quinta-feira, 14 de abril de 2011

2530) Telefone sem filósofo (14.4.2011)



Eu vinha andando por uma calçada da Conde de Bonfim, quando passei pela frente de uma loja da TeleRio e vi, entre aquelas placas de cartolina com propaganda em letras enormes, o letreiro: “Telefone sem filósofo: 69,90”. Dei mais dois passos, a ficha caiu e eu retrocedi. Entrei na loja com a testa franzida e um ponto de interrogação com meio metro de altura flutuando sobre minha cabeça. O vendedor que me atendeu era baixinho, com três canetas no bolso da camisa, voz telegráfica. “Tem telefone sem filósofo?”, perguntei. Ele: “Claro. A partir de 69,90, com alguns modelos em outra faixa de preço, dependendo dos acessórios, e tudo em seis vezes no cartão”. Pedi para ver um e ele me levou até uma estante de onde puxou uma caixa, abriu, mostrou. Parecia um telefone comum.

“Que história é essa de sem filósofo?”, perguntei. “Tem telefone-com?” “Claro,” disse ele, “existem várias marcas no mercado, mas algumas pessoas não gostam, então o modelo-sem está tendo uma aceitação muito grande. Além de tudo, existem várias faixas de preço bastante convidativas, e o senhor pode fazer tudo em seis vezes no cartão”. “Tá legal, “falei, “mas eu sou de fora, acho que estou meio desinformado. Nunca vi um telefone com filósofo. Como é que funciona?”

Ele era meio prolixo, portanto vou parafrasear. Me explicou que era um software novo, desenvolvido na Europa, que transportava para as chamadas telefônicas algumas funções de hipertexto. Às vezes a conversa telefônica deixava o usuário sem entender direito, e era possível pedir uma opinião a um software filosófico que a interpretava. No modelo econômico, tínhamos acesso a opiniões de Platão, Aristóteles, Kant, Marx e Freud. Modelos mais caros ampliavam esse leque, incluindo nomes que iam de Wittgenstein a Derrida. Fiz cara de incredulidade e ele pegou outro aparelho, plugou na parede e mostrou um botãozinho. (Que aliás tem no meu telefone; nunca usei porque não sabia pra que era.)

Liguei para meu editor, que me perguntou: “Querendo adiantamento, de novo?” Eu: “Não, estou na Tijuca, fazendo umas compras. Mas já que falou nisso... Dá pra me adiantar uma grana?” E ele: “Ih, agora fiquei indeciso”. Então, atendendo aos gestos do vendedor, apertei o botãozinho. Veio uma mensagem gravada me pedindo para apertar de novo quando ouvisse o nome do filósofo que desejava consultar. Depois de meia-dúzia ouvi “Jean-Paul Sartre”, e apertei. Pois não é que uma voz sexagenária, com leve sotaque francês, comentou: “A indecisão que precede a ação é apanágio do homem livre. Hesitar é quase sinônimo de escolher, e escolher pressupõe ser dono do próprio destino. Quem decide sem hesitação está possivelmente sendo levado a fazê-lo por forças alheias a sua vontade. O homem que hesita é um homem disponível para a ação.”

A verdade é que, quando a ficha caiu, eu dei dois passos atrás e li direito a placa, onde estava escrito: “Telefone sem fio só 69,90”.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

2529) Drummond: Nota social (13.4.2011)



Alguns dos poemas mais interessantes do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia (1930) são aqueles em que ele passa um detergente por cima da imagem do poeta, limpando-a do acúmulo de fuligem romântica depositada há séculos. O Modernismo, que se pretendia irônico e desmistificador com tudo e com todos (não o foi totalmente; tinha também seus ídolos, suas ilusões, suas fantasias tão ingênuas quanto as dos Parnasianos e Simbolistas) tirou o poeta do pedestal e o enfiou no bonde, entalado por entre operários, donas de casa e meninos com o nariz escorrendo. O poeta foi abduzido do Olimpo e trazido à Rua da Quitanda.

