segunda-feira, 16 de julho de 2018

4367) A casa entre as sombras (16.7.2018)




A arte de contar histórias é uma arte que se fixa como camadas sucessivas. Você tem que escutar dezenas, centenas de histórias (na infância, de preferência) até dominar mentalmente os mecanismos de “aconteceu isso, e por causa disso aconteceu aquilo”, ou “e agora, o que vai acontecer, isso ou aquilo?”, ou “enquanto isso está acontecendo aqui, aquilo está acontecendo noutro canto”...

É a sintaxe básica dos enredos, das narrativas onde existem relação de causa e efeito entre os personagens.

Quando o autor sabe que pode contar com leitores habituados a isso, ele pode comprimir um enredo como quem comprime uma mola – fazendo-o ocupar um lugar menor mas mais carregado de energia.

Um bom conto é como um romance comprimido no menor espaço possível. A gente tem a sensação de que se encostar a pontinha do dedo na página o conto dá um salto no ar e se transforma num livro de 200 páginas.

E numa fase muuuito posterior à infância o leitor chega àquele ponto em que basta uma frase inicial estalando o dedo para que ele comece a fantasiar, cheio de expectativa.


Vi um texto de Dwyer Murphy, no saite Electric Literature, comentando o trailer do filme The Big Sleep de Howard Hawks (1946). No trailer, Humphrey Bogart, vestido como Philip Marlowe, entra numa biblioteca, pede ajuda à bibliotecária, e ela lhe oferece o livro The Big Sleep de Raymond Chandler. Ele abre, folheia, e começa a ler:

Às vezes me ponho a imaginar que estranho destino me conduziu, numa noite de tempestade, àquela casa que se erguia sozinha no meio das sombras...

Essa frase não está nem no livro de Chandler nem no filme. Ela apenas sugere o sangrento confronto final, que de fato é numa casa afastada, na zona rural, numa noite de chuva. Deve ter sido escrita pelo roteirista do trailer. (Que aliás nunca é o roteirista do filme).

A frase não tem nenhum grande mérito literário, mas é uma espécie de invocação mágica para leitores de histórias de mistério. É uma frase que nos joga no território arquetípico da Narrativa Em Redor Da Fogueira (ou da lareira do clube londrino, etc. etc.).

“Às vezes me ponho a imaginar que estranho destino me conduziu...”:
É uma história na primeira pessoa; aconteceu à pessoa que a conta. Sabemos logo que pelo menos o narrador “escapou para contar a história”.

“...que estranho destino...”:
Forças invisíveis e poderosas moldaram a história. O herói pôde no máximo antevê-las e adaptar-se.

“...numa noite de tempestade...”:
A noite escura da alma, a floresta selvagem onde nos perdemos à noite, no meio do caminho desta vida. A Natureza convulsa é um dos símbolos mais antigos de um Inconsciente indócil.

“...àquela casa que se erguia sozinha...”:
A casa isolada, sem ninguém por perto; símbolo do espaço fechado, a ilha cercada de vazio por todos os lados, “onde ninguém ouvirá você gritar”.

“...no meio das sombras...”:
No meio da nossa incapacidade de pressentir o que vai acontecer, de corresponder ao que está acontecendo, de entender totalmente o que aconteceu.

O trailer pode ser visto aqui:

Se me dou o trabalho de fazer essa análise toda é porque essa frase inicial me emociona atavicamente, e dificilmente deixarei de ler (ou pelo menos tentar) um conto ou livro que comece assim.

É uma espécie de “Era uma vez...” para adultos que apreciam o romance gótico ou o conto fantástico.


E me trouxe à memória uma homenagem feita por Osman Lins em A Rainha dos Cárceres da Grécia. É um romance sobre a literatura: após a morte de uma escritora, seu companheiro lê e comenta com o leitor trechos do romance que ela deixou inacabado.

Refletindo sobre histórias narradas numa roda de amigos, ele diz:

(...) O núcleo da situação – o conto, o narrador, o ouvinte e o abrigo – permanece:

Havia sobre a mesa uma pequena lâmpada com abajur. Guarneciam a lareira um itinerário, um almanaque, o tinteiro com uma pena e meio bastão de lacre. Ele pedira dois conhaques duplos com o café e estava encolhido na poltrona. Envolvia-nos a esquisita sensação de intimidade que proporcionam as salas repousantes e silenciosas do Hotel Plaza.
– Serei importuno se lhes contar o caso? Sucedeu com um amigo do meu tio e, desde então, oitenta anos se passaram.

A citação é imaginária, unindo fragmentos de Dickens e de Maugham. Que romancista, entretanto, não reconhece aí o ofício de contar, a união com o leitor e a ânsia de ser ouvido longe do tumulto do mundo?
(págs. 80-81)

O romance contemporâneo que se pretende objetivo, seco, realista, tem incontáveis virtudes, mas há uma faixa muito grande de leitores que, como eu, gostam de ler uma história sabendo que é história, uma história que já se assume como coisa contada desde as primeiras palavras.










sexta-feira, 13 de julho de 2018

4366) Adivinhações juninas (13.7.2018)




O São João nordestino é cheio de tradições que nós conhecemos “desde a mais tenra infância” e nos acostumamos a considerar nossas, tipicamente nossas, afetivamente nossas.

O que esquecemos às vezes é que essas tradições, por mais que deixem uma marca na nossa memória afetiva (na minha deixaram muitas, e profundas) não são pessoais, são coletivas. E vêm de longe.

Por exemplo: a tradição das “moças casadoiras”, na véspera do São João, antes de irem dormir, deixar uma mesa posta para uma pessoa, na sala de jantar, com a casa fechada e as luzes apagadas. As moças ficam à espreita (alguém imagina que elas estão dormindo, por acaso?) porque reza a lenda que o “fantasma” do futuro noivo virá aparecer, atraído pela ceia.

