sábado, 15 de julho de 2023

4962) Escutem a voz dos doidos (15.7.2023)

 

(Ariano Suassuna)


O pensamento das pessoas chamadas normais é como os automóveis no trânsito, e o pensamento dos doidos é uma bicicleta.
 
O automóvel, teoricamente, poderia andar de ré em plena rua, poderia subir na calçada, poderia dirigir na faixa da esquerda e não da direita, e assim por diante. Poderia fisicamente, é claro. Não o faz porque existem leis, códigos, punições previstas; e existe um consenso geral de que é melhor assim, é melhor que haja proibições e restrições, desde que isso deixe as possibilidades mais claras, e facilite a vida de todo mundo.
 
A bicicleta, não. O ciclista é um ser estranho, meio esquizóide. Está montado num veículo mas se considera pedestre. Ciclista sobe na calçada, anda na contramão, enfia-se a toda velocidade por um grupo de pedestres, pedala do lado esquerdo, do lado direito... Todo mundo obedece regras, mas o ciclista só obedece sua própria conveniência.
 
O juízo dos doidos é assim também – pensa o que gosta e o que consegue, e danem-se as outras formas de pensar.
 
Quando digo “os doidos” não me refiro necessariamente às pessoas com problemas mentais, internas nos manicômios, etc.  Refiro-me a todas as pessoas que pensam “fora do esquadro”, pessoas cujo raciocínio segue leis próprias; e o fazem espontaneamente, e não de forma lúcida e deliberada como o fazem os poetas, escritores, etc.
 
Exemplo do pensamento de um doido: o primeiro dicionário de polonês foi publicado em 1746, e entre outras definições tinha esta:
 
“CAVALO – Todo mundo sabe o que é um cavalo”.
 
Este dicionarista é um doente mental? Provavelmente não, mas o raciocínio que o fez redigir este verbete é o típico raciocínio de um doido.
 
G. K. Chesterton tem algumas excelentes páginas sobre a doidice no capítulo “The Maniac” de Orthodoxy (1908). É dele a famosa frase de que “um doido é alguém que perdeu tudo exceto a razão”. Vale lembrar que Chesterton dizia isso lamentando o doido, e não para celebrá-lo. O sentido profundo de sua frase é de que um doido é alguém incapaz de pensar em diferentes categorias, de compreender um ponto de vista diferente do seu. O doido é alguém “cheio de razão”, como a gente diz na Paraíba para qualificar uma pessoa arrogante, prepotente, que se recusa a entender o ponto de vista do interlocutor.


Para Chesterton, a insanidade é quando uma pessoa começa a raciocinar sem partir dos princípios corretos; ela entra num vale-tudo mental, porque a sua razão é “uma razão sem raízes, uma razão que gira no vácuo”. Um pensamento insano, mesmo que articulado de modo aparentemente correto; como certas frases sintaticamente corretas mas que nada dizem, como no caso dos cambueiros que taliscam a bata de qualquer catalunga, sem perceber que o tirambó não calistura, nem as tragas fazem qualquer pinelo.
 
A doidice – essa doidice – seria um pensamento que perdeu a semântica mas mantém um arremedo de sintaxe.
 
Chesterton abomina o doido (“o maníaco”) porque, para ele, doido é quem não é cristão, quem não parte dos princípios corretos. Na análise dele não há lugar para o doido engraçado, o doido surrealista, o doido imprevisível. O tipo que ele descreve (com o brilhantismo de sempre) é o monomaníaco, o doido vazio, o doido sem graça. Por isso ele diz que “mesmo os delírios mais poéticos dos insanos só podem ser apreciados por uma pessoa sã; para o insano, sua insanidade é extremamente prosaica, porque é real”.




Acho que foi Henri Bergson, em sua teorização sobre o Riso, quem sugeriu esse ângulo para definir o Humor: é a nossa reação quando vemos alguém se comportar cegamente, de maneira mecânica, encalhada num só tipo de visão, de reação, de raciocínio. Neste ponto há uma convergência interessante com o pensamento de Chesterton, porque esse tipo de personagem é alguém que perdeu tudo, exceto a razão, perdeu qualquer capacidade de pensar, exceto aquele pensamento mecânico que o transforma num cego repetidor de clichês, de palavras-de-ordem ou de mantras que nem ele mesmo entende.
 
Existem doidos de toda qualidade. Dizer “o Doido” é tão inconclusivo como dizer “o Artista”, porque dentro desse termo cabe um milhão de tipos.

Guimarães Rosa exclama, através do seu narrador de “A Terceira Margem do Rio”: “Ninguém é doido. Ou então todos.” Rosa era fascinado pelos doidos, e um conto como “O Recado do Morro” (hoje incluído no livro No Urubuquaquá, no Pinhém) exibe uma galeria de doidos muito variada.




Tem o “Catraz”, cientista amador, o homem que inventou um automóvel ainda incompleto, porque só funcionava na descida, “na subida e no plaino ainda não é capaz de rodar.” O Catraz queria voar para a Lua montado numa catrevage puxada por urubus amarrados, bastando-lhe erguer na ponta de uma vara um pedaço de carniça, que faria os urubus levantarem voo para alcançá-la, e como a vara estaria igualmente se elevando, acabariam desembarcando na Lua ou além.
 
Tem o “Coletor”, doido que vivia rabiscando números nos muros da cidade, contabilizando suas cabeças de gado, suas terras, seus ouros...
 
A doideira dele era uma só: imaginava de ser rico, milionário de riquíssimo, e o tempo todo passava revendo a contagem de suas posses. Escrevia em papel, riscava no chão, entalhava em casca de árvore, em qualquer parte. (...) Aquele homem tinha uma felicidade enorme.
 
Nossos magnatas de fortunas eletrônicas, virtuais, compartilham dessa imaterial felicidade, e ai de quem sugerir recolhê-los ao Pinel. Me digam em que casca de árvore ficaram os bilhões de Eike Batista ou de Bernard Madoff. São doidos? Não, são espertalhões, mas eram menos espertos do que imaginavam. Dinheiro é um poderoso alucinógeno; ele proporciona visões deslumbrantes, mas também faz o sujeito atravessar a rua na hora errada.
 
No mundo de Chesterton não há lugar para o doido esperto. O doido esperto é simplesmente o esperto que se faz de burro para enganar os burros que se consideram espertos. O exemplo clássico é o Doidim que os caras da cidade chamam e mandam escolher entre uma moeda pequena de ouro e uma moeda grande de cobre – e ele sempre pede para si a moeda maior. Quando alguém vai lhe explicar que seria mais jogo pegar a outra, ele diz: “Se eu pegar a outra, eles param de me chamar”.
 
