sábado, 10 de agosto de 2013

3261) História de um Brasil (10.8.2013)




Nossa fantasia de ascensão social, cem anos atrás, no que foi chamado a “Belle Époque” carioca, era em torno de uma fantasia vagamente aristocrática, imitação de uma aristocracia vista e interpretada à distância, por sinais exteriores que tanto podiam sugerir refinamento quanto frivolidade, tanto nobreza de princípios quanto brutalidade de processos. Nos anos 1880, uma certa classe média urbana tinha Paris como norte magnético, e como ideologia um Iluminismo pragmático, e tentava transpor para a convivência republicana os investimentos acumulados na monarquia. Trocava-se o veículo na esperança de se conseguir manter o trajeto; o discurso, como se dá em tantas revoluções ou golpes de Estado, ganhava um tom de triunfalismo, que serviu naquele momento para fomentar a ilusão de que grandes mudanças estavam ocorrendo no país.

A abertura de portas promovida pela República, a mudança parcial nas regras do jogo e a presença de novos jogadores na mesa (principalmente os militares) ajudou a cultivar a sensação de que o país mudara, embora a mudança mais perceptível só ocorresse com o populismo da ditadura Vargas, que se manteve no poder pagando uma parte da dívida social que a primeira República assumira e vinha administrando em banho-maria.

A segunda metade do século 20, partido ao meio pela II Guerra, trouxe uma mudança no andar de cima, com a hegemonia cultural norte-americana sucedendo à européia. O Norte magnético deixou de ser Paris ou Lisboa, transferiu-se para Nova York ou Hollywood, e desta vez a invasão tecnológica (cinema, rádio, TV) passou o rodo nas ruínas da mentalidade aristocrática. Sem extingui-la de todo, o que talvez seja impossível: subsiste em bolsões urbanos afluentes e no avesso-da-costura representado por um certo tipo de feudalismo rural à moda antiga, que por sua vez está sendo empurrado para os recantos do mapa por um ruralismo predatório, impessoal, expansão da mentalidade urbano-industrial, impiedosa, voraz, mas que pelo menos se justifica, diante do delírio financeiro transnacional, com o álibi da produção de alimentos e da geração de empregos.

O lema utópico da bandeira positivista, “Ordem e Progresso”, revelou aos poucos sua verdadeira natureza: “Controle Ideológico e Acumulação de Capital”. A fantasia de ascensão social de hoje dispensa o aristocratismo, o refinamento, o iluminismo. Em seu extremo mais saudável, resume-se a trabalho honesto e consumo conspícuo. No extremo oposto, é a filosofia de enriquecimento a qualquer custo, a demonstração constante do poder do dinheiro, e o desprezo acintoso por qualquer atividade que não envolva grandes lucros ou generosas despesas.


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

3260) Mídia Ninja e Pasquim (9.8.2013)




A entrevista no “Roda Viva” (TV Cultura) com os organizadores da Mídia Ninja (Bruno Torturra) e Fora do Eixo (Pablo Capilé) veio depois da ida àquele programa dos organizadores do Movimento Passe Livre, um dos responsáveis pelas manifestações dos “20 Centavos” em junho. Eram jovens desconhecidos (eu pelo menos não sabia direito quem eram) sabatinados por velhas raposas da imprensa, que lhes pediram contas de seus atos com aquele ar meio paternal e meio sobranceiro com que um bedel entediado interpela estudantes que flagrou reunidos no banheiro, cochichando entre si, em atitude suspeita. “Bora, bora, o que diabo vocês andam aprontando?”.  Este, aliás, seria um bom título para esses programas, em que jovens na faixa dos 30 anos explicam aos profissionais da informação o que está acontecendo no mundo. Como disse Dylan: “Porque alguma coisa está acontecendo aqui, mas você não sabe o que é, não é mesmo, Mr. Jones?”.

