domingo, 11 de janeiro de 2009

0740) O filme das ceguinhas (2.8.2005)



Ouvi dizer que o filme das ceguinhas, A pessoa é para o que nasce, de Roberto Berliner, bateu recordes de bilheteria nos cinemas de Campina. Nada mais natural. Uns querem ver as ceguinhas, outros querem ver um filme que ganhou vários prêmios, e outros querem ver imagens da cidade, reconhecer na tela pedaços do mundo real: “Eita, lá está a Livraria Pedrosa! Eita, lá está o Edifício Rique! Eita, lá está o Edifício Zé Romero!”

As ceguinhas fazem parte da nossa paisagem urbana desde que me entendo por gente. Sempre estavam em algum ponto do triângulo compreendido entre o Teatro, a Catedral e o Edifício Rique. Quando a gente se aproximava, mesmo antes de vê-las, mesmo à distância, já começava a ouvir seu tríduo de vozes rusticamente harmonizadas, carregadas daquela melancolia milenar de quem pede cantando. Cantavam sextilhas anônimas, pedaços de cocos-de-embolada, sambinhas desconhecidos, valsas que pareciam ter brotado no mundo sem autor. Nunca lhes dei esmola, nunca conversei com elas: parei muitas vezes para escutá-las, mas na verdade foi preciso o filme de Berliner para que eu, da mesma cidade e da mesma geração, viesse a saber como se chamam, o que pensam, o que sentem, o que lhes trouxe a vida.

O cinema e a televisão são um espelho do mundo, e a imensa maioria dos povos passa a vida inteira olhando esse espelho sem conseguir avistar o próprio reflexo, como os vampiros das histórias de terror. Um habitante de Nova York vê o tempo todo no cinema sua própria cidade, suas ruas, seus ambientes, os tipos humanos com quem convive, os contextos sociais onde decorre seu dia-a-dia. O cinema e a TV lhe servem de espelho para comparar suas experiências e suas aspirações. Mas para quem vive em Grotão do Canindé, o cinema e a TV não são espelhos, são janelas: abrem-se para outros mundos, mas nunca para o seu. Através daquele retângulo luminoso eles vêem outros países, outros povos, outros planetas, épocas passadas e futuras, mas não vêem a bodeguinha de seu Mamede, a borracharia de Elivélton, o roçado de Dona Joana ou o Padre Adamastor na Casa Paroquial. Imagine a surpresa desses habitantes se um dia uma equipe chegar com suas câmaras, fizer um filme, e eles puderem enxergar tudo isso na tela.

Ver numa tela de cinema os lugares e as pessoas que vemos no dia a dia nos dá uma curiosa sensação de “clic”, de que dois mundos apartados estão, por um instante, se tocando, fazendo contato. Cariocas, paulistas, novaiorquinos e parisienses nem dão mais atenção a isto, já faz parte de sua vida normal. Mas toda vez que eu vejo passar numa tela de cinema um pedaço da Paraíba eu sinto uma pequena (e prazerosa) vertigem conceitual, e penso: “Eita que bom, eu existo mesmo!” Ceguinhos somos todos nós, quando não nos vemos nas bolas-de-cristal da mídia, e ficamos doidos para saber que rosto temos, qual é o som da nossa voz, e o que os Outros pensam a nosso respeito.

0739) Data vênia, Meritíssimo! (31.7.2005)



Circulam rumores na imprensa em que sou acusado de malversação de fundos, e de transações financeiras com entidades suspeitas. Quero usar este espaço para reafirmar aos meus leitores que meu comportamento sempre se pautou pela mais rígida lisura e austeridade no trato da coisa pública. Sempre pugnei por um ideal de compostura e transparência, norteando-me por princípios democráticos consentâneos com a minha história pessoal. Não posso, portanto, admitir que indivíduos inescrupulosos venham assacar leviandades que atingem diretamente a minha probidade e a minha honra.

