sábado, 18 de junho de 2022

4834) Chico Buarque: "Que Tal Um Samba?" (18.6.2022)



Chico Buarque deu o pontapé inicial de sua nova turnê, que começa pela Paraíba em setembro, com o lançamento online de uma canção inédita, “Que Tal Um Samba?”.
 
Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=1yW77WeLYYc
 
A canção, pelo menos aos meus ouvidos, foge ao padrão costumeiro da canção popular que toca no rádio, o formato A-B-refrão-C, ou parecido. Não me soa como uma canção com “primeira parte e segunda parte”. É antes uma canção circular, uma canção carrossel, que desde o início propõe uma sequência de acordes em loop, e em cima deles a melodia e as letras se instalam, e começam a tecer pequenas variantes.
 
A música gira, gira, gira em torno de si mesma, e a cada volta do carrossel exibe um cavalinho novo, uma comparação esperta, uma rima bem lembrada antes de soar o gongo, ou uma síncope que dá molejo a uma estrutura baseada principalmente em cadências de 4 e de 8 sílabas.
 
Falei “circular”, mas seria mais preciso dizer que a estrutura é espiralada. De vez em quando esse círculo girante se eleva e se alarga, admite uma modulação para tom menor, que logo se conclui e retorna à base anterior. É como quando um carro vai numa pista de asfalto, pega à direita num trevo, traça uma volta completa e retorna à reta.
 
Ou como aquele avião de Santos Dumont, que avançava pela terra, aí alçava um voo confiante mas breve, flutuava, e descia para rodar na terra novamente.
 
Essa variante musical vem sucessivamente com os versos:
 
“uma samba pra alegrar o dia...”
“fazer um gol de bicicleta...”
“que tal uma beleza pura...”
 
Mas pelo meu ouvido não chega a constituir uma “segunda parte” propriamente dita. São decolagens melódicas de voo curto. (E em tudo isto não vai nenhum juízo de valor: esse tipo de canção é pra ser assim mesmo.)
 
Isso, pra mim, coloca “Que Tal Um Samba?” na mesma categoria de canções tão diferentes entre si quanto o “Samba da Bênção” (Baden/Vinícius) ou “Águas de Março” (Tom Jobim). São canções riocorrentes, em loop. Cada qual tem seu desenho próprio no interior de uma estrutura que é fechada (pela repetição quase hipnótica) e aberta – porque essa base constante oferece aos instrumentistas um território inesgotável para improvisações descontraídas; e aqui vale tirar a cartola para o bandolim de Hamilton de Holanda e suas filigranas milimétricas.
 
Quanto ao tema... O que dizer de uma canção de um autor como Chico, num momento como o atual? É uma canção convidando a sacudir a poeira e dar volta por cima.
 
Poeticamente, o que mais me atraiu foi essa célula fundamental da canção, esse quase intraduzivel “Que tal?...”, tão coloquial, tão brasileiramente intimo e igualitário. Equivale a um convite com uma cotovelada leve nas costelas do amigo, ou uma puxadinha carinhosa no braço da namorada. É um “ – Bora lá?...”, é um “ – Tás a fim?...”, uma sugestão sem compromisso mas focada, um indicador tocando o cardápio, um palpite feliz.
 
Acho que não serei o único a quem esta canção lançada ontem lembrou um pequeno clássico do primeiro LP de Chico, aquele que eu comprei na Olacanti aos dezesseis anos, talvez por dezesseis cruzeiros.
 
“Tem Mais Samba” era uma das músicas que não tocavam no rádio, ao contrário das minhas preferidas (“Olê, Olá” e “Pedro Pedreiro”). Ela é o que eu chamo de canção-manifesto, canções que se dirigem ao ouvinte para explicar-lhe a essência e o espírito de um gênero musical. Exemplos óbvios são os clássicos de Luiz Gonzaga “Baião” (com Humberto Teixeira) e “Imbalança” (com Zé Dantas), ou o “Rock and Roll Music” de Chuck Berry.  
 
Nessa canção o jovem Chico, muito circunspecto, como todo jovem talentoso buscando demarcar seu território, e com a segurança dos recém-convertidos, afirma:
 
Tem mais samba no encontro que na espera;
tem mais samba a maldade que a ferida;
tem mais samba no porto que na vela;
tem mais samba o perdão que a despedida...
 
Eu, que naquele tempo era ainda mais jovem do que ele, ficava matutando sobre estas inequações e pensava que de acordo com o soprar do vento cada formulação dessas podia muito bem ser invertida, sem perda filosófica alguma.
 
E agora o Chico septuagenário emerge com outro samba-manifesto. Menos sentencioso, menos taxativo... Agora é o Chico risonho da capa do disco, curtido, calejado, descontraído, que mesmo em tempos sombrios se limita a nos piscar o olho e a dizer: “Que tal?...”


 
************** 
 

QUE TAL UM SAMBA? (Chico Buarque)

  

Um samba,

que tal um samba?

Puxar um samba, que tal?

Para espantar o tempo feio,

para remediar o estrago...

que tal um trago?

Um desafogo, um devaneio?

Um samba pra alegrar o dia

pra zerar o jogo

coração pegando fogo

e cabeça fria;

um samba com categoria, com calma,

cair no mar, lavar a alma

tomar um banho de sal grosso, que tal?

Sair do fundo do poço,

andar de boa

ver um batuque lá no cais do Valongo

dançar o jongo lá na Pedra do Sal

entrar na roda da Gamboa...

Fazer um gol de bicicleta

dar de goleada

deitar na cama da amada

despertar poeta;

achar a rima que completa o estribilho...

Fazer um filho, que tal?

Pra ver crescer, criar um filho

num bom lugar, numa cidade legal,

um filho com a pele escura

com formosura

bem brasileiro, que tal?

Não com dinheiro,

mas a cultura...

Que tal uma beleza pura

no fim da borrasca?

Já depois de criar casca

e perder a ternura

depois de muita bola fora da meta

de novo com a coluna ereta, que tal?

Juntar os cacos, ir à luta,

manter o rumo e a cadência,

esconjurar a ignorância, que tal?

Desmantelar a força bruta,

então que tal puxar um samba

puxar um samba legal

puxar um samba porreta

depois de tanta mutreta

depois de tanta cascata

depois de tanta derrota

depois de tanta demência

e de uma dor filha da puta, que tal?

Puxar um samba,

que tal um samba?

Um samba...

 

 

quarta-feira, 15 de junho de 2022

4833) Primeiras Estórias: "Luas de Mel" (15.6.2022)



O décimo-quinto conto das Primeiras Estórias (1962) de Guimarães Rosa é uma celebração discreta ao tema do “Make Love, Not War”.
 
Joaquim Norberto é um fazendeiro idoso, ao que tudo indica um ex-jagunço, aposentado das valentias, acomodado no ramerrão da boa vida de comer e fazer a digestão na rede. Ele diz ter tido uma mocidade de “desmandos, desordens e despraças”. E agora, na fase grisalha, ocupa-se em “reconciliar, recatar e recompor”.
 
Um dia, desembarca na fazenda dele um casal de jovens, sob a proteção de um chefão rural, Seo Seotaziano, com um bilhete e o pedido para que sejam abrigados ali. O rapaz “roubou a moça pra casar”, e provavelmente os dois serão perseguidos pelos capangas do pai dela.
 
