sábado, 7 de julho de 2012

2916) Marte Um (7.7.2012)








Um grupo de holandeses malucos está tentando criar um projeto espacial mais ousado do que o das sondas marcianas e da estação espacial.  A idéia é mandar para Marte uma expedição tripulada, que lá deverá construir uma base, onde todos eles habitarão até o fim de suas vidas, sabendo que sua volta à Terra não está prevista. Tudo que lhes acontecer no outro planeta será visto como um reality show por países da Terra inteira. Pensa-se de início num custo de 6 bilhões de dólares, que, comparados às cifras das primeiras páginas dos jornais de hoje, são até uma soma modestíssima.

O dono do projeto é Bas Lansdorp, de 35 anos, dono de uma companhia de energia eólia. Ele ainda está em busca de patrocinadores para o projeto, que se chama “Mars One”. A idéia é treinar os astronautas durante dez anos, e mandá-los para Marte em 2023. Será arriscado?  Será desumano? Será lucrativo? Só se sabe fazendo, assim como (admite Lansdorp) o treinamento não pode se comparar, ainda mais no aspecto psicológico, ao indivíduo vivendo uma situação “agora é pra valer”. 

Luís Buñuel pensou numa possibilidade parecida. Comentando o misterioso enclausuramento dos comensais em O Anjo Exterminador, ele disse que o filme dele não pode se comparar nem ao famoso quadro de Géricault A Jangada da Medusa (náufragos amontoados numa balsa) nem a “um filme de ficção científica sobre quinze astronautas numa espaçonave perdida pelo espaço”.  Porque o que distingue essas histórias é que os personagens estão fisicamente impedidos de escapar, mas no filme de Buñuel nada os impede, além das coisas que pensam; sua barreira é mental.  Em Marte, será física.

Talvez o projeto de Lansdorp tenha um aspecto buñuelesco. O mundo (este mundo) está preso numa sala de visitas, num coquetel ou jantar-de-gala interminável, enquanto a cozinha pega fogo, os quartos se deterioram, e o mato bravo toma conta do jardim. Como na festa dos burgueses em L’Âge d’Or, em que uma carroça de camponeses bêbados cruza o salão de baile, sem que ninguém dê o braço a torcer percebendo-a, continuamos em plena Ilha Fiscal. Só falta mesmo é criar um reality show interplanetário, uma mistura do Show de Truman com Robinson Crusoe em Marte.

Nada impede, também, que o reality vire, sei lá, uma série policial. Digamos que um dos “marcianos” enlouqueça e, mostrado pelas câmaras para toda a Terra, mas não para a Base, a história se tornará um mistério policial, tipo “dez negrinhos” morrendo em contagem regressiva. Uma espécie de thriller de suspense onde um bilhão de espectadores, impotentes para interferir, verão o criminoso executando os colegas um por um, sem que ninguém possa avisá-los.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

2915) O livro pós-eletrônico (6.7.2012)






O elevador era silencioso, macio, quase sem inércia. Estirei o corpo na chaise-longue até chegar ao 235o. andar do edifício-sede da Star Tech, onde Benedict Willhauser, vice-diretor de divulgação, me recebeu em tapetes de vison sintético. Tínhamos estudado juntos em Yale e ele me concedeu o privilégio de uma entrevista pessoal.

“O livro mudou de natureza sem perder seu fascínio”, falou, quando nos sentamos em poltronas invisíveis, campos de força eletromagnéticos que resistem e se amoldam ao peso do corpo humano. “Poucas pessoas de fora da empresa manusearam este protótipo. Queremos sua opinião. Se quiser bancar o advogado do diabo, fique à vontade. Nós aqui estamos tão entusiasmados com o produto que algum defeito dele talvez nos escape. Seu feedback é essencial”.

Sentamos diante de um cubo de metal, num canto da enorme sala. Ele digitou comandos.