Calma, leitores. Não endoideci, nem fui convocado pela CPI. É que a língua portuguesa (ou brasileira, como quiserem) é uma das coisas que mais me interessam. Em se tratando do nosso idioma, sou um grande “prestador de atenção”, como diz o poeta Jessier Quirino. E tenho percebido, ao longo das décadas, um curioso fenômeno. Toda vez que um indivíduo é acusado de desonesto, a temperatura da linguagem dele sobe alguns graus. Quanto mais ele precisa se defender, mais aumenta a febre de falar difícil.

Vejam bem: não faz a menor diferença se o sujeito é honesto ou não, inocente ou culpado. O que me interessa é a reação lingüística; a síndrome vocabular. É um comportamento instintivo de defesa, algo humano, demasiado humano. Algo parecido com o que acontece com as mulheres, que, num momento de nervosismo ou desorientação levam a mão ao cabelo, para ver se está tudo bem, e com os homens, que em situações de angústia levam a mão ao saco, para ver se ele continua no lugar.

Minha impressão é de que quando o cara é acusado de desonesto ele vislumbra fugazmente a possibilidade de ir para a cadeia, e a primeira coisa que lhe ocorre é ligar para o advogado. Antes mesmo de pegar o celular e buscar o advogado propriamente dito, ele recorre ao advogado virtual que todo brasileiro traz dentro de si: um conjunto de palavras latinas (vade mecum, habeas corpus, sursis...) e aquele vocabulário barroco que é o mais típico cacoete dos nobres causídicos, assim como a péssima caligrafia é cacoete dos médicos. Ao se sentir no banco dos réus, o sujeito vira defensor-público de si mesmo.

E tem uma outra coisa. No país dos bacharéis, no país dos beletristas, no país em que alfabetização é privilégio de classe e cultura literária é luxo das elites, o sujeito sabe que basta falar difícil para já ir se inocentando. Essa coisa de ter roubado, de ter sonegado, de ter matado, de ter traficado, é coisa pra quem diz vambora, cumequié, bróde, mermão, tá ligado. Um cidadão capaz de usar com propriedade expressões como objurgatória, exprobrar ou data vênia não pode ser um bandido. Basta dirigir-se ao colendo tribunal ou ao ínclito colega... e tudo fica entre colegas, entre pares, entre iguais. E a pátria continua tranqüila, pelo menos enquanto os habitantes das bocas-de-fumo e os inquilinos de Bangu 1 não quebrarem o código do Aurélio e do Houaiss.

0738) A performance da torneira (30.7.2005)



Quando é depois, dizem que eu tenho preconceito contra os artistas de vanguarda. Que é isso! Eu me apaixonei pela arte de vanguarda na adolescência, mas acho que tem muita gente por aí mandando instalações pras Bienais na base do tiro-no-escuro, como aqueles adolescentes que rabiscam dez ou doze linhas e vêm perguntar à gente: “Isso aqui é um poema?”

Vejamos um exemplo recente. Em Londres, o artista performático Mark McGowen entrou em choque com a Thames Water, a empresa de água potável da cidade. Ele colocou numa galeria de arte uma instalação que consiste numa torneira aberta, jorrando água 24 horas por dia. A Thames Water entrou com uma ação na justiça dizendo que aquilo era um desperdício de água potável, ocorrendo justamente num dos verões mais secos da Inglaterra nos últimos cem anos. Nos seis dias desde a abertura da exposição até que esta notícia saiu nos jornais, dezenas de milhares de litros foram pelo ralo. A intenção de McGowen (porque a arte performática geralmente envolve a declaração pública de uma intenção, senão fica todo mundo na mesma) é de deixar a torneira aberta durante exatamente um ano, quando serão gastos cerca de 15 milhões de litros dágua. Procurado pela imprensa, McGowen afirmou que a água é o elixir da vida, e a gente deveria parar de desperdiçá-la. Segundo ele, a Thames Water deveria mover uma ação contra ela mesma, porque tem lucros enormes e um terço da água que canaliza se perde devido a vazamentos.

