sexta-feira, 1 de agosto de 2008

0484) O Homem do Fuzil (7.10.2004)



 (Agatha Christie)

Toda criança tem um amigo imaginário; vai ver que todas têm também um inimigo imaginário. Agatha Christie conta em suas memórias que um dos seus pesadelos mais constantes durante a infância envolvia um personagem que ela chamava O Homem do Fuzil. Era uma espécie de soldado francês, com chapéu de tricórnio e um mosquetão antiquado ao ombro. Aparecia nos momentos mais inesperados: quando a família estava reunida para o chá, ou quando as crianças brincavam no jardim. De repente, a pequena Agatha começava a sentir uma inquietação crescente. Olhava em volta, e acabava vendo-o sentado à mesa, ou caminhando na direção delas, na praia. Ele se aproximava, com os olhos fixos nela, e eram olhos de um azul muito pálido. Ela acordava gritando; “O Homem do Fuzil! O Homem do Fuzil!” Ela não temia que o homem disparasse o fuzil, que era apenas uma parte de sua indumentária, como o chapéu ou as botas. Era a simples presença dele, e seu olhar cruel, que a amedrontava.


Com o passar dos anos, o pesadelo foi se sofisticando, e o Homem do Fuzil passou a fazer aparições mais sutis. Diz ela: “Algumas vezes estávamos sentados ao redor de uma mesa de chá, eu olhava para um amigo ou para um membro da minha família e, de repente, tinha consciência de que não era Dorothy, ou Phyllis, ou Monty, ou minha mãe, ou qualquer outra pessoa. Nesse rosto familiar, os pálidos olhos azuis encontravam-se com os meus. Era o Homem do Fuzil.”


É um pesadelo notável para uma garota de cinco anos, mas é mais notável ainda quando refletimos em quem essa garota se tornou. Agatha Christie está entre os autores que melhor exploraram um tipo de história que os analistas do romance policial chamam de “cozy mystery” (“mistério aconchegante”), ou de “country house murders”. São histórias geralmente ambientadas numa casa de campo (ou mais raramente casa de praia) onde um grupo de pessoas amigas se reúne para passar um feriado ou fim-de-semana, e ali, no meio daquele ambiente tranqüilo, acaba acontecendo um assassinato.


O “cozy mystery” é tipicamente a descrição de como a harmonia num círculo de pessoas amigas, ou numa família, é rompida subitamente por um crime brutal. Segue-se uma investigação, no curso da qual o detetive (geralmente Hercule Poirot) começa a desvendar segredos, conflitos, ódios reprimidos, ressentimentos acumulados, e começa a perceber que todo mundo ali poderia ter motivo para matar a vítima. Ele vai reunindo as pistas, confrontando os depoimentos, e o livro culmina com uma sessão em que todos os suspeitos são reunidos numa sala, com a presença da polícia. Ali, Poirot faz uma reconstituição de como o crime foi cometido, elimina de um em um os suspeitos, até que o funil vai-se estreitando, e ele aponta o verdadeiro criminoso. Porque mesmo num ambiente de aparente harmonia um parente nosso, ou um amigo da família, de quem menos se suspeitava, pode ser O Homem do Fuzil. 




(Este texto está incluído no livro A Arte de Olhar Diferente, São Paulo, Editora Hedra, 2012.)




0483) O jipe abandonado (6.10.2004)



Sempre que me detenho a pensar sobre os mistérios do funcionamento da mente humana (ou seja, umas dez vezes por dia) me vêm à mente dois extremos. Um deles é a denúncia desesperada de Raul Seixas, de que só usamos dez por cento de nossa cabeça animal. Coitado de Raul, que danou-se a tomar tudo quanto lhe aparecia pela frente, pensando que estava a desbravar os noventa por cento restantes, mas estava de fato era bombardeando os dez que tinha. O outro extremo é o otimismo sem limites de Colin Wilson, cujos personagens lêem um livro do filósofo Husserl e ganham um tal nível de consciência dos próprios poderes que são capazes de fazer a Lua girar usando a força mental (não, não estou exagerando, leiam Parasitas da Mente).

