quinta-feira, 19 de junho de 2008

0418) As palavras andantes (22.7.2004)



Saiu pela editora gaúcha L&PM uma bela reedição do livro As palavras andantes, do uruguaio Eduardo Galeano. É um livro que tenho há anos e nunca tive a intenção de devorar do começo ao fim: é livro para abrir e ler ao acaso. É uma espécie de almanaque, composto de pequenos textos, às vezes com quatro ou cinco linhas apenas, historietas, anedotas poéticas, contos recolhidos ou inventados por Galeano em suas andanças pela América Latina. Contos com títulos que lembram os nossos folhetos de cordel: “História do Lagarto que Devorava suas Esposas”, “História do Homem que queria Engravidar”, “História do Povo da Lua”, “História do Vaqueiro que era uma Onça”...

A comparação com o cordel não é gratuita. Para tornar o livro parecido com um almanaque de cordelista, Galeano encomendou as ilustrações a J. Borges, o grande xilógrafo pernambucano, um dos maiores cordelistas e xilogravadores vivos e em atividade. As ilustrações de Borges, com sua enganadora simplicidade, parecem agarrar os textos de Galeano e elevá-los a um plano mítico, para além do meramente literário. Textos que poderiam ser apenas jocosos, ou românticos, ou sentenciosos, ficam contaminados de magia pela presença dessas xilogravuras de pássaros coroados, esqueletos cercados de morcegos, animais que se entredevoram, serpentes com asas ou com cabeça humana, diabos lutando de peixeira, fotógrafos lambe-lambe, pastores, marceneiros, mosquitos tocando tambor, esferas superpostas de céus cravejados de estrelas.

Galeano é o autor de um dos livros que mais abalaram minha fé na humanidade. As veias abertas da América Latina, que li em 1978 em edição da Paz & Terra, botou abaixo todas as minhas ilusões de que bastaria derrubar a ditadura militar brasileira e todos os nossos problemas estariam resolvidos. OK, OK – nunca acreditei que isso resolveria “todos” os nossos problemas, mas juro que pensei que resolveria os mais graves deles. Ledo engano. Não mudou nada. Como não sou muito dado à aridez das leituras econômicas e geopolíticas, foi preciso a prosa incendiária, visionária e transfiguradora de Galeano para me levar nessa viagem pela exploração dos países latino-americanos. Entendi tudo. A América Latina é um Prometeu atado à rocha, condenado pelos deuses da História a ser devorado vivo pelo abutre da exploração econômica.

Esta minha teoria atual pode ser tão despropositada quanto a anterior; mas onde quero chegar é que se As veias abertas... me dão motivos para achar que o mundo não tem jeito, As palavras andantes me fazem recuperar a fé na América Latina (este “nordeste” do nosso continente) como um organismo mais resistente do que as pulgas que dele se alimentam. Nosso continente é uma pirâmide soterrada, da qual só emerge do chão, como numa história do Barão de Münchausen, uma laje de pedra com uma porta em forma de livro. Basta abri-la... e deuses xilografados voltarão a habitar entre nós.

0417) O Relógio Humano (21.7.2004)



Dando continuidade à série “As Besteiras Mais Originais da Internet”, apresento aos caros leitores o saite “O Relógio Humano”, uma divertida falta-de-ocupação criada por um americano chamado Daniel Craig Giffen, de Portland (Oregon). Craig, como ele gosta de ser chamado, teve a idéia de criar um relógio visual que mostrasse a hora atual, de minuto a minuto. Sua primeira providência foi calcular de quantas imagens iria precisar para mostrar todos os minutos de um dia: o resultado obtido foi 1.440. A tarefa, portanto, era criar imagens que mostrassem a hora em formato digital, em minutos sucessivos: 12:00, 12:01, 12:02, 12:03 e assim por diante.

