terça-feira, 13 de abril de 2021

4693) Um cânone brasileiro alternativo (13.4.2021)



No ano já distante de 2006, a revista recifense Continente Multicultural convidou uma porção de gente, eu inclusive, a participar de uma votação sobre o “Cânone da Literatura Brasileira”, incluindo aí a prosa de ficção e a poesia.
 
Não sei como os outros definem “cânone literário”, mas eu defino, meio frouxamente, como um possível conjunto de obras que é preciso conhecer para entender os caminhos, as possibilidades e o espírito da nossa literatura.
 
Não é uma lista dos “dez melhores”.
 
É uma lista de livros que contribuíram fortemente para a formação dos autores que vieram depois; e com impacto inclusive fora do âmbito estritamente literário. Livros influentes; e livros que nos reflitam como povo, que nos revelem como cultura, que indiquem a um leitor, recém-chegado ao mundo, o que é o Brasil pela voz dos seus escritores – e modéstia à parte, não sei que voz mais adequada haveria.
 
Na época daquela enquete, questionei um detalhe que me preocupava. Com o passar dos anos, certos livros vão se tornando quase obrigatórios. Sua ausência provocaria indignações, arrufos, talvez até uma troca de sopapos. “Como se atreve a deixar de fora Grande Sertão: Veredas?! Dom Casmurro?!!!”.
 
Resultado: ninguém mexe mais no cânone, onde entram somente as unanimidades. Fica parecendo os Dez Mandamentos. Pra tirar dali um desses consagrados vai ser preciso fazer uma verdadeira CPC, “Campanha de Problematização e Cancelamento”.
 
Minha sugestão, na época, foi deixar de fora os títulos que parecessem óbvios. E indiquei dez que na época me pareceram plenamente merecedores de figurar entre o que o Brasil já produziu de melhor, mas que talvez nunca entrassem numa lista dessa natureza. Talvez até por serem preteridos por outras obras supostamente “superiores” do mesmo autor.
 
Pensando assim, fiz minha sugestão incluindo seis obras de prosa: Corpo de Baile de Guimarães Rosa, Memórias Sentimentais de João Miramar / Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade, Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato, A Grande Arte de Rubem Fonseca, Nove, Novena de Osman Lins. 
 
E quatro de poesia: Invenção de Orfeu de Jorge de Lima, Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, Eu de Augusto dos Anjos e Cobra Norato de Raul Bopp.
 
Todo mundo tem o direito (e o prazer) de discordar, é claro, mas com esses dez livros embaixo do braço eu passaria mais uma vida inteira. Alguém dirá: “Mas faltou Fulano de Tal!”  E eu responderei: “Em toda lista falta alguém, até na Lista de Schindler.”
 
Colocou-se há pouco, numa discussão semelhante, a questão: “Tudo bem, você indicou uma opção B aceitável; mas, haveria uma opção C?”  Ou seja: seria possível indicar uma nova lista sob os mesmos critérios, deixando de lado os “óbvios, incontornáveis”, e também os dez títulos acima?
 
Não acho difícil. Conferenciei aqui com meus botões, ou melhor, com minhas teclas, e bolei a lista abaixo. Para não me afastar muito da proposta inicial, são novamente seis obras em prosa e quatro em verso. Todos me parecem necessários para compreender do que o Brasil é capaz – além de serem livros, é claro, que me despertam um sentimento de gratidão e de orgulho-alheio, sempre que me lembro deles.
 
E sempre lembrando: o objetivo destas minhas listas é indicar títulos “não-óbvios”, que dificilmente seriam indicados para um cânone porque outras obras do mesmo autor, as consideradas “obrigatórias”, passariam na frente.
 
Obras em prosa:

 
1.       Dona Flor e seus Dois Maridos (1966) de Jorge Amado. Não botei nada do baiano na minha primeira lista, e tenho convicção de que se alguém for “canonizar” um livro dele provavelmente vai ser Gabriela, Cravo e Canela. Mas Dona Flor foi um sucesso enorme desde o lançamento, foi adaptado para o cinema, marcou gerações. Sem ter sido o primeiro livro de Jorge que li, foi o primeiro que me despertou, na adolescência, para as possibilidades literárias do romance erótico e para as possibilidades brasileiras do romance de fantasmas. (E me ajudou a ir morar na Bahia dez anos depois, mas isso já é outra história.)



2.       Memorial de Maria Moura (1992), de Raquel de Queiroz. Qual é o título óbvio, de Raquel? Claro que é O Quinze, que dizem ter sido escrito quando ela tinha 17 anos – e é um grande livro. Mas por trás dele acabam ficando invisíveis outros romances excelentes, como este. É um épico sertanejo de uma mulher-guerreira, uma mistura de Cat Ballou e Dona Guidinha do Poço. Pesquisa histórica e geográfica bem fundamentada, aventuras, violência, morte, paixões eróticas desenfreadas, religião, economia rudimentar. Um romance guerreiro que se encerra, triunfalmente, com o “exército” sertanejo partindo para uma batalha de resultado imprevisível. E publicado por uma escritora de 80 anos.



3.       Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), de Lima Barreto. O óbvio de Lima é Policarpo Quaresma, mas eu tenho uma admiração por esta história de um rapaz negro, inteligente, com leitura, forçado a trabalhar como contínuo num jornal cheio de pavões menos competentes do que ele. O retrato do Rio é excelente. Foi o primeiro livro escrito pelo autor, que já estava todo nele. E o retrato da imprensa brasileira continua atual.



4.       Felicidade Clandestina (1971), de Clarice Lispector. Os títulos canônicos mais óbvios de Clarice seriam A Paixão Segundo G.H. (mais complexo) ou A Hora da Estrela (mais popular). Mas eu acho que a influência maior da obra da “frasista mais famosa da Internet” está nos contos, sempre brilhantes. Como neste livro, onde cabem pequenas crônicas, pequenas histórias absurdistas, retratos de família, e até o inexplicável e inesgotável “O Ovo e a Galinha”.



5.       Elas Gostam de Apanhar (?), de Nelson Rodrigues. A obra de Nelson é um caos bibliográfico; sua influência sobre o público foi maior na imprensa do que nos livros. Coloco aqui esta coletânea da Editora Bloch (não localizei a data), que li nos anos 1960, com capa de Ziraldo. Tudo que está no teatro de Nelson está em sua prosa de ficção.



6.       Várias Histórias (1896) de Machado de Assis. Pois é, em qualquer cânone alguém instala o Dom Casmurro ou o Memórias Póstumas de Brás Cubas (com toda justiça, aliás) e deixa de fora um dos maiores contistas do país. Escolher um volume de contos entre tantos também não é fácil. Escolho este porque a maioria de seus contos saiu durante a década miraculosa de 1880.
 
