quarta-feira, 25 de novembro de 2015

3981) A cegueira do expert (26.11.2015)





Um especialista vê certas coisas com uma nitidez absoluta, à custa de não enxergar outras que estão até mais próximas. São como as câmeras fotográficas que focam num detalhe e deixam todo o resto do ambiente num borrão de contornos difusos. 

A mente do especialista funciona como certos exames clínicos. Você pega uma amostra de sangue e quer saber se o paciente tem a doença X. Coloca alguns reagentes, etc., e tem o resultado. O paciente pode até ter as doenças Y e Z, mas como o exame não estava buscando essas duas ele “passa batido”, sem percebê-las. A busca é específica, direcionada, cega para todo o resto.

Na coletânea Blackwood’s Tales of Treasure, um capítulo fala de garimpeiros de ouro que acham minério de prata mas não o reconhecem, pois não era o que estavam buscando. Eles largam tudo e vão embora. 

Do mesmo modo, muitas descobertas científicas são feitas meio por acaso em cima de dados ou materiais já recolhidos por outras pessoas, que, no entanto, foram incapazes de olhar aquilo com o olhar correto. 

Thomas S. Kuhn, em A Estrutura das Revoluções Científicas (Ed. Perspectiva, 1982) exemplifica com o caso do átomo de hélio visto por um químico e um físico eminentes. “Para o químico, o átomo de hélio era uma molécula, porque se comportava como tal desde o ponto de vista da teoria cinética dos gases. Para o físico, o hélio não era uma molécula porque não apresentava um espectro molecular”.

Einstein dizia que a ciência do seu tempo precisava mais de perguntas novas do que de respostas certas. As perguntas velhas eram sempre respondidas corretamente. O que fazia falta era uma maneira nova de olhar os fenômenos – justamente o que Einstein fez, com menos de trinta anos. 

Jacob Bronowski, em seu ótimo Ciência e Valores Humanos (Ed. Itatiaia/EDUSP, 1979, trad. Alceu Letal) refere o caso de um alpinista que resolveu escalar o Everest não pelo lado que mais conhecia, o norte, mas pelo lado sul, que era familiar ao seu guia.

Diz ele: 

– À medida que subíamos o vale, vimos no topo a linha divisória principal de águas. Reconheci imediatamente os picos e as depressões que nos são tão familiares do lado norte. (...) É curioso que Angtarcai, que conhecia essas características do outro lado tão bem como eu, e tinha passado muitos anos da sua infância a pastorear bois selvagens neste vale, nunca os tenha reconhecido como tais; nem mesmo hoje, salvo quando os indiquei a ele. 

É como uma moeda, que parece algo totalmente diferente olhada por um lado e pelo outro. Quando estamos condicionados para reconhecer ou para procurar somente uma coisa, corremos o risco de não achá-la se a imagem avistada não for a que esperávamos ver.












3980) "Número Zero" (25.11.2015)



Este romance mais recente de Umberto Eco é quase uma continuação de O Pêndulo de Foucault (1988), livro que achei muitíssimo saboroso mas que decepcionou muitos leitores, os quais, ao que parece, esperavam algum tipo de continuação de O Nome da Rosa (1980). O Pêndulo mostrava um grupo de editores pouco escrupulosos envolvidos com conspirações esotéricas: o romance deste ano mostra um grupo de jornalistas pouco escrupulosos envolvidos numa conspiração política. Eco está com 83 anos. Enquanto o livro mais antigo tinha (na edição em inglês que possuo, tradução de William Weeaver) 533 páginas, o mais recente (na edição da Record, tradução de Ivone Benedetti) tem 207. É menos divertido, menos barroco, menos delirante, mas o bom-humor, a ironia e a enciclopédica prosa do autor estão lá.