O que me vem à lembrança nessas horas é um episódio que li certa vez numa revista. Um grupo de antropólogos estava estudando uma tribo africana. Depois de encerrados os estudos (ou talvez, mais realistamente, depois de consumida a verba do Governo), voltaram para casa e deixaram nas proximidades da tribo um jipe velho que não valia a pena trazer de volta. Mal os cientistas partiram, a tribo apossou-se festivamente do veículo, que para eles era um símbolo dos poderes mágicos do homem branco.

Acostumados a ver o jipe indo e voltando, os índios fizeram de tudo para pô-lo em funcionamento, tentando repetir os gestos que tinham visto os brancos fazendo. Sem sucesso, claro; o motor estava batido, o tanque vazio. Depois de muito tentarem, um pajé mais prático sugeriu puxarem o jipe com uma junta de bois, o que foi feito. Daí em diante, em todas as ocasiões festivas o cacique, o pajé e seus assessores se empoleiravam no jipe, e a junta de bois dava dez voltas com ele em torno das cabanas, sob os aplausos da tribo inteira.

Tudo muito bem, mas eles sabiam que faltava alguma coisa. O jipe estava muito pesado e exigia muito dos bois, porque, misteriosamente, as rodas estavam emperradas, e se recusavam a girar como faziam antes. Vai daí que um belo dia, quando o passeio festivo estava se cumprindo, um índio mais curioso começou a mexer na alavanca do freio-de-mão, e de repente – Shazam! Abracadabra! As rodas foram liberadas, giraram com facilidade, o jipe ficou levíssimo e veloz. O descobridor deve ter sido promovido a cacique, ou no mínimo a Ministro Chefe da Casa Civil. E daí em diante o jipe não parou mais de circular.

Pois é assim nossa relação com a mente. De vez em quando descobrimos algo que parece, por fim, nos dar acesso a todas as suas possibilidades. Não importa o quê: hipnotismo, meditação, LSD, implantes cibernéticos, Método Silva de Controle Mental, cientologia, Prozac, não importa. Acreditamos ter finalmente transposto o umbral das portas da percepção, acreditamos ter-nos tornado, por fim, iguais aos deuses. Mas estamos tão iludidos quanto os nossos aborígines rebocando um jipe que nunca vai funcionar direito.

0482) Lições de abismo (5.10.2004)




(ilustração para Viagem ao Centro da Terra)


Há um episódio na Viagem ao Centro da Terra de Julio Verne que me pareceu enigmático quando o li pela primeira vez aos 12 anos. 

Neste livro, o Prof. Lidenbrock e seu sobrinho Axel encontram um velho pergaminho onde está indicada uma passagem para o centro da Terra, através de um vulcão extinto na Islândia. Os dois empreendem a viagem, no capítulo 8 passam por Copenhague, e ao passear pela cidade o Professor percebe o campanário da igreja de Vor-Frelsers-Kirk. Resolvem subir até o alto. 

Primeiro sobem uma escada em caracol interna, depois passam para outra escada análoga, que sobe em espiral pelo lado de fora da torre. (Há um belo simbolismo oculto nesta espiral que parte do interior para o exterior, rumo ao alto.)

Chegando lá em cima, Axel está apavorado, tomado pela sensação de vertigem: 

“Abri os olhos. Entrevi por entre o fumo das chaminés as casas deprimidas, como se tivessem ficado esmagadas numa queda. Por cima de nós perpassavam nuvens desgrenhadas, e, pelo efeito de ilusão óptica, pareciam-me imóveis, enquanto o campanário e nós corríamos com vertiginosa rapidez.”

Verne nunca foi um bom prosador ou estilista, mas tinha, como poucos escritores, a intuição da imagem forte, inesperada, misteriosamente inesquecível. Esta torre imóvel que parece ser arrebatada a toda velocidade através do espaço é uma das imagens mais fortes do livro; e ele a complementa fazendo o Prof. Lidenbrock dizer a Axel: 

“Olha, mas olha bem! É necessário tomar lições de abismo!”.

