Ou a perfeição, ou a pândega!
sexta-feira, 7 de março de 2025
5159) Nós, os Imperfeccionistas (7.3.2025)
terça-feira, 4 de março de 2025
5158) Dylan: um completo desconhecido (4.3.2025)
Em Nova York já havia, e muito forte, no pós-guerra, um
movimento de jovens cantores e compositores resgatando a canção popular
norte-americana, fugindo aos lugares comuns da música fonográfica da época, às
músicas de sucesso das big bands e
dos crooners, bem como das cançonetas
pop que tocavam no rádio. A “Antologia” trouxe uma material colhido na fonte e
ajudou a municiar esses aristas, que por um lado se engajavam nos protestos
pelos Direitos Civis, e por outro reproduziam à sua maneira, no Village, o
estilo de vida dos boêmios existencialistas franceses em Saint Germain des Près
ou Montmartre.
Dylan chegou nesse ambiente já com algumas canções
prontas, entre elas a “Canção para Woody”, uma homenagem aos artistas obscuros
da América profunda, agora tornados os novos ídolos dos jovens cantores novaiorquinos:
Esta canção é para você, para Sonny, para Leadbelly,e todo o pessoal que viajou ao seu lado.Um brinde aos corações e às mãos desses homensque chegam com a poeira e vão embora com o vento.
O filme de James Mangold passa a acompanhar o jovem Dylan
na trajetória que ele cumpriu dali até 1965: três discos de canções folk em que (como disse um crítico na
época) ouvia-se um rapaz de pouco mais de 20 anos cantando com a voz roufenha e
os versos apocalípticos de um velho de 60. Depois, um álbum mais intimista, Another Side of Bob Dylan (1964), com 11
faixas gravadas todas no dia 9 de junho de 1964: voz, violão e gaita.
Começa nesse período a transição que enfureceu os
puristas da época, quando Dylan, recém-coroado como o novo Príncipe da Música
Folk ou coisa parecida, exaltado pelos jovens militantes de esquerda, autor de
canções já clássicas como “Blowin’ in the Wind”, “The Times They Are a-Changing”
e “A Hard Rain’s a-Gonna Fall”, fez-se acompanhar de uma banda de rock, aderiu
à guitarra elétrica, e mergulhou de cabeça numa produção espantosa de letras satíricas,
surreais, sem nenhuma mensagem social explícita. E isto provocou um verdadeiro
terremoto na música folk que o
acolhera quando ele chegou lá como “um completo desconhecido”.
Este é um resumo do filme, que sofre com a
superficialidade e a compressão de toda cine-biografia (e até de biografias em
livros de 700 páginas) quando é preciso descrever e reproduzir um complexo
ambiente cultural e as discussões que fervilham dentro dele – e fazer isso em
poucos minutos, sem muita teorização ou discursos explicativos, e tendo em
mente que a grande maioria do público conhece aqueles fatos por alto (quando muito)
e está mais interessada no toma-lá-dá-cá das relações humanas (“com qual das
duas namoradas ele vai ficar”, “a qual dos amigos ele vai ceder?”) do que nos
retratos de época.
De minha parte, gostei bastante das cenas do Festival de
Newport (onde Dylan, em anos sucessivos, tinha se tornado a grande surpresa e a
grande atração), inclusive a explosiva apresentação final, quando ele foi
vaiado ao se apresentar com guitarras elétricas.
Tudo um resumo apressado, é claro. Para reproduzir a
complexidade de conflitos emotivos, políticos, sentimentais, mercadológicos e
simbólicos envolvidos num Festival como aquele, era preciso que o filme inteiro
fosse dedicado a ele.
Bob! Alguém me disse que você também acha que eu não gostei do fato de você usar guitarra elétrica em 1965. Já desmenti isto muitas vezes. Eu estava furioso era com o som distorcido – ninguém conseguia escutar os versos de “Maggie’s Farm” – e corri para a mesa de som que controlava o PA. Eles disseram: “Está do jeito que eles pediram”. Eu gritei: “Pois se eu tivesse um machado, eu cortava esse cabo!”, e acho que foi essa frase que ficaram citando. Meu maior erro foi não ter subido ao palco para confrontar os que vaiavam você. Eu devia ter dito: “Howlin’ Wolf usa guitarra elétrica, por que Bob não pode usar?” Em todo caso, vida que segue. Abração. Pete.
(trad. BT)
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025
5157) "Ainda Estou Aqui" (27.2.2025)
Não li o livro de Marcelo Rubens Paiva e não sei os contextos em que a frase do título aparece. Quando soube do filme e todo o fuzuê que ele gerou em torno de si (milhões de ingressos, indicações ao Oscar, etc.) compreendi que essa frase era uma frase-símbolo de Eunice Paiva, a viúva-sem-ser, a mulher que passou décadas infernizando a vida dos militares, da polícia, do sistema judiciário, da imprensa, como quem diz: “Não, não fui embora, ainda estou aqui. Olha eu aqui de novo. Vim reclamar outra vez. Vim bater na porta outra vez. Tem resposta? Tem explicação pra mim? Tem justificativa? Alguém pode me contar de verdade o que aconteceu? Alguém pode me fazer a fineza de dizer o que aconteceu com meu marido?.