Esse é o doido esperto, o doido ciclista, que inventa um caminho mais útil para si mesmo, aproveitando-se do fato de que os outros só raciocinam de um jeito. Perderam todas as outras formas de pensar, e só lhes resta “a razão”. São previsíveis. Podem ser driblados.



Um clássico exemplo de doido esperto é Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, o narrador do Romance da Pedra do Reino (1971) de Ariano Suassuna, um personagem mercurial, escorregadio, que ao longo do romance se faz de doido, se faz de cego, se faz de besta, se faz de intelectual, se faz de qualquer coisa que lhe convenha a cada instante. Quaderna tem, como certos doidos, a mania de grandeza, de se acreditar o futuro Imperador do Brasil, por ser descendente dos fanáticos que degolaram dezenas de pessoas em 1838, na Pedra do Reino, para desencantar um castelo e trazer de volta Dom Sebastião. Quaderna acredita nisso? Depende. Acredita quando lhe convém. Tem mais juízo do que eu ou você.
 
Meu saudoso amigo Arievaldo Viana contava esta, de algum doidim cearense:
 
Hoje encontrei um doido que anda pedindo esmola aqui na Praça Pedro Américo. Sempre eu dou-lhe um trocado.
Ele botou a mão na minha cabeça e falou: "Se você tá com Deus, um bandido bota a arma na sua cabeça, aperta o gatilho e a arma não dispara."
Perguntei: "E se for uma arma boa e disparar?"
Ele foi rápido: "Era porque você estava pronto pra ir ao encontro de Deus".


(Arievaldo Viana)




quarta-feira, 12 de julho de 2023

4961) A Vida, o Universo e tudo o mais (12.7.2023)




Existem dois tipos de questões existenciais. As que se referem ao Ser Humano, e as que se referem ao Universo. 
 
O Ser Humano nos inspira o famoso grupo de perguntas: “Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? O que estou fazendo aqui?”.  São as perguntas que os filósofos fazem a si próprios, até porque se um soldado de polícia os abordar de noite na rua eles precisarão ter essas respostas na ponta da língua. 
 
As questões relativas ao Universo são na área conceitual de: “O que é o Universo? Quem o criou? Como o criou?  Para que o criou?  O que acontecerá com o Universo no futuro?  Existem outros Universos além deste?”.  E por aí vai. 
 
As religiões dão respostas variadas a estas perguntas.  As ciências também. E o mesmo acontece com a literatura. 
 
Com dez anos de idade eu me deparei com um conto de Clifford D. Simak intitulado “As Respostas”. Está incluído na excelente coletânea Maravilhas da Ficção Científica (Ed. Cultrix, 1958, organização de Fernando Correia da Silva, seleção de Wilma Pupo Nogueira Brito).



(Clifford D. Simak)


É a última história do livro, e vem depois de uma série de contos peso-pesados que, lidos naquela idade, me deixaram de queixo caído e com alguns nomes de autores gravados a fogo na minha memória: Alfred Bester, A. E. Van Vogt, Fredric Brown, Ray Bradbury, Isaac Asimov...
 
O conto de Simak fala de uma expedição espacial numa nave tripulada por quatro criaturas: o Cão, o Humano, a Aranha e o Globo. Cada um deles representa uma raça diferente, e percorrem a Galáxia fazendo pesquisas. Chegam a um planeta habitado por humanos, e o Humano decide ficar ali, ao constatar que os habitantes levam uma vida pacata, modesta, de baixa tecnologia. 
 
Ele é recebido pelos locais, interage com eles, aproxima-se aos poucos de uma família, um casal idoso (Jed e Mary) e sua filha Alice. Quando se tornam mais amigos, o astronauta pergunta por que levam uma vida tão simples e tranquila, sem máquinas, sem aparelhagens complicadas. E Mary lhe responde: “Encontramos a Verdade”. 
 
No dia seguinte, Jed o leva até um edifício empoeirado, no centro de uma aldeia deserta. Ali, há uma máquina que responde perguntas. Na verdade, a máquina responde duas perguntas, apenas. E o homem faz a primeira pergunta. 
 
Qual é a razão de ser do Universo?
 
E vem a resposta, através de uma fita impressa:
 
O Universo não tem razão de ser. O Universo apenas aconteceu.
 
Ele nem sequer tem tempo de formular a segunda pergunta, que é um tanto óbvia. A resposta sai antes mesmo disto; uma outra fita impressa, onde está escrito:
 
A vida não tem significado. A Vida é uma casualidade.
 
Por que motivo algumas coisas nos parecem plausíveis, na infância, e outras não? Bem, há milhões de livros respondendo essa questão, de modo que vou passar adiante. 
 
Depois das aventuras espetaculares dos outros contos do livro, o conto de Simak encerrava a antologia quase que num anti-clímax. Não havia hiper-universos, divindades alienígenas, nenhum dos prodígios cósmicos que naquela época eu lia na pulp fiction de F. Richard-Bessière, Jimmy Guieu ou Stefan Wul. 
 
Depois de tantas histórias em “Cinemascope Barroco”, era até reconfortante escutar uma explicação tão simples, tão repousante, tão óbvia.  
 
Por isso não me angustiei nem um pouco quando, já aos 20 anos, li A Náusea de Jean-Paul Sartre, o livro em que o impacto da pura existência é visto como a pior bad trip possível – a existência sem essência prévia, sem uma Divindade que lhe dê forma e função, sem um Imperativo Cósmico que, uma vez descoberto, me ensine o que vim fazer no Universo. 
 
Não vim fazer nada. Eu simplesmente aconteci. O que vou fazer agora, vai depender “de mim e de minha circunstância”. Posso – como o Antoine Roquentin de A Náusea – largar meus planos de fama intelectual ou de ascensão social e ir escutar uma negra cantando um blues numa vitrola de ficha, perto do cais do porto. 
 
Posso ir viver a vida como ela é. “A vida, apenas, sem mistificação” (Drummond). “It’s alright, Ma – it’s life, and life only” (Bob Dylan). 
 
A maioria dos críticos considera o livro de Sartre como o aterrorizante testemunho do absurdo da existência.  Eu o considero um dos livros mais otimistas, mais zen, mais serenos da literatura universal. É a história de um homem que percebe, sem máquina interplanetária alguma, que o Universo não tem razão de ser e que a Vida não tem significado. 
 