As primeiras imagens do Relógio Humano foram feitas com o próprio Craig, seus amigos e parentes (além de alguns transeuntes pegados na rua) segurando uma folha de papelão com uns algarismos desenhados a mão e colados com fita adesiva. Mais mambembe, impossível. Essas fotos digitais ficaram arquivadas no saite e foram sendo colocadas no ar de 60 em 60 segundos. Com o passar do tempo, o próprio Craig começou a fazer fotos mais caprichadas para mostrar as horas, e começou a receber colaborações do mundo inteiro.

O requisito para enviar uma colaboração para o Relógio Humano é, basicamente, enviar uma foto digital onde apareça o número com a hora que se quer mostrar, de forma clara. Não adianta seguir a lei do menor esforço: o saite rejeita fotos onde o sujeito se limita a aparecer ao lado do monitor onde aparecem os algarismos em corpo 72. Fotos tiradas ao ar livre, fotos mostrando paisagens típicas (há várias do Brasil), fotos onde os números sejam mostrados de maneira original... estas têm a preferência.

Para que serve isso? Bem, eu pelo menos uso como o meu relógio pessoal enquanto trabalho. Abro uma janela do Internet Explorer com a imagem do Relógio Humano (cujo endereço, a propósito, é: http://www.humanclock.com/ ) e deixo ali. Toda vez que quero saber as horas, dou um Alt+Tab, e olho na janela. Tem as coisas mais inesperadas. Agora mesmo, por exemplo, é 1:35 da manhã, e a foto que aparece na tela é de um casal de Derbyshire (Inglaterra), deitado na cama (de pijama e camisola, ao que tudo indica) segurando folhas de papel com os números rabiscados à mão. Agora é 1:36: aparecem uns caras meio dark, de camisa preta e cabelo pintado, segurando algarismos em estilo gótico e bebendo cerveja; a foto é de Pittsburgh (Pensilvânia). Algumas horas têm até 10 fotos diferentes. Algumas são bem criativas: as horas são criadas com os dedos, ou com biscoitos sobre uma mesa, ou com o número de uma casa, ou com objetos que parecem algarismos... Há fotos de inúmeros países, fotos com crianças, com animais, grupos de amigos dançando... O Relógio Humano de Craig Giffen acabou se transformando num mostruário informal de gente distante dando um alô para pessoas que não conhece. Agora, uma moça mostra os pulsos atados com uma fita adesiva onde se lê: “I love you – 1:42”.

0416) Marlon Brando (20.7.2004)



A morte recente de Marlon Brando tem motivado um dilúvio de textos sobre sua influência sobre os atores, seu egocentrismo, seus grandes momentos. A imagem que guardarei dele é a primeira que me marcou, quando vi, com menos de dez anos, seu rosto ensanguentado atravessando um cais repleto de grevistas carrancudos, na sequência final de Sindicato de Ladrões. Anos depois, reencontrei-o levando uma surra pior ainda em Caçada Humana. Guardei dele a impressão de ser um cara capaz de levar uma surra de dez minutos às mãos de dez sujeitos, e depois voltar ao trabalho como se nada tivesse acontecido.

Brando não deve ter sido flor que se cheire. Ninguém chega a um sucesso como aquele sem iniqüidades, sem pisar pescoços, sem atropelar boas intenções alheias. Um sujeito pode tornar-se rico e famoso sem deixar como efeito colateral um rastro de ressentimentos, ainda que minoritários? Duvido. A “persona” muscular, dominadora, invasiva que Brando projetou nas telas não deixava dúvidas sobre o ser real que havia ali por trás. Sua mente tinha a complexidade de um computador, mas seu movimento ao longo da vida era o de um tanque de guerra.

Lembro um episódio narrado por Stewart Stern, o roteirista de Juventude Transviada, O Americano Feio, etc. Por volta de 1955, Stern envolveu-se num projeto do produtor George Englund para fazer um filme em cooperação com a ONU, mostrando as condições de vida de populações pobres no mundo inteiro. Um projeto megalomaníaco e improvável (“a ONU, colaborando com a Paramount Pictures?”). Brando aderiu ao projeto, e os três embarcaram para Manila. Na véspera da viagem, estavam hospedados no Hotel Plaza, em Nova York, e Stern conta que durante a noite debruçou-se na janela, olhou a neve caindo sobre a cidade, e sentiu o sangue gelar nas veias. Ali estava ele, um roteirista principiante e desconhecido, prestes a assumir a maior responsabilidade de sua vida. “Era um daqueles momentos místicos,” diz ele, “em que as pessoas de 33 anos percebem que têm apenas 14.”