Outro exemplo: segurar nas mãos uma bacia cheia dágua, junto à fogueira, para tentar ver o próprio reflexo à luz do fogo. Reza a lenda que se a pessoa conseguir se enxergar direito, estará viva no próximo São João. Se não, não.

Sempre racionalizei esta última superstição desse modo: se a pessoa está com saúde  e mantém a bacia firme, ela se vê refletida. Já uma pessoa que balança a bacia o tempo todo (prejudicando o reflexo) é porque está enfraquecida e pode morrer. (Uma racionalização meio tênue, mas, enfim...)

A música junina guarda essas tradições.

Como em “Advinhação” (sic), de Aldemar Paiva, gravada por Marinês:

Botei a mesa com tanta alegria,
dormi pensando e meu amor não veio...
Não veio, não veio...
E tristeza se meteu no meio...
Não quero mais saber de adivinhação,
não posso mais sofrer nem esperar em vão;
desculpe São João mais resolvi
pedir a Santo Antonio um pistolão.
(Aqui, com Marinês:

Ou no clássico eterno “Brincadeira na fogueira”, de Antonio Barros e Cecéu:

Tem tanta fogueira, tem tanto balão...
Tem tanta brincadeira, todo mundo no terreiro
faz adivinhação.
Meu São João eu não, meu São João eu não
eu não tenho alegria...
Só porque não vem, só porque não vem
quem tanto eu queria...
Danei a faca no tronco da bananeira
não gostei da brincadeira
Santo Antonio me enganou...
Saí correndo, lá pra beira da fogueira
ver meu rosto na bacia
a água se derramou!

(Aqui, com o Trio Nordestino:


São tradições nossas? Sem dúvida. Mas são nossas inclusive num sentido mais amplo, um sentido que nos aproxima de culturas e épocas muito diferentes. São de todos. Nossa festa junina assimilou rituais antigos que em princípio nada têm a ver com ela.

Na minha antologia Detetives do Sobrenatural (Casa da Palavra, 2014) incluí o conto de Manly Wade Wellman “A Ceia Silenciosa” (“Dumb Supper”, 1954). É uma aventura do seu “detetive do sobrenatural”, John the Balladeer: um cantador repentista que trazendo às costas seu violão com cordas de prata anda pelas estradas dos Montes Apalaches, defrontando-se com mistérios do outro mundo.

Wellman (1903-1986) era profundo conhecedor do folclore e da cultura popular dos EUA, e utilizava esse material em seus livros.

No conto, John the Balladeer se perde na floresta à noite, durante uma tempestade, e acaba chegando a uma casa misteriosa onde encontra uma mulher jovem, que está com uma mesa posta para uma pessoa. John acabou de ouvir, na vendinha do vilarejo, uma história sobre um crime acontecido ali, anos atrás. E a mulher lhe pede que empunhe o violão e cante, para chamar alguém.

Mas eu não conseguia parar de olhar para o modo como ela tinha arrumado aquela ceia silenciosa. Sabendo que ninguém fazia mais aquele tipo de coisa, e tendo ouvido falar nela naquela mesma noite, eu estava maravilhado em encontrá-la. Minha mente ficou repassando o que tantos professores diziam sobre esses costumes, que eram coisas provenientes da Velha Europa, em que ceias silenciosas eram preparadas no início dos tempos. (p. 146)

O “noivo” acaba aparecendo; há um desfecho terrível em que o crime antigo acaba se esclarecendo, mas para mim o grande detalhe do conto é a tradição de preparar a ceia para atrair o “fantasma”.

Virando a página:

Somerset Maugham (1874-1965) é para mim um dos grandes contadores de histórias da língua inglesa. Seu conto “Honolulu” (1921) se passa no Havaí, onde o narrador conhece um jovem capitão de navio e sua bela namorada.

O capitão conta que tempos atrás o imediato do navio se apaixonou pela namorada dele (que viajava a bordo), e botou-lhe um feitiço no qual ele, sendo ocidental, se recusava a crer. A namorada (que era havaiana, como o imediato) insistia com ele: enquanto o imediato estivesse vivo, o feitiço estaria funcionando – e ele acabaria morrendo.

A moça então explica ao capitão que se o sujeito

... fosse persuadido a olhar dentro de uma cabaça, cheia de água a ponto de produzir um reflexo, e esse reflexo fosse destruído ao se agitar a água, ele morreria, como se tivesse sido atingido por um raio; porque aquele reflexo é a sua alma.

Assim é feito, o imediato morre, e o capitão escapa.

Nem vou entrar aqui no gigantesco capítulo antropológico do uso da imagem como equivalente da alma ou da vida: a imagem no espelho, a imagem na fotografia, a imagem num pequeno boneco.

Volto ao ponto anterior: essas tradições são nossas porque são de todos. De todos os lugares e de todas as épocas. Antropólogos não têm feito outra coisa, de James Frazer a Lévi-Strauss, senão traçar esses mapas comparativos de imagens recorrentes. Tão recorrentes que fizeram C. G. Jung propor a teoria de um “inconsciente coletivo” que alimentaria todas as culturas humanas, como um profundo lençol freático de coisas que nos emocionam antes que sejamos capazes de explicá-las.












terça-feira, 10 de julho de 2018

4365) Os meninos e a caverna (10.7.2018)




A história dos garotos tailandeses de um time de futebol que ficaram presos nas cavernas durante vários dias chamou a atenção do mundo inteiro.

A gente não sabe o que admirar mais: se a serenidade e a fibra dos garotos e do técnico, que aguentaram firme esse tempo todo, no escuro e no frio: se a coragem e o esforço das dezenas de mergulhadores que se revezaram nos túneis submersos (um deles acabou morrendo); se a solidariedade do governo local e dos agricultores da região, que perderam suas plantações, inundadas pelo esforço de retirar água da caverna, mas não se queixaram.

