, cujas peripécias se desenrolavam de maneira tão pitoresca! Arsène Lupin, o caprichoso gentil-homem que só operava nos castelos e nos salões e que numa noite, tendo penetrado em casa do barão Schormann, partira de mãos vazias, deixando o seu cartão com estas palavras: “Arsène Lupin, ladrão de casaca, voltará quando os móveis forem autênticos”. Arsène Lupin, o homem dos mil disfarces: chofer, tenor, “bookmaker”, filho de família, adolescente, velho, caixeiro-viajante marselhês, médico russo, toureiro espanhol! 
(“A prisão de Arsène Lupin”)
 
É Lupin inteiro, com suas circunstâncias e seu espírito, que é concebido neste parágrafo. O conto marcou o início de uma série que se prolongaria de 1905 até 1939, com seu último folhetim, Les Milliards d’Arsène Lupin. Em todo caso... nada vem do nada. Algum impulso para a criação de Arsène Lupin vinha de seus predecessores mais ilustres: o implacável e mercurial “Rocambole”, de Ponson du Terrail; e o arqui-vilão de mil faces, “Fantômas”, de Marcel Allain e Pierre Souvestre. 




E João do Rio?
 
João do Rio não trabalhava num contexto literário de “narrativas policiais”. Sim, há várias tentativas brasileiras de criar histórias criminais e/ou detetivescas, naquela época: os habituais suspeitos são O Mistério (narrativa round-robin de Afrânio Peixoto, Coelho Neto, Viriato Corrêa e Medeiros e Albuquerque, 1920), O Assassinato do General (1926) e Se Eu Fosse Sherlock Holmes (1932), ambos também de Medeiros e Albuquerque. 
 
Ou seja, João do Rio pode até ter sido um aficionado do conto policial estrangeiro (não tenho informações sobre isto), mas certamente não tinha em 1910 exemplos nacionais em que se espelhar, ou concorrentes nacionais a quem lançar um desafio. 
 
Por outro lado, ele decerto lia francês. Todo brasileiro com fumaças literárias lia francês, naquela época, tal como leem inglês os de hoje. Uma revista da moda como Je Sais Tout era conhecida aqui, tanto que sua possível contrapartida Eu Sei Tudo começou a ser publicada em 1917.
 
E não podemos deixar de perceber que um dos contos de Pavor Dentro da Noite tem o título de “O fim de Arsênio Godard”, o que pode servir como um argumento a mais a quem procura ecos da obra de Maurice Leblanc na obra de João do Rio.
 
“Uma Aventura de Hotel” é um conto policial? Sim, mas apenas no sentido de que é uma história centrada na prática de um crime (o furto de objetos valiosos), crime cuja razão de ser é explicada nos parágrafos finais. Nenhuma reviravolta estonteante como em “A Prisão de Arsène Lupin”. Nenhuma interferência da polícia, enquanto que, no conto francês, o inspetor Ganimard, com sua imagem resignada de Jean Gabin, já está presente no conto inaugural da série.
 
No conto de João do Rio, a autoria dos furtos é de uma das damas, que se revela uma cleptomaníaca, sofrida e desorientada, e ao mesmo tempo descoberta e protegida por um dos seus admiradores no hotel em que vivem. Os mistérios de João do Rio são mistérios psicológicos, não policiais. São focados no que a literatura de seu tempo chamava de “nevroses”. É uma mulher viciada no furto de objetos alheios, assim como em “Dentro da Noite” há um rapaz viciado em enterrar alfinetes nos braços da noiva e em “A Mais Estranha Moléstia” outro homem é viciado em sair à rua para sentir os cheiros das pessoas que passam, e dos ambientes onde penetra.
 
Do ponto de vista da literatura de gênero, do conto policial, “A Prisão de Arsène Lupin” de Maurice Leblanc é o que se chama de um “texto fundador”, uma obra que serve de celeiro de idéias para toda uma obra que virá depois.



Do ponto de vista da literatura brasileira, “Aventura de hotel” de João do Rio é um conto pequeno, compacto, sem grandes ousadias de enredo, mas que se encaixa com perfeição no tipo de literatura que o autor produzia então. O retrato de um Rio de Janeiro já republicano mas ainda aristocrático, cheio de nobres endinheirados e ociosos – note-se em alguns contos do livro a figura do Barão de Belfort, que o prof. Julio França, em seu posfácio à edição da Bandeirola, interpreta como “a personificação da potência corruptora da cidade”. 
 
