sexta-feira, 24 de junho de 2011

2591) O Santos é o novo campeão (24.6.2011)



E o Santos acabou campeão da Libertadores da América. Foi sempre melhor do que o Peñarol do Uruguai, nas duas partidas decisivas. Foi melhor nestes dois jogos do que em todo o transcorrer da competição. Pelas transmissões que acompanhei, o Santos se impôs pela categoria em muitos momentos, e quando a categoria faltou se impôs pela raça e pela capacidade de resistência. Em vários jogos decisivos conseguiu segurar um placar favorável mesmo embaixo de um impressionante bombardeio do time adversário. É o melhor time do Brasil no momento, embora seja um time que, curiosamente, nem sempre joga dentro do que lhe é possível apresentar. Pelos jogadores e pelo técnico que tem, deveria estar jogando melhor e ganhando com mais facilidade. Se nem sempre acontece, paciência. Este ano já foi campeão paulista e campeão do continente. Tô reclamando do quê?

Vamos agora abrir uma cerva em honra de Muricy Ramalho. Ô cara pra dar sorte a um time! Três vezes seguidas campeão brasileiro pelo São Paulo, depois campeão brasileiro pelo Fluminense (uma verdadeira façanha), e agora campeão das Américas com o Santos... Houve uma imagem bonita no jogo de 4ª.feira, quando durante a comemoração Pelé ergueu a mão de Muricy e o arrastou para o centro do gramado, numa atitude de “esse é o cara”. E é.

Existe uma distinção interessante, que os leigos geralmente não percebem, entre um time de futebol e um clube de futebol. O time são aqueles onze caras em campo, vestindo aquela camisa. O clube é o resíduo acumulado das histórias, das lendas e da arte de todos os times que vestiram aquela camisa. O time é o presente, o clube é a tradição acumulada. Uma memória que produz uma ética própria. Daí que muitas vezes o time em campo, seja ele qual for, se amolda ao espírito do clube. Clubes famosos pela raça instilam essa raça em jogadores apáticos ou tímidos; clubes conhecidos como academias do futebol ensinam zagueiros truculentos a desarmar sem falta e atacantes rompedores a driblar com classe.

O Santos produziu o maior jogador de todos os tempos e alguns dos melhores times da nossa história. É bonito ver, numa conquista como esta, dois garotos como Paulo Henrique Ganso e Neymar ao lado do setentão Pelé, que vibrou como um menino. Quando eu falo em tradição cultural muitas vezes sou chamado de saudosista, passadista, nostálgico. “Ah, você é como Suassuna ou Tinhorão, acha que só as coisas antigas prestavam, e que as de hoje não valem nada”. Ledo engano, meus camaradinhas. Ser tradicional é ter consciência dos altos níveis que o Brasil já atingiu, e exigir dos brasileiros de hoje que atinjam, no mínimo, as mesmas alturas. Neste país que quanto mais se comunica mais emburrece, e quanto mais emerge da pobreza mais se torna escravo do consumo, é preciso lembrar sempre o que já fizemos de melhor. Ser tradicionalista é saber que o fato de termos tido Pelé nos ajuda (e nos obriga) a ter um Neymar. Parabéns, santistas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

2590) Drummond: Sweet Home (23.6.2011)



(Drummond, por Thiago Neumman) 

Carlos Drummond era um personagem contraditório e surpreendente, meio caretão por um lado, meio devasso por outro. Visto do Norte-por-Noroeste era um burocrata sério, visto do Sul-Sudoeste era um garoto travesso e chapliniano. Tinha duas colheres de cristão, e uma e meia de comunista. 

Foi moderno quando ser moderno era ser exposto à galhofa, e retornou ao soneto quando ser moderno era uma garantia de paparicação. Era um funcionário público acomodado? Era um desconstrutor de idéias herdadas sem muita reflexão? Gostava do quê? De transgressões molecas ou de aconchego familiar? 

