Faz um tempo que não comento aqui a poesia dos amigos, mas não por desinteresse ou por falta de material. Escrever estes artigos é andar de moto, e falar de poesia é um passeio a pé. Louis Pauwels e Jacques Bergier, em O Despertar dos Mágicos, comparam a Alquimia à jardinagem... e a poesia corre nessa mesma raia. Coisas da modernidade.
Mar Becker
(São Paulo: Círculo de Poemas, 2025)
Conheci a poesia de Mar Becker no Facebook, e a acompanho há vários anos. Ela adotou o sistema de colocar os poemas na rede num espírito de work in progress, com versões sucessivas dos mesmos versos, com dias ou semanas de intervalo. Isso nos dá uma sensação permanente de suspensão, de expectativa, como ao ver a foto de um nadador pulando do trampolim.
talvez esta escrita e a água sejam irmãs. ambas mal suportam o toque. ambas se devolvem aos olhos pela marca da finitude (do que desaparece quando tocado bruscamente, e portanto pede mãos breves, que alcancem de dizer certo ponto de estremecimento, nem mais nem menos) esse parentesco entre água e vocabulário, o afeiçoar-se dos dois é a mesma ocasião de tremor, é isso o que eles parecem confessar:“aqui apenas o rastro sobrevive”
porque o amor torna frágil tudo o que tocae porque eu mesma não evitei quetocasse meu corpomeus ossosminha respiraçãomeu sonopor isso temo por mim –pelo risco de desabar a umtremor de pálpebras
um anjo, no quarto antigo –desenhava a luz entrando da rua de tal modoarranjava-a desde a inclinação do postee a travessia pela janelae conduzia o pouso no meurosto cindindo-o em dois com tal zeloque toda vez minha boca foi guardada à sombra
as poetas da minha vida. as costureiras com quem vivi. nas duas visões, mãos silentes, dorsos de ladra.a manhã no papel, no musseline —e no meio as pontas da mulher muda vagueando mãos, cumprindo-se inteira em equilibrar na boca crispada uma agulha levíssima
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Tanussi Cardoso
(São Paulo: Patuá, 2026)
MANHÃS EM SÃO PEDRO DA ALDEIAPássaros cantam quando acordo.Não por mim, certamente,nem para anunciar a alvoradabaixando sobre o azul da Lagoa;nem para a chuva ou o Sol,nem para o vento nas flores do Sudoeste.Cantam pelo hábito da oração,por ofício – assim como os poetas.Por isso, mesmo nos acordes monótonos dos dias,entoando a mesma melodia de alegria,eles cantam
Tenho computado, no que eu escrevo e no que escrevem meus companheiros de geração, a frequência do tema da velhice, da ausência dos que se foram, da aceitação da passagem do tempo. Pois é. A vida nos dá os motes e a gente glosa. Para isto viemos.
DO TEMPO QUE SE PASSOU NO FUTUROTenho saudade do futuro que foi ontem:do sorriso de minha mãe brincandoem seu carnaval de sonhos;do cantar de meu paibailando a tragédia dos tangos;da beleza das irmãspenteando filhos e espantos;do grande amor que morreuquando tudo era só encanto.Tenho saudade do futuro que mora comigoindelével e estranhamente vivo.
A poesia como interrogação. A busca, tão paciente quanto
impaciente, do significado disto tudo, talvez não uma resposta para todos os
problemas, mas um idioma em que possamos formular melhor as perguntas. Porque
sem elas talvez ninguém sequer percebesse que o mundo está nos percebendo.
CRIATURAQuem está dentro de mim?Quem, o outro,batendo portas,abrindo janelas,costurando sonhos,enquanto penso ou durmo?Há alguém me descosendo,querendo sair,pular para fora.Quem é ele?Quem, o desconhecidosem nometentando me acordar?
CONSUMOUsar uma roupa novanão é só o mero ato de vesti-la.É uma pele sobre a outra pele.O entendimento das texturas,a tessitura da nudez leve e macia,quase sensual, quase fogo.Cada movimento do tecido sobre o corpoé como a água limpa sobre um rio desgastado.As peles se aprendem, se deslizam, se enlaçam,-- pernas, braços, peitos, coxas, sexos --e se renovam.Feito amantes reconhecendo suas partes.Feito santos vestindo seus pecados.
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André Ricardo Aguiar
(Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2025)
EXPERIÊNCIATão minério o amortão funda a minaque o funda.Tão mineiro o amorquieto, granada mansaao adormecer.E saímos com os bolsos cheiosde perdaspreciosas.
Ninguém subestime a imaginação visual dos falsos desatentos, dos
distraídos no mundo da lua, dos que para nos verem melhor olham em outra
direção. Eles passam pelas paredes transparentes do mundo como os gatos (esses
inevitáveis gatos) atravessam com soberania seus túneis de invisibilidade.
BOLHA DE SABÃOA bolha de sabão é um pequeno planetamuito delicado. Não o invada.Vejo que os continentesnão vão durar muito. O mesmo se dácom os mares finíssimos.Sua atmosfera de roupa lavadatem um clima instável ao tato.Talvez a população da bolha sequer se movaem ondas migratórias, ou o pequenoplaneta, ploft, teria drasticamentefinda a sua geologiaetérea.Um deus criou este mundo num sopro.Já começou outro.
ARTESANATOPrecisa elidir o pássaroretirar-lhe as víscerassugar o que resta de céu.Com fúria de artesãoe um bisturi finíssimoesculpir o canto só osso.O que sobrar é a flauta.
Já os cinéfilos são uma seita sorrateira e mansa, uma gente sem pecado cujo maior prazer é ver o sol nascer retangular, é escutar o tremido prazeroso da fita de celulóide vibrando nas engrenagens do projetor, e saber que se aquele milagre mecânico é possível então nada mais deve parecer inalcançável.
CINEMA, OU UMA HISTÓRIA ALTERNATIVA DO AMORNão fomos ao cinemapara provar que o amor é uma sala escuraa idéia era ver o filme apesar de nóse não contrapor cada fotograma da vida realpara que a exibição fizesse sentidoe daí que fez aquele silêncio universale a luz explodiu – e outros, do outro ladoda sala, viveram o que queríamosembora numa velocidade que só fazia sentido alientre quatro paredes e um amor suspensocomo um vampiro tirando uma folgada luz.
Não só alquimia, não só jardinagem: a poesia se parece com a culinária, uma arte delicada e distraída, tanto esforço para produzir algo que será destruído daqui a alguns minutos. E para isto viemos.