Sempre achei fascinante que um indivíduo que se prepara para mergulhar nas entranhas da terra achasse necessário, como estágio preparatório, subir ao cimo de uma torre altíssima. Há nisso um simbolismo psicológico (subir às alturas é um modo de mergulhar nas profundezas do Inconsciente), mas há também um dos traços que fizeram de Julio Verne o autor de obras fundadoras, obras que alteraram nossa relação física e mental com o mundo. 

Num artigo de 1906, Anatole Le Braz dizia: 

“Verne nos trouxe a poesia do espaço, o frêmito do infinito. Comparemos o mundo sem limites a que ele nos conduz com o mundo que nos é pintado pelos romances habituais. No romance moderno predomina o ar da sala-de-visitas, do quarto, da alcova; é um ar abafado. No romance de Verne, é o ar livre, o ar virgem, o ar que nunca foi respirado. Quando o lemos, sentimos passar através dos nossos pulmões grandes sopros de ar que vêm das profundezas do ilimitado.”

Grande parte da rejeição que algumas pessoas têm à ficção científica deve-se a isto. Há pessoas (e nada tenho contra elas, entendo perfeitamente) que só se sentem à vontade no interior de um ambiente que conhecem, que controlam. Essas pessoas não têm o senso da aventura, nem mesmo sentadas em sua poltrona de leitura. 

A ficção científica nos arrebata para outros espaços, outros tempos, e essas pessoas sofrem de vertigem. Uma vertigem conceitual, que as faz recuar diante das lições de abismo.





0481) Kabul contra 007 (3.10.2004)



O primeiro filme de James Bond que vi foi Moscou contra 007, e fiquei fã. Li todos os livros, vi todos os filmes. Só parei quando, na era Roger Moore, foi ficando cada vez mais inverossímil, ou eu mais realista. Tudo que eu queria na época da Bondlatria era ter 10% daquela auto-confiança, e pegar ao menos uma daquelas mulheres (eu não saberia o que fazer com duas). Jamais imaginei, no entanto, que a vida de um agente secreto de verdade fosse daquele jeito. O próprio cinema já nos mostrava exemplos mais amargos do submundo da espionagem, como O Homem que veio do Frio, e mesmo os que tinham algo hollywoodiano, como Ipcress – Arquivo Confidencial, que revelou ao mundo Michael Caine, estavam a léguas de distância do delírio high-tech e high-society que eram os filmes de 007.

Hoje, vejo nos jornais o desespero inútil dos melhores Serviços Secretos do mundo diante do neo-terrorismo islâmico. Depois do 11 de setembro, li uma entrevista de um alto funcionário da CIA onde ele comentava assim o atentado: “O que me humilha, em primeiro lugar, é que nós não teríamos condições logísticas de praticar um ato como aquele, se quiséssemos. Em segundo lugar, mesmo que tivéssemos as condições, não teríamos a ousadia.” Nos jornais desta semana, vê-se que as condições logísticas até para rastrear os passos da Al-Qaeda são as mais precárias: faltam tradutores confiáveis em árabe, e fala-se em 500 mil horas de gravações sigilosas da Al-Qaeda que não puderam ser transcritas pelo FBI, o qual parece estar mais para Johnny English do que para James Bond.

Antes da invasão do Afeganistão, em 2002, vi um comentário na imprensa que me deu pena. Um figurão de Washington dizia: “Na Guerra Fria contra os soviéticos, era muito fácil encontrar pessoas fluentes em russo e dispostas a espionar os russos nas principais cidades da Europa Oriental. Seriam funcionários públicos, técnicos, etc.; iriam se hospedar em hotéis razoáveis, ou viver em conjuntos habitacionais, enquanto colhiam informações sigilosas. Para espionar o Talibã, contudo, é preciso falar uma meia-dúzia de dialetos árabes, e estar disposto a viver coberto de andrajos, morando numa caverna, comendo bode torrado.” Como os americanos, ainda por cima, não gostam de bode torrado, é fácil sentir o drama.

