segunda-feira, 11 de agosto de 2008

0505) O Amor e a Fé (31.10.2004)


(Bermini - estátua de Ludovica Albertoni)

Um dos textos cruciais da nossa literatura é o Cântico dos Cânticos de Salomão. Digo “cruciais” ao pé da letra, no sentido de cruzamento, encruzilhada, ponto onde dois caminhos divergentes se tocam por um segundo. Esses caminhos são a comunhão afetiva com outro ser humano e a comunhão mística com Deus – ou seja, o Amor e a Fé. Desde a infância eu relia fascinado (sob o casto pretexto de “estar lendo a Bíblia”) aqueles versos onde o poeta sai descrevendo sua Amada, fala dos cabelos, dos olhos, do pescoço, dos peitos... Ai de mim, depois dos peitos o texto dava uma guinada de 90 graus, mudava de assunto. Mas versos assim ainda ecoam como uma sextilha de cantador inspirado: “Eu disse: subirei à palmeira, e colherei os seus frutos; e os teus peitos serão como dois cachos de uvas; e o cheiro de tua boca como o dos pomos...”

Estes versos me vêm à mente quando leio agora, numa antologia de poesia espanhola do Século de Ouro, estes belos tercetos finais de um sonetista anônimo, onde o “Tu” a quem se dirige é o próprio Deus: “Muéveme, al fin, tu amor, y en tal manera, / que aunque no hubiera cielo, yo te amara, / y aunque no hubiera infierno, te temiera. // No me tienes que dar por que te quiera; / pues aunque lo que espero no esperara, / lo mismo que te quiero te quisiera.”

Os grandes poetas místicos são justamente estes, que usam para se dirigir a Deus a mesma retórica de intensa paixão dos grandes poetas eróticos. E por que isto? Porque, por mais afastadas que pareçam, não existem duas condições psicológicas mais assemelhadas do que o amor por uma mulher e a fé em Deus. São os dois exemplos mais cabais do caso em que Desejo é convertido em Certeza por um simples gesto da Vontade. Esta certeza muitas vezes dá com os burros nágua: a paixão não é correspondida, como a de Dante por Beatriz. Mas ainda assim o poeta dá um jeito de escrever um catatau de milhares de versos provando que Deus permitiu sua entrada no Paraíso e que lá estava Beatriz à sua espera.

Certeza é certeza, e não existe certeza maior do que a de um apaixonado, seja ele o poeta Neruda cantando os atributos físicos de sua musa, seja San Juan de la Cruz desmanchando-se em estrofes de ardor pelo seu Amado. Nada garante a um apaixonado que seu amor é correspondido ou mesmo que tem razão de ser, e nada garante ao místico que Deus existe de fato. Isto, no entanto, não abala essa Certeza Absoluta, que não tem outro aval que o de si própria. Nossos poetas religiosos modernos (penso em Jorge de Lima, em Murilo Mendes) já não se dirigem a Deus em termos diretamente eróticos. A modernidade trouxe consigo essa cisão entre corpo e alma. Mas os poetas místicos católicos ficarão para sempre como o melhor exemplo de uma poesia movida a Fé, e de uma Fé movida pelos mesmos motores hormonais que movem o Amor: a Certeza do próprio desejo físico, o mais intenso (e aqui pra nós, o menos dispendioso) dos estimulantes químicos.

0504) O goleiro (30.10.2004)



Não sou a pessoa mais indicada para comentar evolução de esquemas táticos no futebol. Eu nunca sei quando um time está jogando com 3-5-2 ou com 4-3-3. Para mim é sempre um amontoado de crioulos carecas correndo e se esbarrando. Mas se tem uma coisa em que o futebol evoluiu nitidamente nestes 40 anos em que o acompanho foi no papel desempenhado pelo goleiro. O goleiro é hoje um jogador muito mais participante do que era décadas atrás.