Quer maior liberdade do que isto? Quer maior responsabilidade do que isto? 





O conto de Clifford D. Simak foi publicado pela primeira vez na revista Future Science Fiction (março de 1953) sob o título “...And the truth shall make you free” (algumas republicações trazem o título usado na tradução brasileira, “The Answers”). É uma citação do Evangelho Segundo S. João, cap. 8, versículo 32. 
 
Clifford D. Simak (1904-1988) não era um existencialista da Rive Gauche, experimentador de mescalina e flertador com o comunismo. Era um homem conservador e pacato do Meio Oeste (passou a vida quase toda em Wisconsin), autor de uma obra que vê a simplicidade da vida rural, junto à natureza e aos animais, como uma espécie de ideal. Sua ficção científica tem um fundo humanista, místico, quase ecológico “avant la lettre” em sua valorização e respeito por todas as formas de vida, terrestres ou alienígenas.
 
A vida será o que fizermos dela. O universo será o que fizermos dele. 
 
Sorte a minha de estar a ler ficção científica desde tão cedo (e de ter um pai que me comprou aquele livro, imaginando que me traria algum proveito), para que aos vinte anos pudesse ler sem descrença ou assombro, mas com uma sensação de estar-voltando-para-casa, estes versos de Fernando “Alberto Caeiro” Pessoa:
 
XLVII
 
Num dia excessivamente nítido,
dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
para nele não trabalhar nada,
entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
o que talvez seja o Grande Segredo,
aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.
 
Vi que não há Natureza,
que Natureza não existe,
que há montes, vales, planícies,
que há árvores, flores, ervas,
que há rios e pedras,
mas que não há um todo a que isso pertença,
que um conjunto real e verdadeiro
é uma doença das nossas ideias.
 
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
 
Foi isto o que sem pensar nem parar,
acertei que devia ser a verdade
que todos andam a achar e que não acham,
e que só eu, porque a não fui achar, achei.
 

 
(Fernando Pessoa)
 
 
 
 





domingo, 9 de julho de 2023

4960) Nordestinense: em grande quantidade (9.7.2023)



No Rio de Janeiro, quando se quer falar em grande quantidade de algo se diz que tem coisa pra caramba, pra dedéu, a dar com um pau...
 
Pronto, eis aí uma que eu acho muito boa. Haver alguma coisa “a dar com um pau” é uma boa maneira de exprimir visualmente a idéia de alguém rodeado de... de que? De sapos, de coelhos, de grilos, de torcedores de um time adversário – uma proliferação de criaturas incômodas, das quais o cidadão só pode se livrar empunhando um pedaço de pau e distribuindo bordoadas a torto e a direito. 
 
O linguajar nordestinense também é cheio de opções para se referir a grandes quantidades de alguma coisa. 
 
Quando queremos dizer que tinha muita gente dizemos com frequência que tinha ali “um horror” de gente. A palavra horror exprime bem o sentimento de espanto e de uma certa repulsa diante da situação descrita. “Tenho um horror de provas pra corrigir.”  “Depois que ganhei na Mega-Sena tem um horror de pretensos amigos-de-infância me mandando mensagens de “lembra de mim”?...” Um horror é uma expressão que se usa nesse tom. 
 
Pode-se dizer, por outro lado, que tem alguma coisa “dando no meio da perna”. Outra imagem visualmente forte e evidente por si mesma. “Rapaz, fui na tal Festa de Cerveja, e a cerveja dava no meio da perna.” Ou seja, um verdadeiro alagamento. Até mesmo quando se refere a coisas não-líquidas, porque pode-se dizer também que “no carnaval de Olinda estava dando mulher no meio da perna”.   



Algumas dessas expressões são bem-humoradas, mas outras trazem consigo (como o “horror” citado acima) uma conotação misteriosamente aflitiva. É o que acontece quando se diz: “um castigo”.  "Detesto ir num Banco no dia 1º do mês, é aquele castigo de gente, cada fila enorme."  "Pensei em ir na praia ontem, mas quando vi o castigo de gente passando nos ônibus acabei desistindo."  "Passei dois meses viajando, quando cheguei em casa tinha um castigo de contas pra pagar." 
 
Quando vejo essas frases tenho sempre uma vaga curiosidade em saber como surgiram. Não propriamente quem as inventou – que diferença faz, caso se descubra que quem primeiro usou “um castigo” foi um tal de Espiridião Curió, em Palmeira dos Índios, em 1835?  Diferença nenhuma. Mas eu gostaria de entender o raciocínio que subjaz ao famoso “em banda de lata”. "Rapaz, eu fui na festa de Fulana ontem, tinha gente em banda de lata."  "No dia em que fizerem uma devassa no ECAD, vão prender gente em banda de lata."  
 
Coletivos de pessoas são muitos, só esses encheriam um pequeno glossário. “Magote” é um dos meus preferidos, embora há anos não o use, para não gerar balloons interrogativos sobre a cabeça dos meus interlocutores cariocas. Em todo caso, é geralmente usado em tom levemente depreciativo, mesmo com bom humor, como se vê nesta citação do meu saudoso amigo Pedro Nunes Filho: 
 
Certa vez, Martins Preto chegou à Fazenda Bonfim, onde seu filho, Pedro Martins, era o vaqueiro de maior confiança, procurou o proprietário, Antônio Nunes, e disse:
-- Seu Antônio, eu estou muito aperreado porque Joaquim Aragão quer tomar minha terrinha e eu não sei o que vou fazer para sustentar o magote de moleque que eu tenho.
(Pedro Nunes Filho, Guerreiro Togado)
 
“Ruma” cumpre um papel bem semelhante, e palpita-me que esse substantivo tenha alguma relação com o verbo “arrumar”, que talvez signifique, por certo ponto de vista, “enfileirar as várias rumas de coisas”... algo assim. Poeta popular gosta muito de usar esse termo: 
 
Galinha põe todo dia
invez de ovos, é capão,
o trigo invez de semente
bota cachadas de pão,
manteiga lá, cai das nuvens
fazendo ruma no chão.
(Manoel Camilo dos Santos, Viagem a São Saruê)
 
Quando o chão está molhado
aparecem coisas boas:
se levantam cogumelos
que as capas parecem broas;
os sapos chocam de ruma,
bordam com cachos de espuma
os cenários das lagoas.
(Sebastião Dias, cit. em De Repente, Cantoria, de Geraldo Amâncio e Vanderley Pereira)
 
Como toda linguagem oral, essas expressões nordestinenses dependem muitas vezes de um complemento visual ou sonoro. Nisso os nordestinos se aproximam dos italianos, que quando conversam parecem estar fazendo tradução simultânea em Libras, o tempo inteiro. Nordestino também gesticula muito, como por exemplo ao dizer “está assim de gente”. 
 
