Poucos escritores contemporâneos tiveram uma infância tão
inusitada quanto a do inglês J. G. Ballard. Ele narrou a sua, em forma
romanceada, no livro O Império do Sol,
filmado depois por Steven Spielberg; o ator-menino Christian Bale fez o papel
do escritor.
Menos romanceada, mas igualmente lúcida e bem escrita é a
autobiografia Milagres da Vida – De
Shanghai a Shepperton (Companhia das Letras, trad. Isa Mara Lando), que ele
escreveu quando já estava com o câncer de próstata que o levou em 2009.
Ballard, nascido em 1930, foi menino riquinho em
Shanghai, onde seu pai era alto executivo de uma indústria britânica. A família
morava numa mansão, com dez criados chineses cuidando de tudo, sempre calados,
de olhos baixos. O menino ia para a escola num carro com chofer, vigiado por
uma babá russa, e vendo pelo vidro do carro a miséria e a violência de uma das
maiores cidades do mundo, e que era, diz ele, “90% chinesa e 100%
americanizada”.
(J. G. Ballard)
Os pais eram distantes, envolvidos com trabalho e
recepções sociais. Quando chegou aos dez ou onze anos o garoto Jim montava na
bicicleta e costurava Shanghai inteira em busca de pequenas aventuras. Essa
folga acabou quando os japoneses atacaram a China e ocuparam a cidade. As
famílias européias foram transferidas para o campo de prisioneiros de Lunghua,
instalado num colégio abandonado no subúrbio. Os três anos seguintes ele
transpôs para O Império do Sol, com
algumas liberdades literárias – no romance, o garoto “Jim” não está com os
pais, mas sozinho.
Sentia-me mais à vontade lá do que no número 31 da avenida Amherst. A
prisão, que tanto confina os adultos, oferece possibilidades ilimitadas à
imaginação de um garoto adolescente. No momento em que punha os pés para fora
da cama pela manhã, enquanto minha mãe dormia embaixo do mosquiteiro rasgado e
meu pai tentava fazer um pouco de chá para ela, havia uma centena de
possibilidades à minha espera. (p. 105-106)
(O campo de prisioneiros de Lunghua)
Pode parecer um paradoxo, mas a prisão nivelava pais e
filhos, ao extrair dos pais a maioria dos seus poderes.
Sua função de pais tinha se tornado passiva, em vez de ativa. Eles não
possuíam mais os meios usuais de fazer as coisas acontecerem. (...) Nunca senti
desprezo pelos pais dos bairros pobres, tão impotentes, incapazes de controlar
os filhos. Lembro-me bem dos meus pais no campo, sem ter meios de alertar,
repreender, elogiar ou prometer coisa alguma. (p. 80, 81)
Com o fim da guerra, a família Ballard voltou para a
Inglaterra e Jim teve um choque ao perceber como “seu país” era diferente da
Shanghai heterogênea e vibrante onde ele cresceu. O país estava exaurido pela
guerra, econômica e emocionalmente. Os avós, com quem ele foi morar, pareciam
viver noutro planeta, um planeta taciturno, avaro, mesquinho. Ballard comenta
que em seu livro semi-autobiográfico A
Bondade das Mulheres (1991) registrou como “os ingleses falavam como se tivessem vencido a guerra, mas agiam como
se a tivessem perdido”.
As pessoas de classe média, no fim dos anos 1940 até os anos 1950, viam
a classe trabalhadora quase como se fosse uma espécie humana diferente, e se
protegiam e se isolavam por trás de um complexo sistema de códigos sociais.
(...) Mostrar respeito pelos mais velhos, nunca ficar muito ansioso para fazer
nada, aguentar as dificuldades sem reclamar, ter um comportamento decente para
com os inferiores, submeter-se à tradição, ficar em pé ao ouvir o hino
nacional, oferecer-se para liderar, ser modesto e assim por diante. (...) Tudo
na classe média inglesa girava em torno de códigos de comportamento que
inconscientemente cultivavam uma mentalidade de segunda classe e baixas
expectativas (p. 115)
Ballard entrou numa escola secundária (The Leys) situada
em Cambridge, e registra a importância do cineclube local, onde ele via e revia
a produção européia do pós-guerra: Jean Cocteau, Marcel Carné, Henri-Georges
Clouzot, além de filmes policiais “noir’ norte-americanos. E conta como aos
dezesseis anos descobriu Freud e os surrealistas, que na época, diz ele, eram
ainda considerados como uma piada, nos meios acadêmicos e literários.