Os personagens de Número Zero são aqueles jornalistas calejados, cínicos, meio fracassados, que topam escrever qualquer coisa desde que descolem a grana do aluguel, da gasolina e da geladeira. O jornaleco é financiado por um comendador de interesses onipresentes e de envolvimentos escusos, que monta o pasquim para servir de instrumento de pressão e chantagem contra seus adversários políticos. Colonna, o narrador, é um desses teclado-de-aluguel, tão conhecidos por quem é do ramo, ansiosos para que alguém lhes faça uma proposta indecente. Ao entrar na redação acaba tendo um caso com Maia, uma redatora jovem e meio perdidona. Juntos, os dois acompanham a investigação de um terceiro personagem, Bragadoccio, que está aos poucos levantando uma concatenação meio fantasiosa de fatos históricos poucos relevantes mas que podem resultar na mais sensacional revelação política da Europa pós-II Guerra Mundial.

Eco trabalha, nesses romances, no subgênero das  “Fantasias da História”, em que fatos universalmente conhecidos recebem novo contexto através da invenção ficcional. Autores como Tim Powers, Kim Newman, Thomas Pynchon, Salman Rushdie, Stephen King, Don DeLillo e outros usam extensivamente, cada um com suas fórmulas, essa mistura de fatos documentados e interpretações imaginárias. É o terreno da paranóia e das “teorias da conspiração”. Bertolt Brecht (cit. por Ernest Mandel, Delícias do Crime) descreveu assim o processo: “Por trás dos acontecimentos que nos são narrados, suspeitamos de outras ocorrências sobre as quais não fomos informados. Estas são as verdadeiras ocorrências. Somente se soubéssemos poderíamos entendê-las. Somente a História pode nos informar sobre essas ocorrências verdadeiras – pelo menos até o ponto em que os atores não conseguiram mantê-las em total segredo. A História é escrita após as catástrofes”.




segunda-feira, 23 de novembro de 2015

3979) Eu me lembro 7 - BH (24.11.2015)



(Edf. Niemeyer, Belo Horizonte)

Eu me lembro dos doces de leite cortados em forma de losango que a gente comprava no balcão dos botequins. Eu me lembro de quando tiraram as cabeças dos políticos que ornavam a Praça Sete e as colocaram no Parque, junto a uma quadra, onde o pessoal chutava e a bola rebatia nas cabeças das estátuas. Eu me lembro que numa sala da Escola de Cinema havia rolos e mais rolos do copião de “Terra em Transe”, de onde cansei de cortar fotogramas, e vinte anos depois a imprensa do Rio ficou sabendo desse material e celebrou a descoberta.

Eu me lembro que havia um consenso entre os estudantes da Católica que o melhor bandejão era o da escola de Arquitetura da Federal, que ficava numa esquina da rua Paraíba. Eu me lembro dos militantes da TFP andando pela cidade, erguendo seus estandartes vermelhos com leões dourados e bradando nos megafones. Eu me lembro da placa onde está escrito: “Da vida social / na porfiada liça / ao lado do dever / e ao lado da justiça.”

Eu me lembro do dia em que Chacrinha foi fazer uma palestra no diretório dos estudantes e disse que as chacretes eram “escolhidas a dedo”. Eu me lembro da sala de projeção da Escola de Cinema, que ficava no subsolo do edifício e era chamada A Cinematoca. Eu me lembro do meu desnorteamento inicial quando eu pensava que as ruas do centro eram paralelas, e às vezes as ruas iam se distanciando à medida que a gente avançava numa delas.

Eu me lembro das estátuas na prefeitura, na Av. Afonso Pena, dos três homens suportando colunas sobre os ombros, às quais dediquei um poema (ainda estão lá). Eu me lembro que o primeiro filme que vi na cidade foi “Romeu e Julieta” de Zeffirelli, no Cine Acaiaca. Eu me lembro que antes de ir morar em BH eu vi na Enciclopédia Barsa uma foto do Edifício Niemeyer, e ao chegar lá descobri que a Escola de Cinema ficava bem em frente dele. Eu me lembro da minha confusão ao descobrir que os mineiros chamam mungunzá de canjica.