 
Obras em poesia:


1.       Caprichos & Relaxos (1983), de Paulo Leminski. É um autor recente, mas ouso dizer que já pode ser incluído no cânone, até mesmo como provocação, porque era um notório chovedor no piquenique alheio. Leminski marcou presença no romance, no ensaio, na publicidade, na música popular, e recentemente seu volume Toda a Poesia chegou às listas de best-seller. Sua influência, dos anos 1980 para cá, tem sido imensa – e merecida.



2.       A Educação pela Pedra (1962-65) de João Cabral de Melo Neto. Mais uma vez: o óbvio cabralino em qualquer lista seriam O Cão Sem Plumas ou Morte e Vida Severina, mais conhecidos, mais marcantes, mais emblemáticos. Não me custa nada indicar esse livro duro, árido, onde Cabral se transpôs com alicerces e tudo para o verso longo, o quase-decassílabo, expandindo sua poética para além das cadências redondilhas do romanceiro. 



3.       Poemas (1922-1953) de Ascenso Ferreira. É o volume que reúne os três livros anteriores do autor (Catimbó, Cana Caiana e Xenhenhém). A oralidade, o coloquialismo, o vocabulário regional, os temas “folclóricos”, tudo está presente nesses livros que são talvez o melhor encontro entre o Modernismo e a poesia falada. E deve ter sido um dos primeiros livros da poesia brasileira a trazer a partitura das melodias citadas.



4.       Xadrez de Estrelas (19760 de Haroldo de Campos. A Poesia Concreta dos paulistanos teve um impacto profundo na literatura brasileira, inclusive sobre os que não gostam dela. Eu gosto. Esta coletânea de Haroldo de Campos traz vários dos seus livros concretistas e se encerra com o clássico Galáxias (1973), uma experiência de prosa poética “riocorrente”. Alguém pode até não gostar dos poemas (eu gosto), mas ninguém pode negar que essa poesia fez muitos poetas perceberem pela primeira vez que a poesia era feita de palavras, não de idéias, e que as palavras tinham materialidade.
 
Os títulos listados acima seriam, na minha opinião, uma boa introdução à literatura brasileira para um hipotético estrangeiro (sueco, queniano ou vietnamita) razoavelmente bem informado, e com domínio razoável da língua portuguesa falada no Brasil.
 
A lista esgota nossa literatura? Não, nenhuma lista esgota. Por que ficam de fora tantos autores? Provavelmente porque nunca li, como é o caso de obras que admiro à distância, como O Tempo e o Vento de Erico Verissimo ou Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos. 

E por que não incluí as obras X, Y e Z, que efetivamente li? Porque o mote é “lista de dez”. Quando estou desocupado, precisando esquentar o motor do juízo para escrever coisas mais sérias, pensar nisso ajuda a produzir a ignição. A lista não tem importância.
 
 
 





sábado, 10 de abril de 2021

4692) A piada e o tiro de canhão (10.4.2021)


É uma historieta das antigas, que já vi atribuída a diferentes pessoas. Digamos que tenha acontecido com Chico Anysio. Ele estava na fila de embarque do aeroporto, quando um general o avistou, aproximou-se, os dois já se conheciam de outras paradas, cumprimentaram-se cordialmente.
 
GENERAL – Chico, conte aí uma piada.
 
CHICO – Só conto se o senhor der um tiro de canhão.
 
Todas as pessoas em volta riram, os dois abraçaram-se, despediram-se, embarcaram cada um no seu voo.
 
A verdade é que o general saiu ganhando, porque Chico disse a piada – e o general não precisou (felizmente) disparar canhão nenhum. O episódio, entretanto, ilustra a cilada fatal em que o artista sempre acaba caindo em qualquer cabo-de-guerra com um poderoso. O artista (humoristas incluídos) não resiste à chance de produzir uma obra de arte, mesmo não-remunerada, mesmo que seja uma frasezinha apenas.
 
Digressão: Eu considero a frase, a frase-de-efeito, o aforismo, o ditado, a máxima e outras modalidades como uma forma de arte literária, SIM. É uma forma híbrida (porque se mistura e se confunde com o verso, o diálogo ficcional, etc.), e uma forma acessória, secundária, porque geralmente vem apensa, ou seja, pendurada, a uma forma maior, seja o conto, o artigo, o poema, o ensaio, o diálogo teatral. Mas a frase perfeita, lapidar, irretocável, escrita e publicada a sós, é uma forma de arte, SIM. 
 
Pois bem: quando um bom fazedor de frases tem uma idéia para uma frase boa, eficaz, ele não resiste a dizê-la, mesmo que isso signifique, como no episódio de Chico Anysio, uma vitória de Pirro, em que o sujeito ganha mas logo em seguida percebe que sofreu uma derrota maior que essa vitoriazinha momentânea.
 
Este fenômeno está incluído na mesma categoria de outro caso proverbial: o sujeito que “perde um amigo mas não perde uma piada”. Quando a piada ocorre ao piadista, ele tem a compulsão irresistível, neurótica, freudiana, de dizê-la – mesmo que isto signifique perder uma amizade. Mesmo que signifique perder uma queda-de-braço simbólica com um general.
 
Que importância tem isso?
 
Esse fenômeno está ligado a outro aparentemente muito distante, que é O Mito Do Artista Sofredor. O mito do poeta que escreveu seus melhores versos quando passava fome – mas não conseguia parar de escrever. Escrever era mais importante do que alimentar-se. Tendo a idéia para um soneto perfeito, ele passava dias trancado na água-furtada, sem ânimo para mendigar um pão, mas rabiscando, rasurando e alinhavando uma ou duas linhas por dia, até a obra-prima ficar pronta.
 
Muitos artistas bradam aos quatro ventos que a criação é algo que ferve nas suas veias, e que não criar, para eles, é sinônimo de morrer.
 
Os produtores-executivos leem essa entrevista no jornal, e pensam: “Ótimo, vou cortar metade da verba, visto que ele ‘não consegue deixar de ser criativo’”.
 
É diferente o caso dos artistas “meio mercenários”. Feito aqueles diretores de cinema que mandam parar a produção no instante em que uma parcela do dinheiro atrasa. “Volta todo mundo pro hotel. Só tem filmagem quando o dinheiro aparecer.” Para algumas pessoas, é um interesseiro, um prostituído. Para outras, é um sujeito prático: ele sabe que só assim se negocia com produtores – interrompendo a produção.
 