Alberto Dines, no último bloco, evocou uma semelhança que a cada minuto me vinha à mente, a semelhança dessa nova TV-de-Rua com a imprensa alternativa dos anos 1960-70. Quando O Pasquim surgiu eu tinha 19 anos e via os jornais comentando com desdém aquele jornaleco que já começava esculhambando a si mesmo a partir do nome. Comentários tipo: “Eles mesmos não sabem se é um jornal de humor, de política, de cultura ou de mulher pelada”. Para a imprensa da época, as gírias, os palavrões (inclusive os censurados, que davam origem a expressões saborosas como “vai pra asterisca que asterisquiu!”), a bagunça gráfica, a salada ideológica, tudo isso era uma afronta à grande imprensa da época, que era tão penteadinha, barbeada e cheirando a loção quanto a de hoje.

Fala-se no mundo da ciência que se um cientista velho diz que alguma coisa é impossível ele provavelmente está errado. No mundo da cultura, quando um crítico velho diz que alguma coisa é ininteligível é porque não sabe mais onde pôs os óculos (que estão na testa). Não conheço as atividades do Fora do Eixo (um coletivo de produção de eventos por todo o Brasil), mas tenho acompanhado transmissões da Mídia Ninja há um mês, madrugada adentro. Um celular na mão, um computador (e sua bateria) na mochila, uma conexão 3G, um saite para distribuir. Para quem só tinha as TVs abertas e a GloboNews, virou uma maneira diferente de ver os fatos públicos. Não sei no que vai dar isso tudo. O que os distingue da imprensa velha (a da minha geração) não é o fato de que saibam, porque eles também não sabem. É o mergulho nas novas tecnologias, que geram novas relações, que geram novas idéias. Se são boas (e para quem são boas), o tempo dirá. Vamos ligar e assistir.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

3259) Fantasma no Cassino (8.8.2013)




O smoking alugado é do número certo, mas até os números são sujeitos a erro, pensa ele, e em seguida percebe que tem pensado muito essa frase ultimamente. Também pudera. O mercado de ações está nervoso. As estatísticas da guerra assustam. Os resultados da roleta e do bacará são os mais inesperados possíveis. Um garçon sorri e se curva com a bandeja, ele recolhe a bebida sem olhar o que é, e, sem se perguntar por quê, esvazia a taça de uma vez só. Vira à direita e vê-se de novo naquele espaço central de uma das alas do Hotel, onde há uma enorme gaiola cheia de araras vivas e multicores. Ele se esgueira por entre a multidão que ali circula, bebendo, flertando, dando gargalhadas escandalosas, e transpõe o limiar da grande sala circular dos jogos.

Engraçados, os números. Suponhamos alguém com memória eidética, exata, perfeita até o derradeiro dígito, como se diz de alguns gênios, alguns autistas ou alguns “idiots savants”. E que passasse uma noite assim, febril, em brasa, cabeça-a-mil elevada ao cubo, insone, acordado a poder de fornalha mental, álcool e qualquer outro aditivo que lhe estendessem. E com isso descobrisse a fórmula de acesso aos mundo transmaterial. Que é uma senha, um password numérico como os cofres dos Bancos empregam. O mundo transmaterial tem uma senha numérica, um string de alguns milhões de dígitos que estavam ali, à espera do primeiro ser humano que conseguisse percebê-los, decorá-los, recitá-los quantas vezes lhes fosse pedido. E foi ele. Leu o número em repetidas noites no cassino.

O Homem sempre procurou o famoso “nome de Deus”, mas entre as letras, não entre os números. Ele teve vislumbres de noites que passou no Hotel Cassino. A sereia mergulhando na piscina aquecida à meia noite. O ratatá do helicóptero que numa madrugada quente desembarcou o homem de terno branco, charuto e sorriso aberto. A discussão nos degraus da torre, que ele, subindo a escada, entreouviu entre um casal num patamar mais acima; e escutou, quase sem querer, uma revelação terrível. A visita à cozinha gigantesca, a visão do Inferno dos leitões e dos bovinos. 