Eu me lembro das linhas de ônibus Circular 1 e Circular 2, que faziam percursos inversos, e quebravam o maior galho. Eu me lembro de quando comi a primeira feijoada no Maletta e achei estranhíssimo colocarem laranja dentro do feijão. Eu me lembro da Rádio Cultura, cuja vinheta (“Cul-tura!”) se erguia no meio da música quando a gente menos esperava. Eu me lembro de uma viagem no inverno, quando o ônibus fez uma parada em Itabirito e eu vi pela primeira vez minha respiração produzir uma fumacinha como no cinema. Eu me lembro de Darlan Richard, um hippie cabeludo que vivia pelas ruas, cantando: “Cara ou coroa, palitinho ou par-ou-ímpar... Meus pés ‘tão sujos, mas a consciência limpa!”




sábado, 21 de novembro de 2015

3978) Como comprovar o mundo (22.11.2015)




(ilustração: Wendy MacNaughton)

O filósofo Markus Gabriel (autor de Why The World Does Not Exist, http://tinyurl.com/nk9yge6) reconhece a dificuldade em provar conceitualmente que o mundo existe, embora isso nos pareça óbvio.  Se bem que nem tanto. Qualquer passagem por um estado alterado de consciência, pela aplicação de drogas ou por algum surto psicótico, mostra que mesmo a solidez material do mundo se evapora com facilidade. 

O filósofo reconhece que nossa mente nunca poderá abarcar 100% do mundo real, mas sugere que ela trabalha com “campos de sentido” que são “domínios finitos de conexões significativas” e que a superposição desses campos, em nossa mente, produz uma impressão de espessamento da realidade. Nunca teremos uma certeza de 100%, mas a maioria de nós maneja uma percentagem que dá para tocar o barco.

É algo parecido com certas funções matemáticas que, quanto mais avançam rumo a um limite, mais lentamente passam a avançar, de modo que esse limite provavelmente jamais será atingido. Mas mesmos os micro-avanços ou nano-avanços dessa fase final já são alguma coisa, e na verdade não precisamos de uma certeza absoluta para viver. Só quem precisa disso são os filósofos; é requisito da profissão. 

Às vezes questionamos nossa certeza sobre o Mundo Real invocando aqueles sonhos que nos dão uma impressão intensa de realidade. No meio do sonho, temos a mais completa certeza de que aquilo está acontecendo mesmo. É uma certeza mental tão grande que produz resultados físicos sem estimulação física, como pode atestar qualquer pessoa que tenha experimentado um orgasmo durante um sonho erótico.

Acontece que nossa certeza no sonho é um “campo de sentido” limitado, que exclui o mundo material à nossa volta. Dormindo, acessamos a biblioteca-de-babel do nosso Inconsciente, mas o que ganhamos em intensidade perdemos em amplitude. 

Acordados, a proporção se inverte. Passamos a atuar num conjunto muito amplo de “campos de sentido”, o qual inclui nosso corpo, os cinco sentidos, nossa casa, outras pessoas, coisas, o universo material. E temos todo o direito de afirmar, como afirmo agora, que essa realidade é mais próxima de alguma “realidade última do mundo” do que o universo solipsista da minha mente adormecida. (Literariamente, acho o mundo do sonho mais verdadeiro, mas esta é outra questão.)

Dizer que duas coisas (eu e o mundo, p. ex.) existem significa, para mim, que as duas estão num mesmo plano de interação, onde algum tipo de influência mútua é possível. 

Como dizia Ariano Suassuna, se você e uma onça faminta estiverem num mesmo plano de interação, não fique pensando que o filósofo Kant não o autoriza a atestar que a onça é verdadeira: corra!




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

3977) Música e contexto (21.11.2015)



Muitas obras de arte tornam-se beneficiárias ou vítimas de um contexto qualquer, e passam a ter um significado diferente do que tinham. Uma canção, muitas vezes, é vinculada a um contexto que seus autores absolutamente não previam, e vê-se arrancada de seu significado original, passa a significar outra coisa. Uma canção meio obscura que é usada num programa de sucesso, por exemplo, acaba ficando o resto da vida associada ao significado que ganhou ali. 

O samba de Luiz Bandeira “Na cadência do samba (Que bonito é)” (http://tinyurl.com/p8gmb7w), que era usado nas famosas coberturas de futebol do Canal 100, na gravação da orquestra de Waldir Calmon, acabou se tornando uma espécie de hino não-oficial do futebol no Brasil. Onde quer que essa música venha a soar, todo mundo (ou pelo menos quem viveu aquela época, como eu) pensa logo em futebol.