O livro era uma pequena nuvem acinzentada de coruscantes grãos em preto-e-branco, vagamente esférica, flutuando a meio metro de altura. Enfiei nas mãos as luvas (que tinham formatos e consistências diferentes), e mergulhei as mãos ali dentro. Foi um choque elétrico de um milhão de volts no cérebro, mas sem dor, sem incômodo, apenas um surto quase insuportável de luz, de lucidez. E me veio a lembrança nítida, vívida, de tudo que havia ali dentro. Digo lembrança pela sensação de familiaridade com cada frase, cada ilustração, cada abertura de capítulo ou nota no índice remissivo; como um livro lido e relido ao longo da vida inteira, debulhado com gosto e conhecido quase de cor, que folheamos depois de algum tempo enquanto sentimos nosso espírito se deleitar com aquele reencontro. Um livro com um milhão de páginas que eu enxergava simultaneamente e era capaz de comparar uma a uma, ou de cem em cem. E vi (sim, vi!) cada espiral de DNA do meu corpo se retorcendo e recompondo, recebendo uma quinta letra.

Fiquei mergulhado ali, lendo, lembrando, passeando pelo passado e pelo futuro... Quando retirei as mãos da nuvem, Willhauser estava de pé junto à janela, onde o sol estava terminando de se por. “Não deveriam ter criado isto”, falei. “Sim”, disse ele, “isto destruirá todos os tablets, iPads, todo o conceito do livro-pixel, da leitura visual, do texto pousado sobre uma superfície. Texto e mente agora serão uma coisa só”. Esfreguei os olhos; minha mente ainda ardia numa adrenalina selvagem de frases e imagens 3D. “É o fim do livro eletrônico?”, perguntei. “Ou o começo do livro biológico”, disse ele, voltando-se para mim e tirando os óculos escuros. Por entre as pálpebras, seus olhos eram duas réplicas da nuvem, e entendi naquele instante que de agora em diante os meus também.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

2914) Biografia romanceada (5.7.2012)





A biografia romanceada é um gênero literário de alto risco. Como toda tentativa de juntar duas coisas diferentes, na esperança de agradar a dois públicos, corre o risco de desagradar a ambos. O leitor de romances preferiria, às vezes, que a história seguisse um caminho que lhe parece dramaturgicamente mais promissor, mas a história não pode fazer isto, porque o autor precisa se ater aos fatos. (Ainda escreverei uma biografia de Bob Dylan em que ele morre naquele acidente de moto em 1966, e uma de Augusto dos Anjos em que ele vive e escreve até os 80 anos.)  Já o leitor que tem um apego técnico às leis e regras da atividade biográfica sente-se incomodado o tempo inteiro por certas liberdades imaginativas do biógrafo.  Inventar cenas, diálogos e pensamentos e atribuí-las a uma vida que de fato aconteceu parece uma coisa meio desonesta. É como retocar uma foto no Photoshop incluindo objetos que não estavam lá.

Isto me volta à mente com o lançamento recente de Edgar Allan Poe, o Mago do Terror de Jeanette Rozsas (Melhoramentos). É um livro agradável, muito ilustrado, com cronologia e bibliografia, e, até onde pude ver (não li o livro todo), dramatiza de maneira não-invasiva os fatos conhecidos da vida de Poe, um dos escritores mais biografados e mais estudados do mundo (até eu já fiz um livro sobre ele). Poe se relacionou e se correspondeu com centenas de pessoas que deixaram testemunhos escritos sobre sua convivência. É possível reconstituir encontros que teve com A ou B, diálogos, reuniões, conferências que proferiu, fatos da sua vida pessoal, etc.  O biógrafo-romancista tem em mãos duas ou três versões incompletas de uma briga de Poe com Fulano, por exemplo; cabe a ele escrever a cena como se a tivesse presenciado, tentando manter-se fiel aos documentos que são de conhecimento público, e usando sua “licença para mentir”, mas mentir no bom sentido – preencher com material “neutro” os trechos que ninguém sabe como aconteceram.