É nessa refração de possibilidades que fica mais interessante olhar “Sweet Home”, poemazinho do livro Alguma Poesia de 1930. É um texto que lê diferente para olhos diferentes, descrevendo a tranquilidade e o conforto doméstico que os poetas de vários idiomas atribuem aos burgueses: 

 “Quebra luz, aconchego. 
Teu braço morno me envolvendo. 
A fumaça do meu cachimbo subindo. 

Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês”. 

Esta última frase é deliciosa, sugerida pelo cachimbo (que Drummond não fumava – estarei errado?). E que lembra o soneto de Mário Quintana, “Que bom ficar”, em A rua dos cataventos (1940), que se encerra com este terceto saboroso: “Sair assim (tudo esquecer talvez!) / e ir andando, pela névoa lenta, / com a displicência de um fantasma inglês...” 

Esse inglesismo, esse burguesismo tão começo-de-século, é satirizado por Drummond no contexto de um mundo que vai ficando moderno e, quem sabe, ameaçando algum sossego antigo: 

“O jornal conta história, mentiras… 
Ora, afinal, a vida é um bruto romance 
e nós vivemos folhetins sem o saber”. 

O burguês quer aventuras, mas as prefere no folhetim semanal que lhe vem por baixo da porta, pelas mãos do jornaleiro. O burguês quer aventura sem perigo, emoção sob controle, novidades que já conheça. O que ele gosta, gosta mesmo, vem em seguida: 

“Mas surge o imenso chá com torradas, 
chá de minha burguesia contente. 
Ó gozo de minha poltrona! 
Ó doçura de folhetim! 
Ó bocejo de felicidade!”. 

 Todo este poema é como uma daquelas imagens em que podemos ver duas coisas diferentes por uma simples mudança na maneira de olhar. O mesmo desenho mostra uma mulher ao espelho ou uma caveira. Outro mostra uma jovem ou uma velha; etc. O poema de Drummond mostra para mim o tédio insuportável, o ramerrão de uma vidinha sem graça, e ao mesmo tempo a felicidade e o aconchego de uma vida sem sobressaltos, sem desconfortos, sem questionamentos, a vida que o mundo burguês promete (e em muitos casos garante) a quem jogar o seu jogo. 

Não sei se estou sendo muito ousado em supor que Drummond, tanto quanto eu, via essa vidinha com menosprezo e com nostalgia. Tudo em seu intelecto a repudiava por medíocre, mas algo em sua estrutura mental se conformava a ela como os humoristas ingleses se conformavam ao imperialismo, ao colonialismo e ao fardo do homem branco.





quarta-feira, 22 de junho de 2011

2589) Hitchcock (22.6.2011)



Está havendo no Rio de Janeiro uma vasta retrospectiva da obra de Alfred Hitchcock, exibindo os clássicos que todo mundo conhece, muitos filmes mudos que fez na Inglaterra no começo da carreira, e também um grande número de episódios das séries de TV que coordenou e eventualmente dirigiu. Creio que os episódios que vi quando garoto tinham o título genérico de Suspense, que era também o nome da edição brasileira do Alfred Hitchcock’s Mystery Magazine, publicado aqui pela Rio Gráfica Editora.

Minha relação com Hitchcock, até os trinta anos, era menos de espectador ou crítico do que de fã ou torcedor. Lia tudo que se referisse a ele, gostava de qualquer filme dele (inclusive os piores, como Topázio). O tempo amainou esse entusiasmo; o tempo e o entusiasmo alheio, porque já observei que a melhor maneira de me fazer desconfiar de um artista é vê-lo sendo elogiado por gente que ouviu o galo cantar e não sabe onde. Infelizmente é o que acontece com o diretor de Psicose, cuja irresistível propensão para o marketing, a propaganda pessoal, e para o efeito fácil, o truque óbvio, acabou fazendo dele o diretor cujos filmes qualquer desorientado assiste e sai convencido de que viu uma obra de arte.

