domingo, 24 de julho de 2022

4846) "Na Torre da Lua Cheia" (24.7.2022)

 

Um editor meu já disse, com afabilidade, que eu sou um grande sabotador dos meus próprios livros, porque não me entusiasmo muito para divulgá-los. Não é verdade. Eu faço o que posso, tanto no cara-a-cara quanto nas redes sociais. Essa avaliação dele se deve à sua ansiedade, porque tinha expectativa de vender 40 mil exemplares do meu livro e agora segurava nas mãos uma planilha indicando cerca de 350.
 
Na verdade eu divulgo, mas não divulgo diariamente, como deveria fazer para me fazer ouvir no meio da inevitável balbúrdia. Todo dia tem gente lançando disco, montando peça, autografando livro, compartilhando podcast, estreando filme, abrindo vernissage. Divulgar é um trabalho de Sísifo.
 
Repórter de TV:
– Sísifo, fala pra gente como é essa emoção de todo dia conseguir enviar uma pedra para o vale. Como explicar tanto sucesso?... 
 
A revista pernambucana Continente Multicultural lançou, neste número do mês de julho, um encarte com um poema meu ilustrado por Cavani Rosas, Na Torre da Lua Cheia. Acho que a esta altura todo mundo no Brasil conhece essa excelente revista, na qual já colaborei várias vezes, e onde já fui entrevistado. Pode ser adquirida diretamente no saite, em várias bancas e livrarias nas Capitais; aqui no Rio de Janeiro, onde moro, vende nas livrarias Blooks e Travessa.
 
Na Torre da Lua Cheia
eu estava adormecido
quando acordei de repente
talvez ouvindo um ruído.
Levantei da minha enxerga
fui tateando a parede
até achar a janela
no meio da escuridão;
localizei o ferrolho
puxei pra cima com força
e a janela abriu-se toda
para a noite do Sertão.
 
Na Torre da Lua Cheia provavelmente vai ser referido como “um romance de cordel”, o que dá uma idéia, mas não uma idéia exata. Eu não acho que toda história em versos é “um cordel”. O cordel (o Romanceiro Popular Nordestino) tem formatos consagrados, tradicionais, que devem ser respeitados justamente por serem tradicionais. Foram cristalizados pela prática secular de milhares de poetas e milhões de leitores. Não foi um colegiado de teóricos que baixou uma lei dizendo “Tem Que Ser Assim”.
 
É um romance no sentido cordelesco do termo – uma história fantasiosa contada em versos. No caso, numa estrofe que não se usa no cordel (estrofe de 12 sílabas), e usando rimas toantes (que o cordel tradicional não admite).
 

Algum tempo atrás, comentei aqui neste blog o quanto é rara a Poesia Fantástica em nossa literatura. É possível achar numerosos exemplos do Fantástico em verso no Brasil, é possível até montar uma boa antologia, mas mesmo assim ninguém pode dizer que há aqui uma corrente contínua de poemas fantásticos dialogando e influenciando-se ao longo dos séculos. É como se cada autor começasse do zero.
 
A exceção, como sempre, é o cordel – que no seu sistema tradicional de sextilhas e décimas, e rimas consoantes, tem um impressionante repertório de histórias fantásticas, mesmo que aparentemente diluídas na tradição “folclórica” e anônima.

Na Torre da Lua Cheia tem algo de ficção científica, e é um poema que dormia na gaveta há muitos anos quando, numa conversa minha com Cavani Rosas, ele perguntou: “Você não tem nenhum texto falando de monstros, de assombrações?...”
 
Tinha, sim, tinha estas visagens adormecidas. Repassei uma cópia dos versos e ele passou pelo menos uns quatro ou cinco anos produzindo bem devagar – nos intervalos do seu trabalho costumeiro – as ilustrações que transformaram o poema em projeto de livro, em obra publicável. Coube a seu filho Edson Rosas dar o visual definitivo à obra.


Que sai agora, encartada num exemplar muito interessante da Continente, dedicado à música brega e à música soul. Para mostrar (talvez) que tudo coexiste, que tudo respira o mesmo ar e bebe a mesma água.
 
Uma pergunta que alguém pode vir a fazer: por que não publicar em forma de cordel tradicional? A resposta mais óbvia é que as ilustrações foram feitas em tamanho grande e precisam de um mínimo de espaço para serem reproduzidas à altura. Cavani desenha geralmente em nanquim e bico-de-pena, naquele pontilhado minúsculo de quarks escuros que se aglomeram sugerindo matéria, relevo, sombreados.
 
Para ficar à altura dessas minúcias, a primeira idéia, depois de descartado o cordel, foi fazer um álbum mais chique, tamanho revista, papel cuchê ou algum outro de ótima qualidade de reprodução, talvez até capa dura. Uma publicação semelhante às graphic novels que tanto eu quanto ele gostamos de ler.
 
Esse formato não está descartado, mas pode ficar para depois, porque vai ser um item de produção mais cara. Ficamos deliberando – e somos dois procrastinadores compulsivos, deliberar essas coisas leva anos – e nesse ínterim surgiu a idéia, lá no Recife, de fazer um formato intermediário – tamanho graphic novel, mas num papel mediano, e a edição seria encartada na Continente.
 
A revista da CEPE (Companhia Editora de Pernambuco) tem uma ótima circulação, é lida em muitos Estados, vende em banca e em livraria (inclusive Blooks, Martins Fontes, Travessa...), tem muitos assinantes... Encartar nosso “folheto” numa edição da revista seria um modo de fazê-lo chegar a leitores que normalmente jamais tomariam conhecimento de uma produção independente.
 