Voltamos a um antigo beco-sem-saída conceitual da arte. É como o filme violento que afirma ser “uma denúncia da violência”, ou o documentário sobre sexo com imagens de sacanagem e narração moralista (ótimo pra ver em DVD, que o cara abaixa o som). A performance de McGowen vai gastar 15 milhões de litros, mas esse gasto será mais visível, mais comentado, e chamará a atenção para o gasto da Thames Water. E ele tem razão: olha aqui a gente, em pleno Nordeste, se preocupando com a seca londrina!

Mas mesmo assim... mesmo assim... Eu não consigo dormir em paz há dias, pensando naquela torneira aberta: chuáááá... Já observei também, freudianamente, que toda essa coisa de “performance”, “instalação” e coisa e tal envolve freqüentemente gestos de desperdício, destruição, deformação. São muitas obras que nos propõem, em vez de vez algo sendo criado, ver algo sendo destruído. Está aí um bom ponto de partida para analisar toda essa arte; que, repito, tem o seu valor. Fiquei sabendo também que a “performance” anterior de McGowen destinava-se a chamar a atenção das autoridades para o problema do débito estudantil na Inglaterra (imagino que seja algo equivalente aos estudantes que não pagaram o “crédito educativo”). E a performance consistiu em empurrar uma noz com o nariz, pelas ruas, ao longo de sete milhas, até a residência oficial de Tony Blair. Então pronto, meu caro artista. Fale que agora é pelo bem da água, desligue a torneira, e empurre a noz de volta pra casa.

0737) Ainda o gato de Schrodinger (29.7.2005)



Falei terça-feira passada sobre esta parábola quântica, e dei o exemplo de um jogador que se prepara para bater o pênalte decisivo num jogo. No momento em que ele parte para a bola, daquele chute dependem dois resultados possíveis: se ele fizer o gol, o time A é campeão; se ele perder, o time B é campeão. No momento em que o jogador corre para a bola e vai chutar, ambas as possibilidades são reais. Para metade da torcida, vai ser o carnaval da vitória; para a outra metade, vai ser a decepção total.

Suponhamos, porém, que o jogo já aconteceu, mas eu não sei o resultado. Eu moro no Japão, o pênalte foi num jogo Treze x Campinense decidindo o campeonato paraibano, e nenhuma notícia vai chegar aos meus ouvidos: tenho apenas uma fita VHS com a gravação do jogo. Boto no video-cassete e fico assistindo até o momento em que há o pênalte a favor do Treze, e o atacante corre para a cobrança, preparando-se para fazer o gol que dará o título ao Galo. No momento em que ele chega na bola, eu desligo o video-cassete.

Como num experimento quântico, o fato já aconteceu, mas eu só posso saber o que aconteceu se olhar. E aí entra outro aspecto interessante. Suponhamos que a emissora de TV que gravou o jogo tinha duas câmaras: uma acompanhando o batedor do pênalte, a outra acompanhando o goleiro; e que quando você ligar o video-cassete para ver o desfecho da jogada, você pode escolher se quer ver pela câmara A ou pela câmara B. Veja bem: teoricamente, o jogo já aconteceu, o resultado não pode ser mudado; mas nos experimentos de laboratório o modo como você escolhe ver o resultado determina o que você vai ver “ter acontecido”. Toda vez que você escolhe a câmara A, a bola entra e o time A é campeão. Toda vez que você escolhe a câmara B, o goleiro defende, ou a bola vai pra fora, etc., e o time B é campeão.