“Nota Social” é um desses poemas desmistificadores, e curiosamente não o faz utilizando o humor, e sim a melancolia. Ele dá logo o tom nas primeiras frases, empregando a mecânica árida e reiterativa do famoso poema da pedra: “O poeta chega na estação. / O poeta desembarca. / O poeta toma um auto. / O poeta vai para o hotel.”

Quem é esse poeta? Talvez Drummond veja aí um pouco das honrarias com que os poetas jovens de Belo Horizonte receberam Mário de Andrade e sua célebre comitiva (com Blaise Cendrars, Oswald e Tarsila) que visitou Minas em 1924: “E enquanto ele faz isso / como qualquer homem da terra, / uma ovação o persegue / feito vaia. / Bandeirolas / abrem alas. / Bandas de música. Foguetes. / Discursos. Povo de chapéu de palha. / Máquinas fotográficas assestadas. / Automóveis imóveis. / Bravos... / O poeta está melancólico.”

Certamente a visita não foi tão badalada assim, mas Drummond traduz em imagens o estado de espírito daquela provável dúzia de rapazes tímidos que foi ao hotel paparicar os visitantes ilustres. As bandeirolas e os foguetões estavam todos nos olhos dos poetas mineiros. Sabe-se que começou ali a amizade pessoal e os longos anos de correspondência entre Mário e Drummond (que nessa época tinham, respectivamente, 31 e 22 anos). E pode ser que Drummond visse em Mário não somente o modernista famoso mas um sujeito como ele, tímido, meio introvertido mas cheio de afetividade, retraído mas generoso... Aliás, o único adjetivo que o poeta recebe no poema é “melancólico”.

Longe da badalação, ele enxerga outra coisa: “Numa árvore do passeio público / (melhoramento da atual administração) / árvore gorda, prisioneira / de anúncios coloridos, / árvore banal, árvore que ninguém vê / canta uma cigarra. / Canta uma cigarra que ninguém ouve / um hino que ninguém aplaude. / Canta, no sol danado. / O poeta entra no elevador / o poeta sobe / o poeta fecha-se no quarto. / O poeta está melancólico.” Drummond, já escolado, já funcionário público, já conhecedor das badalações literárias, vê o poeta recebendo rapapés sem perder a melancolia; e vê uma cigarra cantando, anônima e invisível. Pode estar pensando que aquele primeiro encontro no Grande Hotel de BH não foi o encontro entre dois poetas, mas entre duas cigarras.

terça-feira, 12 de abril de 2011

2528) O Morto Agradecido (12.4.2011)




Era uma vez um rapaz que, numa época de guerra e de fome, foi embora de casa para procurar trabalho. Passou por perigos e aventuras. Um dia, quando se aproximava de um povoado, viu um corpo caído na beira da estrada. Era um homem, vítima dos assaltantes, que parecia ter morrido há várias horas e continuava ali. Como pertinho havia uma fonte, o rapaz parou para beber água e descansar. Demorou mais de uma hora, e durante aquele tempo passaram dezenas de pessoas que paravam, iam olhar o cadáver, e seguiam caminho. 

O rapaz começou a propor a algumas delas que enterrassem o morto, mas todas diziam: “Pra quê? Já está morto mesmo...” Quando se decidiu a seguir caminho, o rapaz pegou um pedaço de madeira, cavou um buraco, colocou o morto lá dentro e cobriu com terra, fazendo depois uma cruz rústica com dois galhos de árvore.

Algum tempo depois, o rapaz se envolveu em um conflito, foi preso e ficou a ponto de ser enforcado. Quando parecia estar sem saída, apareceu um homem que magicamente conseguiu tirá-lo daquele aperto e levá-lo embora. Quando o rapaz agradeceu a intervenção, e perguntou ao salvador quem era ele, o homem disse: “Sou aquele que ninguém quis ajudar depois de morto, e só você se importou”. E desaparece.

