Todo mundo lembra do nome de Herodes por causa do famoso
episódio bíblico da “Matança dos Inocentes”. Herodes foi rei da Judéia,
preposto do Império Romano, e quando Jesus nasceu ele ficou sabendo do boato de
que o Messias dos judeus havia nascido. Sem ter como saber onde, ou filho de
quem, ele mandou matar todos os recém-nascidos da região em torno de Belém.
Spoiler: Jesus escapou.
A newsletter A Word A
Day, que assino há muitos anos, e aconselho com entusiasmo (é gratuita: https://wordsmith.org/ ), trouxe hoje um
verbete sobre esse transtornado vilão da Antiguidade, em torno de quem ocorrem
algumas curiosidades linguísticas.
Pela descrição do mestre Anu Garg (que dirige a AWAD), Herodes era
um paranóico. Tinha medo de todo mundo
que pudesse arrancar o poder de suas mãos.
Mandou matar sua esposa favorita, Mariamne, e três dos seus filhos. Como
eram ferozes as disputas políticas da Antiguidade!
Conta-se que o imperador romano Augusto fazia com ele um
trocadilho maldoso: “Lá na casa de Herodes, ser um porco é mais seguro do que
ser filho dele.” O trocadilho se baseia
no fato de que Herodes professava a fé judaica (que proíbe carne de porco), e
que em grego antigo “porco” é huis, e
“filho” é huios.
(Digressão: há muitos soberanos com este nome; este a que me
refiro, “Herodes o Grande”, não deve ser confundido, por exemplo, com seu filho
“Herodes Antipas”, personagem da história da dança de Salomé e da cabeça de São
João Batista.)
A Matança dos Inocentes, pelo que diz a newsletter, é um episódio mencionado no Evangelho Segundo São
Mateus, mas que não tem (ao contrário de muitos episódios bíblicos) confirmação
histórica independente.
Seja histórico, seja simbólico, o episódio ficou incrustado na
nossa memória cultural. Nove entre dez pessoas, ouvindo o nome desse potentado,
pensarão: “Ah, sim, Herodes, o rei que mandou matar os bebês”.
(Estátua de Harry Potter, em Leicester Square)
AWAD cita, usando o adjetivo correspondente, um comentário sobre
a série Harry Potter:
Quando
recém-nascido, Harry sobreviveu ao ataque herodiano de Voldemort, para tornar-se
depois “o escolhido”. (Bill Wylie-Kelermann, trad. BT)
Ele lembra também que o adjetivo (em inglês pelo menos; não
lembro desse uso em nossa língua) também significa ”pomposo, pretensioso, bombástico”,
em alusão ao modo como o personagem Herodes se comportava nos dramas religiosos
medievais.
E dá como exemplo essa descrição de um personagem antipático:
“Ele
não passa de um estuprador-em-grupo arrotando sua auto-importância, e com uma
insistência herodiana em dizer que ninguém é mais importante do que ele.”
(Daily News, Los Angeles, 12-1-1997)
A língua inglesa usou este nome para criar um verbo de difícil
tradução, e muito expressivo: “out-herod”,
que significa ir além de Herodes, ultrapassar Herodes em matéria de crueldade.
AWAD cita este exemplo de S. Nassir Ghaemi, em Perspectives in Biology and Medicine (2013):
Os
danos diretos infligidos por nós, médicos praticantes, que vemos os pacientes principalmente
como uma fonte de lucro, ocorrem numa escala que suplanta Herodes em relação
aos danos provocados pela indústria farmacêutica.
Este verbo, out-herod,
foi tornado famoso por Shakespeare no Hamlet
(Ato III, cena 2), e não se refere originalmente à crueldade, e sim ao
histrionismo teatral.
É a cena em que Hamlet contrata uma trupe de atores itinerantes
para encenar diante do Rei Cláudio uma peça onde um rei é morto pelo irmão, e
com isto provocar-lhe incômodo e fazer com que ele se traia.