Joaquim Norberto pula da rede e toma providências, saindo “dos suspensos para os preparos”. O casal é rapidamente posto em quartos separados, e fica sob paternal vigilância. O fazendeiro arregimenta homens de armas das redondezas, além dos que já mantinha, para a hipótese de cerco e tiroteio. É uma pequena Tróia sertaneja que se esboça.
 
Passam-se dois, três dias. Chega um emissário da família da moça, que cedeu à realidade e se propõe a levar de volta os dois – que já se casaram, ali mesmo, com padre e testemunhas. E assim se vão em paz os jovens nubentes, rumo ao enfim-sós, por entre renques de homens armados de carabinas.



É uma historieta simples, sem nada de mais, e aborda um tema que não é apenas sertanejo, é nordestino e talvez brasileiro: o casal de namorados que querem viver juntos, enfrentam a resistência das famílias, e acabam fugindo para forçar o casório. Vários amigos meus casaram nesse sistema, e não foi na época em que o conto é ambientado, foi nos anos 1960.
 
Em “Luas de Mel”, o plural indica a importância dos dois casais: os jovens fugidos, e o casal de meia idade da fazenda que os acolhe: o narrador Joaquim Norberto e sua esposa Sa-Maria Andreza. A obrigação de atender um pedido do chefão protetor daquela região, Seo Seotaziano, põe em polvorosa a fazenda que andava na modorra, na rotina, na pisada vagarosa do nada-acontece. Dá uma sacudida na vida deles.
 
De um momento para outro, forma-se a defesa, mobilizam-se os pistoleiros, mensageiros são mandados às pressas para alertar os vizinhos. A fazenda Santa-Cruz-da-Onça começa a se pintar para guerra. Isso acaba elevando não apenas a temperatura bélica, mas a amorosa. Joaquim Norberto rejuvenesce, restaura as antigas forças. E, passo a passo, ele vai mudando a maneira de se referir à esposa.


Mary L. Daniel (em João Guimarães Rosa: Travessia Literária, Ed. José Olympio, 1968, pág. 158) faz a divertida enumeração dos sucessivos tratamentos que Joaquim Norberto dispensa à esposa, saboreando seu nome com lúdica formalidade (as indicações de página correspondem à primeira e à terceira edição):
 
“Sa-Maria Andreza, minha santa e meio passada mulher...” (PE, 106)
“Sa-Maria Andreza, minha correta mulher...” (PE, 107)
“Sa-Maria Andreza, minha mulher...” (PE, 108)
“Sa-Maria Andreza, minha conservada mulher...” (PE
“Sa-Maria Andreza, mulher...”
“Sa-Maria Andreza, minha...”
“Minha Sa-Maria Andreza...” (PE, 109)
“...minha sadia Sa-Maria Andreza – contemplada” (PE, 110)
“... Sa-Maria Andreza, mulher minha”
“Minha Sa-Maria Andreza, mulher...”
“Sa-Maria minha Andreza... (PE, 110-111)
“...Sa-Maria querida Andreza.” (PE, 112)
 
A gente nota assim o reaquecimento gradual das atrações pretéritas. No primeiro exemplo de todos, quando o casal ainda está na prateleira do descanso, incide o termo “meio passada”, que hoje seria considerado altamente pejorativo (lembrando até o chocarreiro “mulher rodada”). Por outro lado, a descrição que o fazendeiro faz de si mesmo é bonachona, mas nem um pouco elogiosa:
 
Por moleza do calor é que eu ficava a observar. Nesse dia, nada vezes nada. De enfastiado e sem-graça, é que eu comia demais. Do almoço, empós, me remitia, em rede, em quarto. Questão de idade, digestões e saúde: fígado. Sa-Maria Andreza, minha santa e meio passada mulher, ia ferver um chá, já, para o meu empacho. (pág. 106)
 
Joaquim Norberto é um líder rural intermediário. Ele afirma: “De pobre não me sujo, de rico não me emporcalho.” É dono de força própria, capaz de arregimentar combatentes leais, mas visivelmente submisso a Seo Seotaziano. Em cujo nome, aliás, a repetição do título (Seo = Seu = Senhor) é um reforço do respeito: o tratamento se incorpora ao nome (“Taziano”, “Taciano”) mas depois precisa ser restaurado diante do prenome modificado. E guarda a mesma função duplicadora, meio afetiva, de quando dizemos “Minha Nossa Senhora”.
 
Já vi vendedor na praia chamando um gringo: “Ô, seu míster!...”
 
E de repente desembarca ali o casal de jovens, apadrinhado e acobertado pelo mandachuva. O episódio é clássico, e a mim me lembra um dos “Mistérios” mais bonitos do “Retábulo de Santa Joana Carolina”, de Osman Lins (em Nove, Novena), em que a matriarca, sozinha, encara e peita um destacamento de jagunços que veio arrastar de volta um casal de jovens fugidos.
 
Proteger o amor alheio é proteger o amor. Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza se redescobrem durante aqueles poucos dias de tensão na fazenda, enquanto esperam de uma hora para outra uma invasão para tentar resgatar a moça.
 
A excitação do perigo:
 
“Homens comendo em pé, o prato na mão; alerta o ouvido. A gente, risonhos de guerra, a qualquer conta.” (pág. 111)
 
O chega-mais da valentia guerreira:
 
“—Ah, minha velha, vamos tocar rabecas...” – gracejei, limpando a parabélum. Sa-Maria Andreza, boa companheira, só disse, abanando os topes: “Aroeira de mato virgem não alisa...” Peguei na mão dela, meio afetuoso. Repensei em todas as minhas armas. Ai, ai, a longe mocidade. (pág. 108)
 
O reaquecimento da cumplicidade física:
 
Eu, feliz, olhei minha Sa-Maria Andreza; fogo de amor, verbigrácia. Mão na mão, eu lhe dizendo – na outra o rifle empunhado-: “Vamos dormir abraçados...”  As coisas que estão para a aurora, são antes à noite confiadas. Bom. Adormecemos.
Amanheci fora de horas, me nascendo dos conchegos. (pág. 111)
 
Outro aspecto interessante do conto é a convivência política entre poderes colaterais – senhores de terras com propriedades adjacentes, ou próximas o bastante para permitir o confronto de tropas rapidamente convocadas. A chegada do casal na fazenda Santa-Cruz-da-Onça leva Joaquim Norberto a se valer das tropas dos vizinhos:
 
Gente minha já galopava, nessa noite e madrugada. Um próprio à Fazenda Congonha, do meu compadre Veríssimo, por três rifles, três homens, emprestados. Pelo seguro. Povo de lá é de brasas. E um à Lagoa-dos-Cavalos, por outros três – para o meu compadre Serejério não se dar de melindrado. Bem. Eu tiro os outros por mim. (pág. 108)
 
Isso traz à mente a interpretação do Grande Sertão: Veredas de Willi Bolle (no livro grandesertão.br, Ed. Duas Cidades / 7Letras, 2004).
 