Chico Anysio poderia ter dito: “Não leve a mal, General Fulano, mas eu só conto piada para quem paga o meu salário, que no caso é o doutor Roberto Marinho”. Mas não, a mente dele era formatada para ter sempre uma piada pronta na ponta de língua, e o general talvez fosse perceptivo o bastante para saber disso.
 
Tem outra piada antiga, que mostra os perigos dessa compulsão. O Bobo-da-corte está conversando com o Rei e no meio da conversa diz: “Às vezes uma desculpa é pior do que uma ofensa.”  O Rei não vê sentido nisso e diz: “Você tem dois minutos para demonstrar isso, senão mando cortar sua cabeça.”  O Bobo fica meio desconcertado mas, um instante depois, o Rei dá-lhe as costas para falar com o Grão-Vizir, e o Bobo enfia o dedo na sua bunda. O Rei dá um pulo enorme, indignado, e o Bobo diz: “Desculpe, majestade, pensei que fosse a bunda da rainha.”
 
Neste segundo caso, o Bobo soube reverter a provocação do poderoso e saiu ganhando. (Pelo menos simbolicamente – a piada termina aí, sem registrar a reação final do Rei.) Ele tinha feito uma observação não-engraçada. O Rei questionou o que ele disse, fez-lhe uma ameaça... e só então a verve piadística entrou em ação, com uma dupla vingança, porque envolveu com seu deboche tanto o Rei quanto a Rainha. Já que um Bobo-da-corte tem salvo conduto para dizer o que quer, ele sentiu firmeza e pegou pesado.
 
Embora talvez a gente possa imaginar que Chico Anysio também saiu ganhando alguma coisa. Ele disse a piada. O general não deu o tiro de canhão. A piada faz parte da vida, faz parte das conversas entre amigos e conhecidos, piada é coisa que se diz na casa da gente, no colégio, no trabalho, na mesa de bar. Uma coisa que até um general entende, até um general aprecia.
 
Tiro de canhão é diferente. Tirando os treinamentos, tiro de canhão se dá em guerra, em golpe, em atentado, em revolução, e seu objetivo é um só – matar e destruir.
 
Talvez Chico Anysio estivesse sugerindo, veladamente:
 
– Digo a piada sim, general, e deixo de graça, como os vendedores de amendoim dão uma derramadinha de graça em toda mesa de bar, mesmo sabendo que a maioria daqueles cervejantes não vai lhe comprar um pacotinho. A derramadinha é para o cara ficar lembrando o quando é bom comer um amendoim salgado com uma cerveja bem geladinha. Se não comprar hoje, compra noutro dia. E se não comprar a mim, compra a outro vendedor tão precisado quanto eu, e a vida é assim mesmo, os rios só correm para o mar, e talvez o pacote que eu vendo hoje seja resultado de uma derramadinha que um colega deixou na mesa desse cara duas noites atrás.
 
A piada era para dizer: “Está vendo, general, como uma piada é algo mais simples, mais agradável e mais nosso do que um tiro de canhão? Está vendo como o senhor precisa do meu produto, e eu não preciso do seu?”.
 
 







quarta-feira, 7 de abril de 2021

4691) "Cat Ballou", a mocinha e os três mocinhos (7.4.2021)


 

Este antigo faroeste dirigido por Elliot Silverstein, Dívida de Sangue (“Cat Ballou”, 1965) é uma curiosa mistura de faroeste, comédia e musical. Aquilo que a gente chamava de “um filme leve”, onde as coisas acontecem com uma certa dramaticidade mas a gente sabe que não existe a menor possibilidade de não ter um final feliz, onde as pessoas simpáticas são recompensadas e as antipáticas sofrem o devido castigo.
 
Foi o primeiro filme que vi com Jane Fonda, bem no começo de minha carreira de cineclubista, e um dos primeiros em que comecei a aplicar de forma conscienciosa os ensinamentos de livros preciosos como Elementos de Cinestética do Padre Guido Logger ou A Linguagem Cinematográfica  de Marcel Martin.
 
Cat Ballou é a filha única de um fazendeiro viúvo, que é assassinado por uma questão de terras, por um pistoleiro a mando dos ricaços locais. Ela junta um grupo de amigos jovens, contrata um pistoleiro para se vingar, consegue, mas continua a meter-se em sarilhos e é condenada à forca. Três minutos antes do fim do filme, escapa espetacularmente.


 
Lembro que na época a gente chegava a discutir se aquilo era um faroeste (porque a ambientação é de cowboys), uma comédia (porque há uma porção de cenas engraçadas), um filme romântico (porque um dos amigos de Cat procura conquistá-la durante o filme inteiro, e consegue) ou um musical (porque o filme é narrado musicalmente, com dois tocadores de banjo cantando cordelmente a vida de Cat Ballou).
 
Pode ter sido um dos filmes em que comecei a entender que os gêneros literários ou cinematográficos existem como conjuntos de elementos a que as obras podem recorrer ou não. Não faz sentido dizer “o filme X pertence ao gênero Y”. Um filme não “pertence” a nada, um filme usa elementos de um gênero, ou de mais de um, conforme a conveniência de quem o escreve e dirige.
 
Trinta anos depois eu estaria discutindo se Alien, o 8º. Passageiro, era um filme de horror ou um filme de ficção científica. E constatando que para muitas pessoas a única coisa importante para se saber de um filme é “A Que Gênero Ele Pertence”, e uma vez estabelecido isso, pode-se passar adiante e ir falar de outro assunto.
 
Revi agora Cat Ballou, meio achando que estava perdendo meu tempo em rever algo que já assisti duas ou três vezes quando tinha 17 anos. Melhor ir ver filme novo, não é mesmo? 

 
Foi bom ter visto, para apreciar melhor o lado cordelesco do filme. A crítica norte-americana sempre se refere aos músicos que narram a história (Nat King Cole e Stubby Kaye) como “uma espécie de coro grego”, que descreve situações, avisa o que vai acontecer e depois comenta o que aconteceu. Acho curioso que essa crítica se detenha tão pouco sobre os “cordelistas” do tempo do faroeste, que estão presentes (e com presença importante) em tantos filmes.
 
São os poetas ambulantes que escrevem em revistinhas baratas (chapbooks) as aventuras dos Billy The Kid e dos Bat Masterson de sua época. Fazem o que no Nordeste faziam Leandro Gomes de Barros, Francisco das Chagas Batista e João Martins de Athayde narrando as proezas e as crueldades de Antonio Silvino ou Lampião.


