quarta-feira, 6 de agosto de 2008

0492) O dia sem fim (16.10.2004)

(Fredric Brown)

























(Cornell Woolrich)


Em Ulisses, James Joyce descreve um único dia na vida de Leopold Bloom, um judeu irlandês que vive em Dublin. É um romance com cerca de 800 páginas, e quando eu tinha dezessete anos costumava imaginar os prodígios de encheção-de-lingüiça do escritor para esticar a tal ponto os acontecimentos de um dia humano. Vai daí que, quando a gente folheia o livro e se familiariza com seu estilo e seus episódios, percebe que o objetivo ficou longe de ser atingido, e que se o livro tivesse o dobro da extensão ainda faltaria muita coisa lá dentro. A sensação que a gente tem é de que um dia humano é inesgotável. É impossível escrever um romance “em tempo real”.

Claro que muitas tentativas foram feitas. Peço desculpas aos colegas mais sofisticados, mas um exemplo que me vem à memória é Night of the Jabberwock, um romance policial de Fredric Brown que me produziu uma das minhas experiências de leitura mais notáveis. É uma história de crime que se passa numa cidadezinha do interior dos EUA, começando no início da noite, entrando pela madrugada adentro, e terminando ao amanhecer. Por coincidência foi justamente o que me ocorreu na leitura: li a história durante uma noite inteira, sem parar, e quando terminei, o dia amanhecia nas páginas finais do livro e nas vidraças da janela. O tempo da ação e o tempo da leitura coincidiram, e talvez por isto este romance tenha me produzido uma impressão que obras mais “artísticas” não conseguiram.

É uma tática do romance de suspense, talvez, porque Deadline at Dawn de William Irish é exatamente isto: um rapaz e uma moça interioranos, que comem em Nova York o pão que o diabo amassou, decidem voltar juntos para sua cidadezinha no primeiro trem da manhã, mas vêem-se envolvidos num crime e têm que provar sua inocência ao longo da madrugada. “William Irish” é pseudônimo de Cornell Woolrich, um dos escritores de suspense mais adaptados pelo cinema: entre outros filmes baseados em histórias suas estão A noiva estava de preto de Truffaut e Janela indiscreta de Hitchcock. A terrível e inesgotável madrugada que ele descreve em 200 páginas parece que de fato nunca vai terminar.

Imagino que uma resposta possível para isto está no conto “O Aleph” de Jorge Luís Borges, quando o protagonista consegue por fim avistar o Aleph, o ponto onde são visíveis todos os lugares do Universo, e diz, ao se preparar para descrevê-lo: “O que os meus olhos viram foi simultâneo; o que transcreverei será sucessivo, pois a linguagem o é.”

Descrever tudo que nos acontece em um dia, uma hora, é como querer reproduzir em uma única pista de som a gravação de uma sinfonia em dezenas de canais: teríamos que ouvir cada instrumento, de um em um, executando sua parte. Estímulos sensoriais, lembranças fugazes, monólogo interior, diálogos, ações, descrição extensa de impressões visuais instantâneas... Cada pequena experiência real que temos é a ponta da meada de um fio sem fim.

0491) A indústria dos super-heróis (15.10.2004)



Como muitos garotos da minha classe social e da minha geração, passei grande parte da minha infância com o nariz enterrado em gibis de histórias-em-quadrinhos. Alguns eram inevitáveis: Superman, Batman, Mandrake, Fantasma. Outros eram menos conhecidos, como “C. B.” (“Crime Buster”, criado por Charles Biro). Ao mesmo tempo, movido pelo entusiasmo de todo mundo lá em casa pelo charadismo e pelas palavras cruzadas, eu devorava com aplicação livros e mais livros sobre Mitologia Grega, desde as aventuras dos personagens do Picapau Amarelo (O Minotauro, Os 12 Trabalhos de Hércules) até o Dicionário da Fábula de Chompré e a Enciclopédia Delta-Larousse.