Ele vê o Riobaldo que conta a história como alguém que fez carreira dentro do sistema jagunço, e de empregado tornou-se patrão, fazendeiro estabelecido (tendo herdado as terras do seu pai biológico). Ele implanta ao seu redor, nas vizinhanças, pequenas propriedades doadas aos seus ex-companheiros de aventuras, homens de inteira confiança. E vive em paz com sua Otacília.  O Joaquim Norberto de “Luas de Mel” é decerto um personagem assim, vivendo o final-feliz possível para um personagem assim:
 
As passageiras consolações: fazer-de-conta-de-amor, o que era o meu cestinho de carregar água. (pág. 113)
 
  


 
 
 








domingo, 12 de junho de 2022

4832) O espião fantasma (12.6.2022)



 
Um curioso personagem de Alfred Hitchcock, no filme “Intriga Internacional” é o agente secreto Kaplan, com o qual Cary Grant é confundido logo no início da história. Durante grande parte da trama, o inofensivo publicitário Roger Thornhill (Grant) sofre sequestros e tentativas de assassinato por parte de outros espiões. 
 
A certa altura, Thornhill descobre que na verdade ninguém jamais vira o sr. Kaplan. Funcionários de hotéis e de aeroportos falam sobre ele com fluência... mas todos os contatos foram feitos por telefone, telegrama, etc.  Ninguém o viu em pessoa. Suas roupas estão no quarto do hotel, o sabonete foi usado, há caspa no pente... Mas ninguém o viu.
 
Kaplan não existe – é um disfarce criado pelo Serviço Secreto para desviar a atenção dos inimigos. Criou-se todo um universo de documentos falsos, recados, mensagens, fotos, registros... sobre um personagem imaginário. É o mais alto grau de rarefação em termos de falsas identidades. Kaplan é um ser humano puramente conceitual.
 
Já falei aqui (“O partido fantasma”, 2004) sobre esses truques de espiões, e sobre um inventado “partido comunista” holandês, criado pela espionagem ocidental, que durante anos enganou as autoridades da China. O partido inexistente tinha membros-de-carteirinha na Holanda (eles pensavam que o partido era de verdade), publicava jornais, etc.  Parecia de verdade, e com isso os holandeses conseguiram se infiltrar entre os comunistas chineses e descolar aqui e ali alguma informação importante.
 
Veja aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2008/09/0548-o-partido-fantasma-21122004.html
 
Uma nova variante dessas ficções políticas é narrada no bom filme O Soldado que Não Existiu (“Operation Mincemeat”, 2021), dirigido por John Madden, e que está em exibição no Netflix.
 
É uma história real da II Guerra, com uma premissa bem simples. Os Aliados estavam preparando a invasão do litoral sul da Europa, em 1943. Os generais do Eixo sabiam disso, e se preparavam para enfrentar a invasão; mas não sabiam onde ela iria acontecer.
 
Os ingleses queriam conquistar a Sicília, que estava bem defendida; tiveram a idéia de dar pistas falsas indicando que a invasão seria na Grécia, para que as defesas sicilianas fossem transferidas para lá.
 
Como fazer isso? Um grupo de estrategistas da Inteligência, do qual fazia parte o jovem Ian Fleming (criador de James Bond) deu uma sugestão. Os alemães tomariam conhecimento de que um oficial inglês, munido de uma  pasta com documentos secretos, fora descoberto, afogado, numa praia. Examinando os documentos, teriam pistas da suposta “invasão da Grécia”.
 
Começou então o fascinante processo de encontrar um corpo qualquer, muni-lo de roupas, objetos pessoais, fotos, documentos, uma história militar falsa que os espiões do Eixo pudessem consultar... E uma carta pessoal para uma autoridade, mencionado de passagem a suposta invasão da Grécia.
 
Esta é a premissa do filme, com Colin Firth à frente. Na Wikipédia há um bom verbete sobre a “Operação Mincemeat”, nome real do projeto, detalhando o modo como tudo foi concebido e executado. E aqui há um relato interessante (em português):
 
https://pt.worldwar-two.net/eventos/operacao_carne_picada/
 
É um daqueles filmes ingleses sólidos, convencionais, bem dirigidos, sem ousadias narrativas ou especulações históricas, com um bom elenco e algumas liberdades interpretativas – todo filme de guerra precisa ter um triângulo amoroso, por exemplo.
 
Filmes de espionagem nunca perdem a atualidade, ainda mais agora, quando todo mundo começa a se aperceber da existência de “fake news”, verdades cuidadosamente inventadas, construídas, impostas a um público crédulo ou desprevenido.
 
“Fake news” sempre existiram onde existiu imprensa. Walnice Nogueira Galvão, numa palestra na Flip, lembrou que na época da Guerra de Canudos, a imprensa brasileira estava cheia de notícias dizendo que o exército precisava exterminar logo os fanáticos, porque na costa brasileira havia navios com tropas monarquistas prontas para desembarcar e restaurar a monarquia, caso o Conselheiro triunfasse.
 
O Soldado Que Não Existiu mostra, no contexto de espionagem de guerra, a cuidadosa preparação de uma “notícia falsa” para passar informações errôneas ao inimigo. O fictício Capitão William Martin (nome atribuído ao cadáver do mendigo Glyndwr Michael) tem currículo militar completo, traz na pasta e nos bolsos uma porção de objetos miúdos que os membros da Inteligência britânica discutem exaustivamente – até porque seus superiores no gabinete de guerra duvidam que um plano tão mirabolante dê certo.
 
 
 





quinta-feira, 9 de junho de 2022

4831) Essa palavra existe (9.6.2022)


Toda vez que eu digo uma palavra inventada, as pessoas estranham. Falo, por exemplo: “Que comida feia a desse prato, eu é que não vou comer essas grangranhas.”  E alguém pergunta: “Mas, essa palavra existe?”
 
Claro que ela sabe que existe, pois acabou de ouvi-la. O que a pessoa pergunta, na verdade, é se a palavra é oficialmente reconhecida. Se está nos dicionários, por exemplo. E, principalmente, a pessoa pergunta (bem baixinho): “Se eu disser essa palava, alguém pode dizer que eu estou falando errado? Que eu não me alfabetizei? Que eu sou pobre?...”
 
É essa a preocupação.
 
Somos um país cartorial, como dizem alguns analistas e historiadores. Um país burocratizado, onde o Poder se exerce através de documentos: escrituras de terra, testamentos, acordos políticos, ordens de prisão, contratos financeiros... O documento é a instância mais importante da existência, e o que não pode ser confirmado por um documento não existe.
 
Vai daí que uma palavra não-dicionarizada é como uma pessoa que nunca tirou certidão de nascimento ou carteira de identidade, e oficialmente não existe. De nada adianta provar que é de carne e osso. Existe um Brasil mais elevado, que depende do país de carne e osso, mas que o transcende: um Brasil feito de papel e tinta. Ou, mais modernamente, de silício e pixels eletrônicos.
 
“Grangranha”, por exemplo, era uma coisa que meu pai dizia nesse contexto acima. Uma comida pouco apetitosa, geralmente de má aparência. Tem no dicionário? Não sei, e não ligo. Só ouvi essa palavra lá em casa. Não posso dizer que é uma expressão paraibana: talvez nem os nossos vizinhos na rua do Alto Branco a conhecessem. Mas para nós, existia, sim.
 
As palavras brotam desse jeito, inventadamente, improvisadamente, brincalhonamente, impacientemente. A pessoa quer exprimir uma idéia, mas as palavras oficiais não lhe servem nessa hora, porque são muito domesticadas, ou muito sofisticadas... Ele precisa de uma coisa mais forte, que exprima de maneira mais direta o que quer dizer, e que além disso dê um pequeno susto no ouvinte.
 