A expressão é complementada pelo gesto de unir as pontas dos dedos em círculo e fazer pequenos movimentos de abre-e-fecha.   "Rapaz, eu fui no comício ontem à noite. Disseram que ia ser fraco, mas a praça estava ‘assim’ de gente!"  O gesto, pela convergência das pontas dos dedos, indica quantidade e aglomeração; mas no Rio existe um gesto semelhante que os motoristas fazem uns aos outros, durante o dia, para alertar que o outro está com os faróis acesos, por distração.  Nesse caso, o gesto significa os raios de luz, e o piscar do farol.  Durante muito tempo, toda vez que eu via esse gesto nas avenidas ou nas estradas, pensava que queria dizer "trânsito congestionado no trecho onde passei ". 
 
Para se falar em multidões compactas, conheço poucos termos mais adequados do que “duro de gente”. “Fui assistir o show de Elba no Parque do Povo, mas nem cheguei perto do palco, estava duro de gente, só consegui ficar a uns cinquenta metros”. É a multidão cerrada, no aperto, impenetrável. 
 
Há um comparativo de quantidade que a gente diz muito usando o termo “o mesmo tanto” ou “outro tanto”. Significa a mesma quantidade, ou mesma proporção, que acaba de ser mencionada.  “Fulano disse que vai pagar dois mil, e o pai dele outro tanto, para ajudar na sua operação.” 
 
Quanto mais eles andavam
menos saíam do canto
porque o chão dessa ponte
avançava o mesmo tanto,
e eles não prosseguiam
pela força desse encanto.
(Braulio Tavares, A Pedra do Meio Dia, ou Artur e Isadora)
 
E gosto muito de uma que já ouvi de meus amigos cearenses, quando queriam se referir a uma quantidade respeitável de algo: “coisa que dá uma guerra”. “Rapaz, fui ver o tal Museu de Arte Popular, tem coisa que dá uma guerra.”  “Meu pai me chamou para ajudar a limpar a garagem da casa dele, mas desanimei quando vi... Tem coisa que dá uma guerra!”. 



O que são essas expressões? Regionalismos? Gírias?  Ecoletos?  Só sei que para meus ouvidos são expressões pertencentes à língua, mesmo que não sejam conhecidas por todos os utentes da língua. E por este ponto de vista, são tão legítimas quanto “em abundância”, “à cunha”, “à farta”, “à beça”, “em penca”, “uma pá de coisa”...  
 
 
 
 
 







quinta-feira, 6 de julho de 2023

4959) Zé Celso Martinez Corrêa, 1937-2023 (6.7.2023)




Um livro famoso de Zuenir Ventura chamou 1968 de “o ano que não terminou”, e a morte de Zé Celso Martinez Correia, do Teatro Oficina de São Paulo, é mais um lembrete da longevidade daquela época de geléia geral, de miserere nobis, de divino maravilhoso, de brutalidade jardim.
 
Zé Celso era no universo do teatro uma figura semelhante à que Glauber Rocha foi no cinema ou que os compositores baianos foram na música popular. Era um criador incansável, um desarrumador de mobília, um subversor de dicionários, um sistemático derrubador das fronteiras entre a arte coletiva e a vida pessoal. 
 
Alguém citou nestes dias, nas redes sociais, uma frase atribuída a ele: “É preciso viver ao vivo, e também morrer ao vivo”. Dele ou não, a frase o exprime. E exprime toda uma estética que explodiu em meados do século passado, uma mistura herética entre a arte e a vida. Essa mistura, essa mestiçagem ilegal permeou o rock, o teatro, a poesia, o cinema, as artes plásticas e sei lá mais o quê. 
 
Ainda é costume chamar essa explosão de A Contracultura, termo com que Theodore Roszak a exprimiu num livro excelente e hoje esquecido. A verdade é que o conceito tinha em si essa própria essência explosiva de mandar cada fragmento em sua própria trajetória, afastando-se uns dos outros. Foi uma espécie de Big Bang. 




Uma crítica frequente que se faz a elementos dessa Contracultura é que as obras resultantes são chatas: os poemas dos beatniks, o cinema de Andy Warhol ou da fase final de Glauber ou de Godard, os LPs onde um lado inteiro era ocupado por jam sessions de roqueiros chapadões-do-bugre, os ritos dionisíacos de atores nus no palco...
 
Concordo em grande parte, apenas com a ressalva de que quando alguém dinamita as fronteiras entre a Vida e a Arte é de se esperar que a Arte (antes limitada a obras nítidas, arrogantemente específicas, sequiosas de perfeição) acabe ficando parecida com a Vida: informe, desorganizada, sem rumo certo, à mercê do eventual narcisismo, ou preguiça, ou volúpia dionisíaca, ou agenda ideológica dos seus praticantes.
 
Curiosamente, não me lembro de ter assistido nenhuma peça dirigida por Zé Celso. Havia sempre uma aura ameaçadora de ritualidade bacante em torno delas. Tenho uma vaga lembrança de algum espetáculo que veio ao Rio de Janeiro e alguém me disse: “Prepare-se para seis horas ininterruptas de festim, eles arrastam todo mundo para cima do palco e fazem tirar a roupa!”. O que no caso de um vitoriano como eu equivale a mandar ficar em casa. 
 
A peça-de-teatro-que-dura-um-dia-inteiro faz parte dessa concepção de arte e vida misturadas como café e leite. Lembro bem, na minha adolescência, o sobressalto de angústia das platéias da sociedade campinense quando a luz se apagava e o começo da peça mostrava um ator que entrava recitando a plenos pulmões, pelo meio do público. “A que ponto chegamos,” sussurrava alguém; “agora só falta o comunismo”. 
 
A "quarta parede" do palco italiano é um hímen mental que precisa ser tirado do caminho, teimosamente, a cada geração. O fato de que ela se reconstitui prova a sua necessidade; o fato de poder ser rompida prova que é apenas um elemento essencial, entre tantos outros, que cada artista trata como lhe convém. 


 
Zé Celso organizou um movimento, orientou um carnaval, criou em torno de si um castelo sem alicerces que ele levava para onde lhe convinha; mas ele não era apenas duende, era também lenhador, sabia prover necessidades. 
 
