quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

5034) As minhas vacas (21.2.2024)

 
 


Quando eu tinha doze ou treze anos, na casa em frente à nossa morava um homem que criava duas vacas leiteiras. A casa dele não existe mais, ou melhor, existe no mesmo sentido em que o Maracanã continua existindo no Rio de Janeiro. A estrutura original foi removida, e em seu lugar aplicou-se uma jaqueta arquitetônica, um dente artificial que aproveita a raiz do dente anterior.  
 
Era uma casa larga, de frente para a nossa, mas num nível levemente inferior, porque o Alto Branco é uma colina de inclinação suave, onde tudo desce na direção da Avenida Canal, antes de se reerguer novamente rumo ao centro da cidade. 
 
A poeira do sótão das lembranças me faz às vezes misturar os nomes das famílias que moraram ali, mas ao enfiar a mão no baú da memória o nome que me vem é o de Seu Rodoval. A casa tinha um espaço largo na parte lateral, um beco-coberto, por onde eu e os filhos dele entrávamos para chegar à vacaria, nos fundos. 
 
Ali, tinha um quintal com algumas árvores, com muros baixos e um matagal brabo do lado de fora. E nos fundos da casa havia dois cochos não muito largos onde as duas vacas passavam a maior parte do tempo. Foram poucas as vezes em que me aproximei daqueles seres desmedidos, alienígenas, de corpo maciço e quente, e olhos negros, líquidos, com toda a tristeza e a resignação do mundo. 
 
Eram mansas, e eu ficava brincando com os outros garotos, enquanto algum dos mais velhos pegava a foice, afiava na aresta do degrau de pedra e começava a cortar palma para dar de comer às bichinhas. A palma é um cactáceo (vejam só, eu nessa época já sabia o que era um cactáceo), uma planta achatada e arredondada que serve de alimento ao gado. Como todos os cactos, tem muita fibra, e guarda líquido nos seus internos. A superfície externa tem alguns espinhos pequenos, coisa que a boca da vaca tira de letra. 
 
Zé de Seu Rodoval pegava a foice e ficava fatiando a palma, jogando dentro do cocho ou então estendendo para que a vaca comesse na mão dele. Eu também cheguei a me atrever, peguei um desses pedaços e estendi para a comensal mais próxima. Ela refugou com a cabeça; mas foi para espantar alguma mosca, e então esticou o pescoço e abocanhou prudentemente o pedaço de palma que eu lhe estendia, deixando bem claro que não tinha intenção de arrancar a minha mão resoluta e trêmula. 
 
As vacas eram personagens importantes na economia doméstica da rua, mas não figuravam muito nos meus planos, nem nos planos dos outros meninos, Zé, Boaventura e os mais novos. Nosso negócio era jogar pelada na própria rua, que na época tinha uma extensão de oito ou dez casas e era de terra batida. (Nossa rua só veio a ser calçada pela Prefeitura quando eu já morava fora de Campina, já estava casado e pai.) 




(Rua Estilac Leal, no Alto Branco) 

O jogo de pelada era feito de ponta a ponta da rua e, como sempre, as regras platônicas do futebol eram submetidas ao leito-de-Procusto dos meios de produção da vida real. Por exemplo, de um lado da rua a hipotética “linha lateral” era o mato, e cada bola que um pé puxava de volta dava origem a uma negociação ferrenha, saiu, não saiu. 
 
Do lado oposto era mais tranquilo, porque havia a continuidade dos muros das casas, que eram todas emendadinhas umas nas outras. A bola chutada para aquele lado batia no muro e voltava, então continuava em jogo. 

Quero render minha homenagem (talvez até póstuma) a Zé de Seu Rodoval, que era um cara troncudo, alourado, sardento, com físico de estivador, apesar de naquela época ter menos de vinte anos. Zé não era um craque, mas fez um gol, ali mesmo, em frente às nossas casas, que não esqueci até hoje. 
 
Foi num dia em que ele dominou a bola e partiu para o ataque, foi bloqueado por dois zagueiros adversários – mas nesse instante viu que o goleiro se apavorou e correu para cima deles, na esperança de catar a bola. Zé chutou a bola em diagonal para a linha lateral, ou seja, o muro, onde ela ricocheteou e, numa carambola perfeita, entrou rolando no gol vazio. 
 
Gol mais original do que este, só mesmo o gol de Pedro Beiçola. 
 