Por que? Não sabemos. O universo é assim, “lá embaixo”, no mundo do infinitamente pequeno. Quando realizamos um experimento com partículas sub-atômicas não podemos acompanhá-lo ao vivo e a cores, à distância, sem interferir, como se estivéssemos botando bolas de bilhar para se chocar umas com as outras. A mera energia necessária para observar as partículas interfere com elas. E seja qual for o modo que a gente escolha para observar o resultado, o tipo de observação (ou de medida) que decidimos fazer influencia o resultado. Se olharmos do modo A, dá A. Se olharmos do modo B, dá B.

Cada momento de decisão na Física, em que dois resultados são igualmente possíveis, cria dois universos paralelos a partir dessas duas respostas. E ao escolhermos a maneira de observar o resultado, fazemos com que um desses universos se torne real, e o outro desapareça instantaneamente. A parábola do pênalte decisivo ajuda a mostrar o quanto seria estranho o mundo “macro” em que vivemos, se nele a matéria se comportasse do mesmo modo que se comporta no mundo “micro” da física quântica.

0736) A revista “Seleções” (28.7.2005)



Neste mês de julho saiu às bancas nos EUA o número 1.000 da revista Seleções do Reader’s Digest. Ao que parece são 83 anos de existência, e uma fórmula que foi muito imitada (Coronet, Coletânea, etc.) mas sem o mesmo sucesso. Seleções é como Coca-Cola: sou contra, em vários aspectos, mas uso mesmo assim. Quando consegui meu primeiro emprego aos 15 anos, com meu primeiro salário do Diário da Borborema comprei uma coleção com mais de vinte anos de exemplares de Seleções na banca de Henrique, no Calçadão (não era calçadão na época, era uma rua com um ponto de táxis). Eram revistas de 1942 a 1965, se não me engano, umas encadernadas, outras soltas. Todo dia ao sair do jornal eu passava lá e levava um pacote pra casa.

Seleções era uma revista virulentamente anti-comunista, e as coisas arrepiantes que li sobre o comunismo naquelas páginas talvez tenham me servido como um atenuante prévio contra as doses cavalares de Materialismo Dialético que vim a absorver cinco anos depois. Era também uma revista que combatia o fumo, e os casos cancerígenos que relatava me mantiveram a uma distância prudente do Continental e do Hollywood. Uma das coisas que eu mais gostava era a “Seção de Livros”, em que um livro de 400 páginas era reduzido a confortáveis 40. Mas o melhor de tudo eram as piadas, e já fiz muito sucesso em mesa de bar com o repertório decorado em “Piadas de Caserna”, “Flagrantes da Vida Real” ou “Rir é o Melhor Remédio”. Dizem os jornais que nessas oito décadas a revista publicou 100 mil piadas, pagando 25 milhões de dólares por elas.

Seleções é um ovo-de-Colombo editorial. Em suas primeiras décadas publicava poucos artigos originais: era quase tudo recolhido de outras revistas e jornais. Como jogavam a rede longe, sempre havia coisas interessantes colhidas em publicações obscuras. A variedade de assuntos era notável. Ainda tenho em minhas estantes algumas compilações temáticas, como As Melhores Histórias Reais de Crime, Mistério e Suspense e O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico. Se eu não fosse leitor de Seleções, amiguinhos, não faria uma coluna como esta, onde o cara saltita de tema em tema como um passarinho de galho em galho. Para o bem ou para o mal, foi assim que formatei meu juízo.

A revista avalia ter hoje um público leitor de 41 milhões de pessoas; imagino que este número se refira aos EUA, visto que há edições em outras 19 línguas, vendidas em mais de 60 países, inclusive o Brasil. É uma revista TV, uma revista de variedades que corresponde bem ao gosto por tudo que é rápido, superficial mas informativo, colagem de fatos e opinião, humor, utilidades, conselhos práticos, pílulas de auto-ajuda, ficção e não-ficção misturadas. O que me espanta não é que tenha chegado aos mil números, é que tenha formatado tantas revistas que vejo hoje nas bancas, e tenha sido engolida por elas.

