domingo, 5 de julho de 2009

1145) O direito de copiar (14.11.2006)



Antigamente (e bota antigamente nisso) amigos meus viviam de gravar fitas cassetes. Hoje a fita cassete marcha para o Museu das Tecnologias Obsoletas, indo juntar-se ao stêncil, à máquina thermofax e à fotografia lambe-lambe. Mas naquele tempo quem tinha uma boa discoteca e um bom gravador produzia fitas caseiras. “Me arranja uma fita só com Joan Baez cantando Bob Dylan”, dizíamos, e o cara passava uma tarde procurando os LPs e copiando as faixas de uma em uma. Pedíamos uma fita com músicas de amor para dar no aniversário da namorada. Ou uma fita só com forrós para um arrasta-pé no sítio de Fulano. Ou uma fita reunindo todos os compactos de Chico Buarque.

Pasmem, mas a indústria musical perseguiu de arma em punho essa industriazinha de fundo-de-quintal. Um artigo recente de Joey deVilla lembra os anúncios que saíram nas páginas das revistas de música: “Fitas Domésticas Estão Matando a Música – E São Ilegais”, e o logotipo de um cassete imitando uma caveira retangular, com dois ossos cruzados embaixo. Não era só a fita de música, era também a cópia VHS de filmes. O notório executivo Jack Valenti disse uma vez: “O gravador de video-cassete está para o produtor de cinema dos EUA e o público de cinema dos EUA assim como o estrangulador de Boston estava para as donas-de-casa que passavam o dia sozinhas”.

Hoje tudo se repete com o MP3, o CD digital, os saites de troca de música pela Internet. Existe uma batalha jurídica das mais ferozes tentando impedir um fato consumado. Eu me lembro de um velho princípio que tinha nos manuais marxistas do meu tempo de estudante: “Quando os meios de produção evoluem, as relações de produção devem evoluir em paralelo com eles, acompanhando-os. Se não o fizerem, serão atropeladas por eles”. Como esse pessoal tem com Marx a mesma relação que os vampiros têm com a cruz, nunca assimilaram uma verdade tão evidente e que independe de ideologia.

A indústria procura a eficiência máxima, e assim surgiram as tecnologias digitais. Acontece que a indústria é toda segmentada. O pessoal que trabalha no setor de inovações tecnológicas não dá palpite no setor de exploração econômica, e vice-versa. Quando este setor veio perceber que as tecnologias digitais transformavam cada freguês consumidor numa industriazinha de quarto-dos-fundos, num concorrente em potencial, já era tarde. O bloco estava na rua. A corda de caranguejos tinha sido desamarrada, e não havia quem conseguisse tangê-los de volta. E a indústria, em vez de se adaptar aos novos tempos que criou sem querer, declara guerra aos próprios clientes e ameaça botar na cadeia bilhões de pessoas.

Não se aflijam: vai passar. Muitos jovens serão presos porque copiaram alguns MP3, mas a música vai deixar de valer tanto dinheiro quanto vale hoje. Péssima notícia para nós, os compositores profissionais. Ótima notícia para nós, os artistas que querem simplesmente dizer alguma coisa ao maior número possível de pessoas.

1144) A nova “Rolling Stone”(12.11.2006)




Mudaria a Rolling Stone ou mudei eu? A revista que já foi chamada a “Bíblia do Rock” retorna em nova versão brasileira, depois da versão dos anos 1970 que os roqueiros paleozóicos como eu recordam com tanto carinho. Mas... os tempos estão a-mudando? Quem sai na capa do número 1 é Giselle Bundchen! Me desculpem os editores, mas é como ver uma edição brasileira dos Cahiers do Cinéma trazer Xuxa na capa.

