Muitos anos atrás, eu estava viajando pelo Sertão e fiquei
hospedado por alguns dias na casa de uma família, na zona rural, um ambiente acolhedor
mas um tanto precário. Tinha um quarto de hóspedes, pequeno, agradável, onde eu
dormiria super bem – se não fosse a luz do corredor que ficava acesa e vazava
para dentro, por cima da bandeira da porta.
Falei com o dono da casa, ele pediu desculpas.
-- Eu só gosto de dormir com uma luz acesa dentro de casa –
explicou. – Porque durante a noite eu acordo e vejo que não faltou energia, aí
pego no sono sossegado.
Ele tinha razão. Durante o tempo que passei lá, faltou luz todos
os dias. Quando ele abria um olho de madrugada e via a luz acesa, isso dava
segurança. Era a garantia de que a geladeira estava funcionando, que a carne do
freezer não ia estragar, e que no
café da manhã o rádio estaria ligado no programa dos cantadores.
O aconchego-bom na vida da gente não é apenas o ambiente
familiar, conhecido, a presença de pessoas queridas. É também aquela sensação
indefinível de normalidade, de que “tudo está no seu lugar, graças a Deus”,
como cantarolava o sumido Benito de Paula.
Todo mundo precisa dessa sensação. Tem gente, por exemplo, que
adora os barulhos da Natureza: os grilos noturnos, o farfalhar do vento nas
árvores, o pio da coruja. Eu morro de medo dessas coisas. A Natureza é, pra
mim, um ambiente hostil e desconfiado. Tranquilidade pra mim é dormir escutando
barulho de motor de carro, TV ligada no prédio vizinho, notívagos conversando
na calçada.
Tem gente que adora ter televisão no quarto, e dormir com a
televisão ligada. Eu não chego a esse ponto (lugar de TV é na sala), mas
entendo. Rola uma musiquinha, rola uma propaganda, gente falando, locutor...
Até filme de terror. A gente ouve aquela música arrepiante, aquela voz
cavernosa, mas sem nem abrir os olhos a gente pensa: “ah, é um filme véi” – e
dorme de novo, feliz de estar na vida real.
A gente conta com essas coisas. São um dado obrigatório da vida
urbana, mas a gente esquece que há uma estrutura civilizatória imensa, no valor
de bilhões de reais, dedicada a colocar água
na nossa torneira, luz na nossa
lâmpada, luzinha piscando na nossa
internet.
Quer tirar o chão de uma população urbana? Cancele essas três
coisas durante sete dias, e você vai ver o efeito das sete pragas do Egito.
O Apocalipse não precisa ser um meteoro nem uma invasão
alienígena, basta um colapso tecnológico.
Eu estava aqui anotando trechos de Jorge Luís Borges para um
curso online que vou ministrar na “Escrevedeira” a partir do próximo dia 13.
Veja aqui: https://escrevedeira.com.br/curso/borges-e-as-possibilidades-do-livro-impossivel/).
Em A Cifra (1981), o
poema “Ronda” celebra essa cidade da Andaluzia, que fez parte dos antigos
domínios árabes na Península Ibérica, um tema que sempre me fascinou. E a certa
altura Borges diz:
(...)
um côncavo silêncio de pátios,
um
ócio do jasmim
e um tênue rumor de água, que conjurava
memórias de desertos.
(trad. Josely Vianna Baptista)
É uma imagem poética das mais discretas, mas para um leitor
borgiano é das mais eficazes. É uma imagem auditiva. Eu uso a palavra “imagem”
num sentido mais amplo do que o da imagem apenas visual. Na literatura, usamos
a palavra para produzir também imagens auditivas, táteis, olfativas, etc.
Quando Borges descreve assim esse ambiente moçárabe, não abre
mão das impressões visuais que ele sabe fazerem parte do vocabulário coletivo.
Acontece que para ele, que estava cego, o cheiro do jasmim e o marulho da água
são igualmente pungentes, ou até mais.
Marulho de água tem um significado diferente para quem é árabe
ou sertanejo. Um urbanóide geralmente passa batido. Ruído de água passando é
algo que tranquiliza, garante.
Fico imaginando a angústia do Manuelzão de Guimarães Rosa (“Uma
Estória de Amor / A Festa de Manuelzão”, em Corpo
de Baile) quando sentiu falta da água do riachinho.
É um dos detalhes importantes desse conto tão cheio de pepitas
de ouro. Porque Manuelzão, ao se instalar na fazenda Samarra, constrói sua casa,
“graúda, com muitos cômodos de chão
batido, e só um quarto de assoalho”, no
patamar de uma elevação de onde escorre um riachinho convidativo, “um fluviol, cocegueando de pressas”.
Dava
alegria, a gente ver o regato botar espuma e oferecer suas claras friagens, e a
gente pensar no que era o valor daquilo.
A casa é construída, a vida avança, mas...
Porém,
estrito ao cabo de um ano de lá se estar, e quando menos esperassem, o
riachinho cessou. Foi no meio duma noite, indo para a madrugada, todos estavam
dormindo. Mas cada um sentiu, de repente, no coração, o estalo do silenciozinho
que ele fez, a pontuda falta da toada, do barulhinho.
Um silêncio que equivale a uma falta de ar, não é mesmo? Porque
desse dia em diante, secada a fonte, Manuelzão precisa mandar todo dia um
carreiro descer a encosta e trazer latões cheios para o uso da casa; e o
riachinho fica seco pro resto da vida.
Todo mundo precisa se cercar de normalidades. Mais do que de
confortos. Os confortos até fazem falta quando desaparecem, mas a gente dá de ombros
e toca o barco. O que não pode faltar é esse conjunto de coisinhas que nos
garantem uma provisória paz.
(Averróis)
O próprio Borges, muitos anos antes, já empregara uma imagem
equivalente, no conto “A Busca de Averróis” (em O Aleph, trad. Flávio José Cardozo), ao descrever o dia-a-dia do
grande pensador espanhol-muçulmano.
No
fundo da sesta arrulhavam amorosas pombas; de algum pátio invisível se elevava
o rumor duma fonte; algo na carne de Averróis, cujos antepassados procediam dos
desertos árabes, agradecia a constância da água.
Agradecemos a constância dos pequenos confortos da civilização, a
constância das coisas que nos prometem normalidade. Na verdade, há quem brigue por elas, quem
pegue em armas por elas, quem faça qualquer tipo de concessão desde que não se
veja privado delas.