É apenas um hotel nas vizinhanças do Palácio do Catete, e João do Rio resume no primeiro parágrafo, com olho de jornalista e pena de escritor, o seu microcosmo: 
 
Naquele hotel da rua do Catete havia uma sociedade eclética, mas toda bem colocada. O proprietário orgulhava-se de ter o senador Gomes com as suas sobrecasacas imundas, o ex-vice-presidente da ex-missão do México, a primeira ex-grande atriz de revista, com o seu cachorro, Mme de Santarém, divorciada pela quarta vez em diversas religiões, o barão de Somerino do Instituto Histórico, um negociante tuberculoso chegado das altitudes suíças com o fardo enorme da esposa, o engenheiro Pereira mais a mulher, mais sete filhos, mais a criada, a notável trágica Zulmira Simões concluindo sua última peregrinação provincial em companhia do elegante Raimundo de Souza, duas senhoras entre viúvas, solteiras ou estritamente casadas, enfim, todo um mundo variado, mas que pagava bem. De resto, o proprietário, como assegurava a ex-estrela de revista, correspondia, isto é, servia com cuidado. Havia eletricidade em todos os quartos, um aparelho de duchas no terraço de cima e um cozinheiro chinês. 

 

Ao almoço era curioso ver toda aquela gente na sala de baixo, ornada de palmeiras e de flores comuns, entre os metais polidos das guarnições das mesas. A sala era baixa, com uma luz baça de recanto submarino.  Parecia um aquário. 

São duas faces igualmente legítimas da literatura da Belle Époque, e a literatura brasileira já olhava mais na direção de Paris do que na de Lisboa.




 (Maurice Leblanc e João do Rio)











quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

5025) Minha Lapa boêmia (24.1.2024)

 

 
A música popular tem o poder de eternizar o que não existe mais, e de tornar famoso um completo desconhecido. 
 
Anos atrás escrevi um artigo aqui no blog comentando a passagem das décadas e dos séculos, fazendo com que sejam esquecidos nomes que hoje são óbvios, e fazendo com que as celebridades de agora venham a se tornar mistérios inexplicáveis para os leitores de daqui a um século. 
 
Naquele artigo eu comentava uma cena bonita que assisti ao vivo no carnaval do Recife, em 2009, no palco do Marco Zero. No show de Antonio Nóbrega, para dezenas de milhares de pessoas espremidas na praça, ele chamou ao palco Ariano Suassuna e Caetano Veloso, que estavam assistindo da lateral. E os três cantaram juntos o frevo Evocação no 1, de Nelson Ferreira: 
 
Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon,
cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apois Fum,
dos carnavais saudosos...

 



(maestro N
elson Ferreira)
 
Foi uma cena bonita de um pernambucano, um paraibano e um baiano rendendo homenagem ao carnaval antigo de Pernambuco. E relembrando esses nomes outrora famosos, nomes de gente, nomes de blocos... Eu canto esse frevo desde pequeno e confesso, humildemente, que não sei NADA sobre Felinto, sobre Pedro Salgado, sobre Guilherme ou Fenelon. Sei apenas que citar esses nomes, no Recife velho de guerra, seria mais ou menos como aqui no Rio de Janeiro a gente enumerar Donga, João da Baiana, Marçal e Heitor dos Prazeres. 
 
A gente que mexe com letra de música, seja cantando, seja escrevendo, seja comentando, se vê de vez em quando na posição incômoda de ter que explicar o que não entende. 
 
Porque a música brasileira é cheia de retalhos de outro mundo, de uma realidade que era óbvia e presente para o compositor que escrevia. Hoje, meio século depois, ou até menos do que isto, esses retalhos se transformaram em hieróglifos – nítidos, inequívocos, mas inexplicáveis. 
 
Naquele texto sobre o Carnaval do Recife, comentei também que para um brasileiro de 2009 os nomes de Ariano e de Caetano eram familiares; o de Nóbrega talvez um pouco menos, mas ainda assim eram nomes do momento presente, da cultura presente. Daqui a cem anos, contudo, quem pode imaginar como estará o mundo? Talvez no carnaval de 2109 ainda haja quem seja capaz de explicar aos filhos quem foram esse tal de “Ariano”, esse tal de “Caetano”... 
 
Tudo isto me passou pela lembrança quando fui dias atrás à festa de aniversário da Livraria Folha Seca, de Rodrigo Ferrari, uma das minhas livrarias preferidas no Rio (Rua do Ouvidor, 37). Sábado à tarde, rua estreita engarrafada de gente, todos os bares abertos, roda de samba com piano (coisas do Rio)... 
 
A gente parou ali, naquele forno de 3 horas da tarde. Ficamos tomando uma long-neck gelada, e pisando em paralelepípedos (eu, que não saio mais de casa, estava com saudade de pisar em paralelepípedos). E deitando falação sobre qualquer assunto, porque em multidão aglomerada em torno de samba e livraria, assunto chove do céu feito confete. 



(Igreja de N. S. da Lapa dos Mercadores)
 

E começamos a prestar atenção nas igrejas das imediações. Eu estava num grupo flutuante de cariocas nativos e adotivos, entre eles Marcelo Moutinho, Paulo Roberto Pires e Sérgio Cohn. E foi surgindo um multiálogo mais ou menos assim: 
 
-- Bonita essa igreja, hein? Daqui de fora dá pra ver a nave.
 