Antigamente os goleiros eram meio ingênuos. O paradigma da época era de que o goleiro deveria segurar com as mãos todas as bolas chutadas contra o seu gol. Um goleiro que largava a bola (“queimava”, “arrotava”) era visto com desdém. Os goleiros de hoje, não. Eles só tentam agarrar “na boa”. Qualquer bola duvidosa é espalmada para cima ou para os lados, e o desdém de hoje se limita aos goleiros que espalmam a bola de volta para o interior da área, à disposição dos atacantes. Um outro aspecto, conseqüência deste, é que a primeira preocupação do goleiro é simplesmente a de cortar a trajetória do chute. Com as mãos, com os antebraços, com o corpo, e principalmente com os pés. Nos anos 1960, um goleiro defendia com os pés no máximo uma vez por partida; hoje em dia, é o tempo inteiro. Na verdade, muitos goleiros, principalmente goleiros volumosos como Dida e Júlio César, jogam-se diante do atacante, confiando que a bola vai bater em qualquer parte do corpo deles e ser desviada. Em geral, é o que acontece.

Uma outra evolução foi possibilitada pelas mudanças na regra. Antigamente, o goleiro podia ficar com a bola o tempo que quisesse. A torcida adversária arrancava os cabelos de ódio quando o goleiro do time que estava em vantagem ficava batendo bola pra lá e pra cá dentro da área, pra lá e pra cá, batendo a bola no chão e pegando de volta, perseguido pelos atacantes, negaceando, fingindo que ia, voltando, batendo a bola... O goleiro era proibido de dar tantos passos (não lembro quantos) com a bola nas mãos, sem batê-la; mas desde que batesse com a bola no chão (muitos goleiros levavam isso ao pé da letra, abaixando-se e tocando no chão com a bola, sem soltá-la), podia ficar com ela a tarde inteira.

A regra mudou: o goleiro tem seis segundos para livrar-se da bola, quando a tem nas mãos. E foi proibida outra aberração, que era a “bola atrasada”. Hoje em dia, só se pode atrasar a bola para o goleiro com a cabeça, o peito, etc.; bola atrasada com o pé tem que se recebida por ele com o pé. É um detalhe sutil, mas que fez um bem imenso ao esporte. Vocês não fazem idéia do que era a praga da bola atrasada, antigamente. Os jornalistas reclamam do “anti-jogo” de hoje, com razão, mas pelo menos neste aspecto houve uma evolução. O goleiro hoje é um jogador a mais. Adianta-se, sai da área, troca passes como se fosse um líbero, chega até a ir tentar um gol de cabeça na área adversária, quando o time está perdendo. Raramente consegue. Mas tá aí uma coisa que melhorou no futebol.

0503) O poema incompreensível (29.10.2004)


(Dylan Thomas)

Volta e meia, folheando um livro ou uma revista literária, eu me deparo com esse evento traumático para um sujeito que se auto-intitula poeta ou crítico literário: o poema incompreensível. Quando isso acontece, ressurgem da tumba todos os meus terrores de cineclubista adolescente, quando me encaminhava para ver um dos chamados “filmes herméticos”, como Oito e Meio de Fellini ou Cidadão Kane de Welles. Hoje estes filmes são convencionais, mas, 40 anos atrás, e para garotos que mal tinham sido apresentados aos livros de cinestética do Padre Guido Logger, eram motivo para pesadelos antecipados.

Hoje em dia quem me deixa assim é o poema. Abro um livro ao acaso e começo a ler. “Obstáculos. Crisântemos do porém. / Na aba inimiga, mefisto ulula. A prévia / de um sol quase quando. // Avisas. Olhas. Cai do falível a vastidão que expulsa. / Lâminas sem placa, e o polegar de Van Gogh.” Não, amigo, não estou sendo injusto com nenhum poeta. Isso aí é uma paródia, porque não quero me expor a vinganças por mangar em público dos poemas de Seu Ninguém. Quando me deparo com textos assim, corto o mal pela raiz: largo o livro e vou tocar violão. A esta altura do campeonato, não me sinto mais na obrigação de ler algo que não faz sentido para mim – embora admita a possibilidade de que faça sentido para outras pessoas. Cada escritor tem seu público. Ninguém escreve para todo mundo. E cada sujeito que escreve toma uma decisão, ao botar aquelas frases no papel, sobre que tipo de audiência está tentando atingir.