Depois que Rubens Paiva desaparece, quebra-se aquela felicidade familiar que orbitava em torno dele. (E aí não é preciso dizer que todo passado é utópico para quem escolhe recordá-lo assim. Por que não posso achar que algum dia já fui feliz?!...)
E a luta da família fica não somente como uma luta pela
Justiça, mas uma luta pela Presença, pela continuação daquela presença que para
eles era preciosa.
Uma presença que vaza, de fora para dentro, mesmo em
imagens onde o personagem não aparece. Eunice é conduzida encapuzada pelos
corredores escuros do quartel, e ouve os faxineiros derramando baldes de água
no chão do corredor e esfregando o piso com rodos. Esfregando o que? Sangue, mas de quem?
Na hora da mudança forçada para São Paulo, uma das filhas
some, e a mãe vai encontrá=la sozinha, na areia da praia, olhando em despedida
o mar de Ipanema. Sim, é um adeus a Ipanema, por alguém que provavelmente gostaria
de jamais ir embora de Ipanema. Mas é a presença do pai no mar, vazando para
dentro da cena. Será que foi neste mar que jogaram meu pai?
Também muito se falou da reconstituição “de época” do
filme, e imagino o trabalhão que deu compor aquelas ruas, fachadas de lojas,
móveis, automóveis, roupas, detalhe de arquitetura. Vim ao Rio de Janeiro pela
primeira vez em 1970, já cineclubista e universitário, olhos arregalados para
aquilo tudo, sem imaginar que viveria aqui mais da metade da minha vida. Existe
algo de aconchegante na visão daqueles fuscas, daquelas camionetes, daqueles
cabelos. O mundo já foi assim.
Por outro lado, o “clima de época” se solidifica em outro
tipo de cena. As cenas dos olhares de esguelha quando passa um caminhão de
soldados, quando se percebe uma blitz lá adiante, quando a TV anuncia mais um
atentado, quando os amigos se reúnem num apartamento para trocar novidades em
voz baixa.
É tempo de meio silêncio,de boca gelada e murmúrio,palavra indireta, avisona esquina. Tempo de cinco sentidosnum só. O espião janta conosco.(Carlos Drummond, “Nosso Tempo”, A Rosa do Povo)
Tempos que nunca passarão de todo, infelizmente, porque não há utopia alguma no horizonte futuro do radar.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
5156) Eita, me esqueci (24.2.2025)
https://www.curtaon.com.br/series/serie.aspx?serieId=1327
Ter que assistir e editar dezenas de entrevistas de
especialistas sobre o tema não melhorou minha capacidade mnemônica, mas me
ajudou a aceitar a existência dos buracos, das bobeiras, dos “brancos”. A mente
é uma rua de terra. Tem buracos? Paciência. Se a gente não pode passar ali a
120 por hora, como passava aos trinta anos, vai devagarinho, e segue em frente.
Buraco de estrada também é chão.
Quando me pedem entrevista, sempre prefiro fazer por
escrito. Entre outras vantagens (poder responder na hora que preferir – de
madrugada, por exemplo) existe a de poder consultar na estante ou no Google
algum nome, título, data, seja lá o que for.
Não quero ficar, ao vivo, numa TV ou rádio-por-telefone,
como algum locutor esportivo idoso que diz: “Parte o Flamengo para o
contra-ataque, defesa está aberta, Gerson estica para Bruno Henrique, ele
disputa a bola com o zagueiro do Fluminense, o... o nosso amigo... o da camisa
tricolor, o número 20 do tricolor das Laranjeiras, disputando a bola com o
atacante rubronegro...” e enquanto ele lembra dos nomes a bola já foi gol e
alguém já deu nova saída.
O que atrapalha pra valer é esquecer de pagar o boleto no
vencimento, esquecer de mandar a documentação, de assinar a autorização ou a
carta de anuência, de cobrir a conta na véspera do débito automático, de
comprar o remédio antes do fim da caixa...
Atrapalha também, mas sem consequência graves, esquecer de
responder as dezenas de emails ou zaps com perguntas, comentários, alôs,
olás... Ou até responder duas vezes por esquecer que já tinha respondido
(tomara que as duas respostas sejam parecidas).
Tudo isto faz parte do varejo da memória, dos
lembramentos e esquecimentos diários, miúdos, cotidianos. Temos que nos
conformar com isto sem fazer um exagero em torno.
Quando a gente tem 15 anos, esquece do dia da prova,
esquece de devolver uma grana emprestada, esquece de botar a camisa pra lavar
antes do jogo de domingo... É problema mental? Não, é fuzuê mental. A cabeça de
um adolescente é um salão cheio de pessoas falando ao mesmo tempo.
A cabeça de um velho é o mesmo salão, ampliado pelos
muitos anos de vida. O velho, porém, descobriu o botão do volume. Quando fica
muito alta a gritaria dos compromissos, dos trabalhos, dos lembretes, das
agendas, das conversas pessoais, das discussões práticas... ele simplesmente
abaixa o volume. Fica todo mundo mexendo a boca, e ele pode fechar os olhos em
paz por meia hora.
