domingo, 20 de dezembro de 2020

4654) Leituras de 2020 -- parte 1 (20.12.2020)



Não vou comentar aqui tudo quanto li este ano, até porque alguns desses livros foram comentados mais extensamente na época da leitura. Darei o link abaixo, quando for o caso.
 
Vou começar com autores brasileiros, dos quais li relativamente pouca coisa este ano. Tenho uma certa dificuldade em “ficar em dia” com os lançamentos. Conheço gente que lê 50 livros lançados durante o ano.
 
Como conseguem? Não sei. Sou um leitor pedestre, e eles devem ser leitores ciclistas. O que não significa que eu um dia não chegue ao mesmo destino. E que quando eu chegar eles já estejam lá adiante, respirando outras paisagens.
 
Até pouco tempo atrás eu estava numa de preencher as lacunas nas obras de alguns autores clássicos. Este ano dei com os burros nágua, mas consegui, felizmente, ler um livro que me despertava a curiosidade há muito tempo: A Casca da Serpente (1989), de José J. Veiga.


O pessoal o considera uma espécie de romance de “Realidade Alternativa”, porque o enredo postula que Antonio Conselheiro sobreviveu ao massacre de Canudos, tendo sido retirado do arraial por um grupinho de seguidores, antes da derrocada final. Longe dali, eles começam a fundar um outro arraial fundado no trabalho coletivo. O mais interessante é a transformação que o Conselheiro sofre. Depois de se recuperar da doença, ele corta a barba, o cabelo, para de rezar o tempo todo, pede conselhos aos seguidores, enfim – transforma-se num líder de perfil mais moderno e menos fanatizado.
 
Veiga o mistura no final com outras figuras históricas da época que por motivos variados estão de passagem pelo sertão da Bahia. Entre elas estão a compositora Chiquinha Gonzaga e o anarquista russo Piotr Kropotkin.  Veiga escreve de maneira simples, compacta, sem encher muita linguiça, defeito que prejudicou um pouco outro livro interessante dele, O Relógio Belisário. Aqui, o melhor mesmo é sua tentativa de imaginar um “Canudos passado a limpo”, pequeno, discreto, sem fanatismo, sem guerra, um Canudos mil vezes mais utópico do que o Canudos real.


Li pela primeira vez uma coletânea de Moacyr Scliar, O Olho Enigmático (1986), com muitos contos curtos, alguns sem muito impacto, outros criando bem aquele clima em que Scliar era muito bom – histórias cotidianas de gente comum que pouco a pouco resvalam para um absurdo meio kafkeano. Era um tipo de história que teve grande força aqui, nas décadas de 197-80. Foi substituída talvez pelas histórias de crueldade urbana na linha de Rubem Fonseca.
 
São contos curtos, a maioria tendo saído em revistas. Como também pratico esse tipo de publicação, me arrisco a dizer que em muitos casos o conto curto é um fim em sim, uma pequena história contada num pequeno texto, definitivo, irretocável. E em outros casos é uma espécie de grão de areia que ao autor joga pra ver se depois cresce alguma pérola em torno dele. Um conto curto que a gente escreve para segurar a idéia, para não esquecer, para guardar o lugar e depois, se o vento soprar favoravelmente, tentar uma ampliação que está sempre possível no horizonte. Tenho muitos contos de vinte páginas cuja primeira versão tinha uma página e meia.



Comentei aqui no blog há alguns dias a Viagem a Altemburgo (1990) de Guilherme Figueiredo, cuja primeira versão é de 1955. É um romance utópico seguindo o modelo tradicional onde um sujeito vai parar, inadvertidamente, numa sociedade oculta e aparentemente perfeita, dirigida pela razão, pela lógica, pelo espírito coletivo, etc. O que difere o livro de Figueiredo dos outros dessa linha é que ele se diverte escrevendo. Em geral o romance utópico brasileiro é muito pedante, muito professoral, muito politicamente correto, e a primeira reação que produz no leitor é de “eu detestaria morar numa sociedade assim”. O Altemburgo imaginado por ele é uma cidade olímpica, perfeccionista, “do bem”, “de bem”, meio pretensiosa. Tem alguns detalhes meio surpreendentes – quando alguém é eleito prefeito, por exemplo, é obrigado a tomar um preparado que vai matá-lo no fim do mandato de cinco anos. Enfim – de idéias utópicas está pavimentado o caminho do inferno.
Bartolomeu Campos de Queirós é um autor que vim a conhecer através do grupo teatral Ponto de Partida, de Barbacena (MG). Vermelho Amargo (Cosac Naify, 2011) é uma noveleta de recordações de infância numa prosa intensamente poética, elíptica, concentrada, e cheia de flashes muito perceptivos sobre vida cotidiana.
 
Esses pequenos livros (às vezes chamados meio impropriamente de romances, porque na verdade são muito maiores do que um simples conto) costumam surgir obscuramente, revelar-se aos poucos, provocar impressões profundas nos leitores e com isso se perpetuar. É a intensidade de sua linguagem que os preserva, o seu impacto exigente sobre os leitores. Este pequeno livro poderá ser tão duradouro (expandindo-se tanto na memória coletiva) quanto Um Copo de Cólera (1978) de Raduan Nassar, A Casa da Paixão (1977) de Nélida Piñon e outras pequenas jóias compactas.
 
 
(continua nos próximos dias)
 
 
 
 
 
 






quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

4653) A arte de criar um mundo (17.12.2020)



(foto: Evgeny Kornienko)

Um dos conselhos mais úteis que já ouvi em oficinas de Como Escrever Prosa de Ficção foi: “Imagine tudo, de forma sólida e coerente, e conte apenas a parte que interessa à sua história”.
 
É o famoso “contar em 360 graus”. Isso não se refere à temperatura, mas ao raio de visão do autor, que descreve um círculo completo em volta da cena que está narrando, visualiza (=inventa) o que pode estar acontecendo em volta naquele instante, e, quando é o caso, inclui isso na descrição da cena.
 
Digamos que o autor quer contar uma discussão conjugal entre marido e esposa. Geralmente o autor coloca os dois a sós, na sala de casa. Melhor ainda: no quarto de dormir. Nada acontece em volta, e pronto, ele pode se concentrar somente no que o marido diz, a mulher rebate, o marido ironiza, a mulher reclama, o marido negaceia, a mulher acusa... Como dizia o outro: “e não se avista o fim”.
 
Cenas assim são excelentes para o teatro (peças para um casal de atores costumam dar lucro), que é A Arte Do Mundo Subentendido. No teatro, o ator pára no centro do palco vazio, faz um gesto largo e diz para a platéia: “Eis o centro de Babilônia, a maior metrópole do mundo!”  E a platéia aceita que tem uma babilônia qualquer ali.
 
Na literatura poderia ser a mesma coisa, mas não custa nada – por exemplo – botar o casal tendo a mesmíssima discussão numa praça onde crianças brincam. Ou na praça de alimentação de um shopping. Ou no escritório onde ambos trabalham. Ou na festa de aniversário da mãe/sogra. Ou num avião durante o voo.
 