Sou contra o poema difícil? De jeito nenhum. Vejam por exemplo o caso de Dylan Thomas. Não conheço poeta mais obscuro do que esse rapaz. Abrir caminho ao longo de um poema de Dylan Thomas é como cavar sem lanterna numa mina de carvão. O que nos salva (e nos garante a emoção poética) é que a cada duas ou três linhas brota uma imagem tão poderosa, uma frase de sonoridade tão encantatória, que parece por alguns minutos iluminar, esclarecer e dar sentido, não só a tudo que foi dito antes mas a tudo que virá a ser dito um dia por quem quer que seja. Esses relâmpagos poéticos, de que a poesia de Thomas está cheia, nos dão confiança de que existe um caminho lá dentro, existe “produção de sentido” no concatenar daquelas frases, e de que devemos ter paciência com a treva, porque de tantos em tantos passos esses vislumbres de luz irão se repetindo.

Reconheço que o nome, a griffe “Dylan Thomas” pesa, infunde credibilidade, nos sussurra ao ouvido que alguma recompensa futura está à nossa espera. Mas ocorre também com poetas anônimos, desde que o verso em si traga relâmpago, não importa a assinatura. Inúmeros poemas de Drummond, principalmente do Drummond tardio, são poemas meramente desculpáveis; e já guardei por anos uma revista ou jornal porque tinha um poema brilhante de um cara que até hoje não sei quem é. O poema incompreensível é uma piada que não me fez rir. Passo adiante, e espero a próxima.

0502) Artista grande, arte pequena (28.10.2004)




Quando um artista que trabalha numa forma de arte tida como mais elevada usa uma forma considerada mais popular, a primeira coisa que ele faz é diminuir seu próprio nível de exigência. E é aí que dá com os burros nágua. 

É o caso de compositores de MPB que recebem a encomenda de produzir um forró ou um sambão; de diretores de cinema-de-arte ou de teatro quando vão fazer seu primeiro trabalho na TV; de poetas eruditos a quem se encomenda uma letra de música. 

Eles acham que estão descendo um degrau. E se apequenam, seja porque se desprezam por fazerem aquela concessão (muitas vezes motivada por dinheiro), seja porque acham que até então vinham trabalhando para um público sofisticado e agora estarão se dirigindo para um público meio burrinho, que engole qualquer coisa. Aí, ficam burrinhos também.

Raymond Chandler foi um grande escritor que só escreveu romances policiais. Tivesse escrito histórias sem assassinatos, e com um protagonista que em vez de detetive particular fosse professor universitário ou executivo, teria sido muito mais respeitado. Foi ele quem disse, numa carta de 1949 para seu editor Hamish Hamilton:

"Acho que as pessoas realmente competentes obterão um sucesso razoável em quaisquer circunstâncias. Shakespeare se sairia bem em qualquer época, porque se recusaria a ficar segregado num recanto. Ele se apoderaria dos falsos deuses e os recriaria a seu modo, ele adotaria as fórmulas em voga e faria com elas coisas que indivíduos menores julgariam ser impossíveis. Se fosse vivo hoje, ele sem dúvida iria escrever e dirigir filmes, peças, sabe Deus o que mais. Em vez de dizer ´Este meio de expressão não presta´, ele se apossaria do meio de expressão e faria com que prestasse.”

É uma passagem claramente autobiográfica, porque não há melhor descrição do que esta para o que Chandler fez com o romance policial. Pena que a própria inovação dele tenha sido tão imitada, parafraseada, plagiada, parodiada (o “Ed Mort” de Veríssimo, por exemplo) que também seja hoje, meio século depois, um clichê quase inviável. Paciência. 

Ainda assim, grandes artistas podem pegar as formas narrativas mais desvalorizadas, mais vulgarizadas, e fazer bons livros, bons filmes no interior delas.