 
Logo no começo do filme vemos Cat Ballou sendo embarcada no trem por uma tia protetora, e abrindo um livrão escuro, encadernado, que ela comenta com o vizinho de cabine ser um volume de poesias de Tennyson. Segundos depois, escapa de dentro do livrão um chapbook barato onde se contam as aventuras do pistoleiro Kid Shelleen. Lá pelo meio do filme, depois que o pai é assassinado, ela reencontra o cordel e é através dele que se dispõe a contratar Kid Shelleen para executar sua vingança. Chega-lhe à porta um pistoleiro andrajoso, bêbado, um pistoleiro-pastelão. O desencanto dela é o de todos que confundem a lenda impressa com a vida real.  



 
Stubby Kaye e Nat King Cole, por sua vez, são personagens que eu acho mais brechtianos do que gregos, porque eles estão de banjo em punho no meio da rua, dentro das salas, diante do cadafalso, a poucos metros dos personagens da história que narram. Estão cantando “The Ballad of Cat Ballou” numa mistura sedutora de improviso (porque os fatos que eles narram estão acontecendo naquele instante, à sua volta) e de balada tradicional (porque é este o ponto de vista narrativo).
 
E com isso eles colocam o filme no gênero que invento agora, o “Cordel do Faroeste”, e quem achar que é exagero assista Os Imperdoáveis (1992, “Unforgiven”) de Clint Eastwood, Um De Nós Morrerá (1958, “The Left Handed Gun”) de Arthur Penn e outros. Há sempre um cordelista de lápis e papel em punho, acompanhando os indivíduos que fazem História. 
 
Outro aspecto interessante é a distribuição de personagens masculinos servindo como ajudantes a uma personagem feminina que tem uma jornada a cumprir. Parece ser um arquétipo narrativo, não sei se típico da narrativa norte-americana.
 
Tomei consciência disso pela primeira vez lendo uma entrevista de Karen Joy Fowler (a autora de The Jane Austen Book Club) em que ela comentava seu (excelente) romance meio-fantástico, Sarah Canary (1991). Esse livro transcorre no Oeste norte-americano, na mesma época de Cat Ballou. Nele aparece “do nada” uma mulher estranha, que não entende inglês e não fala nenhuma língua conhecida. Ela ganha o apelido de “Sarah Canary” porque apenas emite uns piados de pássaro.


Essa mulher é recolhida a um asilo, foge, e passa a ser protegida por um grupo de indivíduos jovens, meio marginalizados: um chinês, um esquizofrênico paciente do asilo e um agente postal. Eles viajam a pé, são perseguidos, metem-se em aventuras, e aqueles três caras estão protegendo, de maneira até inexplicável para eles, aquela mulher feia, estranha, e que não se comunica com eles. (O leitor de FC deduz que ela é uma alienígena extraviada.)
 
Numa entrevista, Karen Joy Fowler comentou que concebeu esse estranho grupo de pessoas tendo como referência os personagens de O Mágico d Oz: A menina Dorothy, cercada pelo Homem de Lata, o Espantalho e o Leão Medroso. E disse achar interessante que nenhum crítico tivesse atentado para esse fato.
 
Bem, a Internet atentou recentemente para o fato de que existe uma distribuição parecida de personagens em Star Wars: a princesa Leia, cercada por Han Solo, Chewbacca e C-3PO.



Não duvido haver uma longa lista de histórias em diversos gêneros (fantasia, cavalaria, etc.) em que uma personagem feminina aparece acompanhada por “galantes cavaleiros” dispostos a tudo por ela. É o caso de Cat Ballou, que conta com a ajuda e a companhia afetiva de três rapazes: o "tio", o "sobrinho" e o índio, que a ajudam a contratar o pistoleiro Kid Shelleen e consumar sua vingança.



domingo, 4 de abril de 2021

4690) Isak Dinesen e a nova narrativa (4.4.2021)

 


Uma das escritoras mais elegantes que conheço (e pode incluir o contingente masculino nessa avaliação) é a dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962), que usava o pseudônimo de “Isak Dinesen” para assinar seus contos densos, refinados.  Ela geralmente aborda um mundo oitocentista onde as vidas transcorrem como rios largos e vagarosos. Sua ficção lembra certos filmes de Luchino Visconti onde diferentes camadas do tempo se superpõem num mesmo espaço impregnado de memórias aristocráticas (O Leopardo, Violência e Paixão)
 
Além de escrever bem, ela reflete sempre sobre a natureza da narrativa, o ato de contar histórias, o ato de ouvi-las. Durante anos trabalhou num romance que se chamaria Albondocani. Morreu sem concluí-lo; mas por sorte seus personagens têm a mania de contar longas histórias uns aos outros, e sete delas estão reunidas (junto com outros trabalhos) em seus Last Tales (1955).
 
“The Cardinal’s First Tale” registra a longa conversa entre um cardeal idoso e uma dama, sua amiga, que o interroga sobre sua família e sua criação. A resposta dele é longa e múltipla, com variadas revelações sobre o passado; mas a certa altura a dama lhe diz (tradução BT):
 
– Vossa Eminência respondeu minha pergunta contando-me uma história na qual meu amigo e professor é o herói. Vejo com clareza o herói da história, quase que luminoso, e num elevado plano. Mas meu mestre, meu conselheiro e meu amigo continua tão afastado quanto antes. Não parece humano aos meus olhos e, ai, não consigo dizer que não me causa temor.
 
O Cardeal, cujo estilo narrativo é cheio de volutas e mandalas, comenta:
 
– Madame, eu lhe contei uma história. Histórias têm sido contadas desde que a fala começou a existir, e sem histórias a humanidade teria perecido, como pereceria sem água. A senhora vê os personagens de uma história real com clareza, quase luminosos, num plano elevado, e ao mesmo tempo ele podem não lhe parecer bem humanos, podem até causar-lhe medo. É assim que são as coisas. Mas hoje, Madame, eu percebo uma nova arte da narração, uma nova literatura, nova categoria das belas-letras, alvorecendo sobre o mundo. Já está entre nós, sem dúvida, e tem ganho a simpatia dos leitores do nosso tempo. E essa nova arte literária irá, em benefício dos personagens individuais da história, e com o intuito de manter-se próxima deles, sem medo, essa literatura estará disposta a sacrificar a história em si.
 
“Os indivíduos dos novos livros, novos romances, estão tão próximos ao leitor que é como se um calor corporal nos fluísse deles; o leitor os trará para perto de si e os tornará seus companheiros, amigos, confidentes. E à medida que aumentar essa troca de empatias, a história propriamente dita irá perdendo terreno, perdendo peso, e acabará evaporando-se, como o buquê de um vinho nobre cuja garrafa tenha sido esquecida aberta.
 