E assim... vualá!  Eis o nosso narrador da Torre alçando seu voo e contemplando lá de cima o Brasil do segundo semestre de 2022, Brasil que entrará para a História. Depois não digam que nós não avisamos.



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quinta-feira, 21 de julho de 2022

4845) O quadro (e o disco) mais caros do mundo (21.7.2022)




Se isto aqui fosse um artigo acadêmico, eu o intitularia "A Obra de Arte na Era de sua Não-Fungibilidade Comercial". 

Pelo que entendo, produto não-fungível é o produto único, que não pode ser substituído por um similar. Isso lhe dá uma condição de raridade, de individualidade. Inversamente, o produto fungível é o que pode ser trocado por algo igual ou equivalente.
 
Walter Benjamin tem um ensaio famoso, “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica” (1935), em que entre outras coisas ele compara os tradicionais quadros pintados a óleo e as obras das modernas artes gráficas. Um quadro pintado por Van Gogh é único, é não-fungível; uma gravura feita por Dürer pode ter 100 ou 500 cópias praticamente idênticas, e isto coloca a questão: essas gravuras caríssimas são fungíveis? Por um lado, têm gêmeas idênticas; por outro, a “família” inteira é rara e preciosa.
 
A possibilidade de reproduzir algo em grande quantidade (a imprensa, a fotografia, as gráficas, etc.) tira a “aura de unicidade” de uma obra, aquele charme do exemplar único e insubstituível, que faz a fortuna de artistas, colecionadores e marchands. Quando alguém diz “Eu tenho o quadro tal de Picasso” ele se refere ao quadro original feito pelo pintor. Pode haver até um certo número de cópias circulando – faz parte da tradição do estudo das artes copiar obras famosas. Mas o original é um só, e vale um milhão de vezes mais.
 
Um filme recente questionou tudo isso de maneira brilhante. The Lost Leonardo (André Koefoed, 2021) documenta o percurso de uma das pinturas mais polêmicas dos últimos tempos, o “Salvator Mundi” atribuído a Leonardo da Vinci. “Descoberto” por negociantes de artes em Nova Orleans, o quadro foi comprado por eles a um preço de 1.175 dólares.



(Leonardo da Vinci (?), Salvator Mundi, c1500)
 
Era considerado obra de algum aluno de Leonardo da Vinci, mas os compradores mobilizaram uma série de especialistas – restauradores, marchands, curadores – para saber se aquilo poderia, ou não, ser um Leonardo autêntico. Através de avaliações diversas, umas mais cautelosas, outras mais otimistas, eles conseguiram chamar a atenção do mundo para o quadro. Daí a pouco a pintura estava sendo noticiada e exibida como “Atribuída a Leonardo da Vinci”, e foi vendido por 127 milhões de dólares.
 
Bastou isso para mobilizar o mundo dos bilionários russos ou sauditas, gente com coceira no bolso. Em 2017, o quadro (cuja origem DaVinciana ainda está sob disputa) tornava-se “a Mona Lisa masculina”, e era vendido na Sotheby’s por 450 milhões.
 
Parece que a reprodutibilidade técnica das obras expandiu-se a ponto de empurrar para um recanto apertadinho do mundo as pinturas únicas, e isso, paradoxalmente, acabou ajudando a valorizá-las ainda mais. 

Sem esquecer que valor artístico é, SEMPRE, subjetivo. E autoria artística na pintura é, muitas vezes, difícil de estabelecer com 100% de certeza. O mercado de pinturas falsas é tão aquecido quanto o de pinturas verdadeiras. Orson Welles abordou isso de maneira tipicamente irônica no filme F For Fake (1973).
 
Aconselho uma olhada no filme de Koefoed, um mergulho cheio de curiosidade nesse mundo de “especialistas” que fazem um quadro religioso passar de 1 mil dólares para 400 milhões, no espaço de poucos anos. Um milagre-dos-peixes bem de nossa época.
 
Outra notícia recente diz respeito não à pintura, mas à música popular, e tem no epicentro o inefável Bob Dylan.


(Bob Dylan, por Milton Glaser)
 
Discos de música popular são frutos notórios da “reprodutibilidade técnica”, pois em tese são todos iguais, a não ser quando se trata de formatos essencialmente distintos de reprodução dos mesmos fonogramas – LP, CD, fita cassete, arquivo mp3...  Também temos que considerar que discos antigos, aqueles velhos vinis dos anos 1920 ou 1930, podem valer fortunas, pois apesar de serem objetos fabricados em massa tornam-se escassos (e por isto valiosos) com o passar do tempo.
 
Jeff Rosen é o empresário de Bob Dylan há vários anos, e devemos a ele (nós, os ouvintes e admiradores) uma série de iniciativas para trazer para o público produtos associados a Dylan. O lançamento regular da série Bootlegs, por exemplo, tem nos mostrado verdadeiros tesouros que Dylan (cuja cabeça ninguém até hoje sabe como funciona) preferiu deixar de fora dos álbuns, em detrimento de canções medíocres.
 
Rosen produziu a ótima caixa Biograph, o famoso show de trigésimo aniversário da carreira do cantor (em 1992), incrementou o saite www.bobdylan.com e produziu o documentário de Martin Scorsese, No Direction Home (2005) – a longa e resmungante entrevista de Dylan no filme foi concedida ao próprio Rosen.
 