Darcy Ribeiro usava muito a palavra fazimento: o ato, o processo de fazer alguma coisa. Em inglês se diz “the making”. Ele fala do fazimento das leis, o fazimento do povo brasileiro... Muita gente acha que a palavra é canhestra, desajeitada. Não importa. Em seu lugar teríamos o quê? “Confecção”, “feitura”, “criação”, “produção”... Palavras sem muita força e pouco claras, porque têm conexões fortes com outros contextos e outros significados. Darcy se impacientava, e tascava fazimento
 
É a palavra ideal para exprimir essa idéia? Talvez não, mas é uma palavra que existe. Ninguém é obrigado a usar. Ninguém é proibido de usar.
 
O lado burlesco da política recente trouxe duas contribuições interessantes: “motociata” e “lanchaciata”. Esta última parece o nome de uma grangranha feita na Itália, mas corresponde a uma passeata de lanchas (e a outra a uma passeata de motos).
 
Isso mostra como o processo de invenção de palavras é insubordinado, desregrado, não dá ouvidos à gramática nem à etimologia (nem ao bom gosto), cria-se por mera associação ou derivação. “Passeata” vem de passos, os passos que damos com as pernas quando passeamos. Depois dele veio “carreata”, que mantém uma certa simetria e não precisa de muitas explicações. Quando surgiu “motociata” o problema ficou maior, até porque deveria se escrever talvez “motosseata”, para indicar de onde vinha, mas esses dois “SS”, que vêm de “passo”, já não tinham razão de ser; e “lanchaciata” já soa como galhofa. O problema é se inventarem um desfile coletivo de homens de negócios, porque nesse caso a imprensa vai ter que chamar de “negociata”.
 
E repito: são as palavras ideais para exprimir essas idéias? Talvez não, mas são palavras que existem. Ninguém é obrigado a usar. Ninguém é proibido de usar.
 
Expressões recentes como “mandar um zap” e “maratonar” não precisam de muita explicação, a não ser para aqueles que não costumam usar o WhatsApp e não costumam ver vários episódios seguidos de uma série. As palavras novas são inventadas em contextos onde rapidamente são compreendidas – é o mesmo processo da formação das gírias. Com o uso constante, acabam escapando para o mundo de fora, o nosso, que ouvimos aquilo pela primeira vez quando em alguns grupos já é coisa velha.
 
Uma vez eu estava trabalhando numa pesquisa e uma moça numa fábrica se referiu a alguma coisa relativa ao “instrutor” dela, que ajudou a prepará-la quando ela assumiu a função. E explicou: “Sabe o que é instrutor, né? É a pessoa que explica pra gente a instrutura do serviço.”
 
A linguagem não sofre erosão, com essas interferências. Sofre mutação genética. Não diminui: cresce. Não é um edifício, é um organismo. Podemos inventar um milhão de palavras por dia, e 99% delas sumirão na poeira sem ter merecido uma repetição sequer. Só fica o que “pega”. Só pega o que tem o mesmo DNA, o que não é rejeitado.
 
E outra – a língua brasileira não é a mesma em todo canto. Uma palavra nova pode ser facilmente aceita no Nordeste e parecer sempre estranha a ouvidos sulistas. Numa cidade como São Paulo, deve haver todo um glossário de jovens da Freguesia do Ó que jovens de Pinheiros não terão interesse em assimilar, e vice-versa.
 
O melhor de inventar palavras é quando ela surge como um improviso no meio de uma fala, como a do paciente de manicômio capaz de confessar ao jovem médico Guimarães Rosa que estava enxergando “umas pirilâmpsias”. Poesia pura.
 







segunda-feira, 6 de junho de 2022

4830) "Outer Range": as famílias karamazovianas (6.6.2022)



Entre as muitas obras-primas que nunca li, mas que às vezes é como se tivesse lido, está Os Irmãos Karamazov (1880) de Fédor Dostoiévski. É a história de um patriarca russo com três filhos, e da relação tensa e explosiva entre todos eles. Uma história que envolve patriarcado, política, homicídio, religião, poder.
 
Além da Margem (“Outer Range” 2022) é uma série de TV em exibição no Amazon Prime, criada por Brian Watkins e tendo no elenco Josh Brolin, Imogen Poots, Lili Taylor e outros. O canal de streaming já pôs no ar a primeira temporada completa, com oito capítulos.
 
É um faroeste de ficção científica, porque conta da descoberta de um portal de viagens no Tempo, localizado num terreno em disputa por duas famílias da rancheiros, os Abbott e os Tillerson. A ambientação é no Wyoming (com belas paisagens), e é explicitamente agro-pop. Há um Tillerson que quer ser cantor sertanejo, há um Abbott que quer ser peão de rodeio.
 
Como tantas outras tocas de coelho da ficção fantástica, o “buraco” descoberto na fazenda (um círculo escuro no meio da pastagem, com uns 10 metros de diâmetro, sem fundo visível) é um portal onde se entra sem saber onde se vai sair – ou quando. Tematicamente está conectado a portais semelhantes em Dark (série alemã) e em Night Sky (que comentei aqui, dias atrás: https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/05/4828-night-sky-fc-da-terceira-idade.html .
 
Em alguns momentos, a descoberta do “buraco” e da massa escura que mina lá de dentro parece uma metáfora da descoberta do petróleo, este combustível que arruinou de forma indelével o equilíbrio biológico do planeta. Um portal para um futuro de fortunas espantosas e devastação cruel.
 
A briga dos Tillerson contra os Abbott lembra a briga de vizinhos em Giant (“Assim Caminha a Humanidade”, 1956) de George Stevens – a tensão entre Jett Rink, que fica milionário com o petróleo, e Bick Benedict, que quer continuar criando gado.  Lembra também outro faroeste moderno, Hud (“O Indomado”, 1963) de Martin Ritt, onde um velho fazendeiro criador de gado é confrontado pelo filho ambicioso e sem escrúpulos. (Comentei aqui: https://mundofantasmo.blogspot.com/2021/03/4680-crise-e-sinonimo-de-lucro-422021.html .
 
O Oeste é um campo de batalha histórico entre agricultores, criadores de gado, prospectadores de petróleo. Outer Range sugere um salto a mais, um salto futurista, introduzindo uma quarta força econômica: os portais do tempo (de cuja exploração futurista temos um breve vislumbre no Episódio 2).


Outer Range é acima de tudo uma história sobre poder, mas um poder desconjuntado, virado de pernas para o ar, onde famílias tradicionais sofrem uma erosão a olhos vistos (a imagem da mesa de jantar dos Abbott é recorrente). Onde o caos da modernização capitalista explode em pororoca contra o imobilismo das velhas fazendas. A autoridade local é uma xerife índia e lésbica; há um bar de heavy-metal onde homens de chapéu de cowboy pulam e dançam enlouquecidos; a esposa Abbott é uma matriarca severa e leal, e a esposa Tillerson é uma perua calejada e ambiciosa, que vive em estações de esqui. O Wyoming onde vive esse povo é um sertão sem Deus.
 