Não relato isto por mera nostalgia, nem para me gabar da variedade de minhas leituras (e ainda precisa?), mas apenas para comprovar de novo o que vou dizer agora. A indústria cultural é o novo folclore. Aquilo que há 3 mil anos era produzido pelas pessoas em volta das fogueiras, em bate-papos na pracinha, ou em histórias mirabolantes passadas de boca-em-boca no zum-zum-zum das feiras e dos mercados, é hoje uma indústria que movimenta bilhões de dólares e envolve milhões de pessoas. Folclore profissional, remunerado. Criação industrial de mitologias.

Saem de campo Hércules, Ulisses, Perseu, Sansão, Thor e Siegfried, e entram os X-Men, o Homem Aranha, o Demolidor e o Spawn (além dos citados acima). O processo de criação desses tipos continua a ser semi-inconsciente (existe algo mais semi-inconsciente do que a indústria cultural?), feito às pressas, sem preocupação com verossimilhança ou qualidade. Se em nossa vida real precisamos de heróis, em nossa vida imaginária precisamos de super-heróis, de semideuses, só que agora eles têm de ser semideuses com a credibilidade avalizada pela genética, pela energia atômica, pela percepção extra-sensorial, e por outros pretextos que, aos olhos do leitor comum, não se distinguem muito da Magia.

Na cena inicial do filme Highlander (o que deu origem à série sobre espadachins imortais que se enfrentam ao longo dos séculos) vemos um ringue de luta de tele-catch, onde aqueles sujeitões musculosos e peludos se agarram uns aos outros e fingem que estão brigando. Um espectador afasta-se dali, e ao chegar à garagem é atacado por outro: são dois highlanders, e o que vemos em seguida é um duelo mortal, a sério, entre dois guerreiros pra valer. Esta seqüência inicial é a melhor de toda a série, e expressa muito bem esta dualidade entre heróis de mentira (o tele-catch) e heróis de verdade (os highlanders). Vistos daqui de fora, são os highlanders que são os heróis de mentira, os que sabemos que não existem mas que, encenando suas brigas de mentirinha, encarnam nossas aspirações de grandeza e coragem. A diferença é que o que antigamente era feito por um processo espontâneo, pessoal e descentralizado de criação de tipos e de histórias, hoje tem o suspeito perfil de uma indústria lucrativa e deliberada.

domingo, 3 de agosto de 2008

0490) Direitos autorais (14.10.2004)



Basta dar uma passada rápida pela História da Literatura ou pela História da Música Popular Brasileira para a gente ver que esse negócio de autoria individual de uma obra é uma preocupação relativamente recente. Durante muitíssimo tempo as pessoas acharam super normal publicar um livro sem dizer que o tinham escrito. Quando Manuel Antonio de Almeida publicou em 1852 suas Memórias de um Sargento de Milícias, um livro que muitos figurões de hoje em dia gostariam de ter escrito, botou como assinatura: “Um Brasileiro”. Parece um gesto dadaísta, não é mesmo?: Não é: era um costume da época. A primeira edição de Tamerlane and Other Poems, o primeiro livro de Edgar Allan Poe (1827), foi assinada por “Um Bostoniano”. Outros autores ocultavam-se atrás da modesta cortina de um pseudônimo, ou de suas próprias iniciais.

Na música, então, nem se fala, principalmente na música brasileira, cuja vertente mais caudalosa brotou das senzalas, dos cortiços, dos pardieiros, dos botequins, das casas de má-fama, das fazendas, das roças, de todos os lugares onde as pessoas faziam música para se divertir e para se expressar, sem que lhes passasse pela cabeça que aquilo podia ser também um comércio. Por outro lado, nessa mesma época as polcas que se tocavam nos salões machadianos eram impressas, assinadas e vendidas. A preocupação com “quem fez”, “quem vai ganhar por isso” parece ter sido sempre da classe média e da pequena burguesia.