Sem querer depreciar os fãs de Hitchcock, penso hoje que o cinema dele é mais superfície do que substância, mais genialidade intuitiva para a narração visual do que idéias a respeito do mundo. Nesse aspecto assemelha-se (embora com temperamentos e efeitos diferentes) a Steven Spielberg, outro animal visualizador e narrativo, mas que não tem dez mil-réis de idéias sobre o mundo. Tanto um como o outro são os reis das quatro linhas do enquadramento, assim como Romário é o rei da grande área. Ali dentro, sabem de tudo. Parecem ter sempre a noção exata de como posicionar a câmara, como mover os atores, como cortar de uma cena para outra, como explorar todas as possibilidades e sugestões visuais de um dado ambiente ou cenário natural. Tudo isto para dizer o que? Não sabem. Estão somente contando uma história.

Os temas hitchcockianos já foram peneirados pela crítica até não poder mais: o Duplo, o Homem Errado, o Fetiche, o MacGuffin, a Loura Gélida... Diferentemente de Luís Buñuel, com o qual tem muitos pontos em comum, Hitchcock não parecia prestar muita atenção no mundo. Suas entrevistas (o livro de François Truffaut é um exemplo disso) são sobre questões técnicas e narrativas. Não parece preocupar-se com o significado do que está dizendo, e sim com a maneira mais original e eficiente de dizê-lo. É mais um artesão do que um artista.

Seu imenso sucesso, tal como o de Spielberg, parece se dever ao fato de que a mente de ambos flutua num limbo muito próximo daquele onde fervilham as mentes dos seus espectadores. Não há profundeza a que eles desçam e onde seu público não seja capaz de acompanhá-los. São grandes cineastas porque mostram de maneira espontânea o quanto um cinema feito só de imagens pode prescindir de idéias.

terça-feira, 21 de junho de 2011

2588) “O Emigrante Amador” (21.6.2011)



Livros de viagens geralmente são uma coisa muito chata, porque a tendência do autor é sair enumerando os museus que visitou, os restaurantes onde comeu, as compras que fez, os pontos turísticos onde se fez fotografar. Aqui e acolá, para suavizar um pouco esse catálogo, conta algum episódio pitoresco, em geral achando graça nos hábitos estranhos da população local. Claro que nem todos são assim. Para redimir o gênero bastaria o díptico de Érico Veríssimo narrando os anos em que viajou como conferencista pelos EUA: Gato Preto em Campo de Neve e A Volta do Gato Preto. Acabei de ler outro título que justifica a existência dessa fórmula: The Amateur Emigrant de Robert Louis Stevenson.

Em 1879 Stevenson, aos vinte e oito anos, apaixonado pela norte-americana Fanny Osbourne (uma mulher mais velha do que ele, mãe de filhos, e em processo de divórcio), embarcou num vapor da Inglaterra para Nova York, e chegando lá pegou um trem para a Califórnia, para ir ao encontro da sua amada. Qualquer namorada ficaria envaidecida com semelhante esforço; mais ainda se lesse depois (como a futura Mrs. Stevenson certamente fez) a espantosa jornada que foi essa viagem, para um sujeito sem muito dinheiro e com a saúde seriamente abalada (chegando à Califórnia Stevenson ficou meses de cama, e quase bate o trinta-e-um).

A edição que li reúne dois textos que de início foram publicados separadamente. “From the Clyde to Sandy Hook” (1879-80) conta a viagem de navio através do Atlântico; a segunda parte, “Across the Plains” (1892) conta a viagem de trem da Costa Leste até a Califórnia, que acabou de arrasar com sua saúde sempre vacilante. Stevenson era de uma família relativamente rica, mas escolheu viajar de segunda classe, em parte porque estava liso (o pai era contra seu namoro com Fanny), e em parte por curiosidade literária. Sua descrição do ambiente do navio, dos tipos humanos, dos episódios patéticos ou pitorescos, é extremamente vívida. (O prefaciador, Jonathan Raban, diz que este é “o melhor livro que ele escreveu”, o que é visivelmente um exagero). A viagem de trem é às vezes de cortar o coração, pela maneira brutal como são tratados os imigrantes. Seria bom ler este livro e ver o filme de Chaplin O Imigrante (1917).