sábado, 10 de janeiro de 2009

0735) Quem manda na linguagem? (27.7.2005)



Como todos sabem, o Governo Federal, através de uma de suas proliferantes secretarias, expeliu tempos atrás uma cartilha com expressões a serem evitadas, por serem consideradas ofensivas. O escritor João Ubaldo publicou contra essa tal cartilha um texto que teve bastante repercussão, e não repetirei aqui os argumentos dele, que são mais ou menos os que eu teria a oferecer. O episódio, no entanto, mostra o curioso dilema que vivemos. O que é mais importante numa democracia: a liberdade de expressão ou a guerra ao preconceito? São ideais nobres, mas contraditórios, e para defender um a gente tem que passar por cima do outro.

Li certa vez que nos EUA foi feita uma pesquisa de opinião. A certa altura, perguntava-se: “Todos os homens são iguais?”, e 90% das pessoas responderam que sim. Depois de algumas páginas, vinha outra pergunta: “Os negros são iguais aos brancos?”, e aí 92% responderam que não. O mais engraçado é que eu provavelmente teria caído na pegadinha. Ao ver a primeira pergunta, eu pensaria se todas as pessoas (“homens” aí englobando toda a espécie humana) são iguais diante de Deus (o que me parece óbvio) e da lei (o que pelo menos está na Constituição). No segundo caso, contudo, foi sugerida uma imagem visual, e basta visualizá-la para considerar que, nos termos propostos (uma pessoa com a pele preta é igual a uma pessoa com a pele branca?), o primeiro impulso é responder que não. É como se dissessem: os gordos são iguais aos magros?

Depois da ditadura militar, criou-se o mito de Liberdade, que já questionei muito aqui nesta coluna (p. ex., “O fantasma da liberdade”, 27-4-2004, “Liberdade demais atrapalha”, 28-4-2004, etc.). Fala-se que a liberdade é um valor absoluto, inquestionável – o que me parece um absurdo. A população que consegue ler jornal e revista, esta classe média que se julga a herdeira do mundo, encrespa quando se depara com o menor obstáculo: “Mas isso é um absurdo! Estão querendo restringir a nossa liberdade!” Quando você vive num “Capitalismo Selvagem sob Ditadura Militar”, os valores mais apregoados são a Segurança e o Patriotismo. Quando a coisa começa a feder, os militares saem de fininho (dizendo aos políticos civis: “Agora é a vez de vocês, e quando estragar, se virem”), e passamos para o “Capitalismo Selvagem Regulamentado por Lei”. E a palavra de ordem é Liberdade e Cosmopolitismo. Ou seja: todo mundo (empresas, principalmente) é livre para fazer o que quiser, é só ter na mão deputados e senadores suficientes para aprovar uma Lei autorizando.

A liberdade de expressão é sempre a liberdade de expressão daqueles que têm poder bastante para se impor pelas armas ou pelas leis. Liberdade “tout court” não existe. Liberdade de imprensa está sempre a serviço dos interesses de um grupo, mesmo que seja o mais puro e bem-intencionado dos grupos. Liberdade e Ordem são dois extremos: a vida está no equilíbrio entre os dois.

0734) O gato de Schrodinger (26.7.2005)



O “princípio da incerteza” é um dos conceitos mais discutidos da discutidíssima Física do século 20, e diz respeito à nossa dificuldade em observar e medir o comportamento das partículas sub-atômicas. Para ilustrá-lo, o físico Erwin Schrodinger concebeu um experimento. Certas substâncias radioativas têm exatamente 50% de probabilidade de emitir radiação no período de uma hora. O estado dessa substância depois de uma hora de iniciada a medição pode ser descrito através de uma equação matemática que expressa essa possibilidade dupla, este ser-ou-não-ser, este haver-ou-não-haver radiação.