E assim voltamos ao conceito de família karamazoviana, porque todas essas famílias giram em torno de um patriarca que filosoficamente deveria servir de modelo moral, mas acaba sendo um problema a mais, um baú-trancado repleto de remorsos com mau cheiro. Daí que o protagonista da história toda seja Royal Abbott (nome que é uma dupla evocação de autoridade), interpretado pelo ótimo Josh Brolin (de Onde os Fracos Não Têm Vez). Royal tem dois filhos (Perry e Rhett) que não podiam ser mais diferentes – e atormentados, cada qual à sua maneira.
 
Tudo nessa família tão severa é baseado na mentira e na enganação, porque todos mentem uns aos outros sob o pretexto de proteger-se mutuamente. Só quem tem coragem de reclamar disso abertamente é a pequena Amy, a filhinha de Perry.


Os Tillerson estão em outro patamar (financeiro e conflitante) em relação aos Abbott. O patriarca, também muito bem interpretado por Will Patton, é um sujeito voraz, obcecado, fora dos gonzos, imprevisível. Os três filhos (Luke, Trevor e Billy) têm entre si uma rivalidade quase tão grande quanto a que alimentam com os dois filhos da família Abbott (Perry e Rhett). As duas fazendas parecem edificadas não sobre um campo de petróleo, mas sobre um barril de pólvora.
 
Como em qualquer série que pretende ficar no ar por alguns anos, os mistérios de Outer Range são desvelados pouco a pouco, e nesta primeira temporada convergem para um desfecho provisório. Há manadas de búfalos que emergem não se sabe de onde para atropelar as pradarias; há menção ao desaparecimento de montanhas, e ao avistamento de mastodontes, que não se sabe se são relatos verdadeiros ou “tall tales” típicos do Oeste. Há filhotes de urso feridos e indefesos que rapidamente se transformam num urso adulto e ameaçador.
 
É como se o próprio tecido do espaço-tempo estivesse se esgarçando, e encaramos isso como essas famílias rurais encaram o esgarçamento do tecido familiar. Pessoas sentam-se à mesa para a ceia, e alguém improvisa uma prece dizendo que não acredita em Deus. Um peão de boiadeiro ganha o primeiro lugar num rodeio e ao olhar para a arquibancada vê vazio o local da sua família. Uma mulher com revólver no cinto e distintivo no peito precisa se impor diante de uma população de homens agressivos usando algo que não seja apenas a arma e a estrela.


O mundo do faroeste, heróico e cavalariano (para usar um termo de Ariano Suassuna) foi criado e depois sabotado pelo cinema do século 20 ao longo de todo o século 20, quando se transformou no “cinema americano por excelência”. Logo foi invadido (como nos filmes citados acima) por automóveis, torres de petróleo, metralhadoras, máquinas fotográficas ou de escrever... E agora está sendo invadido por portais de teleporte.








sábado, 4 de junho de 2022

4829) Os reis do dinheiro (3.6.2022)



(Elon Musk)

Uma contradição permanente das democracias é que o poder vem nominalmente do povo, através do voto em representantes (no Executivo e no Legislativo), mas este é praticamente o único poder que o Povo tem. O melancólico poder de olhar uma lista que lhe fornecem e dizer: “Prefiro essa pessoa aqui.”
 
Porque poder econômico, o que de fato mexe as engrenagens do mundo, o cidadão comum (eu por exemplo) não tem nenhum. A façanha-de-super-herói dele é estar com os boletos em dia, sem dever a ninguém, e ter um extra para a cerveja no bar da esquina. 
 
E aí entram em cena os bilionários, essa casta de Super Heróis (ou Super Vilôes, conforme o ponto de vista) que hoje em dia é capaz de tudo. São muitos. Copio, do verbete da Wikipedia:
 
Em 2018, existem 2.200 bilionários (em dólar) no mundo inteiro, com uma soma de riquezas de mais de 9 trilhões, mais do que os 7 trilhões que possuíam em 2017. De acordo com um relatório de 2017 da Oxfam, os oito bilionários mais ricos possuem uma soma equivalente à das posses da metade mais pobre da humanidade.
 
E em 2019 surgiram 19 novos bilionários no mundo!




(Cory Doctorow)

O escritor Cory Doctorow publicou um texto recente em que ele questiona o modo como as democracias contemporâneas permitem essa concentração de riquezas. Ele faz uma comparação com as monarquias absolutistas, onde todo o dinheiro arrecadado ia para a família do rei, e o rei, por ser representante de Deus na Terra, podia fazer o que lhe desse na telha. Um dia, era deposto por um inimigo – que passava a ocupar seu posto e a fazer mais ou menos o que ele fazia antes.
 
Diz Doctorow:
 
Como disse o senador John Sherman ao Congresso, quando se esforçava para fazer aprovar sua histórica lei anti-truste em 1890: “Se não aceitamos um Rei como um poder político, não devemos aceitar um Rei como possuidor da produção, transporte e comercialização dos bens necessários à vida. (...) Se não nos submetemos à vontade de um imperador, não devemos nos submeter à vontade de um autocrata do comércio.”
 
A verdade é que esses indivíduos (como Bill Gates, Jeff Bezos, Elon Musk e outros) têm hoje um poder que deixa no chinelo monarcas como Luís XIV ou o Rei Leopoldo da Bélgica (aquele que foi dono do Congo e tornou-se um dos homens mais ricos da história). E esse poder não é apenas o do dinheiro. É também o do comando financeiro de tecnologias que podem ter na vida humana um impacto inimaginável no século 19.
 
A república continua a ser um sonho, uma miragem distante, mesmo na Europa e na América. Uma ficção coletiva que nos leva a votar de ano em ano. Vivemos sob monarquias. Se não as do sangue e das casas reais, a do dinheiro, do neo-liberalismo econômico, e da mitologia midiática. Assim como os reis de antigamente diziam ser os representantes de Deus na Terra (e sendo assim tudo que faziam estava certo) os bilionários de hoje são os nossos representantes. “Todo poder emana do povo, e em seu nome será exercido” – pelos bilionários, e em seu proveito próprio.


(Werner Herzog)

Numa entrevista recente ao The New Yorker, o cineasta Werner Herzog ironizou essa nossa fascinação pelos bilionários.
 
https://www.newyorker.com/culture/the-new-yorker-interview/werner-herzog-has-never-liked-introspection
 
[A corrida espacial dos bilionários] é uma competição movida a testosterona. Um indivíduo que se destaca nela é Elon Musk, porque constrói foguetes re-utilizáveis, o que é uma coisa bacana e muito nobre, mas ao mesmo tempo a sua idéia de levar um milhão de pessoas para colonizar Marte é uma obscenidade. Devíamos cuidar do nosso planeta, em vez de tentar tornar viável um planeta inóspito. Não é preciso ser cientista para perceber que colônias em Marte são um projeto sem futuro. Quanto a essa disputa dele com Bezos e outros bilionários, acho que é uma estratégia de marketing. Dá a ele o rótulo de – e estou dizendo isto entre aspas, ponha uma porção de aspas antes e depois – “visionário”. Ou seja: se você for comprar um carro elétrico, não compre dos alemães, não compre dos chineses, compre do “visionário”.
 (trad. BT)
 
Eu nem sou tão velho assim, mas me lembro de um tempo em que quando se queria dizer que um sujeito era rico dizia-se que ele morava “numa mansão” e “andava de Cadilaque”. O nível de enriquecimento a que se chegou nas últimas quatro décadas é algo que supera qualquer proeza imaginativa anterior. E o mais curioso é que se você fizer uma pesquisa no Brasil vai ver que a maioria das pessoas admira Jeff Bezos, Bill Gates, Elon Musk, etc. Por que? Ora, porque todo brasileiro acha que tem chances de virar bilionário um dia. Então, ele já vai falando bem do clube a partir de agora.
 