Sua batalha pela conquista do espaço do Teatro Oficina, num cabo-de-guerra permanente contra os bilhões do Grupo Sílvio Santos, não é a batalha de um mero maluco beleza, é a batalha de um construtor. Tinha algo de Brancaleone ou de Dom Quixote, mas sabia assoprar como ninguém as chamas da guerra simbólica. Não tinha bilhões de reais investidos no Mercado: tudo que tinha investiu em papéis efêmeros: peças, poemas, manifestos, entrevistas. No mercado impalpável dos corações e mentes. 
 
Foi, a seu modo, uma espécie de guru psicodélico, teve o talento agregador de manter sempre em torno de si um grupo teatral permanente e flutuante. Uma pequena comunidade de seguidores, que eram ao mesmo tempo (isto vem na receita) executantes e problematizadores da proposta coletiva. Arte coletiva não subsiste sem um centro de decisão e de normatização (que é em geral uma pessoa, a figura do líder) e sem uma periferia indócil de pessoas criativas, contraditórias, solidárias, rebeldes, capazes de manter ao mesmo tempo esse ligação-tensa com o centro e com as outras pessoas em volta. 
 
Vendo os palcos sempre a uma certa distância, mais de uma vez me ocorreu comparar mentalmente o teatro de Zé Celso com o teatro de Antunes Filho. Deste último, sim, vi várias peças, acompanhei mais de perto, talvez por ser mais parecido com o tipo de teatro que me deixava mais à vontade. Tinha uma noção mais clássica de estrutura, de começo-meio-fim, e de um diálogo com o público baseado em expectativas mais nítidas. Em termos estruturais, o teatro de Antunes era o desfile de uma escola de samba, o de Zé Celso era um bloco bate-a-lata. (E eu acho as duas coisas igualmente boas e necessárias.) 


 
Posso estar cometendo erros e injustiças de julgamento, porque estou falando de um ofício de que conheço só um pouco (o Teatro) e da obra de um grande artista de quem não vi a luz, vi somente o luar refletido. No entanto, a simpatia instintiva que os trabalhos e as aprontações de Zé Celso me despertavam vem da minha curiosidade por esses criadores que preferem viver eternamente numa espécie de infância mental no bom sentido. Um estado permanente de curiosidade, de perguntas, de descobertas fundamentais, de brincadeiras gratuitas, de molecagens que fazem os críticos entrar em parafuso. 
 
Tal como Antunes, Glauber, Godard, deve ter sido uma pessoa fascinante de conhecer, mas não muito fácil de conviver, pelo seu voluntarismo com uma franja permanente de narcisismo, pela sua imprevisibilidade, pela recusa à repetição confortável do que já-deu-certo. Me lembra às vezes um depoimento de um músico de Bob Dylan: no meio do show, depois de um número, Dylan se volta para a banda e diz: “Agora vamos tocar Tangled Up In Blue, mas não é em Sol Maior, é em Lá.”  E a banda que se vire para transpor – ao vivo.

O Teatro é a arte do momento, a ciência do agora. Como dizia um amigo meu, “nem adianta filmar, o teatro é justamente o que a câmera não capta”. E quem o pratica, e quem fica depois que a luz se apaga, pode muito bem ter em mente, como consolo e triunfo, os versos de Carlos Pena Filho:

Quando mais nada resistir que valha

a pena de viver e a dor de amar,

e quando nada mais interessar 

(nem o torpor do sono que se espalha);

quando pelo desuso da navalha 

a barba livremente caminhar,

e até Deus em silêncio se afastar

deixando-te sozinho na batalha

arquitetar na sombra a despedida 

deste mundo que te foi contraditório...

Lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório,

e de que ainda tens uma saída:

entrar no acaso e amar o transitório.



(foto: Ana Branco)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 




segunda-feira, 3 de julho de 2023

4958) Salve o compositor popular (3.7.2023)




Fazer uma música é um dos prazeres mais simples e artesanais que nos restam, num século em que tudo tem que ser, a) monumental, b) lucrativo, ou c) legitimador de alguma tecnologia recém-posta à venda. 
 
Há quem diga que literatura é a mais barata das artes, uma “arte a custo zero”, porque pode-se escrever um livro inteiro usando apenas papel e lápis. Pois olhe, música você pode fazer de mãos nos bolsos, e assobiando pra não esquecer a melodia. Eu já compus assim. 
 
Quantos bilhões de melodias já terão sido inventadas, decoradas e repetidas, nestes últimos milênios de História? Perderam-se?  Foram esquecidas?  Que importa? Também se perderam ou foram esquecidas as pessoas que as criaram, e mesmo assim não acho que a maioria delas creia que viveu em vão. 
 
Tenho para música aquilo que a gente chama de “ouvido duro”: dificuldade para lembrar uma melodia, para distinguir duas notas ou dois acordes muito parecidos, para perceber que uma corda de violão está semitonando. Talvez por isso mesmo, cada lararaiá que inventei me parece um triunfo pessoal sobre mim mesmo, digno de comemoração. 
 
Uma vez, na casa de alguém, eu estava conversando com um músico de orquestra sinfônica, um cara da minha idade, mas com uma carreira profissional que já vinha desde a infância. 
 
– Acho incrível a pessoa que compõe – disse ele. – Tocar, como eu toco, é fácil. Mas compor!  Nunca consegui compor uma música. 
 
– Mas é muito fácil – disse eu, com a auto-confiança dos primitivos. Peguei um violão que estava por perto, arpejei meu ré-maior básico e comecei a solar. – Tiruliruliro... tralá-laiá... Pronto, está aqui uma melodia. Compus agora. 
 
Ele recuou horrorizado, como se eu tivesse lhe exibido uma ratazana sanguinolenta. 
 
– Mas compor não é isso! – exclamou. – Não é apenas enfileirar notas. É algo muito mais complexo. 
 
Ele tinha razão. Ele é um músico erudito. Eu sou um músico popular. Eu posso compor assobiando, em pé no ônibus. Eu posso me dar o luxo do lugar-comum, do formatinho banal, da melodia naïve. O luxo da repetição, como o pintor de paisagens da Praça General Osório. Ele, não. Para ele, vale sem dúvida a máxima de Thomas Mann quanto à literatura: “Escritor profissional é aquele para quem o ato de escrever é mais difícil do que para as outras pessoas”. 
 