A importância da autoria individual de uma obra está geralmente na razão direta da sua possibilidade de lucro. Não se dá muita importância à autoria quando se produz dentro de um ambiente de amadorismo total. A “arte-pela-arte”, curiosamente, é uma atitude mais comum entre os muito pobres do que entre os muito ricos. Numa economia de subsistência cultural, onde a função da arte é a instrução espiritual e o lazer, o “corpus” artístico pertence a todos, e serve como um banco-de-dados de onde cada um retira o que lhe convém.

Quando essa atividade se expande, se amplia para multidões, invade outras classes sociais, atinge outras regiões geográficas... aí começam os primeiros comichões do profissionalismo. Um ou outro indivíduo começa a fazer-se recompensar pelo que escreve ou compõe. Os demais percebem que existe quem pague por aquilo. Vai brotando o inevitável olho-grande, vai surgindo um mercado, com todas as suas conseqüências: lucros, salários, disputas por um público. A autoria de um sucesso, possibilitando lucro financeiro, passa a ser objeto de disputa. Brigas ferozes por esta ou aquela obra mostram a necessidade de que se estabeleçam normas e critérios consensuais para que se possa afirmar quem fez o quê, e quem tem direito a quanto por aquilo que foi feito.

É natural que pessoas de classes sociais diferentes, de ambientes econômicos diferentes, encarem com maior ou menor rigidez a noção de autoria, e tenham dificuldade em compreender os critérios usados fora de sua comunidade.

0489) De Sherlock a João Grilo (13.10.2004)




(João Grilo, xilogravura de Stênio)


Dizem que o personagem título de Alphonse Daudet em seu livro Tartarin de Tarascon é uma tentativa de fundir num só personagem os tipos famosos de Dom Quixote e Sancho Pança. Uma das melhores coisas da literatura (da arte) é a nossa possibilidade de usar idéias alheias como se fossem nossas. Para evitar toda essa chateação em torno da idéia de plágio, o primeiro conselho que dou aos escritores é: quando se apossarem de um personagem alheio, a primeira coisa a fazer é mudar seu nome e sua descrição física. Se ficarmos presos ao original, nunca nos afastaremos dele. A tentativa de Daudet foi ousada, porque Tartarin tem ao mesmo tempo a capacidade de fantasiar de Dom Quixote e o espírito terra-a-terra de Sancho.

É sabido que Conan Doyle criou Sherlock Holmes inspirado em seu professor Joseph Bell, mas o antecedente literário de Sherlock, como o próprio Doyle, reconhecia, era o detetive C. Auguste Dupin, criado por Edgar Allan Poe em uns poucos contos memoráveis que deram início à novela de detetive como a conhecemos hoje. Doyle apropriou-se de uma porção de métodos dedutivos de Dupin, e do truque de apresentá-lo através dos olhos de um narrador que só tem acesso parcial aos seus processos mentais, o que garante uma fonte permanente de surpresa para si e para o leitor.

Curioso também é, no caso da literatura popular, a exploração dos heróis picarescos. Ao que me consta, Pedro Malazarte é o mais antigo deles, sendo conhecido na Península Ibérica como “Pedro Urdemalas” e outros nomes. Por um lado ele se aparenta ao tradicional Lazarillo de Tormes, o guia de cego que luta para sobreviver no meio da miséria e da violência, sendo forçado a tornar-se esperto, trapaceiro e por vezes cruel. Por outro lado, ele se relaciona com personagens da Commedia dell´Arte européia, como o Arlequim: espertalhão, cheio de espírito lúdico.