Vai daí, deve ser ele que está por trás do lançamento recente de um disco único de Dylan, uma regravação em estúdio do clássico “Blowin’ in the Wind” em uma nova tecnologia de gravação (“Ionic Original”). O disco é de acetato, coberto com uma camada protetora, e pode ser tocado numa vitrola comum. É um disco único, sem cópia, atestado como “one of one”, exemplar único de uma tiragem total de apenas um.



Guardado numa caixa de madeira, o disco traz as assinaturas de Dylan, do produtor musical T-Bone Burnett e do engenheiro de masterização Jeff Powell.
 
O disco foi a leilão na Christie’s, em Londres, e foi arrematado pela merreca de 1,2 milhão de libras esterlinas, ou 1,44 milhão de dólares.
 
Um disco pop, que já foi um dos produtos mais fungíveis (=mais substituíveis) da indústria, chega agora a um status de sofisticada valorização como produto insubstituível.
 
O produtor musical, T-Bone Burnett, é um excelente músico e figura conhecida no mundo do rock e pop. É dele (por exemplo) a trilha sonora do filme dos Irmãos Coen, E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?.  É claro que num produto dessas dimensões não se espera do produtor menos do que entusiasmo, e ele manda ver, na Rolling Stone:
 
https://www.rollingstone.com/music/music-news/bob-dylan-auction-blowin-in-the-wind-1-8-million-dollars-1379474/
 
É uma rebelião contra o consumo massificado. Não é que eu não queira que as pessoas o escutem. Acho que é a melhor gravação que fiz na minha vida, então eu quero que todo mundo ouça. Para o meu ego e o meu senso de “eu queria que todos fossem como eu”, é um sacrifício. Bem, vocês ouviram. [O disco foi tocado em audições especiais para a imprensa e para possíveis concorrentes no leilão da Christie’s.] Bob está soando bem. A banda está soando bem. A canção é extraordinária. E vou dizer uma coisa, acho que é a melhor coisa com que já me envolvi. O melhor cantor, a melhor canção, grandes músicos, o som é matador. Vou lhes dizer: nunca fiz nada melhor do que isto, com certeza.
 
Claro que T-Bone deve ter embolsado bons caraminguás num projeto com o sarrafo tão alto, e claro que ele deve ter feito o possível para estar à altura.
 
Ainda não vi na imprensa quem terá comprado o disco, e se versões piratas dele (trata-se de uma gravação nova, feita em 2021) já surgiram. Alguém duvida?...
 
Dylan já aceitara participar de um projeto com esse perfil “Para Pessoas Diferenciadas”, fazendo um show na Suécia para UM ESPECTADOR.
 
Veja aqui meu texto a respeito:
 
E aqui um clip explicativo, com momentos do show:
 
O fato é que o mundo está cada vez mais cheio de pessoas capazes de dar 400 milhões de dólares por um quadro de procedência duvidosa, mas atrelado ao nome de uma celebridade renascentista; e de pessoas capazes de dar 1 milhão e meio por um disco que não tem similar, atrelado ao nome do único artista que tem um Grammy, um Oscar e um Nobel.
 
Ecclesiastes 11: 1
Cast your bread upon the waters, for after many days you will find it again. 
 


(“Jokerman” videoclip / "Self Portrait", Albrecht Durer, 1500)














segunda-feira, 18 de julho de 2022

4844) O livro como mercadoria (18.7.2022)



Comentei anos atrás, aqui neste blog-coluna, o livro de André Schiffrin O Negócio dos Livros – Como as Grandes Corporações Decidem o que Você Lê (Rio: Casa da Palavra, 2006, trad. Alexandre Martins).
 
Aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/02/2485-o-fim-do-livro-2022011.html
 
É basicamente um estudo de como as grandes editoras da Europa e dos EUA estão sendo gradualmente adquiridas e controladas por grupos que não estão nem ai para literatura ou para as artes, e querem usar o livro para alavancar a venda de outros produtos e a difusão de outras idéias.
 
(A situação atual do mundo é esta, gostemos ou não.)
 
Schiffrin nasceu na França, mudou-se para os EUA em 1941. Seu pai Jacques foi o criador da famosa Bibliothèque de la Pléiade, linha editorial francesa que publica aquelas edições chic de obras-completas em papel bíblia. (É uma forma rastaqüera de descrevê-la, diria Julio Silveira.) Nos EUA, André foi diretor da Pantheon Books e depois da The New Press, experiências que ele comenta em seu livro.
 
Aqui no Brasil, muitas grandes editoras surgiram como empreendimentos ao mesmo tempo comerciais (para ganhar dinheiro) e culturais (para debater idéias, fazer circular informações, dar acesso à vida cultural de outros povos, etc.). Muitas dessas editoras eram ligadas a grupos familiares: a família Machado na Editora Record, a família Prado na Ed. Brasilense, a família Lacerda na Ed. Nova Fronteira, a família Zahar na Ed. Zahar, e assim por diante.
 
Ou seja: as pessoas que tomavam as decisões moravam na cidade e estavam mergulhadas na vida social de sua cidade e seu país. Não eram executivos que moravam a 20 mil km da editora e muitas vezes sequer pisavam no país onde elas imprimiam seus livros.






Schiffrin diz que a tendência dessas editoras “familiares”, depois de adquiridas pelos grandes grupos internacionais, é mudar gradualmente sua linha editorial. Em vez de publicar (por exemplo) romances, contos, poesia, teatro, estudos históricos, estudos sociais, psicologia, etc., a ênfase se desloca gradualmente para livros de culinária, livros de turismo e viagens, biografias de celebridades, memórias de políticos, livros de moda, livros de auto-ajuda, livros de administração/negócios/vendas.
 