A figura do Morto Agradecido está presente em muitos folclores; gerou, entre outros efeitos colaterais, o nome da banda californiana Grateful Dead. (Ao que consta, Jerry Garcia escolheu o nome aleatoriamente, como era hábito na Contracultura, abrindo um livro ao acaso.) 

Stith Thompson (The Folktale, 1977) observa que no Livro de Tobias, no Velho Testamento, este tema reaparece, sendo que o Morto Agradecido é substituído por um anjo. A história tem uma variante em que o Morto pede, em troca de sua ajuda, metade de tudo que o rapaz ganhar; quando ele se casa, o Morto sugere que a noiva seja serrada em duas (o que não chega a ser feito). Outras variantes (um duelo para ganhar a noiva, etc.) foram se juntando com o correr dos séculos.

Deixando de lado as variantes colaterais, o núcleo da história (o morto, o sepultamento, a aparição misteriosa) se mantém intacto em centenas de histórias na Ásia, na Europa e na América. 

Por um lado, a ação do rapaz serve como um termômetro de humanidade. O mundo pode estar devastado pela peste ou pela guerra, mas enquanto houver alguém capaz de sepultar os mortos existe a esperança de um retorno à normalidade, à convivência humana. 

Por outro lado, sepultar um morto que está abandonado por todos é praticar uma boa ação sem esperança de retorno ou pagamento. Quando ajudamos um vivo, há sempre a expectativa, mesmo inconsciente, de que um dia aquele indivíduo irá se lembrar de nossa ajuda e retribuí-la. 

Ajudar um morto, contudo, é uma ajuda “a fundo perdido”, pois o sujeito sequer sabe que está sendo ajudado. O aparecimento sobrenatural do Morto Agradecido é uma compensação simbólica por esse gesto de altruísmo.





domingo, 10 de abril de 2011

2527) A anedota de Rui Barbosa (10.4.2011)




Deve ser uma das peças mais famosas da literatura oral brasileira. Às vezes é atribuída a Rui Barbosa, outras vezes a um intelectual qualquer. É sempre um diálogo entre um erudito de fala pomposa e um sujeito rústico que não entende o que ele está dizendo. 

Em alguns casos, o intelectual está querendo atravessar de balsa um rio; em outros, está querendo evitar o furto de um objeto ou animal; em outros ainda, está pedindo para carregar uma carroça com caixas e outros volumes.

Vou contar a versão mais antiga que conheço. Contarei de memória, reinventando os trechos de que não me lembro, como é de praxe na Literatura Oral. 

Ora pois, lá vinha Rui Barbosa andando pela zona rural quando a estrada chegou à beira de um rio. Havia uma balsa amarrada a um tronco, e nela um negão forte, que era o remador. Rui, cansado de andar, apoiando-se numa bengala, dirigiu-se a ele:

“Ó, nobre etíope de estatura avantajada! Quanto queres de remuneração pecuniária para trasladar meu indelével corpo deste polo àquele hemisfério? Peço-te que uses de magnanimidade ao fazer o cômputo da remuneração monetária a que tens direito, porque apesar da sisudez de minha indumentária estou longe de ser um nababo ou potentado, e não disponho de lastro fiduciário para fazer frente a um débito de maiores proporções”.

O barqueiro ficou perplexo e disse algo como: 

“Eita doutor, o senhor tá falando inglês?!” 

Rui tornou de imediato: 

“Ah, aborígine de mentalidade incúria! Se o dizes por mera ignorância intrínseca ao teu ser, e por falta de luzes civilizatórias auferidas na mais tenra infância, então transijo. Mas se pretendes menoscabar a minha alta prosopopéia, pespegar-te-ei um golpe, com meu poderoso báculo, que irá fender tua caixa craniana e espalhar pela paisagem a massa encefálica de que não fazes uso, produzindo um ribombo tão ensurdecedor que fará estremecer o entroncamento das sequóias e afugentará para sempre as aves migratórias deste meridiano!”.