A conversa entre os dois prolonga-se bem mais, mas que isto nos baste. Dinesen constata a transição entre os contos tradicionais e o romance moderno. Nos antigos contos, a história conduzia os personagens, que eram meras funções narrativas, meros “actantes”, como de diz: eles desempenhavam as ações que a história exigia deles.
 
No romance moderno, que adquiriu espessura psicológica, sociológica, emocional, intelectual, os personagens são cada vez mais tridimensionais, compactos, ricos de substância interior, ricos em contradições e paradoxos – parecem-se cada vez menos com os personagens tradicionais, e cada vez mais com pessoas de verdade.
 
As teorias da escrita reconhecem que existem diferentes tipos de autor, de livro, de leitor, conforme as preferências, os recursos, as habilidades e as limitações de cada um. O elenco de tipos é variado, mas para efeito dessa comparação de Isak Dinesen podemos reconhecer que existem os criadores de histórias e os criadores de personagens.
 
No primeiro caso, é a história (o enredo, a sucessão de fatos contados) que desperta o interesse. Os personagens não têm grande profundidade, muitas vezes são designados apenas por um nome, uma descrição (o Mercador, o Professor, a Princesa), uma inicial. Nada sabemos sobre seu passado, sua infância, sua vida interior. Ele está ali para participar da história. O marujo Sindbad, por exemplo: nada sabemos de sua história pessoal ou sua psicologia profunda; estamos ali interessados no que vai lhe acontecer na próxima viagem.
 
No segundo caso, o autor cria personagens que têm essa espessura semelhante à de um ser humano, com motivações, sonhos, antipatias e simpatias, com um passado, com um projeto de futuro, com idéias próprias sobre o mundo. E com esse personagem o autor vai criando uma história feita de seus embates com o mundo em volta. Dom Quixote é um bom exemplo: ele é tão interessante que qualquer coisa que aconteça com ele torna-se interessante.


Nesse conto do Albondocani, que imagino situar-se no século 17 ou 18 (nunca se sabe; essas ambientações aristocráticas parecem existir numa espécie de animação suspensa fora do tempo e do espaço), discute-se a passagem de uma literatura para a outra, ou melhor, o surgimento de um novo tipo, visto que a história antiga, a história-pela-história, não dá nenhuma mostra de desaparecer, e em 2021 continua lépida e saltitante.
 
Ian Watt (A ascensão do romance) observa no romance inglês do século 18 essa guinada definitiva na direção do realismo da observação, da descrição e reprodução fiel dos ambientes individuais e coletivos, da psicologia profunda dos personagens.
 
Comentando as obras de Daniel Defoe, Samuel Richardson e Henry Fielding, três dos fundadores do romance inglês, ele observa:
 
O propósito primordial  [desse novo realismo psicológico] consiste em fazer as palavras trazerem-nos seu objeto em toda a sua particularidade concreta, mesmo que isso lhes custe repetições, parênteses, verbosidade.
 
As narrativas tradicionais (e podemos ver as formas mais puras delas nos contos populares, na literatura oral, nos conjuntos de narrativas como As Mil e Uma Noites ou os Contos de Canterbury) pareciam existir num mundo imutável governado pelos deuses, numa Terra que era o centro imóvel do universo. O indivíduo não era ninguém ali. Na nova literatura, no novo realismo, ele é tudo:
 
Tanto as inovações filosóficas quanto as literárias devem ser encaradas como manifestações paralelas de uma mudança mais ampla – aquela vasta transformação da civilização ocidental desde o Renascimento que substituiu a visão unificada do mundo da Idade Média por outra muito diferente, que nos apresenta essencialmente um conjunto em evolução, mas sem planejamento, de invidíduos particulares vivendo experiências particulares em épocas e lugares particulares.
(A Ascensão do Romance, Companhia das Letras, trad. Hildegard Feist)
 
A história da prosa de ficção tem sido um movimento de idas e vindas em que enredo e personagens, longe de serem extremos opostos, são naturezas distintas, e quando uma narrativa se põe em movimento a história leva o plano de significação para o coletivo, e o personagem o traz para o individual. E assim cada um acaba enriquecendo o outro.



 





quinta-feira, 1 de abril de 2021

4689) Os espiões de John Le Carré (1.4.2021)


Faleceu há poucos meses o escritor John Le Carré (1931-2020), um dos grandes da literatura de espionagem, e isso me motivou a ver ou rever alguns filmes baseados em seus argumentos.

Revi assim o excelente O Espião Que Veio Do Frio (“The Spy who Came In from the Cold”, 1965) de Martin Ritt, um dos grandes momentos de Richard Burton como ator, num filme árido e cruel. 

Revi Chamada Para Um Morto (“The Deadly Affair”, 1967) de Sidney Lumet, um exercício de suspense e de enigma com as habituais reviravoltas de enredo e que termina deixando o habitual gosto amargo na boca. 

E vi pela primeira vez a série da BBC Smiley’s People (1982), onde Alec Guiness interpreta o agente Smiley, personagem recorrente na obra de Carré, e que foi recriado magnificamente por Gary Oldman em Tinker, Tailor, Soldier, Spy de Tomas Alfredson (2011).


Entre os subgêneros da ficção policial, o romance de espionagem lida de modo muito particular com conceitos como falsidade, fingimento, disfarce, mentira, traição. O espião é sempre alguém que finge ser o que não é para enganar pessoas e extrair informações que essas pessoas não lhe dariam se soubessem para que vão servir.

Por alguma deformação psicológica minha, o romance de espionagem me parece um tipo de literatura britânica por excelência, tanto quanto para outras pessoas, com clichês levemente distintos dos meus, a ficção científica é um tipo de literatura dos Estados Unidos.  Paciência.  Certamente foram minhas leituras escassas, mas demasiado precoces, de autores como Graham Greene, Ian Fleming, Somerset Maugham e o próprio Le Carré, de quem devorei a primeira edição do Espião Que Saiu do Frio.

A espionagem me parece até hoje uma atividade britânica, cheia de sobretudos, becos enevoados, homens soturnos que falam por elipses, intrigas à sorrelfa onde o leitor nunca sabe ao certo quem é quem, quem está contra ou a favor do quê, quem traiu quem, quem está armando o quê para explodir quando.

Jorge Luís Borges dizia que as amizades inglesas “começam evitando a confidência, e em breve omitem o diálogo”. Se as amizades são assim, o que dizer das tramas do Serviço Secreto?