Nesse instante, alguém passou o braço sobre seus ombros: era Brando, que, como se estivesse lendo seus pensamentos, disse: “Você não estaria aqui se não fosse pela nossa vontade. Não estaria aqui, se a gente não precisasse de você. Não estaria aqui, se a gente não acreditasse que você tem valor.” E em seguida sentou no sofá, e passou o resto da noite contando para Stern episódios de sua infância, de sua relação com o pai, com a mãe... Tinha 31 anos, e já era Marlon Brando. Em Manila, havia uma multidão paralisando o aeroporto para vê-lo, e foram precisos seis carros da polícia para tirá-los dali. Stern diz que Brando era capaz de cóleras terríveis: “Na hora de disparar raios e trovões, ele era jupiteriano.” Por outro lado, “é um dos amigos mais leais que se pode ter. Quando você for ao seu aniversário de 60 anos, vai encontrar lá as mesmas pessoas que estavam no de 20 anos, e mais algumas que ele conheceu no percurso.”

0415) O inimigo oculto (18.7.2004)


(Nosferatu, de F. W. Murnau)

A Arte da Narrativa é a arte da elipse, da omissão, da alusão indireta. Não se pode contar tudo, mostrar tudo: é preciso saber escolher o que mostrar. Artistas mais hábeis se dão o luxo de deixar de mostrar justamente o mais importante. No filme O bandido Giuliano, de Francesco Rosi, uma reconstituição da vida do famoso bandoleiro da Sicília, o personagem principal quase não aparece. Tudo é contado de maneira indireta.

Chico Buarque tem uma canção clássica dirigida a um inimigo que não é jamais nomeado: “Apesar de você” (1970). Era a época da ditadura militar, e ninguém tinha dúvida sobre a quem ele se referia: “Hoje você é quem manda, falou-tá-falado, não tem discussão... Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.” O recado político, a ameaça pré-datada tipo “seu sal tá se pisando” era mais do que clara. Com a imprensa, no entanto, o compositor desconversava: “Olha, o ´você´ aí pode ser qualquer pessoa que está nos enchendo o saco: um síndico antipático, um patrão injusto, um pai autoritário...”

Em outra canção de Chico, “Ano Novo” (1967), o poder autoritário era personificado num vago “rei”, que entra na cidade, manda tocar sinos, hastear bandeiras, e quer ver todo mundo contente, “porque é Ano Novo”. Ao não se referir com precisão a um momento político em particular, o poeta transforma sua letra num recado atemporal, sem prazo de validade nem de vencimento. Em vez de dizer quem é o “rei”, o poeta prefere descrever sua gente, que está “vivendo a muque”, e ironiza: “E quem já viu de pé o mesmo velho ovo hoje rica contente, porque é Ano Novo.” Os versos de 1967 poderiam ter sido escritos hoje: “E ao meu amigo que não vê mais graça, todo ano que passa só lhe faz chorar, eu disse: Homem, tenha seu orgulho, não faça barulho, o rei não vai gostar...”