Ruy Castro, um biógrafo experiente, já disse: “Quando eu falo que no dia tal Fulano chegou à casa de Sicrano vestindo uma camisa azul, é porque perguntei a Sicrano qual era a cor da camisa. Não invento nada”. Ruy Castro não chama (pelo que eu saiba) seus livros de biografias romanceadas, mas de biografias mesmo, afirmando que cada detalhe ali está documentado. É a vantagem de quem escreve sobre pessoas e fatos relativamente recentes (Garrincha, a Bossa Nova, Carmen Miranda, etc.). Mais difícil é escrever sobre quem viveu há mais de 150 anos, pois não é mais possível entrevistar testemunhas. Temos o que ficou registrado no papel, mas não podemos fazer perguntas específicas. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

2913) Ser célebre (4.7.2012)






Um número imenso de páginas (cartas, diários, relatos de viagens, etc.), escritas nos séculos 18 e 19 antes da invenção da fotografia, é dedicado a encontros que o autor teve com personalidades ilustres do seu tempo: estadistas, artistas, aristocratas, etc.  Daria uma antologia que poderia furtar o título do livro de Peter Brook, Encontros com Homens Notáveis.  Stendhal conta um episódio divertido de sua estadia em Terracina (Itália) em 1817, quando, conversando com um grupo de italianos, entabulou um diálogo sobre música com um homem jovem, de cabelos claros, bem apessoado; Stendhal teceu os maiores elogios às óperas de Rossini, dizendo ser o único compositor de gênio daquela época, e pelas risadas dos outros acabou descobrindo que o jovem sentado à sua frente era o próprio Rossini.

Era uma época em que o nome de um indivíduo podia ser famoso e respeitado em toda a Europa sem que se tivesse uma idéia muito clara de como era seu rosto. A fotografia não tinha sido inventada. Nobres e reis eram conhecidos através de pinturas, desenhos e gravuras, que, como se sabe, nem sempre são unânimes em sua reconstrução de fisionomias, além de correrem o risco de ficarem rapidamente defasadas porque o indivíduo envelheceu, engordou, etc. Quantas pessoas, na Paris de Maria Antonieta, tinham visto de perto o rosto de Maria Antonieta?  Há um interessante filme sobre Napoleão (A Roupa Nova do Imperador, de Alan Taylor, 2001) em que ele foge do exílio, retorna a Paris para reconquistar o trono, mas a conspiração que o ajudou é desmontada. Ele se vê sozinho, anônimo e sem dinheiro numa cidade onde ninguém o reconhece, e não adianta dizer que é Napoleão porque há centenas de malucos dizendo o mesmo.

No conto “A Liga dos Cabeças Vermelhas” (1891), Sherlock Holmes a certa altura encontra-se frente a frente com John Clay, um bandido que ele classifica como “o quarto homem mais esperto de Londres”. Críticos perguntaram: esse homem tão esperto não saberia que aparência tinha Sherlock Holmes? Talvez sim, talvez não, mas essa é uma questão que hoje, 120 anos depois, em plena ditadura da imagem, se coloca de outra forma. No tempo de Jesus Cristo, se alguém chegasse numa cidade da Judéia dizendo ser o próprio ia ter que fazer um ou dois milagres para convencer os relutantes. Duvido que durante a vida de Jesus (mesmo durante os seus três anos de militância intensa, até a crucificação) tenham circulado desenhos ou pinturas com a representação do seu rosto. O que se tinha eram descrições e comparações verbais, imprecisas como sempre, e não era uma tarefa fácil a qualquer sujeito convencer os outros de sua própria identidade.

terça-feira, 3 de julho de 2012

2912) Os poemas de Darcy (3.7.2012)




Já aos 70 anos, depois de sucessivas batalhas contra o câncer, Darcy Ribeiro botou na cabeça que ia ser poeta. Já tinha sido antropólogo, educador, ministro, reitor, vice-governador, romancista... por que não poeta?  Esse “por que não poeta?” só ocorreria a um sujeito com um ego fenomenal, e era o caso do autor de O Processo Civilizatório. Por sorte, o seu ego era contrabalançado pelo senso crítico de quem teve formação científica, por um senso de humor permanente, presente até em suas obras mais sisudamente teóricas, e por um espírito de auto-depreciação que, curiosamente, acompanha muitos indivíduos narcisistas. (Por mais e melhor que façam, eles sempre torcem o nariz diante dos próprios feitos, porque sua expectativa íntima é sempre de que são capazes de fazer muito mais e melhor.)