Malazarte é o típico herói pregador-de-peças, cujas vítimas tanto podem ser os ladrões e bandidos como os burgueses ricos e as autoridades. E deve ser sido ele o modelo em que se inspiraram tantos outros heróis picarescos do cordel: o João Grilo usado por João Martins de Athayde nos folhetos e por Ariano Suassuna no teatro, o Cancão de Fogo dos folhetos de Leandro Gomes de Barros, o Sabido Sem Estudo de Manoel Camilo dos Santos e outros. Cada um deles é uma espécie de reencarnação dos anteriores, mas, ao dar-lhe um novo nome, o autor meio que se apropria dessas características universais, e sente-se à vontade para modificar o personagem de acordo com sua conveniência. A literatura popular recicla a si mesma, tanto quanto a indústria cultural (cinema, quadrinhos, TV). A diferença é que uma o faz de maneira pessoal e intuitiva, e a outra através de mecanismos de pesquisa de mercado, estatística e marketing. A indústria cultural profissionalizou e sofisticou (do ponto de vista técnico) um processo criativo artesanal. Novas usinas engolindo velhos engenhos.

0488) A luz e as trevas (12.10.2004)



(Van Gogh, "Noite Estrelada")

Como sou um cara de temperamento noturno, sempre me incomodei um pouco com a mania das pessoas de identificar as trevas com o Mal. A escuridão é sempre associada ao medo, à ignorância, ao perigo, à maldade, à tristeza. Entendo perfeitamente, mas, como ocorre com toda associação de idéias, ela também pode ser virada às avessas. Tomo como exemplo a frase de Emerson sobre o céu estrelado. Diz ele que se nunca pudéssemos avistar o céu noturno, e um dia de repente isto fosse possível, os homens ficariam deslumbrados e entoariam cânticos de louvor a Deus pela beleza de sua criação. Isaac Asimov inverteu esta plausível proposta em seu conto “Nightfall”, onde descreve um planeta num sistema de sóis múltiplos, onde, em virtude disto, nunca anoitece. Um dia, uma conjunção de órbitas faz com que um lado do planeta fique às escuras: ao ver as trevas infinitas e as estrelas faiscantes, o planeta mergulha no caos e no terror. E é uma possibilidade tão plausível quanto a outra.

Eu não troco uma noite estrelada por todos os sóis de verão deste mundo, e uma coisa que me incomodava muito no tempo da ditadura militar era a mania da MPB em compará-la à noite, e ficar falando “no dia que vai chegar”, “o sol que vai raiar”, “esta noite vai ter fim”... Meu amigo! Eu acho uma beleza, do ponto de vista visual, a aurora dedirrósea erguendo-se no Oceano Atlântico, mas, pela parte que me toca, o fim de uma noite é sempre uma má notícia.

Pois saibam os adeptos da Luz que a Luz é que precisa ser vista à distância. A Luz queima, a Luz mata, ou pelo menos queima e mata àqueles que, iludidos pelo seu brilho enganador, querem nela mergulhar. Perguntem às mariposas de Adoniran Barbosa! Luz é para a gente circular em volta dela, e não para mergulhar de ponta-cabeça como fazem as moscas de botequim naquele néonzinho azul onde se suicidam. Vejam por exemplo o caso de Lúcifer, o anjo da luz, que quis se transformar na Luz propriamente dita e como castigo acabou ricocheteando para o fundo das trevas. O sonho mais vão da Humanidade é tocar a Luz. Mas ninguém toca impunemente o Fogo; e não lembro de parábola mais bela dessa nossa ambição infantil do que o conto de Ray Bradbury “Os Frutos Dourados do Sol”, onde uma espaçonave vai até o Sol para colher seu fogo e trazê-lo à Terra.

“A luz assassinava demais”, diz Guimarães Rosa no Grande Sertão. Quem já teve as retinas crestadas pela fornalha nuclear que crepita no zênite sertanejo é capaz de ver na noite um Paraíso, nas trevas uma bênção divina. As trevas são como um sono para um corpo cansado, como o silêncio para ouvidos massacrados pelas cacofonias urbanas. Vivemos numa época cruel, pragmática, interesseira, onde o fazer é considerado um Bem absoluto comparado ao não-fazer; daí que palavras como “escuridão” e “silêncio” pareçam a negação da Vida, quando na verdade são a parte oásis dela.

