Comentei anos atrás, aqui neste blog-coluna, o livro de
André Schiffrin O Negócio dos Livros –
Como as Grandes Corporações Decidem o que Você Lê (Rio: Casa da Palavra, 2006,
trad. Alexandre Martins).
Aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/02/2485-o-fim-do-livro-2022011.html
É basicamente um estudo de como as grandes editoras da
Europa e dos EUA estão sendo gradualmente adquiridas e controladas por grupos
que não estão nem ai para literatura ou para as artes, e querem usar o livro
para alavancar a venda de outros produtos e a difusão de outras idéias.
(A situação atual do mundo é esta, gostemos ou não.)
Schiffrin nasceu na França, mudou-se para os EUA em 1941.
Seu pai Jacques foi o criador da famosa Bibliothèque
de la Pléiade, linha editorial francesa que publica aquelas edições chic de obras-completas em papel bíblia.
(É uma forma rastaqüera de descrevê-la, diria Julio Silveira.) Nos EUA, André
foi diretor da Pantheon Books e depois da The New Press, experiências que ele
comenta em seu livro.
Aqui no Brasil, muitas grandes editoras surgiram como
empreendimentos ao mesmo tempo comerciais (para ganhar dinheiro) e culturais
(para debater idéias, fazer circular informações, dar acesso à vida cultural de
outros povos, etc.). Muitas dessas editoras eram ligadas a grupos familiares: a
família Machado na Editora Record, a família Prado na Ed. Brasilense, a família
Lacerda na Ed. Nova Fronteira, a família Zahar na Ed. Zahar, e assim por
diante.
Ou seja: as pessoas que tomavam as decisões moravam na
cidade e estavam mergulhadas na vida social de sua cidade e seu país. Não eram executivos
que moravam a 20 mil km da editora e muitas vezes sequer pisavam no país onde
elas imprimiam seus livros.
Schiffrin diz que a tendência dessas editoras
“familiares”, depois de adquiridas pelos grandes grupos internacionais, é mudar
gradualmente sua linha editorial. Em vez de publicar (por exemplo) romances,
contos, poesia, teatro, estudos históricos, estudos sociais, psicologia, etc.,
a ênfase se desloca gradualmente para livros de culinária, livros de turismo e
viagens, biografias de celebridades, memórias de políticos, livros de moda,
livros de auto-ajuda, livros de administração/negócios/vendas.
Publicam literatura? Sim. Basta um autor vender 1 milhão
de cópias por outra editora e eles lhe caem em cima prometendo mundos e
fundos. É como no futebol. É mais emocionante arrebatar a-peso-de-ouro o ídolo
da empresa rival do que manter uma “escolinha” de autores para serem
trabalhados a longo prazo.
Discutir isto me parece tão importante (do ponto de vista
de quem escreve profissionalmente) quanto discutir a questão (também
importantíssima, reconheço) “livro de papel X livro eletrônico”.
Porque se eu sou leitor de Fernando Pessoa, tanto se me
faz lê-lo num volume impresso quanto no celular. Qual é o problema? Aqui no meu
modesto Samsung eu tenho Kafka, Leminski, Virginia Woolf,
Darcy Ribeiro. O problema começa quando não houver Pessoa em nenhum dos dois
formatos. E isso periga acontecer um dia – talvez não com a obra de Fernando
Pessoa, mas com a obra de peixes-miúdos como eu e tantos outros.
Algum tempo atrás compartilhei nas redes sociais uma postagem onde Octavio Aragão reproduzia um depoimento do editor Rogério de
Campos (transcrevo a postagem, não sei indicar a fonte original do texto):
Rogério
de Campos: "Por outro lado, abundam nos postos de direção do mercado
editorial pessoas que não têm qualquer interesse em livros. Donos de editoras
que preferiam ser donos de construtoras, diretores de marketing que trabalham
em grandes editoras porque não conseguiram uma vaga na Coca Cola, livreiros que
gostariam de ser executivos em empresas de tecnologia, CEOs que dariam ótimos
mecânicos (mas infelizmente não sabem disso). Gente que não lê livro algum além
dos manuais técnicos de seus notebooks. Nas reuniões exibem seus novos smart
clocks, falam com entusiasmo das novas empilhadeiras do estoque e da nova
funcionária do RH, riem dos nerds da redação e reclamam com impaciência do
mimimi dos autores. Porque não têm paciência com gente que escreve livro, que
edita livro, que vende livro, que compra livro e que lê livro. São chefes
infelizes de gente que se sente infeliz por tê-los como chefes."
Os comentários na minha postagem eram todos de
confirmação, e muita gente dizia: “Na música também é assim”, “no meu trabalho
também é assim”. E eu acredito que seja.
André Schiffrin usa o conceito de “censura do Mercado”
para definir esta situação, um problema crescente a cada década que passa.