Por que motivo nos identificamos com os Imperadores do Dinheiro, numa república, numa democracia? Talvez porque a economia ainda esteja sujeita ao que Cory Doctorow citou acima: é um espaço onde ainda se podem realizar os sonhos de absolutismo, de poder total, um poder que não precise ser repassado de 4 em 4 anos para um oportunista qualquer, um antagonista qualquer.
 
Mesmo que Elon Musk seja filho de um dono de minas de esmeralda, os norte-americanos médios (e até os brasileiros médios) conseguem ver nele um “homem que fez a si próprio”, um meritocrata, que ficou bilionário por uma mistura de talento, esforço, e fé. Quem acha que tem essas três coisas, acha que pode juntar uma fortuna semelhante.
 
As antigas tragédias clássicas (desde as gregas até as elisabetanas) se concentravam nos reis porque eles eram o símbolo do povo. Rei triunfante, povo vencedor. Rei alquebrado, povo enfraquecido.
 
Nossos “reis do dinheiro” cumprem um papel parecido, com um detalhe diferente. Eles não foram empossados no trono por desígnio divino. Eles se elevaram da multidão informe e sem rosto, e se tornaram super-homens, dotados de um super-poder. É o mesmo sonho dos garotos pobres que graças à música popular ou ao esporte se tornam milionários – só que um sonho elevado a uma potência maior.
 
É o garoto que nasce nos Alagados, Trenchtown, Favela da Maré. Ele tem todo o direito de sonhar em ser um Neymar ou um Michael Jackson. Tornar-se bilionário como Musk ou Bezos é “outro patamar”, mas o direito ao sonho é o mesmo. Eles são vistos como visionários (como disse Herzog), e é esse o seu carisma: transformam cada um de nós num visionário, num cara que “acredita”. 




segunda-feira, 30 de maio de 2022

4828) "Night Sky": a FC da terceira idade (30.5.2022)


 

Na ficção científica tudo se cria, na medida em que tudo se transforma. E toda vez que utilizamos a tradição – temas que já existem, situações já exploradas, ambientes já descritos – nosso dever e nosso desafio é fazer com que essa parte da nossa história, a parte tradicional, familiar, já-conhecida, seja a parte menos relevante. A parte mais interessante tem que ser o que o autor traz de novo, de seu, de único, de peculiar – mesmo que seja apenas a receita na recombinação dos elementos antigos, como faz um chef de cozinha.
 
Na culinária, como na arte da narrativa, é meio raro alguém inventar um ingrediente. Tudo está na recombinação, naquela mistura única entre uma dúzia de ingredientes, entre um milhão de combinações possíveis. E no estilo de cada um, a “mão” da cozinheira.
 
O seriado Anos Luz (“Night Sky”, 2021) está com sua primeira temporada em streaming no Amazon Prime. Concebida e coordenada por Holden Miller, a série é uma agradável recombinação de temas antigos e recentes. Vou citar os que me vieram à mente enquanto assistia; outros espectadores, claro, terão lembrado de outras referências.
 
Way Station (1963) é um romance de Clifford D. Simak, um dos clássicos da FC de sua época. Nele, um fazendeiro solitário e discreto mantém num subsolo em sua fazenda um portal que dá acesso a outros planetas. Por esse portal trafegam criaturas de espécies diferentes, para as quais ele trabalha, servindo como uma espécie de hoteleiro, guia, quebrador-de-galhos. É uma “estação de trânsito”, como diz o título que o livro teve em português, para quem viaja pelo espaço.
 
Dark (2017-2020) é uma série de TV alemã, criada por Baran bo Odar e Jantje Friese. Numa cidadezinha alemã algumas pessoas descobrem portais subterrâneos que dão acesso a outras épocas, recentes ou remotas. Isso desencadeia fugas, crimes, tragédias, desaparecimentos, etc., e revela a existência de uma sociedade secreta de “guardiões” do segredo da viagem no tempo. Uma gente bastante implacável.
 
The Lost Room (2006, Canal Syfy), série de TV criada por Christopher Leone. Um quarto de motel, vítima de um evento físico inexplicável, é transportado para outro plano do espaço-tempo. Objetos associados a ele passam a produzir efeitos sobrenaturais e são buscados com avidez por colecionadores, pesquisadores e gangsters, que não hesitam diante de nada para obtê-los.
 
Elementos cruciais dessas três narrativas estão misturados em Night Sky, cuja história é centrada num casal setentão, J. K. Simmons (“Juno”, “Whiplash”) e Sissy Spacek (“Carrie, a Estranha”, “Missing”, “Coal Miner’s Daughter”), numa cidadezinha de Illinois. Os dois estão casados há uns 50 anos, perderam um filho único, têm uma neta. No primeiro episódio da série acompanhamos seu dia-a-dia carinhoso e às vezes áspero (por causa dele, principalmente), onde o maior medo parece ser a invalidez, ou o Alzheimer.


Num barracão nos fundos da casa ele encontraram anos atrás um bunker subterrâneo de onde é possível acessar uma espécie de mirante que dá para um planeta desconhecido. É o segredo deles. O “segredo”, como se vê, é de domínio público, no que diz respeito aos roteiristas e dramaturgos. Portais subterrâneos que proporcionam viagens no espaço ou no tempo não são mais propriedade intelectual de ninguém. E justamente por não sê-lo, não é neles que a história precisa se concentrar, a menos que disponha de uma super-idéia inovadora – o que é raro. O que interessa a quem escreve e a quem assiste é o reflexo daquilo na vida das pessoas ao redor.
 
Farnsworth, a cidadezinha onde tudo acontece, é um ambiente ideal para os autores desenrolarem sua trama, que tem de tudo: problemas conjugais de casal velho, problemas conjugais de casal jovem, relação entre filhos e pais, entre avós e netos, entre mãe solteira e filha única, entre ex-professores e ex-alunos... No meio da dinâmica inesgotável de tais situações, Night Sky constrói uma narrativa que avança a passos lentos.
 
Muitos críticos se queixaram do ritmo arrastado da série: eu achei uma bênção. As séries de FC atuais têm mais “Ação & Aventura” do que FC, e querem ganhar o público pelo excesso de efeitos, velocidade da narrativa, brutalidade das situações, espetacularidade dos desfechos. No primeiro episódio já ocorrem cinco assassinatos, quatro explosões, dois estupros, três perseguições de carro e uma sessão de tortura.
 
Night Sky não tem nada disso – nos oito episódios da primeira temporada, lembro de ter visto um assassinato e alguns tiroteios apenas. Há violência, tensão e ameaça, contudo: no avançar da história tomamos conhecimento de que, tal como em Dark, existe uma irmandade secreta, cruel, autoritária e impiedosa, monitorando quem viaja (e quem foge) através daqueles portais. Esses fugitivos são os “apóstatas”, que mesmo escapando para o outro lado do mundo sabem que podem ser alcançados cedo ou tarde por agentes vingadores – tal como ocorreu com Trotsky no México, Somoza no Paraguai ou Orlando Letelier nos EUA.  