A prosa de Stevenson é vívida, direta, com um olho agudo para detalhes, e um julgamento rápido e preciso dos tipos humanos, comovendo-se com o patético, espantando-se com a pobreza de espírito de uns, simpatizando com a ingenuidade ou a honestidade de outros. Stevenson descreve com grande percepção literária os ambientes; as referências que faz à qualidade da comida e ao cheiro desses lugares é notável. Alguém já disse que qualquer vida humana, bem narrada, daria um grande romance. Livros como este mostram que os grande livros estão dentro dos grandes escritores, e que até um passeio à padaria da esquina pode resultar numa boa obra literária, se for narrado por alguém que saiba escrever.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

2587) A Guilda dos Ladrões de Livros (19.6.2011)



Há anos não era convocada uma reunião urgente da Guilda. Quando o mensageiro entregou-lhe o pergaminho, Hassan limitou-se a jogar uma capa sobre os ombros e partiu para a soturna casa de pedra, semi-abandonada, onde a Guilda promovia seus encontros mensais. Mesmo apressando-se, foi o sétimo a chegar, e o presidente Watanabe deu por abertos os trabalhos. Havia uma missão incompleta, disse ele, que respondia pela ausência dos três membros faltantes. Leterrier, o caolho de rosto vulpino e cabelos grisalhos; Arbogast, rosto quadrado, atlético, capaz de arrombar qualquer porta e escalar qualquer muralha; Ivanov, o silencioso russo de crânio liso e olhos cinzentos. Todos tinham ido na mesma missão, e nenhum voltara. Tiraram as sortes na sacola de veludo, e coube a Hassan a esfera vermelha da missão.

Com a planta baixa da Biblioteca no bolso do casaco, ele primeiro estudou e depois percorreu o minucioso labirinto de galerias pluviais, esgotos, área de serviço, corredores secundários, elevador de carga. Chegou por fim ao 11o. andar, à sala 11-F. Seus olhos acostumados a ver no escuro o conduziam a passos de feltro ao longo das silenciosas estantes, até achar a que buscava. Conferiu o selo na lombada, o código, o título. Por que motivo, pensou, os três mestres tinham fracassado? Por medida de segurança, antes de pôr o livro na mochila que trazia às costas, abriu-o, virou-o na direção do débil reflexo de luar que vinha da clarabóia, conferiu o título no alto da página, percorreu com os olhos algumas linhas:

“...na areia da praia, à luz cegante do sol de meio-dia, entrecruzavam-se rastros de pegadas que conduziam ao molhe, onde um navio a velas estava atracado. Suas velas traziam tatuagens de rostos humanos, e seus canhões eram retilíneas serpentes de bronze. Ele caminhou ao longo do molhe e saltou para o tombadilho. Não eram apenas as velas: nas tábuas do convés estavam entalhadas rostos humanos, ruga a ruga, pelo a pelo, por uma faca finíssima e infalível. Pisou com pudor naqueles rostos ao caminhar. Ergueu os olhos: as nuvens no céu também assumiam formas ovóides em que era possível discernir rostos expectantes de barbas brancas, de olhos brancos. Um gemido o fez olhar para baixo: o rosto sob o tacão de sua bota queixava-se de algo. Afastou-se. O que viera fazer ali? Viera buscar algo? O quê? O diário de bordo? Caminhou na direção do que lhe pareceu a torre de comando, mas as portas estavam pregadas com tábuas transversais em X. Mais um gemido: um homem com olho vazado, na parede do corredor, movia a boca como se quisesse dizer-lhe algo. Ergueu os olhos: no teto, outro homem de crânio liso mordia os lábios fazendo brotar um sangue espesso e marrom. Na parede, o rosto quadrado de alguém que ele conhecia estava partido ao meio por uma janela. O que viera fazer ali? Por que estava agora imóvel, num corredor vazio, fitando a parede oposta, a poucos centímetros do chão?

