sexta-feira, 16 de agosto de 2013

3266) "Breaking Bad" final (16.8.2013)



Começou a temporada final do seriado (TV a cabo, HBO) Breaking Bad. O derradeiro capítulo tinha deixado alguns milhões de pessoas penduradas na borda da falésia, ou no parapeito de um arranha-céu. Houve o salto. O vácuo. O negror de um tempo. E de repente o retângulo negro se ilumina. Surge um homem de barba ruiva e óculos, arrombando uma casa abandonada, onde garotos praticam manobras bobburnquistianas numa piscina vazia. Ele invade essa casa onde há um nome próprio cruelmente pichado numa parede interna entre as ruínas, e atravessa uma cenografia que transmite de modo competente a idéia de longo tempo passado. Pega o que tinha ido pegar, e cai fora dali, não sem cruzar casualmente com alguém.

Breaking Bad é história de uma descida ao inferno de um sujeito que acha ter carta-branca para defender sua família. Nerd incurável, o negócio de Walter White não é droga: é planejamento, competência, ciências exatas e – agora, depois de tudo que passou – instinto assassino rumo ao topo do pódio. A lentidão bouleversante da terrível certeza de seu adversário Hank, uns olhos claros como olhos de zumbi de lenta iluminação, depois que caiu a ficha, ou melhor, a tampa de bueiro. O folhear febril dos dossiês, num clip de resumo. Um grande momento de tragédia grega, ou, no mínimo, aqueles momentos em que o personagem descobre o que a platéia já sabia há tempos.

Uma esgrima verbal em normal e itálico num balcão de lava-carros. Skyler vira Mrs. Heisenberg pra cima de uma intrusa. Um interminável diálogo Repo Man entre dois malucos, que pode dar aos detentores da franquia Star Trek pretexto para uma bilionária indenização. Cinco milhões de dólares de mão em mão e ninguém quer, dinheiro de sangue, dinheiro não vale nada mesmo, dinheiro na mão é vendaval. Momentos de tensão. Um ping-pong rápido de grafologia, dedicatórias em plano de detalhe, o espectador, saturado de informação, assinando embaixo de cada desfecho, ou quase todos.


O confronto em que A interpreta uma coisa para B com quem dialoga e outra para a platéia subentendida. O momento do arranque de máscaras de ambos. Hank não é um grande detetive num ranking sherlockiano, mas é um cara pentelho, vasculhador, que tem a intuição correta sobre os crimes que têm acontecido, mas não conseguiu (talvez por cegueira emocional, preventiva) enxergar a verdade que vê agora.  Dois indivíduos, um que se defende como um tigre, outro que tem todos os motivos para o ódio e a vingança, cada qual com a família do outro nas mãos. Momento sertanejo, com “slide guitars” tipo Sérgio Leone, num hardboiled bolañesco em Albuquerque, Estado do Novo México.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

3265) Os ensaios de Wallace (15.8.2013)





Este volume de ensaios de David Foster Wallace (Cia. Das Letras, 2012) tem um título que parece uma correntinha de clips: Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (tradução satisfatória para o original: “Getting Away from Already Pretty Much Being Away From It All”). A tradução é de Daniel Galera e Daniel Pelizzari, que cortam um dobrado, com competência, para traduzir a prosa errática, precisa, absurdista de Wallace. O livro tem ensaios variados: um texto curto e perceptivo sobre o humor na obra de Kafka; uma análise em câmera lenta e stop motion dos prodígios que Roger Federer realiza numa quadra de tênis; uma aula magna em que ele diz aos estudantes, basicamente, que a vida é chata, e que cabe a nós torná-la excitante e maravilhosa através do esforço conjunto da imaginação e da vontade; uma reportagem gastronômica que desanda num questionamento do nosso direito de matar lagostas em água fervente.