Tipo isso. O mais interessante de episódios assim é que – como ocorre com os Mitos estudados pelos antropólogos, como ocorre com as versões do Romanceiro Popular Nordestino, como ocorre com as nossas prosaicas anedotas de mesa de bar – não há duas versões iguais. 

Mesmo que um pesquisador grave mil pessoas contando a mesma historieta, todas contarão versões substancialmente diversas umas das outras, e não estou me referindo a uma mera troca de sinônimos ou mudança na ordem das frases. As circunstâncias mudam, o vocabulário muda, as ações descritas mudam – mas a história é essencialmente a mesma.

A Literatura Oral existe numa zona cinzenta entre a fixidez da Literatura Escrita e a improvisação do teatro popular (tipo Commedia dell’Arte) em que não se trabalha com um texto fixo e sim com um roteiro de ações e de frases guardados de memória, o qual, no momento da execução, fica sempre ao sabor da memória e da agilidade mental do contador. Contar é reinventar, sempre.






sábado, 9 de abril de 2011

2526) Explodindo o clichê (9.4.2011)




O clichê é a cristalização de uma expressão. Um dia, ela foi usada pela primeira vez e funcionou. Todo mundo prestou atenção e passou a usá-la. Virou uma expressão corrente, depois uma expressão obrigatória. Passou a fazer parte da linguagem, sendo usada automaticamente, invisivelmente. As pessoas não usam o clichê para chamar a atenção ou para comunicar algo de novo. Usam porque serve de atalho. Todo leitor já viu aquilo mil vezes e vai entender na hora, e isso libera sua cabeça para dar atenção a outras coisas. O clichê é um elemento simplificador porque sua ausência de novidade faz com que seja compreendido sem ser percebido.

O que vale para o clichê da linguagem vale para o clichê narrativo, e cada gênero tem os seus. Um gênero literário é em grande parte uma coleção de clichês típicos, que se transformam em verdadeiras figuras de linguagem. Pequenos artifícios já prontos que basta estender a mão, pegar e introduzir na obra que estamos compondo. Certeza total de entendimento, sem o desgaste de tentar encontrar uma maneira nova de dizer aquilo.

Esteticamente, o clichê se justifica? Acho que somente quando existe no livro (filme, etc.) alguma coisa que vai muito além do clichê, e o clichê serve como atalho, passagem, porta de acesso mais rápido. Usar o clichê como meio para alcançar algo que seja muito bom. O romance policial tornou-se, pelo excesso de uso, um verdadeiro museu de clichês. Os aficionados do gênero (como eu e muitos) não se incomodam. O clichê nos dá o prazer do reencontro, de ver uma nova variação de um lugar-comum antigo. A gente aprecia o clichê como aprecia um chinelo velho ou a poltrona preferida.

Alguns autores, contudo, usam os clichês como meio para um fim literário diferente. Umberto Eco, em O Nome da Rosa, usa os clichês do romance detetivesco, sherlockiano, para facilitar nossa passagem através de uma história densa em que ele reflete sobre a Idade Média, a política italiana, a natureza da escrita e da memória, a importância filosófica do riso... Se não houvesse aquela série de crimes, quantos leitores iriam até o fim?

Paul Auster, na Trilogia de New York, mistura a rotina entediante dos detetives particulares do romance “noir” com elucubrações existenciais que lembram Albert Camus ou Samuel Beckett. Camus, aliás, dizia ter baseado O Estrangeiro nos romances “noir” de autores como David Goodis. O clichê e a alta literatura não são inimigos, mas é mais fácil (e mais frutífero) alguém da alta literatura saber usar bem um clichê do que o contrário. A alta literatura, aliás, fez sua fama em cima de algumas das mais respeitáveis fontes de clichês existentes, como a mitologia grega e a Bíblia. Por existirem há milhares de anos e terem praticamente formatado nossa cultura, são uma fonte inesgotável de personagens, situações, episódios, peripécias. Que pelo excesso de uso viraram clichês, mas estão sempre à disposição para que alguém lhes dê uma utilização nova.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