Isso quer dizer que quando escolhemos um desses ambientes somos obrigados a imaginá-lo por inteiro. Aliás, não gostei desse “somos obrigados”, porque na literatura ninguém nos obriga a nada, escrevemos o que quisermos, e só quem nos obriga a fazer algo são nossas idéias preconcebidas, tipo “assim o livro não vai vender”, “isso aqui está profundo demais e os leitores são rasos”, etc.
 
Digamos então: quando escolhemos um desse ambientes temos a magnífica oportunidade de imaginá-lo por inteiro. De pensar quem são as pessoas que estão ali em volta. (Não é preciso criar uma biografia para cada uma; podem ser personagens de papelão, contando que suas intervenções pareçam ter naturalidade, que suas ações pareçam brotar de dentro delas e não de uma conveniência do autor para poupar-se maior trabalho.)
 
E assim a discussão do casal parece mais real, porque está tocando outros filamentos do “mundo real”, fazendo-os estremecer. Estão na praça? Aparece uma criancinha inocente: “Por que a senhora está chorando?”, etc. Estão no voo? Um sujeito bonitão se vira no banco da frente: “Ô companheiro, não quero me meter, mas não é assim que se fala com uma mulher.”  Estão no escritório? O patrão surge do nada, os dois dão pausa, zeram tudo, sorriem com servilismo, e voltam a se pegar quando ele dá as costas. Estão na festa de aniversário da sogra dela? Ela diz: “Olha, vamos maneirar, sua mãe não tira os olhos da gente”.


A cena dos dois se relaciona com aquela faixazinha do mundo em volta. Isto serve inclusive para quando você não sabe mais o que fazer com a cena: você faz com que alguém venha de fora e os interrompa, trazendo um mote novo. É o velho conselho de Raymond Chandler: “Quando não souber mais pra onde levar a cena, faça alguém entrar pela janela de revólver em punho”. Ele falava metaforicamente, claro. Queria dizer: “Faça a cena ser interrompida por algo que tenha a ver com a história”.
 
Chandler tinha outra maneira de descrever isso. No ensaio “The Simple Art of Murder” (1944), ele elogia o romance policial inglês, comparando-o com o norte-americano, por ser mais bem escrito, no sentido de imaginar com mais solidez o ambiente onde ocorre. Ele fala:
 
“Há uma sensação mais forte de ambiente, como se a mansão de Cheesecake Manor existisse de fato, e não apenas a parte mostrada pela câmara.” 
 
Por que essa comparação? Porque nas cenografias do cinema costuma-se construir apenas a parte que vai ser mostrada pela câmera (ficaria caro demais construir tudo).
 
John Jeremy Sullivan conta um episódio curioso sobre isso (“Peyton’s Place”, Pulphead, 2011). Durante algum tempo ele cedeu o casarão “de época” onde morava para uma equipe de TV gravar cenas de uma série. De vez em quando, no dia combinado, ele subia com a família para o andar de cima, a equipe ocupava o vestíbulo e a sala de visitas, gravavam as cenas o dia inteiro, depois desarmavam tudo e iam embora. (E pagavam principescamente.)


Sullivan observa que em certa época percebeu que eles tinha coberto com um papel de parede diferente toda a parede do vestíbulo bem como da escada que levava ao 1º. andar, e apenas uma parte da parede do corredor de cima. O papel de parede se interrompia bruscamente a certa altura.
 
Ele foi perguntar por quê, uma vez que ficava estranho, metade da parede com papel, a outra com a pintura. E o cara explicou que eles só precisavam botar papel até o ponto que a câmera mostrava. Mas (reconhece ele) “quando mostramos a anomalia eles a corrigiram instantaneamente”.
 
Não se trata de incompetência nem de excesso de competência. É que quem está filmando pensa apenas no resultado que vai ser apresentado na tela. O resto não existe. (Isso pode ser bom, e pode ser ruim.)
 
Sullivan conta no mesmo artigo outro episódio. A casa dele servia (na série) como residência de uma moça, Peyton; a série contava a vida dela. Houve um dia em que vieram filmar e toda a filmagem consistia numa cena da moça com o pai dela, uma breve discussão e ela dizendo: “Não era isso que eu queria!”.
 
Fizeram infinitos takes, com infinitas ênfases. “Não era ISSO que eu queria!”. “Não era isso que EU QUERIA!” E por aí vai. Sullivan descreve a chegada da equipe de filmagem como a chegada de uma pequena cidade que ocupa sua sala de visitas. E comenta: “Não teve outra cena. Quando acabaram, foram embora. Por volta da meia-noite, as barreiras que interditavam o trânsito na rua foram desmanchadas. A cidade foi embora. Existiu apenas para garantir aqueles vinte segundos de cena.”
 
Quando escrevemos, estamos nos concentrando tanto nos vinte segundos de cena, ou vinte minutos (=a discussão do casal) que é mais fácil fingir que não existe mundo em volta deles. Mas não custa nada parar de escrever por vinte minutos, fechar os olhos, imaginar aquele ambiente (o avião lotado, a praça-de-alimentação quase vazia mas os balcões com garçonetes espreitando à distância, etc.) e, sem tirar o foco de cena, enriquecê-la com alguns contatos com o mundo de fora.
 
Exemplos? A cena memorável de Harry e Sally: Feitos um Para o Outro em que Billy Crystal e Meg Ryan estão num restaurante, ela finge um orgasmo em voz alta e uma mulher numa mesa próxima chama o garçom e diz: “Eu quero o que ela está comendo”. Sem essa fala, não haveria cena.   
 


 
 
 
 
 
 
 




segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

4652) Zé Calixto e o fole de 8 baixos (14.12.2020)


(foto: Antonio David Diniz)

Por uma dessas simetrias irônicas da vida, neste domingo dia 13, aniversário de Luiz Gonzaga, nossa música perdeu o grande Zé Calixto, 87 anos, um dos mestres do fole-de-8-baixos do forró nordestino.
 
Os Calixto (Zé, Luizinho, Bastinho) são uma linhagem de músicos talentosos e populares. Conhecendo a eles e à sua obra não é difícil entender o "caldo cultural" de onde emergiram figuras hoje internacionalmente famosas como Sivuca e Hermeto Paschoal.
 
Uma vez, nos anos 1990, fui convidado para cantar meus martelos numa coletiva de músicos nordestinos no Circo Voador do Rio. Estava nos bastidores, no meio de dezenas de figuras, conversando com Zé Calixto, quando se aproxima uma figura leonina de cabelos e barbas quase brancos: "Você é Zé Calixto? Meu nome é Hermeto Paschoal, e sou seu maior fã.”
 
Presenciei assim o que imagino ter sido o primeiro papo pra-valer entre esses dois reis do teclado.
 
Teclado é um modo de dizer, porque o fole de oito baixos usa botões, como as “gaitas” gaúchas. E tem como principal característica técnica o fato de que, quando se aperta um botão, “abrir o fole” produz uma nota musical, enquanto que “fechar o fole”, apertando o mesmo botão, produz outra. Na sanfona convencional, o acordeom, tudo é muito mais simples – a nota musical é a mesma, não importa em que direção a gente puxe ou empurre o fole.