Como sempre tem alguém querendo punir alguém, muita gente quis botar a culpa no técnico, que teria levado os garotos para uma “roubada”, por imprudência.

Pelas matérias que li, o técnico e vários dos meninos já tinham feito, sem sustos, essa mesma exploração das cavernas. É uma espécie de rito de passagem para eles. A intenção era levar um dos meninos, que estava aniversariando, para inscrever seu nome numa parede remota no fundo da caverna, como outros já tinham feito.

É uma bravata? É, sim. Corre-se um risco? Corre-se. Não acho que seja um risco maior do que fumar cigarro e beber álcool – riscos que eu corro, sabendo o que estou fazendo, sabendo que posso morrer por causa disso. Cada um escolhe os perigos que quer enfrentar.

No Nordeste, para quem mora perto de açudes, existe um desafio tradicional: mergulhar até o fundo do açude e emergir com a mão cheia de barro – para provar que se tocou o fundo. É um risco? É uma bravata? Sem dúvida. Garotos e garotas já morreram afogados por causa disso – ficaram enredados em plantas, ou sei lá o quê.

Chegar na fronteira da morte é uma bravata que jovens do mundo inteiro praticam, desde que o mundo é mundo. Pesando os dois lados da coisa, minha constatação é de que poucos estavam tão bem preparados para isso quanto os “Javalis Selvagens”, nome do time de futebol dos garotos.

É um rito de passagem.

Me veio à mente o belo livro de Alan Garner The Stone Book (1976). É a história de uma menina cujo pai trabalha nas pedreiras, na região de Cheshire (Inglaterra). Numa cena perto do fim do livro, o pai conduz à menina ao interior de uma caverna e dá-lhe instruções sobre o que fazer, quando chegam a uma abertura muito estreita.

Ali, o pai se detém, porque não pode passar; a menina entra sozinha, fica de pé num espaço apertado, e ali encontra marcas feitas por crianças de séculos atrás.

Ela entende que quando se tornar adulta não poderá entrar mais ali, porque estará grande demais e não poderá passar pela abertura – como seu pai não passou, e ele tinha entrado ali quando era menino. É um espaço simbólico a que só se tem acesso na infância, e que se perde ao virar adulto.

Histórias assim têm um significado profundo, e não duvido que na cultura dos garotos tailandeses esse tipo de coisa seja levada a sério.

Nós, que levamos a sério tantos rituais idiotas da vida social urbana, que direito temos de achar que eles estão fazendo bobagem?

Cavernas, grutas e passagens subterrâneas têm um poder simbólico muito grande na cultura dos povos que vivem na sua proximidade.

Perto de Campina Grande, milhares de pessoas se arrastam todos os anos por baixo da Pedra de Santo Antonio, inclusive moças que tentam com isso arranjar um casamento. Se arranjam ou não, não sei, mas qualquer pessoa pode fazer o mesmo, e me lembro dos brilho nos olhos da minha mãe quando voltava para Campina depois de praticar essa pequena façanha.

Não é por acaso que um dos primeiros contos publicados por Guimarães Rosa, Makiné (1930) transcorre na gruta desse nome, que fica nas proximidades de Cordisburgo, sua terra natal.

No conto, um mago fenício tenta controlar os selvagens “peles vermelhas” locais, entra em choque com eles e é forçado a se refugiar no interior da gruta:

Numa cripta escura do algar, o mago procurou o orifício bem seu conhecido, que descia alguns côvados como um poço, para mudar logo depois de direção, escavando-se em comprido corredor horizontal. No fim dessa galeria jaziam os diamantes de Summér, o “Sumé” dos vermelhos.

Gruta que ele já havia celebrado num dos poemas de seu livro Magma (1936; publicado em 1997):

Bafio quaternário. O preto
da imensa noite, anterior ao mundo,
com pesadelos agachados
e pavores dormindo pelos cantos,
enrolados nas caudas de gelatina fria,
vem comprimir o peito e os olhos.
E ao acendermos as velas e as lanternas,
a treva se retrai, como um enorme corvo,
das paredes paleozóicas,
salitradas.
("Gruta de Maquiné")

Quem mora em região de cavernas é como quem mora em região de rochedos, região de rios. Tem com essas coisas uma relação que por um lado é simbólica, por outro lado anímica.

Muito mais perigo do que os garotos tailandeses correm os turistas brancos sedentários que uma vez por ano resolvem saltar de “bungee jump”. (É um direito deles, também; e quem sou eu para dizer que não façam.)

Ainda no capítulo dos romances, uma expressão que me veio várias vezes à mente durante este episódio foi o título do belo romance juvenil de Susan Cooper, o primeiro dos cinco que compõem a série “The Dark is Rising”: Over Sea, Under Stone (1965).

“Acima do mar, por baixo da rocha”. É o ambiente claustrofóbico das grutas à beira-mar, espaços às vezes ocos, às vezes inundados, onde só se pode penetrar com segurança em certos períodos. No livro de Susan Cooper, três garotos mergulham ali para descobrir uma espécie de Graal ou objeto sagrado que lhes foi revelado num mapa.

Toda iniciação envolve um risco. O mergulhador que morreu durante as tentativas de salvamento sabia o risco que estava correndo, e tenho certeza de que não se arrependeria.

Talvez a pior coisa que tenha acontecido aos garotos dos “Javalis Selvagens” tenha sido a fama repentina, a exposição à mídia, a badalação. Uma coisa que me parece totalmente contrária ao espírito budista que eles cultivam.