A espionagem de hoje se parece cada vez menos com um livro de Frederick Forsyth, John Le Carré ou Ken Follett. Depois que a guerrilha islâmica entrou no mapa, ninguém mais quer ser espião. Antigamente, o sujeito se encantava com 007 mas se conformava em ser algo parecido com Ken Philby, o agente duplo britânico que entregou o ouro à URSS e refugiou-se lá. Hoje em dia, Ken Philby está tão irreal quanto Bond ou Napoleon Solo, “o Agente da UNCLE”. Quem quiser ser espião tem que respirar poeira no Triângulo Sunita, beber água com cistosoma nas cisternas afegãs, dormir numa gruta, e pior é que o bode de lá não pega nem uma letra pro do Bananal.

0480) Agatha Christie e o medo (2.10.2004)


(Agatha e seu marido Max no Iraque)

Em sua autobiografia (que é um dos seus melhores livros, se não o melhor de todos) Agatha Christie discute de vez em quando alguns temas ligados à literatura policial, entre eles o do medo. Embora seja mais famosa por seus romances detetivescos (como os que têm como protagonistas Hercule Poirot e Miss Marple), ela escreveu também romances de crime e suspense, impecáveis, dos quais o mais conhecido deve ser O Caso dos Dez Negrinhos. O que há de mais interessante na saudosa Mrs. Christie é que era uma mulher inteligente, intuitiva, perspicaz, mas sem muita sofisticação conceitual. Vendo-a discutir literatura, história da Inglaterra ou a vida de uma dona-de-casa, estamos diante de alguém que pensa com sutileza e originalidade, mas em momento algum transforma isto em linguajar pseudo-filosofante.

Ela relata que, na infância, uma das coisas que mais lhe causavam medo era a brincadeira da “irmã mais velha”, uma irmã fictícia, que ela imaginava ser louca, morar numa gruta, e ser sósia de sua irmã mais velha, Madge. A brincadeira consistia em Madge mudar de voz no meio de uma conversa e dizer: “Agatha, você sabe quem eu sou, não é? Sou Madge. Você não está pensando que eu sou outra pessoa, não é?” A mudança na voz... a mudança no olhar... alguns pequenos gestos... e isto bastava para que Agatha, com cinco anos, tivesse certeza de que não era Madge que estava ali, mas A Irmã Mais Velha. E saía correndo, aos gritos. Depois, comentava ela: “Por que gostava tanto da sensação do medo? Será que habita em nós algo que se rebela contra uma vida com excessiva segurança? Será que é necessária à vida humana a sensação de perigo? Necessitamos instintivamente de algo a combater, a superar, como se fosse uma prova que quiséssemos dar a nós próprios? Se tirássemos o lobo da história de Chapeuzinho Vermelho, alguma criança gostaria dessa história?”

O medo pode vir dessa capacidade de estranhamento, de distanciamento, de olhar algo que nos é familiar e ver naquilo uma presença ameaçadora. Este processo mental é o reverso de outro que busca nos apaziguar, transformar o estranho ou ameaçador no familiar, no que está sob o controle da consciência. Agatha relata também a história divertida de um de seus netos, Matthew, que certa vez ela viu, aos dois anos de idade, descendo uma escada sozinho. Com medo de rolar pelos degraus, ele se agarrava à balaustrada, descia um degrau de cada vez, murmurando baixinho: “Este é Matthew... ele está descendo a escada...” É uma ilustração nota-dez do nosso processo de racionalização, de olhar-de-fora algo arriscado para assumir um mínimo de controle sobre o que ocorre. E ela diz que todas as vezes que precisava participar de eventos públicos, apesar de sua timidez, murmurava para si mesma: “Esta é Agatha... ela é uma escritora famosa... vai dar uma palestra...” E isto a tranquilizava. Um dos nossos maiores medos é o medo daquilo que nossa mente não consegue dominar.