O fole-de-8-baixos é um instrumentozinho invocado, pequeno, difícil, rico de recursos. Como dizia Dominguinhos, com uma gargalhada: “A vantagem dele é que é mais leve...”
 
Era o instrumento do velho Januário, o pai de Gonzagão. E o próprio Gonzagão juntou-se a Humberto Teixeira para produzir a canção “Respeita Januário”, onde Luiz conta como voltou para Pernambuco no auge do sucesso, para rever os pais. O velho Januário torceu o nariz diante do sucesso do filho, nesse monólogo criado e falado com a genialidade de Gonzaga:
 
“O nêgo agora tá gordo que parece um major... É uma casemira lascada, um dinheiro danado... Enricou!... Tá rico!... Pelos cálculos que eu fiz, ele deve possuir pra mais de dez contos de réis. Sanfonona grande danada... 120 baixos. É muito baixo. Eu nem sei pra que tanto baixo, porque arreparando bem ele só toca em dois! Januário não. O fole de Januário tem 8 baixos, mas ele toca em todos oito.”
 
Esse detalhe do número de baixos é um tratado completo sobre estética e tecnologia. A rigor, os 120 baixos da sanfona de Luiz Gonzaga são tão supérfluos quando os 18 milhões de cores do PhotoShop. Pra que isso tudo? Com 10 por cento disso, e talento, qualquer artista se vira muito bem.
 
O fole não precisa ter necessariamente oito. No começo (dizem) tinha dois, e aqueles dois botõezinhos à disposição da mão esquerda do tocador lembravam o casco bífido de um caprino, daí (segundo algumas interpretações) o nome “pé de bode” atribuído ao instrumento. Há foles de 12 baixos ou mais, e cada instrumentista usa o que lhe convém.



Quem quiser se aprofundar no estudo dele não tem porta de entrada melhor do que o livro de Léo Rugero, Com Respeito aos oito baixos – Um estudo etnomusicológico sobre o estilo nordestino da sanfona de oito baixos (“Prêmio Produção Crítica em Música”, Funarte, 2012 / Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 2013). 

Léo Rugero, paulista criado no Rio de Janeiro, pesquisador musical da UFRJ, mergulhou nessa colônia nordestina de sanfoneiros e puxadores de fole, produzindo este livro repleto de informações preciosas, e um documentário homônimo que pode ser visto na web.
 
A pesquisa de Rugero centrou-se várias vezes na pessoa de Zé Calixto, como representante mais velho de um clã que, ao contrário do pai deles todos, Seu João de Deus, transferiu-se para o Rio de Janeiro, teve acesso aos estúdios de gravação, e dos anos 1960 em diante deu uma sobrevida de meio século a essas formas musicais.
 
O blog de Rugero, Sanfona de 8 Baixos, pode ser acessado aqui:
 
Zé Calixto teve mais de duzentas composições gravadas. É interessante notar, para quem se interessa por esse tipo de música, que apesar de ser tradicionalmente identificado com o forró nordestino o fole de 8 baixos presta-se muito bem ao samba, ao choro, ao frevo e outros estilos musicais. O choro, principalmente, pelo seu perfil marcadamente instrumental e pela perícia que normalmente exige dos executantes, é um estilo de música que tem tudo a ver com os 8 baixos.
 
Aqui, por exemplo, podemos ouvir seu disco de 1961, onde ele interpreta clássicos instrumentais como o frevo “Vassourinhas” (Matias da Rocha-Joana Batista Ramos) e o samba “Escadaria” (Pedro Raimundo).
 
“A volta do sanfoneiro” (Philips, 1961)


Nascido em 1933 em Lagoa Seca, na época pertencente ao município de Campina Grande, Zé Calixto foi filho de tocador, tal como aconteceu com Luiz Gonzaga, e desde pequeno acompanhava o pai nos bailes rurais onde este tocava. Mudou-se para o Rio em 1960 e conseguiu sua primeira gravação intermediado pelo compositor Antonio Barros, outro recém-chegado naquela imensa leva pós-Gonzaga, pós-Jackson do Pandeiro, quando os estúdios cariocas ficaram repletos de tocadores, cantores e ritmistas gravando discos modestos que vendiam como água.
 
Aqui, um programa da TV Paraíba, em duas partes, criação de Rômulo Azevedo, onde Zé Calixto conta com o bom humor de sempre a sua odisséia nordestina:
 
“A Paraíba e Seus Artistas” (Rômulo Azevedo)
Parte 1:
Parte 2:
 
E aqui, números musicais entre Dominguinhos e Luizinho Calixto, um dos irmãos do mestre falecido – professor, compositor, instrumentista e continuador da Grande Arte.
 
Dominguinhos + Luizinho Calixto:
 
 







domingo, 13 de dezembro de 2020

4651) Entrevistas Transcendentais: Julio Cortázar (13.12.2020)




Paris no outono. A surpresa de uma rajada de vento frio no dobrar de uma esquina. Um dia branco de luminosidade onipresente, algumas folhas arrastadas no chão. O ameaço de chuva me fez calçar o par de botas usadas que comprei num mercado perto da Porte de Clignancourt, e botar o casaco impermeável. Neurótico com horários, cheguei ao endereço com quarenta minutos de antecedência, mas me dominei e fui tomar um café na esquina, olhando de longe o portão de ferro que dava acesso ao pátio.
 
Um minuto após a hora aprazada toquei a campainha e ele me recebeu, trajando pulôver cinza claro, calça escura, sapatos silenciosos. O olhar era cansado e franco; o sorriso mostrava dentes precários, e a barba e o bigode lhe davam o aspecto de um Lon Chaney de bom coração. Meio encurvado, meio cerimonioso, desculpou-se por não falar português, o que não o impediu de, ao longo da conversa, citar versos inteiros e usar expressões brasileiras, sempre com propriedade. 

Falou no seu castelhano pausado, e algumas vezes, meio que por distração, num francês de tradutor. (Já observei, não sei se por auto-sugestão, que os tradutores profissionais falam as línguas que lhes são estrangeiras com um certo apuro, um certo respeito a cada palavra, como se “ser compreendido” fosse a prioridade absoluta.)
 
Sentamo-nos na sala onde duas portas lado a lado conduziam a uma varanda ampla com gradil. Deduzi que o pátio interno do prédio ficava do lado do quarto; ali, o balcão dava para a rua dos fundos que ele me mostrou com gestos largos, apontando a direção do bulevar principal, da estação de metrô onde saltei, mostrando o prédiozinho antigo onde moravam amigos, e o toldo do buquinista que costumava visitar.


(Paris)

Serviu um vinho, perguntou de onde eu era, onde morava, como era minha cidade, mostrou interesse real; conversamos sobre juventude, leituras de juventude, comparamos décadas. Perguntei-lhe sobre ficção científica, ele balançou a cabeça, sorrindo.
 