Em toda iniciação se paga um preço, e torço para que esse preço a ser pago pelos meninos não se revele mais alto do que eles poderão pagar pelo resto da vida. 










sábado, 7 de julho de 2018

4364) Outra vez Matraga (7.7.2018)



Sagarana foi escrito no Brasil, reescrito na Alemanha, quando Guimarães Rosa era diplomata. Ele próprio relata, num texto importantíssimo escrito para os arquivos do jornalista João Condé, e recolhido por sua filha Vilma Guimarães Rosa em Relembramentos (Nova Fronteira, 1983):

O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez).

Como receita não pode haver melhor. Basta apenas lembrar que a primeira versão é a que perdeu um concurso literário em 1938, porque Graciliano Ramos votou contra. E Rosa, depois, deu-lhe razão: o livro ainda estava “verde”.

Comentando o livro do colega, Graciliano (num texto recolhido em Em Memória de João Guimarães Rosa, José Olympio, 1968) dizia, da nova feição do livro Sagarana em sua primeira edição oficial:

Eliminaram-se três histórias, capinaram-se diversas cousas nocivas. As partes boas se aperfeiçoaram: “O Burrinho Pedrês”, “A Volta do Marido Pródigo”, “Duelo”, “Corpo Fechado”, sobretudo “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, que me faz desejar ver Rosa dedicar-se ao romance. (p. 44)

Guimarães Rosa afirmou que todos os contos desse livro buscavam uma forma específica de expressão, que ele foi descortinando aos poucos, conquistando por todos os flancos, e que surgiu pronta na derradeira história. “Matraga”, o último texto do primeiro livro, seria, por este julgamento, o primeiro texto a empregar todos os recursos de que o escritor já se sentia capaz.

A história tem um desenho simples. Nhô Augusto Esteves é um homem sem empatia, que pratica maldades cercado de capangas. Trata com desdém a esposa e a filha, vive raparigando, bebendo. Até que um dia se mete com um coronel poderoso, leva uma surra homérica, é dado como morto.

Oficialmente desaparecido, é recolhido por um casal pobre, tem uma sofrida convalescença durante a qual torna-se religioso, rezador, trabalhador. O oposto completo do que tinha sido antes. Com o casal de pretos velhos, emigra, vai morar num povoado distante; e os anos se passam.

Na sequência final, testemunhando uma injustiça de um chefe jagunço contra uma família de pobres, volta a ser o valentão que fora e volta a pegar em armas, mas agora em defesa de um ideal nobre.


Robert Heinlein gostava de resumir numa frase os enredos básicos das narrativas de ficção (não apenas da ficção científica). Um dos seus resumos favoritos era: “A man learns better”, um cara aprende uma lição. Ou seja: um sujeito obstinado, cascudo, cheio de si, sofre uma rebordosa. Essa crise de grandes proporções pulveriza suas certezas e o obriga a se recompor – mas agora em outros termos. Obriga-o a se recriar.

Essa é a narrativa básica de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”.

Como bonecas russas umas dentro das outras, vemos que o Augusto rezador, pequenininho, já estava dentro do Augusto valentão. Vinha desde a infância, através da avó que o encorajava a rezar. Quando o valentão entra em crise, vai sendo recoberto por fora pela capa de um novo Augusto, que repete fanaticamente o mantra ensinado por um padre: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso!”

Quem assistiu a magnífica adaptação de Roberto Santos para o cinema, de 1966, deve lembrar o ator Leonardo Vilar (em sua hora e vez, e melhor momento da carreira) orando essa pequena prece até gritá-la furioso.

E o que começa a brotar ali é a síntese final entre o Augusto brabo e o Augusto manso e humilde de coração. Nesse momento de conversão na marra, ele brada a frase que ficou famosa:  “P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!...”.

O primeiro encontro com os jagunços comandados por Joãozinho Bem-Bem ajuda a ressurgir em sua alma a força masculina, yang, que estava adormecida. Ele recorda seus tempos de brigador, dos quais ao mesmo tempo se envergonha e sente saudade, como quando se lamenta junto à preta velha que o adotou:

E eu já fui zápede, já pus fama em feira, mãe Quitéria! Na festa do Rosário, na Tapera... E um dia em que enfrentei uns dez, fazendo todo-o-mundo correr... Desarmei e dei pancada, no Sergipão Congo, mãe Quitéria, que era mão que desce, mesmo monstro matador!... E a briga, com a família inteira, pai, irmão, tio, da moça que eu tirei de casa, semana em antes de se casar?!...


Os jagunços vão embora mas o olho clínico de Joãozinho Bem-Bem o faz convidar Nhô Augusto para juntar-se ao bando, o que ele agradece mas recusa. Ainda não está pronto.

O tempo vai passando e um dia ele acorda vendo as maitacas em migração, aves ruidosas nas quais ele vê um sinal. Que está na hora de partir. Para onde? Ele não sabe.

Sagarana é um livro onde os personagens estão o tempo todo em movimento, viajando, passeando, migrando, fazendo aquelas intermináveis viagens a burro, a pé ou a cavalo, ao longo das quais acontecem variadas coisas e se encontram personagens aleatórios. Nhô Augusto deixa-se conduzir pelo jumentinho, deixando que ele decida:

E aí o jumento andou, e Nhô Augusto ainda deu um eco, para o cerrado ouvir:
– “Qualquer paixão me adiverte...” Oh coisa boa a gente andar solto, sem obrigação nenhuma e bem com Deus! (...)
E também, nas encruzilhadas, deixava que o bendito asno escolhesse o caminho.  (...) Mas, somadas as léguas e deduzidos os desvios, vinham eles sempre para o sul, na direção das maitacas voadoras. (...)
– Não me importo! Aonde o jegue quiser me levar, nós vamos, porque estamos indo é com Deus!