“Ah, mas o rock mudou”, suspiram os mais resignados. E com isso eu concordo. O rock, que era um yin-yang de Revolução e Contracultura, partiu-se em duas metades independentes. Sem o equilíbrio zen garantido pela presença da metade oposta, elas degeneraram em duas caricaturas grotescas: brutalidade sem ideologia, e sentimentalismo sem substância. O que temos hoje, de um lado, é o desnorteamento punk-metaleiro que flerta com o satanismo, o neo-nazismo, os serial-killers, o apocalipse-now de George Bush, e tudo o mais que dê a esses jovens sem causa a sensação de serem os ferrabrazes, os schwarzennegers do mundo. E do outro lado um hip-hop e um pseudo-pop que vendem a alma por pontos percentuais nas pesquisas, e dão o corpo de graça para galgar uma posição a mais nos “charts” da “Billboard”.

Pronto. Já desabafei, então vamos à revista. Que não está tão ruim, numa primeira passada, e tem artigos que confirmam com ênfase isto que acabei de dizer. Leiam a matéria que fala do rock como trilha sonora das matanças norte-americanas no Iraque. É patético ver que tudo aquilo mostrado por Coppola em Apocalipse Now continua acontecendo. O soldado sai de madrugada numa patrulha onde vai enfrentar insurgentes iraquianos; entope-se de drogas para deixar o corpo no ponto, e entope-se de rock violento para poder matar gente sem sentir medo. Foi para isto que Elvis Presley e Chuck Berry existiram? Cartas para a redação.

A Rolling Stone brasileira não poderia, é claro, ficar imune às contradições-de-rico da sua matriz californiana. O rock, como existia no começo da revista, não existe mais, ou existe empurrado para as catacumbas da Série C. Claro que os medalhões continuam desfrutando do espaço conquistado; aí estão nesse número 1 figuras dos anos 1970 como Jack Nicholson, além de Bob Dylan dando a entrevista regulamentar sobre o CD mais recente (não li ainda; já li mais de 500 entrevistas de Dylan, posso esperar). A imprensa do rock sempre teve uma tendência danada a virar press-release de gravadora.

É uma revista com a cara do rock de hoje, cheia de glam e de glitter (o que quer que isso signifique), feita naquele papel brilhoso que obriga a gente a ficar o tempo inteiro procurando um ângulo que não reflita a luz. Excelente metáfora para a própria revista e para a imprensa rock em geral. A gente fica procurando ler algo, que às vezes até está ali, mas é impossível. As luzes da ribalta e os flashes dos fotógrafos são fortes demais. Com Giselle Bundchen na capa, havemos de esperar o quê?

quinta-feira, 2 de julho de 2009

1143) A escola da paranóia (11.11.2006)



Os EUA são uma sociedade muito doente, tão doente quanto a nossa, embora talvez sejamos meio saudáveis onde eles são doentes e vice-versa. Aqui, em nossas escolas, temos a invasão de traficantes, e as brigas de gangues que acabam se transportando para o interior dos colégios. A guerra social dos morros e das periferias, alimentada pelo tráfico, expande-se para dentro das escolas. Nos EUA, a guerra não tem nada a ver com drogas ou tráfico. As periódicas matanças que acontecem nas escolas americanas são produto apenas da neurose da própria sociedade. As gangues de lá não são produto da pobreza e da droga. Quem realiza massacres como os de Columbine e esses mais recentes são filhos de uma classe média sem problemas financeiros mas invadida pela violência e pelo culto às armas, através do cinema, da TV, dos jogos eletrônicos... E da falta de propósito na vida, a mais insidiosa das doenças mentais.

E a cura não está à vista. Pouco tempo atrás, no Estado de Oklahoma, um candidato ao cargo de superintendente escolar sugeriu um plano fantástico para prevenir as matanças escolares. Bill Crozier, do Partido Republicano, afirmou que se for eleito fará com que cada estudante tenha embaixo de sua mesa escolar um livro-texto usado, bem volumoso, para se defender das balas no caso de eventuais tiroteios. Diz Crozier que examinou os casos anteriores e percebeu que alguns alunos tinham sido atingidos por tiros mas as balas foram amortecidas por livros que levavam na mochila. Ele fez alguns testes com armas de diferentes calibres e livros de diferentes espessuras, e acredita ter chegado a uma fórmula adequada. Balas de pistola, diz ele, podem ser paradas por um único livro.

