No ano já distante de 2006, a revista recifense Continente Multicultural convidou uma porção de gente, eu inclusive, a participar de uma votação sobre o “Cânone da Literatura Brasileira”, incluindo aí a prosa de ficção e a poesia.
Artigos de Braulio Tavares em sua coluna diária no "Jornal da Paraíba" (Campina Grande-PB), desde o 0001 (23 de março de 2003) até o 4098 (10 de abril de 2016). Do 4099 em diante, os textos estão sendo publicados apenas neste blog, devido ao fim da publicação do jornal impresso.
– Vossa Eminência respondeu minha pergunta contando-me uma história na qual meu amigo e professor é o herói. Vejo com clareza o herói da história, quase que luminoso, e num elevado plano. Mas meu mestre, meu conselheiro e meu amigo continua tão afastado quanto antes. Não parece humano aos meus olhos e, ai, não consigo dizer que não me causa temor.
– Madame, eu lhe contei uma história. Histórias têm sido contadas desde que a fala começou a existir, e sem histórias a humanidade teria perecido, como pereceria sem água. A senhora vê os personagens de uma história real com clareza, quase luminosos, num plano elevado, e ao mesmo tempo ele podem não lhe parecer bem humanos, podem até causar-lhe medo. É assim que são as coisas. Mas hoje, Madame, eu percebo uma nova arte da narração, uma nova literatura, nova categoria das belas-letras, alvorecendo sobre o mundo. Já está entre nós, sem dúvida, e tem ganho a simpatia dos leitores do nosso tempo. E essa nova arte literária irá, em benefício dos personagens individuais da história, e com o intuito de manter-se próxima deles, sem medo, essa literatura estará disposta a sacrificar a história em si.
“Os indivíduos dos novos livros, novos romances, estão tão próximos ao leitor que é como se um calor corporal nos fluísse deles; o leitor os trará para perto de si e os tornará seus companheiros, amigos, confidentes. E à medida que aumentar essa troca de empatias, a história propriamente dita irá perdendo terreno, perdendo peso, e acabará evaporando-se, como o buquê de um vinho nobre cuja garrafa tenha sido esquecida aberta.
O propósito primordial [desse novo realismo psicológico] consiste em fazer as palavras trazerem-nos seu objeto em toda a sua particularidade concreta, mesmo que isso lhes custe repetições, parênteses, verbosidade.
Tanto as inovações filosóficas quanto as literárias devem ser encaradas como manifestações paralelas de uma mudança mais ampla – aquela vasta transformação da civilização ocidental desde o Renascimento que substituiu a visão unificada do mundo da Idade Média por outra muito diferente, que nos apresenta essencialmente um conjunto em evolução, mas sem planejamento, de invidíduos particulares vivendo experiências particulares em épocas e lugares particulares.
(A Ascensão do Romance, Companhia das Letras, trad. Hildegard Feist)
Faleceu há poucos meses o escritor John Le Carré (1931-2020), um dos grandes da literatura de espionagem, e isso me motivou a ver ou rever alguns filmes baseados em seus argumentos.
Revi assim o excelente O Espião Que Veio Do Frio (“The Spy who Came In from the Cold”, 1965) de Martin Ritt, um dos grandes momentos de Richard Burton como ator, num filme árido e cruel.
Revi Chamada Para Um Morto (“The Deadly Affair”, 1967) de Sidney Lumet, um exercício de suspense e de enigma com as habituais reviravoltas de enredo e que termina deixando o habitual gosto amargo na boca.
E vi pela primeira vez a série da BBC Smiley’s People (1982), onde Alec Guiness interpreta o agente Smiley, personagem recorrente na obra de Carré, e que foi recriado magnificamente por Gary Oldman em Tinker, Tailor, Soldier, Spy de Tomas Alfredson (2011).
Entre os subgêneros da ficção policial, o romance de espionagem lida de modo muito particular com conceitos como falsidade, fingimento, disfarce, mentira, traição. O espião é sempre alguém que finge ser o que não é para enganar pessoas e extrair informações que essas pessoas não lhe dariam se soubessem para que vão servir.
Por alguma deformação psicológica minha, o romance de espionagem me parece um tipo de literatura britânica por excelência, tanto quanto para outras pessoas, com clichês levemente distintos dos meus, a ficção científica é um tipo de literatura dos Estados Unidos. Paciência. Certamente foram minhas leituras escassas, mas demasiado precoces, de autores como Graham Greene, Ian Fleming, Somerset Maugham e o próprio Le Carré, de quem devorei a primeira edição do Espião Que Saiu do Frio.
A espionagem me parece até hoje uma atividade britânica, cheia de sobretudos, becos enevoados, homens soturnos que falam por elipses, intrigas à sorrelfa onde o leitor nunca sabe ao certo quem é quem, quem está contra ou a favor do quê, quem traiu quem, quem está armando o quê para explodir quando.