0479) Elites versus Povão (1.10.2004)



(Obama em Berlim, julho 2008)

Elitista é um sujeito que acha que uma nota de dez vale mais do que duas de cinco; populista é o sujeito que acha que é o contrário. Millôr Fernandes disse certa vez que toda a discussão ideológica entre esquerda e direita poderia ser reduzida a uma disputa básica: a Esquerda acha que quem deve governar é a maioria da população, e a Direita acha que quem deve governar é uma minoria. As palavras de Millôr não eram estas, estou parafraseando, mas acho que a idéia era por aí. O pior nesta discussão é que ambas as posições parecem estar certas.

Vejamos a Direita. “O Povo não sabe o que quer. O Povo é uma massa bestializada, uma horda de gente embrutecida, gente reduzida ao egoísmo-de-sobrevivência daqueles a quem sempre foi negado tudo, e que quando têm qualquer vislumbre de possibilidade são capazes de pisar no pescoço da mãe para agarrar-se a essa migalha. O destino das massas poderia ter sido outro, se lhes tivessem sido dadas as devidas chances, mas não foi isto que ocorreu. A população é analfabeta, animalizada, incapaz de entender o mundo em que vive; e só porque é maioria vamos entregar-lhes as rédeas da Cultura e da Civilização? Na-na-ni-na-não!”, dizem os Elitistas. “Quem manda aqui sou eu, que me preparei a vida inteira para isto, e não essa sub-raça.” Como negar que existe lógica por trás deste argumento?

Já a Esquerda pensa o contrário. “Massas animalizadas? Que papo é esse, cara-pálida? O que eu vejo são massas organizadas, conscientes, trabalhadoras. Entrem no lar humilde de um operário e vocês vão ver façanhas espantosas de honestidade e caráter. De previdência, prudência e realismo na administração de bens escassos. De planejamento a longo-prazo, de valorização de conquistas alcançadas como muito suor e muita persistência. Tudo bem, também existe um lumpen-proletariado sem a menor desqualificação: os mendigos, os marginais, os desajustados. O Povo, contudo, é outra conversa. O Povo conhece nosso país muito melhor do que os tecnocratas e os políticos que estão encastelados em suas torres-de-marfim. Qualquer dona-de-casa entende mais de economia do que o Ministro da Fazenda.” Soa familiar?

Os dois discursos nos soam familiares, porque, apesar de não terem a mínima relação com a realidade, são ouvidos o tempo inteiro. São mera retórica de editorial e de palanque. Não são um exame verdadeiro do que são as Elites e o Povo, e do que determina suas ações. “Elite” e “Povo” são noções abstratas que devem ser usadas com muita economia. Botar nelas uma inicial maiúscula e passar a usá-las como nome próprio, tratá-las como se fossem uma pessoa, é um perigo. Nenhum desses conceitos se refere a uma entidade única e de comportamento uniforme. Personalizá-los (“a Elite é egoísta...”, “o Povo é alienado...”) é cobrir com camadas de papo-furado uma imagem que já não é das mais fáceis de enxergar. É pouco científico. Toda vez que eu fizer isto, puxem-me as orelhas.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

0478) As almas crepusculares (30.9.2004)




(estátua de Nathaniel Hawthorne)

Quando um dia eu tiver tempo, ou energia, ou inspiração, vou escrever um livro de 400 páginas dedicado ao estudo de um certo tipo de escritor que denomino “as almas crepusculares”. São aqueles indivíduos silenciosos, introspectivos, com pouco ou nenhum contato com o mundo exterior, que passam a vida inteira mergulhados nos livros ou nas suas próprias meditações, e cuja obra reflete essa condição de alheamento. 

Em geral são sujeitos puritanos, com pouco contato com mulheres. A maioria nunca se casou, vários deles mantiveram-se praticamente virgens até a morte, e outros conseguiram encontrar uma esposa compreensiva o bastante para aceitá-los e manter-se ao lado deles a vida inteira, cuidando deles, sem atrapalhar.