Agora ele cruza o salão de baile. Sabe que se se detiver diante de cada candelabro, cada pintura, cada corredor de pé direito imenso, ou se tomar o estreito elevador de porta pantográfica, mais cedo ou mais tarde virá parar aqui. Ajeita o smoking. O número era para ser outro. Mas ele descobriu O Número. Deixou o Real em curto circuito. Tornou-se eterno no Tempo, mesmo à custa de virar um loop de si mesmo. Um garçon sorri e se curva com a bandeja, ele recolhe a bebida sem olhar o que é, e, sem se perguntar por quê, esvazia a taça de uma vez só.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

3258) O Conselheiro Aires (7.8.2013)





Machado de Assis é o rei do “innuendo”, da insinuação, das nuances, da arte de sugerir uma impressão sem dizê-la com todas as letras, capaz de nos descrever a roupa de uma mulher com o propósito de que a imaginemos despida. 

No Memorial de Aires (1908), seu romance crepuscular, ele conta o amor nunca concretizado do Conselheiro Aires, um diplomata sessentão aposentado, pela viúva Noronha, que é jovem e perdeu o marido após dois anos de casamento. Vendo-a no cemitério, Aires, que ali passeia com a irmã, Rita, acha a viúva bonita, mas Rita lhe garante que ela amou muito o esposo, foi feliz com ele, e não voltará a casar. A viúva, aliás, chama-se Fidélia, mas o Conselheiro graceja: “O nome não basta para não casar”. 

Note-se que tanto o Conselheiro quanto Rita também são viúvos, e o romance explora este trio inicial de casais fraturados pela morte de um dos cônjuges. Irmão e irmã comentam a possibilidade de que a viúva Noronha case com ele. Aires fica em dúvida: “Com os meus sessenta e dois anos?”. Ela contesta: “Oh! Não os parece: tem a verdura dos trinta”.


Aires torna-se amigo da viúva, acha-a “saborosa”, mas ao ler um poema de Shelley cita com melancolia: “I can give not what men call love”, e traduz: “Eu não posso dar o que os homens chamam amor... e é pena!”. 

Que minha alma arda nas fogueiras se estou sendo infiel à intenção de Machado, mas maldo que o sentido que ele dá à palavra é avesso ao sentido platônico de Shelley no poema original (“One Word is Too Often Profaned”). Na minha terra, “o que os homens chamam amor” é sexo, e é isto que Aires receia não poder dar à viúva. O Conselheiro é um sexagenário introvertido, cauteloso, do tipo que acha melhor não se arriscar do que pagar um mico.

Em maio (o livro é em forma de diário) ele sonha que pede a viúva em casamento e ela o aceita. Mas vai se desiludindo: 

“Está na idade de casar, e pode aparecer alguém que realmente a queira para esposa. Não falo de mim, Deus meu, que apenas tive veleidades sexagenárias; digo alguém de verdade, pessoa que possa e deva amar como a dona merece”. 

Aires torna-se testemunha, e às vezes confidente, do romance inesperado que surge entre a viúva e o jovem Tristão. No ano seguinte, os dois casam e embarcam para a Europa. Assim o Conselheiro descreve a despedida: 

“Não acabarei esta página sem dizer que me passou agora pela frente a figura de Fidélia, tal como a deixei a bordo, mas sem lágrimas. Sentou-se no canapé e ficamos a olhar um para o outro, ela desfeita em graça, eu desmentindo Shelley com todas as forças sexagenárias restantes”. 

O Conselheiro descobre, tarde demais, que ainda tem “a verdura dos trinta”.








terça-feira, 6 de agosto de 2013

3257) Vida e literatura (6.8.2013)


(D. F. Wallace, por Charlie Powell)

A vida é irredutível a palavras, como sabe quem já experimentou uma e quem utiliza as outras, mas é essa mesma incompatibilidade de essência que torna indispensável a tentativa. 

Verbalizar não produz uma síntese da experiência vivida, mas uma mera antítese a ela, uma expansão dela, a criação de um simulacro em tão alto grau de alteridade e de abstração que o simples ato de produzi-lo ou de absorvê-lo (ou seja, o ato de escrever e o ato de ler) turbina a intensidade da experiência vital, e chegamos a nos perguntar se faz sentido passar pela vida inteira sem experimentar esse simulacro que não a explica nem substitui, mas talvez a justifique.