2525) Os games e as artes (8.4.2011)



Roger Ebert é um crítico de cinema que leio com frequência e admiro, porque mesmo quando sua opinião sobre os filmes não coincide com a minha ele sempre tem coisas inteligentes a dizer. Para mim, isto justifica uma leitura muito mais do que a mera concordância de pontos de vista. De uns tempos para cá ele se envolveu numa polêmica porque pisou nos calos de uma das comunidades mais xiitas e mais combativas que tem por aí, a dos videogamers. Ebert afirmou, num contexto que não tive tempo de verificar, que videogames nunca poderiam produzir grandes obras de Arte. Caiu-lhe na cabeça um terabyte de emails discordantes, desde os mais grosseiros e agressivos até os bem-humorados que o questionavam em seus próprios termos. Arrependendo-se de ter mexido nessa casa de marimbondos, Ebert escreveu:

“Estou preparado para crer que videogames podem ser elegantes, sutis, sofisticados, desafiadores, visualmente maravilhosos. Mas eu creio que a natureza dessa mídia a impede de passar do estado de artesanato para arte. Que eu saiba, ninguém dessa área ou de fora dela já foi capaz de citar um game merecedor de comparação com os grandes dramaturgos, poetas, cineastas, romancistas e compositores. Que um videogame possa aspirar a ter importância artística, eu aceito. Mas para a maioria dos jogadores eles representam uma perda de horas valiosas de que dispomos para nos tornar mais cultos, mais civilizados, e ter mais empatia com nossos semelhantes”.

Os argumentos de Ebert (que colhi neste ótimo artigo-resposta de Brian Moriarty, em: http://www.gamesetwatch.com/2011/03/opinion_brian_moriartys_apolog.php) são familiares. Quando uma nova e incipiente forma de expressão aparece, a gente sempre duvida de que dali possa brotar algo igual às grandes obras de arte anteriores. E tem razão. Quando apareceu o cinema, as pessoas que gostavam de teatro diziam que o cinema jamais produziria um Ésquilo ou um Shakespeare. Tinham razão, porque o que o cinema produziu de bom (Fellini, Orson Welles, Buñuel – ou Spielberg, Kubrick, Scorsese – ou Ozu, Rohmer, Tarkovsky – coloque os seus nomes preferidos!) não tem nada a ver com o que foi feito pelos grandes nomes do teatro.

Eu digo às vezes que ainda não surgiu “o Griffith, ou o Chaplin, ou o Fritz Lang dos videogames”. Mas sei que quando surgir não será alguém que vai fazer nos games algo parecido com a obra desses caras. Ele vai dar aos games uma nova possibilidade de expressão profunda da mente humana e do sentimento coletivo humano, uma expressão que o cinema, o teatro e a literatura não podem dar, porque ela será específica do videogame. O que vai ser? Não sei, nem posso saber. Será uma arte nova, porque as novas artes surgem da conquista de novas técnicas de produção/reprodução de representações sensíveis (imagens, sons, palavras, etc.). Nem toda técnica resulta numa arte, mas toda arte é consequência de uma técnica que alguém soube usar com grandeza criativa.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

2524) A estética do Como Pude Acreditar? (7.4.2011)




Por que motivo os personagens dos folhetins e telenovelas são tão crédulos?

 Uma resposta cínica nos diz que se não o fossem não haveria história a ser contada, porque histórias dessa natureza requerem que certas mentiras sejam acreditadas durante cem capítulos, para serem desmascaradas no derradeiro.

A credulidade, no entanto, nem sempre é sinônimo de ingenuidade. Nem todo personagem acredita por ser ingênuo, embora qualquer folhetim que se preze necessite de um bom contingente de pessoas ingênuas, pessoas de coração puro e mente passiva, daquelas que adoram cair numa conversa bonita.