Publicam literatura? Sim. Basta um autor vender 1 milhão de cópias por outra editora e eles lhe caem em cima prometendo mundos e fundos. É como no futebol. É mais emocionante arrebatar a-peso-de-ouro o ídolo da empresa rival do que manter uma “escolinha” de autores para serem trabalhados a longo prazo.
 
Discutir isto me parece tão importante (do ponto de vista de quem escreve profissionalmente) quanto discutir a questão (também importantíssima, reconheço) “livro de papel X livro eletrônico”.
 
Porque se eu sou leitor de Fernando Pessoa, tanto se me faz lê-lo num volume impresso quanto no celular. Qual é o problema? Aqui no meu modesto Samsung eu tenho Kafka, Leminski, Virginia Woolf, Darcy Ribeiro. O problema começa quando não houver Pessoa em nenhum dos dois formatos. E isso periga acontecer um dia – talvez não com a obra de Fernando Pessoa, mas com a obra de peixes-miúdos como eu e tantos outros.
 
Algum tempo atrás compartilhei nas redes sociais uma postagem onde Octavio Aragão reproduzia um depoimento do editor Rogério de Campos (transcrevo a postagem, não sei indicar a fonte original do texto):
 
Rogério de Campos: "Por outro lado, abundam nos postos de direção do mercado editorial pessoas que não têm qualquer interesse em livros. Donos de editoras que preferiam ser donos de construtoras, diretores de marketing que trabalham em grandes editoras porque não conseguiram uma vaga na Coca Cola, livreiros que gostariam de ser executivos em empresas de tecnologia, CEOs que dariam ótimos mecânicos (mas infelizmente não sabem disso). Gente que não lê livro algum além dos manuais técnicos de seus notebooks. Nas reuniões exibem seus novos smart clocks, falam com entusiasmo das novas empilhadeiras do estoque e da nova funcionária do RH, riem dos nerds da redação e reclamam com impaciência do mimimi dos autores. Porque não têm paciência com gente que escreve livro, que edita livro, que vende livro, que compra livro e que lê livro. São chefes infelizes de gente que se sente infeliz por tê-los como chefes."
 
Os comentários na minha postagem eram todos de confirmação, e muita gente dizia: “Na música também é assim”, “no meu trabalho também é assim”. E eu acredito que seja.
 
André Schiffrin usa o conceito de “censura do Mercado” para definir esta situação, um problema crescente a cada década que passa.
 
Assim como um Estado totalitário proíbe (ou sabota) tudo que vai de encontro a sua ideologia, seja ela qual for, a censura do Mercado proíbe (ou sabota) tudo quanto for de encontro à sua, que é a Ideologia do Lucro.
 
Poderíamos chamar de capitalistalinismo essa pressão devastadora de cima para baixo em que o objetivo de um livro não é proporcionar uma experiência pessoal, mas dar lucro. No final das contas, é “a Mão Bruta do Mercado”, que espreme cérebros para fazer gotejar cifrões.


(Norman Spinrad)
 
Não é de hoje. Numa entrevista do autor de ficção científica Norman Spinrad (autor de O Sonho de Ferro, The Void Captain’s Tale, No Direction Home etc) à revista Locus (fevereiro de 1999, # 457), ele já se queixava:
 
O que há de errado com a FC, em última análise, é o que há de errado com o capitalismo dos conglomerados de corporações, em seu aspecto editorial, porque em termos de quantos livros bons estão sendo escritos todos os anos não há problema nenhum. Nos últimos dez anos temos tido todos os anos cerca de 20 a 30 livros entre bons e excelentes, e ninguém pode se queixar. O problema é que eles estão soterrados numa avalanche de porcaria cinicamente comercial. Existe uma disfunção no seio da indústria editorial, e isto acaba por afetar o que os escritores produzem.
 
Os escritores se desenvolvem sob intensa pressão editorial, de uma maneira que certamente não é a melhor para o seu amadurecimento literário. Você não escreve os livros que genuinamente queria escrever: escreve os livros que está obrigado a entregar sob contrato. É de causar medo. A indústria editorial está hoje comandada por gente com cabeça exclusivamente de negócios. O poder está nas mãos das pessoas do dinheiro, e isso não é só no mercado do livro. Em geral, o pessoal que está no comando é o pessoal que faz cálculos na ponta do lápis. Eles estão distanciados das qualidades inerentes ao produto, e não conseguem ver nele outra coisa senão um produto. É por isso que, mesmo quando eles seguem a cartilha da Harvard School of Economics, a indústria editorial não está indo nada bem. É possível, sim, ir à falência por ter subestimado a inteligência do leitor americano! Publicar significa dar ao povo o acesso às coisas que ele quer ler, e talvez ajudar a produzir coisas melhores. Esta é a sua função social. E a indústria editorial não apenas está deixando de atingir este objetivo, como está trabalhando contra ele. (trad. BT)
 
Vejam só, isto é de 23 anos atrás. Em seu livro, André Schiffrin insiste várias vezes em lembrar que muitas linhas editoriais “culturais”, “literárias” não dão prejuízo, pelo contrário: dão lucros modestos, mas constantes. O problema é que os executivos lá do topo analisam as planilhas e concluem que aquele selo, com a “capacidade instalada” que tem, poderia dar lucros 3 ou 4 vezes maiores, se publicasse outro tipo de livro. E é nisso que dão com os burros nágua.
 