No seu famoso ensaio “Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer” (em Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo, Cia. Das Letras, 2012), David Foster Wallace assim descreve o cheiro de detergente no banheiro de um navio de luxo: 

“...um desinfetante norueguês estranho, mas nada mau, cujo perfume se parece com o cheiro que existiria se alguém, que conhecesse a exata composição organoquímica de um limão mas nunca tivesse de fato cheirado um limão, tentasse sintetizar o perfume de um limão.” 

A escrita é um epifenômeno (um fenômeno secundário, consequência de um fenômeno principal) que na tentativa de evocar o fenômeno principal desenvolve estruturas expressivas de tal complexidade que adquire vida própria e essência independente, tornando-se tão ou mais digno de atenção quanto o fenômeno que, a princípio, tentava reproduzir ou sintetizar.

Wallace falou em limão mas a imagem que me ocorre é a de um caju. O caju não é uma fruta. O fruto do cajueiro é na verdade a castanha (que para nós é somente um caroço avantajado, como o do abacate ou o do pêssego); o caju é apenas “um pedúnculo carnoso”, que desenvolveu forma, cor, aroma, textura, massa esponjosa, cordames tenros, sucos adstringentes e doces, e, como uma atriz tarimbada contracenando com uma estrela mais jovem, dá um jeito coreográfico de colocá-la de costas para a platéia, ou sob luz desfavorável, invertendo assim o balanço hierárquico e tomando as rédeas da cena. 

Não desmerecemos o fenômeno principal (castanhas assadas são sempre uma delícia), mas igualmente há que se tirar o chapéu para a exuberância ontológica desse mero coadjuvante que, por méritos próprios, consegue redefinir o Universo em seus próprios termos.

Pois é isso que a Arte, mero efeito, faz com a Vida, causa essencial e primeira de todas as coisas, dela inclusive; e o único consolo dos que apenas vivem e não têm tempo para a Arte é dizerem, cobertos de razão, que quando íamos para os cajus eles já vinham das castanhas.






domingo, 4 de agosto de 2013

3256) O WC sobre o abismo (4.8.2013)




Em muitas áreas rurais de países montanhosos existe um costume que pode às vezes surpreender o viajante distraído. São as privadas ao ar livre na borda de um precipício. As alturas são vertiginosas nessas regiões, e as casas em geral dão os fundos para o abismo. Nada mais natural do que haver uma construção feita de tábuas, em geral protegida também por cima, com o respectivo assento, a abertura... e abaixo dela o abismo. Por uma razão simples. Fossas sanitárias são sempre um problema, exigem um trabalho estafante e desagradável, e podem ser fonte de doença. Para a mentalidade dos montanheses, parece mais prático despejar de pouquinho em pouquinho aqueles dejetos sobre centenas de metros de barranco, para que sejam ali lavados pela chuva e bebidos pela terra. Mais prático, mais higiênico e mais lógico.

A filha de Cordwainer Smith, escritor de FC norte-americano, conta que seu pai (que por muitos anos trabalhou na China) certa vez, em viagem pelo interior do país, foi num desses lugares. Era uma noite de clima agradável, e ele entrou uma privada que tinha dois assentos. Sentado num deles, olhou de lado e viu no fundo do outro assento uma luzinhas piscando. Pensou que fossem vagalumes. Então ouviu um ronco de motores de caminhão e percebeu que aquelas luzes eram os faróis dos veículos, lá embaixo, subindo a serra quase embaixo do lugar onde ele se encontrava.

Luís Buñuel conta uma memória de infância, em Molinos (Aragón): através do buraco de uma privada assim ele viu “um falcão voando em círculos por baixo de mim”. Ele faz uma referência a isto num dos diálogos surrealistas do Anjo Exterminador (1962). É fácil entender que essas imagens tenham alguma ressonância freudiana ou coisa parecida, mas o mais interessante é que elas exprimam, a seu modo, a noção de que mesmo o pior fundo-do-poço não é o mais fundo ainda, pode haver todo um planeta aberto lá embaixo.