Eros e Tânatos – a poesia de Darcy Ribeiro (Rio, Ed. Record, 1998) reúne esses poemas que são bem descritos pelo título. São meditações recorrentes e infatigáveis sobre amor, sexo e morte, escritas por um sujeito de imensa vitalidade, que, aos 70 anos e no meio da queda-de-braço final com o câncer, sabia que estava com os dias contados. (E não sabemos disso, nós todos?  Não, não sabemos.) A parte erótica tem a euforia desbragada e rabelaisiana de um Henry Miller, a celebração do sexo como prazer animal, gozo físico, seja ou não temperado pelo afeto. A alegria de viver no sentido mais biológico do termo, elevada ao quadrado como reação aos violentos golpes da doença e da velhice, em versos bem-humorados de sexo explícito que infelizmente não tenho espaço para reproduzir aqui. E a morte, algo que o autor reconhece como fatalidade científica, mas com a qual não se conforma: “Hoje fiz 70 anos. Quisera 700”.  “Acho que sei, afinal, a que vim / e já me vou”.

O poema de abertura, “Fagulhas de memória”, é num certo sentido o melhor: o registro em prosa telegráfica de pequenas epifanias, terrores e visões que marcaram a memória do autor, em parágrafos como: “O cacho de bananas amarelíssimas, que meu avô tirou do armário preto de papéis cartoriais. / A velha naturalista estrangeira, meio surda, se fazendo carregar pelos índios, de aldeia em aldeia. / Uma légua de piranhas mortas, dourando a baía ao amanhecer.” Usando uma classificação pouco acadêmica, eu diria que não são poemas de poeta, são poemas de pessoa. Mais preocupados em registrar a totalidade de um sentimento profundo e complexo do que em mexer no software da linguagem poética.  E não há pessoa que não assinasse versos como: “O que me arrasa é o terror pânico / de não mais ser, nem estar, jamais aí. / Vocês todos vivendo, seus filhos da puta. Só eu não”.

domingo, 1 de julho de 2012

2911) Supervilão séc. 21 (1.7.2012)






Os super-vilões da narrativa popular são encarnações monolíticas do Mal: Fu-Manchu, Prof. Moriarty, Dr. No, Lex Luthor.  O desafio da literatura contemporânea é criar vilões que exprimam o lado maligno do mundo mas tenham também uma dimensão realista, para torná-los acreditáveis pelo menos durante o tempo da leitura. Se a literatura aceitou há muito tempo o fato de que nenhum herói é sem defeitos, não custa admitir que nenhum vilão é sem qualidades.  Um vilão que, quem sabe, possa até nos despertar um pouco de identificação, de inveja.

Hubertus Bigend (BÁI-jend) é o inesperado vilão que William Gibson criou em sua recente trilogia (Reconhecimento de Padrões, 2003; Spook Country, 2007; Zero History, 2010).  Bigend é um bilionário capaz de em poucos minutos, ao celular, mover montanhas de dinheiro e mudar a vida de pessoas cuja existência ele desconhece e minimiza. Bigend não é um paranóico delirante que quer “ser o dono do mundo”, seja isto o que for.  É uma mistura de Eike Batista com Steve Jobs.  Tem uma empresa, a Blue Ant, que se apresenta como agência de publicidade, de marketing, de investigação de modas e tendências, mas serve de fachada para suas manobras por baixo do pano.  Fisicamente, Bigend parece com “Tom Cruise submetido a uma dieta de sangue de virgens e trufas de chocolate”.