Oculto, o inimigo é mais ameaçador. Uma velha máxima do filme de terror diz que não se deve mostrar o monstro, e sim o medo que ele produz. Outra canção de Chico, “Maninha”, de 1977, diz: “Se lembra da fogueira? Se lembra dos balões? Se lembra dos luares dos sertões?” O poeta dirige-se a uma irmãzinha, e recorda um tempo feliz da infância dos dois: “Se lembra quando toda modinha falava de amor? Pois nunca mais cantei, ó maninha, depois que ele chegou.” A letra é nostálgica, intimista, e tem como uma delicadeza a mais o fato de ter sido gravada por Miúcha, irmã de Chico. Ele insiste na comparação entre passado e presente: “Se lembra do jardim, ó maninha, coberto de flor? Pois hoje só dá erva daninha, no chão que ele pisou.” Quem é “ele”? Provavelmente é o mesmo “você” da outra música. Nunca nomeado, nunca descrito, este inimigo oculto continua poeticamente vivo, rondando o poema por todos os lados, mesmo que pareça ter sumido do mapa político, como o poeta prometia: “Mas não me deixe assim, tão sozinho, a me torturar... Que um dia ele vai embora, maninha, pra nunca mais voltar.”

0414) Dez anos do Tetra (17.7.2004)


(Baggio e Taffarel -- foto de Cláudio Versiani)

A imprensa comemora os dez anos do tetracampeonato que a Seleção conquistou nos EUA em 1994. Em algum lugar daqui de casa tenho guardadas 7 fitas VHS com as 7 partidas com que o Brasil ganhou aquele título. Vi o primeiro jogo (Brasil 2x0 Rússia) na casa de meu irmão Pedro, que o gravou e me deu a fita de presente. Considerei isto um bom augúrio, e passei a gravar todos os jogos seguintes. Deu no que deu – mas a CBF até hoje não reconheceu minha decisiva contribuição àquela conquista.

Torcedor é capaz de qualquer macumba-mental para fazer um time ganhar um jogo, ainda mais com um jejum de 24 anos em Copas do Mundo. Ainda hoje uma parte da crítica torce o nariz para aquele título. A Seleção era defensiva, jogou mal, empatou de 0x0 na final, foi pros pênaltes, e ganhou com um erro do adversário! Uma vitória de Pirro, que a gente só comemorou porque, se não comemorasse, quem iria fazê-lo? Os italianos?

E a Seleção não goleou ninguém, o que é um pecado terrível para a nossa arrogância imperialista. Brasileiro adora humilhar as seleções alheias; faz bem ao nosso complexo de colonizado. Ganhar de 1x0 dos EUA (num jogo mais tenso e mais disputado do que a batalha de Verdun) foi considerado uma afronta ao nosso currículo. A imprensa exige o tempo todo que Brasil ganhe “dando espetáculo”. Eu gosto de espetáculo. Gosto do nosso jeito de jogar, que os ingleses batizaram de “The Beautiful Game”, e minhas Seleções preferidas são as de 1970 e 1982. Mas sempre acho que esse pessoal trocaria todo o “jogo bonito” do mundo por uma boa e velha pelada, desde que a gente no final enfiasse 4 ou 5 na Argentina ou na Alemanha.

Amigos meus que estiveram nessa Copa disseram que não houve um jogo sequer que prestasse, devido ao calor. A diferença de fuso horário e a necessidade de ter platéias acordadas na Europa fêz com que a maior parte das seleções tivesse que jogar no-pingo-do-meio-dia, sob o sol da Califórnia e do Texas. Uma testemunha ocular comentou: “O calor não era só insuportável, era indescritível.” Ninguém jogou bem ali. Nem mesmo nós. Nosso único jogo mais-ou-menos foi o 3x2 na Holanda; e o resto da Copa foi uma sucessão de confrontos entre Criciúmas x Figueirenses (com todo respeito).

Momentos que justificaram a Copa: o segundo tempo de Brasil x Holanda; o passeio que a Bulgária deu na Argentina (2x0); os 5 gols do russo Salenko em Camarões; os gols e a autoconfiança de Romário; o gol que o romeno Hagi fêz na Argentina lá da linha lateral; o gol de Bebeto nos EUA; o gol de Branco; a Bulgária despachando a Alemanha de virada (2x1); a defesa crucial de Taffarel no pênalti de Massaro; as participações da Nigéria, Bulgária e Romênia; as atuações individuais de Taffarel, Márcio Santos, Aldair, Dunga, Mauro Silva, Bebeto e Romário. Não foi uma grande Copa, mas a essas coisas se aplica o que dizia Blake Edwards sobre o sexo: “Quando é bom, é a melhor coisa do mundo, e mesmo quando é ruim ainda é bom pra c***”.

sábado, 14 de junho de 2008

0413) O zen, a foto, a poesia (16.7.2004)





(Blow-Up, de Michelangelo Antonioni)



Existe na cultura oriental uma valorização do Acaso, do Momento, que parece estar ausente não apenas da mentalidade racionalista do Ocidente, mas até mesmo do misticismo ocidental. 