Wallace é uma mistura de satírico feroz e humanista compassivo, tão frequente na literatura dos EUA. Ele consegue, num mesmo parágrafo, mostrar todo o ridículo do comportamento de um grupo de pessoas e ao mesmo tempo nos despertar uma certa simpatia por elas. Isto é mais visível nos dois primeiros (e mais longos) ensaios do livro. O primeiro, que lhe dá o título, é sua cobertura da Feira Estadual de Illinois, uma dessas feiras agro-industriais-precuárias que misturam comércio e lazer. Eu gostaria de ver o choque cultural que esse texto produziria num habitante de um grotão qualquer, alguém que não vê TV e tem apenas uma vaga idéia do que sejam os EUA. O próprio Wallace, que passou a infância e a adolescência em Illinois, quase se apavora diante daquele evento de desbragado consumismo, mau gosto, glutoneria, tacanhice, ostentação kitsch e ingenuidade caipira. E ao mesmo tempo ele parece estar pondo o braço sobre os ombros do leitor e dizendo: “Pssst... nós também somos assim”.

O outro ensaio é “Uma Coisa Supostamente Divertida que Eu Nunca Mais Vou Fazer”. Outra reportagem encomendada, desta vez sobre um cruzeiro num navio de luxo pelo Mar do Caribe, em “uma entre as mais de vinte linhas de cruzeiro que operam atualmente a partir do sul da Flórida” (o ano era 1995, mas ouvi relatos recentes de uma viagem assim; não mudou muita coisa). Comentarei em detalhe esse texto numa próxima coluna, mas basta lembrar que Wallace, até por não ser um jornalista, e sim um escritor, mergulha nessas empreitadas de corpo inteiro e alma aberta, e equilibra de maneira prodigiosa o olho atento, o espírito incrédulo, o humor ferino e uma prosa permanentemente criativa sem traços de beletrismo.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

3264) Pentagrama misterioso (14.8.2013)




Assim como os cristãos têm uma tendência a ver a figura de Jesus em manchas de infiltração na parede, pedaços de pão cobertos de mofo, carapaças de caranguejo e outros suportes improváveis, o pessoal das Teorias da Conspiração costuma enxergar Satanás a torto e a direito. O ótimo site “io9” publicou há pouco as fotos de um local no Cazaquistão onde teria sido avistado “um Pentagrama diabólico” traçado em escala gigantesca na paisagem. Quem vê essas coisas, provavelmente, são adolescentes e aposentados com tempo para passear o dia inteiro no Google Earth e descobrir coisas suspeitas na paisagem, assim como tem gente que passa o dia inteiro filmando o céu e encontrando objetos que voam e que eles não são capazes de identificar.

Pentagrama, ou pentáculo (também pentaclo) é o termo que descreve a estrela de cinco pontas, às vezes inscrita num círculo. É essa a imagem que o pessoal flagrou no Google Earth, de uma altura de 400 metros ou 1.200 pés. (Aqui: http://bit.ly/1crYTRs.) Autoridades do Cazaquistão explicaram que se trata de um parque circular, cortado por alamedas (margeadas por algumas árvores, bem visíveis na foto) que traçam a forma de uma estrela. Como a obra data dos anos da União Soviética, é normal o uso da estrela, bastante comum em bandeiras e símbolos da época.

Teorias conspiratórias e místicas fazem o tempo todo esse tipo de leitura de formas e números elementares. A estrela de cinco pontas pode ser um símbolo satânico, mas pode ser também a estrela soviética, a estrela da Texaco, a estrela do xerife do faroeste, a estrela dos Tupamaros, e mais uma porção de coisas. (Algum tempo atrás, alguém descobriu pentagramas no mapa de Washington D.C.; qualquer cidade com traçado paralelo e avenidas oblíquas pode estar coberta de pentagramas, dependendo do ângulo de inclinação dessas diagonais.) Pessoas com manias de números atribuem sentidos cabalísticos ao 3, ao 7, ao 12 e assim por diante, e não lhes faltam exemplos, porque não nos faltam milhares de casos em que esses números aparecem, por serem números básicos. (Quero ver gente me apontar a presença reiterada, na natureza ou na cultura, de números como o 611 ou o 1573.)