E a esta altura um Deus está conduzindo Matraga, por linhas tortas, para sua hora e vez, para o encontro com seu destino. Esse Deus o leva de volta aos arredores do arraial do Murici, onde a história começou. E é um Deus diferente do Deus de todo mundo. Matraga transformou-se num ronin, um samurai errante, sem tropa e sem patrão. E o seu deus é um Deus guerreiro:

...num sonho bonito, no qual havia um Deus valentão, o mais solerte de todos os valentões, assim parecido com seu Joãozinho Bem-Bem, e que o mandava ir brigar, só para lhe experimentar a força, pois que ficava lá em-cima, sem descuido, garantindo tudo.

Reencontrando os jagunços, Nhô Augusto reata por minutos a amizade mas logo se pôe em confronto, para impedir que Joãozinho Bem-Bem, que quer vingar um capanga morto à traição, cometa uma crueldade contra uma família indefesa. Trava-se o combate, e o narrador onisciente já começa a transferir a história para o plano da lenda futura, ao usar o ponto de vista do povo que assiste tudo:

E aí o povo encheu a rua à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes.

E ele garante que a história seja bem contada, trazendo um figurante crucial, “o João Lomba, conhecido velho e meio parente”, que reconhece Nhô Augusto, ouve suas últimas palavras e garante que a identidade do herói seja corretamente atribuída.

“Matraga” tem sido descrito como uma parábola de redenção, uma jornada de transcendência. Eu o vejo às vezes como uma briga de um indivíduo com a violência em si mesmo, uma briga simbolizada no filme de Roberto Santos pela cena (ampliada a partir de uma ceninha de nada no livro) em que Nhô Augusto domestica um cavalo, um “poldro bravo” e rebelde.

Em momento algum ele deixa de ser violento. Quando está em desespero, sai embaixo de chuva para o mato, de machado em punho, e tome a derrubar troncos. Ele é um homem feito para a violência, e só na violência encontra sua redenção final. Só que desta vez uma violência com propósito; e com sacrifício, porque é o confronto com um amigo a quem admira.














terça-feira, 3 de julho de 2018

4363) Orlando Tejo 1935-2018 (3.7.2018)



Conheci Tejo em 1965, quando comecei a trabalhar na redação do “Diário da Borborema”, onde ele e Josusmá Viana se revezavam na secretaria. Era uma redação alegre pela presença dele, e onde pontificavam nomes como Fernando Lorenzo Maia na página de esportes, Paulo de Tarso na administração, William Tejo e Manoel Alexandrino Leite na página de política, Fernando Wallach na reportagem policial, Valdi Lira na fotografia, e tantos outros.

A veracidade aos fatos históricos me obriga a registrar que apesar desse panteão de nomes consagrados, o melhor momento do dia de trabalho era logo cedinho, sete da manhã, quando o jornal já estava na rua e o pessoal da oficina (Romão, Boní, etc.) começava a desmontar as páginas de ferro com as linhas de chumbo.

A redação (que ficava em cima, no primeiro andar) ainda estava vazia, e uma bola de papel-jornal fortemente amarrada com barbante servia para que eu, Mauro Ronaldo e Severino Brasil realizássemos ferozes campeonatos de barra-a-barra entre as mesas vazias e os arquivos de jornais que iam do piso ao teto.

Foi em meados dessa década que Orlando inventou de se candidatar a vereador, arranjou um jipe, e era visto chispando o dia inteiro ao volante, pelas ruas de Campina. a cabeleira ao vento. Não foi eleito, e continuou assinando ponto no Café São Braz, onde todo mundo até hoje passa o dia falando de três assuntos cruciais: política, futebol e a vida alheia.

Dessas conversas intermináveis surgiu o projeto do livro Zé Limeira, Poeta do Absurdo, que lhe deu fama nacional e alçou o repentista da Serra do Teixeira ao panteão mitológico do Nordeste, ao lado de Lampião, Padre Cícero e Luiz Gonzaga.

Durante os próximos séculos nossos netos e bisnetos continuarão discutindo se a maioria dos versos que aparecem naquele livro foram mesmo criados por Zé Limeira, ou se o foram por uma plêiade de poetas e boêmios que circulavam entre os poucos metros que separavam a Rádio Borborema, o Café São Braz e a Sorveteria Flórida.

Segundo meu pai (grande amigo de Orlando) o passatempo ali era inventar versos “zelimeirianos” para provocar gargalhadas, e muitas dessas inocentes contrafações foram se agregando à lenda e acabaram entrando no livro, como imigrantes ilegais. Não importa. Às vezes, mais que a verdade histórica, o que vale é o pulsar do espírito da lenda. Publique-se a lenda.

Já tive copiados à mão sonetos fesceninos de Orlando, que não reproduzo aqui porque não sei onde estão, e talvez para não chocar o espírito politicamente correto que governa com mão de ferro os costumes de hoje.

Mas a lenda de Orlando é mais polpuda de versos do que a de Zé Limeira. Há anos digo que algumas de suas improvisações poéticas deveriam ser reunidas em livro. Estão espalhadas por aí, pela internet e pela memória alheia. Um livro não garante a imortalidade, mas um Poemas Reunidos de Orlando Tejo seria pretexto para muitas noitadas de coquetéis e lembranças boas.

Como a dos versos que ele, apologista das cantorias de viola, dedicou a Lourival Batista, o Louro do Pajeú (1915-1992), e a seu parceiro Severino Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990).

Os dois repentistas foram amigos de coração e antagonistas da viola por mais de meio século de embates memoráveis. No Nordeste inteiro, em bares, feiras, residências, fazendas, terraços, as pessoas se juntavam para vê-los disputando quem fazia o verso mais inspirado e quem dava alfinetadas mais agudas no outro.

No Instituto Lourival Batista, em São José do Egito (PE), há uma parede onde está imortalizado o poema de Orlando Tejo sobre essa dupla de gênio:

Grande saudade hoje sinto
das cantorias-tesouro
do gigante que foi Pinto,
do uirapuru que foi Louro.