“In the Hall of the Mountain Kings”, de Edvard Grieg (aqui: http://tinyurl.com/bjn7348), da ópera “Peer Gynt”, ficou definitivamente associada ao filme de terror depois que foi usada na trilha sonora de “M, o Vampiro de Dusseldorf” de Fritz Lang. Soando aquelas notas, brotarão de nossa memória dezenas de situações de perigo ou ameaça que essa musiquinha inocente, sem querer, veio a sublinhar.  

O mesmo vale para a famosa “Cavalgada das Valquírias” de Wagner (http://tinyurl.com/nxgb76l), que teve muitas utilizações no cinema, nenhuma tão marcante quanto a da cena dos helicópteros bombardeando o Vietnam com napalm em “Apocalipse Now” de Coppola. 

E nem vou me deter muito no “Pour Élise” de Beethoven, que por percursos insondáveis acabou virando em nossas cidades o tema musical do caminhão do gás.

Claro que há canções que são feitas quase que propositalmente em função de um contexto não-musical, não-estético, mesmo que satisfaçam a esse requisito (=sejam boas canções).  É o caso de canções políticas, engajadas, feitas com uma certa intenção de se colar a esse contexto: clássicos tipo “Caminhando” de Vandré, “Blowin’ in the Wind” de Bob Dylan, “Le déserteur” de Boris Vian e outras. São canções que pretendem se beneficiar de um contexto social onde o autor tem quase certeza de que a música terá imediata repercussão. 

O curioso é quando essas associações de idéias são criadas aleatoriamente, recobrindo a música, principalmente a música erudita de séculos atrás, de um contexto que jamais passaria pela cabeça dos seus compositores. Imagino a surpresa dos autores de “Assim falou Zaratustra” ou de “Carmina Burana” se vissem a multiplicidade de contextos a que suas composições são associadas hoje em dia, simplesmente pelo impacto melódico e sonoro que produzem.








quinta-feira, 19 de novembro de 2015

3976) O mundo não existe (20.11.2015)



Why The World Does Not Exist é o título irresistível de um livro do filósofo Markus Gabriel (Polity Press) resenhado aqui: http://tinyurl.com/nk9yge6

Discutir a existência das coisas parece ao leigo uma falta-de-ocupação às custas do erário (muitos que o fazem ganham salários em universidades públicas). Mas há uma questão sutil. Se formos incapazes de provar com rigor filosófico a existência do mundo, algo que nos parece tão óbvio (ou “evidente por si mesmo”), como poderemos provar verbalmente a existência de fenômenos mais controvertidos? Descartes tentou ressetar esse problema com seu “Penso, logo existo”, mas ele é como uma árvore podada que logo volta a crescer. 

Na verdade, não queremos saber se o mundo existe, e sim se dispomos de ferramentas filosóficas confiáveis para provar se alguma coisa existe ou não. Markus Gabriel comenta: 

“Seria esquisito se alguém, em resposta à pergunta ‘Ainda tem manteiga na geladeira?’ respondesse dizendo: ‘Sim, mas tanto a manteiga quando a geladeira na verdade não passam de uma ilusão, uma construção humana. Na verdade, nenhuma das duas existe. Na melhor das hipóteses, não temos como saber se existem ou não. De qualquer modo, bom apetite!”.

Isto me lembra uma comparação divertida de Ariano Suassuna (a quem esses questionamentos filosóficos não eram estranhos). Discutindo a afirmação de Kant de que não podemos afirmar a existência de algo exterior a nós, Ariano dizia:  

“É muito fácil discutir se aquele jasmineiro, se a imagem daquele jasmineiro, corresponde ou não ao real. O jasmineiro está quieto, no canto dele. Mas eu garanto que, se fosse uma onça que entrasse aqui, nem Kant iria perguntar se por acaso se tratava de uma correspondência com o real.” 

Markus Gabriel afirma: 

“Se pensamos no mundo, o que entendemos é algo diferente do que queremos entender. Nunca podemos entender o mundo em sua totalidade. Ele é, em princípio, grande demais para ser abarcado pelo nosso pensamento. O mundo, em princípio, não pode existir, porque ele não pode ser encontrado no mundo”. 