Basta pensar no que Ang Lee fez com os filmes de artes marciais em O Tigre e o Dragão, no que Sergio Leone fez com o faroeste italiano (que ajudou a criar) em Era uma Vez no Oeste, no que Rubem Fonseca fez com o romance policial americano em A Grande Arte, ou no que Chico Buarque faz com a canção de amor. 

Não existem fórmulas mais desgastadas do que estas, mas sempre aparece alguém com talento bastante, e dedicação bastante, para enxergar as possibilidades do modelo e fazer o modelo render o máximo. 

E pra falar a verdade, um grande artista deveria transbordar quando derrama seu talento num receptáculo pequeno. O que não pode é o cara achar que é maior do que o veículo que está usando, e desaparecer dentro dele.







0501) O verbo “tradar” (27.10.2004)


(Michel de Notredame)

O verbo “tradar”, inventado por mim, tem conexões mórficas, semânticas e etimológicas com outros verbos de sentido aparentado, como “trazer” e “trasladar”, com os quais partilha a idéia de algo que está sendo transportado de um local para outro. Só que no caso do verbo tradar não se trata de um transporte ao longo do espaço, e sim do Tempo. Tradar significa ter acesso a visões do futuro, mesmo que se trate de um acesso breve, um mero vislumbre de algo incompreensível ou inexplicável.

É um verbo transitivo, que pede sempre um complemento substantivo. Dizemos, portanto, que “ultimamente Fulano está tradando muitas visões”. Tradar é o que os profetas e adivinhos fazem desde que o mundo é mundo. Não me refiro à captação de banalidades do cotidiano, como saber quem vai ganhar as eleições ou se o bicho de amanhã vai ser macaco ou borboleta, mas à captação de macrovisões de conteúdo significativo para um indivíduo ou para a Humanidade.

Um dos grandes tradadores de todos os tempos foi, por exemplo, o apóstolo São João, que num belo dia sentiu-se arremessado à Ilha de Patmos e produziu um dos textos alucinatórios mais impressionantes de todos os tempos: o Livro das Revelações, ou Apocalipse. O profeta bíblico Ezequiel é outro, e suas visões de rodas girando dentro de rodas, das quais brotavam faces de animais e asas de anjos, é um dos mais belos textos surrealistas da literatura – permitam-me esquecer por um instante a dimensão místico-religiosa de tais textos, e vê-los momentaneamente como literatura em si, pura evocação de imagens simbólicas.

O que dizer então dos poemas místico-visionários de William Blake, de Jorge de Lima, de Arthur Rimbaud? Em certos momentos chegamos a vacilar diante da intensidade visual e da ressonância arquetípica das imagens destes poetas, e hesitamos entre a atitude pragmática (tudo é mera imaginação criadora dos autores) e a atitude iniciática: a que tipo de comunicação supra-mental estavam eles tendo acesso?

Não se pense que podem-se tradar apenas imagens de cunho místico. Há uma espécie de cosmovisão sócio-planetária que prescinde da dimensão religiosa. Temos nesse caso as vastas imagens panorâmicas do futuro que geraram a poesia de Walt Whitman, do “Álvaro de Campos” de Fernando Pessoa, e do panteísmo-materialista do nosso Augusto dos Anjos. Todos nós, que através da prática da escrita desenvolvemos essa “Visão Interior”, somos capazes de captar instantâneos fugazes do Futuro em nossas telas mentais. Os mais afortunados (ou os mais competentes) conseguem transformar essas visões em poemas, em contos, em documentos literários como o assombroso Eureka de Edgar Allan Poe, onde o delirante autor descreve sua teoria sobre a formação e a dinâmica interna do Universo, usando até mesmo fatos astronômicos que em sua época não haviam sido descobertos. Todos podemos ser profetas. Eu trado, tu tradas, ele trada; nós tradamos, vós tradais, eles tradam.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

0500) O concerto mais longo do mundo (26.10.2004)



(o saite do concerto)

O concerto mais longo do mundo está acontecendo há mais de três anos numa igreja abandonada da cidade alemã de Halberstadt, e se tudo correr bem deverá se encerrar dentro de mais 636 anos. Se vocês acham que a música de Philip Glass é monótona e repetitiva, deviam ouvir esta. Em julho passado, os técnicos encarregados de manipular o órgão especialmente criado para esta performance fizeram a última mudança, adicionando mais duas notas ao Sol Sustenido, Ré e Sol Sustenido que vinham sendo emitidos continuamente desde fevereiro de 2003.