Há dois exemplos que me parecem bem típicos. 

O primeiro é o I-Ching, o oráculo chinês onde moedas são jogadas ao acaso um certo número de vezes; pela combinação de caras e coroas forma-se um desenho de linhas inteiras ou partidas, que expressa o sentido mais profundo daquele momento. 

O segundo exemplo é o do jogo africano dos búzios, e para efeito da presente idéia peço que aceitem a cultura africana como cultura “oriental”, no sentido metafórico de “não-ocidental”, voltada mais para o pensamento mágico do que para o pensamento racionalista. 

A posição em que os búzios caem, quando jogados ao acaso, revela algo sobre a pessoa que faz a consulta. Parece que, em geral, são precisos vários arremessos sucessivos dos búzios para que o “desenho” vá se formando.

A arte da fotografia tem um pouco a ver com isto, porque envolve também a captação de um momento privilegiado. 

Folheando um álbum ou vendo uma exposição de fotos, vemos todo o tempo flagrantes que registram um instante único do tempo. Não me refiro aos flagrantes jornalísticos onde alguém consegue fotografar o choque de dois carros, o tiro disparado contra um presidente. Isto tem o seu valor, mas mais fascinante é o minúsculo evento, de importância apenas cotidiana, flagrado por uma câmara que coincidiu de estar justamente ali naquele lugar e naquele instante.

O reflexo de um out-door no vidro de um carro parado no sinal. Duas nuvens idênticas pousadas sobre duas montanhas contíguas. Pessoas que se cruzam numa rua movimentada formando, sem o saber, um padrão geométrico. Tudo isto são exemplos de fotos que não poderiam ter sido feitas minutos antes ou minutos depois (às vezes, alguns segundos apenas). 

Daí, talvez, o clique-clique incessante dos fotógrafos profissionais quando andam pelo mundo afora. Os instantes mágicos existem. Mas ninguém os veria se não fosse aquela câmara que conseguiu surpreendê-los no único momento possível. 

O próprio fotógrafo, muitas vezes, não tem plena consciência do que registra, e só depois, a ver a foto (como no filme Blow-up) percebe o que seus olhos não haviam percebido.

Mal comparando, é o que acontece com quem escreve poesia. É um ato tão intencional quanto o de fotografar, e é igualmente sujeito ao Acaso. 

Escrever poemas é em grande medida um jogo-de-búzios verbal, onde jogamos palavras ou idéias no papel, e passamos 2 ou 3 minutos a riscar, emendar, substituir, permutar, inverter... 

Cada tentativa nos aproxima de algo que não sabemos o que é, até que, por um desses milhões de milagres de que é feita a criação artística, tudo se encaixa, tudo se engata, e erguemos o olhar da página sabemos que fotografamos naquele momento uma frase que jamais nos ocorreria na véspera ou no dia seguinte.






0412) Parece que é rock (15.7.2004)


A televisão está a anunciar, todos os dias, programas especiais em comemoração aos 50 anos do rock. A data escolhida como nascimento é a da gravação de “That´s all right, Mama” por Elvis Presley, em 1954. Fico pensando se aqui no Brasil terá ocorrido uma comemoração semelhante em 1967 nos 50 anos do samba (“Pelo Telefone” é de 1917) ou em 1996 nos 50 anos do baião (a gravação de “Baião” pelos Quatro Ases e Um Coringa é de 1946, embora o “nascimento” possa ser transferido para 1947, com Luiz Gonzaga gravando “Asa Branca”).