Acontece que um vilão de folhetim não é apenas um sujeito mau e sem escrúpulos. Vilão bom é aquele em quem pressentimos uma inteligência superior. Um vilão meramente truculento e maldoso é uma peça desconfortável do enredo, é um caroço indigesto que precisa ser extirpado pelo herói. 

Muitos vilões da pulp fiction são assim. Mas gostamos quando percebemos que o vilão, além de canalha e sem escrúpulos, é também inteligente, perceptivo, tem conhecimento sutil das fraquezas humanas, tem jogo de cintura, tem senso de humor. São qualidades que de certo modo temos esperança de possuir; e o vilão deixa de ser apenas um obstáculo para ser também, provocantemente, um modelo. Ao invés de incômodo, é sedutor.

Se nós, leitores, somos vulneráveis aos encantos e aos argumentos de um tal vilão, qual não será a sorte de um pobre personagem? Acreditam, sim, deixam-se embair pelo papo-de-derrubar-avião do nosso Fantomas ou Fu-Man-Chu. Às vezes esses personagens intermediários chegam de arma em punho ao reduto do Senhor do Crime, prontos a livrar a humanidade daquela presença pestilencial; mas basta que o Anjo da Treva erga a mão e peça dois minutos de atenção para que tudo esteja perdido.

O vingador acreditará nele, e isto é mais pungente ainda quando nós, leitores, percorremos aqueles parágrafos e pensamos cá conosco: “Ih, rapaz... pois não é que, de certa forma, sob um certo ponto de vista, ele tem mesmo razão?!”

Os personagens acreditam, e num piscar de olhos estão desarmados, manietados e jogados num calabouço. Ou, melhor ainda, estão livres e de volta ao mundo, só que com o ponto-de-vista reformatado. Olham o Herói com uma desconfiança sombria, porque agora estão sabendo das suas intenções turvas, dos seus propósitos inconfessáveis.

Tudo que pensavam antes foi modificado por aquela meia hora de conversa. De agora em diante, perseguirão o Herói, sabotarão suas iniciativas, trabalharão dia e noite para derrotá-lo ou pelo menos para estorvar seus passos. Cheios de intenções nobres, farão o possível para ajustar sua conduta àquelas poucas mas terríveis "verdades" que o vilão, com ar compungido e falando quase que a contragosto, lhes revelou.

Até que, no desfecho, quando o Herói derrotar o vilão e, enfim, toda a terrível verdade for mesmo revelada, exclamarão, com um sobressalto de horror: “Como pude acreditar?!”.






quarta-feira, 6 de abril de 2011

2523) “A Estrada” (6.4.2011)



Terminei de ler The Road (2006), já traduzido e publicado no Brasil pela Alfaguara. Mais conhecido do que o livro talvez seja o filme, dirigido em 2009 por John Hillcoat, com Viggo Mortensen. Não vi o filme; o livro, que terminei de ler ontem, é daqueles que me deram vontade de, chegando à última página, voltar à primeira. Não porque quis esclarecer dúvidas ou quis reinterpretar o começo da história à luz do que foi esclarecido no final, mas pelo impulso instintivo de fazer com que aquela história continuasse acontecendo. Não sinto isto com qualquer livro, e é curioso que o tenha sentido com este que já foi considerado “o livro mais depressivo de todos os tempos”.

Houve um cataclismo qualquer que destruiu a civilização, e na Terra devastada um homem foge com seu filho de 7 ou 8 anos. As florestas foram arrasadas pelo fogo, não existem mais pássaros nem animais, os rios e o mar estão contaminados e não têm mais peixes. A vida nesse mundo permanentemente nublado e chuvoso consiste em procurar comida e armazenar água. Não existem mais cidades, nem eletricidade, água potável, comunicações, vida organizada. Os sobreviventes se organizam em milícias armadas que praticam o canibalismo e percorrem os continentes, saqueando tudo que encontram.