Formas geométricas básicas estão por toda parte. A pirâmide, o círculo, a espiral, a cruz (ou o X)... Quando não estão na natureza estão na cultura, porque resultam das nossas experiências visuais mais simples de desenho, de produção de símbolos. Cada um vê nessas formas o que sua cultura lhe ensinou a ver. Antes do século 20, a suástica era um símbolo presente em decorações, em vasos, em insígnias religiosas. O nazismo a contaminou de horror e de opróbrio.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

3263) Paulo César Pinheiro (13.8.2013)





Cerca de duas mil músicas compostas, mais de mil gravadas: Paulo César Pinheiro é um dos grandes compositores da MPB. Tido, em geral, apenas como letrista, por ter sido assim que começou, depois passou a compor melodias próprias, gravou discos cantando, publicou livros de poemas e um romance. É um desses compositores cuja obra sustentaria a programação inteira de uma rádio, e de quem seria possível criar uma lista de dezenas de sucessos para surpreender o público dizendo: “todas estas músicas são do mesmo autor”.

Histórias das Minhas Canções (Editora LeYa, 2010) reconstitui a história por trás de algumas dessas canções. Às vezes é o processo criativo que Paulo César desvenda, o modo como uma idéia inicial vai se transformando em palavras e estas vão puxando novas idéias para dentro. Outras vezes é a história em torno da canção: o que motivou os parceiros, as circunstâncias da composição, etc. Às vezes uma música fica vários anos sem ser terminada, esperando um verso, um refrão. Outras vezes é feita em poucos minutos; muitas vezes (no caso de PCP) para responder um desafio tipo: “duvido você botar letra nessa melodia agora mesmo”.

Encontrei nesse livro a história de alguns grandes clássicos da minha memória afetiva pessoal (“Canto das Três Raças”, “Pesadelo”, “Lapinha”, “Tô voltando”, “Vou deitar e rolar”...). Algumas canções marcantes que ajudaram a consagrar o poeta (“Espelho”, “Além do espelho”, “Um ser de luz”, “Cordilheiras”...). As parcerias com Lenine (“Candeeiro encantado”, “Leão do Norte”). As canções de sensibilidade cósmica (“As Forças da Natureza”) e de futurismo apocalíptico (“O dia em que o morro descer e não for carnaval”). Um repertório gigantesco que começa com o samba, mas se amplia em todas as direções a partir do samba.

Fiquei conhecendo algumas letras extraordinárias, cuja música completa pretendo rastrear no YouTube. E algumas experiências lúdicas como “De palavra em palavra”, montada com linhas das canções de João Gilberto, e “Nonsense”, montada com frases em português que também podem ser ouvidas em francês (“Longe / l’ ange / tentar- / tant tard / -se persuadi-la / se perds soir d’île..”). Filho de um paraibano de Campina Grande, Paulo César Pinheiro tem um veio profundo ligado com o Nordeste, outro com a África e a cultura africana, mas é acima de tudo um menino nascido perto da Praia de Ramos e que aprendeu a fazer samba na Mangueira. Seus versos têm a técnica impecável dos eruditos e o suingue imprevisível  da cultura oral, da fala das esquinas, da gíria das ruas; os versos como jangadas acompanhando o ondear das águas da melodia e do batuque.


domingo, 11 de agosto de 2013

3262) Editores (11.8.2013)




(by Arcimboldo)

Autores vivem reclamando que as editoras precisam “prestigiar o autor nacional”. Essa queixa deveria ser dirigida não às editoras comerciais, mas aos programas de formação de bibliotecas, por exemplo. (Os quais, aliás, prestigiam bastante.) Uma editora particular é um risco auto-sustentado. Os livros precisam pagar as despesas materiais da editora, e dar um lucro que possibilite ao editor as duas coisas que se faz com lucro: botar uma parte em sua conta pessoal e reinvestir outra parte.