0487) O dentista e a tortura (10.10.2004)



(cartum de MOA)




Houve um tempo em que eu tinha medo de dentista. Na infância e na adolescência, dei muito trabalho a Dr. Queiroga, Dr. Bandeira e “Meu Bom”. Depois de adulto, reconciliei-me com este aspecto meio masoquista da condição humana através dos conselhos sensatos e da persistência de Pedro Hamilton. Depois que vim morar no Rio, coube a Mônica Blumer fazer com minha dentadura o que Ezra Pound fez com a primeira versão de “The Waste Land” de Eliot: jogar fora o que não prestava, e deixar mais apresentável o restante. Hoje em dia vou à dentista com a mesma tranqüilidade com que vou ao barbeiro.

As pinças martirizam? A broca zune? A agulha magoa? Não importa: fico ali, todo herói, todo mártir, amarrotando entre os dedos o lencinho de papel, os olhos cravados no teto, fazendo de conta que não é comigo. Desenvolvi uma técnica meio Zen de me isolar das sensações corporais, as quais continuam presentes, mas meio distantes, como um barulho ouvido embaixo dágua. Li anos atrás um depoimento de um preso político que descrevia algo de semelhante que se passava em sua mente nas horas da tortura.

Comparar uma sessão de dentista a uma sessão de tortura é até covardia. Mas quando nos entregamos, voluntariamente indefesos, àquela invasão mecanizada de nossos recessos mais íntimos, precisamos da certeza de que tudo aquilo está sendo feito para o nosso bem. E é com essa fé que me apego: a fé na Ciência, que para os indivíduos da minha estirpe chega a tornar desnecessária a fé em qualquer outra coisa. Vai daí que, enquanto estou estirado naquela cadeira, obrigo-me a sentir uma exultação íntima com tudo que me acontece. “Ainda bem!”, penso eu. “Este sofrimento todo é para acabar com as coisas ruins que iam acontecer! Esta dorzinha chata é para evitar que eu sinta de novo o traspassar lancinante da Pontada, que uma vez, aos quinze anos, me derrubou ao chão, sem mais nem menos, quando eu descia numa tarde chuvosa a rua Getúlio Vargas, perto do Cine Avenida!...”

E o zunido aterrador da broca vira trilha sonora de um desenho-animado imaginário em que eu a vejo desmoronando enormes paredes de tártaro corrosivo, fustigando agregados de bactérias até desmontá-los por completo e precipitá-los nos turbilhões da saliva (“pode cuspir...”), esboroando trechos comprometidos pela cárie que nos minutos seguintes serão substituídos por um esmalte feito em laboratório, mais rijo, que talvez não dure para sempre mas que decerto me sobreviverá. Alternam-se minúsculas britadeiras e jatos dágua gelada, enquanto vejo com o olho da mente as placas de micro-organismos sendo fustigadas, varridas, até se diluírem em despojos microscópicos; vejo o dente original emergindo branco e puro como um seio de Vênus feito em mármore de Carrara; vejo o império da limpeza e da saúde me restituindo a paz do corpo e do espírito. Estou sofrendo; mas é pro meu bem. Eita que bom, achei pelo menos um departamento, na vida, onde essa frase se aplica.

0486) De onde vêm os personagens? (9.10.2004)



(túmulo de Eleanor Rigby)


Conan Doyle afirmava que a inspiração para criar Sherlock Holmes lhe veio do seu professor no curso de medicina em Edimburgo, Dr. Joseph Bell, que era capaz de olhar para um paciente e deduzir uma porção de informações sobre sua vida, a partir de detalhes sutis de sua aparência e comportamento. 

Esta característica do personagem lhe veio, dizia Doyle, por sentir que era preciso fazer o leitor acreditar nos poderes de observação do detetive: ”Está muito bem dizer que um homem é inteligente, mas o leitor quer ver exemplos disto”. 

É um pequeno detalhe como este que faz a diferença entre um escritor competente e um amador bem-intencionado. 

Quantos romances vemos por aí em que um personagem é descrito pelo autor como inteligente, mas em momento algum do livro vemos esta qualidade ser exibida – provavelmente porque o próprio autor não a possui.