Schrodinger sugeriu que puséssemos um gato vivo numa caixa fechada, e que a emissão radioativa desencadeasse um mecanismo que mataria o gato. Uma hora depois do gato posto ali, a equação matemática que descreve o experimento nos diz que o que há dentro da caixa é um gato metade morto, metade vivo. As duas possibilidades se equivalem, e só ao abrirmos a caixa, e constatarmos o que aconteceu, faremos com que uma delas se concretize e a outra se evapore. Enquanto a caixa não for aberta (enquanto o observador não interferir com o fenômeno observado) é preciso ficar lidando com o conceito de um gato meio-morto, meio-vivo.

A parábola do “Gato de Schrodinger” (porque pra mim isto é uma parábola equivalente às do Novo Testamento) é um exemplo do curioso mundo da Física Quântica, onde não existem realidades, e sim probabilidades, e é nossa interferência quem faz essas probabilidades se inclinarem numa ou noutra direção. Eu posso sugerir outras parábolas igualmente eficazes (corrijam-me os físicos, caso eu esteja errado).

Por exemplo, a parábola do Pênalte Decisivo. Na decisão do Campeonato, o time A joga pelo empate para ser campeão; o time B, pela vitória. O jogo está 0x0 e no último minuto (já incluídos os descontos) é marcado um pênalte a favor do time B. Ou seja: se o pênalte for convertido, B é campeão; se for desperdiçado, A é campeão. Talvez as probabilidades não sejam rigorosamente iguais. É mais fácil converter um pênalte do que perder; mas imaginemos também o nervosismo do cobrador... Enfim: a equação matemática desse momento do jogo proclama a existência sólida, palpável, com 50% de chances para cada lado, de dois Universos contraditórios e mutuamente excludentes (ou seja, um não pode existir ao mesmo tempo que o outro): A campeão, B campeão. A bola foi colocada na marca, o goleiro retesa o corpo e abre os braços, o atacante começa sua corridinha rumo à bola...

É um momento quântico. Duas probabilidades inconciliáveis são, naquele instante, absolutamente possíveis, e estão coexistindo no mesmo espaço físico. Dentro de alguns segundos, uma delas será real, a outra desaparecerá para sempre. É assim o mundo da matéria. Cada vez que observamos algo, fazemos com que uma coisa “tenha acontecido”, e todas as outras probabilidades “tenham deixado de acontecer”.

0733) A difração quântica (24.7.2005)




Infelizmente o Prêmio Nobel só é concedido em vida, e imagino que minhas principais contribuições à Ciência só sejam devidamente avaliadas daqui a um século. É pena, mas não me incomoda, porque é pelo bem da Humanidade que tenho estas idéias. 

A mais recente delas consta de uma conferência intitulada “Concerning Quantum Diffraction at the Peripheral Regions of Consciousness”, porque conferências deste nível, claro, são proferidas em inglês, para platéias internacionais. Em português, daria algo como “A Propósito da Difração Quântica nas Regiões Periféricas da Consciência”.

O princípio básico é simples: a existência dos objetos materiais (incluindo seres humanos) está na razão direta do número de mentes que se relacionam com eles. Trocando em miúdos: quando mais pessoas agem em função de algo, mais concreto e real este algo se torna. 

Tive esta idéia certa vez em Olinda, quando saí com uns amigos e parei numa ruazinha onde havia quatro bares, quase lado a lado. Três deles estavam repletos de gente, mesas cheias, calçadas cheias, rapaziada tomando cerveja encostada nos carros. O quarto bar (que na verdade era o terceiro, pela ordem) estava vazio: mesas imaculadamente brancas, garçons de braços cruzados olhando o movimento lá fora. 

Entramos num dos bares (havia uma mesa à nossa espera) mas não me contive e perguntei por que não íamos para “aquele outro bar, vazio, aqui ao lado”. A resposta foi: “Que bar?”. Ninguém o tinha visto. Era um bar novo, que tinha acabado de abrir, e ninguém tinha se dado conta da existência dele.