Minha primeira música gravada foi “Caldeirão dos Mitos”, que Elba Ramalho incluiu em seu segundo álbum, Capim do Vale (1980). Quando o disco saiu, eu tocava a faixa cinquenta vezes por dia, para me assegurar de que ela não tinha ido embora. Era bom demais para ser verdade. 
 
Uma noite, nessa época, estava bebendo com amigos num bar de João Pessoa, e a algumas mesas de distância um grupo de jovens alegres, de violão em punho, cantava músicas variadas. De repente, começaram a cantar o “Caldeirão”: “Tãrãrã-tãrãrã... Eu vi o céu à meia noite, se avermelhando num clarão...” 

Comoção geral na minha mesa; eu fiquei sem fala. Os amigos me disseram: “Vai lá!... Vai na mesa deles, fala que a música é tua!”  Eu, sabiamente, não fui. Ir para quê? Para amarrar a importância da música à presença do autor? De jeito nenhum. Música gravada é passarinho fora da gaiola. “Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho... voou, voou, voou, voou...” 
 
Alguns anos atrás, eu estava na FLIP, em Paraty. Tinha acabado de anoitecer e eu vinha testando meus tornozelos por cima das pedras traiçoeiras daquele calçamento. Numa esquina, encontrei um ou dois amigos fazendo parte de um grupo maior. Parei, trocamos abraços, cumprimentos, apresentações rápidas, dez minutos de papo, e o grupo se desfez. 
 
Saíram todos e ficamos eu e um senhor, idoso, negro, bem vestido. 
 
– O senhor é nordestino – constatou ele, com simpatia. 
 
– Sou mesmo – disse eu. Estendi a mão e me apresentei: – Braulio Tavares, da Paraíba.
 
– Prazer – disse ele. – Sou Edeor de Paula. Fiz um samba em homenagem ao seu Nordeste. 
 
Eu não reconheci o nome, como não reconhecera o rosto. 
 
– Que ótimo. Como é o samba? 
 
Ele pigarreou e puxou: 
 
– Marcado pela própria Natureza... 
 
E eu já emendei em uníssono, no tom dele, com o verso seguinte:
 
-- O Nordeste do meu Brasil... Oh, solitário sertão, de sofrimento e solidão...



(Edeor de Paula)
 
E ali, naquela encruzilhada de um começo de noite paratiense, cantamos todo o samba “Os Sertões”, que desde 1976, quando foi lançado pela escola Em Cima da Hora, eu me acostumara a cantar em Campina Grande, na nossa batucada de fins de semana, a “Batucada de Lanka”. Cantando junto com o autor, eu me lembrei de Lanka, de Lucy, de Chiquinho, de Marquinho, dos batuqueiros que já se foram e que dariam altas gargalhadas se me vissem ali, quarenta anos depois, tirando a maior onda e cantando o samba junto com o autor do samba. 
 
Seu Edeor se comoveu, certamente; nos despedimos com um abraço amistoso, e ele deve ter experimentado pela milésima vez o raro prazer de ser conhecido por uma música que criou. 
 
Não existe fórmula nem receita para fazer música. Ela pode ser criada na calada da noite por uma pessoa sozinha, e pode surgir numa ruidosa mesa de bar, rabiscada às pressas em guardanapos, com palpites e pitacos até do garçom. O que importa é que depois de criada a música cria seu primeiro círculo de ressonância, entre os que cantam, os que escutam, os que decoram, os que repetem... 
 
A música é gravada e ai vira tudo outro patamar. A gente ouve a música no rádio do táxi, no corredor do shopping, no palquinho de um forró, no alto-falante da rodoviária, na sala de espera do dentista... É um passarinho que voa para onde quer, sem pedir outra coisa senão o alpiste de três minutos de atenção. O cara que compôs a música também escuta, mas dá menos atenção à música do que aos rostos e aos olhos de quem está ouvindo. Não basta a música tocar no rádio: ela tem que tocar as pessoas. 
 
Dizem que Oscarito, no auge das chanchadas que estrelava com Grande Otelo na Atlântida, costumava botar algum disfarce de óculos e chapéu e assistir ao filme nas sessões da tarde na Cinelândia. Entrava, sentava num cantinho... e não olhava para a tela. Olhava para a platéia. Queria ver se a piada funcionava, se o timing de uma cena tinha ficado correto... É nisso que a gente pensa: no que o público está pensando. 
 
O que bate com um preceito sábio de Bertolt Brecht, quando explicava a diferença entre o teatro tradicional e o seu teatro épico: no teatro tradicional, a platéia observa o palco; no teatro épico, o palco observa a platéia.
 
Por isso quando a gente encontra um desconhecido numa esquina e ele, sem saber sequer o nosso nome, é capaz de lembrar e cantar uma música que a gente fez, então nesse momento o circuito se fecha. A energia flui. A gente fica sabendo (mais uma vez) que aquela noite em claro não foi em vão.
 
 
 
 
 
 
 







sexta-feira, 30 de junho de 2023

4957) Entrevistas Transcendentais: Edgar Allan Poe (30.6.2023)



 
O sol de Baltimore, nesta tarde de outono e céu azul, brilha como se por trás de uma redoma, lançando muito pouco calor sobre a rua. Caminho devagar, olhando as fachadas, até localizar o número 203. É uma casa de esquina com tijolos marrons, dois andares, uma lucarna projetando-se para fora lá no alto, onde deve ser o sótão. Subo os degraus da entrada, toco a campainha. Sou recebido por uma curadora metódica, trajando uniforme. De iPad em punho, ela checa meu agendamento, pede meu login e senha, indica-me a escada. 
 
Olho em torno. Mobília de época: móveis pequenos, reluzentes, nenhuma toalha de mesinha fora do lugar. Vou subindo para o sótão, onde ele fez seu gabinete de escrita. Do segundo andar para o sótão a escada é meio desconjuntada, insegura, e com o teto muito baixo. Imagino com que esforço os visitantes idosos que vieram antes de mim conseguiram subir. No sótão, o teto é inclinado, mal permitindo a uma pessoa de estatura normal ficar com o corpo ereto. 


(Amity Street 203 / Google View)
 
Ele está sentado numa cadeira junto à lucarna. No parapeito largo da janela há um corvo empalhado, sobre um pedestal de madeira. Numa mesinha próxima, uma bandeja com chá.  Ele se ergue, aprumado, cavalheiresco, estende-me a mão com a pose de um gentleman que perderá os ossos antes de perder as boas maneiras. Indica-me uma cadeira próxima, serve chá para nós dois. As mãos tremem ligeiramente, mas não hesitam. 
 