“Podem achar que é maluquice”, diz Crozier, “mas é uma questão de ordem prática, é algo que dá para fazer. Pode ser uma maneira de desviar as balas até que a polícia chegue”. Eu tenho calafrios de incredulidade ao visualizar a cena de um sujeito dando tiros de revólver num garoto e este usando um livro de matemática como escudo.

O que eu mais admiro nos americanos é essa inesgotável capacidade de crer na solução de problemas. Não, não estou sendo irônico. Existem coisas na vida que nós, brasileiros, abaixamos a cabeça, cruzamos os braços e entregamos a Deus. O americano não. Ele pensa, analisa, ataca o problema por todos os lados, com uma fé absoluta na racionalidade, na praticidade, no pragmatismo, e no final feliz. “Para qualquer problema existe uma solução”. Esta frase está escrita na Constituição dos EUA? Se não está, convoquem o Congresso imediatamente para corrigir a falha.

Não importa que as soluções sejam absurdas, ridículas, despropositadas, cruéis, inadequadas. Não importa que os problemas tenham sido (como anda ocorrendo na política internacional) criados por eles mesmos. Os americanos acreditam que tudo na vida tem solução. Jamais se darão por vencidos, e temos que tirar o chapéu em sua homenagem.

1142) A arte acadêmica (10.11.2006)




("Crepúsculo" de Winston Churchill)

Pittigrilli era um escritor italiano muito popular nos anos 1950. Suas obras foram publicadas no Brasil pela antiga Editora Vecchi. Humorista ferino, contista malicioso, e um grande fazedor de frases.

Ele dizia não entender por que motivo as pessoas, diante de um belo por-do-sol, exclamavam: “Que coisa linda! Parece uma pintura!” e diante da pintura de um por-do-sol diziam: “Que coisa linda! Parece de verdade!”.

Nosso condicionamento visual (hábito de olhar quadros) e intelectual (assimilação semi-consciente de regras estéticas sobre o que é bonito e o que não é) cria um estilo que podemos chamar de Beleza Confortável. É um tipo de arte que não incomoda, não assusta, não desconcerta, não nos faz parar para pensar duas vezes, não nos pergunta o que achamos.

Vemos uma pintura acadêmica mostrando um por-do-sol, um grupo de ninfas saltitando no bosque, uma bandeja com maçãs junto a um vaso de flores... e basta dizermos: “Que bonito!”

A Beleza Confortável é a média aritmética entre o por-do-sol que parece uma pintura e a pintura que parece um por-do-sol. É um modelo estético que se ajusta sem esforço às nossas expectativas – desde que elas sejam, é claro, intuitivas, pouco pensadas e pouco dispostas a se aprofundar no assunto.

A Beleza Confortável é uma das grandes conquistas do Academicismo, aqui entendido como a arte de bordar repetições em torno do que já foi descoberto, eximindo-se ao mesmo tempo da obrigação de descobrir uma novidade, por mínima que seja.

Pittigrilli não era um semiótico, mas um conterrâneo seu que é, chamado Umberto Eco, pôs em circulação um termo muito útil, num ensaio onde ele comparava a arte nazista e o Realismo Socialista soviético, que eram iguaizinhos.

Eco fala do “Academismo Especulativo”, aquele grande número “de pintores falidos, de especialistas de oleografia, de pincéis voltados à decoração de caixas de pó-de-arroz e de bombons, que encontram inesperadamente um mercado político: os hierarcas que se deliciam com os nus de fundo mitológico”.

Chama-se de realismo a este tipo de arte porque as coisas pintadas não contradizem a imagem visual que temos das coisas reais – se bem que uma pessoa que conhecesse apenas as coisas, e não tivesse noções de pintura acadêmica, talvez visse nelas uma variante do jogo-dos-7-erros.