Era uma graça, um estouro
ouvir em qualquer recinto
os trocadilhos de Louro
os desconcertos de Pinto.

Tal qual no Bar do Faminto,
do Pátio do Matadouro,
quando Louro aceitou Pinto
e Pinto abençoou Louro.

Mas no Bar Rosa de Ouro
houve um encontro distinto
Pinto elogiando Louro,
Louro chaleirando Pinto.

Jamais ficará extinto
o meu prazer de ouvir Louro
querendo derrubar Pinto,
Pinto brincando com Louro.

No Bar Casaca-de-Couro
vi o maior labirinto:
Pinto depenando Louro
e Louro esganando Pinto. (...)

O poema inteiro, que é muito longo, pode ser lido aqui, no blog Cantigas e Cantos, de Gilberto Lopes:


Outra história orlandiana impagável é contada pelos seus amigos de Brasília, onde ele foi funcionário da Câmara Federal. Apertado de grana, precisou com urgência urgentíssima de um dinheiro emprestado. Alguém lhe disse que procurasse um tal de Canindé, que poderia adiantar-lhe os trinta mil cruzeiros de que precisava para cobrir alguns cheques.

Orlando passou o dia esperando uma resposta de Canindé, que na verdade era apenas o contato com os agiotas. Em desespero, sentou-se à mesa do seu amigo, o escritor Luiz Berto (autor do igualmente lendário Romance da Besta Fubana) e produziu oito décimas implacáveis de ofensas e doestos contra o indefeso ausente:

(...) O cabra fuma e não traga
faz do crime o seu idílio!
Onde está Flávio Marcílio
que não demite esta praga?
Ao menos dava-se a vaga
pra um sujeito de fé,
já que esse indivíduo é
um tratante e delinqüente!
Haja chumbo grosso e quente
no rabo de Canindé!

Por capricho do destino
de Satanás ou Deus Brama,
o bicho também se chama
coisa e tal e Tolentino;
doido, avarento e mofino,
não conhece a Santa Sé,
faz da cola o seu rapé,
vive da desgraça alheia,
devia estar na cadeia
esse tal de Canindé! (...)

Eis senão quando toca o telefone. É Canindé, com o dinheiro liberado, pronto para ser entregue! Comemorações, abraços efusivos, e Orlando senta-se de novo à mesa, pega pena e papel, e produz mais oito estrofes neste novo teor:

Um sujeito despeitado,
desses de baixa maré,
inventou que Canindé
é um canalha safado.
Eu fiquei preocupado
com a informação até,
porém não perdi a fé
em quem merece louvores…
E haja palmas e haja flores
na fronte de Canindé.

Tenho dito e sustentado
(todo mundo sabe disso)
que na Câmara, esse cortiço,
há um cidadão honrado,
pai de família extremado,
homem de bem e de fé!
O Papa já disse até
que há no torrão brasileiro
Padre Cícero em Juazeiro
e em Brasília, Canindé.

Sei que o Papa tem razão,
mas ninguém quer saber disto.
Se já falaram de Cristo,
que se dirá de um cristão?
Porém a fofoca não
atinge um homem de fé.
e se eu descobrir quem é,
meto a mão no pé do ouvido
do sem-vergonha enxerido
que falar de Canindé! (...)

A crônica de Luiz Berto, e o texto completo das duas séries de estrofes, estão aqui, no blog da União Brasileira de Escritores / RN:

É a poesia. Muita gente lê um poema e se pergunta: Isto é verdade? Isto é mentira? O poeta é um fingidor? O leitor é um hipócrita? Que valor pode ter um texto assim cru, direto, concreto, vazado em meras palavras?

Os dois poemas de Orlando sobre Canindé mostram a verdade do poeta, qualquer poeta, que só tem a obrigação de ser fiel àquilo que no momento da escrita lhe arrebata o espírito. O poeta olha para dentro de si ou para o mundo à sua volta e relata o que vê, o que sente, o que o encandeia com sua força. O que ele escreve não é verdadeiro nem mentiroso: é apenas real.

Era assim Orlando, boêmio que largou a bebida mas não as noitadas, poeta que nunca largou a poesia, e que dias atrás decolou para o Outro Mundo e não nos largou, não nos largará em tempo algum. Concretizou agora os versos de seu alter ego Zé Limeira:

Se um dia eu fosse chamado
pra cantar no Céu, eu ia.










segunda-feira, 2 de julho de 2018

4362) "La Casa de Papel" (2.7.2018)



Acabei agora de ver a primeira temporada desta série espanhola, em exibição no Netflix.

A premissa da história é muito simples, pode ser anunciada sem spoilers: um grupo de assaltantes planeja cuidadosamente durante meses uma invasão à Casa da Moeda, em Madri, onde se imprime o dinheiro da Espanha.

Seu objetivo não é roubar as notas que já estão impressas. É trancar-se lá dentro em segurança, com reféns que lhes servem de escudo, e imprimir a maior quantidade possível de euros antes de fugir.

O filme de assalto é um subgênero do filme policial onde é possível mexer à vontade na receita. Pode haver aventura, ação, romance, violência, comédia, tiroteio, o escambau. Um elemento no entanto é indispensável: o planejamento.

Filmes de assalto (“heist movies”) são sempre filmes enxadrísticos, onde tudo é planejado com antecedência, executado com treinamento e frieza... mas na hora H aparece um imprevisto e manda todo o planejamento pro espaço.

Os meus clássicos mais queridos são Gangsters de Casaca de Henri Verneuil (“Mélodie en sous-sol”, França, 1963), Topkapi de Jules Dassin (“Topkapi”, EUA, 1964), Sete Homens de Ouro de Marco Vicario (“Sette uomini d’oro”, Itália, 1965), Como Roubar um Milhão de Dólares de William Wyler (“How to Steal a Million”, EUA, 1966), O Golpe de John Anderson de Sidney Lumet (“The Anderson Tapes”, EUA, 1971) e mais alguns.