O filósofo encontra uma maneira de compensar essa impossibilidade de abarcar o mundo total.  Diz ele que o que existe de fatos são “campos de sentido” onde percebemos as coisas, que são “um domínio finito de conexões significativas”. 

Esses campos de sentido (em alemão Seinfelde, num trocadilho com o sitcom da TV Seinfeld) podem abarcar infinitas coisas, inclusive, diz ele, coisas que são reais apenas porque pensamos nelas (existem, mas no plano das idéias): “elfos, bruxas, armas de destruição em massa em Luxemburgo e unicórnios no lado oculto da Lua vestindo uniformes da polícia”.




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

3975) Palavras raras (19.11.2015)



Reunião de condomínio é sempre um saco. Eu só vou quando convocado oficialmente pelo síndico. Aí é mais um-saco ainda, tipo ontem. Se queixaram do som alto, do entra-e-sai durante a noite, da saia curta de A, do cabelo rasta de B, o trelelê de sempre.  A madame do 205 ergueu o dedo no ar, discursou, falou que era um absurdo, que alguma providência tinha que ser tomada, e por aí foi. Quando terminou eu fiz uma cara compungida e falei: “Está bem, está bem, afinal de contas estamos numa gerontocracia.” Ela entreparou, ajeitou o cabelo e disse: “Obrigada.”

Dona Lurdes ficava de vez em quando em pé de guerra quando via o Dr. Aurélio gastando demais com ternos caros, uísques importados, e principalmente sua coleção de jogos de xadrez de marfim, de jade, de pedra-sabão. Ele ria, dizia que tinha direito àquilo, ganhava bem. Uma vez ela disse: “Você só compra isso para se gabar diante dos amigos.” Ele respondeu: “Meu amor, todo homem tem direito a um sonho na vida.” Ela disse: “Aurélio, pare de tergiversar.” Os olhos dele se arregalaram e ele a abraçou, exclamando: “Sabia que eu sou doido por você?!”

Era um debate entre estudantes, com revindicações à reitoria, críticas à grade curricular, e tudo o mais. A certa altura um rapaz de cabelo ruivo encaracolado pediu a palavra e disse: “Temos que marcar posição, precisamos reunir massa crítica para exercer pressão, mas me preocupa ver que os nossos colegas, em sua grande maioria, permanecem abúlicos.”  Houve um breve e interminável segundo de assimilação, mas logo um rapaz de barba preta ergueu a mão no ar e disse: “Não somente abúlicos, estão todos catatônicos.” Foi o começo de um boa amizade.

Quando alguém visitava a casa de Filipinho, e os pais dele sentavam de roupa trocada, fazendo sala, havia sempre um momento em que alguém olhava o retrato do avô dele na parede, com seu uniforme. Perguntavam quem era, a mãe de Filipinho explicava que era o pai dela. “Ele era oficial do exército?”, perguntavam sempre. E a mãe dizia, num tom meio casual: “Sim, ele era anspeçada.”  Filipinho não lembrava de alguém jamais ter perguntado o que era. Ele mesmo não tinha.

Estávamos tomando umas e outras na ampla varanda do apartamento de Vasco Teixeira, o conhecido publicitário. A conversa girava em torno de dinheiro. Um falava nos investimentos bancários, outro confessou ter conta na Suíça, “coisa pequena, por enquanto, mas coisa honesta”, outro mencionou mercados futuros e bolsa Nasdaq. Alguém perguntou: “E você?”  Eu dei um gole e falei: “Eu vivo do meu estipêndio.” Deu um branco geral, tela-azul em todo mundo. Vasco acabou perguntando: “Mais uísque, alguém?...”




terça-feira, 17 de novembro de 2015

3974) O repente (18.11.2015)



A arte do repentista não consiste apenas em inventar versos na hora, mas também em lembrar, no calor do momento, versos que fez ou que ouviu ou que pensou ou que lhe contaram, e que ele pode reproduzir parcialmente, para responder em questão de segundos, ao verso que o companheiro acabou de cantar. Sempre repito uma verdade que me parece indiscutível, na arte da cantoria: É impossível decorar aquilo tudo, e é impossível improvisar aquilo tudo. A cantoria mistura versos improvisados e versos lembrados, anotados mentalmente ou num caderno, e que na hora de cantar raramente saem da maneira como foram escritos, saem modificados, seja para melhor ou para pior, de acordo com a memória do cantador.