Administrar uma editora não é diferente de fazer filmes ou manter um jornal. Há um trabalho artístico ou de comunicação a ser realizado, mas isso precisa render dinheiro, a menos que todos os envolvidos tenham outra fonte de renda e façam aquilo apenas por realização pessoal. Todo editor sonha que lhe caia nas mãos um livro que venda muito, que em pouco tempo multiplique seu capital e lhe permita reinvestir na estrutura física da editora: melhores salas, melhores computadores, profissionais mais qualificados, com melhores salários, etc. E também reinvestir nos autores – publicar livros com menor apelo comercial, mas de que a editora gosta, e acha que vale a pena revelar. O que um editor não deveria fazer é apostar todo seu capital apenas em livros difíceis, ou apenas em autores desconhecidos, ou apenas em autores ainda imaturos mas que são primos da namorada ou cunhados do irmão dele.

Se eu fosse editor, procuraria títulos que pudessem se pagar rapidamente, e que fossem marcantes de alguma forma, para chamar a atenção para o nome e o catálogo da editora. Às vezes, editoras pequenas surgem do nada e se tornam grandes porque descobriram um filão editorial a que ninguém estava dando muita atenção. Outras vezes, um editora pequena emplaca um best-seller, ganha rios de dinheiro, mas o proprietário, em vez de reinvestir, gasta tudo em carros de luxo e cruzeiros marítimos, e se apavora quando o segundo livro lançado não rende tanto quanto o primeiro.

“E o editor grande, que teria cacife para bancar o jovem autor?”, pergunta alguém. A resposta é que isso é uma possibilidade, mas cada editor só publica o que gosta. Se eu for dono de uma editora ninguém pode me obrigar a publicar um livro que eu (=minha equipe) ache ruim ou desinteressante. Se o livro não é bem escrito ou não tem um tema que valha a pena, por que eu o publicaria? Que o autor bata em outra porta. Por outro lado, acho meio covardes os editores que dizem: “Seu livro é excelente, mas não publico porque acho que vai vender pouco.” Se ele gosta e não publica, a única desculpa possível é que já esteja endividado demais e não queira correr o risco de aumentar o prejuízo.

sábado, 10 de agosto de 2013

3261) História de um Brasil (10.8.2013)




Nossa fantasia de ascensão social, cem anos atrás, no que foi chamado a “Belle Époque” carioca, era em torno de uma fantasia vagamente aristocrática, imitação de uma aristocracia vista e interpretada à distância, por sinais exteriores que tanto podiam sugerir refinamento quanto frivolidade, tanto nobreza de princípios quanto brutalidade de processos. Nos anos 1880, uma certa classe média urbana tinha Paris como norte magnético, e como ideologia um Iluminismo pragmático, e tentava transpor para a convivência republicana os investimentos acumulados na monarquia. Trocava-se o veículo na esperança de se conseguir manter o trajeto; o discurso, como se dá em tantas revoluções ou golpes de Estado, ganhava um tom de triunfalismo, que serviu naquele momento para fomentar a ilusão de que grandes mudanças estavam ocorrendo no país.

A abertura de portas promovida pela República, a mudança parcial nas regras do jogo e a presença de novos jogadores na mesa (principalmente os militares) ajudou a cultivar a sensação de que o país mudara, embora a mudança mais perceptível só ocorresse com o populismo da ditadura Vargas, que se manteve no poder pagando uma parte da dívida social que a primeira República assumira e vinha administrando em banho-maria.

A segunda metade do século 20, partido ao meio pela II Guerra, trouxe uma mudança no andar de cima, com a hegemonia cultural norte-americana sucedendo à européia. O Norte magnético deixou de ser Paris ou Lisboa, transferiu-se para Nova York ou Hollywood, e desta vez a invasão tecnológica (cinema, rádio, TV) passou o rodo nas ruínas da mentalidade aristocrática. Sem extingui-la de todo, o que talvez seja impossível: subsiste em bolsões urbanos afluentes e no avesso-da-costura representado por um certo tipo de feudalismo rural à moda antiga, que por sua vez está sendo empurrado para os recantos do mapa por um ruralismo predatório, impessoal, expansão da mentalidade urbano-industrial, impiedosa, voraz, mas que pelo menos se justifica, diante do delírio financeiro transnacional, com o álibi da produção de alimentos e da geração de empregos.