Títulos mais recentes que gostei bastante são Onze Homens e um Segredo de Steven Soderbergh (“Ocean’s Eleven”, EUA, 2001) e A Cartada Final de Frank Oz (“The Score”, EUA, 2001).


A coisa mais fascinante desses filmes é o duelo de inteligências entre as pessoas que conceberam o sistema de segurança (do Banco, do castelo, da mansão, etc.) e os assaltantes. Uns têm a obrigação de prever TUDO. Os outros, de imaginar algo que a segurança não previu.

É um xadrez minucioso... mas xadrez talvez não seja o termo adequado. O xadrez é jogado com jogo aberto, no tabuleiro, com  lances alternados, cada um vê exatamente o que o outro está fazendo.

O filme de assalto exige: 1) uma imensa previsão de ataques possíveis, feita pelo jogador “A”, a segurança do prédio; 2) uma minuciosa pesquisa, e preparação do golpe, feita pelo jogador “B”, a quadrilha; 3) um contragolpe eficaz do jogador “A”, evitando o roubo durante o seu transcurso ou perseguindo os ladrões quando estes conseguem se safar.

La Casa de Papel tem uma premissa original e uma execução eficiente, porque trata-se de um roubo que não pretende passar despercebido, pelo contrário – assim que a situação é exposta, o país inteiro toma conhecimento (isso interessa aos assaltantes).

As cenas do assalto e do cerco subsequente pela polícia são intercaladas com flash-backs da preparação da quadrilha, onde cada pessoa tem um topônimo como codinome (“Tóquio”, “Oslo”, “Rio”, “Denver", “Nairobi”, etc.). E o cabeça de todos, o “Professor”, que fica do lado de fora, em contato permanente com o grupo e com a polícia, com a qual negocia.

É uma situação ideal para um roteirista que pode assim trabalhar vários núcleos: diferentes ambientes dentro do prédio, envolvendo sequestradores e reféns; o quartel-general da polícia, numa tenda diante do prédio; a casa da delegada Raquel; o esconderijo do “Professor”; os flash-backs do treinamento da quadrilha.

A série tem as tensões necessárias, conflitos internos da gang, conflitos deles com os reféns, etc., mas aos poucos se desenha uma linha básica: tudo que acontece havia sido previsto pelo Professor, que planejou aquilo durante anos. E para cada “imprevisto” ou cada cartada da polícia durante o cerco, ele tem um “plano B” de sobreaviso.

Ou não.



Filmes de assalto tão minuciosos assim servem para nos lembrar que “o diabo está nos detalhes”. O ônibus Challenger explodiu porque uma juntura de peças tornou-se quebradiça quando subiu ao frio do espaço e permitiu um vazamento. Em alguns filmes citados acima, tudo se perde porque um passarinho entrou por uma janela deixada aberta, ou porque uma porta que era para estar aberta permaneceu fechada.

La Casa de Papel tem uma história bem urdida e personagens imprevisíveis o bastante para nos surpreender. Tem também os clichês do gênero, e em muitos casos não sei se chame isso se clichê ou de figura de linguagem.

É algo que o público já espera, e que os criadores se sentem na obrigação de fornecer: o escape no último segundo, a coincidência inesperada que precipita uma crise, a coincidência mais inesperada ainda que a resolve, os riscos desnecessários que um personagem assume (mas se não o fizesse, “nada acontecia”), e assim por diante.

Há uma confortável diferença visual entre os flash-backs dos assaltantes ensaiando o roubo na mansão onde se ocultaram antes de tudo (cores quentes, detalhes, figurinos, comportamento) e o ambiente asséptico do interior da Casa da Moeda, corredores, metal, vidros, uniformes. Em termos de ambientação, é um “respiro” sempre útil.

La Casa de Papel é uma série cuja primeira temporada se encerra com uma crise de grandes proporções. É uma série na qual sabemos que a situação central pode ser prolongada por mais de uma temporada, mas necessariamente precisa de um final. Como em Breaking Bad e outras séries policiais, mostra uma situação que não pode durar para sempre.








quarta-feira, 27 de junho de 2018

4361) Sagarana: A hora e vez de Augusto Matraga (27.6.2018)






“A Hora e Vez de Augusto Matraga” é o derradeiro (e para muitos o melhor) conto do livro Sagarana (1946), o primeiro e possivelmente o mais acessível dos livros do autor.

Tenho falado nestes meus comentários sobre Sagarana que um dos temas gerais do livro, expresso numa epígrafe na sua abertura, é o da “ida e volta”. Está na epígrafe que diz “for a walk and back again”. Que exprime, de certo modo, o retorno mental de Rosa ao seu sertão de origem, mesmo morando longe.

O conto “Matraga” conta a história da “morte” simbólica de um valentão e sua “ressurreição” como herói. É a história de um homem que é uma coisa, transforma-se em outra, e no fim volta a ser o que era, mas valorizado por essa transformação.

Se algum professor precisar de um exemplo literário para explicar o conceito de “tese / antítese / síntese”, este conto serve como um dedo numa luva.

Já na primeira fase do conto (tese), ficamos sabendo que Matraga (que na verdade chama-se “nhô” Augusto Esteves) é menino mimado, agroboy que cresceu mandando e desmandando, mas hoje tem a vida em pandarecos:

Fora assim desde menino, uma meninice à louca e à larga, de filho único de pai pancrácio. (...) Agora, com a morte do Coronel Afonsão, tudo piorara, ainda mais. Nem pensar. Mais estúrdio, estouvado e sem regra, estava ficando Nhô Augusto. E com dívidas enormes, política do lado que perde, falta de crédito, as terras no desmando, as fazendas escritas por paga, e tudo de fazer ânsia por diante, sem portas, como parede branca.