São, diz Eco, os “miseráveis pintores de fim de semana que, cientes do fato de que o Regime gosta de barcaças, serrarias, minas, colocam seus pobres e inábeis pincéis a serviço de uma deprimente e monótona paisagística”.

Estes artistas se esmeram em representar “senhoras louras no banho, trabalhadores musculosos e suados, soldados com o maxilar quadrado, velhos camponeses amorosamente absortos no cultivo de alimentos, paisagens agrestes sulcadas por estradas e pontes com muitos arcos, maquetes de cidades do futuro retangulares e imponentes”. 

É o apogeu das formas facilmente reconhecíveis, aquelas que as ditaduras costumam convocar para conduzir suas mensagens.





1141) A Deusa Película (9.11.2006)




O Canal Multishow da Net tem um programa chamado “Inside the Actor’s Studio”, em que James Lipton entrevista atores, diante dos estudantes daquela famosa escola de interpretação de Nova York. 

O programa já rola há alguns anos, e nele vi entrevistas notáveis. É sempre uma discussão de atores para atores, dissecando os bastidores da interpretação, o modo de fazer filmes, os recursos de criação de personagem, etc. Claro que cada entrevista tem o perfil do entrevistado. Michael Caine reavalia sua vida e carreira com fleuma britânica. Robin Williams faz palhaçadas e improvisa diálogos imaginários o tempo todo.

Vi há pouco Tom Hanks nesse programa. Perguntaram-lhe sobre algum aspecto da arte da interpretação e ele disse: 

“Tudo isto está nas mãos de Película. Sabem quem é Película? É a deusa do cinema e dos cineastas, a deusa da Sétima Arte. É Película quem faz o trânsito se abrir para que você chegue ao estúdio na hora combinada. Película faz com que você esteja num café quando entra aquele produtor que está precisando justamente de um ator de cabelo castanho, parecido com você. É ela quem faz com que o ator principal de um filme brigue com o diretor, seja demitido, e você ganhe o papel. E é ela a responsável pela magia do cinema, que faz com que a gente veja o rosto enorme de Ingrid Bergman em Casablanca, simplesmente escutando um cara tocar piano, e aquilo seja uma obra de arte. Vamos render nosso culto a Película, porque ela nos conhece tão bem quanto nós mesmos”.

Note-se que em inglês a palavra “película” não é uma palavra de uso corrente como é em português. E mesmo em nossa língua é uma palavra que perdeu terreno na nomenclatura cinematográfica. Quando eu tinha dez anos, a gente lia no jornal: “Psicose é o nome da nova película dirigida por Alfred Hitchcock...” Hoje em dia, ninguém diz mais isto, assim como no futebol ninguém chama gol de “tento”. 

Em vez de película, dizemos “filme”, ou seja, consagramos a palavra inglesa que designa uma camada muito fina de alguma coisa (de celulóide translúcido, no caso).

Também vi na TV, num programa dedicado a Sigmund Freud, um psicanalista definindo assim a consciência humana: “A consciência é uma película separando algo que a organiza e algo que a tumultua”. 

É uma imagem verbal poderosa, e que pode se aplicar também ao cinema. De um lado do filme virgem, no interior da câmara, está o diretor que escolhe para onde a câmara deve ser apontada; do outro lado, estão as imagens cuja luz refletida irá incidir sobre os sais de prata, fazendo-os ferver quimicamente, guardando a impressão indelével daquelas luzes e sombras. 

A Deusa Película preside este processo que ocorre (de forma tão semelhante) no negativo de celulóide, nas retinas do espectador e na consciência de quem assiste cinema, faz cinema ou passa a madrugada em claro perguntando a si próprio o que diabo, afinal, é o cinema.