Parece ser uma atividade não apenas tipicamente britânica, mas tipicamente exercida por homens refinados, educados em Oxford, talvez sem a testosterona de Sean Connery ou a elegância sartorial de Michael Caine, mas articulados, cultos, dissimuladores, um tanto cruéis, um tanto sem remorsos. Se não fosse por suas preferências políticas, alguns autores britânicos que admiro, como Anthony Burgess, George Orwell, Geoff Dyer ou Bruce Chatwin, teriam sido excelentes espiões a serviço de Sua Majestade Britânica. Se é que não o foram.


O mundo dos espiões é uma ficção coletiva onde os agentes usam nomes falsos, documentos falsos, biografias falsas, e às vezes, quando são agente reais de segundo ou terceiro escalão, ficam durante anos num país estrangeiro, ganhando um salário mediano para interpretar o papel de escriturário ou arquivista, à espera de que um dia essa identidade postiça mas reafirmada ao longo do tempo possa ser útil a alguma manobra planejada pelos seus chefes.

É o que chamam de “sleepers”, “dormant agents” – agentes “adormecidos”, com tudo pronto para exercerem seu trabalho no momento em que alguém os sacudir pelo ombro e disse: “Levanta, chegou a hora.”


Na série
Smiley’s People (1982), Alec Guinness, aos 68 anos, faz um espião aposentado, calejado, ainda ressentido de algumas derrotas, que vê no deflagrar de um caso recente uma oportunidade de vingança, de acerto de contas pendentes há muito tempo. Velho e cansado, ele se desvencilha das perguntas com um sorriso benevolente e entediado; seu alheamento é tal que em mais de um momento pode ser confundido com aquele personagem de Peter Sellers em Muito Além do Jardim.

Smiley, nesse momento da vida, está como um carro com a gasolina na reserva. Poupa ao máximo as energias, e isso o torna ainda mais lacônico na hora das explicações e mais objetivo na hora de dar ordens. O que se passa em sua mente só ele sabe, porque os espiões, como os atores, são capazes de contemplar com o mesmo rosto um prato de comida, uma criança brincando ou uma pessoa morta.  


É voz corrente no mundo da espionagem que todo agente é instável e tende a se transformar em agende duplo, precisando apenas do estímulo certo (medo, cobiça, vingança, etc.) no momento certo.

O sujeito é um inglês que mora na Rússia e manda informações secretas russas para a Inglaterra. Em tese, basta uma abordagem adequada para que ele passe a mandar para a Inglaterra informações falsas, cuidadosamente preparadas pelos seus novos patrões, os russos. E em tese basta outro estímulo na direção oposta para que ele conte tudo aos ingleses e passe a trabalhar de volta para eles, levando-lhes as informações falsas dos russos e alguma informação verdadeira; torna-se um agente triplo.

No mundo ético da espionagem, o patriotismo sincero pode ser cancelado pela fidelidade ideológica, que pode ser cancelada pela cobiça financeira, que pode ser cancelada por um arrebatamento emocional (ódio, paixão sexual, etc.), que pode ser cancelado por algum outro fator – cabe ao romancista inventar tudo isso de forma plausível.

Na série Smiley’s People, Smiley é aquele velho chato, substituído por uma nova e insuportável geração de agentes secretos (brilhantemente representada na série pelos personagens de Barry Foster e Bill Paterson). Smiley é movido por dois impulsos, nessa história cheia de mortes e traições: vingar um velho general ucraniano exilado, que ele considera “um homem com princípios”, e ajustar contas com um agente russo que muito anos atrás deu-lhe uma “volta” e o fez de bobo.

A maioria dos agentes secretos são movidos por coisas assim (e mais dinheiro, sexo, etc.), e o patriotismo é algo bem no fim da fila.

 


  

domingo, 28 de março de 2021

4688) O bom senso na tradução (28.3.2021)




O que é “bom senso na tradução”? Não acontece apenas na interpretação do texto estrangeiro, no esforço para entender o que o autor disse. Pode ser – por exemplo – o bom senso de não querer traduzir em excesso, com exatidão perfeita, porque não é disso que se trata.
 
Estou lendo um conto de Brian Stableford, “The House of Mourning”. Logo no começo, o conto mostra um diálogo entre duas mulheres adultas numa situação de confronto, duas irmãs, Anna e Isabel. E ele diz:
 
Isabel had always been scared of Anna, even though she was two years older, two inches taller, and two stones heavier.
 
“Anos” não oferece problema, mas temos em seguida “inches” (polegadas, ou seja, 2,54 centímetros cada) e “stones” (medida inglesa de peso, equivalente a 6,35 quilos).
 
O tradutor pertencente ao grupo que Nelson Rodrigues, meio cruelmente, chamava de “os idiotas da objetividade”, traduziria assim:
 
Isabel sempre tivera um certo medo de Anna, mesmo sendo dois anos mais velha, 5,08 centímetros mais alta e 12,7 quilos mais pesada.
 
Ninguém precisa disso, não é verdade? Essas cifras são meramente aproximativas, e tenho certeza de que se Brian Stableford tivesse tido a idéia de medir as duas moças veria que esses números não correspondem à verdade diegética dos fatos. Para o tradutor literário, mais importante do que conferir as migalhas numéricas é seguir a simetria e a cadência da frase original, mais ou menos assim:
 
Isabel sempre tivera um certo medo de Anna, mesmo sendo dois anos mais velha, dois centímetros mais alta e com doze quilos a mais.
 
Muitas vezes o texto em inglês nos fornece distância em milhas, que a maioria das editoras aconselha a traduzir por “quilômetros” e recalcular. Nem sempre é um cálculo preciso. Existem milhas terrestres e milhas náuticas, existem medidas diferentes de “milha” em diferentes países. De um modo geral, eu calculo que uma milha quer dizer 1.600 metros, ou 1,6 km, e ponho o equivalente em português.
 
Sempre? Não, nem sempre. Uma coisa é você estar traduzindo um romance de guerra, digamos, sobre a retirada de um batalhão, e um oficial dizer para o outro: “Temos que prosseguir, faltam pouco mais de 6 milhas para chegarmos num lugar seguro.”  Se vou adaptar para quilômetros, preciso ter a consciência de que numa situação assim cada metro é importante. E digo: “Temos que prosseguir, faltam pouco menos de dez quilômetros”. No contexto da história, é preciso ficar pertinho da medida original. Para dar idéia clara da situação.
 