O lema utópico da bandeira positivista, “Ordem e Progresso”, revelou aos poucos sua verdadeira natureza: “Controle Ideológico e Acumulação de Capital”. A fantasia de ascensão social de hoje dispensa o aristocratismo, o refinamento, o iluminismo. Em seu extremo mais saudável, resume-se a trabalho honesto e consumo conspícuo. No extremo oposto, é a filosofia de enriquecimento a qualquer custo, a demonstração constante do poder do dinheiro, e o desprezo acintoso por qualquer atividade que não envolva grandes lucros ou generosas despesas.


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

3260) Mídia Ninja e Pasquim (9.8.2013)




A entrevista no “Roda Viva” (TV Cultura) com os organizadores da Mídia Ninja (Bruno Torturra) e Fora do Eixo (Pablo Capilé) veio depois da ida àquele programa dos organizadores do Movimento Passe Livre, um dos responsáveis pelas manifestações dos “20 Centavos” em junho. Eram jovens desconhecidos (eu pelo menos não sabia direito quem eram) sabatinados por velhas raposas da imprensa, que lhes pediram contas de seus atos com aquele ar meio paternal e meio sobranceiro com que um bedel entediado interpela estudantes que flagrou reunidos no banheiro, cochichando entre si, em atitude suspeita. “Bora, bora, o que diabo vocês andam aprontando?”.  Este, aliás, seria um bom título para esses programas, em que jovens na faixa dos 30 anos explicam aos profissionais da informação o que está acontecendo no mundo. Como disse Dylan: “Porque alguma coisa está acontecendo aqui, mas você não sabe o que é, não é mesmo, Mr. Jones?”.

Alberto Dines, no último bloco, evocou uma semelhança que a cada minuto me vinha à mente, a semelhança dessa nova TV-de-Rua com a imprensa alternativa dos anos 1960-70. Quando O Pasquim surgiu eu tinha 19 anos e via os jornais comentando com desdém aquele jornaleco que já começava esculhambando a si mesmo a partir do nome. Comentários tipo: “Eles mesmos não sabem se é um jornal de humor, de política, de cultura ou de mulher pelada”. Para a imprensa da época, as gírias, os palavrões (inclusive os censurados, que davam origem a expressões saborosas como “vai pra asterisca que asterisquiu!”), a bagunça gráfica, a salada ideológica, tudo isso era uma afronta à grande imprensa da época, que era tão penteadinha, barbeada e cheirando a loção quanto a de hoje.

Fala-se no mundo da ciência que se um cientista velho diz que alguma coisa é impossível ele provavelmente está errado. No mundo da cultura, quando um crítico velho diz que alguma coisa é ininteligível é porque não sabe mais onde pôs os óculos (que estão na testa). Não conheço as atividades do Fora do Eixo (um coletivo de produção de eventos por todo o Brasil), mas tenho acompanhado transmissões da Mídia Ninja há um mês, madrugada adentro. Um celular na mão, um computador (e sua bateria) na mochila, uma conexão 3G, um saite para distribuir. Para quem só tinha as TVs abertas e a GloboNews, virou uma maneira diferente de ver os fatos públicos. Não sei no que vai dar isso tudo. O que os distingue da imprensa velha (a da minha geração) não é o fato de que saibam, porque eles também não sabem. É o mergulho nas novas tecnologias, que geram novas relações, que geram novas idéias. Se são boas (e para quem são boas), o tempo dirá. Vamos ligar e assistir.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

3259) Fantasma no Cassino (8.8.2013)




O smoking alugado é do número certo, mas até os números são sujeitos a erro, pensa ele, e em seguida percebe que tem pensado muito essa frase ultimamente. Também pudera. O mercado de ações está nervoso. As estatísticas da guerra assustam. Os resultados da roleta e do bacará são os mais inesperados possíveis. Um garçon sorri e se curva com a bandeja, ele recolhe a bebida sem olhar o que é, e, sem se perguntar por quê, esvazia a taça de uma vez só. Vira à direita e vê-se de novo naquele espaço central de uma das alas do Hotel, onde há uma enorme gaiola cheia de araras vivas e multicores. Ele se esgueira por entre a multidão que ali circula, bebendo, flertando, dando gargalhadas escandalosas, e transpõe o limiar da grande sala circular dos jogos.