JC – Eu poderia lhe falar de Verne e Wells, principalmente o primeiro, que como deve saber é uma referência constante no que escrevo. Mas creio que a “ciencia-ficción” moderna me atraiu menos. Há talvez um excesso de detalhismo científico, do qual Verne já bastou para me cansar. Gosto dele pelo lado imaginativo, pois nos mostra mil planetas, todos aqui na Terra. 

"Aqui na França, curiosamente, tem se escrito muito sobre certos aspectos iniciáticos, ocultistas, de sua obra; seu interesse por antiguidades, ruínas, lugares secretos, sua paixão pelos criptogramas... Verne começou como um divulgador científico, um arauto da Era da Razão, mas de certa forma a Ciência o ultrapassou, o deixou para trás. Creio que hoje ele está mais próximo de um Lezama Lima, do que de um Arthur C. Clarke ou outros cientistas que escrevem.
 
BT – Sim, sempre imaginei que a ficção científica norte-americana não lhe interessaria muito...
 
JC – Mas veja, nada há de preconceito nacionalista quanto a isto, porque como sabes uma das minhas grandes influências é Edgar Poe, que li muito cedo, e cuja obra em prosa traduzi. Poe tinha seu lado científico, sem dúvida, seus interesses astronômicos, mas se há uma ciência que lhe deve muito, em nosso século – refiro-me ao século 20, claro – é a Psicologia. Existe uma ciência da mente, e estamos mais atrasados nela do que na ciência das viagens espaciais. O próprio Freud afirmou que quem descobriu o Inconsciente não foi ele, e sim escritores como Hoffmann, o próprio Poe... 

"Veja, não estou aqui defendendo a idéia de que a ciência deve invadir, catalogar e legislar esses domínios. Creio que sempre existirá um “mais além” onde nós, escritores, avançaremos com mais leveza e mais desassombro do que os cientistas. Mas se me identifico pouco com o termo ficção científica é justamente por isso, porque o que me interessa não é o que já foi definido pela ciência, o que já foi experimentado, catalogado, e sim o que está “do lado de lá”, o que nós outros apenas pressentimos, como quem ouve um ruído profundo e não sabe de onde vem.
 
BT – Em seu famoso paralelo entre a literatura e o boxe, o conto precisa ganhar por nocaute, mas o romance pode se dar o luxo de vencer por pontos. Tenho amigos e amigas a quem o boxe não agrada, provoca-lhes até uma certa repulsa. Como poderia traduzir isto para essas pessoas?
 
JC – É claro que me ocorreu falar do boxe porque faz parte de minha história pessoal, da história dos homens de minha geração, e mesmo reconhecendo ser um esporte muitas vezes brutal consigo ver nele um sistema que contém valores positivos. Além disso, tem uma dinâmica própria; uma relação entre tempo e energia, que foi o que tentei exprimir nessa comparação. 

"Mas podemos dizer tudo isso de outra forma. Posso dizer, por exemplo, que vejo o conto como uma casa, e o romance como uma cidade. O conto é um lar, um espaço fechado e intenso, que não necessita de alargamento, mas onde tudo converge para si mesmo, cada objeto que está ali se relaciona a todos os outros, pertence ao mesmo espírito, o espírito das pessoas que ali habitam. E uma cidade é um organismo imenso, aberto, que se espalha em direções muitas vezes imprevisíveis: é assim também o romance, uma forma de escrita aberta, expansiva, cujo crescimento se dá de maneira mais lenta e por isso mesmo responde às variações do tempo, responde às mudanças na alma de quem o escreve. Poderia dizer também, para que digas a alguma de tuas amigas, que um conto é como uma noite juntos para um casal que acabou de se encontrar, e o romance é como um casamento.  

BT – O conto é sempre um vislumbre, não?
 
JC – Sim, e volto a usar aqui uma de minhas imagens favoritas, a imagem da constelação, da junção de elementos díspares que às vezes nos é dado entrever. O conto curto, como eu o entendo, é algo como a fotografia, que às vezes registra de forma instantânea uma harmonia, uma simetria, uma relação entre elementos, algo que existiu naquele segundo e um segundo depois de ser fotografado não existia mais.


(Bruxelas)

BT –Um dos seus livros de juventude, Divertimento, tornou mais clara para mim uma imagem: seus romances são escritos sobre o que chamamos “uma turma de amigos”. Mesmo quando há um protagonista solitário, ou quando há casais amorosos em primeiro plano, a ação é ocupada por uma turma que convive intelectualmente.
 
JC – Sim, sempre dei importância às amizades pessoais e não apenas no sentido, digamos, das lealdades afetivas, mas da convivência crítica, do aprendizado conjunto da arte, da literatura, da vida enfim. Não sou um grande extrovertido, sou mais o tipo solitário. Não me agradam as festas ruidosas com multidões de pessoas, mas passei belos momentos na companhia de homens e mulheres cujo espírito tinha afinidade com o meu. Pessoas com quem eu me sentia capaz de dizer os mais terríveis gracejos, fazer confissões, compartilhar sentimentos profundos.



(Paris)

BT – Vemos isso, mais famosamente, no Jogo da Amarelinha, mas também em O Livro de Manuel, 62: Modelo para Armar, no próprio Divertimento... Talvez em Os Prêmios...
 
JC – Não, creio que Os Prêmios ocorre num outro plano, de pessoas aleatoriamente convocadas pelo Acaso para conviver no ambiente fechado de um navio. É outro tipo de dinâmica, com algo de confronto entre estranhos. Mas você tem razão no que se refere a esses pequenos grupos. Em muitos casos trata-se de exilados noutro país, uma condição que por si mesma os aproxima, os enclausura num relacionamento mais intenso, os força ao questionamento político, ao questionamento estético, existencial e tudo o mais.
 
BT – Com relação ao exílio, ele sempre envolve uma ruptura, mas em alguns casos, pode ser também um acesso a outras formas de evolução, de crescimento pessoal...
 
JC – Sem dúvida, porque, e isto se aplica a qualquer um, procuramos sempre tirar das novas circunstâncias o que têm de positivo. Em meu caso, o exílio inicial foi voluntário, ninguém me expulsou da Argentina, vim morar em Paris por vontade própria.
 
BT – Sua literatura tanto tem de parisiense quanto de portenha, não?
 
JC – Paris foi a cidade que escolhi para trabalhar e viver, e uma cidade que sempre me deu muito, e que se tornou o meu ponto de vista para observar o mundo, sem que com isso Buenos Aires tenha deixado de sê-lo também. Assim, se pode dizer que ganhei dois pontos de vista, mas sempre insisto em lembrar que toda minha literatura é feita no meu idioma natal. É com ele que me expresso, e que dialogo.
 
BT – Quando se tem duas cidades – a cidade de origem e a cidade onde se mora atualmente  – é forçoso ter esse ponto-de-vista duplo. Muitos, no entanto, devem tê-lo criticado por ter adquirido esse lado francês.
 
JC – Sim. Quando se tem duas cidades, é um pouco como quando se tem duas mulheres diferentes, duas amantes. Por mais que tu faças por uma, ela sempre vai imaginar que fazes muito mais pela outra. Cidades são como mulheres, e às vezes são ciumentas.
 