Mergulhar na privada para emergir noutro mundo é uma idéia sugerida no começo de Quem quer ser um milionário? de Danny Boyle, e reconstituída literalmente em O Feitiço de Áquila de Richard Donner (não lembro se os personagens de O Conde de Monte Cristo e Os Miseráveis também usam esse caminho de fuga). O único problema que vejo com essa organização do espaço sanitário é o perigo de chuvas, deslizamentos e avalanches que ponham em perigo a segurança da casinha, fazendo o sujeito desmoronar morro abaixo num momento altamente desfavorável. Mas a verdade é que se um sujeito está num lugar onde ele olha para o fundo de uma privada e vê um falcão voando, então não tem muita coisa de que se queixar à vida.



sábado, 3 de agosto de 2013

3255) Clichês de capa (3.8.2013)


A gente vê no jornal ou na Internet a resenha de um livro interessante, fica com vontade de dar uma olhada, mas não consegue lembrar o título nem o nome do autor. Dias depois, no balcão da livraria, reconhece a capa e, sem refletir muito, leva o livro direto ao caixa. Quando chega em casa, surpresa: o livro não é o que a gente pensava. “Mas a capa é igualzinha!”, queixa-se o leitor. Pois é, rapaz. A capa era igualzinha. Isso é mais frequente do que a gente imagina.

Esta matéria no saite “Livros e Afins” (http://bit.ly/1aP82jQ) faz um apanhado muito divertido dessa tendência (com notável honestidade, o saite informa ter transcrito a matéria do saite estrangeiro BuzzFeed (www.buzzfeed.com). Muitas vezes uma série de livros de um autor de sucesso (Agatha Christie, Sidney Sheldon, etc.) recebe capas semelhantes, num mesmo estilo. Mas há grupos nítidos de capas quase idênticas em livros sem a menor relação uns com os outros.  Pode-se falar em imitação, em plágio, em furto de idéias... Pode até ser, porque tudo isso acontece no pega-pra-capar da indústria editorial. Mas vendo tantos exemplos juntos a gente tem que admitir que vai mais longe: são “tendências” (como gosta de dizer o pessoal da moda), são recursos que de repente viram um consenso na cabeça dos designers: “Isso aqui já funcionou antes, deve funcionar sempre.” 

A lista do saite mostra tendências interessantes: para histórias de mistério e suspense, imagens como “o homem na cerca”, “o assustador homem-silhueta”, etc. Para histórias dramáticas e românticas, vale usar vezes sem conta a mesma foto de uma mulher com vestido longo e costas nuas, ou imagens de mulher olhando o mar. Romances para yuppies apresentam capas em torno de elementos básicos: sapatos altos, jóias, tonalidades frias.

Vendo esses exemplos percebemos que a escolha da capa de um livro está sempre num movimento pendular entre “exprimir/comentar o conteúdo literário da obra” e “convencer o possível comprador de que aquele livro parece com outros de que ele gostou”. Como tantas vezes ocorre nas atividades humanas, é mais fácil apostar no que já funcionou antes do que tentar ver se uma coisa esquisita funciona. A capa do livro pertence àquele conjunto de elementos que não têm nada a ver com literatura, mas que, se contiverem demasiado “ruído”, não conseguem convencer as pessoas a quem cabe vendê-lo: o departamento de marketing da editora, o livreiro, o balconista. Se esses importantes personagens não se entusiasmarem com o aspecto do livro e com a sua descrição superficial, vai ser difícil chamar a atenção do leitor. Pode ser sucesso. Mas vai dar o dobro do trabalho.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

3254) Amarildo e Bruno (2.8.2013)






Amarildo de Souza é um pedreiro da Rocinha que no domingo 14 de julho, às 8 da manhã, foi levado de casa por policiais da UPP, para averiguação, e nunca mais foi visto. Na terça-feira dia 16 a família registrou o desaparecimento. Na imprensa, nas manifestações de rua, nas redes sociais, todo mundo ergue cartazes, posta mensagens e faz a pergunta: “Cadê o Amarildo?”. A polícia diz que Amarildo foi interrogado e liberado às 19:40 do domingo, mas as câmaras nas proximidades não registram sua saída; aliás, “as duas câmaras instaladas na frente da sede da UPP não funcionaram desde as 8h do domingo em que Amarildo desapareceu até o fim do dia.” Uma cômoda coincidência (ou incômoda, de acordo com o ponto de vista).