Engraçados, os números. Suponhamos alguém com memória eidética, exata, perfeita até o derradeiro dígito, como se diz de alguns gênios, alguns autistas ou alguns “idiots savants”. E que passasse uma noite assim, febril, em brasa, cabeça-a-mil elevada ao cubo, insone, acordado a poder de fornalha mental, álcool e qualquer outro aditivo que lhe estendessem. E com isso descobrisse a fórmula de acesso aos mundo transmaterial. Que é uma senha, um password numérico como os cofres dos Bancos empregam. O mundo transmaterial tem uma senha numérica, um string de alguns milhões de dígitos que estavam ali, à espera do primeiro ser humano que conseguisse percebê-los, decorá-los, recitá-los quantas vezes lhes fosse pedido. E foi ele. Leu o número em repetidas noites no cassino.

O Homem sempre procurou o famoso “nome de Deus”, mas entre as letras, não entre os números. Ele teve vislumbres de noites que passou no Hotel Cassino. A sereia mergulhando na piscina aquecida à meia noite. O ratatá do helicóptero que numa madrugada quente desembarcou o homem de terno branco, charuto e sorriso aberto. A discussão nos degraus da torre, que ele, subindo a escada, entreouviu entre um casal num patamar mais acima; e escutou, quase sem querer, uma revelação terrível. A visita à cozinha gigantesca, a visão do Inferno dos leitões e dos bovinos. 

Agora ele cruza o salão de baile. Sabe que se se detiver diante de cada candelabro, cada pintura, cada corredor de pé direito imenso, ou se tomar o estreito elevador de porta pantográfica, mais cedo ou mais tarde virá parar aqui. Ajeita o smoking. O número era para ser outro. Mas ele descobriu O Número. Deixou o Real em curto circuito. Tornou-se eterno no Tempo, mesmo à custa de virar um loop de si mesmo. Um garçon sorri e se curva com a bandeja, ele recolhe a bebida sem olhar o que é, e, sem se perguntar por quê, esvazia a taça de uma vez só.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

3258) O Conselheiro Aires (7.8.2013)





Machado de Assis é o rei do “innuendo”, da insinuação, das nuances, da arte de sugerir uma impressão sem dizê-la com todas as letras, capaz de nos descrever a roupa de uma mulher com o propósito de que a imaginemos despida. 

No Memorial de Aires (1908), seu romance crepuscular, ele conta o amor nunca concretizado do Conselheiro Aires, um diplomata sessentão aposentado, pela viúva Noronha, que é jovem e perdeu o marido após dois anos de casamento. Vendo-a no cemitério, Aires, que ali passeia com a irmã, Rita, acha a viúva bonita, mas Rita lhe garante que ela amou muito o esposo, foi feliz com ele, e não voltará a casar. A viúva, aliás, chama-se Fidélia, mas o Conselheiro graceja: “O nome não basta para não casar”. 

Note-se que tanto o Conselheiro quanto Rita também são viúvos, e o romance explora este trio inicial de casais fraturados pela morte de um dos cônjuges. Irmão e irmã comentam a possibilidade de que a viúva Noronha case com ele. Aires fica em dúvida: “Com os meus sessenta e dois anos?”. Ela contesta: “Oh! Não os parece: tem a verdura dos trinta”.


Aires torna-se amigo da viúva, acha-a “saborosa”, mas ao ler um poema de Shelley cita com melancolia: “I can give not what men call love”, e traduz: “Eu não posso dar o que os homens chamam amor... e é pena!”. 