Isto o levou a estudar medicina: “Eu tinha interesse pela medicina, que me parecia fazer fronteira com a
psicologia das anormalidades e o surrealismo.” Não é uma trajetória muito habitual na
comunidade dos escritores de FC, que em geral têm um namoro adolescente com a
astronomia, a astronáutica, as engenhocas eletrônicas em geral e as revistas de
aventuras.
Ele passou dois anos estudando anatomia, fisiologia e
patologia; as descrições clínicas e impassíveis da violência corporal (como em Crash, 1973) guardam um pouco dessa
capacidade de ver o corpo humano, vivo ou morto, como uma coisa. Era uma
experiência, diz ele, diferente dos inúmeros cadáveres chineses e japoneses que
vira durante a guerra, principalmente porque em 1949 a maioria dos corpos
dissecados pelos estudantes era de médicos professores, que doavam o cadáver
para o estudo da anatomia.
Embora fossem identificados apenas por números, cada cadáver parecia
ter uma personalidade distinta - a compleição física geral, os ossos do contorno
do rosto aparecendo pela pele, reafirmando sua primazia, e mais as cicatrizes,
as manchas, as anomalias estranhas, como um terceiro mamilo ou dedos extras nos
pés; e ainda vestígios de operações, tatuagens, marcas inexplicáveis – toda a
história de uma vida escrita na pele, principalmente nas mãos e no rosto.
Dissecar o rosto, revelar as camadas de músculos e nervos que geravam as
expressões e as emoções era uma maneira de penetrar na vida pessoal desses
médicos mortos, e quase trazê-los de volta à vida. (p. 132)
Ballard largou os estudos de medicina, trabalhou com
publicidade em Londres, passou a frequentar galerias de arte onde reencontrou a
pintura surrealista, e principalmente a obra de Francis Bacon, que ele
considerava “o maior pintor do mundo no pós-guerra”. Depois, o seu fascínio
pelos aviões o levou a se alistar na RAF Real Força Aérea), que o mandou para
um período de treinamento no Canadá. E ali, no tédio entre os exercícios e a
neve onipresente, ele descobriu pra valer a pulp
fiction de ficção científica nas bancas, e começou a escrever seus próprios
contos.
A sua carreira de escritor deve muito a editores como,
por exemplo, Edward J. Carnell:
Carnell me disse que a ficção científica precisava mudar para continuar
na linha de frente do futuro. Ele me incentivou a não imitar os escritores
americanos, e me concentrar naquilo que eu chamava de “espaço interior”, ou
seja, histórias psicológicas, de um espírito próximo dos surrealistas. Tudo
isso era anátema para os editores americanos, que continuavam a rejeitar minha
ficção. (p. 164)
(Michael Moorcock (de barba) com Ballard)
Ballard publicou numerosos contos na vanguardista New Worlds, editada por seu amigo
Michael Moorcock, e sua obra em romance foi levada por outro amigo, Kingsley
Amis, para a editora Jonathan Cape. Isto certamente o ajudou a se estabelecer
profissionalmente, porque em 1964 sua esposa Mary morreu de uma pneumonia
repentina, e Ballard, aos 36 anos, passou a cuidar sozinho dos três filhos
pequenos.
Já morando no subúrbio de Shepperton (onde fica o famoso
estúdio cinematográfico) ele não casou de novo nem contratou babás, e se
limitava a chamar alguma baby sitter
quando precisava sair à noite. O garoto “Jim” que teve uma infância distanciada
dos pais dedicou-se a dar aos filhos uma presença emocional e um tipo de
liberdade que ele próprio desconhecera.