Já o caso de Bruno é diferente. Ele era um dos manifestantes que no dia 22 de julho protestavam na rua Pinheiro Machado, perto do Palácio do Governo. Preso pela polícia, foi acusado de estar portando uma mochila com mais de 20 coquetéis molotovs e de ter jogado um deles na tropa da PM. Bastaram dois ou três dias para que surgissem nas redes sociais dezenas de fotos e vídeos argumentando, com riqueza de detalhes, que: 1) Bruno não estava de mochila; 2) no arremesso do primeiro coquetel molotov ele estava bem visível na linha de frente dos manifestantes, e a bomba veio de trás; 3) que dois indivíduos, um deles com roupa semelhante à do que foi filmado jogando o coquetel (visto em outra imagem) saem da manifestação, correm para o meio da PM, são barrados, identificam-se aos gritos e em seguida os PMs permitem que os dois entrem no grupo e se refugiem na retaguarda. A tese de que os dois são P2 (policiais disfarçados, infiltrados para ações de provocação) levou a justiça a liberar Bruno, pela análise das imagens.

Dois episódios que mostram para onde o mundo está indo, mesmo que a gente não goste: para a “sociedade transparente” que David Brin avistava em 1998 (ver: http://bit.ly/152RX7J ), a cidade onde os espaços públicos estão vigiados por câmeras, gravando imagens que podem ser usadas para reconstituir as ações de qualquer pessoa.

Isso é bom? É ruim? Nenhuma tecnologia é boa ou ruim em princípio, o que conta é o modo como é usada. Estes dois casos mostram situações opostas. No caso de Bruno, o enorme número de câmeras ajudou a desmascarar uma acusação falsa e liberar um inocente. No caso de Amarildo, a inexistência de câmeras funcionando nos impede de saber se, quando e em que condições ele saiu das dependências da polícia. Só temos um caminho: aprender a conviver com a vigilância e a transparência, usá-las para o bem individual e coletivo, porque a opção de viver sem elas não existe mais.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

3253) A arte do repente (1.8.2013)




(Sebastião da Silva e Louro Branco)

A arte do repente é vítima de vários equívocos quando é estudada nos livros. Estudar o repente de violeiros num livro é muito útil, mas se o estudante não frequenta cantorias é como estudar futebol num livro e nunca assistir sequer um jogo de pelada. De que adianta?

O repente é um verso feito em poucos segundos com a obrigação de ser cantado naquele instante exato. O violeiro não pode “pedir pausa” enquanto dá uma ajeitadinha nas rimas ou na ordem dos versos. Verdade que em qualquer cantoria usa-se muito “balaio”, muito verso preparado. Isso é outra coisa. Estou falando daqueles momentos, no transcorrer de uma cantoria, em que a gente vê que tudo está sendo criado na hora, pra valer, no calor da batalha.

Quando alguém pratica muito, consegue fazer tudo mais depressa. Tem um repertório de saídas espertas para situações difíceis. Tem um processo qualquer para acessar rapidamente uma palavra, uma rima, uma informação guardada na memória. Já é capaz de dividir o problema, instantaneamente, em diferentes blocos, e resolvê-los em paralelo, quase que com diferentes cérebros. Tem o talento de desligar a chave da emoção, para que a angústia da dúvida ou o pânico de errar não o atrapalhem. A emoção se canaliza para o sensorial, e o cantador vê-se vibrando em uníssono com o diapasão do recinto; canaliza-se para a memória, para o “jogo de Lego” da verbalização metrificada.