Diz Schiffrin:
 
Durante muitos anos, os livros da Vintage, ainda em seu formato menor, custavam em média 1,95 dólar. Aumentando ligeiramente o tamanho dos livros, a Vintage elevou seus preços para dez dólares ou mais. Eu me lembro de, na época, argumentar que isso iria reduzir muito o número de pessoas dispostas a comprar os novos livros da Vintage. Disseram: “Você talvez esteja certo, mas os dólares continuarão os mesmos”. Essa frase me pareceu o marco da transição da velha ideologia para a nova. A idéia de que um livro devia ser barato para atingir o maior público possível estava sendo substituída por decisões contábeis, preocupadas apenas com o total recebido. Não era apenas uma questão de ganhar dinheiro ou evitar perdas – o catálogo da Vintage, composto pelos melhores títulos dos catálogos de Random House, Knopf e Pantheon, já garantia um substancial lucro anual. A regra passara a ser que o lucro por livro tinha de ser o maior possível.

 
É um processo lento mas constante. 

Diz Schiffrin que “na década de 1950 Londres tinha cerca de duzentas editoras significativas. Hoje [2000] há menos de trinta.” 

Um cálculo parecido com o de Samuel R. Delany em About Writing (Wesleyan University Press, 3005), numa entrevista concedida em 1998:
 
O fato é que em ’79 cerca de oitenta editoras independentes floresciam em New York City. Hoje, dependendo do critério que se adote para calcular, há somente nove. Algumas mudanças simplesmente catastróficas deram um novo formato à matriz do mercado da edição norte-americana em geral, nos últimos vinte anos. (trad. BT)
 
É um movimento lento, geológico, mas que não exclui o surgimento incessante daquilo que mantém a cultura viva e renovada: as muitas pequenas editoras, as muitas pequenas livrarias, os muitos pequenos autores.   
 
 
 
 
 





sexta-feira, 15 de julho de 2022

4843) A resposta na ponta da língua (15.7.2022)

 


Quando os Beatles desembarcaram pela primeira vez nos EUA, em 1964, deram mil coletivas de imprensa. Um jornalista perguntou:
 
– Por que a música de vocês deixa as pessoas tão excitadas?
 
Houve um segundo de hesitação no grupo, e John Lennon disse:
 
– Não sabemos. Quando descobrirmos, vamos criar um novo grupo e ser empresários deles.
 
Os Beatles tinham uma enorme capacidade de improvisar respostas ao vivo. Não eram as respostas espertas, ensaiadinhas, das coletivas de hoje em dia. Hoje, todo artista tem alguns publicitários criativos em sua equipe, que lhes entregam uma lista das prováveis perguntas e das respostas espirituosas que ele deverá decorar para “ter na manga”.
 
E nos “encontros com a imprensa” de hoje, há, muitas vezes, um jornalista arraia-miúda a quem foi fornecida uma pergunta para ele fazer na hora H, servindo de “escada” ao artista, em troca de dois convites para o show. (Se eu fosse empresário de artista rico, subornaria jornalistas sem o menor remorso. Quem se vende é porque não vale nada.)
 
Os ingleses chamam de repartee a frase espirituosa dita num repente. Funciona tão bem que dá a impressão de que a pergunta (que era uma provocação) fica parecendo uma “deixa” para o cara exibir a resposta que trazia prontinha.
 
Não trazia. É improviso mesmo. Naquela mesma coletiva, alguém pergunta: “Quando vocês vão cortar o cabelo?” e George Harrison responde de bate-pronto: “O meu eu cortei ontem.”
 
É resposta decorada? Não. Provavelmente era verdade. Claro que os Beatles aparavam aquelas trunfas, principalmente antes de estrear uma turnê grande. E muitas vezes a verdade é a última coisa que se espera numa resposta assim.
 
O improviso espirituoso não é apenas uma resposta inteligente, é uma resposta que depende totalmente do modo como a pergunta foi feita. Muitas vezes a graça implica em distorcer o sentido de algum termo da pergunta. Nessa mesma coletiva (ou em outra) perguntaram aos Beatles: “Como vocês acharam a América?”. A pergunta, é claro, indagava sobre o estado de espírito dos fãs, à sua chegada. Lennon respondeu: “Virando à esquerda quando chegamos na Groenlândia”.



Bob Dylan, na sua fase sarcástica e sardônica de 1966 (aquilo que hoje está sendo chamado de “The Cate Blanchett Period”) era outro que não deixava por menos. Um pomposo entrevistador perguntou-lhe uma vez:
 
– Você tem idéia do alcance de suas canções?...
 
E ele disse:
 
– Olhe, tem as que alcançam três minutos, outras alcançam cinco, e outras, acredite se quiser, alcançam os dez ou doze minutos.
 
Muitos dos nossos melhores repentes, essas respostas instantâneas capazes de guilhotinar uma pergunta em um segundo, surgem assim porque já tínhamos pensado naquela pergunta e em nossa cabeça se formou, se não a resposta pronta e definitiva, pelo menos uma idéia de como essa resposta deveria ser.
 
Uma expressão francesa, “esprit d’escalier”, indica aquelas ocasiões melancólicas em que essas respostas arrasadoras, espirituosas, só nos ocorrem quando estamos na escada, indo embora da festa. Não importa. Perguntas embaraçosas ou provocativas costumam se repetir. A gente guarda a resposta boa. Eu já preparei uma resposta assim e guardei por mais de 25 anos; quando a pergunta veio, tirei-a do bolso sem pestanejar, e a mesa inteira aplaudiu.