Jorge Luís Borges dizia que as amizades inglesas “começam evitando a confidência, e em breve omitem o diálogo”. Se as amizades são assim, o que dizer das tramas do Serviço Secreto?
Parece ser uma atividade não apenas tipicamente britânica, mas tipicamente exercida por homens refinados, educados em Oxford, talvez sem a testosterona de Sean Connery ou a elegância sartorial de Michael Caine, mas articulados, cultos, dissimuladores, um tanto cruéis, um tanto sem remorsos. Se não fosse por suas preferências políticas, alguns autores britânicos que admiro, como Anthony Burgess, George Orwell, Geoff Dyer ou Bruce Chatwin, teriam sido excelentes espiões a serviço de Sua Majestade Britânica. Se é que não o foram.
É o que chamam de “sleepers”, “dormant agents” – agentes “adormecidos”, com tudo pronto para exercerem seu trabalho no momento em que alguém os sacudir pelo ombro e disse: “Levanta, chegou a hora.”
Smiley, nesse momento da vida, está como um carro com a gasolina na reserva. Poupa ao máximo as energias, e isso o torna ainda mais lacônico na hora das explicações e mais objetivo na hora de dar ordens. O que se passa em sua mente só ele sabe, porque os espiões, como os atores, são capazes de contemplar com o mesmo rosto um prato de comida, uma criança brincando ou uma pessoa morta.
O sujeito é um inglês que mora na Rússia e manda informações secretas russas para a Inglaterra. Em tese, basta uma abordagem adequada para que ele passe a mandar para a Inglaterra informações falsas, cuidadosamente preparadas pelos seus novos patrões, os russos. E em tese basta outro estímulo na direção oposta para que ele conte tudo aos ingleses e passe a trabalhar de volta para eles, levando-lhes as informações falsas dos russos e alguma informação verdadeira; torna-se um agente triplo.
No mundo ético da espionagem, o patriotismo sincero pode ser cancelado pela fidelidade ideológica, que pode ser cancelada pela cobiça financeira, que pode ser cancelada por um arrebatamento emocional (ódio, paixão sexual, etc.), que pode ser cancelado por algum outro fator – cabe ao romancista inventar tudo isso de forma plausível.
Na série Smiley’s People, Smiley é aquele velho chato, substituído por uma nova e insuportável geração de agentes secretos (brilhantemente representada na série pelos personagens de Barry Foster e Bill Paterson). Smiley é movido por dois impulsos, nessa história cheia de mortes e traições: vingar um velho general ucraniano exilado, que ele considera “um homem com princípios”, e ajustar contas com um agente russo que muito anos atrás deu-lhe uma “volta” e o fez de bobo.
A maioria dos agentes secretos são movidos por coisas assim (e mais dinheiro, sexo, etc.), e o patriotismo é algo bem no fim da fila.
Isabel had always been scared of Anna, even though she was two years older, two inches taller, and two stones heavier.
Isabel sempre tivera um certo medo de Anna, mesmo sendo dois anos mais velha, 5,08 centímetros mais alta e 12,7 quilos mais pesada.
Isabel sempre tivera um certo medo de Anna, mesmo sendo dois anos mais velha, dois centímetros mais alta e com doze quilos a mais.
Na verdade, a data não poderia ser aquela. Se diversa, entretanto, impôs-se, por trocamento, no jogo da memória, por maior causa. Foi a Moça quem enunciou, com a voz que assim nascia sem pretexto, que a data era a de 1914? E para sempre a voz da Moça retificava-a.
Antes de vir para a fazenda, ela ter-se-ia residido em cidade ou vila, numa certa casa, num Largo, cuidada por umas irmãs solteironas. Mesmo essas, mal contavam. Dera-se que, em tempos, quase todas as antecedentes mulheres da família, de roca e fuso, sucessivamente teriam morrido, quase de uma vez, do mal-de-semana, febre de parto; daí, rompido o conhecimento, os homens se mudando, andara confiada a estranhos a Nenha, velhinha, que durava, visual, além de todas as raias do viver comum e da velhez, mas na perpetuidade.
Nunca mais soube de nada do Moço, nem quem era, vindo junto comigo. Reparei em meu pai, que tinha bigodes. Meu pai, estava dando ordens a dois homens, que era para levantarem o muro novo, no quintal. Minha Mãe me beijou, queria saber notícias de muita gente, olhava se eu não rasgara minha roupa, se tinha ainda no pescoço, sem perder nenhum, os santos de todas as medalhinhas.E eu precisei fazer alguma coisa, de mim, chorei e gritei, a eles dois: “ – Vocês não sabem de nada, ouviram?! Vocês já se esqueceram de tudo o que, algum dia, sabiam!...”E eles abaixaram as cabeças, figuro que estremeceram.Porque eu desconheci meus Pais – eram-me tão estranhos; jamais poderia verdadeiramente conhecê-los, eu; eu?