Cantadores decoram versos para cantar em ocasiões específicas, mas negam que o façam. Por que? Porque a cantoria é cercada de espectadores meio leigos e com espírito-de-porco, os quais, na hora em que ouviram um cantador dizer que decorou alguns versos, vão sair dizendo: “Eu não disse? É tudo decorado! Tive agora a prova! Fulano de Tal acabou de confessar que só canta decorado”. O Fulano pode ter confessado que decorou apenas um ou outro verso, mas para o anti-apologista (o que vai para a cantoria torcer contra os cantadores) era a prova que faltava para confirmar que aqueles caras não sabem improvisar, e portanto não são melhorres do que ele. Como qualquer outro ambiente que cerca uma atividade artítica, a cantoria está cheia desses negadores da arte.

Alberto Cunha Melo, em seu livro Um certo Louro do Pajeú (Natal: EDUERN, 2011), à pág. 24, diz: “É tempo de alguém ousar uma análise literária da produção do repente e do folheto. Quanto ao repente, um estudo comparativo de suas técnicas e resultados diante do automatismo psíquico praticado pelos surrealistas poderia colocar em confronto, por exemplo, o propósito de conciliar o urgente com o consciente, do primeiro, com o uso do urgente para abolir o consciente[,] do segundo”.

O cantador precisa conciliar o urgente e o consciente, ou seja, produzir em poucos segundos um verso que tem a obrigação de metro, de rima e de fazer sentido. Quem quiser que ache fácil. Quando ele recorre, premido pelo tempo (que é um dos fatores mais importantes na arte do improviso), a um verso ou pedaço-de-verso que já cantou há dez anos ou já ouviu há vinte, ele está fazendo algo que não faria se não tivesse apenas poucos segundos para pensar. Esta é uma expressão crucial na cantoria: “poucos segundos para pensar”. Tudo tem que ser feito nesses poucos segundos. Até mesmo um verso decorado, a repetição de um verso já cantado um dia, é uma pequena  façanha dentro de um quadro de urgência como esse.



segunda-feira, 16 de novembro de 2015

3973) Terror para crianças (17.11.2015)




Um subgrupo interessante da literatura de terror é o terror para crianças. 

Por um lado, parece um gênero fácil, porque se supõe que as crianças se aterrorizam mais do que um adulto calejado, mais provido de defesas. 

Por outro lado, o objetivo da literatura de terror não é só aterrorizar, mas aterrorizar divertindo (é uma literatura de entretenimento, que se deve ler pelo prazer da história) e provocando (deve haver nela alguma coisa que cutuque a mente do leitor e o faça examinar melhor seus medos, suas angústias, etc.). Ou seja: mais dois fatores onde se deve considerar a diferença de mentalidade entre crianças e adultos.

R. L. Stine é o autor da famosa série de livrinhos Goosebumps, que deu origem inclusive a uma série de TV de sucesso nos anos 1990. Os livros de Stine venderam 350 milhões de exemplares em 32 línguas, de modo que ele parece entender um pouco do assunto. 

Numa entrevista ao saite Motherboard, diz ele: 

“A parte mais difícil em escrever horror, para mim, é: a linha entre ser tedioso e ser demasiado assustador é tênue, e é preciso ficar bem no meio. Se você for muito cuidadoso, os garotos vão perder o interesse. Se você vai longe demais, vai perturbá-los. Minha regra básica é: você pode ir bem longe, desde que os garotos saibam que aquilo é uma fantasia, que aquilo não pode acontecer.”

Stine é o tipo do autor cujo sucesso vem do fato da cabeça dele ser parecida com a cabeça dos seus leitores. 