G. K. Chesterton tem um ótimo livrinho de contos interligados, The Club of Queer Trades (1905), em que os personagens inventam profissões extravagantes, maneiras bizarras de ganhar a vida em Londres. A certa altura, menciona-se um cara que é “o Shakespeare do dito espirituoso”, a alma das festas, o cara que tem sempre uma frase engenhosa para desarmar o interlocutor.
 
Conto vai, conto vem, ficamos sabendo no final que esse cara espirituoso é apenas um dos clientes de um sujeito que prepara conjuntos de frases-e-respostas, e numa ocasião social qualquer, combinadamente, dá as “deixas” para que o cliente (qualquer um que pague bem) pronuncie sua frase de espírito e faça o maior sucesso. É a profissão dele: Facilitador de Respostas Espirituosas.
 
“Armações” à parte, a resposta de bate-pronto existe, e cada um de nós já presenciou inúmeros exemplos. Políticos mineiros são especialistas nisso: Tancredo Neves, Benedito Valadares, José Aparecido de Oliveira...


(busto de Antonio Marinho em S. José do Egito, foto BT)
 
Os cantadores nordestinos são, além de poetas, repentistas, ou seja, são capazes de raciocínio rápido e resposta perfeita. Conta-se que o mestre Antonio Marinho, de São José do Egito, tinha um compadre chamado Irineu. Um dia estava em casa e a esposa do compadre lhe surge à janela da rua, perguntando:
 
– Compadre Antonio, o senhor viu Irineu?...
 
E ele:
 
– Não. E fôro?...
 
É o tipo da coisa que só é engraçada na pronúncia dialetal sertaneja. “O senhor viu irem n’eu? (=irem em mim)?” – “Não!... E foram?!...”
 
O genro de Antonio, o famoso Lourival Batista, era um dos gatilhos-verbais mais rápidos do Nordeste. Lá vinha ele caminhando despreocupado pelas ruas de São José, quando um conhecido o saudou de longe, acenando da calçada oposta:
 
– Tudo bem, “Lourivarrr”?...
 
E ele, impassível:
 
“Regulal”...
 
São gracejos que ninguém poderia “trazer pronto” para responder no momento adequado; é algo concebido e executado no espaço de segundos. Nenhum de nós tem a verve repentística de Marinho ou de Louro, mas pode se dedicar à nobre arte de prever perguntas e preparar respostas.
 
E nesse aspecto lembro um caso contado pelo meu saudoso amigo Arievaldo Vianna, que vinha cruzando uma praça e dele se aproximou um doido que perambulava por ali pedindo dinheiro. O doido chegou e disse:
 
– Me dê uma grana pra provar que está com Deus. Se Deus estiver do seu lado, um bandido bota a arma na sua cabeça, aperta o gatilho, a arma encrenca e não dispara.
 
Arievaldo:
 
– Sim, mas e se a arma for novinha, e disparar?
 
O doido:
 
– Então é porque você estava pronto pra ir ao encontro de Deus!







terça-feira, 12 de julho de 2022

4842) Novidades da "Pedra do Reino" (12.7.2022)


A Editora Nova Fronteira lançou há poucos meses uma nova edição do Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, como parte das comemorações dos 50 anos do Movimento Armorial. O livro havia saído pela José Olympio no seu lançamento em 1971, mas as edições mais recentes são da Nova Fronteira, com uma concepção gráfica totalmente diferente, coordenada pela família do escritor (falecido em 2014).
 
Esta edição de agora traz um bônus mais-que-precioso: um Caderno de Textos e Imagens, ilustradíssimo, com 272 páginas. Um ótimo brinde para os leitores da Pedra, que podem até não ser muitos, mas compartilham a fascinação e a curiosidade por todos os detalhes referentes à obra..
 
O volume é organizado por Carlos Newton Júnior, a “pessoa a quem eu faço todas as perguntas sobre assuntos ariânicos”; tem direção de arte de Dantas Suassuna, e projeto gráfico de Ricardo Gouveia de Melo.
 
O material contido no livro é objeto de uma detalhada explicação e contextualização por Carlos Newton, em sua introdução, onde ele – que durante muitos anos trabalhou ao lado de Ariano Suassuna – reconstitui o longo e tortuoso processo de criação do romance. E Carlos apresenta a primeira grande “novidade” desta edição: o texto Sinésio, o Alumioso, um manuscrito reproduzido em fac-símile, na caligrafia do autor, e datado de julho de 1958.


Este texto é portanto a célula original do romance (os leitores devem lembrar-se que no fim do livro Ariano grava de forma indelével as datas de começo e fim: 19-VII-1958 e 9-X-1970). Este manuscrito sobre Sinésio, portanto, data do início da criação do romance. Carlos Newton lembra, contudo, que as datas celebradas assim por Ariano são mais simbólicas do que práticas, e em termos cronológicos são meramente aproximativas.
 
Em todo caso, é fascinante ler agora esse manuscrito ainda verde, ainda balbuciante, em que o narrador Quaderna afirma chamar-se “Dinis Henriques Cipriano Quaderna” (nome depois trocado pelo definitivo “Pedro Dinis Ferreira-Quaderna”), e Sinésio ainda é “Sinésio Barretto Garcia” (em vez de “Sinésio Garcia-Barretto”).
 
Por outro lado, no manuscrito já estão prontos, com nomes praticamente idênticos, os professores de Quaderna (Samuel e Clemente) dois dos personagens mais brilhantes inventados por Suassuna. E já temos em 1958 um princípio de mergulho da famosa “Filosofia do Penetral”, um capítulo hilariante do livro, e que no presente rascunho ainda mantém alguns conceitos tapuio-filosofantes carregados de mistério e transcendência – o que seriam, à luz do que sabemos hoje, “a Parentela do Plasma”, “o Aluir do Inopino”, “o Galarim do Prestígio” ou “o Nó das Serpentes”?!...