BT – Por que escolheu Paris? Alguma razão especial?
 
JC – Não uma “especial”, mas várias pequenas razões que se foram superpondo. A familiaridade com o idioma, que eu já lia e falava, inclusive pela influência materna, pois minha mãe apesar de argentina de nascimento era filha de franceses, poderia inclusive ter sido uma tradutora, se tivesse vivido num ambiente menos machista e menos patriarcal.




(Banfield, Buenos Aires)

BT – Pergunto isto porque li alguns depoimentos seus, ou correspondências, falando de suas primeiras vindas à Europa, idas aos museus, etc. Lembrou-me um escritor brasileiro, Osman Lins, que quando viajou pela primeira vez para a Europa estabeleceu para si mesmo um roteiro muito rigoroso de estudo de Arte, obrigou-se a visitar tais e tais igrejas, tais e tais capelas, museus, galerias, às vezes indo a uma pequena cidade italiana ou francesa para admirar uma única obra, um mural... É uma dedicação metódica à arte que minha geração, pelo menos, não chegou a ter.
 
JC – Sim, esse tipo de dedicação era algo muito importante para mim naquela época. A apreciação da arte européia era o outro lado, por assim dizer, do nosso movimento de independência, de tentar nos libertar da mentalidade européia, do impulso tão argentino de negar a América e fingir que éramos europeus exilados. 

"Paradoxalmente, a arte européia, a arte renascentista, a música sinfônica, a pintura, a grande poesia, a grande novela, nos libertavam desses laços puramente políticos, econômicos e militares que desenharam a colonização do Cone Sul. Há na grande arte européia – e em toda a grande arte, por suposto – um espírito universalizante que nos acolhe, a nós latino-americanos, e que diluindo essas fronteiras artificiais nos mostra que nossa arte portenha pode também empolgar o espírito de um rapaz na Espanha, de uma moça em Paris, de jovens na Inglaterra ou na Alemanha... Além da experiência estética em si, creio que era isto que eu procurava, e não só eu. 

"É curioso que você cite o exemplo de Osman Lins, um escritor cujo Avalovara é um livro que muito admiro, porque sinto nele essa mesma pulsação universal e sem dúvida brasileira, porque o Brasil que ele descreve é um Brasil que, sem conhecer em primeira mão, aceito como verdadeiro, até quando não o entendo por completo.


(Paris)

O tempo melhora um pouco e Julio sugere que vamos até a rua ao lado tomar um café com croissants; dá a entender que é um pequeno ritual seu no dia a dia. Descemos juntos e cruzamos uma praça, enquanto tento sincronizar meu passo com o das suas pernas enormes. Na praça uma garotada na faixa de dez anos está brincando. Alguns correm na direção dele, gritando seu nome; entendo que são filhos de vizinhos seus. Estão jogando pião, e um deles pede a Julio que mostre algo.
 
Ele recolhe o pião, prende o cordão no alto, desce-o perpendicularmente e com habilidade vai enrolando em torno do corpo. Vira-se para mim.
 
JC – Conheces o jogo, certamente.
 
BT – Sim, joguei muito na minha infância, em Campina Grande.
 
JC (sorrindo, forçando o sotaque) – “Campiña Grande”... (Atira o pião, dá um puxão brusco, o pião gira repicando poeira no chão batido. Ele mostra o cordão, que agora pende, frouxo, de sua mão:) Alguém precisa escrever, um dia, “A arte de agarrar o pião pela ponta do fio”.

Devolve o brinquedo aos garotos, vamos tomar em paz nosso café, num pequeno bistrô onde ele é saudado com simpatia pelo casal idoso atrás do balcão. Despedimo-nos com um abraço pouco simétrico. Ele volta com seu andar compassado, cruzando as ruas de uma Paris que não existe mais, ou que existe menos do que as linhas com que foi contada.
 
 


 
(Nota necessária: esta série de "Entrevistas Transcendentais" é composta por textos imaginários. Eu não entrevistei essas pessoas.) 

Augusto dos Anjos:

Philip K. Dick:

Agatha Christie:

 






quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

4650) "Os Párias do Átomo" (10.12.2020)




É um exercício interessante pegar um livro que a gente leu na infância e tentar lembrar os detalhes dele. Ainda mais se é um livro que a gente gostou, que leu mais de uma vez, etc.
 
Já me ocorreu (me ocorre ainda, principalmente em sebos) pegar num livro e pensar: “Caramba, esse livro é MUITO bom, eu adorei”. E se me perguntarem: “Como é a história?”  Eu digo: “Não faço a menor idéia. Só ficou a sensação.”
 
Talvez isto seja um critério a considerar (entre muitos) quando a gente analisa a experiência literária. Um livro tem uma história. Ela nos produziu uma impressão positiva, profunda. A história migrou por completo para o inconsciente e deixou só a impressão, como uma pegada na areia.
 
Houve uma época em que eu comprava por 5 reais um desses livrinhos, e em casa anotava num papel as coisas que conseguia lembrar. O nome de um personagem. Uma cena. Às vezes uma piada. Um elemento de enredo. E então começava a ler, para ver se estava lembrando certo.
 
Tenho ainda hoje dezenas de livrinhos de ficção científica ou policiais que li entre os 10 e os 15 anos e que muitas vezes não reli depois. De vez em quando pego um para fazer essa espécie de “anamnese”, uma tentativa de desenterrar algo que eu mesmo enterrei mas não sei mais o que é.
 
E um outro detalhe interessante é que em casos assim sou capaz de, no instante da releitura, achar na página 20 ou 30 uma frase, um parágrafo, uma expressão qualquer que me salta aos olhos, produzindo aquela sensação: “Eita! Lembro disso aqui!”. É uma lembrança parcial, que só brota depois do estímulo; mas também vale. Porque sem dúvida li todas as páginas anteriores, mas não deixaram esse tipo de marca específica.
 
Peguei esta semana para folhear o livro Os Párias do Átomo (“Les Parias de l’Atome”) de Max-André Rayjean, Edições de Ouro, tradução de David Jardim Júnior. O livro se anuncia como vencedor do “Grande Prêmio de Ficção Científica de 1957”, e saiu no Brasil, pela famosa “Série Futurâmica”, no começo dos anos 1960.

Se me perguntassem sobre o livro antes desta releitura, eu diria:  
 
“Aparecem mutantes na Terra, em consequência de guerras atômicas. Pessoas com pele verde, que têm extrema sensibilidade no tato; pessoas com olhos esbugalhados, imensos, de visão excepcional; pessoas com alterações grandes no nariz e aumento de olfato, ou nas orelhas e aumento da audição. Em todos os casos, os mutantes são pessoas de aparência repulsiva mas com uma espécie de super-poderes. O principal deles chama-se Monrow, o primeiro a descobrir que é capaz de matar alguém emitindo ondas mentais. Ele se torna depois o líder mundial dos mutantes, que entram em guerra com a humanidade.”
 
Tudo isto está de fato no livro. É uma espécie de X-Men “avant la lettre”. Mas coisas igualmente importantes tinham sumido da minha memória.
 