É um cenário pós-apocalíptico parecido com o de vários romances de Stephen King, mas Cormac McCarthy tem todas as qualidades de King sem nenhum dos seus defeitos. O livro acompanha, com uma secura verbal impressionante, a jornada de pai e filho rumo ao litoral (‘não sobreviveremos a outro inverno se ficarmos aqui”, diz o pai), empurrando estrada afora um carrinho de supermercado onde amontoam tudo que pode ser útil: lençóis, roupas, latas de comida em conserva, garrafas de água, todo o combustível que conseguem encontrar. Não conseguem achar sapatos: seus pés estão envoltos em panos e plástico, e amarrados com fios. Ao ouvir qualquer barulho empurram o carrinho para o mato e se escondem. Há cenas violentas e chocantes, mas estas, num livro de 280 páginas, não totalizam nem cinco.

O que nos prende no livro são os personagens. McCarthy raramente nos diz o que eles estão pensando ou sentindo. O livro é quase todo narrado “de fora”, apenas mostrando o que eles dizem ou fazem. Os personagens ganham, assim, o que chamo de “interioridade pressentida”, um conjunto complexo de qualidades mentais e emocionais que somos forçados a deduzir para justificar suas palavras ou ações. Pai e filho repetem pequenos rituais de sobrevivência e de reafirmação, frases que lhes servem como “bordão” para manter a sanidade mental e a convicção de que, por algum motivo, eles são “as pessoas boas” e são eles que estão “conduzindo a chama”. Um livro depressivo? Jamais. Um livro que, explorando uma situação limite, usa com plenitude recursos literários tão frugais quanto os que vão garantindo, dia a dia, a sobrevivência dos seus personagens.

terça-feira, 5 de abril de 2011

2522) Triscaidecofilia (5.4.2011)



Na verdade, existem dois termos, antônimos e simétricos. Os dicionários registram apenas “triscaidecofobia”, que é “horror ao número 13”. A lógica me diz que existe também o seu inverso, o amor por esse número: triscaidecofilia. Essa crença tem origens culturais que às vezes vale a pena pesquisar. Os norte-americanos, por exemplo, padecem de ambas as condições. A História dos EUA registra que foram 13 as colônias que se rebelaram contra a Inglaterra; daí que este número apareça de forma discreta (só vê quem tem a paciência de ficar contando) nos símbolos nacionais: são 13 faixas na bandeira e 13 flechas nas garras da águia, símbolo nacional. Por outro lado, nos EUA são muitos os edifícios que não usam 13o. andar, por acharem que não é propício. Passa-se direto do 12 para o 14. O que coloca um interessante problema prático: é o nome “décimo-terceiro” que dá azar, ou é a posição?

Dizem que na cultura hindu o 13 é um número benéfico. Eles creem que quando uma pessoa morre sua alma leva doze dias para alcançar o mundo dos ancestrais, e no décimo-terceiro dia após a morte a família pode voltar a cuidar de sua vida, sossegada, porque o morto a essa altura já terá alcançado o seu destino. Já na Inglaterra, conta-se que antigamente havia uma penalidade para comerciantes que burlassem os consumidores, e como havia o hábito de se comprar os pães por dúzia, os padeiros começaram a introduzir às vezes um pão a mais, para o caso de terem errado a conta. Daí eles começaram a espalhar a lenda de que 13 dava azar, e com isto os fregueses devolviam o décimo-terceiro pão quando o encontravam. Este costume teria dado origem ao termo inglês “baker’s dozen” (dúzia de padeiro) para designar o treze.

Algumas superstições estão ligadas a fatos históricos. Assim como na Última Ceia havia treze pessoas (e uma delas, Cristo, morreu logo a seguir), diz-se que a origem da má fama da sexta-feira 13 é o fato de que foi numa data assim que os cavaleiros Templários foram presos e massacrados na França, em 13 de outubro de 1307 (o ano também deve ter pesado). Também se diz que essa má fama foi criada e alimentada em parte pela Igreja Católica para combater as religiões pagãs, pelo fato de que um ano solar contém treze meses lunares, e era pelo ciclo lunar que os pagãos se orientavam, o que fazia do 13 um número básico de sua cultura.