 
A série tem o suspense necessário para atrair a atenção dos que gostam do melodrama de perseguição, mas é no troco miúdo dos desencontros cotidianos que ela ganha densidade e o ritmo arrastado fica imperceptível. Já observei que uma cena longa, parada, onde “nada acontece”, onde um personagem está apenas fumando um cigarro e olhando pela janela, ou duas pessoas estão em silêncio numa mesa de restaurante, ganha densidade se àquela altura a gente sabe quem são elas, o que sentem, o que pensam, e o que deve estar acontecendo na cabeça delas naquele instante. Quando o espectador não se interessa por isso, ou não desenvolveu esse tipo de “psicografia” (ficar adivinhando o que o personagem pensa), a cena não tem graça nenhuma. Cabe ao escritor/diretor evitar que isto aconteça.
 
Night Sky – que tem no Brasil o título de Anos Luz – deixou mais perguntas do que respostas no fim desta primeira temporada, o que é uma boa coisa. A base do seu “visgo” é sem dúvida o casal idoso de protagonistas, suas gentilezas, suas distâncias, seus carinhos, suas amarguras, suas cumplicidades ritualizadas ao longo dos anos e, ao longo dos episódios, as mentiras, os segredos, os fatos escondidos “para não magoar o outro”, “para não assustar o outro”.
 
Este último aspecto se reflete com mais força em um dos núcleos narrativos secundários, o das duas mulheres argentinas que cuidam de um dos portais secretos: a mãe, que sabe de tudo, e a filha de 15 anos, protegida do segredo, uma garota esperta, inquieta, revoltada com a solidão em que vive (a mãe a proíbe de ter amigos), revoltada com a quantidade de vezes em que ouve variantes de “você ainda não está pronta para saber a resposta”.  
 
Tal como em outra série que comentei aqui recentemente, Severance, a narrativa desta primeira temporada começa lenta, expositiva, desvelando pouco a pouco as complicações do enredo, e ganha uma acelerada nos três últimos episódios.
 
Dark, a série alemã, esticou-se demais, foi vítima do próprio sucesso e acabou emaranhando em excesso a própria narrativa (mesmo assim, merece ser vista). Já The Lost Room  tinha uma premissa e uma execução tão “davidlynchianas”, tão cheias de elementos surrealistas e bizarros, que nunca teve a chance de uma “temporada 2”, e parece que seus mistérios ficarão mistérios para sempre.
 
Resta torcer para que Anos Luz possa prosseguir em paz.
 


 













sexta-feira, 27 de maio de 2022

4827) O indivíduo na planície (27.5.2022)



As verdades da literatura (da arte em geral) são verdades subjetivas, de dentro para fora. Um ótimo livro pode ser inspirado por uma idéia, e outro ótimo livro pode ser inspirado pela idéia oposta. Isto vale até para extremos como o de religiões, ideologias, políticas, etc. Mas o mais comum é vermos temperamentos diferentes produzindo obras diferentes.
 
Steven Erikson é um autor canadense, arqueólogo de formação, autor da bem-sucedida série de fantasia do “Malazan Book of the Fallen”, no estilo de Game of Thrones.
 
Numa entrevista à revista Locus (# 484, maio de 2001) ele faz uma comparação interessante de sua obra com a obra da também canadense Margaret Atwood, autora de The Handmaid’s Tale. Erikson se queixa de que existe, entre autores canadenses, uma mentalidade de vítimas do ambiente; heróis canadenses, cedo ou tarde, sucumbem ao ambiente e morrem.
 
É uma luta incessante que envolve um meio ambiente muito inóspito e a persistência humana; uma luta onde o ambiente invariavelmente triunfa. E todo mundo adotou este aspecto de vitimização como nossa identidade cultural. (trad. BT)
 
Erikson faz uma comparação entre duas atitudes possíveis:
 
De acordo com a tese de Atwood, se eu mostro um indivíduo solitário parado no centro de uma planície, esse indivíduo irá se sentir pequeno e insignificante. Mas quando eu escrevo algo assim, esse indivíduo percebe que ele, ou ela, é a coisa mais alta que existe de horizonte a horizonte. Com isso eu assumo uma atitude completamente diferente, que muitas vezes é uma reação deliberada a todo o espírito predominante no meio acadêmico e literário do Canadá.
 
Em discussões desse tipo brota muitas vezes a pergunta: “E qual dos dois está certo?”  Minha resposta geralmente é “Não existe resposta certa e resposta errada a esse tipo de pergunta. Cada autor reage de forma pessoal aos estímulos da sociedade e da cultura e do momento histórico. Cada um tem sua resposta, sua reação, sua verdade.”
 
Querer reduzir a “identidade nacional” canadense às atitudes pessoais de Atwood e de Erikson é algo sem sentido. Mesmo que não estivéssemos falando de algo tão complexo, mesmo que fosse apenas uma questão tipo “Qual a sua atitude pessoal diante do mundo?”, ainda assim as respostas são insuficientes. Erikson escreveu uma série de fantasia com 10 romances, provavelmente uma massa de texto maior que Game of Thrones, com centenas de personagens. Ninguém escreve algo dessa dimensão sem possuir um repertório proporcional de idéias, emoções, conceitos, respostas diante da vida, que possam ser transmitidas aos personagens.
 
Todo autor “é” seus heróis, mas esses heróis não bastam para representá-lo. Ele é também seus vilões, e seus figurantes medíocres, e suas vítimas trágicas, e seus “alívios cômicos”.
 
Este é o perigo de quando estudamos superficialmente uma literatura qualquer (ou qualquer conjunto de obras artísticas). Muita gente dirá que a literatura de Machado de Assis é cheia de sutilezas, de ceticismo, de ironia. Isso resume Machado? De jeito nenhum. Guimarães Rosa inventava palavras novas, distorcia a sintaxe, misturava regionalismos com arcaísmos. Isso resume sua obra? De jeito nenhum.
 
Um dos problemas de quem é professor, ou de quem escreve textos para o público em gral, dando informações iniciais sobre um tema, é a necessidade de usar esses resumos, essas formulazinhas, essas micro-definições que nem de longe correspondem à complexidade de um autor. Mas quando estamos fazendo balanços gerais (“O conto brasileiro na segunda metade do século 20”...) é inevitável fazer esse tipo de redução. Pegamos um autor de obra extensa e variada, e o definimos em duas ou três linhas de texto, que serão lidas, decoradas e repetidas por algumas pessoas até o fim da vida, crentes de que aquilo é “a verdade”.
 
A obra de Nelson Rodrigues exibe conhecimento psicológico, visão pessimista do ser humano, uso do sexo e do palavrão, autenticidade nos diálogos e nas descrições de ambientes, principalmente da classe média carioca.
 
Isso aí é verdade? Eu penso que sim, enxergo tudo isso na obra de Nelson. Saber isso equivale a conhecer a obra de Nelson? De jeito nenhum! 
 
Mas se nós, que somos profissionais da escrita, não temos tempo de ler as obras mais importantes de todos os autores importantes, o que dizer do leitor comum, cuja vida útil é ocupada com mil outras tarefas e compromissos? Se eu, que leio 5 a 6 horas por dia, não consigo ficar em dia com tudo, quanto mais a pessoa que lê 5 ou 6 horas por semana, ou menos que isso.
 
Daí que essas formulazinhas de vez em quando precisam ser viradas pelo avesso.
 