Esta seção de manuscritos e datiloscritos reproduz fotograficamente o prefácio escrito por Rachel de Queiroz para a primeira edição. Também uma carta de Ernst Fromm, da Editora Agir, agradecendo a Ariano o direito de poder avaliar a obra em primeira mão, mas abrindo mão dela para que o autor a entregasse a outra editora mais capaz de dar ao livro “a difusão que merece como obra literária que, indiscutivelmente, é.”
 
Segue-se uma longa seção de iconografia com fotos de Ariano em diferentes grupos e momentos; reproduções de quadros de artistas ligados ao Movimento Armorial, como Dantas Suassuna, Flávio Tavares, Sérgio Lucena, Aluísio Braga, J. Borges e o próprio Ariano; capas das diferentes edições do livro, no Brasil e no estrangeiro.
 
Em seguida, outra preciosidade do ponto de vista literário-narrativo. Quando a TV-Globo produziu a minissérie A Pedra do Reino, lançada em 2007, nos 80 anos do escritor, a equipe de adaptadores (Luiz Fernando Carvalho, Luís Alberto de Abreu e eu próprio) recebeu de Ariano um caderno manuscrito com a “Conclusão” da história.



Como quem leu o livro sabe, a narrativa das aventuras de Quaderna foi interrompida por Ariano depois de 1976, deixando um “buraco” de eventos não contados. O que teria acontecido entre 1935 (data da invasão de Taperoá pela Estranha Cavalgada, com Sinésio à frente) e 1938, quando Quaderna, na maior cara-de-pau, dá ao Juiz Corregedor seu depoimento sobre a confusão toda? Mistério.
 
Para que a minissérie também não se interrompesse nesse vácuo, Ariano escreveu em 2006, a nosso pedido, essa “Conclusão”, aqui transcrita e revelada ao público pela primeira vez, esclarecendo alguns dos mistérios deixados incompletos no romance. Algumas das cenas sugeridas por ele foram incorporadas à minissérie.
 
Há alguns detalhes pitorescos que mostram o caráter ambivalente (geminiano?...) de Quaderna/Suassuna. Veja-se a confusão causada sem-querer por Sinésio, quando diz à família ter se apaixonado por “uma moça clara” que vivia na Fortaleza; ele se apaixonara pela loura Heliana, e a família supõe que é pela irmã dela, que se chama Clara.

Esse episódio de folhetim é espelhado de forma picaresca quando Quaderna tenta dizer a Dona Carmen Gutiérrez Torres Martins que está apaixonado pela filha dela, a loura Margarida – e o faz de maneira tão canhestra que as duas imaginam que foi pela matrona que ele se apaixonou. Esta cincada vale a Quaderna o ódio eterno de Margarida, que futuramente servirá de escrivã no interrogatório de Quaderna pelo Juiz Corregedor.


(Irandhir Santos e Milene Ramalho: "Quaderna" e "Margarida" na minissérie)
 
Claro que, como todo ódio feminino de folhetim, o de Margarida também é solúvel em tintura-de-melodrama, e no fim da história ela cai nos braços de Quaderna.
 
Alguns detalhes da trama são esclarecidos nesse texto final, entre eles a portentosa questão do tesouro deixado por D. Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Quaderna faz referência ao mapa da Paraíba e às letras nele contidas; uma solução não muito diversa da que aparece no filme Cinco Covas no Egito (“Five Graves to Cairo”, 1943) de Billy Wilder, filme que Ariano Suassuna  comentava ter visto.
 
O Caderno de Textos e Imagens é, assim um adendo essencial e indispensável ao Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue de Vai-e-Volta, este (no dizer de Quaderna) “romance heróico-brasileiro, ibero-aventuresco, criminológico-dialético e tapuio-enigmático de galhofa e safadeza, de amor legendário e de cavalaria épico-sertaneja”.
 
É um desses casos clássicos de obra inacabada mas que mesmo assim veio à publicação. Essa “história sem fim”, vai ficar eternamente rodando inconclusa, em loop, na memória e na imaginação dos leitores. Fica na honrosa prateleira dos livros deixados incompletos pelos autores: O Mistério de Edwin Drood (1870) de Charles Dickens, O Original de Laura (1977) de Vladimir Nabokov, 53 Jours (1989) de Georges Perec, Le Mont Analogue (1952) de René Daumal, O Processo (1925) de Franz Kafka, o poema Kubla Khan (1816) de Samuel Taylor Coleridge...
 
E para os que encontram alguma dificuldade na leitura do livro, ou no acompanhamento da minissérie, deixo aqui as palavras lúcidas e práticas de meu colega de roteiro, o dramaturgo Luís Alberto de Abreu:
 
“É preciso deixar claro para o espectador, desde o início, os códigos onde se apoia a obra. Se o sistema for simples e de fácil entendimento, não há dificuldade de compreensão. Esse sistema de código não pode ser aleatório, nem se transformar num quebra-cabeça intelectual. É preciso descobrir um sistema orgânico, natural. Se partirmos do princípio que toda a obra é construída a partir das lembranças de um velho homem, toda quebra de tempo e de espaço, fantasia e realidade, serão facilmente assimiláveis pelo espectador porque são determinadas organicamente pela memória de um personagem. Foi isso que fizemos.” (Luís Alberto de Abreu)


(foto de Gustavo Moura)
 






sábado, 9 de julho de 2022

4841) A inspiração para escrever (9.7.2022)




“De onde vocês tiram as idéias para as histórias que escrevem?”
 