Direis agora: “Tresloucado amigo! Isto aconteceu há mais de 20 anos, quando vivias na farra, enchendo a cara sabe Deus do quê!” E eu vos direi: “Claro, mas é uma observação empírica, primeiro critério de qualquer demonstração científica que se preze”. 

A banca de revistas na esquina continua a existir porque todo dia a vemos, a reconhecemos, vamos até lá, compramos o “Jornal da Paraíba”. E nossos vizinhos, e os transeuntes casuais, fazem o mesmo. Isto reforça a realidade dessa banca, aumenta a probabilidade quântica de que na manhã seguinte ela esteja lá, como sempre esteve.

Quer uma prova? Moradores de rua. Ninguém os conhece, ninguém na verdade os vê. 

Faça um teste. Olhe para aquele canto: há um casal de velhos deitado sobre folhas de papelão. Tire a vista por dez segundos, olhe de novo: há uma criança roendo um pão seco. Tire a vista, volte a olhar em um minuto: há três meninos cheirando cola. 

No espaço de segundos, essas criaturas são aleatoriamente substituídas, por um mecanismo quântico do Universo. Bilhões de criaturas geradas randomicamente, nenhuma das quais se fixa, nenhuma se mantém existindo – porque não as vemos, não as registramos e (bora, rapaz, fala a verdade) tiramos a vista delas com a secretíssima esperança de que quando olharmos de novo elas terão sumido para sempre, sem que a gente precise mover uma palha.







0732) As 7 histórias fundamentais (23.7.2005)



De seis em seis meses, um professor de Literatura ou um roteirista de cinema publica um livro enumerando “As 7 histórias fundamentais”, ou “Os 18 enredos básicos”, ou “As quatro situações dramáticas” ou “Os 11 elementos narrativos”. Variam as quantidades, varia a receita, mas a intenção é sempre a mesma: fazer com as idéias narrativas o mesmo que os químicos fizeram com os elementos, os astrônomos fizeram com os planetas, e os zoólogos e botânicos fizeram com as espécies animais e vegetais. Nestes casos deu certo, em outros nem tanto: aí estão até hoje os coitados dos físicos tentando recensear partículas, e coçando a cabeça ao perceber que ao recenseá-las acabam inventando-as.

Algumas coisas são contáveis, outras não. Aprendemos na escola que algumas grandezas são descontínuas, como maçãs, laranjas e pirulitos; e outras são contínuas, como a areia, a água e o ar (se bem que grãos de areia, gotas dágua, etc., são grandezas descontínuas, e há uma importante sutileza envolvida nesta distinção). Para mim, esse papo de “partículas subatômicas” é um beco sem saída, porque a impressão que tenho é de que o que eles chamam de partícula não passa de um corte transversal numa onda (assim como, na Geometria, um ponto pode ser interpretado como uma linha vista de frente).

Mais inútil ainda é esta tentativa de codificar situações dramáticas ou “plots” básicos. Em alguns casos, surgem rótulos como “Combater o Monstro”, que serve para definir tanto Moby Dick quanto Drácula. Mas para mim estas mesmas narrativas poderiam se encaixar noutros rótulos. Moby Dick poderia, por exemplo, ser classificada como “A Viagem do Aprendiz”: todas aquelas narrativas em que um sujeito jovem e inexperiente (Ismael) se engaja numa viagem ou jornada liderada por indivíduos maduros e experientes, durante a qual alcançará a maturidade emocional e o conhecimento do mundo. A esta mesma categoria pertencem obras (e personagens) como A Companhia Branca de Conan Doyle (a história de Aleine Edricson), O Nome da Rosa (Adso de Melk), O Senhor dos Anéis (Frodo), A Ilha do Tesouro (Jim Hawkins) e Guerra nas Estrelas (Luke Skywalker).