Por exemplo: os livros da coleção tinham uma “chamada de capa”, relativa ao enredo. Neste, a chamada de capa diz:
 
Só no vale azul de Vênus existia um minério especial que era capaz de neutralizar as usinas atômicas da Terra.
 
Isto não me trouxe nenhuma recordação, e ao pegar o livro dias atrás fiquei a imaginar o que diabo teria Vênus a ver com a história, que para mim era uma série de confrontos entre os mutantes e as polícias terrestres.
 
Bem: a verdade é que quando os mutantes começam a se multiplicar são todos deportados para Vênus, cuja capital, Venustown, é uma colônia terrestre. Ali se instala o Conselho que governa as hordas de mutantes recém-chegados. O “Vênus” da história é um planeta meio nublado mas cheio de árvores, rios, etc., como é comum na pulp fiction:
 
O jantar, realizado no Palácio da Presidência do Conselho, estava no fim. As largas sacadas da sala de jantar davam para jardins magníficos, onde repuxos luminosos mantinham uma umidade permanente.
 
Na noite, totalmente escura, grandes borboletas de asas roxas e azuis voavam de flor em flor. Não se via uma única estrela. Uma névoa opaca, estagnada a cinco mil metros de altura, cercava o planeta. No entanto, durante o dia, essa névoa deixava filtrar o calor do sol, mas a luz chegava com dificuldade até o solo. Vênus gravitava numa semi-penumbra, como num dia de nevoeiro espesso.  (pág. 88-89)
 
Vítimas de preconceito na Terra, onde são chamados de “tarados” e “anormais”, os mutantes se instalam nesse Vênus e planejam vingança. Descobrem que no tal Vale Azul existe um metal, que eles batizam de “neutratom”, capaz de interromper as reações atômicas – e consequentemente paralisar a Terra. Desenvolvem em seguida o “verroplex”, uma substância capaz de isolar o neutratom.
 
Veio aí um dos trechos que fui capaz de recordar, na releitura:
 
O acaso fizera-o descobrir o metal azul.
 
No decorrer de um voo de reconhecimento, um helicab de propulsão atômica caíra numa das regiões mais desoladas de Vênus. Estratônibus militares foram imediatamente enviados para o local do acidente e seus pilotos, surpreendidos, verificaram que desde que começavam a sobrevoar a região do Vale Azul, os motores nucleares deixavam de funcionar normalmente. Sérias perturbações obrigaram as aeronaves a recorrer aos reatores auxiliares de hidrogênio líquido.
 
Por que este trecho me meio imediatamente à memória, agora, sessenta anos depois, no instante da releitura? O resto eu não lembrava.
 
Provavelmente lembrei porque na minha cabeça de leitor de 1960 ele criou uma sinapse em conjunto com outra imagem, lida posteriormente, e que me impressonou igualmente. É no livro A Filha do Inca (1930) de Menotti del Picchia, onde o autor descreve no interior do Brasil  descoberta do que parece ser uma muralha, mas vista de perto revela-se como uma montanha linear de esqueletos, que vão desde dinossauros até onças e seres humanos. Esses esqueletos indicam a presença, ali, de um “campo de força” que mata instantaneamente qualquer ser vivo que o tocar. Uma falha providencial faz com que os protagonistas consigam atravessá-lo, mas um pequeno avião que vem para resgatá-los tenta atravessar a barreira aérea invisível justo quando ela é restaurada:
 
Súbito, porém, um espetáculo atroz eletrizou-o! Quando o aparelho ia cruzar a barreira de esqueletos, uma fulmínea pane paralisou o motor. Capotou, desequilibrado. Num tombo perpendicular, como um peso largado no vácuo, o aeroplano despencou. Com um estrondo esborrachou-se na faixa sinistra das ossadas, desarticulando-se em lascas e farrapos de lona, subindo do motor, ágil e rubra, a língua de uma chama.  (Cap. IV)
 
A descrição vigorosa, nítida, adequada, grava essas imagens na memória, e acho que grava em retrospecto as imagens semelhantes que a precederam.
 
Outro momento crucial de Os Párias do Átomo ocorre quando um grupo de dezesseis mutantes consegue voltar clandestinamente para a Terra, com o intuito de sabotar as centrais atômicas (que no fim das contas são a razão de sua “diferença” e de sua marginalização).
 
Eles viajam para pontos diferentes da Terra, e cada um leva consigo um pedaço considerável de neutratom, protegido numa caixa de verroplex. Num horário combinado, abrem esses invólucros para com isso paralisar todas as usinas atômicas terrestres. Este é outro trecho que, ao ler as primeiras frases, me veio inteiramente à cabeça, não palavra-por-palavra, mas a narração em si, as pausas, o distanciamento, a separação dos parágrafos:
 
Enquanto fumava, Monrow examinava um mapa-múndi. Vastos círculos, em número de quinze, exatamente, cobriam a superfície do mapa. Cada círculo correspondia a um ponto para onde deveria ir cada componente do grupo. Monrow sabia que, àquela hora, cada um de seus homens, espalhados pela superfície do globo, esperava, com o olhar fixo no cronômetro adaptado à hora local.
 
Às dezesseis horas, exatamente, a “operação” seria lançada.
 
(...) Com uma serra minúscula, cortou uma das arestas do cubo. A caixa de verroplex se abriu sem dificuldade.
 
Monrow tirou o fragmento do mineral azul e contemplou-o. Sabia que, naquele momento exato, todas as atividades da Terra cessavam, abruptamente.  (pág. 110)
 
Existe vigor melodramático nessa descrição de um gesto simples desencadeando forças invisíveis, mas científicas, capazes de influenciar todo o planeta.
 
Finalmente, houve dois detalhes que me chamaram a atenção por insignificantes. Logo no capítulo I, um médico volta para casa e a esposa o recebe bem à moda dos anos 1950:
 
Dirigiu-se à sala de estar e sentou-se numa poltrona, perto do ventilador.
– Que calor hoje! – lamentou-se, desfazendo o nó da gravata.
Françoise estava preparando a laranjada. Abriu a geladeira e colocou um cubo de gelo no copo.
– Tome, beba... Isso lhe fará bem.
Fridman sorriu e com deleite mergulhou os lábios no líquido gelado. Até o vidro estava frio. 
(pág. 14)
 
Por que gravei isto com tanta precisão? Certamente porque a geladeira era uma novidade lá em casa; me lembro como-se-fosse-hoje da sua chegada.
 
E outro detalhe, que revela a sensibilidade epidérmica dos mutantes, no Capítulo VIII:
 
O comissário acendeu um cigarro. Quando riscou o fósforo, a pele verde de Monrow foi percorrida por um arrepio.
(pág. 62)
 
Se  um detalhe como esse se fica na lembrança de um leitor, houve eficácia literária, pelo menos para o tipo de percepção desse leitor. Vale mais uma informação concreta, vazada em termos simples como estes, do que uma longa explicação aludindo a “ondas térmicas” ou “atrito vibratório de moléculas” ou sei lá o que.
 
Não temos um controle consciente do que vai ficar em nossa memória. Como dizia José Paulo Paes, “cultura é o que a gente consegue recordar depois que fecha o livro”.
 