Não pensem que vou discutir aqui se o rock é ou não é um canal para a invasão do imperialismo norte-americano. Se vocês acreditam nisso, ensopem este jornal com gasolina e toquem fogo, porque eu sou um dos contaminados. O rock já me conquistou. Sou portador do vírus roqueiro, e pior ainda, sou portador sintomático, porque já toquei em banda de rock (só que naquele tempo se chamava “conjunto de iê-iê-iê”), já compus uma porção de rocks, e uma guitarra bem tocada me produz o mesmo arrepio de prazer físico e de excitação mental que me vêm de um ponteado de viola nordestina ou da cadência suingada de uma boa roda-de-samba carioca. O rock me serve de inspiração, me serve como um poderoso catalisador de adrenalina. No momento em que escrevo estas linhas, por exemplo, estou ouvindo Madness of the West, um CD dos Allman Brothers que só parece com... com... o Santos de Pelé jogando. Não me ocorre outra comparação.

O jazz é a sutileza e a complexidade da música erudita brotando das mãos de músicos negros, que fizeram a síntese entre o piano europeu, a síncope rítmica e a aventura do improviso. O pop é o prolongamento norte-americano da canção popular européia, desde a opereta até a cançoneta de music-hall. O rock é a eletrificação das formas de música rural brotadas nos próprios EUA: primeiro, o blues dos negros do Mississipi; depois, as canções “country” dos vaqueiros do Oeste, a música “bluegrass” de raiz (com seus vertiginosos solos de banjo e de rabeca), a tradição de música “gospel” das igrejas batistas da população negra urbana.

O imperialismo econômico e cultural existe, sim. São as gravadoras, a imprensa especializada, as rádios e as televisões, que desembarcam em nossa escancarada América Latina para vender seus produtos. O imperialismo vende tudo, transforma tudo em produto. Vocês viram a parafernália de souvenirs que cercou o filme de Mel Gibson sobre a paixão de Cristo? Era pedaço de cruz, prego da cruz... Não, amigos, não condenem uma coisa só porque os vendilhões do Templo estão faturando. Olhem em torno: eles devem estar faturando com vocês também. O rock é o yin-yang da civilização americana, que, boa ou má, é a mais poderosa do nosso tempo, a nossa Roma Imperial. O rock é a pororoca do rural com o urbano, do negro com o branco, do primitivo com o tecnológico. Talvez não seja a melhor música que se faz em nosso século; mas é a mais parecida com ele.


0411) Uma idéia por dia (14.7.2004)




Algumas pessoas me perguntam se dá muito trabalho escrever uma coluna como esta todos os dias; perguntam se não falta assunto. Bem, comparado ao que eu já fiz no Diário da Borborema, esta coluna aqui é moleza. No “DB”, entre 1973 e 77, eu tinha que preencher uma coluna diária (e uma página inteira no domingo) falando somente de Cinema. Agora, eu falo do que bem entendo, e até de muitas coisas que não entendo muito bem.

Em todo caso, ajuda não falta. Uma ajuda prática, ou pelo menos um modelo inspiracional, me vem de um interessante saite: Uma Idéia por Dia – Onde as Idéias são Livres (http://www.idea-a-day.com/). O saite me parece britânico (é um dos problemas na Internet – você percorre um saite de cima a baixo, e ninguém informa em que país ele está situado), criado em agosto de 2000 por David Owen, e tem um conceito muito simples. Todos os dias, o saite propõe uma idéia de ordem prática, sugerida por um leitor. Os assinantes recebem esta idéia num email diário, e podem fazer com ela o que quiserem. As idéias não são registradas. O saite nos dá a possibilidade de receber uma idéia por dia, de sugerir nossas próprias idéias, de contactar o autor de uma determinada idéia, de consultar o arquivo de todas as idéias anteriores.