1140) “Fretana” (8.11.2006)



Visitando os sótãos empoeirados da literatura paraibana, achei este romance de Carlos Dias Fernandes, escritor cuja fama fugaz se evaporou na Modernidade. O livro, de 1936, teve uma reedição recente pela Secretaria de Educação do Estado e Edigraf. Fretana é o apelido de Frederico Pestana, poeta e charadista cuja vida é uma cópia da biografia do autor: o nascimento e a infância em Mamanguape, a adolescência no Recife, os estudos de farmácia, a breve passagem pelo Exército, e depois as longas décadas de atividade no jornalismo, na literatura e na política. O romance semi-autobiográfico é o mais cômodo dos gêneros literários. Possibilita ao autor recorrer à memória quando a imaginação está com pouco gás, e recorrer à imaginação quando a memória lhe falha, ou (o que é mais freqüente) quando ele não resiste à tentação borgiana de modificar o Passado.

Carlos Dias Fernandes foi um dos poetas, hoje esquecidos, que marcaram minha infância. Meu pai costuma recitar nas noitadas boêmias seu poema “Miriam”, a história de uma escrava cristã que tem um caso de amor com Pôncio Pilatos. Quando Pilatos avisa que vai casar, por conveniência política, com uma dama, ela se desespera: “Pilatos, meu amor, por onde quer que os destinos / te levem, seguir-te-ão meus olhos peregrinos / como dois cães fiéis... Toda minh’alma é tua. / Todo este coração, que em ânsias tumultua / é teu, vive por ti, por ti se despedaça...” Pilatos explica para ela, na maior cara de pau, que vai ter que deixá-la porque não pode perder aquela chance de ascensão profissional. Miriam, humilde, pergunta-lhe: “E essa mulher, que te despreza – é linda?” E ele: “Linda? Que dizes tu? Divinamente bela! / Tão pulcra, Miriam, que te desprezo por ela, / por minha Cláudia, a flor das patrícias romanas...” Miriam retruca: “Basta! Por Jeová! Que palavras tiranas! / Mas sofrendo-as por ti, deleita-me sofrê-las...”

Perdoem-me os possíveis erros de transcrição; nunca li o livro, e estou citando de memória. Carlos Dias Fernandes era um escritor preciosista, à moda de Coelho Neto. Cada frase sua era ornada com a exuberância de um capitel coríntio. Foi amigo de Cruz e Souza (episódio reconstituído em Fretana). Redigiu epigramas e poemas satíricos, as cantigas-de-escárnio-e-maldizer tão cultivadas pelos poetas de cem anos atrás, quando os literatos viviam com um pé na política. O capítulo XX do livro é um pequeno “roman à clef”, previsivelmente partidário, sobre a Revolução de 1930 na Paraíba (chamada de “Microlândia”), onde “Protásio e Jayme Villoa” são respectivamente Epitácio e João Pessoa, o “Coronel Júlio Cerejeira” é José Pereira, “Sotero Veiga” é João Dantas, e assim por diante. Fretana, ainda legível sem esforço, é um livro em que o preciosismo do estilo não dilui a observação vívida do ambiente social, nem o retrato de pequenos personagens secundários que, extraídos da memória, têm ao mesmo tempo o colorido da imaginação e o cheiro da verdade.

1139) Tragam-me a cabeça de Saddam (7.11.2006)



Saiu no jornal há anos. Um executivo carioca estava numa disputa feroz por um contrato internacional. Coisa de milhões de dólares. Um competidor estava usando meios pouco legítimos para botá-lo para escanteio. A briga de bastidores foi se acirrando durante meses, aí ele contratou um pistoleiro para, numa manhã de trânsito intenso, emparelhar sua moto com o carro do outro sujeito, e dar-lhe meia dúzia de tiros na cara. O que foi feito. A polícia, claro, não fez mais do que ficar parando motoqueiros de forma aleatória e pedindo os documentos.