Às vezes estou traduzindo um daqueles romances policiais de “quarto fechado”, que frequentemente dependem de engenhocas mecânicas, muito delicadas, complexas,  para que o crime seja cometido. Digamos que o detetive observa: “Well, Watson, I see that this windowsill is only one-and-a-half-inch wide.” Em detalhes assim, cada milímetro é importante para a verossimilhança do que virá mais adiante, então digo: “Bem, Watson, vejo que o caixilho desta janela tem apenas 3,8 centímetros de largura”.



Por outro lado...
 
Se um personagem ferido estava conseguindo se arrastar “inch by inch”, basta-me dizer que ele estava avançando “centímetro a centímetro”.
 
Se um ladrão comete um roubo e as pessoas só se dão conta quando ele está a uma milha de distância, basta-me dizer que era um quilômetro de distância. Não é uma medida exata. É só mesmo para dizer que o cara estava bem longe.
 
Traduzir “certo” muitas vezes não é o bastante. É preciso traduzir da maneira mais adequada, para que o leitor receba a informação do modo mais conveniente.

Uma vez eu estava revisando uma tradução, feita por um tradutor profissional, amigo meu, um cara que podia perfeitamente estar corrigindo uma tradução minha. Lá vou eu, em céu de brigadeiro, e de repente me dou conta de que o personagem do livro está em sua sala, lendo um romance: O Julgamento, de Franz Kafka.
 
Juro que nem percebi de imediato. Mas rabisquei na lateral da lauda: Não seria “O Processo”?  Demos muita risada disso, e para mim ficou um exemplo perfeito, porque “the trial” admite as duas traduções, mas o romance de Kafka é conhecido entre nós apenas por uma delas. Não adianta colocar a outra e dizer que “está tecnicamente correto”. O próprio conceito de “tecnicamente correto” precisa ser mais exigente do que isto.
 
Alguns anos atrás comecei a traduzir para o selo Alfaguara (hoje parte da Companhia das Letras) a obra de Raymond Chandler. Minhas traduções eram revisadas e discutidas pelo editor, Marcelo Ferroni, que não apenas corrigia meus erros e cochilos, como dividia comigo a tarefa sempre espinhosa de achar um título para a obra. (Na tradição do mundo editorial, como no mundo jornalístico, é o editor quem dá o título do livro ou da matéria, não o tradutor ou o redator da notícia.)
 
Alguns títulos chandlerianos não deram muito trabalho, pois acho que The Long Goodbye tem mesmo que ser O Longo Adeus, e The Big Sleep já se consagrou como O Sono Eterno – não vimos necessidade de mexer em nada disso. (Embora Boris Vian tenha traduzido este último como Le Grand Sommeil, e essas “jurisprudências” sempre são levadas em conta.)



Surgiu um pequeno impasse com Farewell, My Lovely. As edições brasileiras anteriores tinham optado por Adeus, Minha Adorada, na versão de Newton Goldman para a Brasiliense, e na de Marina Leão Teixeira Viriato de Medeiros para a Abril Cultural. A tradução espanhola de José Luis López Muñoz era Adiós, muñeca.
 
Começamos um cabo-de-guerra, porque Marcelo preferia Adeus, Minha Querida e eu, inspirado na tradução francesa de Geneviève de Genevraye (Adieu, Ma Jolie), queria colocar Adeus, Minha Linda.
 
Tudo isto aconteceu ao longo do ano de 2015, marcado pelo rumoroso processo do impeachment de Dilma Roussef, e eu andava num baixo astral tão grande que em algum momento pensei em intitular o livro Tchau, Querida.
 
E teve o caso de The Little Sister, que, se não me engano, sempre foi traduzido entre nós como A Irmãzinha.  De fato, a história apresenta uma dupla de irmãs cuja rivalidade desencadeia uma série de crimes. Marcelo Ferroni, contudo, observou que a expressão “a irmãzinha” sugere a imagem de uma garotinha de tranças, com dez anos de idade. E a personagem crucial do livro, a verdadeira “mulher fatal” é, das duas, a irmã mais nova. E ficou este o título: A Irmã Mais Nova, que me parece igualmente verdadeiro, e mais original.


Isto está certo, aquilo está errado? Nunca se sabe. Chega um momento em que traduzir é igual a escrever: a partir de um certo ponto não existem mais o certo nem o errado, e sim o que a nossa intuição nos diz ser o mais adequado. Ou o mais bonito. Ou o mais inovador. Ou o mais comercial. Ou o mais sonoro. Ou o mais “literário”.
 
As possibilidades, como sempre, são infinitas. 











quinta-feira, 25 de março de 2021

4687) Primeiras Estórias: "Nenhum, Nenhuma" (25.3.2021)



(desenho: Luís Jardim)
 
O oitavo conto do livro Primeiras Estórias  (1962) de Guimarães Rosa é uma não-história, um não-enredo. Ele mostra uma situação lembrada e descrita, mas que não se conclui num desfecho. Um redator de “Manuais de Escrita Criativa” devolveria o texto ao autor, dizendo: “Isto aqui não é um conto, não tem começo, não tem meio, não tem fim. Vai ser muito difícil colocá-lo no mercado. Reescreva.”
 
Tem ficado cada vez mais nítida (e mais forçada) aqui no Brasil a idéia tipicamente européia e norte-americana de que toda história tem que ter começo, meio e fim. É como aquele pintor do século 16 que preconizava: “Toda pintura a óleo deve representar uma batalha, uma cena religiosa ou o retrato de um nobre – senão, para que se dar o trabalho de pintar um quadro?!”.
 
Não tenho nada contra a idéia do “conto em forma de seta”, a narrativa que aponta toda para um desfecho. A maioria dos meus contos segue exatamente esse formato. Apenas acho que não é a única forma, nem a mais importante, nem sequer a mais “colocável no mercado”. 
 
Guimarães Rosa tinha seus formatos próprios de história. Eu diria que o formato de “Nenhum, Nenhuma” é o de um diafragma de câmera fotográfica. Algo meio circular, meio em forma de rosácea, que se abre a partir do centro, deixa entrever um ambiente, um grupo de pessoas conversando num cenário, e depois se fecha novamente.
 
E nesse abrir e fechar-se, e deixar passar a luz, ele pode dirigir seu foco para um detalhe, para uma pessoa, para o ambiente em geral.


O Menino (olha ele aqui, o mesmo Menino com inicial maiúscula dos contos de abertura e encerramento do livro) está passando uns dias numa casa de fazenda de alguém da família. Desse período curto, mas confusamente revelatório, ele guarda uma lembrança que tenta emergir e depois tenta esconder-se novamente, à maneira esquiva de certas lembranças infantis.
 