Assim como um Estado totalitário proíbe (ou sabota) tudo
que vai de encontro a sua ideologia, seja ela qual for, a censura do Mercado
proíbe (ou sabota) tudo quanto for de encontro à sua, que é a Ideologia do Lucro.
Poderíamos chamar de capitalistalinismo
essa pressão devastadora de cima para baixo em que o objetivo de um livro não é
proporcionar uma experiência pessoal, mas dar lucro. No final das contas, é “a
Mão Bruta do Mercado”, que espreme cérebros para fazer gotejar cifrões.
Não é de hoje. Numa entrevista do autor de ficção
científica Norman Spinrad (autor de O
Sonho de Ferro, The Void Captain’s
Tale, No Direction Home etc) à
revista Locus (fevereiro de 1999, #
457), ele já se queixava:
O que há de errado com a FC, em última análise, é o que há de errado
com o capitalismo dos conglomerados de corporações, em seu aspecto editorial,
porque em termos de quantos livros bons estão sendo escritos todos os anos não
há problema nenhum. Nos últimos dez anos temos tido todos os anos cerca de 20 a
30 livros entre bons e excelentes, e ninguém pode se queixar. O problema é que
eles estão soterrados numa avalanche de porcaria cinicamente comercial. Existe
uma disfunção no seio da indústria editorial, e isto acaba por afetar o que os
escritores produzem.
Os escritores se desenvolvem sob intensa pressão editorial, de uma
maneira que certamente não é a melhor para o seu amadurecimento literário. Você
não escreve os livros que genuinamente queria escrever: escreve os livros que
está obrigado a entregar sob contrato. É de causar medo. A indústria editorial
está hoje comandada por gente com cabeça exclusivamente de negócios. O poder
está nas mãos das pessoas do dinheiro, e isso não é só no mercado do livro. Em
geral, o pessoal que está no comando é o pessoal que faz cálculos na ponta do
lápis. Eles estão distanciados das qualidades inerentes ao produto, e não
conseguem ver nele outra coisa senão um produto. É por isso que, mesmo quando
eles seguem a cartilha da Harvard School of Economics, a indústria editorial
não está indo nada bem. É possível, sim, ir à falência por ter subestimado a
inteligência do leitor americano! Publicar significa dar ao povo o acesso às
coisas que ele quer ler, e talvez ajudar a produzir coisas melhores. Esta é a
sua função social. E a indústria editorial não apenas está deixando de atingir
este objetivo, como está trabalhando contra ele. (trad. BT)
Vejam só, isto é de 23 anos atrás. Em seu livro, André
Schiffrin insiste várias vezes em lembrar que muitas linhas editoriais
“culturais”, “literárias” não dão prejuízo, pelo contrário: dão lucros modestos,
mas constantes. O problema é que os executivos lá do topo analisam as planilhas
e concluem que aquele selo, com a “capacidade instalada” que tem, poderia dar
lucros 3 ou 4 vezes maiores, se
publicasse outro tipo de livro. E é nisso que dão com os burros nágua.
Diz Schiffrin:
Durante muitos anos, os livros da Vintage, ainda em seu formato menor,
custavam em média 1,95 dólar. Aumentando ligeiramente o tamanho dos livros, a
Vintage elevou seus preços para dez dólares ou mais. Eu me lembro de, na época,
argumentar que isso iria reduzir muito o número de pessoas dispostas a comprar
os novos livros da Vintage. Disseram: “Você talvez esteja certo, mas os dólares
continuarão os mesmos”. Essa frase me pareceu o marco da transição da velha
ideologia para a nova. A idéia de que um livro devia ser barato para atingir o
maior público possível estava sendo substituída por decisões contábeis,
preocupadas apenas com o total recebido. Não era apenas uma questão de ganhar
dinheiro ou evitar perdas – o catálogo da Vintage, composto pelos melhores
títulos dos catálogos de Random House, Knopf e Pantheon, já garantia um
substancial lucro anual. A regra passara a ser que o lucro por livro
tinha de ser o maior possível.
É um processo lento mas constante.
Diz Schiffrin que “na década de 1950 Londres tinha cerca de
duzentas editoras significativas. Hoje [2000] há menos de trinta.”
Um cálculo parecido com o de Samuel R. Delany
em About Writing (Wesleyan University
Press, 3005), numa entrevista concedida em 1998:
O fato é que em ’79 cerca de oitenta editoras independentes floresciam
em New York City. Hoje, dependendo do critério que se adote para calcular, há
somente nove. Algumas mudanças simplesmente catastróficas deram um novo formato
à matriz do mercado da edição norte-americana em geral, nos últimos vinte anos.
(trad. BT)
É um movimento lento, geológico, mas que não exclui o
surgimento incessante daquilo que mantém a cultura viva e renovada: as muitas
pequenas editoras, as muitas pequenas livrarias, os muitos pequenos autores.