Um deles foi Jorge Luís Borges, um dos sujeitos mais tímidos que a extrovertida cultura argentina já produziu. Sua vida sexual foi menos movimentada do que a de muitos bispos norte-americanos. Morou a vida inteira com a mãe, lendo livros de filosofia e tecendo labirintos mentais. 

Outro desses foi H. P. Lovecraft, o mestre das histórias de terror, que afirmava ser uma alma do século 18 perdida no século 20, e cujo principal contato com o mundo eram as cartas de 20 ou 30 páginas que mandava para os amigos. 

Não devemos esquecer de Nathaniel Hawthorne, mergulhado no coração puritano na Nova Inglaterra, um recluso que disse certa vez: “Me transformei num prisioneiro dentro de um calabouço, e mesmo que a porta estivesse aberta teria medo de sair.” 

Não está muito longe deles o nosso Augusto dos Anjos com seu temperamento sombrio, mergulhado numa vida imaginativa de rara intensidade. Ou Franz Kafka; Cornell Woolrich; J. R. R. Tolkien.

Não estou radicalizando, não afirmo que esses sujeitos nunca tiveram vida social. Estou colocando-os num extremo de uma escala que no extremo oposto tem indivíduos sanguíneos, extrovertidos, saudavelmente animais, intensamente gregários: gente como Hemingway, Neruda, Henry Miller ou Vinicius de Morais. 

Também não digo que estas “almas crepusculares” fossem somente homens: basta pensar em Virginia Woolf ou Emily Dickinson.

Chamo-os “crepusculares” não apenas pelo clima de melancolia e solidão que cercou as suas vidas, mas também porque todos viveram naquela “Twilight Zone” em que realidade e fantasia pouco se distinguem. Todos cultivaram o hábito da introspecção, dos longos dias de solidão meditativa, da leitura e escritura de textos voltados para o seu próprio mundo mental. 

Não foram homens de ação, não foram adeptos de intensas atividades físicas, não cultivaram o prazer sensual, as aventuras amorosas, a variedade de experiências sexuais. Contentaram-se com o celibato, ou com um casamento sisudo e sem surpresas. Pareciam pedir ao mundo físico à sua volta que andasse na ponta dos pés, que não fizesse barulho, que os importunasse o mínimo possível, porque eles se sentiam no umbral de outro mundo, que só eles viam, e onde se sentiam muito mais em casa.




0477) “The Modern Word” (29.9.2004)



Dos saites dedicados à literatura da Web, um dos meus preferidos é o que um americano chamado Allen Ruch, fã de ficção científica e de literatura moderna, criou em 1995 sob o nome de “The Libyrinth”. Ao descobrir a World Wide Web, Ruch (que também se assina com o apelido de The Great Quail, “A Grande Codorna”) percebeu que não existiam, na época, muitos saites voltados para a obra de alguns dos seus escritores preferidos: Garcia Márquez, James Joyce, Jorge Luís Borges... Em vez de acender um cigarro e se queixar da falta de cultura da população internética, Ruch criou um saite para falar justamente destes autores. O nome “The Libyrinth” é uma homenagem ao que ele considera os dois símbolos desse tipo de literatura: a Biblioteca (“Library”) e o Labirinto. O foco recai em autores cuja obra mostra um uso criativo e experimental da linguagem e uma ruptura com as formas tradicionais do realismo literário.

O saite passou a ser patrocinado anos depois; tornou-se um enorme Portal, e adotou o nome “The Modern Word”, sob o qual pode ser encontrado (http://www.TheModernWord.com/themodword.cfm). A chamada “Coleção Principal” consta de 7 saites com uma gigantesca massa de informações sobre 7 autores: “Porta Ludovica” (Umberto Eco), “Macondo” (Garcia Márquez), “O Jardim das Veredas que se Bifurcam” (Borges), “Apmonia” (Samuel Beckett), “A Cabeça de Bronze” (Joyce), “O Castelo” (Kafka) e “Spermatikos Logos” (Thomas Pynchon). Cada um destes saites subdivide-se em numerosas seções, contendo críticas, ensaios acadêmicos, fotos, cronologia, bibliografia, etc.