Hamlet, como bom diretor, dá instruções aos atores,
pedindo-lhes que evitem o tom caricatural e farsesco que provavelmente estava
na moda:
Ah,
me incomoda até a alma ficar ouvindo um brutamontes de peruca rasgar uma paixão
em trapos, em farrapos, e estourar os tímpanos da fila do gargarejo, que na
verdade só consegue entender pantomimas e estardalhaço; eu baixaria a chibata
no lombo desses camaradas que exageram no papel de Termagante e que herodiam
mais do que Herodes... pelas caridade, não façam uma coisa dessa.
(trad.
BT)
Digressão: isto aí em cima é o que chamam de “tradução livre”,
ou seja, uma coisa pra quebrar o galho do momento, mas que eu não apresentaria
profissionalmente a um editor, para não ter que soprar no bafômetro. Fim da
digressão.
O importante a destacar é que quando Hamlet se refere a
“herodiar mais do que Herodes”, na verdade não está se referindo à suposta
crueldade do autor da Matança dos Inocentes, e sim ao histrionismo
espalhafatoso dos atores populares que o interpretavam.
(E me atrevo a dizer: não os que o interpretavam na época do
príncipe Hamlet na Dinamarca, mas talvez os que o interpretassem na época do
dramaturgo Shakespeare em Londres.
Será?)
Em suma: o verbo está bem ilustrado nessa fala metalinguística onde
um personagem de uma peça de teatro explica como não se deve encenar uma peça
de teatro.
(Herodes, pintor anônimo ao estilo de Arcimboldo, séc. 17)
Voltando ao rei Herodes histórico: o seu rompante de mandar
matar os bebês, na esperança de se livrar de um possível Messias, pode ter
acontecido, sim, mas numa escala menos catastrófica do que imaginamos. A
Wikipedia fala que na época do nascimento de Jesus a cidade de Belém era muito
pequena e a matança não seria numericamente tão grande assim, e por isso não
teria sido referida por historiadores romanos como Flávio Josefo.
Verídica ou não, a história deu origem a uma expressão que já vi
usada por aí: “a Solução Herodes”. É quando temos um problema e decidimos
resolvê-lo de um modo, digamos, truculento. Acontece um crime. A polícia tem
cinco suspeitos, e prende todos os cinco, para ter certeza de que o criminoso
não escapou.
É o método que em computação chama-se de “força bruta”: testar (em
alta velocidade) todas as alternativas possíveis até esbarrar na resposta
correta, como quando é preciso adivinhar uma senha alfanumérica. Ou quando um
computador está jogando xadrez e no espaço de alguns minutos tenta dezenas de
milhões de possibilidades até escolher a melhor jogada.
Na literatura, essa solução se relaciona com o famoso exemplo
dos seis macacos com seis máquinas de escrever, que em um milhão de anos
escreveria todos os livros da Biblioteca Nacional. Os termos variam muito, o
que conta é a idéia: com tempo suficiente para testar todas as soluções
possíveis, seria possível chegar à resposta certa mesmo sem reconhecê-la ou
entendê-la. É mais ou menos isso que a
Inteligência Artificial tenta fazer de forma mais otimizada, mais eficiente.
Na minha antologia Contos
Fantásticos no Labirinto de Borges (Rio: Casa da Palavra, 2005), comentei
esse aspecto relacionando-o com a obra do autor argentino:
Borges diz em
“O imortal” que Homero compôs a Odisséia, mas, postulando um prazo infinito,
seria impossível alguém não compor a Odisséia.
O conto “A Biblioteca de Babel” é uma ampliação desta idéia: a
biblioteca ilimitada cujos livros contêm todas as permutações possíveis de
letras, depois de palavras, depois de frases, depois de parágrafos, até que, em
algum ponto aleatório do edifício, seja possível encontrar qualquer livro real
ou imaginado. Como se um
super-computador cósmico tivesse sido incumbido da missão de produzir obras
literárias e só fosse capaz de fazê-lo usando a Solução Herodes. A análise
combinatória é uma das fixações de Borges, e está presente também nos seus
comentários sobre a Cabala e seus métodos de permutações verbais e numéricas
sobre o texto das Escrituras Sagradas.