É a pergunta que um escritor mais escuta durante a vida. Jornalistas, crianças, leitores em geral, colegas em início de carreira... todo mundo quer saber de onde vêm as idéias.
 
Minha resposta, hoje, é: "Minhas idéias vêm das idéias dos outros."
 
Vêm da vida real, também; mas é mais frequente virem dos livros que a gente lê, dos filmes que a gente vê. Quando a gente está lendo um livro, o aplicativo “Detetor de Boas Idéias” está ligado e em pleno funcionamento. Na vida real, às vezes acontecem coisas extraordinárias diante dos nossos olhos, mas estamos preocupados com outros detalhes.
 
Um amigo meu sofreu um “sequestro relâmpago” que durou horas. Foi levado a caixas eletrônicos, sacou dinheiro sob revólver, aquele pesadelo todo.
 
“Houve um momento,” disse ele depois, “o carro parado no trânsito, a arma encostada nas minhas costelas, que pensei: isto aqui daria um conto. Mas agora que passou não lembro mais de nada, ou pelo menos de nada que consiga escrever. É como se tivesse acontecido com outra pessoa. É uma experiência que não bate com o dicionário.”
 
Lendo um livro, a gente já pega a idéia com um mínimo de formato. A arte está em saber pegar essa idéia e torná-la nossa. Virar pelo avesso, decompor e recompor as partes, descartar o que é muito característico do autor original, ampliar um detalhe, obscurecer outro. Mas mantendo a chama, a vibração que nos fez pensar: “Opa, aqui tem uma idéia massa, que eu posso adaptar para o meu jeito de escrever.”
 
Muitos leitores de Stephen King curtem a série “A Torre Negra”, um ciclo de oito romances fantásticos que King levou mais de vinte anos para completar. A ação transcorre principalmente no futuro, numa Terra devastada, cheia de escombros da civilização. Há viagens no Tempo, há ambientação de faroeste (pistoleiros, etc.), há incursões pela nossa época atual, em flash-backs ou em viagens temporais.
 
De onde King tirou sua inspiração para essa série de FC pouco convencional?  Por incrível que pareça, ele queria escrever uma “resposta” a O Senhor dos Anéis, que leu aos dezenove anos e que virou sua cabeça, como a de muitos outros. Mas ele não queria repetir o livro de Tolkien. Ele diz que a resposta lhe veio quando assistiu O Bom, o Mau e o Feio de Sérgio Leone, e percebeu a dimensão épica daquele faroeste, que para a sensibilidade dele tinha a mesma dimensão da fantasia de Tolkien. Ele diz:
 
Percebi que o que eu queria escrever era um romance que tivesse o mesmo sentido épico e mágico de Tolkien, mas cuja história acontecesse naquele ambiente do Oeste, majestoso, absurdo.
 
E assim, pegando dois universos praticamente irredutíveis um ao outro (Tolkien e Sergio Leone), ele construiu o seu próprio épico – que deve a ambos, e não se parece com nenhum.
 
Somente um escritor maduro tem essa capacidade. King não é apenas o fã entusiasmado, desejoso de escrever as histórias que lhe dão prazer como leitor. É um autor. Tem luz própria, e projeto próprio.
 
O saudoso editor Gardner Dozois, da revista Asimov Magazine, disse certa vez numa entrevista à Locus (dezembro 1997, #443):
 
Às vezes o material de um gênero precisa ser reinventado para ser apreciado esteticamente por uma nova geração de leitores. Lembro de ter conversado uma vez com Samuel Delany, e ele disse que em seu romance Nova estava tentando reinventar Alfred Bester e seu The Stars My Destination num formato mais esteticamente apropriado para a sua geração. E anos depois conversei com William Gibson, e ele me disse que o que estava tentando fazer era reinventar The Stars My Destination para a geração dele!
 
Isso mostra o peso que o romance de Bester (um clássico de 1956) teve sobre gerações sucessivas. Merecidamente, aliás – o livro saiu aqui no Brasil pela Brasiliense, com o título de Tigre! Tigre! 


 


Delany estava publicando Nova em 1968, e Gibson começou a publicar sua série de romances cyberpunk em 1984. Estavam imitando Bester? Não. Mas perceberam de onde vinha o impacto de novidade, de maravilhamento e de expansão da consciência que Bester conseguia produzir com seu texto. Entenderam o espírito. Estudaram a técnica. Criaram obras que em nada se assemelham ao livro de Bester – mas que têm um impacto semelhante.
 
Nossas idéias vêm das idéias alheias, mas muitas vezes temos a percepção de que ficamos fãs do livro tal porque o autor fez tais e tais coisas – e essas tais-e-tais-coisas podem ser adaptadas em contextos ou temas muito diferentes. É aí que entra a criatividade de cada um – Stephen King fugiu da fantasia medieval e criou uma fantasia de faroeste.
 
E por falar nisso, quando Alfred Bester escreveu The Stars My Destination, fez uma deliberada adaptação do enredo de O Conde de Monte Cristo (1844), de Alexandre Dumas. O saudoso José Paulo Paes, em sua coletânea de ensaios Gregos e Baianos (Ed. Brasiliense, 1984) faz uma excelente análise, usando o exemplo de Bester, de como essas grandes histórias sempre podem servir de ponto de partida para grandes histórias alheias.