Hoje, por exemplo, é o Dia 1416, e a idéia proposta (por um leitor chamado “Hugh”) é: “Colocar caixinhas de esmolas junto aos aparelhos de raios-X dos aeroporto. Os passageiros poderão preferir deixar as moedas em seu próprio país do que levá-las consigo”. Eu já perdi exasperantes minutos diante do raio-X, procurando moedas em todos os bolsos da minha roupa, e de bom grado as deixaria para financiar uma causa nobre. Existe algum leitor, aí, que possa botar essa idéia em funcionamento?

O Dia 225 sugere que a polícia das cidades receba poderes para cercar, com cordões de isolamento, áreas de beleza natural (como um arbusto florido num parque) ou de interesse cultural (como um lenço deixado cair pela Rainha da Inglaterra). O Dia 386 sugere a criação de um rádio-despertador conectado às estações meteorológicas, e que possa tocar mais cedo ou mais tarde, de acordo com o tempo que estiver fazendo. O Dia 57 sugere a criação de uma mistura entre agência de namoros e escola de línguas, para marcar encontros entre pessoas de nacionalidades diferentes que tenham atração mútua e queiram aprender outra língua. O Dia 1403 sugere que as óticas façam fotos digitais dos clientes, que avaliarão o visual da nova armação com o auxílio das novas lentes.

Muitas idéias são despropositadas, outras são ingênuas, outras são tão úteis e tão óbvias que a gente se espanta de não ter pensado naquilo antes. Alguém, mais cedo ou mais tarde, vai fazer fortuna com uma idéia que um sujeito teve num momento de inspiração e jogou na Net, sem outro propósito senão o de servir à humanidade (e parecer mais esperto do que todo mundo).

0410) As mil mortes do “Pasquim” (13.7.2004)




Notícias na imprensa informam que “O Pasquim” acaba de morrer de novo. Fiquei um pouco triste, mas deixei passar. O “Pasquim” já acabou tantas vezes que acabei me convencendo de sua imortalidade. Cedo ou tarde ele brota de novo, no lugar onde menos se espera. A cada reencarnação o velho tablóide parece surgir mais diluído, mas não importa. O “Pasquim” é como aquele velho cinema de bairro que na adolescência nos exibiu desde os clássicos europeus até os nossos primeiros filmes pornô. Deixamos de frequentá-lo, mas se for preciso lutaremos até a morte para que ele continue funcionando.

Fica difícil explicar aos mais jovens a importância que teve o “Pasquim” na época em que apareceu, em 1969. Falta o mais importante: fazer entender o contexto histórico. O jornal surgiu na pior fase da censura do governo militar, uma situação difícil de descrever para quem tem menos de 30 anos. Como era em princípio um jornal dedicado a matérias “leves”, sobre cultura, e a textos de humor, surgiu e foi passando. Para quem, como eu, tinha 19 anos, era uma revelação. Foi lá que vi pela primeira vez quadrinhos de Don Martin, cartuns de Saul Steinberg, contos absurdistas do português Santos Fernando. Era possível ver, lado a lado, artigos de Sérgio Augusto sobre jazz e de Sérgio Cabral sobre samba. Líamos a página de Paulo Francis com análises políticas e logo em seguida a página dupla “Underground” onde Luiz Carlos Maciel falava de drogas alucinógenas, comunidades hippies, contracultura e Jimi Hendrix. Reinaldo Jardim escrevia ferozes versos satíricos em redondilha sob o pseudônimo de “Barrabás”, e Millor Fernandes contava suas “Fopos de Esábula” (“O Macorvo e o Caco”, etc.).

O pessoal se queixa às vezes de que eu sou (ou sôo) meio saudosista, de modo que vou pular de vez para o momento presente. O “Pasquim 21”, este que encerra agora sua trajetória, é um vestígio daquela época. Ele cumpriu a função de manter viva uma marca, e de agrupar essas figuras que minha geração aprendeu a admirar. O que precisamos, hoje, é de publicações alternativas que se oponham ao comercialismo e à futilidade com a mesma sem-cerimônia com que o “Pasquim” se opunha à censura e ao autoritarismo.