“Hubertus organiza sua vida e seus negócios”, diz um personagem, “de um modo que o obriga a estar o tempo inteiro indo além do limite, e de um modo que fica produzindo sempre um novo limite para que ele vá além”.  Ele é um sujeito que, em crises onde outras pessoas se preocupariam, ele apenas fica um pouco mais interessado.  Não se altera.  Mesmo quando descobre (como em Zero History) que o diretor de informática de sua empresa é espião a serviço de um adversário, ele apenas aciona um escritório alternativo e passa a usá-lo, sem dar bandeira de que descobriu o que está acontecendo.  Seu objetivo profissional, diz ele, é conseguir perceber o fluxo de transações (ouro, ações, etc.) no mercado, em qualquer momento dado. Ele diz: “Essa informação existe, mas não há ninguém capaz de agregá-la.  Se alguém conseguir isto, o mercado deixará de ser real, porque o mercado reflete a impossibilidade de alguém vislumbrar o fluxo de transações por inteiro num dado momento”.  É uma ambição meio maluca, mas tem mais a ver com o mundo de hoje do que as ambições meramente monetárias ou absolutistas dos vilões de antigamente.  Bigend é a presença do grande capital gerando, num videogame para seu exclusivo deleite coletivo, a linguagem do nosso dia a dia: revistas, roupas, filmes, logotipos, exposições de arte.

sábado, 30 de junho de 2012

2910) Hora do recreio (30.6.2012)







(esculturas: William Bally, 1831)


A pior aula é a de matemática, pra não falar da de geografia, se bem que a unanimidade é a de desenho. O engraçado é que cada um de nós, mesmo detestando todas, detesta mais uma do que as outras. Às vezes discutimos tanto isto que perdemos minutos preciosos em que poderíamos brincar no pátio, jogar bola na quadra ou no ginásio, zoar na lanchonete. Vida de aluno interno é todo dia a mesma coisa, a mesma coisa, é de enlouquecer. Ainda sirenes tocando toda noite. Um de nós disse um dia, “nós somos um loop de imagens, eu tenho a impressão que todo dia eu digo isso de novo”, e rimos, e depois outro disse, “não, eu acho que nossos pais nos botaram aqui pra se ver livres de nós, eles têm a esperança que a gente se suicide”, e rimos, e outro disse, “nós não somos estudantes, somos espiões estrangeiros, e na verdade estamos num campo de concentração, eles nos deram uma droga pra gente pensar que tem 10 anos de idade e está no colégio”, e houve uma risadaria geral, na mesma hora cada um de nós pegou uma arma, uma régua (metralhadora), uma bola-de-papel (granada), e começamos a guerra, “morre, espião!”. Estamos em guerra (as explosões, os sinos). Nossos pais, na visita semanal, nos dizem que apesar do sofrimento e das baixas estamos ganhando, mas as despesas estão cada vez maiores e é melhor continuarmos aqui do que ir lá para fora. Sobem nuvens grossas de fumaça preta. Temos mais raiva da guerra do que das aulas. O bom mesmo são os recreios: uma vez na manhã, outra depois do almoço, outra no meio da tarde. É tanta coisa boa que ficamos ansiosos porque não podemos ter tudo ao mesmo tempo, os snacks e os refris da lanchonete, o corredor de fliperamas, as armas do play, os wargames do lan-room, e nós nos empurramos, nos acotovelamos, brigamos por uma cadeira, por um monitor, por uma bola, por uma posição no time. Se fosse só isso! Mas temos as aulas, a obrigação de estudar história, ética pública, bases constitucionais, metodologia das ciências, “para quando houver paz”, bradam os professores. Um dia um de nós quis saber por que motivo não havia meninas no colégio, e alguém disse, “porque eles estão nos treinando para ser homossexuais”, e nós rimos, e outro disse, “não, porque eles vão nos mandar para morrer na guerra e deixar a população com um homem para cada dez mulheres”, e todo mundo achou graça. Oba! Recreio de novo. Não está chovendo mas nos mandaram para o ginásio, nunca vimos o ginásio tão cheio, tão apertado, a gente mal consegue respirar, ainda bem que daqueles tubos lá no alto estão saindo jatos de vapor, estamos pensando agora que deve ser alguma coisa para que a gente consiga respirar melhor.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

2909) Antonio Silvino (29.6.2012)