Quando eu disser o nome do compositor todo mundo vai matar a charada. Sim, é ele mesmo, John Cage, o compositor de vanguarda que entre outras aparentes excentricidades tem uma peça intitulada “4 minutos e 33 segundos de silêncio”, a qual consiste exatamente nisto. Cage, falecido em 1992, havia escrito esta nova peça com o título “Organ2 / ASLSP” (“Órgão ao quadrado: tão devagar quanto possível”). A expressão “tão devagar quanto possível” é aberta a interpretações, claro. O grupo de musicólogos que decidiu homenagear o compositor acabou fixando em 639 anos a duração total por ser esta a idade do antigo órgão da igreja de Halberstadt. A execução, portanto, deverá ser concluída por volta do ano 2640. O início da peça musical constou de um ano e meio de silêncio, e as primeiras notas só começaram a ser tocadas em fevereiro de 2003. A próxima mudança prevista é para março de 2006, quando duas das notas atuais pararão de ser tocadas.

Diante de uma obra desse tipo, o sujeito só pode mesmo é espernear ou filosofar. Espernear significa dizer que há crianças morrendo no Haiti e no Sudão, ou, se isto não comove mais ninguém, que há músicos desempregados na própria Alemanha, e os 246 mil dólares que são o custo total do concerto poderiam ter uma “contrapartida social” mais palpável.

Filosofar significa encolher os ombros. Gasta-se mil vezes mais por aí com coisas muito mais irrelevantes. Um concerto como este equivale, em escala, a uma catedral gótica, como a de Colônia, que levou 632 anos para ficar pronta. Ou a Bíblia, que levou milênios desde o primeiro rascunho do Pentateuco até a Vulgata de São Jerônimo. Na era do consumo voraz e do efêmero obrigatório, é reconfortante sentir a nossa mente elastecer-se a ponto de abranger a simples idéia de um tal concerto, de uma música que leva 600 anos para ser tocada. Mais do que um concerto de música, o “Organ2 / ASLSP” é um breque filosófico neste tobogã de nossa cultura rumo ao Presente Infinitesimal.

Por outro lado, diz a imprensa que cerca de 10 mil turistas visitaram a cidade entre abril e setembro de 2003, quando as três primeiras notas já estavam sendo tocadas. Vamos colocar então uma média de 20 mil turistas por ano, o que nos daria ao fim do concerto 12 milhões, 780 mil espectadores. Meu amigo! É mais gente do que o da última excursão do U-2. Quem foi que disse que John Cage não é pop?!




0499) O sol e a chuva (24.10.2004)



Alguns dias atrás falei aqui sobre a luz e a treva, e a injustiça de se atribuírem valores absolutos a cada uma (a luz como algo necessariamente bom, a treva uma coisa má). 

Outra parelha dessas que sempre me chamou a atenção foi o sol e a chuva. Qualquer nordestino, por exemplo, sabe que o sol é um mal necessário. Sem ele seria impossível a vida na terra, mas o problema é que com ele a situação não melhora tanto assim. 

Ouçam o Cancioneiro Nordestino de A a Z, meus camaradinhas, para vocês verem como o sol nos provoca medo, ou um respeito misturado com repulsa, uma mágoa que não tem perdão que cure. 

“No Nordeste imenso, quando o sol calcina a terra...” 

“Meu Deus, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho...” 