2586) Ronaldo Fenômeno (18.6.2011)



Ronaldo Fenômeno despediu-se da Seleção Brasileira, mas não do futebol. Ao falar para a torcida que assistia o jogo no Pacaembu, ele disse: “Até a volta, mas não dentro de campo”. Jogador que abandona os campos sempre procura um jeito de não abandonar o futebol. A primeira opção de muitos, claro, é virar técnico. Temos jogadores medianos que se tornaram bem melhores como técnicos: aí estão Wanderley Luxemburgo (Flamengo), Abel Braga (Fluminense), Felipão (Palmeiras) e tantos outros. Craques que se tornam técnicos têm carreiras mais problemáticas, porque se espera que eles façam como estrategistas o que fizeram como atletas: Zico e Maradona são dois exemplos. Será que Ronaldo vai se tornar um cartola, como provavelmente será o caso do futuro presidente do São Paulo, Rogério Ceni? Duvido. Ronaldo não tem perfil para isto, e tudo indica que se tornará uma figura de relações públicas e de propaganda, pelo seu carisma de simpatia, acessibilidade, bom mocismo.

A discussão recente era se Ronaldo poderia ser comparado a Pelé. Acho que a única coisa em comum entre eles é o fato de que foram grandes artilheiros em Copas. Pelé era um jogador completo, talvez o mais completo de todos os tempos, o jogador que era craque em praticamente todos os fundamentos. Ronaldo não foi um craque completo. Era um artilheiro, com enorme visão de gol e precisão ao bater na bola, e acima de tudo um jogador de arranque extraordinário, como o provam os numerosos gols (consultem o YouTube, ou a memória) em que ele parte do meio do campo, perseguido por uma alcatéia de zagueiros que tentam tomar-lhe a bola, e consegue levá-la ao fundo das redes. Saber entrar na área em velocidade com a bola, sem ser desarmado, é uma virtude cada vez mais rara no futebol de hoje (ninguém, hoje, faz isto melhor do que Lionel Messi). Era um dos pontos fortes de Ronaldo, que parecia capaz de dar a volta à arquibancada do Maracanã com a bola nos pés sem que ninguém da torcida conseguisse roubá-la.

A agilidade do começo da carreira, quando era magrinho, foi destruída pela preparação física que o tornou um gladiador musculoso. E que destruiu sua carreira, porque seus tendões e ligamentos não suportaram aquela massa muscular. Seu auge foi no período entre o Barcelona (1996-97), Inter de Milão (1997-2002) e Real Madrid (2002-2007).

Além de ser um goleador fantástico e ter jeito de menino bom, Ronaldo ganhou o amor da torcida pela impressionante recuperação entre as Copas de 1998 (quando sua misteriosa convulsão desarmou o Brasil no jogo final) e 2002, quando, contra as expectativas de muitos que o deram como acabado para o futebol, não somente jogou, como foi o artilheiro da Copa e deu o título ao Brasil. Foi um daqueles jogadores que fazem o estádio inteiro ficar de pé quando eles recebem a bola, porque naquele instante tudo pode acontecer. Não pode haver homenagem maior do que esta.

2585) A Internet e o microfone (17.6.2011)



Acho que muitos de vocês já presenciaram esta cena. Durante um seminário, simpósio, mesa-redonda ou seja lá que diabo for, há sempre um momento em que se faculta a palavra “para as perguntas da platéia”. Eu sempre achei essa premissa um tanto tendenciosa. E se a platéia, ao invés de perguntas, tiver respostas? E se, ao invés de pedir esclarecimentos aos luminares assentados na mesa, alguém tiver questionamentos a fazer, ou novas idéias a propor? Mas enfim, é o ritual, e coloca-se um microfone num pedestal perto do palco, ou circulando às mãos das mocinhas da produção, para que as pessoas façam suas perguntas. Um ou outro faz, e são respondidas. Mas aí alguém chega ao microfone e inverte a equação.