Uma foto tem circulado nas redes sociais, mostrando dois homens de terno, frente a frente. São eles o presidente-ditador Getúlio Vargas e o ex-cangaceiro Antonio Silvino, que recebera indulto após 23 anos de cadeia, por bom comportamento (havia sido condenado a 239 anos). Diferentemente de Lampião, que em vinte anos de cangaço nunca foi preso, Silvino cumpriu pena, alfabetizou-se na prisão, converteu-se ao protestantismo  e trabalhou em vários tipos de artesanato até receber o indulto de Vargas. São duas histórias diferentes, dois finais diferentes.  Lampião, que era 23 anos mais novo, morreu numa emboscada na gruta de Angicos em 1938.  Silvino, aprisionado em 1914 (antes mesmo de Lampião entrar para o cangaço) morreu em 1944, na casa de uma prima, em Campina Grande. (Quando eu era menino, várias vezes me mostraram a vilazinha humilde onde ele findou seus dias, em frente à Praça Félix Araújo, esquina com a Arrojado Lisboa).

A carreira de Silvino está documentada nos folhetos de Francisco das Chagas Batista, que cobrem suas aventuras até 1912.  Uma ótima avaliação deles está em Memória de Lutas de Ruth Brito Lemos Terra (Global, 1983), onde ela compara a abordagem de Chagas Batista, mais documental, com a de Leandro Gomes de Barros, mais fantasiosa e romantizada. Tal como Lampião, Silvino foi exaltado por poetas e escritores como um guerreiro nobre e ético. Em As Infâncias de Quaderna, de Ariano Suassuna, é ele quem resgata o menino Quaderna, raptado por ciganos, e o devolve à família; em Menino de Engenho, José Lins do Rego reconstitui uma visita do cangaceiro ao coronel José Paulino, que o recebe à mesa, com todas as honras.

Foi, aliás, o próprio Zé Lins que em 1938 levou Graciliano Ramos a visitar Silvino na prisão, antes do seu indulto.  Numa crônica no Jornal de Alagoas (18-9-1938, aqui: http://bit.ly/NI7SRl), Graciliano faz um retrato elogioso do ex-cangaceiro, onde ficam evidentes os preconceitos de raça e classe que ambos inconscientemente compartilhavam. Diz ele: “Antonio Silvino é um homem branco. Seria mais razoável que fosse um representante das raças inferiores, que, no Nordeste e em outros lugares, constituem a maioria da classe inferior. Mas é um branco, e se for examinado convenientemente, não dá para bandido. (...) Homem de ordem, indispôs-se com outros homens de ordem, fez tropelias no sertão, caiu numa cilada e penou vinte anos para lá das grades. Continuou, porém, a ser o que era, apesar da cadeia: homem de ordem, membro da classe média, com todas as virtudes da classe média”. Sertanejos escritores, políticos ou cangaceiros que respiravam o mesmo ar, as mesmas idéias.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

2908) O Quarto do Pânico (28.6.2012)




Recebi (não, desta vez não é piada) uma circular eletrônica enaltecendo a utilidade do Quarto do Pânico, e me propondo uma avaliação sem compromisso. Para quem não sabe, o nome desse produto vem do filme com Jodie Foster, em que ela e a filhinha se trancam nesse cômodo para escapar de ladrões que invadem sua casa.  Por causa do filme, o nome pegou, o que aliás não acho muito bom em termos de marketing – deviam chamar de “Quarto Salva Vidas”, “Quarto de Segurança”, algo com um astral mais positivo.  O tal cômodo é um aposento blindado, no interior da casa, onde os moradores podem se refugiar e se trancar por dentro na hipótese de um assalto.  O quarto tem blindagem para resistir até a armas de fogo pesadas.  Tem energia com “No Break”, independente do resto da casa.  Tem câmaras que monitoram as partes internas e externas da casa, para que a família, ao se esconder ali, possa ver o que está acontecendo à sua volta.  Tem linhas de comunicação (rádio, celular, etc.) com várias alternativas para pedidos de socorro à polícia, aos vizinhos ou a uma empresa de segurança previamente contratada.  Tem oxigênio, água, comida, tudo que as pessoas possam precisar para passar um tempo razoavelmente longo até que os assaltantes desistam ou o socorro apareça.