Só que não há botões individualizados – ou aumenta tudo,
ou abaixa tudo.
O que nos dizem os especialistas em memória é que esquecer
é tão importante quanto lembrar, porque a capacidade de processamento do
cérebro é finita (e, em muitos casos, declinante com a idade) e é mais útil poder
manter um fluxo normal e incessante de idéias do que ficar sujeito a um
“engarrafamento de trânsito” em que memórias irrelevantes ficam bloqueando o
caminho de coisas mais urgentes ou mais significativas.
O segredo de lidar com a memória é desapegar, priorizar, maximizar
isto, minimizar aquilo, poder pegar uma transversal e continuar sabendo em que
direção fica a via principal, saber administrar um combustível na-reserva sem
rodeios inúteis...
Como dizia Walter Franco: “O que é que faz com essa
cabeça, irmão?... Saiba que ela explode... Olha que ela pode...”.
https://www.youtube.com/watch?v=rXoLe-EBUgc
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025
5155) Contracapa de DeepSeek (21.2.2025)
& não tenha medo: eu não tenho tentáculo de polvo nem pinça de caranguejo
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
5154) O eclipse dos amores inconclusos (18.2.2025)
Meu saudoso professor da Escola de Cinema da UCMG, o padre Massote, costumava palestrar longamente sobre os aspectos arquitetônicos do cinema de Michelangelo Antonioni, um dos seus diretores preferidos. Parece estranho, eu sei, um padre católico mineiro gostar de um diretor tão crítico da religião, tão voltado para os dramas eróticos e existenciais de gente rica, burguesa, européia.
Nos planos externos dessa parte do filme Antonioni se
multiplica (com o fotógrafo Gianni di Venanzo) em ângulos de pessoas perdidas
numa paisagem de superfícies vazias e enormes blocos de concreto. Essas
sequências lembram Brasília, lembram o sonho modernista de eliminar tudo que
seja rugosidade, dobras, capilaridade, proliferação biológica. Lembram o poema
de João Cabral de Melo Neto:
A luz, o sol, o ar livreenvolvem o sonho do engenheiro.O engenheiro sonha coisas claras:superfícies, tênis, um copo de água.
O lápis, o esquadro, o papel;o desenho, o projeto, o número:o engenheiro pensa o mundo justo,mundo que nenhum véu encobre.
(Em certas tardes nós subíamosao edifício. A cidade diária,como um jornal que todos liam,ganhava um pulmão de cimento e vidro).
A água, o vento, a claridade,de um lado o rio, no alto as nuvens,situavam na natureza o edifíciocrescendo de suas forças simples.(Em O Engenheiro, 1942-45)
Delon está no auge de sua versatilidade física, saltando,
correndo, esbarrando, gesticulando com veemência. A certa altura, Vittoria
pergunta, agastada: “Você não pára?!...” Ele é um personagem totalmente
moderno, um yuppie (a palavra não
existia em 1962) jovem, obcecado em fazer muito dinheiro no menor tempo
possível, o cara que não pára, não relaxa, só pensa em dinheiro, mal escuta o
que lhe dizem...
No filme, ele é o contrário de Monica Vitti, que aperfeiçoou
aqui a sua “persona” frágil, desamparada, hesitante, parecendo consumida por
algo que não pode revelar. Aquilo que o crítico
Andrew Sarris chamou de “antoniennui”
(“antedioni”?...). Ela exprime melhor que ninguém aquela instabilidade que
Antonioni imprime a alguns personagens, que parecem (no dizer de David Thomson)
“epidermes frágeis que mal conseguem roçar umas nas outras sem se ferir”.
Nesses filmes Antonioni/Vitti renasce o mito do diretor
que usa a câmera para acariciar o corpo da mulher que o inspira, como fizeram
Jean-Luc Godard com Anna Karina e Josef von Sternberg com Marlene Dietrich. Não
importa se o cineasta quer mostrar um mundo burguês emocionalmente estéril ou
um vibrante mundo moderno em que tudo parece possível: entre ele e o mundo se
interpõe aquela presença carnal que arrasta a câmera consigo.
O Eclipse
poderia também ser o filme de abertura de um hipotético festival intitulado
“Amores Inconclusos”, e que incluiria também In the Mood for Love de Wong Kar Wai, Vestígios do Dia de James Ivory, Lost in Translation de Sofia Coppola, Nunca Te Vi, Sempre Te Amei de David Jones e certamente muitos
outros.
Dizia-se de Antonioni ser o cineasta da incomunicabilidade, do desencontro. Ele é também o cineasta do personagem humano perdido na paisagem urbana, uma paisagem não propriamente ameaçadora ou hostil (como nos filmes do Expressionismo Alemão), mas indiferente. Uma proliferação de edifícios em multiplicação constante e que parecem expulsar de seu projeto esses seres humanos incômodos, que vagueiam como zumbis.
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