Ele começa sempre parabenizando o evento, parabenizando os participantes da mesa, elogiando a todos pelo brilhantismo de suas exposições... Aí depois fala um pouco de si mesmo, do quanto ele próprio perde noites de sono a pensar em todas aquelas questões importantes que estão sendo debatidas ali... Começam alguns murmúrios de impaciência, mas ele, impávido, começa a relatar um episódio que lhe ocorreu na juventude e que marcou toda sua vida a partir de então. Quando tentam interrompê-lo, pedindo que seja breve, ele assegura a todos que a narração desse episódio é essencial para a pergunta que fará a seguir; e há sempre algum participante da mesa que democraticamente aconselha, com um gesto, que é melhor “deixar o rapaz concluir o seu raciocínio”. Ele conta um episódio longuíssimo, fala em seguida do livro que acabou de lançar, menciona o endereço da editora, seu telefone, agradece e volta à sua poltrona.

Isso é igualzinho sabe a quê? À Internet. A Internet é uma espécie de microfone que de repente foi dis-po-ni-bi-li-za-do para uma platéia que há quinhentos anos, desde a invenção da imprensa por Gutenberg, estava acostumada a ficar apenas ouvindo, e julgando-se bem paga com isto. O mero direito de ouvir já era lucro. O privilégio duplo de saber ler e poder comprar livros era razão para festa, e não passava pela cabeça dos leitores que eles também poderiam ter seus 15 segundos de fama.

A maioria das pessoas que vai ao microfone nas mesas-redondas não tem perguntas a fazer nem respostas a distribuir. Quer apenas ver-se ali na frente e ouvir-se falando. O microfone lhe serve de espelho, no qual ele por alguns minutos sente-se pertencer ao mesmo mundo daqueles Olimpianos do palco. A Internet, idem ibidem. Na Internet, no blog, no saite, cada um de nós sente-se democraticamente escritor, porque o fato é que escreve, e tem todo o direito de pelo menos imaginar que é lido, mesmo que não o seja. (Quem publica livros imagina a mesmíssima coisa.) A Internet dis-po-ni-bi-li-zou um microfone para alguns bilhões de pessoas. Está saindo besteira a dar com um pau, mas paciência, mais vale deixar as pessoas concluírem o raciocínio delas.

2584) Ariano Suassuna, 84 anos (16.6.2011)




(detalhe de foto de Gustavo Moura)

“Por enquanto, só existem dois tipos de Governo: o dos opressores do Povo e o dos exploradores do Povo. O primeiro, é o dos Tiranos, o segundo é o dos Comerciantes. No primeiro tipo, o Povo é submetido e esmagado em nome da grandeza; no segundo é explorado em nome da Liberdade” (“A Pedra do Reino”, 1958-70). 

“A carne implica essas coisas turvas e mesquinhas. Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço isso, porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo.” (“Auto da Compadecida”, 1956). 

“É possível? Então não fomos feitos / somente para o amor e seus cuidados?” (“A Zélia”).

“As regras da Arte são constituídas pelos achados do gênio pessoal dos grandes artistas, achados que, depois de formulados intuitivamente, tornam-se exemplares, isto é, transformam-se em normas.” (“Iniciação à Estética”, 1972). 

"[Eu escrevia assim] porque aquilo firmava uma tradição e um estilo, valorizava o que já existia na consciência coletiva, aproveitava, com maior solidez, uma arquitetura preexistente e que já recebera, na sanção coletiva, o selo de uma perenidade que só um orgulho muito tolo deixaria de lado em nome da criação exclusivamente individual.” (“O Casamento Suspeitoso”, 1957).

“Os brasileiros de compreensão e caráter menos elevados estão satisfeitos e sem remorsos, absolutamente de acordo com a situação e subornados por seus carros, suas piscinas, seus apartamentos, seus salários, suas rendas, seus empregados ou seus títulos universitários.” (“Aula Magna”, 1992). 