A instalação (é cara, viu?) geralmente aproveita um espaço já existente (closet, banheiro, etc.) que não perde a utilidade no dia-a-dia normal, mas fica acessível para que as pessoas cheguem rapidamente a ele, se fechem por dentro, e acionem o socorro. O Quarto do Pânico é a versão contemporâneo dos abrigos nucleares dos anos 1950-60, quando, principalmente nos EUA, havia o pânico de uma guerra atômica. Muita gente cavou porões e os equipou com ar condicionado, água, mantimentos, gerador de eletricidade, etc., para se esconder em caso de guerra. Devia haver condições suficientes para que a família esperasse a queda dos níveis de radioatividade lá fora (meses? anos? não sei).  Bob Dylan fez uma canção famosa ironizando esse medo, “Let Me Die In My Footsteps”.

Hoje não temos mais medo da URSS, nem sequer da Al-Qaeda: temos medo dos humilhados e ofendidos das nossas periferias urbanas, que cedo ou tarde perdem a paciência e, como o “cobrador” de Rubem Fonseca, vêm exigir uma parte do muito que temos, parte que eles consideram ser-lhes devida.  O Quarto do Pânico é, depois dos edifícios com câmaras de segurança e dos condomínios com guardas armados na guarita, o último refúgio de uma culpa que nos envergonha, mesmo quando não a assumimos. Nossa casa será como a “Casa Tomada” de Cortázar, pouco a pouco invadida por alguém cujo rosto não temos coragem de encarar. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

2907) Um pequeno tesouro (27.6.2012)








Era tia-avó da minha esposa, e morava sozinha num casarão, numa capital nordestina cujo nome não preciso revelar. Quando tive que deixar São Paulo e passar uma semana lá, para trabalhar numa auditoria, minha mulher telefonou-lhe sem me consultar e as duas resolveram que eu me hospedaria na casa dela (a tia aproveitaria para me conhecer e, segundo minha mulher, “dar a nota”). Ficar na casa de uma pessoa de 70 anos não estava nos meus planos. Não que pretendesse cair na farra. Mas depois de um dia duro de trabalho, discutindo, argumentando, a única coisa que me interessa é tomar um banho, e depois dois uísques, sozinho, em silêncio, na beira da piscina do hotel. Mas esposa é esposa, e lá fui eu.

Dona Frederica me surpreendeu, não apenas por aparentar bem menos idade, mas porque na primeira noite em que voltei encontrei-a escutando música diante de uma garrafa de Dimple e um balde de gelo. Sentei ao lado e enveredamos numa longa cadeia de associação de idéias envolvendo boleros cubanos, orquestras tropicais e a arte da dança de salão, que ela me confessou não praticar há vinte anos, desde a morte do marido. Na segunda noite lá estava o Dimple, e desta vez conversamos sobre horóscopo, tipos psicológicos; ela contou “causos” saborosamente escabrosos ocorridos com amigas de juventude. Na terceira noite, Dimple e cinema (ela adorava musicais da Metro).

E assim foi, até que em minha última noite lá ela falou da mãe, e que a mãe lhe deixara um pequeno tesouro. Eu gostaria de vê-lo?... Diante da inevitável resposta, trouxe à sala uma caixinha laqueada, com cheiro de perfume antigo. Abri-a. Dentro era forrada de veludo, e havia uma folha de caderno amarelecida, dobrada, e sobre ela um anel de prata com pedra vermelha. Ela me disse que a mãe lhe dera a caixa ao morrer, sem mais explicações além de “É meu tesouro”. “É valioso?”, perguntei. “Mandei examinar, disseram que é bijuteria”, disse ela; “certamente tinha valor sentimental”. Retirei o papel do fundo da caixa, desdobrei-o. Era uma folha de caderno manuscrita, em tinta esmaecida e caligrafia equilibrada, com algumas poucas correções; o rascunho de um poema, dizendo algo como “No tempo de meu Pae, sob estes galhos...”. Perguntei o que era, ela deu de ombros: “Lembrança de um professor que ela teve, ao que parece. Valor sentimental”. Guardei o presente, devolvi-o, filosofamos um pouco sobre o sentido da palavra tesouro, sobre o sentido da palavra valor. “Veja como são as coisas”, disse ela, “isto aqui não tem valor nenhum, mas eu não venderia nem por mil reais”. Servi as duas últimas doses, brindamos e no outro dia vim embora.