Kafka era pessimista? Talvez, mas também havia humor no que ele escrevia – consta que ele lia capítulos de O Processo para a família e todos morriam de rir.
 
Augusto dos Anjos era o poeta da morte? Talvez, mas muitos dos seus poemas são celebrações cósmicas da Vida, vista como uma série infinita de metamorfoses e processos evolutivos.
 
Cecília Meireles era uma poetisa subjetiva e emocional, cantando a natureza, os devaneios? Talvez, mas escreveu também um dos maiores poemas políticos de nossa literatura, o Romanceiro da Inconfidência.
 
E assim por diante. Não deveríamos nos limitar nem mesmo às avaliações que os autores fazem de si mesmos; nem sempre, ou quase nunca, o que um autor vê em sua própria obra é o que vai encontrar resposta nos leitores.
 





terça-feira, 24 de maio de 2022

4826) "Love, Death & Robots - ano 3" (24.5.2022)



 
Os derradeiros despojos da ficção científica dos Estados Unidos foram repartidos entre a Disneylândia e o Pentágono.
 
A frase acima não representa minha opinião oficial sobre o tema. É apenas um gracejo que me ocorreu, enquanto assistia a terceira temporada da ótima série de animação Love, Death and Robots (produzida por David Fincher), que entrou recentemente na Netflix. O nível técnico da série (a animação em si) é de excelente qualidade, as histórias são rotineiras mas bem desenvolvidas. Há várias adaptações de contos de autores da “primeira linha” da FC (Ellison, Scalzi, Bacigalupi, Ballard, etc. – e nesta terceira série, Bruce Sterling e Michael Swanwick.).
 
Aqui, minhas impressões sobre os nove episódios desta série mais recente.
 

Ep. 1 – “Three Robots: Exit Strategies”, de Patrick Osborn, bas. em John Scalzi.
São três robozinhos exploradores dos resíduos da civilização humana. Ficaram como uma espécie de personagens-símbolo da série. Diálogos curtos e ferinos, mostrando as razões do fracasso do processo civilizatório no planeta Terra, fracasso que já em 2022 era irreversível e de conhecimento público, mas, fazer o quê?  Fazer humor, melhor que nada.

 

Ep. 2 – “Bad Travelling”, de David Fincher, bas. em Neal Asher
Um monstro meio crustáceo-antropófago se apodera de um navio e sequestra a tripulação. Uma narrativa totalmente noturna e dark, que não tem nada de mais mas acaba se destacando por sua ambientação marítima e retrô, fugindo ao tom de space opera da maioria dos episódios da série.
 



Ep. 3 – “The very pulse of the machine”, de Emily Dean, bas. em Michael Swanwick
Uma astronauta “naufraga” num satélite e precisa aproveitar o oxigênio da companheira que morreu no acidente, enquanto atravessa a pé um deserto e se enche de drogas para manter-se viva. Visões alucinógenas, comunicação telepática... uma daquelas “robinsonadas” da FC, pessoa sozinha tentando sobreviver em meio hostil. 
 
 

Ep. 4 – “Night of the Mini Dead”, de Robert Bisi & Andy Lion, bas. em Jeff Fowler & Tim Miller.
Um dos melhores episódios, descrevendo a escalada gradual (mas acelerada) de um apocalipse zumbi que começa no cemitério de uma cidade e acaba se espalhado pelo planeta. O uso permanente da imagem distanciada é um recurso simples mas muito eficaz. A narrativa é tão acelerada quando a ação. Lembra o episódio “Ice Age” da 1ª. temporada, em que toda uma civilização se desenvolve e se auto-destrói em poucos dias, no freezer de um casal.



Ep. 5 – “Kill Team Kill”, de Jennifer Yuh Nelson, bas. em Justin Coates
Um fucking team de soldados armados até os fucking dentes enfrenta na floresta um fucking urso-cyborg criado pela CIA, numa orgia de disparos, rajadas e fucking explosões. Uma prova de que as armas de fogo não passam de um substituto-potencializador da ejaculação masculina (ou pelo menos é isso que um personagem dá a entender, lá na fucking linguagem dele).
 



Ep. 6 – “Swarm”, de Tim Miller, bas. em Bruce Sterling
É a única história desta série que eu já conhecia, baseado num dos contos mais intrigantes de Sterling (1982; no livro Crystal Express, 1989), da sua série “Shaper/Mechanist”. Cientistas humanos mergulham num mundo subterrâneo (ou subaquático?), comunicando-se com espécies alienígenas através de feromônios. Não reli o conto, não sei até que ponto o enredo se mantém, mas a estranheza do ambiente e dos seres é muito bem reconstituída. A animação a serviço da imaginação pura, cheia de alusões e de subtextos biológicos. Um dos melhores episódios desta série.
 


Ep. 7 – “Mason’s Rats”, de Carlos Stevens, bas. em Neal Asher
Um fazendeiro precisa de livrar de uma praga de ratos mutantes, inteligentes, e recorre a um vendedor de armamento de extermínio high-tech. Desgraça vai se amontoando por cima de desgraça, enquanto ele é forçado a comprar armas cada vez mais sofisticadas e mais caras, que fazem os ratos evoluírem milênios em questão de dias. O fazendeiro começa a ficar de saco cheio com aquilo, e a ter idéias. Ótimo episódio de tiroteio, com humor e criatividade.



Ep. 8 – “In vaulted halls entombed”, de Jerome Chen, bas. em Alan Baxter
Outra fucking aventura de um fucking grupo de super-soldados invadindo uma caverna protegida por enxames (?) de fucking aranhas metálicas antropófagas. Os sobreviventes acabam tendo acesso a um fucking templo megalítico subterrâneo, onde (depois que a munição deles se esgota) uma fucking criatura lovecraftiana os hipnotiza e pede para ser libertada. Fuck.



Ep. 9 – “Jibaro”, de Alberto Mielgo.
É o episódio mais enigmático e elusivo de todos, mostrando um grupo de guerreiros numa floresta sendo atraídos a um lago por uma aparição feminina que lembra um destaque de Escola de Samba e que causa um morticínio geral. Faço piadas, mas o episódio tem uma belíssima sucessão de imagens, tem uma narrativa puramente visual que lembra em alguns momentos o ritmo “aos solavancos” dos videogames, e nele a violência é um elemento, apenas, numa mandala narrativa de mitologia e mistério. O diretor Mielgo (ao que parece, autor do argumento) já havia apresentado, na temporada 1, o episódio “The Witness”.
 
Três temporadas já são o suficiente para fazer desta série uma das melhores séries antologia de FC em streaming, comparável aos melhores momentos de Black Mirror. O fato de ser em animação é um atrativo a mais, porque de história para história não mudamos apenas de ambiente e personagens, mudamos o alfabeto visual por inteiro. Mesmo com as inevitáveis repetições!  Grupos de mercenários fuzilando monstros, pessoas trancafiadas com monstros em ambientes fechados, robôs frankensteinianamente descontrolados, personagens aparentemente frágeis ou ingênuos revelando-se páreo-duro para monstros ou exércitos...
 
São os clichês e as convenções de qualquer gênero bem sucedido quando encontra um novo nicho de expressão e exibição. É sempre bom levar em conta que mesmo um clichê acaba sendo visto pela primeira vez por alguém, porque novas gerações de espectadores não param de surgir. E la nave va.