E a chuva? Ave Maria! Chuva é festa, é alegria, é banho de barreiro, é menino sapateando em poça de lama, é o véio mais a véia tomando banho na bica... Chuva traz as coisas boas da vida.

Aí a gente dá um pulo pro Rio de Janeiro, e tudo muda de figura. Chuva aqui é palavrão, e o sol é a panacéia universal, o remédio que cura todos os males. A indagação mais ansiosamente murmurada pelos cariocas, dia após dia, ano após ano, é: “Será que vai dar praia?...” – enquanto os olhos súplices se voltam para o céu, buscando o sol com a mesma ansiedade com que os sertanejos buscam as nuvens grossas e cinzentas que podem salvar sua vida. 

E dêem uma olhada no Cancioneiro Carioca, desde o samba até o rock circo-voador e a bossa-nova. “Fim da tempestade, o sol nascerá...” “Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol...” Que sertanejo diria à sua amada uma heresia destas proporções?

Mas isto não é tudo. Bote o passaporte no bolso e vamos dar um pulo maior, até a Inglaterra. 

O Cancioneiro Beatle também está cheio de referências ao sol e à chuva. 

“Pois amanhã pode chover, então... eu seguirei o sol.” 

“Aí vem o sol, e eu digo que está tudo bem...” 

“Eu preciso rir, e quando o sol aparece eu tenho um motivo para rir... Bom dia, raio de sol...” 

Meu amigo!... Que sertanejo no mundo pronunciaria semelhante absurdo?!

Na verdade, isto mostra que em termos de simbolismo poético nunca se tem uma solução única, ou mesmo uma solução sim-ou-não. As soluções poéticas são múltiplas, e mesmo quando coincidem, pode ser por motivos diferentes. 

Tanto cariocas quanto londrinos amam o sol e abominam a chuva – mas os dois vivem em cidades de clima totalmente oposto. Em Londres, o normal é o dia nublado e chuvoso, e o dia de sol é uma festa da Natureza. No Rio, o sol é um direito civil, um piso mínimo de liberdade e alegria a que todos têm direito, e um dia sem ele é como um dia passado na cadeia.

Não há soluções poéticas óbvias, ou, pelo menos, sempre é possível fugir ao óbvio, desviar-se do clichê, recusar a enganadora facilidade do que já foi dito e repetido. Razão, como sempre, tinha John Lennon, quando dizia: 

“Sento num jardim inglês, esperando o sol, e se o sol não vier eu me bronzearei na chuva inglesa.”






0498) Um carro-bomba por dia (23.10.2004)



O escritor V. S. Naipaul, ganhador do Prêmio Nobel há poucos anos, afirmou numa entrevista recente que a guerra religiosa é uma realidade do mundo atual e que não se pode fugir a ela. Disse ele que alguns países promovem esse tipo de guerra, e que é necessário destruí-los. O repórter perguntou se ele se referia, por exemplo, à Arábia Saudita, e ele concordou. Perguntado sobre o Irã, concordou também. Perguntado sobre o Iraque, disse: “É bem claro que aquele não é um lugar onde deveriam ter ido.” Os comentaristas do saite “The Literary Saloon”, onde a entrevista é citada, dizem: “Vejam só, até um sujeito com esse tipo de visão acha que não foi uma boa idéia invadir o Iraque.”

Os norte-americanos já perderam mais de mil soldados no Iraque, a grande maioria deles depois que George W. Bush declarou em alto e bom som que a guerra tinha acabado. Explode um carro-bomba por dia em Bagdá, uma cidade um pouco menor que o Rio de Janeiro. E os alvos não são sequer os americanos: são os iraquianos acusados de colaborar com os invasores, alistando-se na polícia. Isto parece dar razão àqueles que dizem que Saddam Hussein era um cachorro-grande que mantinha intimidados os cachorros-pequenos. Os EUA o derrubaram, e agora não sabem o que fazer com tantos cachorros-pequenos à solta, mordendo-se uns aos outros.