A verdade é que o 13 é um desequilíbrio no 12. O número 12 é considerado um número simetricamente complexo. Ele é divisível por 2, por 3, por 4 e por 6. Um número flexível, cooptável, que se ajusta a qualquer contagem. Temos os 12 meses, os 12 signos do Zodíaco, e assim por diante. Basta, porém, somar mais uma unidade e surge o 13, um número primo, que só é redutível a si mesmo e à unidade, um número orgulhoso, indivisível – um indivíduo. A admiração pelo 13 é em grande medida a nossa admiração pelos seres de personalidade única e inimitável, que não abrem nem prum trem.

domingo, 3 de abril de 2011

2521) Fotos de viagem (3.4.2011)



Voltar de uma viagem por lugares agradáveis é também o momento de dar um balanço nas fotos de viagem. Antigamente (advérbio cada vez mais frequente nas minhas comparações) marcava-se uma noite em casa para que os amigos viessem. Servia-se vinho ou cerveja, apagava-se a luz e projetavam-se slides na parede, para os “oooh” e “rá rá rá” da platéia. Isso para os mais abastados, que tinham projetor de slides em casa. Os medianos imprimiam as fotos em papel mesmo, e os montinhos de fotos (ou os álbuns onde elas eram cuidadosamente montadas) eram passados de mão em mão. Hoje as opções são várias, mostrar na tela do notebook, na telinha do celular em momentos mais rápidos e informais, ou então plugar o notebook na TV da sala e exibir ali.

Tudo bem, mas para que? Eu nunca tive máquina fotográfica e sou até hoje um fotógrafo incompetente, fico prestando atenção no enquadramento e acabo clicando na hora em que todo mundo está com a boca torta e o olho arregalado. Mas é por falta de prática. Quase nunca levei máquina nas minhas viagens, e quando levei não foi para tirar fotos de mim mesmo, foi para clicar as coisas curiosas que via.

Mas uma vez alguém me jogou na cara um argumento irrespondível. “Como você pode provar que esteve em Paris, se não tem nenhuma foto sua diante de uma coisa que todo mundo sabe que fica em Paris?”, disse minha amiga. O argumento é antigo, do tempo em que ainda não tínhamos o PhotoShop para nos levar não só a Paris, como ao fundo do mar ou a Aldebarã; mas define a razão para que a gente compre uma câmara digital e a leve na mochila. Tiramos fotos para provar aos incrédulos que foi mesmo em Paris que passamos aquelas férias, e não escondidos no quarto dos fundos da casa do irmão da gente no Jardim Paulistano.

Mas tem outra, mais sutil do que esta. Quando vemos por fim as fotos da viagem já não precisamos mais sentir a insegurança, a precaução, o temor, o alerta que precisa ficar ligado o tempo inteiro quando estamos na viagem. Naqueles flashes tão sorridentes estávamos na verdade pensando: Será que vão bater minha carteira? Será que vou perder meu passaporte? Encontrarei um câmbio favorável quando for trocar dinheiro? Pagarei excesso de bagagem, somente porque estou trazendo 200 livros? Durante as fotos é este o subtexto psicológico de cada momento, em que a cabeça organizatória precisa tomar a frente a colocar em segundo plano a cabeça curtidora, a cabeça “carpe diem”.

Numa viagem, somos um “fama” cortazariano, computando e atualizando o tempo inteiro os gastos com o frigobar, imaginando roteiros que economizem táxi. Quando voltamos para casa e olhamos as fotos, essa insegurança se desmanchou no ar. Agora sim, somos um mero cronópio feliz da vida, revivendo um momento bom. Ou talvez vivendo-o pela primeira vez em sua plenitude, porque somente agora temos 100% de certeza de que o momento foi bom mesmo e nenhum pivete estrangeiro nos arrebatou a sacola da livraria.