“Eu tenho dentro de mim um cangaceiro manso, um palhaço frustrado, um frade sem burel, um mentiroso, um professor, um cantador sem repente e um profeta.” (entrevista, 2000).

“É melhor estudar um só livro, qualquer que seja ele, com raça, alegria e entusiasmo, do que estudar todos os livros do mundo friamente.” (“Iniciação à Estética”, 1972). 

“Pior do que o escuro em que nos debatemos é a mania de ser dono da luz.” (“O Santo e a Porca”, 1957). 

“Eu canto as Formas vivas, trabalhadas / pelo esforço que limpa e que Nos cansa.” (“Concepção, Quadro e Ode”, 1947). 

“Homem, se é proibido eu não sei. O que eu sei é que você achava que era e depois, de repente, passou a achar que não era.” (“Auto da Compadecida”, 1956). 

“Nós não precisaremos nunca de inventar uma imagem falsa da Vida para poder amá-la. Porque, na dureza e sob o Sol, nós aprendemos à força a amá-la, com o que ela tem de ardente e glorioso, mas também com o que possui de degradado, sangrento e sujo.” (“A Pedra do Reino”, 1958-70).

“Somos seres terríveis, majestosos, / mas ainda incompletos, / soltos no seio áspero da terra / em que abrimos primeiro os parcos olhos.” (“A Laurênio”, 1955) 

“O inquérito continua aberto e em suspenso, de modo que, pelo menos por enquanto, sua Obra ficará assim, em suspenso e aberta, dependendo sempre de novos depoimentos que o senhor nos prestar.” (“A Pedra do Reino”, 1958-70).





2583) A badalação das celebridades (15.6.2011)



Semana passada a Seleção Brasileira se reuniu para dois amistosos, e o Globo do dia 3 anunciou no caderno de esportes: “Histeria por Neymar inaugura nova era na seleção brasileira”, comentando no corpo da matéria: “Natalle, Julliana, Noamy e Loyse, todas entre 15 e 17 anos, chegaram cedo, por volta das 9h, ao Hotel Castro, onde a seleção está hospedada em Goiânia. Barradas pelos seguranças, ficaram na porta, máquina fotográfica em punho, esperando Neymar”. É gozado como a imprensa adora a badalação juvenil. E pensando bem, também para um time de futebol é menos arriscado ser cercado por uma multidão de peruazinhas saltitantes do que por brutamontes de soco-inglês nos dedos reclamando que o time fez corpo mole.

A “nova era da Seleção” me lembra os tempos saudosos da Beatlemania, os quatro cabeludos correndo pela estação do trem, perseguidos por dez milhões de inglesinhas histéricas emitindo juntas um som equivalente ao de um milhão de turbinas de jatos da BOAC. Tudo muito divertido quando se tem vinte e poucos anos. Mas acabou cansando. George Harrison disse: “Me recuso a continuar subindo num palco para tocar música e não conseguir escutar o que estou tocando. I Feel Fine no show de ontem ficou horrível”. E Paul: “Oi, e tocamos I Feel Fine ontem?”. Em 1965 eles acabaram sua “nova era” do rock, trancaram-se num estúdio e se tornaram Os Beatles, pra valer.

É engraçado. No dia 7 de junho o mesmo Globo fez uma matéria sobre os 80 anos de Cauby Peixoto, “famoso no passado pelas estratégias de marketing de seu empresário Di Veras, que arranjava moças para desmaiarem diante do cantor (‘Só uma desmaiou de fato’, diz Cauby hoje) e rasgarem roupas já preparadas para este fim”. Não tenho dúvida de que as “macacas de auditório” de Cauby também inauguraram uma nova era na música brasileira.

E assim, meio serendipiciamente, esbarrei nesta página (http://tinyurl.com/3tu8q95) que comenta a histeria coreografada das fãs de Frank Sinatra após 1943, quando ele contratou o publicitário George Evans para planejar o tumulto das fãs. Evans dava 5 dólares a cada garota e as instruía cuidadosamente sobre o tipo de grito que deveriam emitir, e em que momento (sempre quando a canção subia de volume, nunca nos trechos mais intimistas). Treinava algumas garotas para gemerem em uníssono, e outras para desmaiarem nos corredores do teatro ou onde quer que houvessem fotógrafos por perto. .