 
 
 
 







segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

4649) "Onibaba, a Mulher Demônio" (7.12.2020)



É uma experiência interessante ver um filme, achá-lo magnífico, e vê-lo pela segunda vez 50 anos depois e achá-lo tão bom quanto da primeira.
 
Da série “Privilégios da Terceira Idade”.
 
Foi em 1970 (ou 71, pouco importa) que vi em Belo Horizonte Onibaba, a Mulher Diabo (1964) de Kaneto Shindo, provavelmente na sala 35mm da Imprensa Oficial de Minas Gerais, uma sala com uma programação constante de filmes de arte. Foi lá que vi também pela primeira vez Hiroshima Meu Amor de Alain Resnais. Era na rua Rio de Janeiro, em frente ao atual Sesc Palladium (que ocupa o local do cinema homônimo, bem simpático).
 
O filme de Kaneto Shindo está disponível agora, com legendas em português, no YouTube, sob o título Onibaba, a Mulher Demônio. A imagem é de qualidade razoável, mas imagino que valeria a pena ter o DVD ou Blue-Ray para poder admirar o preto-e-branco excepcional da fotografia de Kiyomi Kuroda.

https://www.youtube.com/watch?v=hpyaz_Vl7Is&t=2683s&ab_channel=CineAntiquaPurple
 
A história: no Japão medieval, as guerras entre dois Imperadores simultâneos deixam a população rural esfomeada e cruel. Duas mulheres sobrevivem no mato saqueando os cadáveres dos guerreiros e trocando as peças por grãos. Esperam a volta de um homem, filho da mais velha, marido da mais jovem. Quem aparece, porém, é um vizinho, que escapou da guerra e informa que o amigo foi morto.
 
Começa então a sedução do vizinho pra cima da mais jovem. A sogra fica irritada, acha aquilo uma traição ao filho supostamente morto. A moça e o vizinho entregam-se todas as noites (quando a sogra adormece) a uma “paixão tórrida” no meio do mato. Tudo isso enquanto todos morrem de fome e fazem de tudo para sobreviver.
 
A história caminha para um desfecho quase sobrenatural (mas realista), com violência e morte.



Onibaba vale acima de tudo pela criação de um ambiente fechado (apesar de quase tudo ser a céu aberto, no matagal), com poucas pessoas, uma ilha de expectativa e terror permanente no meio de uma guerra brutal. As mulheres são aparentemente indefesas, mas quando ameaçadas são capazes de matar com ferocidade.
 
Na trilha sonora a parte mais impressionante são os gritos ásperos e a percussão daqueles enormes tambores japoneses. Um efeito que põe no bolso qualquer música orquestral de filme de terror norte-americano.
 
A música é o equivalente ideal para o som áspero das pessoas correndo, nuas ou vestidas, no meio do matagal. As cenas do homem e da mulher, de noite, correndo ao encontro um do outro pelo mato, acompanhados pela câmera, são de uma selvageria eufórica. Não há sexo “gráfico”; no máximo, alguns seios de fora. O que há é a brutalidade do sexo, não a brutalidade do estupro, mas a do sexo buscado, consentido e praticado com voracidade.


É um filme de situação-limite, um mundo incendiado pela guerra onde as pessoas são capazes de qualquer coisa, literalmente, para sobreviver. Uma espécie de Mad Max do século 14.
 
Alguns críticos de meio século atrás se chocaram com as cenas de sexo, que hoje considero até pudicas. O que não me assustou naquele tempo, e me assusta hoje, é a expressão de pessoas com fome. O modo como gente faminta atulha a boca de comida mais depressa do que pode mastigar. O modo como arranca com os dentes pedaços de um bicho assado. A concentração com que sacia a fome acumulada, que mal lhes deixa escutar o que a outra pessoa está falando.
 
Ariano Suassuna conta, no Folheto XXI de Ao Sol da Onça Caetana (1977), um episódio pungente (claramente autobiográfico) em que chega à fazenda dos Quaderna uma família de retirantes esfomeados, e quando lhes servem um prato de farinha-com-leite e três colheres (enquanto vão buscar dois outros pratos de comida), o pai velho e a filha pequena disputam a pouca comida.
 
“Farinha pouca, meu pirão primeiro”, diz o dito popular citado por Caetano Veloso na canção “Eles” (1967). Um ser humano com fome é um bicho perigoso.
 
As primeiras sequências do filme mostram esse clima de “terra de ninguém”: dois guerreiros feridos que fogem pelo mato, são mortos pelas duas mulheres, depois são saqueados e têm os corpos nus jogados num buraco. O primeiro diálogo surge quase aos onze minutos, quando a sogra vai vender as armas roubadas aos dois.


Kaneto Shindo, ao que se diz, arrastou a equipe inteira para “o Meio do Nada” e passou três meses filmando, tendo imposto a condição de que quem desistisse não ganhava um centavo.
 
A fotografia explora o matagal de susuki, com talos mais altos que uma pessoa, um verdadeiro labirinto filmado em ângulo ligeiramente oblíquo, dando a impressão de que o personagem avança num oceano de hastes flexíveis, que o vento açoita e agita sem parar, criando efeitos sonoros e luminosos.
 
Isso é destacado pelo uso de uma imagem horizontal, de proporção extrema, a meu ver muito rara no cinema de hoje.


O clima claustrofóbico lembra outro grande filme japonês seu contemporâneo, A Mulher da Areia (1964) de Hiroshi Teshigahara, que explora a relação entre um homem que se vê aprisionado numa espécie de caverna na areia onde mora uma mulher, num lugar ermo e cheio de assaltantes.
 
O roteiro de Kaneto Shindo vai direto no osso. Tem uma história pouco comum mas de entendimento imediato, situação-limite, paixões vorazes, duplicidade moral, sutilezas psicológicas, reviravoltas. É uma história contada basicamente com câmera, ruídos (e música percussiva), iluminação expressionista, diálogos cortantes.
 
Fiquei curioso a respeito de outro de seus filmes, A Ilha Nua (1960), sobre as dificuldades de sobrevivência de camponeses pobres, que dizem ser o melhor.
 
Kaneto Shindo morreu em 2012, aos 100 anos de idade. Geralmente escrevia os próprios roteiros. Seu último filme como diretor foi Ichimai No Hagaki, realizado quando ele tinha 98 anos.
 
 


 







sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

4648) A Internet de Zé Limeira (4.12.2020)




(Salvador Dali, "Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha em Volta de uma Romã Um Segundo Antes de Acordar")

Podemos propor como hipótese de trabalho a idéia de que a Internet, a World Wide Web e as Redes Sociais foram criadas a fim de refinar alguns conceitos básicos do pensamento humano: o Acaso, o Significado, o Feedback, a Mediação Entre Dois Pontos Que Não Se Tocam, a Substituição Do Silogismo Causal Pelo Non-Sequitur Como Fator de Iluminação e Satori.
 
Acho que fui longe; voltemos ao ponto de partida. A mente humana (disse famosamente Philip K. Dick) anseia por significado com a mesma intensidade com que seu corpo anseia por H2O. Sem a cola do significado, a mente humana se desfaz como farofa ao vento.
 