Este balanço ocorre na mente de D. Dionóra, a esposa em vias de separação, por não aguentar mais as brutalidades dele. Ela vai morar com um pretendente, e no mesmo dia os capangas de Nhô Augusto se passam para o lado do Major Consilva, velho inimigo da família. E a quem cabe ordenar a surra homérica, e o castigo final:

“Arrastem pra longe, para fora das minhas terras... Marquem a ferro, depois matem.”

Assim é feito, e Nhô Augusto, os ossos todos partidos a pauladas, recebe o ferro em brasa “...com a marca de gado do Major – que soía ser um triângulo dentro de uma circunferência – e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô Augusto”.

Dado por morto após rolar numa ribanceira, ele é recolhido por um casal de pretos num casebre ali perto.

Nhô Augusto, dias depois, quando voltou a ter noção das coisas, viu que tinha as pernas metidas em toscas talas de taboca e acomodadas em regos de telhas, porque a esquerda estava partida em dois lugares, e a direita num só, mas com ferida aberta. As moscas esvoaçavam e pousavam, e o corpo todo lhe doía, com costelas também partidas, e mais um braço, e um sofrimento de machucaduras e cortes, e a queimadura da marca do ferro, como se o seu pobre corpo tivesse ficado imenso.

Começa então a convalescença física e a purificação moral. Depois de desmoralizado o valentão e derrotado o brabo, ficou somente o Nhô Augusto de dentro, fraco e infeliz. O processo dura “muitos meses, porque os ossos tomavam tempo para se ajuntar, e a fratura exposta criara bicheira.”

E essa reconstrução íntima, essa antítese, se dá após uma depressão profunda em que Nhô Augusto chora, lamenta, se abate, se envergonha de tudo que fez. E volta a rezar. Volta, porque, como dizia um tio velho de sua esposa, “quem criou Nhô Augusto foi  a avó... Queria o menino pra padre... Rezar, rezar, o tempo todo, santimônia e ladainha”.

Nhô Augusto, já sarado, resolve pegar o casal de pretos velhos e ir morar com eles num ranchozinho que tinha num lugar distante, onde ninguém o conhecia.

E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma história inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.
(...)
E, pois, foi por aí, dias depois, que aconteceu uma coisa até então jamais vista, e até hoje mui lembrada pelo povinho do Tombador.

Este trecho é outra virada-de-esquina decisiva no conto, e o autor a anuncia com a devida pompa. Porque nos parágrafos seguintes ele descreve como aquele vilarejozinho esquecido onde Nhô Augusto vivia encafuado chega de passagem um bando de jagunços armados, tendo à frente

...o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa: Seu Joãozinho Bem-Bem.

O encontro com esse chefe jagunço (que tem algo do encontro entre Riobaldo e Zé Bebelo no Grande Sertão) vai soprar na alma de Nhô Augusto as brasas dormidas do fogo guerreiro. Ele convida os jagunços à casa modesta onde vive com os pretos velhos, serve comida, obsequia, e entre uma conversa e outro Joãozinho Bem-Bem descobre só de olhar que quem está ali na frente é um dos seus.


É nesse trecho da história que surge a famosa “Cantiga Brava”, musicada por Geraldo Vandré:

O terreiro lá de casa
não se varre com vassoura:
varre com ponta de sabre
bala de metralhadora...

Despedem-se, e partem.

E com isto começa a surgir das ruínas de Nhô Augusto Esteves o novo Augusto Matraga. Este sobrenome, aliás, abre e fecha o conto como um par de parênteses: só aparece na primeira frase do conto, e depois no final.

O nome matraga é geralmente comparado com o substantivo matraca, que é aquela peça de madeira ruidosa e sacolejante com que se faz barulho em certas procissões; é também um pássaro. Como pássaro, acaba me lembrando as maitacas, ave migratória e barulhenta que, revoando por cima da cabeça de Nhô Augusto numa manhã linda, anos depois de sua provação e ordálio, parecem dizer-lhe: “Isto aqui terminou, agora é preciso partir”.


É um momento de epifania do conto, um momento de anunciação e ruptura.

Mas afinal as chuvas cessaram, e deu uma manhã em que Nhô Augusto saiu para o terreiro e desconheceu o mundo: um sol, talqualzinho a bola de enxofre do fundo do pote, marinhava céu acima, num azul de água sem praias, com luz jogada de um para o outro lado, e um desperdício de verdes cá embaixo – a manhã mais bonita que ele já pudera ver.

Ele sente o chamado do mundo, despede-se do casal de velhos, prepara um jumentinho e se faz na estrada. Como em tantas histórias de Rosa, seguem-se encontros rápidos, passageiros, pitorescos. Até que Nhô Augusto chega ao arraial do Rala-Coco, e descobre que quem está arranchado ali é Joãozinho Bem-Bem com seu bando.

Acontece o reencontro, amistoso, respeitoso. E mais na frente, minutos depois, o confronto, quando Joãozinho Bem-Bem, para vingar a morte de um dos seus homens, autoriza morte e estupro contra uma família local. E Nhô Augusto:

 — Pois então, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, é fácil... Mas tem que passar primeiro por riba de eu defunto...

Este conto é um dos grandes momentos épicos da obra de Guimarães Rosa, pela simplicidade de meios e pela vagarosa maturação do caráter do personagem principal. Um processo de superposição de camadas de experiências, de pensamentos, de situações, que somente o formato da noveleta proporciona. Não se conta uma história como esta no formato que o autor viria a usar depois em Tutaméia.



(As imagens são do filme A hora e vez de Augusto Matraga, Roberto Santos, 1966)