Trocamos amabilidades; ele ergue uma sobrancelha diante do meu sotaque, mas estou me esforçando para falar de forma compassada, separando bem as palavras, mesmo que isso me dê um ar artificial. A voz dele é profunda, melodiosa, e passa-me pela cabeça a idéia de que em outros tempos poderia ter sido um locutor de rádio. Mas não: é o teatro, o teatro que ele nunca praticou, mas tem no sangue. Ou talvez tenha praticado a vida inteira – autor, ator e personagem. 
 
BT – Mr. Poe, o senhor produziu uma quantidade espantosa de textos em sua curta existência. Na minha biblioteca, o volume dos seus “Contos e Poemas Reunidos” tem 1.026 páginas, e o de “Ensaios e Resenhas” tem 1.472. Como vê essa produção, hoje? Preferiria ter escrito menos? Mais, talvez? 
 
POE – Sou um escritor profissional. Não penso em termos da obra acumulada, penso apenas no texto que produzo naquele momento. Vivo em função do presente, não da posteridade. Não tenho do que me queixar. Tive uma vida difícil, cheia de conflitos familiares, decepções pessoais, penúria financeira; mas não a vejo como uma vida diversa da maioria das pessoas da minha época. E, embora muitos possam me considerar um incompreendido, fui um editor respeitado, meus contos e poemas foram recebidos com admiração. Muitos contemporâneos meus, homens e mulheres de talento, não alcançaram certos patamares de sucesso que eu conheci. 
 
BT – Pessoas de talento, concordo; mas sem a sua fagulha de genialidade. 
 
POE – Sempre achei  que os maiores gênios, os mais brilhantes intelectos que a humanidade produziu, não devem ser procurados nas academias ou nos salões científicos, e sim no manicômio ou na prisão. Terão sido gênios, mas em seu século foram tidos como incoerentes ou insanos. O vigor de uma inteligência excepcional não garante que nos comunicaremos com nossos contemporâneos. Sem ter um semelhante com quem dialogar, um indivíduo desse tipo prega no deserto e amedronta até os que mais o querem. Nossas sociedades se organizaram de forma a reconhecer o talento individual e empregá-lo em seu benefício, mas o “gênio”, pelo seu caráter de incontrolável rebeldia, terá sido na maioria das vezes vítima de incompreensão, perseguições e castigos. 


(Poe, by Court Jones)
 
BT – O senhor é tido, hoje, como um dos criadores, ou precursores, de três tipos muito populares de literatura: a narrativa de mistério detetivesco, a ficção científica e o conto de horror. Não sei se, na época em que escrevia, essas distinções eram assim tão claras. 
 
POE – Não eram. Como editor, descobri cedo o quanto é útil produzir no leitor algum tipo de expectativa prévia. Algumas vezes usei o termo “contos de raciocínio”, pois este me parece um filão pouco explorado da literatura. A literatura do meu tempo era fervilhante de sentimentos, de emoções ora nostálgicas ora assombrosas, e eu também as explorei, ao meu modo. Mas minhas histórias sobre a importância do raciocínio, da interpretação correta de fatos e aspectos da realidade constituem, para mim, um gênero legítimo dentro da literatura. Contos tão diversos quanto como “O Escaravelho de Ouro”, “Descida no Maelstrom”, “Tu És o Homem” e “A Queda da Casa de Usher” abordam esse tema: o raciocínio aplicado a situações limite. 
 
BT – Ainda hoje os apreciadores da literatura policial discutem sobre a importância do detetive raciocinador nessas narrativas.
 
POE  – Considero um erro, ou pelo menos uma limitação desnecessária, apor o rótulo “policial” a essa literatura, que nem sempre envolve polícia ou criminosos. O raciocínio é uma das luzes que o Criador nos deu, e não é privilégio de policiais. (ergue-se, caminha pelo sótão enquanto com as mãos ilustra a cena que descreve) Tenho em minha casa uma gata que aprendeu sozinha a abrir a porta para sair, pulando para agarrar-se ao ferrolho, movendo-o com a pata, impulsionando a porta para abri-la, e depois pulando para o chão e saindo. Os animais têm sua forma de raciocínio; mais rudimentar que a nossa, por certo, mas real. Pude utilizá-la na justificativa para os crimes da Rua Morgue, onde um animal com instinto imitativo mata uma pessoa sem saber o que está fazendo. 
 
(Detém-se diante de uma gravura na parede, mostrando um gato preto em pose imperial, sobre uma almofada.)  Quem tem animais domésticos, sejam cães ou gatos, sabe dos seus lampejos extraordinários de inteligência na resolução de problemas práticos. No homem, esses lampejos podem ser fonte infinita de inspiração literária, para além da mera investigação criminal. Isto que chamam hoje de “detetive” não se distancia muito de um médico que em dez minutos de conversa com um doente reúne elementos suficientes para deduzir o mal que o aflige, ou de um relojoeiro, que abre o nosso relógio e rapidamente descobre a razão do seu defeito. É o raciocínio aplicado aos dados da vida concreta. 
 
BT – Esta sua tendência de pensamento nunca entrou em conflito com a sua fascinação pelos aspectos sombrios, inconscientes e indecifráveis da mente humana, e do Universo? 
 
POE – Nosso espírito tem marés que avançam e recuam, como as dos oceanos. Não nego que em vida tive fases de exaltação e fases depressivas, bem como fases de auto-confiança no intelecto e fases de pavor diante de aspectos inexplicáveis de nossa existência. Falei que o terror não vem da Alemanha, vem da alma, tentando exprimir essa percepção de que esse medo reside em nós e não podemos fugir dele. Podemos entendê-lo, interpretá-lo, e neste caso a mente raciocinadora nos ajuda, se não a eliminar o terror, a colocá-lo em palavras. Não deixa de ser um triunfo parcial. 
 
BT – A palavra nos dá uma sensação de poder, diante da realidade...
 
Ele volta a sentar. Estende o braço e acaricia a penugem do corvo empalhado, com ar distraído.
 