A imprensa falou muito sobre o caso, e o mandante do crime, sobre o qual, claro, pairavam suspeitas, começou a ser assediado pelo pistoleiro. Queria mais grana. Tinha pensado que o crime “era por causa de mulher”, se soubesse que havia tanta grana envolvida teria cobrado mais. O cara pagou-lhe um bônus, mas um mês depois ele voltou à carga. O que fez o executivo? Resignado, contratou um segundo matador para dar cabo do primeiro. O que foi feito. Escolado, trouxe um pistoleiro lá do Centro Oeste, que para lá voltou depois da tarefa cumprida.

Mas, não é que a história se repetiu? O segundo matador lia a “Veja” e viu uma matéria sobre o mandante. Pediu dinheiro para não ir à imprensa. E o sujeito, já atolado de compromissos até o pescoço (todo mês tinha que ir a Nova York discutir os contratos) deu um suspiro fundo e contratou um terceiro matador para dar cabo do segundo. Desta vez, para não correr riscos com profissionais espertos, providenciou um vagabundo para assaltar o chantagista e matá-lo. O que foi feito. Mas de uma maneira tão labrojeira (=grosseira, incompetente) que a polícia local prendeu o cara e em menos de um mês reconstituiu, do fim para o começo, toda a história aqui resumida. O executivo foi pêgo, e pelo que sei ainda está cumprindo pena, numa cela com TV e frigobar.

Hoje, ligo a TV e vejo Saddam Hussein sendo condenado à morte. Saddam é um jogador velho e calejado, entrou no jogo sabendo a regra. Os EUA o usaram para fustigar o Irã numa guerra que matou um milhão de pessoas e onde até armas químicas foram empregadas. Depois, ficou fazendo barreira à expansão dos aiatolás. Quando começou a engrossar o cangote e a ter ambições próprias, sabia que estava chantageando um executivo poderoso, que tinha meios de executá-lo. Entrou numa briga desigual movido pelo espírito de Tânatos, aquela ambição cega que leva os homens para a armadilha. A mesma que está levando os EUA, muito maiores, para uma armadilha muito maior. Saddam, como Osama Bin Laden, não passa de um matador profissional que resolveu se voltar contra o contratante. Por que? Por dinheiro, por vaidade, por delírio de grandeza – pelas mesmas coisas que fizeram o contratante contratá-lo. Os EUA são como o deus Saturno, que devorava os próprios filhos. Saddam é a bola da vez, e o próximo na fila é Osama Bin Laden.

domingo, 28 de junho de 2009

1138) O time do São Cristóvão (5.11.2006)



Por que motivo o time do São Cristóvão entra em campo? É um time de quinta categoria. Não disputa nem a Série C do Brasileiro (onde o nosso Treze, aliás, marcha firme para a classificação). No próprio Campeonato Carioca, deve disputar a segunda ou terceira divisão. Quando a gente pensa nos grandes espetáculos do futebol, nas decisões de título, nos Maracanãs e Morumbis lotados, o São Cristóvão está automaticamente excluído. A pergunta é: se um time sabe que o filé-mignon-da-vida está fora do seu alcance, onde ele vai buscar motivação para calçar as chuteiras e pisar no gramado?

Primeira resposta: qualquer vitória se equivale. Ganhar um amistoso de subúrbio tem o mesmo valor simbólico de ganhar uma decisão de Copa do Mundo; a diferença é apenas quantitativa. Se você joga sua vida e seu destino num cara-ou-coroa, tanto faz se é uma moedinha de um centavo ou uma libra de ouro: cara é cara, coroa é coroa. A beleza do esporte é esse desafio de “ganhar”, que puxa de dentro de nós o máximo de nossa técnica, de nossa garra, de nosso espírito de combate e superação. (A feiúra do esporte é quando ele vira um vale-tudo onde predominam os recursos não-esportivos para conquistar vantagens não-esportivas).