Saddam se equilibrava no poder sabe Deus como. Eu nunca imaginei que caísse com tanta facilidade (nem eu nem ninguém). Depois do fim da guerra, vi no Canal GNT um especial antigo sobre o Iraque em que era entrevistado um iraquiano exilado, que ao que parece tinha trabalhado no Serviço de Informações americano. Perguntado como seria possível derrubar Saddam, ele dizia: “Não percam tempo. Invadam o país, e vão direto para Bagdá. Se os americanos entrarem em Bagdá, Saddam vem abaixo. Ele não tem sustentação popular.” Não deu outra.

O que aconteceu no Iraque se parece com o jogo Coréia x Portugal na Copa de 1966. Embalada por alguns bons resultados, a Coréia entrou em campo na ponta dos cascos e em poucos minutos estava ganhando de 3x0. Mas não tinha time para sustentar esse placar. Portugal, mais maduro, foi comendo pelas beiras e venceu o jogo por 5x3. Mal comparando, é o que os iraquianos de diferentes facções estão fazendo com os EUA, que ganharam a invasão mas estão perdendo a ocupação. Não há tropas suficientes, não há moral suficiente nas tropas disponíveis, não há um plano. Os americanos precisaram perder 55 mil soldados no Vietnam até se convencerem de que ficar lá não era uma boa idéia. O pior é reconhecer que, se perderem 20 ou 30 mil no Iraque e caírem fora (o que duvido), o país vai virar um ninho de cobras. Isto quer dizer que Saddam era uma coisa positiva? Não, amigos, isto quer dizer que o sentido da existência humana neste mundo é algo muito tênue, e quando tiros começam a ser disparados é bem possível que a lógica vá pro brejo e o absurdo, finalmente, prevaleça.

0497) A morte no cinema (22.10.2004)


("O Manto Sagrado")

Meu primeiro contato com uma morte de verdade no cinema foi num faroeste que contava a vida de Jesse James. É claro que àquela altura eu já tinha visto centenas de índios e de bandidos sendo abatidos a tiros, mas, como sabemos, essas mortes não contam. São mortes cenográficas, um mero telão-de-fundo para as aventuras e façanhas dos mocinhos. No tal filme, porém, levei um choque. No fim, depois de muitos tiroteios e cavalgadas, Jesse James está mais ou menos aposentado, e recebe umas visitas em casa. A certa altura ele se levanta para ajeitar um quadro na parede, ou para pegar alguma coisa num armário. O visitante, em visível desobediência às regras básicas da dramaturgia, puxa o revólver e o enche de tiros pelas costas. Jesse James morre, e o filme acaba.

Me consolei um pouco quando fiquei sabendo que foi assim na vida real, mas uma pulga instalou-se atrás da minha orelha. E voltou a morder com toda força quando fui ver Psicose de Hitchcock, que talvez seja o primeiro caso na História do Cinema em que a estrela principal morre com 20 minutos de filme. Saber que o filme continuaria até o fim sem a presença de Janet Leigh me pareceu tão injusto quanto saber que o mundo continuaria um dia sem a minha.

Hesito em listar aqui a morte de Marcelino Pão e Vinho – primeiro porque não é bem uma morte, e sim uma subida aos céus nos braços de Cristo; segundo, porque vi o filme quando tinha aquela mesma idade, e minha identificação com o personagem era tão forte que qualquer julgamento fica necessariamente prejudicado. Mas poucos anos depois marejei os olhos quando Alain Delon morre num duelo em Christine (deixando Romy Schneider inconsolável). Para mim, eram dois adultos que viviam num mundo de emoções inacessíveis. O que me apavorava era descobrir que o Final Feliz não era uma Lei da Natureza, e sim um capricho ocasional dos produtores cinematográficos. Nenhuma felicidade estava garantida, nem mesmo a fictícia: eles, os Personagens, eram tão mortais quanto nós. O que me pareceu, pela lógica arrevesada que vigora na cabeça dos escritores, uma injustiça ainda maior.