Por isso mesmo, e pela falta de enredo articulado, novidadeiro, penso que se trata não de história inventada, como se autoproclamava a de Augusto Matraga, mas de um episódio autobiográfico, alguma coisa da infância de Rosa, senão não tinha nenhuma razão do próprio, nascido em 1908, fazer questão de destacar:
 
Na verdade, a data não poderia ser aquela. Se diversa, entretanto, impôs-se, por trocamento, no jogo da memória, por maior causa. Foi a Moça quem enunciou, com a voz que assim nascia sem pretexto, que a data era a de 1914? E para sempre a voz da Moça retificava-a.
 
Na tal fazenda onde o Menino está de passagem, há a Moça, figura ao mesmo tempo maternal e erótica nas fantasias dele. Há o Moço, pretendente dela, amigo da família do Menino, mas por uma questão de rivalidade edipiana o Menino vê o Moço com “antipatia”, “rancor”, “ciúmes”. Há o Homem, um velho silencioso, distante, meio carrancudo, que é também o pai da Moça.
 
E há um quarto da casa ao qual nos primeiros dias o Menino tem acesso proibido (como o quarto proibido na casa do Barba Azul), e no qual ele vem a descobrir, com o passar dos dias e o afrouxamento dos cuidados, que mora uma velha, a Nenha, “uma velha, uma velhinha – de história, de estória – velhíssima, a inacreditável”. Nenha é tão velha que não apenas não lembra mais quem é, mas ninguém da família sabe como ela foi parar ali.
 
Antes de vir para a fazenda, ela ter-se-ia residido em cidade ou vila, numa certa casa, num Largo, cuidada por umas irmãs solteironas. Mesmo essas, mal contavam. Dera-se que, em tempos, quase todas as antecedentes mulheres da família, de roca e fuso, sucessivamente teriam morrido, quase de uma vez, do mal-de-semana, febre de parto; daí, rompido o conhecimento, os homens se mudando, andara confiada a estranhos a Nenha, velhinha, que durava, visual, além de todas as raias do viver comum e da velhez, mas na perpetuidade.
 
As mulheres velhas são literariamente um arquétipo da sabedoria pragmática, pré-livresca, das famílias unidas por laços de afetos e vivência, não por sobrenomes. Figuras iniciáticas, repositório concentrado da anima. Talvez a mais simpática dessas, na obra de Rosa, seja a Lina da “Estória de Lélio e Lina” (em Corpo de Baile, 1956). A Nenha deste conto é remota até a si mesma, não se alcança, não se lembra – emite apenas alguns murmúrios, e uma presença.
 
Me vem à memória o conto “Novecentas Avós”, de R. A. Lafferty, sobre um planeta onde as pessoas não morrem. Ficam pequenininhas, cada vez menores, e são colocadas pelos descendentes em porões especiais, onde continuam a diminuir. Com o passar dos séculos, ficam do tamanho de bonecas, depois do tamanho de insetos. O narrador é levado a um desses porões e pergunta a uma daquelas microscópicas avós como começou a raça humana daquele planeta. Ela começa a rir, todas as outras a imitam, e “era como o som de um bilhão de micróbios gargalhando”.


O que tem tudo a ver com a descrição que o Menino faz da Nenha: “...ela seria apenas a mãe de uma outra, de uma outra, de uma outra, para trás”.
 
Escrevi sobre o conto aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2009/12/1428-novecentas-avos-11102007.html
 
No conto de Rosa, a velhinha diminui, sim: “Traziam-na, para tomar sol, acomodadinha num cesto, que parecia um berço”. Mas sua interferência na estória é apenas de catálise, porque os cuidados que a Moça tem com ela despertam o ciúme do Moço, seu pretendente, que começa a questionar para quê tantos cuidados, até porque o Homem, pai da Moça, está “desenganadamente doente, para qualquer momento, mortal”.
 
O vislumbre da morte parece tornar o Moço impaciente, e o Menino presencia e descreve o casal jovem discutindo a relação, discutindo o que é o morrer, o querer, o lembrar. Ele e a Moça ficam de cara feia. E no dia seguinte ele chama o cavalo, monta, e leva o Menino de volta para a casa dos pais, de onde o trouxera. Acabou-se o passeio.
 
O trecho final é o regresso do Menino à casa, mas com a visão transformada por esse episódio.
 
Nunca mais soube de nada do Moço, nem quem era, vindo junto comigo. Reparei em meu pai, que tinha bigodes. Meu pai, estava dando ordens a dois homens, que era para levantarem o muro novo, no quintal. Minha Mãe me beijou, queria saber notícias de muita gente, olhava se eu não rasgara minha roupa, se tinha ainda no pescoço, sem perder nenhum, os santos de todas as medalhinhas.
 
E eu precisei fazer alguma coisa, de mim, chorei e gritei, a eles dois: “ – Vocês não sabem de nada, ouviram?! Vocês já se esqueceram de tudo o que, algum dia, sabiam!...”
 
E eles abaixaram as cabeças, figuro que estremeceram.
 
Porque eu desconheci meus Pais – eram-me tão estranhos; jamais poderia verdadeiramente conhecê-los, eu; eu?
 
Veja-se a sutileza desta pergunta final, porque o conto é narrado na terceira pessoa, sempre se referindo a “o Menino”, e só no trecho transcrito acima as recordações se tumultuam todas e se derramam incontíveis na confissão pessoal. Era eu, o Menino. Foi comigo, essa coisa que eu não lembro direito como foi. Seria isto, psicanaliticamente, o momento da cristalização do Eu?...
 
É um episódio sobre velhice, morte, amor, lembrança. Uma semi-recordação fundamente escavacada, e exumada aos pedaços, como um fóssil arrancado por um trator. A figura do Pai e da Mãe, talvez, compreendidos agora não como entidades fixas, mas como seres também arrastados pelo fluxo do Tempo, sujeitos à juventude, à velhice, à morte.



 
Guimarães Rosa viveu em Paris entre 1948 e 1950, como primeiro-secretário e conselheiro da embaixada do Brasil. Voltou ao Brasil em março de 1951, para ser chefe de gabinete do Ministro João Neves da Fontoura.

 
Alguém já me disse, mas nunca confirmei essa informação, que nessa estadia em Paris ele teria feito análise com Jacques Lacan, numa fase anterior à dos Seminários que tornaram Lacan famoso. Mesmo que não seja verdade, faz um certo sentido. A obra do autor mineiro tem a reiterada busca da infância, a mutabilidade das lembranças exumadas, o uso do trocadilho como revelação e descoberta, o emprego de recursos da álgebra e da geometria como formas de expressão literária. Para procurar (como diz o Menino) “o luar do meu mais-longe”.
 

(J. G. Rosa, menino)