Daí que desde muito cedo aprendemos algumas das palavras essenciais para essa junção dos pedaços soltos do mundo, das impressões sensoriais que nos assaltam desde o nascimento, ou até antes. Não devemos nunca subestimar as façanhas intelectuais das nossas crianças, que lhes permitem absorver, entender, conceituar e pôr em prática palavras como “se não”, “também”, “porém”, “nunca”, “contra”, “mais ou menos”...
 
O cérebro capaz de assimilar conceitos assim é capaz de tudo. Vamos e venhamos, mostrar uma casa e ensinar “Casa!”, mostrar um cachorro e ensinar “Cachorro!”, mostrar uma bola e ensinar “Bola!” é bolinho perto do ensino de sutilezas como “de vez em quando”.
 
À medida que o mundo se torna mais complexo, precisamos de mais palavras assim, de mais “operadores” como dizem os teóricos, palavras que não se referem a seres ou objetos, concretos ou abstratos, mas palavra que implicam em modificações específicas dos enunciados que acompanham.
 
Uma coisa é dizer: “Eu gosto de ver futebol na TV”. Outra coisa é dizer: “Eu nem sempre gosto de ver futebol na TV”.  Seu filho tem dois ou três anos e fica ali caladinho, tentando digerir essa aparente contradição. E consegue. Eu e você não conseguimos?
 
Minha proposta teórica é que o contato entre mentes distantes, conectadas apenas pelos fios virtuais do curtir e comentar, está produzindo um novo tipo de mentalidade coletiva em que associações de idéias extremamente rápidas são feitas por pessoas de culturas diferentes, idades diferentes, repertórios de informação diferentes.
 
Isso pode significar um avanço gigantesco em nossa capacidade de processar dados, de estabelecer os significados pelos quais Philip K. Dick tanto ansiava. Pode ser o deflagrar de uma nova rede neurológica mundial (em termos metafóricos, claro) onde os cérebros individuais, mesmo os mais privilegiados, os grandes filósofos, os grandes cientistas, serão meros ticos-e-tecos dessa gigantesca teia por onde as idéias serão geradas e circuladas.
 
Daí o fato de que os comentários em postagens de blog e em chats ao vivo e em redes sociais assuma muitas vezes a aparência disjuntada de um koan dos mestres Zen-budistas. Estaremos criando uma geração inteira de Zé-bundistas, como escarnecia Mário de Andrade?! 
 
O koan é aquela frase enigmática com que o mestre responde à pergunta de um discípulo, mergulhando o "pobe" numa perplexidade tão grande que o deixa a um passo da Iluminação. O discípulo pergunta: “Mestre, como posso encontrar o caminho da perfeição?”  E o Mestre responde: “Quando a chuva cai, o sapo fica contente”.
 
Eu vivo me deparando com respostas assim, aleatoriamente encorajadas pelas redes sociais.

Uma vez postei um comentário que dizia: 

“Meu problema com a literatura de José de Alencar não é sua escolha dos temas, que são épicos e vibrantes, mas do vocabulário, que é alambicado e dulçuroso”.
 
Tentativa boba de ser engraçadinho às custas de um falecido, mas recebi, entre outras de teor comum, uma resposta que não me saiu até hoje do juízo:
 
Alencar! Fala-se de Alencar como se o voluntarismo de um político não escondesse mais que uma pragmática de bolsos-sem-fundo. Para que perder tempo com esse tipo de maiêutica? Onde fica José Verissimo nesta equação?!
 
Depois que esse koan me desabou na cabeça passei três dias sem entrar no Facebook, somente pensando, o que me fez bem. E folheando a História da Literatura Brasileira de José Verissimo, cujo estilo e pensamento respeito bastante, apesar de muito pincenez, muita pena-de-ganso. Encontrei umas dez respostas; mas para perguntas outras.
 
De outra vez, comentei alguma coisa relativa à política da Europa Ocidental, que eu, que conservo minha ingenuidade intacta apesar de tantos anos, ainda sonho em ver unida e diferenciada. E me vem um distante conhecido com essa intervenção:
 
O imperador romano que perguntava pela própria alma não estava muito distante dos iludidos de hoje. Como se câmbio e políticas monetárias resolvessem tudo. Lamentável.
 
Li certa vez um artigo muito interessante dizendo que uma das coisas mentalmente mais estimulantes é a leitura da poesia surrealista clássica. Num laboratório, foram feitos diferentes grupos, cujas pessoas recebiam tipos diferentes de leitura, e nos intervalos submetiam-se a testes.
 
Ficou comprovado que as pessoas que obtinham índices mais altos nos testes, ou seja, a que estavam com as mentes mais “acesas”, mais rápidas, mais eficazes, eram as que estavam lendo a poesia aparentemente absurda e sem-sentido desses autores como André Breton, Paul Éluard, Louis Aragon, Benjamin Péret...
 
O autor do artigo propunha a explicação de que ler poemas aparentemente absurdos forçava a mente do leitor e procurar (e eventualmente encontrar) conexões de sentido, interpretações do tipo “Ele está querendo dizer que...”, o que, se nem sempre é correto do ponto de vista propriamente literário, não deixa de ser um exercício mental útil.
 
Exercício que eu ponho em prática agora, quando critico algum desses zagueiros do Flamengo e recebo:
 
Caro amigo, o junco se curva à tempestade, e são os caibros de carvalho que se despedaçam. Pense Getúlio, pense Washington Luís. O valor de um cheque não está no numerário, e sim na assinatura.
 
Toda vez que a mente humana se depara com um Non Sequitur – proposições que aparentemente não têm nada a ver uma com a outra, mas são apresentadas como se tivessem – ela produz um esforço extra capaz de gerar (estou delirando, mas é o calor) cadeias de sinapses específicas que não se desfazem quando a mente muda de assunto. Essas sinapses cumprem sua função momentânea e recolhem-se, de reserva, esperando o momento em que serão convocadas de novo para explicar outra proposição aleatória qualquer.
 
Já dizia Benjamin Péret:
 
Minha cabeça de lixa de papel esfregando-se à beça nas bordas de uma taça de cristal
feita à tua imagem de ave que um javali impede de alçar o primeiro voo
está cheia da fina chuva dos teus olhos semelhantes a duas laranjas que nunca serão colhidas
teus olhos que talvez são pedra despedaçada como árvore fulminada
tudo igual ao pequeno coração que tenho no meu bolso
encostado num fogareiro mais vermelho que um zepelim em chamas.
(em Amor Sublime, Brasiliense, trad. Antonio Houaiss)
 
Já nos ensinava Zé Limeira:
 
Eu me chamo Zé Limeira
de Lima Limão Limança;
a estrada de São Bento
bezerro de vaca mansa,
valha-me Nossa Senhora
‘tão bombardeando a França.
 
E eu só gosto dessa moça
porque tem vegetação,
porteira de pau-a-pique,
três pneus de caminhão,
peido de jumenta ruça...
e haja chuva no Sertão!