POE – Sim... Quando me referi ainda agora à inteligência dos animais, não mencionei o corvo, que é rapidíssimo na solução de problemas, usa instrumentos agarrados com o bico, e demonstra ter uma clareza de pensamento que nos assusta. Por isso o elegi como protagonista de um dos meus poemas. Ele é, sim, o espírito da noite, o anjo ou demônio que negreja. Mas ele se exprime através da palavra, de uma única palavra: “Nevermore”. O que esta palavra significa fica a cargo do raciocínio do narrador, e este, a cada passo, dá a ela um sentido diferente em relação a sua própria vida. Talvez sejamos como o corvo. Talvez toda a literatura da espécie humana seja essa palavra, que um dia será lida por uma espécie superior à nossa, tal como o homem é superior ao corvo. E essa espécies de seres superiores dará, ao que escrevemos, sentidos que nos escapam. 


(Poe, by Edouard Manet)

 
BT – Esta sua valoração da inteligência nos animais poderia se estender, talvez, até as máquinas?
 
POE – Em princípio, nada impede que isto ocorra, se imaginarmos a inteligência como um processo combinatório definido por uma mecânica de possibilidades e escolhas, uma faculdade meramente acessória do Espírito, e sem a transcendência deste. O senhor deve lembrar o meu artigo sobre o Turco Enxadrista. Recusei-me a crer numa máquina capaz de jogar xadrez, nas condições daquela época. Pareceu-me mais plausível, pela navalha de Occam, que se tratasse de um mero truque: um homem oculto no gabinete de madeira. Nada impede, porém, que em condições técnicas mais avançadas isso possa ser obtido. O xadrez pode ser reduzido a combinações matemáticas, e os exemplos da calculadora de Pascal ou da máquina de Charles Babbage poderiam ser direcionados para operações tão complexas quanto as que o jogo requer. 
 
BT – E quanto a operações mais complexas ainda? A criação de textos ficcionais, por exemplo?
 
POE – Em primeiro lugar, devo insistir na distinção entre a mente humana, onde brilha o Espírito, e uma máquina, por mais poderosa que seja. Com esta ressalva, não vejo por que seria impossível criar um mecanismo capaz de gravar em sua memória um número extraordinário de combinações numéricas, e depois atribuir a esses elementos as mesmas funções das nossas palavras e dos fragmentos do nosso discurso. É uma operação análoga à que descrevi em “O Escaravelho de ouro”, só que com palavras e frases no lugar de letras, portanto em outro patamar de complexidade – imenso, mas não inatingível. 
 
BT – A criação de frases seria um processo meramente estatístico? 
 
POE – Não apenas isso, mas esse aspecto é essencial para a criação de filtros de probabilidade. No xadrez, em cada momento há centenas de jogadas possíveis, permitidas pelas regras; mas o intelecto do jogador descarta de pronto todas as jogadas inócuas, contraproducentes, irrelevantes, e se concentra naquelas que têm maior peso para a disputa travada no tabuleiro naquele instante. Num criptograma, estabelecemos regras de probabilidade para as letras, sendo a letra “E” a mais frequente em nosso idioma inglês; e regras específicas, como a de haver sempre uma letra “U” após a letra “Q”, etc. Esse cálculo pode ser ampliado para pequenas frases. “Céu azul”, “céu nublado”, “céu chuvoso” são combinações frequentes; “céu cavalo” “céu xícara”, “céu assoalho” não fazem sentido e podem ser descartadas. As regras gramaticais eliminariam automaticamente bilhões de respostas possíveis, e o avanço seguinte da máquina se daria num repertório de escolhas bem mais reduzido. 
 
BT – Pode-se criar textos literários dessa maneira? Prosa, poesia?
 
POE – É discutível, mas é uma questão em aberto. Assim como não há mistério concebido pela mente humana que outra mente humana não possa esclarecer, também não existe prodígio concebido pela imaginação humana que o engenho humano não possa tornar realidade. Faço apenas a ressalva de que a um processo 100% mecânico de criação de textos faltariam duas condições essenciais à literatura humana: alma e corpo. 
 
Entre os bilhões de combinações de palavras que nossa mente analítica pode formar, é o Espírito quem decide as mais elevadas, as mais nobres, as mais carregadas de verdade humana. 
 
E há também o nosso corpo, de quem nossa linguagem tanto depende. Criamos literatura com o corpo, tanto quanto com a mente. Alguém incapaz de escutar conceberia um poema como “The Bells”? A audição e a visão são essenciais a tudo que produzi. Muitos efeitos de contos como “A Tale of the Ragged Mountains”, “The Sphinx”, “The Oval Portrait”, “A Descent of the Maelstrom” dependem essencialmente do modo como nossos olhos enxergam. Por outro lado, efeitos sonoros e percepção auditiva são essenciais em ”The Tell-Tale Heart”, “The Fall of the House of Usher” etc.  Pergunto: uma máquina combinatória, sem corpo, poderia espontaneamente produzir histórias desse teor?
 
O senhor deve recordar as críticas do Chevalier Dupin aos procedimentos da polícia parisiense, no episódio do orangotango. Ele ironizava o chefe de polícia dizendo-o “esperto demais para ser profundo” e que sua inteligência tinha apenas cabeça, e não corpo. E no caso da carta furtada, o ministro D. tinha qualidades de poeta e de matemático, porque se tivesse apenas estas últimas estaria às mãos da polícia, que tem esse tipo de raciocínio. 
 
Uma máquina-escritora, sem a inspiração divina do Espírito, e sem um corpo (incluo aqui todos os poderes de observação empática de outros seres humanos, como no caso dos jogadores de whist), não poderia ter a fagulha poética, criadora. Seria um mero mecanismo re-arranjador de frases previsíveis. 
 
O smartphone me dá um aviso vibratório e inicia a contagem regressiva de dez minutos. Ergo-me, despeço-me dele, desejo-lhe um dia produtivo de trabalho, pois não me escapou à vista, no outro extremo do sótão, a bancada coberta de folhas garatujadas, os tinteiros cheios, os porta-penas, os mata-borrões. O contrato me impede de questioná-lo a respeito do que está escrevendo, porque poderia produzir uma alteração no algoritmo. Nosso último aperto de mãos me recompensa com um olhar cálido, cheio de companheirismo. 
 
POE – Fico muito grato pela sua visita. Há tão poucas pessoas que me procuram hoje em dia. Brasil, não é mesmo?... Que surpreendente. Bem, leve consigo minhas melhores lembranças aos meus leitores de Buenos Aires.
 
BT – Tem pelo menos dois, lá, e o admiram muito.
 
A escada íngreme e a funcionária atenciosa me conduzem de volta àquela rua pacata, àquele trecho de cidade sub species aeternitatis, àquela grama que não cresce, àquele sol que não aquece, ao céu daquele corvo que não crocita nunca mais.