Personagens podem ser inspirados em alguém que se conheceu profundamente, como é o caso de Doyle e Bell, mas podem surgir também de um encontro casual. Jorge Luís Borges imagina, em seu conto “Deutsches Requiem”, um penhorista londrino do século 16 que ao morrer pede perdão por suas culpas, “sem suspeitar que a secreta vindicação de sua vida é ter inspirado a um de seus clientes (que o viu só uma vez e de quem não se lembra) o caráter de Shylock”. 

Que tivesse bastado a Shakespeare um único e breve encontro para construir sobre um desconhecido todo o personagem de O Mercador de Veneza não nos admiraria. É mais freqüente do que se imagina.

O americano Brett Halliday, criador do detetive Mike Shayne (muito lido no Brasil nos saudosos livros de bolso das Edições de Ouro), conta que quando trabalhava nos campos de petróleo do México, na juventude, meteu-se numa briga de bar, levou uma garrafada na cabeça e foi salvo por um americano enorme, ruivo, de olhos cinzentos, que quebrou o bar inteiro e conseguiu tirá-lo de lá. 

Tempos depois, reencontraram-se por acaso num bar em Nova Orleans; o ruivo estava novamente bebendo conhaque Martell com gelo. Conversaram um pouco, mas antes que Halliday pudesse perguntar seu nome o sujeito viu dois tipos mal-encarados entrando pela porta da frente, e sumiu pela porta dos fundos – até hoje. Anos depois, Halliday criou Mike Shayne como uma reprodução exata do desconhecido, inclusive a bebida predileta.

Outros personagens vêm não se sabe de onde. Quando Lennon e MacCartney compuseram “Eleanor Rigby”, ficaram travados no nome da personagem – a mulher solitária que recolhe no chão o arroz jogado sobre os noivos após um casamento, e que guarda o próprio rosto num vaso perto da porta. 

Tentaram várias possibilidades, como “Miss Daisy Hawkins”, “Ola Na Tungee” e outros. Muitos anos depois, descobriu-se que no cemitério de Liverpool há o túmulo de uma Eleanor Rigby, esposa de Thomas Woods, falecida em 10 de outubro de 1939 aos 44 anos (há uma foto da lápide no livro A Hard Day´s Write, de Steve Turner).





0485) O Clichê do Clichê (8.10.2004)




A TV recorre o tempo todo ao clichê-do-clichê, ao xerox-da-xerox, ao recurso narrativo tão surrado e tão freqüente que acaba sendo a primeira idéia a vir à mente do autor.

Cuidado com a primeira idéia, meus camaradinhas. Geralmente, é a pior de todas. Ela chegou primeiro à sua mente porque você já viu cinqüenta cópias dela, e todas estão doidas para sair, tomar um pouco de ar fresco, visitar mentes alheias.

Na cultura-de-massas é assim: os autores copiam uns aos outros por comodismo, por medo de serem originais e não serem compreendidos, por pressa, por mera burrice, ou apenas porque viram aquilo muitas vezes e ficaram achando que “é o jeito certo de fazer”.

Dias atrás liguei a TV numa dessas novelas “de época” passadas no interior. Uma estradinha deserta, no meio do mato, e lá vem um sujeito a cavalo, cheio de alforjes ou caçuás. Ele está indo na direção de uma fazenda, e é um violeiro.

O que é que o roteirista e o diretor fazem para mostrar que é um violeiro, um tipo alegre, folgazão? Fazem o sujeito vir sorridente, encarapitando-se a custo na sela (e nota-se que o mais perto que o ator já chegou de um cavalo foi assistindo uma corrida no Jóquei Clube), dedilhando a viola, e cantando a plenos pulmões pelo mato afora.

Olhe, eu estou com esta idade e ainda hoje estou para conhecer um sujeito que toque viola ou violão, e que se disponha a cantar e tocar enquanto cavalga sozinho no meio das brenhas. Não existe. Não é plausível. E (pior de tudo) não é dramaturgicamente interessante.