-- Sim, é a igreja que levou um tiro de canhão.
 
-- Tiro de canhão?
 
-- Sim, durante a Revolta da Armada.
 
-- Sim, é isso mesmo. Tem até um samba falando nisso.
 
-- Mas é um samba sobre a Lapa. Nós estamos depois da Praça XV.
 
-- Vai ver que eles consideram a Praça XV um prolongamento da Lapa.
 
-- Mas foi isso mesmo. O navio disparou uma bala de canhão, lá da baía, e derrubou a torre da igreja.
 
-- Sem dúvida. O samba diz: Falta uma torre na igreja... Vou lhe contar meu irmão... Foi na briga de Floriano... Foi um tiro de canhão...
 
-- Pois é. A “briga de Floriano” foi a revolta da Armada, no governo de Floriano Peixoto.
 
-- Descrita por Lima Barreto no Policarpo Quaresma.
 
-- Exatamente. Por isso a igreja está faltando uma torre.
 
-- Mas a igreja que falta uma torre não é essa aqui. É a da Lapa, ali perto da Sala Cecília Meireles.
 
-- Mas essa aqui também é “da Lapa”. Olha esse estandarte pendurado: Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.
 
-- Então é isso. O tiro foi aqui?
 
-- Claro que foi. Venha aqui num dia de semana e você vai ver a bala de canhão, eles guardaram e está exposta aí dentro.
 
-- Então o tiro foi aqui, e quem falta uma torre é a outra, lá na Lapa de verdade?
 
-- Sim, a de lá é Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Desterro. Confundem porque é ela que fica no bairro da Lapa.
 
-- E ela só tem uma torre.
 
-- Sim. Sabe padre como é. No Brasil tem um milhão de igrejas com uma torre eternamente incompleta, e assim o padre pode passar vinte anos pedindo doações pra completar a torre.
 
-- É como o médico idoso que tirou férias e deixou a clínica com o filho, também médico. Quando voltou, o filho disse: “Papai, uma boa notícia, curei a artrite do Coronel Fulano”. O pai botou as mãos na cabeça: “Seu idiota, não era para curar, foi essa artrite que pagou seu curso!”.




(Igreja de N. S. da Lapa do Desterro – a igreja de uma torre só ]


E assim, passeando pela História do Brasil e com leves alfinetadas na igreja católica e na classe médica, só para não enferrujar o ferrão, fomos destrinchando esse mistério que me embalava a insônia desde os 10 anos. 
 
Porque quando eu tinha essa idade ouvia no rádio o tal samba, na voz de Nelson Gonçalves, e ficava fantasiando a Lapa carioca como uma mistura de monumento histórico e de bairro boêmio: 
 
Lapa... dos capoeiras...
Miguelzinho Camisa Preta, Meia Noite e Edgar...
Lapa... Minha Lapa boêmia...
A lua só vai pra casa depois do sol raiar.
 
Falta uma torre na igreja, vou lhe contar meu irmão;
foi na briga de Floriano, foi um tiro de canhão...
E nesse dia a Lapa vadia teve sua glória,
deixou o nome na história...
 
Aqui, a canção:


O samba é de Wilson Batista e Jorge de Castro, e tinha para mim essa conotação ao mesmo tempo de museu e de submundo. Eu perguntava a meu pai quem eram esses caras citados, e ele dizia: “Ora, são os capoeiristas lá do Rio... Miguelzinho Camisa Preta é famoso... Eles brigam, eles dão surra na polícia, não tem quem pegue!...” 



(M
iguelzinho Camisa Preta)
 

E um dia o rádio estava ligado e uma empregada lá de casa, Maria de Severina, estava cantando feliz da vida a plenos pulmões.
 
Lapa... dos capoeiras...
Miguelzinho Camisa Preta, Meia Noite
e uma meia de náilon!
 
Eu franzi a testa e fui em cima dela.
 
-- Maria, tu tás doida? Que história é essa de meia de náilon? É Edgar!...
 
-- Oxente, menino, tu não conhece a música não? A música é assim!
 
-- E o que diabo tem meia de náilon a ver com capoeira?
 
-- E camisa preta, tem a ver o que?  Ôxe!  Presta atenção na música! Esse menino parece que é doido.
 
Era um mondegreen dela, da imaginação dela, tão fértil quanto a minha, e a voz de Nelson Gonçalves permitia que eu entendesse ali o que convinha a mim, e ela o que convinha a ela. A meia de náilon eu não sei que fim levou, mas na minha próxima ida à Folha Seca vou lá na igreja, fazer uma visita a essa bala de canhão. 



(A bala de canhão)


Tour em 3-D da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores:
https://my.matterport.com/show/?m=YU7KhgRXxq3