Como se vê, a era Neymar não é tão nova assim. É velha a arte de manipular a libido de mocinhas saturadas de hormônios eufóricos. No mundo pop, sucesso é sinônimo de fotos autografadas e mocinhas gritando. O modelo do mundo pop é a herança maldita do século 20. Aguardem o noticiário da Flip ou das demais festas literárias. A imprensa mostrará escritores autografando a blusa de jovenzinhas incapazes de ler mais de 140 caracteres, e anunciará que isto inaugura “uma nova era para a literatura brasileira”.

terça-feira, 14 de junho de 2011

2582) Um Museu do Cordel na Lua? (14.6.2011)



Uma notícia ainda não confirmada vem sacudindo os corredores da NASA, e interessa muito de perto ao leitor brasileiro, ao nordestino em particular. Segundo as agências noticiosas, trata-se do envio para a superfície da Lua, durante a Missão Apolo 12, em 1969, daquele que pode ser o primeiro museu interplanetário da Literatura de Cordel. A façanha se deve à presença de um grupo de brasileiros na equipe de centenas de pessoas (engenheiros, astrofísicos e analistas de sistemas) responsáveis pelo voo, contando com a cumplicidade eventual de norte-americanos.

No grupo de técnicos brasileiros foi confirmada a existência de dois pernambucanos, dois paraibanos e um cearense, sendo que ainda estão sendo interrogados um potiguar e um alagoano. Segundo as informações confidenciais que vazaram para a imprensa, o grupo conseguiu miniaturizar uma placa feita de uma liga especial de silício e titânio, que foi clandestinamente afixada a uma das pernas do “Intrepid”, o módulo lunar que após a missão permaneceu pousado na superfície do satélite.

A placa teria cerca de 16 milímetros de altura por 11 de largura, e segundo seus criadores reproduz as proporções de um folheto de cordel (que tem essa medida em centímetros), e transcreve trechos (em português) de alguns clássicos da Literatura de Cordel – a qual com isto, ironicamente, tornou-se a primeira expressão literária da Humanidade a ser oficialmente depositada em outro corpo celeste. A primeira biblioteca interplanetária, por assim dizer.

Interrogados, os autores do projeto confirmaram que a plaqueta contém seis palavras, cada uma delas extraída de um folheto. A palavra “Plutão” foi retirada da quarta linha da 5a. sextilha de A Chegada de Getúlio Vargas no Céu e o seu Julgamento, de Rodolfo Coelho Cavalcanti. A palavra “ultra-vermelha” foi retirada da quinta linha da 91a. sextilha de A Fada da Borborema de Delarme Monteiro da Silva. A palavra “futuro” foi retirada da sexta linha da 11a. sextilha do folheto Conheça o Enigma das Inscrições Rupestres do Lajedo Pai Mateus de Manuel Monteiro. A palavra “inteligência” foi retirada da sexta linha da 20a. septilha do folheto Sacco e Vanzetti aos olhos do mundo, de João Martins de Athayde. A palavra “perguntou” foi retirada da terceira linha da 11a. sextilha de Casamento e Divórcio da Lagartixa de Leandro Gomes de Barros. Finalmente, a palavra “vida” foi retirada da sexta linha da 4a. estrofe do folheto Trigésimo Aniversário da Conquista da Lua de Gonçalo Ferreira da Silva.

Uma fonte de NASA, que não quis se identificar, asseverou que em momento algum o transporte desta plaqueta (que pesa apenas poucas gramas) colocou em risco a segurança da missão, e que a investigação tem caráter mais administrativo do que criminal. “Recebemos cópias dos livros utilizados”, disse a fonte, “mas ainda não entendemos o critério científico da escolha dessas palavras, bem como o propósito desses poemas sem pé nem cabeça”.