Outro exemplo. Em cinema e TV, quando querem mostrar que um cara está bêbado, fazem-no beber na boca da garrafa. Meu amigo! Se tem uma coisa em que eu sou PhD é em bêbado. Entendo mais de bêbado do que de mim mesmo, e posso afiançar a todos os roteiristas de Hollywood e da Globo: em um milhão de bêbados você talvez ache um que beba na garrafa, que é pior de segurar do que um copo.

É a mesma coisa quando um soldado-de-polícia numa peça teatral nordestina chega num bar para prender um desordeiro. No teatro, ele diz o chavão clássico: “Teje preso!” Rapaz, eu nunca vi soldado dizer isso. O que ele diz é: “Bora lá fora, rapaz.”

O clichê não é questionado porque quem cria as histórias parte do princípio de que o público já viu aquilo, e quando vir de novo, reconhece sem problemas.

Pouco importa se é uma simplificação mal-feita, se é uma bobagem, se é um preconceito. O clichê nos dispensa do esforço de criar, assim como um preconceito serve justamente para não discutirmos um assunto.

Um diretor estrangeiro comentou certa vez que há três tipos de cena que o cinema brasileiro faz mal: cena de bêbado, cena de briga e cena de sexo. Talvez porque sejam três situações em que existe uma enorme massa acumulada de clichês. Diretor e atores, para se livrarem do drama de ter que criar, desistem de recorrer a si próprios e a sua própria vivência, e seguem o caminho mais fácil: copiar a cópia.




sexta-feira, 1 de agosto de 2008

0484) O Homem do Fuzil (7.10.2004)



 (Agatha Christie)

Toda criança tem um amigo imaginário; vai ver que todas têm também um inimigo imaginário. Agatha Christie conta em suas memórias que um dos seus pesadelos mais constantes durante a infância envolvia um personagem que ela chamava O Homem do Fuzil. Era uma espécie de soldado francês, com chapéu de tricórnio e um mosquetão antiquado ao ombro. Aparecia nos momentos mais inesperados: quando a família estava reunida para o chá, ou quando as crianças brincavam no jardim. De repente, a pequena Agatha começava a sentir uma inquietação crescente. Olhava em volta, e acabava vendo-o sentado à mesa, ou caminhando na direção delas, na praia. Ele se aproximava, com os olhos fixos nela, e eram olhos de um azul muito pálido. Ela acordava gritando; “O Homem do Fuzil! O Homem do Fuzil!” Ela não temia que o homem disparasse o fuzil, que era apenas uma parte de sua indumentária, como o chapéu ou as botas. Era a simples presença dele, e seu olhar cruel, que a amedrontava.


Com o passar dos anos, o pesadelo foi se sofisticando, e o Homem do Fuzil passou a fazer aparições mais sutis. Diz ela: “Algumas vezes estávamos sentados ao redor de uma mesa de chá, eu olhava para um amigo ou para um membro da minha família e, de repente, tinha consciência de que não era Dorothy, ou Phyllis, ou Monty, ou minha mãe, ou qualquer outra pessoa. Nesse rosto familiar, os pálidos olhos azuis encontravam-se com os meus. Era o Homem do Fuzil.”


É um pesadelo notável para uma garota de cinco anos, mas é mais notável ainda quando refletimos em quem essa garota se tornou. Agatha Christie está entre os autores que melhor exploraram um tipo de história que os analistas do romance policial chamam de “cozy mystery” (“mistério aconchegante”), ou de “country house murders”. São histórias geralmente ambientadas numa casa de campo (ou mais raramente casa de praia) onde um grupo de pessoas amigas se reúne para passar um feriado ou fim-de-semana, e ali, no meio daquele ambiente tranqüilo, acaba acontecendo um assassinato.