Que minha alma arda nas fogueiras se estou sendo infiel à intenção de Machado, mas maldo que o sentido que ele dá à palavra é avesso ao sentido platônico de Shelley no poema original (“One Word is Too Often Profaned”). Na minha terra, “o que os homens chamam amor” é sexo, e é isto que Aires receia não poder dar à viúva. O Conselheiro é um sexagenário introvertido, cauteloso, do tipo que acha melhor não se arriscar do que pagar um mico.

Em maio (o livro é em forma de diário) ele sonha que pede a viúva em casamento e ela o aceita. Mas vai se desiludindo: 

“Está na idade de casar, e pode aparecer alguém que realmente a queira para esposa. Não falo de mim, Deus meu, que apenas tive veleidades sexagenárias; digo alguém de verdade, pessoa que possa e deva amar como a dona merece”. 

Aires torna-se testemunha, e às vezes confidente, do romance inesperado que surge entre a viúva e o jovem Tristão. No ano seguinte, os dois casam e embarcam para a Europa. Assim o Conselheiro descreve a despedida: 

“Não acabarei esta página sem dizer que me passou agora pela frente a figura de Fidélia, tal como a deixei a bordo, mas sem lágrimas. Sentou-se no canapé e ficamos a olhar um para o outro, ela desfeita em graça, eu desmentindo Shelley com todas as forças sexagenárias restantes”. 

O Conselheiro descobre, tarde demais, que ainda tem “a verdura dos trinta”.








terça-feira, 6 de agosto de 2013

3257) Vida e literatura (6.8.2013)


(D. F. Wallace, por Charlie Powell)

A vida é irredutível a palavras, como sabe quem já experimentou uma e quem utiliza as outras, mas é essa mesma incompatibilidade de essência que torna indispensável a tentativa. 

Verbalizar não produz uma síntese da experiência vivida, mas uma mera antítese a ela, uma expansão dela, a criação de um simulacro em tão alto grau de alteridade e de abstração que o simples ato de produzi-lo ou de absorvê-lo (ou seja, o ato de escrever e o ato de ler) turbina a intensidade da experiência vital, e chegamos a nos perguntar se faz sentido passar pela vida inteira sem experimentar esse simulacro que não a explica nem substitui, mas talvez a justifique.

No seu famoso ensaio “Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer” (em Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo, Cia. Das Letras, 2012), David Foster Wallace assim descreve o cheiro de detergente no banheiro de um navio de luxo: 

“...um desinfetante norueguês estranho, mas nada mau, cujo perfume se parece com o cheiro que existiria se alguém, que conhecesse a exata composição organoquímica de um limão mas nunca tivesse de fato cheirado um limão, tentasse sintetizar o perfume de um limão.” 

A escrita é um epifenômeno (um fenômeno secundário, consequência de um fenômeno principal) que na tentativa de evocar o fenômeno principal desenvolve estruturas expressivas de tal complexidade que adquire vida própria e essência independente, tornando-se tão ou mais digno de atenção quanto o fenômeno que, a princípio, tentava reproduzir ou sintetizar.

Wallace falou em limão mas a imagem que me ocorre é a de um caju. O caju não é uma fruta. O fruto do cajueiro é na verdade a castanha (que para nós é somente um caroço avantajado, como o do abacate ou o do pêssego); o caju é apenas “um pedúnculo carnoso”, que desenvolveu forma, cor, aroma, textura, massa esponjosa, cordames tenros, sucos adstringentes e doces, e, como uma atriz tarimbada contracenando com uma estrela mais jovem, dá um jeito coreográfico de colocá-la de costas para a platéia, ou sob luz desfavorável, invertendo assim o balanço hierárquico e tomando as rédeas da cena. 

Não desmerecemos o fenômeno principal (castanhas assadas são sempre uma delícia), mas igualmente há que se tirar o chapéu para a exuberância ontológica desse mero coadjuvante que, por méritos próprios, consegue redefinir o Universo em seus próprios termos.

Pois é isso que a Arte, mero efeito, faz com a Vida, causa essencial e primeira de todas as coisas, dela inclusive; e o único consolo dos que apenas vivem e não têm tempo para a Arte é dizerem, cobertos de razão, que quando íamos para os cajus eles já vinham das castanhas.