Quem se interessa por estes autores encontra na “Modern Word” material de leitura para o resto da vida. Há uma equipe que alimenta o saite com novos textos que saem pelo mundo inteiro. Também interessante é a seção denominada “Scriptorium”, onde outros autores merecem páginas específicas, mas de menor extensão. No “Scriptorium” são abordados autores que futuramente poderão ter saites maiores em The Modern Word, os que já têm muito material na Web, e os que ainda não têm uma obra grande o bastante que justifique todo um portal consagrado a ela. Em todo caso, a seleção vai desde alguns dos melhores autores da ficção científica (Philip K. Dick, Stanislaw Lem, J.G. Ballard, etc.) até bons ficcionistas contemporâneos (Kobo Abé, Primo Levi, Robbe-Grillet, Michael Ondaatje, etc.) O leitor mais magnânimo pode conferir no “Scriptorium” minhas modestas contribuições, as páginas que fiz sobre dois de meus escritores favoritos: Raymond Queneau e Georges Perec.

No meio da balbúrdia de bobagens que é a Web, saites onde informação confiável é filtrada e ordenada são uma verdadeira bênção. The Modern Word pode não ser o maior, o mais variado ou o mais erudito dos saites literários, mas é um exemplo de como é possível encontrar, mesmo na Biblioteca de Babel, um belo livro que se lê com prazer até o fim, ou o infinito.

0476) A régua de cada um (28.9.2004)








Sou um consumidor voraz de cultura-de-massas (leia-se: histórias em quadrinhos, filmes, TV, pocket-books). Tenho críticas a fazer a esse tipo de produção, mas também tenho numerosos elogios. E procuro criticar dentro dos pontos de referência da própria cultura-de-massas. Se leio um livro policial mal escrito, eu não digo: “Fulano não escreve tão bem quando Henry James ou Proust”. Digo: “Fulano não escreve tão bem quanto Raymond Chandler.” Para criticar a indústria cultural não é preciso recorrer a Shakespeare ou a Beethoven. Quem faz isso é o pessoal erudito e preconceituoso, que tem medo de se contaminar lendo ou ouvindo essas obras bárbaras, e, como não tem uma visão geral daquilo que está criticando, só consegue criticá-lo utilizando parâmetros que não têm nada a ver. A literatura de cordel, por exemplo, está cheia de folhetos medíocres, mas de nada adianta dizer que são medíocres comparados aos versos de João Cabral; se são medíocres é porque não alcançam o nível de um Delarme Monteiro ou de um Manuel Camilo.

Não acredito que exista em Arte um critério universal do que é Bom, Belo, ou Importante. Não existe, e ponto final. Temos dezenas de critérios diferentes, que podem ser aplicados tanto a um quadro de Van Gogh quanto a um quadrinho de Ziraldo, e que vão se superpondo, uns somando, outros diminuindo, até a gente poder atribuir um valor relativo a cada obra. Dizer que Van Gogh é melhor do que Ziraldo, ou vice-versa, é bobagem. É como dizer que laranja madura é melhor do que calças jeans. Cada artista pertence a numerosas categorias: época, lugar, estilo, técnica, universo temático, etc. Em cada uma delas, seu trabalho pode ser confrontado com o de diferentes pessoas. Comparar Ziraldo e Van Gogh é meio complicado porque os dois só têm em comum o fato de ambos trabalharem com artes visuais. Já uma comparação entre Ziraldo e Jaguar como cartunistas e quadrinhistas, brasileiros, e da mesma geração, é bem mais sensata. Comparar Ziraldo com Ângelo Agostini, quadrinhista brasileiro de cem anos atrás, já fica um pouquinho mais difícil; e assim por diante.