Segunda resposta, que não contradiz a primeira: o esporte funciona em níveis de dificuldade cada vez maior, e precisa de “filtros de qualidade” para decidir quem está apto a ser promovido. Ronaldo Fenômeno surgiu no São Cristóvão. Passou por outros times, ficou famoso no Cruzeiro, foi para a Europa, para a Seleção... O São Cristóvão cumpriu sua função, que por ser mais obscura não é menos nobre ou menos difícil do que a do PSV ou do Barcelona. Quem foi a professora que alfabetizou Machado de Assis? Quem ensinou o primeiro dó-maior a Baden Powell? Foi preciso alguém.

Terceira resposta, que confirma e aprofunda as anteriores: existe um prazer intransferível em fazer bem alguma coisa. Joguei muita bola quando era garoto. Jogava mediocremente, e cansei de levar “driba” de garotos pobres que pronunciavam assim essa palavra, que eu sabia escrever corretamente em inglês. Mesmo assim, conheci o prazer de fazer um gol de placa, de fazer uma defesa impossível. Quando alguém pergunta o significado da Vida, ou a nossa missão no mundo, penso que a resposta está sempre diante do perguntador. A resposta é fazer direito isso que você tem para fazer. Está tomando um chope num bar? Pois o significado da vida é o direito ao prazer de um chope, e o dever de pagar por ele a quem o fez e serviu.

Nossa missão no mundo é definir o que é Certo. Dentro dele, o Necessário. Dentro do necessário, o que é Possível. Dentro deste, dar uma preferenciazinha ao que é Urgente. E esta última categoria é tão extensa que dentro dela vamos achar o Útil, o Agradável, o Lucrativo... O significado da vida é ser vivida. Como dizem os boleiros: “Pára de reclamar, rapaz, vai, joga o jogo”.

1137) “Eu me lembro” (4.11.2006)



Está em cartaz em algumas cidades brasileiras este filme de Edgar Navarro. Para quem participou do movimento superoitista e de curta-metragem nos anos 1970 e seguintes, Navarro é um nome difícil de esquecer. Seu curta mais famoso (na verdade um média-metragem) era até agora O Superoutro, que lhe valeu prêmios e elogios por onde foi exibido. Seu primeiro impacto foi com o super-8 O Rei do Cagaço, exibido na Jornada de Curta-Metragem de Salvador, e que proporcionou àquela platéia um dos impactos mais inesquecíveis e perturbadores que um filme pode proporcionar.

Eu me lembro ganhou numerosos prêmios no Festival de Brasília do ano passado, entre eles o de “Melhor Filme”, além do de melhor atriz para a atriz campinense Arly Arnaud, que muitos leitores desta coluna conhecem pessoalmente. Lili faz o papel da mãe do protagonista e está ótima em todas as cenas que aparece, embora seu personagem morra lá pela metade do filme. O roteiro tem um lado autobiográfico: Edgar conta a história de sua geração, cuja infância ocorreu na década de 50, dentro de uma estrutura familiar sufocante mas cheia de mistérios e descobertas, e que se tornaram adultos durante os anos 1960, na época da ditadura militar e do “desbunde” do sexo, drogas e rock-and-roll. É um filme de ajuste de contas com o passado, mas, como em Fellini (cujo Amarcord é evocado até no título), um ajuste de contas com ironia mas sem amargura, com saudade mas sem sentimentalismo, com perplexidade mas com sabedoria.

Brigas familiares, segredos sexuais, pequenas tragédias, numerosas comédias, tudo que pode aparecer no balanço de uma vida da classe média brasileira se sucede, num roteiro fragmentado e cheio de achados brilhantes, contando com a força de um ótimo elenco. Isto é o Brasil, pensamos, diante de cinco, dez, vinte pequenas cenas ou situações que reconhecemos de nossa própria vida. Isto é o Brasil, pensamos também quando vemos um diretor de mente inquieta e brilhante estrear no longa-metragem aos 57 anos, idade em que muitos já se aposentaram.