“Uma das razões de Goosebumps ser tão popular,” diz ele, “é que a garotada se identifica com os monstros, não com os protagonistas. Às vezes, garotos dessa idade sentem-se como monstros. São zangados. São frustrados. Querem sair soltando rugidos por aí. Não têm autocontrole e querem assumir o controle das coisas. É parte do fascínio deles.”

Alguns autores vendem milhões de livros escrevendo coisas que parecem não lhes exigir muito esforço. Não há relação entre esforço e sucesso numérico. Stine se admira de ter lido tão cedo Edgar Allan Poe, um dos seus autores favoritos. 

“O medo nunca muda,” diz ele, “o medo do escuro, o medo de descer ao porão, o medo de que haja alguma coisa embaixo da escada. Isso não muda nunca.” 

A literatura de terror funciona um pouco como uma vacina. Um elemento estranho é inoculado na mente do garoto, provoca uma reação, mas tudo ocorre num âmbito sob controle. O organismo faz contato com a ameaça num contexto seguro. Aprende a identificar a ameaça, a controlar as descargas químicas que ela produz no organismo. 

É um processo educativo como qualquer outro, uma experiência virtual que nos prepara para encarar com segurança as experiências reais que um dia virão.



domingo, 15 de novembro de 2015

3972) O artista e o povo (15.11.2015)



(Milton Nascimento)

A toda hora vejo postagens nas redes sociais compartilhando canções de MPB do tipo que eu gosto, deste ano ou de 30 anos atrás.  Ezra Pound dizia que certas obras são novas no instante em que nascem e continuam novas 500 anos depois. São como a água que brota de uma nascente: é aquele filete de líquido, sempre o mesmo e sempre feito de uma água nova que parece ter surgido do nada naquele instante.


E aí começa o chororô. “Não se fazem mais canções como essa hoje em dia.” “Ah, a MPB está decadente.” “A música ruim tomou conta.” “Os compositores brasileiros desaprenderam a fazer grandes canções como A Banda ou Disparada.”  E por aí vai. Pois eu não acho. Acho que grandes canções no formato da MPB tradicional estão sendo compostas e gravadas a cada dia, a cada ano. Como eu viajo muito, me hospedo de vez em quando na casa de amigos, que não são necessariamente músicos, mas têm um gosto musical parente do meu.  Nunca deixo de ficar conhecendo discos de gente que eu nem sabia que existia, com músicas de grande qualidade. Como eu raramente compro CDs hoje em dia (isto é outra questão, que não vou abordar agora) anoto os nomes e títulos para ouvir online.


As músicas existem, o que não existe é um sistema oficial de comércio musical (rádio, TV) fazendo por elas o que fez por A Banda e Disparada. O sistema multiplicou-se por dez em tamanho, já está decadente, mas tornou-se um toma-lá-dá-cá monetário, um aluguel de espaço eletrônico para quem pode pagar mais. E isso não é somente para a “música ruim”. Me lembro que quando Maria Rita lançou seu primeiro CD (aquele que vendeu um milhão de cópias) o Jornal Nacional da Globo deu chamada ao vivo do palco do Canecão. Não lembro de ter visto isso com nenhum outro lançamento de MPB. Fez por que? Porque o disco era bom? Porque era ruim? Não: porque alguém meteu a mão no bolso e pagou uma bela grana. Se todo mundo que compõe as bandas e disparadas de 2015 tivesse essa grana, teria acesso ao mesmo espaço.


Milton Nascimento cantava que “todo artista tem que ir aonde o povo está”. Digo eu que hoje, ironicamente, cabe ao povo ir aonde o artista está, e ele está na Web. O que gostaríamos, meio egoisticamente, era ligar a TV no horário nobre e ver ali as obras-primas da 2015. Não vai ser possível. As obras-primas certamente existem e nada devem às de meio século atrás, mas mesmo aquelas só são consideradas obras-primas pelo impacto que tiveram, não apenas pela sua beleza. Nunca mais terão esse impacto, porque o sistema é cada vez mais mafioso e inacessível. A música que em 1960 brotava na vitrine brota hoje no quintal, e é preciso ir até ela, porque ela não vai mais poder vir até nós.