Os assuntos propostos pelo “Pasquim” de 1969 eram desconhecidos dos jovens daquele tempo, ou porque fossem proibidos pela ditadura militar, ou porque fossem algo que estava começando a surgir no mundo, ou porque eram assuntos (como a filosofia oriental) a que ninguém nunca tinha dado muita importância. Hoje, tudo isso foi absorvido pela indústria cultural. Rock, drogas, radicalismo político, misticismo, permissividade sexual... isso é o que sustenta, hoje, não a imprensa alternativa, mas as redes de TV e as agências de publicidade. Em algum lugar, contudo, um novo pasquim deve estar se preparando pra trazer à luz os assuntos proibidos de nossa época, para nos dar as informações que nem sabemos ainda estarem faltando em nossas vidas.

0409) Os filhos alheios (11.7.2004)



(Eddie Carmel com seus pais - foto de Diane Arbus)

Ver crescer um filho alheio é uma importante lição de vida; às vezes mais educativa do que ver crescerem os nossos. Porque a verdade é que a gente não vê os nossos filhos crescerem. Nossos filhos crescem como as plantas do nosso jardim ou da nossa varanda: ao ritmo de um micromilímetro por dia. Crescem furtivamente como a nossa barba, as nossas unhas, ou a nossa cintura. Estão sempre ali, fazendo barulho, sempre idênticos, e tão imprevisíveis que mesmo as mudanças mais radicais passam despercebidas, porque pensamos que é apenas uma veneta nova que está demorando a passar.

Já os filhos dos outros crescem como os espigões da construção civil. A gente passa um dia numa esquina e lá estão os operários de capacete cor-de-laranja, pipocando suas britadeiras de encontro ao solo, fincando fundações, carregando cimento. Passam-se alguns dias, ou pelo menos é esta a nossa sensação, e quando passamos de novo já tem gente dando polimento nas vidraças da cobertura. Mal nos recuperamos da surpresa e, na vez seguinte, estamos tocando na campainha para visitar um amigo nosso que está morando no vigésimo andar.

Nossos filhos crescem pelo lento processo de aposição de novas e imperceptíveis camadas de vida sobre as camadas anteriores. Só temos noção de que o tempo passou por dentro deles quando ocorre um desses saltos qualitativos que não têm retorno: o primeiro passo, a primeira palavra escrita, a primeira menstruação, a primeira saída-de-casa-a-sós. (Guardo para mim, que sou “gourmet” de detalhes, prazeres mais refinados, como a lembrança do primeiro uso do futuro do subjuntivo, o primeiro livro de Sherlock Holmes, etc.)

O filho alheio, pelo contrário, parece só crescer aos saltos. Num dia, é um bebê que a gente segura no braço para uma foto, na festinha de aniversário. No outro, já é um adolescente magricela, cheio de espinhas. Na vez seguinte é um grandalhão com cavanhaque hip-hop e uma namoradinha que não é de se jogar fora. Sempre que visito amigos meus depois de algum tempo tenho que refrear o irritante clichê de “Fulano cresceu, hem?...” Crianças não sentem prazer em ouvir isto; adolescentes odeiam.. E não quero fazer como uma tia minha, que sempre que me reencontrava (eu já com 40, 45 anos) dizia, assombrada: “Menino, como Braulio tá grande!”.

Filhos alheios crescem aos saltos, como os bairros onde só vamos de vez em quando, ou uma telenovela à qual retornamos depois de alguns meses. Garotos a quem ensinei acordes no violão vêm hoje me presentear seu primeiro CD, fazendo com que eu me sinta vagamente cúmplice (e com um tremendo complexo de inferioridade). Mas o mais danado é você voltar a uma cidade onde já morou, ir a uma festa num bar, ser apresentado a uma moça simpática, dançar com ela, ficar todo animado, e ao encostar no balcão para tomar uma cerveja ouvi-la dizer: “Que legal a gente estar aqui... Mamãe fala tão bem de você!” É, amigos, o tempo não para.