A geração de Edgar Navarro, que é a minha, foi uma das primeiras a se beneficiar deste fenômeno sociológico das últimas décadas: a Ditadura da Juventude. Não a ditadura dos jovens, porque estes mandam menos ainda do que mandavam naquele tempo. Mas a ditadura do conceito da Juventude como bem supremo, como destino a ser invejado. O meio de expressão por excelência desses jovens foi a música popular. Aqueles cujo talento os destinava para o cinema tiveram que amadurecer na treva, produzindo fragmentos de uma obra a que não conseguiam dar continuidade. Edgar Navarro estréia no cinema comercial com um trabalho que ainda tem algo da irreverência e do escândalo que tornaram famosos seus curtas, mas que já se contamina da sabedoria conquistada na sombra, no silêncio e na solidão. Talvez venha daí essa mistura, que tem seduzido as platéias. Parece um filme feito a quatro mãos por um pai e um filho.

1136) A burocracia da paranóia (3.11.2006)




Há um conto magnífico de Ray Bradbury em que um sujeito vai à casa de outro, os dois discutem, e ele mata o dono da casa. Antes de fugir, lembra que deve ter deixado impressões digitais nos objetos que tocou: o copo de uísque, o braço da cadeira, livros na estante, a maçaneta... Ele puxa o lenço e limpa isto tudo. Aí lembra que foi ao banheiro. Vai ao banheiro e limpa tudo em que tocou. Aí lembra que passou no corredor, e limpa as paredes. Na manhã seguinte a polícia o encontra no sótão, limpando bicicletas enferrujadas, velhos baús trancados, coleções de moedas do tempo da Guerra Civil.

É um belo exemplo do que eu chamo “A Solução Herodes”: a tentativa desesperada de eliminar todas as possibilidades de insucesso, por mais remotas que sejam. É típico da mentalidade norte-americana... Não, peraí, estou sendo injusto, e pior do que injusto, inexato. É típico da mentalidade puritana que tanto influenciou os EUA a partir da Nova Inglaterra. Aquela mentalidade altiva, ascética, purista, para quem tudo é pecado, menos a arrogância e o orgulho.

Não é só dos americanos, claro. E nem é sempre uma coisa negativa. Todo povo precisa em certa medida dessa mentalidade preocupada com a exatidão, a limpeza (“venha cá, deixe eu olhar se lavou atrás da orelha”). Nós brasileiros temos muito a aprender com ela, porque somos latinos, tropicais, com um pé na África e outro na selva, etc. e tal. Mas vamos e venhamos – ela não pode deixada à solta, entregue a si própria, e de posse das rédeas do mundo. “Precisamos limpar a Terra, extinguir todas as bactérias do mundo, micróbios são fonte de doença, precisamos lavar os bebês com água sanitária e dar-lhes purgante de detergente!”

Os aeroportos americanos têm uma lista de “No Fly”, pessoas que não podem embarcar. Vi um diálogo surrealista entre um repórter e um oficial da segurança. O repórter observa que a lista tem os nomes de 14 dos sequestradores de aviões do 11 de setembro. “Peraí, diz ele, esses caras não morreram?” O funcionário explica que um novo terrorista pode assumir as identidades deles e tentar embarcar para cometer um novo atentado. E agora sou eu que pergunto: não seria mais seguro para um terrorista assumir uma identidade que chamasse menos a atenção?...

A lista de “No Fly”, cheia de nomes de pessoas suspeitas, pressupõe que esses terroristas em potencial tentarão viajar com seus próprios documentos, e que jamais lhes ocorreria falsificar uma identidade. Por outro lado, o oficial explica a ausência de alguns nomes na lista: há terroristas conhecidos que não aparecem nela porque estão sob investigação, e a divulgação de seus nomes os colocaria em alerta... Em compensação, a relação inclui nomes genéricos como “Robert Johnson”. Será porque o bluesman falecido em 1938 tinha pacto com o Diabo? Na América puritana de Bush tudo é possível. Ou seja: se você se chama Robert Johnson, é melhor viajar de trem. Para o México, com um bilhete só de ida.