O “cozy mystery” é tipicamente a descrição de como a harmonia num círculo de pessoas amigas, ou numa família, é rompida subitamente por um crime brutal. Segue-se uma investigação, no curso da qual o detetive (geralmente Hercule Poirot) começa a desvendar segredos, conflitos, ódios reprimidos, ressentimentos acumulados, e começa a perceber que todo mundo ali poderia ter motivo para matar a vítima. Ele vai reunindo as pistas, confrontando os depoimentos, e o livro culmina com uma sessão em que todos os suspeitos são reunidos numa sala, com a presença da polícia. Ali, Poirot faz uma reconstituição de como o crime foi cometido, elimina de um em um os suspeitos, até que o funil vai-se estreitando, e ele aponta o verdadeiro criminoso. Porque mesmo num ambiente de aparente harmonia um parente nosso, ou um amigo da família, de quem menos se suspeitava, pode ser O Homem do Fuzil. 




(Este texto está incluído no livro A Arte de Olhar Diferente, São Paulo, Editora Hedra, 2012.)




0483) O jipe abandonado (6.10.2004)



Sempre que me detenho a pensar sobre os mistérios do funcionamento da mente humana (ou seja, umas dez vezes por dia) me vêm à mente dois extremos. Um deles é a denúncia desesperada de Raul Seixas, de que só usamos dez por cento de nossa cabeça animal. Coitado de Raul, que danou-se a tomar tudo quanto lhe aparecia pela frente, pensando que estava a desbravar os noventa por cento restantes, mas estava de fato era bombardeando os dez que tinha. O outro extremo é o otimismo sem limites de Colin Wilson, cujos personagens lêem um livro do filósofo Husserl e ganham um tal nível de consciência dos próprios poderes que são capazes de fazer a Lua girar usando a força mental (não, não estou exagerando, leiam Parasitas da Mente).

O que me vem à lembrança nessas horas é um episódio que li certa vez numa revista. Um grupo de antropólogos estava estudando uma tribo africana. Depois de encerrados os estudos (ou talvez, mais realistamente, depois de consumida a verba do Governo), voltaram para casa e deixaram nas proximidades da tribo um jipe velho que não valia a pena trazer de volta. Mal os cientistas partiram, a tribo apossou-se festivamente do veículo, que para eles era um símbolo dos poderes mágicos do homem branco.

Acostumados a ver o jipe indo e voltando, os índios fizeram de tudo para pô-lo em funcionamento, tentando repetir os gestos que tinham visto os brancos fazendo. Sem sucesso, claro; o motor estava batido, o tanque vazio. Depois de muito tentarem, um pajé mais prático sugeriu puxarem o jipe com uma junta de bois, o que foi feito. Daí em diante, em todas as ocasiões festivas o cacique, o pajé e seus assessores se empoleiravam no jipe, e a junta de bois dava dez voltas com ele em torno das cabanas, sob os aplausos da tribo inteira.

Tudo muito bem, mas eles sabiam que faltava alguma coisa. O jipe estava muito pesado e exigia muito dos bois, porque, misteriosamente, as rodas estavam emperradas, e se recusavam a girar como faziam antes. Vai daí que um belo dia, quando o passeio festivo estava se cumprindo, um índio mais curioso começou a mexer na alavanca do freio-de-mão, e de repente – Shazam! Abracadabra! As rodas foram liberadas, giraram com facilidade, o jipe ficou levíssimo e veloz. O descobridor deve ter sido promovido a cacique, ou no mínimo a Ministro Chefe da Casa Civil. E daí em diante o jipe não parou mais de circular.

Pois é assim nossa relação com a mente. De vez em quando descobrimos algo que parece, por fim, nos dar acesso a todas as suas possibilidades. Não importa o quê: hipnotismo, meditação, LSD, implantes cibernéticos, Método Silva de Controle Mental, cientologia, Prozac, não importa. Acreditamos ter finalmente transposto o umbral das portas da percepção, acreditamos ter-nos tornado, por fim, iguais aos deuses. Mas estamos tão iludidos quanto os nossos aborígines rebocando um jipe que nunca vai funcionar direito.