A Cantoria é poesia acima de tudo, mas não é só a poesia, a palavra. Tem um lado indispensável que é feito de música; e tem outro, também essencial e meio indefinível, que pode ser chamado de performance, de canto, de representação teatral, de articulação oral, de histrionismo. A Cantoria não repousa somente na substância verbal de uma sextilha, mas (para os privilegiados que a acompanham ao vivo) o modo como se encaixou na sextilha do parceiro, o modo como a rebateu ou confirmou, o tom com que foi cantada, as nuances de voz ou de expressão. Um pouco disso passa para o vídeo, a TV, os clipes de cantorias no YouTube.

Para o livro, passa pouco. Por isso, talvez, criou-se desde muitos anos, na literatura sobre Cantoria, uma figura de linguagem quase obrigatória. Quando o autor quer citar uma grande estrofe, primeiro diz quando se deu o fato, faz uma breve descrição do ambiente, cita a sextilha precedente (ou mais frequentemente os dois últimos versos dela), e só então transcreve a sextilha que está citando. Porque sabe o quanto ela dependeu do momento, do contexto.

O valor do verso aumenta quando sabemos a “deixa” que recebeu, a pergunta que está respondendo, o erro que está ironizando, o assunto novo que está pegando no ar sem deixar cair.


quarta-feira, 31 de julho de 2013

3252) Fogo de inverno (31.7.2013)




As nevadas foram mansas durante aqueles meses na província de Wu Wei. Quando o dia clareava, o Budista Tibetano saía de sua confortável casa de madeira, cumpria às pressas as tarefas necessárias para que o mundo não se acabasse, e voltava correndo para dentro, onde sua assistente (ou concubina, segundo outras traduções) já lhe preparara um narguilê. Todo dia passavam por ali jornaleiros de bicicleta, distribuindo folhetos com a tinta ainda úmida. O Budista Tibetano lia e balançava a cabeça, desconsolado.

“Saques e depredações na capital,” queixou-se ele. O Pavilhão do Chá, a Ópera de Arame, o Museu do Olho, tudo estava conflagrado por quebra-quebras e por confrontos entre os soldados do Império e os estudantes da Universidade das Filosofias. “Eles acusam os militares de golpistas, mas são mais golpistas que qualquer um, só querem o poder agora se for agora. São capazes de dar a vida pela Revolução, mas não admitem esperar dez anos por ela.”  Tomou um gole de chá e tentou ser filosófico. “A tragédia do revolucionário jovem é querer que tudo aconteça no seu tempo de vida, e de preferência no auge de sua energia e disposição. Vai precisar delas, porque vai ter que bater a cabeça numa parede por trinta anos.”  A companheira pegou na bandeja um biscoitinho da sorte e o entregou. Ele quebrou o biscoito, desenrolou o papel, leu: “E você, o que sugere?”

“Bem observado,” disse ele, jogando o papelucho pela janela. “Vem cá.” Ela veio, bem obediente, os dois se encostaram no peitoril, e ele apontou: “Estás vendo toda esta encosta, com suas casas? Neve e fogo. Nevascas e fogueiras. Isso é a política. A neve é a natureza. São as coisas que acontecem acima da nossa vontade ou da nossa conveniência. A seta do tempo. É o corpo do universo começando a esfriar. Já o fogo é cultura, é revolta, é vida proibida, é a vingança do homem contra a natureza, por lhe roubar o sol no inverno.” 

Ela assentiu, e disse: “Lindo, mas e os estudantes, que podem perder a qualquer momento os dentes ou o nariz? Enquanto isso, ficas aqui bebendo e fumando. Neve e fogo! Ora muito bem! O que tem isto a ver com os estudantes de filosofia e os guardas do palácio?” O Budista Tibetano espantou-se: “Mas em que é que a política ou o mundo podem te interessar?” E ela: “Não me diga que só porque você é homem, é filósofo, tem trinta papiros publicados, tem direitos que eu não tenho!” O Budista Tibetano se maravilhou, porque sabia que acabava de testemunhar a primeira frase feminista dita no Himalaia nos últimos mil anos. Fechou a janela e levou-a para dentro, pensando: “Administrar um Império deve ser mais fácil, mas administrar uma mulher é mais divertido.”