Certas mortes no cinema nos abalam porque acreditávamos que ali, pelo menos, era um território onde o “The End” não era um fim, e sim uma porta aberta para a eternidade. No mundo que víamos através do écran dourado ninguém morria, ou pelo menos ninguém que importasse. Por isto ainda me lembro da sensação de abismo que experimentei na cena final de O Manto Sagrado, quando Richard Burton entrega a alguém o manto púrpura de Cristo e, de mãos dadas com Jean Simmons, marcha na direção dos portões que se escancaram para a arena, onde os dois serão devorados pelos leões. A memória emocional que guardo desse momento pode ser assim transcrita: “Mas é assim que vai acabar? Tanta luta, tanta esperança, e no fim a gente vai morrer?” Vai. E é melhor ficar sabendo aos dez anos de idade, porque depois a porrada vai ser maior ainda.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

0496) O Hiper-Google (21.10.2004)



O Google é o principal instrumento (recuso-me a chamá-lo de “ferramenta”) de busca na Internet. Anos atrás, estes instrumentos eram muito indiscriminatórios: você digitava o assunto procurado e recebia milhões de irrelevâncias. Parece que eles aprenderam a hierarquizar, e agora, pelo menos no meu caso, costumo achar o que procuro nas primeiras três páginas que se oferecem. O que é bom, porque são muitas. Pedir “Sigmund Freud” me dá 343 mil páginas. “Jesus” me dá 5 milhões e 600 mil. “Beatles” me dá 5 milhões 480 mil (a profecia de Lennon não se cumpriu ainda!). “Karl Marx”, 846 mil. “Madonna” me deu 5 milhões e 900 mil, mas aí existe uma superposição entre duas grandes estruturas publicitárias, o showbiz e a Igreja. “George W. Bush” fornece 5 milhões 120 mil páginas. Até o modesto “Braulio Tavares” me fornece 1.870 resultados – nada mau!

Estou satisfeito? Nem um pouco. Ainda estamos arranhando a superfície desse Universo. As buscas do Google são assim extensas e rápidas porque verificam texto, que é a coisa mais rapidamente verificável que existe. Pois eu gostaria que existisse um Hiper-Google para se procurar imagens. Não o sistema atual, onde você digita “pirâmide” ou “coelho” e aparecem imagens relativas a essa palavra. O que eu queria era um Google onde você colasse uma imagem, clicasse “Buscar”, e ele desse uma geral nos saites do mundo inteiro, recolhendo imagens parecidas com aquela. Claro que seria necessário um tremendo software reconhecedor de imagens, mas não é impossível. Só está muito além das nossas possibilidades atuais.

Não sei se esta coluna é lida no Silicon Valley, a Meca da informática, mas, se for, anotem aí: eu gostaria de um Google que localizasse melodias. Poderíamos fornecer a partitura, ou então um arquivo de som feito na hora. Não existe coisa mais chata do que você pegar o violão, passar a tarde inteira fazendo uma música bem caprichada... e depois ficar na dúvida se aquela música já existe ou não. Nossos tribunais estão cheios de processos sobre músicas que foram compostas mais de uma vez. Eu passo por problemas assim diariamente. Se houvesse um Hiper-Google, era só plugar o violão, dedilhar a melodia, e dar “Enter”. Em meio minuto chegaria a resposta: “Idiota, esta música é ´Eleanor Rigby´!”. Beleza.

Dou estes exemplos para vocês verem o quanto evoluímos em uma década, e o quanto ainda poderemos evoluir. Antes do Yahoo e do Google, o único lugar onde a gente podia fazer pesquisa era na Biblioteca Municipal. Já perdi tardes inteiras em Bibliotecas tentando adivinhar o sentido de uma palavra que não tinha nos dicionários: eu ficava abrindo livros ao acaso (Medicina, Botânica, Geografia...) para ver se achava a maldita palavra. Hoje, é num clique do mouse e num pisco do olho. Um Google reconhecedor de imagens e de melodias ainda está um pouco distante de nossa realidade imediata, mas as possibilidades, como sempre, são infinitas.