Poucas narrativas se enquadram em apenas uma categoria; geralmente são contos ou fábulas. Narrativas complexas como romances ou filmes têm uma sucessão de temas entrelaçados, e assemelham-se às obras sinfônicas. Mas a tentativa de classificar as situações dramáticas essenciais acaba nos mostrando que algumas delas se repetem em obras de natureza muito diferente – como Inteligência Artificial de Spielberg e o Pinóquio. Mais interessante ainda é quando começamos a descobrir que tais situações são como as partículas sub-atômicas: quanto mais mexemos nelas mais elas se multiplicam, e mesmo as que já conhecemos acabam ficando diferentes quando as olhamos de lado, ou contra a luz. Vamos recenseá-las, não para demonstrar que são poucas, mas para comemorar o fato de serem ilimitadas.

0731) O núcleo duro (22.7.2005)



Conversávamos sobre política, e alguém falou que tal ou tal atitude era típica do “núcleo duro do PT”. Veio a pergunta: “Aliás, que história é esta de núcleo duro? Por que este nome?” E o filho adolescente de um dos caras, que estava por perto, perguntou curioso: “Esse negócio de núcleo duro é o mesmo que hardcore?” Acharam graça, mas o garoto estava coberto de razão. A palavra “hardcore” (“hard”, duro; “core”, núcleo) é freqüentemente associada a rock-and-roll, mas é um conceito amplo que pode se aplicar a tudo. Daí existir pornografia hardcore, ficção científica hardcore, e assim por diante.

“Hardcore” expressa a essência concentrada de alguma coisa, seja um movimento político ou um estilo de arte. É um núcleo duro, resistente, difícil de partir ou de dissolver. Como aquelas frutas cujo caroço parece uma pedra: um pêssego, uma ameixa, uma manga. Esse núcleo duro é a última coisa que se manterá inteira depois de todo o restante da fruta ter sido arrancado, mastigado, moído, cortado na faca ou no dente. É a última trincheira, a derradeira fortaleza, o último bastião de resistência. São os fundamentalistas.

Comparar esse núcleo com o caroço de uma fruta sugere também outra idéia. É através desse “núcleo duro” que a fruta se reproduz e a espécie se perpetua. Enquanto um único “núcleo duro” sobreviver, será possível a existência de milhões de frutos. O hardcore é, portanto, o repositório do DNA daquele fenômeno a que estamos nos referindo.

Sou péssimo analista político. Não porque seja burro, mas porque sou crédulo, tudo que ouço num discurso eu acredito. Não vou meter minha enxada torta na seara alheia; há gente muito mais qualificada do que eu para interpretar os fatos políticos mais recentes do país. Mas como minha seara é a da linguagem, quero fazer uma sugestão sobre o termo “núcleo duro”.

A imprensa se refere ao “núcleo duro do PT” como sendo aquele grupo de velhos companheiros que até pouco tempo ocupavam posições na cúpula do Partido e do Governo: José Dirceu, Luís Gushiken, José Genoíno, Silvinho Pereira, etc. Não sei se o tesoureiro Delúbio fazia parte desse grupo, porque voto no PT há vinte anos e só agora ouvi falar nele. O que temos visto nos últimos tempos, contudo, me autoriza a considerar que esses senhores não são o “PT hardcore” de jeito nenhum. Não são o caroço, não são a semente. São, na melhor das hipóteses, a casca: aquela superfície exposta e visível, a primeira a ser descartada depois que alguém abocanha o fruto.

O núcleo duro do PT, ironicamente, abandonou o PT: é aquela rapaziada como Heloísa Helena, Luciana Genro e Babá. Lembro que no ano passado sugeri aos repentistas o mote: “Heloísa, Babá e Luciana: / isto é tudo que resta do PT”. Se alguém expressa o PT, com seus erros e acertos, qualidades óbvias e defeitos evidentes, é esse pessoal. Esses, sim, são o núcleo duro do PT. Os outros, bem, os outros estão demonstrando que são políticos profissionais.