Será que dá para comparar, por exemplo, a obra de Elino Julião com a de Tom Jobim? São brasileiros, são músicos populares, são contemporâneos um do outro... Mas mesmo assim tem algo aí que não me convence. Não são farinha do mesmo saco. Fazem Música Popular Brasileira, mas os departamentos em que trabalham ficam a quilômetros de distância. Dizer que Tom é melhor porque sua música é “mais complexa, mais rica, mais sofisticada” é tão injusto com Elino Julião quanto dizer que este é melhor do que o maestro porque sua música “é mais espontânea, é mais de-raiz, é mais popular”. Músicas diferentes cumprem funções diferentes, e por causa disto públicos diferentes as procuram por motivos diferentes – ou um mesmo público (eu, por exemplo) procura cada um em diferentes momentos. Difícil medir ambos por uma régua só.

0475) O Inseto e a Morena (26.9.2004)




Philip K. Dick (que uma escritora norte-americana chamou “o nosso Jorge Luís Borges”) dedicou boa parte de sua obra a discutir uma questão básica: “O que é humano? O que nos faz humanos? Como distinguir um ser humano de uma máquina?” 

Este último problema gerou livros como Blade Runner, Caçador de Andróides. Dick, que era um intelectual por conta própria, lia extensivamente obras de filosofia, religião e ciência, tentando encontrar um caminho nesse labirinto de conceitos. Seus livros de ficção científica são comentários dessa luta interior que acabou por matá-lo de um derrame aos 54 anos. 

Numa série de ensaios reunidos após sua morte no livro The Dark-Haired Girl (Willimantic: Mark V. Ziesing, 1988), Dick sugere duas imagens (que se repetem ao longo de seus livros) para descrever o Humano e o Não-Humano.

Para ele, Não-Humano é quem é incapaz de compartilhar emoções com um humano. Uma pessoa sem empatia ou sentimentos é igual a um robô, uma máquina. Criaturas assim eram para PKD uma fonte de medo, de ameaça. Seres implacáveis, distantes, máquinas de reflexos condicionados. 

Ele chama a essas criaturas “The Mantis”, o Louva-A-Deus, o inseto sem emoções que agarra e devora os que lhe surgem pela frente. Em seus livros, essas criaturas são os andróides frios e indiferentes; são os agentes das forças de repressão de um país totalitário; são os viciados em drogas. 

Quando você encara um viciado em heroína (dizia Dick) vê que ele tem olhos de inseto. São duas aberturas de vidro fosco, sem calor, sem vida, que olham para você e calculam quanto podem obter vendendo cada peça de roupa que você tem, para comprar droga. Para um viciado, você não existe. Um viciado não tem alma. Não que ele a tenha vendido: mas ele comprou algo que a devorou.

O Humano, para PKD, é A Morena, “the Dark-Haired Girl”. É a figura feminina que encarna o amor, a sensualidade física, a alegria de viver, e a compaixão – no sentido original de “com+passion”, a capacidade de compartilhar emoções e sentimentos alheios. 

Dick projetou essa imagem em muitas das mulheres por quem se apaixonou: Kathy, Jamis, Linda (na juventude), ou Tessa, uma de suas esposas. É uma imagem que ele identifica também nas “Pietàs” da arte cristã: a Virgem que segura ao colo o Cristo retirado da cruz, o princípio feminino eterno que sobrevive à morte do próprio filho. 

Diz Dick: “Cristo pode morrer na cruz, e a raça humana continua; mas se Maria morrer, tudo está acabado.” 

Dick não idealizava gratuitamente as mulheres (ele é especialista, também, em personagens femininas “insetóides”), mas via nessas mulheres especiais, mulheres “de bom coração”, o que a raça humana produziu de melhor.

O mundo fantasmagórico de Dick girava em torno destas figuras. A Coisa com olhos de inseto clicando as mandíbulas e arrastando-se com pernas de metal para nos devorar; e a Morena que (como ele disse de sua ex-esposa Tessa) “era capaz de levar um grilo doente ao veterinário para que o grilo pudesse cantar novamente”.