(Ballard e seus filhos Fay, Bea e Jim)
Acredito que o principal perigo que a morte da mãe apresenta é, na
verdade, um pai ausente ou frio. Se o pai for amoroso e ficar próximo das
crianças, elas vão crescer e florescer. (...) Como era difícil conseguir uma
babá que ficasse durante todo o dia, nós fazíamos tudo juntos – as compras, as
visitas aos amigos, os museus, os passeios, de férias, a lição de casa, a
televisão. Em 1965 fomos até a Grécia, onde ficamos quase dois meses – umas
férias maravilhosas, em que estávamos sempre juntos. (p. 181, 182)
Consegui manter uma produção constante de romances e contos, sobretudo
porque passava a maior parte do tempo em casa. Um conto, ou um capítulo de um
romance, era escrito no intervalo entre passar a ferro a gravata da escola,
servir a salsicha com purê de batatas e assistir Blue Peter. (p.
201)
Ao contrário da maioria dos escritores de FC que convivem
no habitat natural da espécie,
Ballard se sentia mais à vontade conversando com pessoas como o artista
plástico Richard Hamilton, o médico Martin Bax que publicava a revista de
poesia Ambit, o cientista Christopher
Evans, o escultor Eduardo Paolozzi. Um ambiente onde (ele registra) a ficção
científica não era esnobada, pelo contrário: era considerada a melhor
literatura imaginativa dessa época (anos 1960-70).
A obra de Ballard é uma tentativa de cartografar o
absurdo da sua civilização, dos mundos contraditórios e incompatíveis onde ele
cresceu. O esforço para ter uma família unida e alegre corria em paralelo com
uma obra brutal em que (diz ele)
eu estava tentando construir uma lógica imaginativa que conferisse
sentido à morte de Mary, e provasse que o assassinato do presidente Kennedy e
as incontáveis mortes da Segunda Guerra Mundial valeram a pena, ou quem sabe
até tivessem algum significado ainda não descoberto. (p. 185)
Ballard ficou famoso, de início, com um conjunto de
romances da década de 1960 que lhe deram a fama de “escritor apocalíptico”,
descrevendo diversos tipos de Fim do Mundo: The
Wind from Nowhere (1962), The Drowned
World (1962), The Burning World (1964)
e The Crystal World (1966). Eram uma
ficção científica pouco convencional, mas ainda trabalhando com os clichês do
gênero.
A brutalidade urbana nunca foi tão bem fantasiada quanto
na trilogia Crash (1973), Concrete Island (1974) e High Rise (1975). É uma ficção científica sociológica e
antropológica, extrapolando de forma propositalmente bizarra o desumanismo das
grandes cidades e as neuroses que dão sentido à vida de seus habitantes.
Numa entrevista concedida em 2006 a Toby Litt, o autor
dizia:
Eu acho que o fascismo precisa, sim, de um líder. Mas esse líder pode
vir de uma maneira inesperada. No meu livro [Kingdom Come, 2006], eu sugiro que o nosso equivalente ao Führer
vociferante é o apresentador de talk-shows da TV a cabo. O curioso nos Führer e
nos messias é que eles sempre brotam dos lugares mais inesperados – do deserto,
em geral. Mas é claro que os shoppings e os centros comerciais ingleses são um
deserto, por qualquer critério que se aplique. (...) As pessoas estão à caça de
sua verdadeira psicopatologia. Precisam da loucura como uma válvula de escape.
Estão entediadas, querendo quebrar a mobília. Estão como uma tribo de
chimpanzés que cansam de mascar gravetos e decidem ir à caça. Para isso, eles
criam em si mesmo um estado de raiva furiosa, e depois saem para esquartejar os
outros.
("SF Symposium", Rio de Janeiro, 1969: da dir. para a esq., Ballard, Robert Sheckley, Philip Jose Farmer e amigos)
Milagres da Vida
foi o último livro publicado em vida por Ballard, e consegue juntar numa só
imagem o homem discreto, afetuoso, bem humorado, e o escritor distanciado, analítico,
com uma “prosa de medicina legal” (como diz sua filha Fay Ballard), capaz de
dissecar “o estranho, o bizarro e o inesperado” do mundo que superou o
Surrealismo em termos de absurdo.
(duplo auto-retrato de Ballard; Cambridge, 1950)