Houve uma confusão dentro da pequena área (termo platônico, é claro) quando Pedro Beiçola tentou cabecear, foi empurrado, caiu, a bola bateu lá e cá, e ele, caído quase dentro do gol, estendeu as pernas, prendeu a bola entre os tornozelos, e com um impulso inesperado ergueu as pernas no ar com bola e tudo, e com bola e tudo despencou o corpo para dentro da linha do gol. 
 
Tudo isso aconteceu há cerca de seis décadas, mas serve para mostrar como o futebol é imprevisível, inesgotável, e inesquecível. 
 
Tínhamos a nossa turma, que além de jogar bola gostava de brincar de bandido, de jogar barra-à-bandeira... E lembrei agora do que um dia aconteceu entre Zé e seu irmão Boaventura, que tinha mais ou menos a minha idade. Eles eram uns meninos meio brutos. Eram boa praça mas tinham costume de resolver questão na porrada. E um dia formou-se um alarido na rua, em frente à nossa casa. Minha mãe, que estava na cozinha, foi ao terraço, enxugando as mãos num pano de prato. 
 
Eu estava no quarto lendo, não dei atenção. Ela voltou um tempão depois com a má notícia:  Zé tinha pegado uma briga com Boaventura e deu uma pancada com uma pedra nas costas do irmão, que ficou caído, com suspeita de fratura na coluna vertebral!  Paralisia, pro resto da vida! 
 
Isso me assustou, meti os pés, corri na casa dele para ver, mas não autorizaram, tinham carregado o menino para dentro, a ambulância já tinha sido requisitada. Minha mãe, que vivia um melodrama italiano 24 horas por dia, passou a noite fazendo suas tarefas e suspirando: “Um menino tão bom, tão brincalhão, ficar reduzido a uma cadeira-de-rodas pelo resto da existência!...” 
 
Senti que a ocasião era grave e pedia de mim uma atitude. 
 
Esqueci de dizer que essa fase, dos treze anos, foi a minha fase místico-religiosa. Tudo eu resolvia por meio de rezas e promessas, principalmente os jogos do Treze, que eu assistia no Estádio Presidente Vargas, ou acompanhava pelo rádio da sala, sempre com papel e lápis na mão, para anotar as dezenas (as centenas) de Pai-Nossos, Credos e Ave-Marias que eu prometia a cada ataque do Treze, cada ataque do adversário, cada escanteio, cada falta, cada bola cruzada. 
 
Era uma contabilidade furiosa e muda, porque tudo eu prometia em silêncio, de mim para mim, dez Pai-Nossos, não, quinze! Vinte!  A bola entrava, a bola saía, o placar ia se formando, e no final de tudo eu tinha algumas horas de oração de que me desincumbia de maneira sonambúlica enquanto tomava banho, trocava a roupa, escovava dentes, penteava cabelo, tomava sopa – um murmúrio indistinto como um canto gregoriano, e acelerado como uma narração de jogo por Joselito Lucena da Rádio Borborema. 
 
Habituado a subornar com preces a divindade, resolvi fazer uma promessa para salvar Boaventura do seu destino de paraplégico. Resolvi inovar. Em vez de rezas, fiz uma promessa corajosa: “Para Boaventura ficar bom, prometo ficar um mês SEM LER!”. Formalizei o compromisso com um pelo-sinal e um nome-do-pai, e fui dormir. 
 
Não dormi nada, porque minha consciência cartesiana não deixou. A certa altura, me veio uma pergunta com minha própria voz: “Um mês sem ler? E como vai ser no colégio?!”  Abri o olho no escuro, liguei de novo para Deus e avisei: “Com exceção dos livros do colégio! Tudo bem?”  Deus, como sempre, calou e consentiu. 
 
Meu amigo ficou acamado um tempo, mas a cada dia as notícias eram melhores, ele foi ao hospital, depois voltou, a gente ia visitá-lo, eu ficava conversando no quarto, muito formal, como no tempo em que minha mãe fez cirurgia no Pedro I. Hospital exige gravidade, a gente fica pensando na vida e comendo maçã. 
 
Com uma semana de promessa minha vida tinha se transformado num inferno, porque no meu movelzinho do quarto havia duas ou três pilhas de livros de bolso para ler, era Futurâmica, era Agente Secreto FX-18, era Irving Le Roy... Eu matava a vontade lendo os livros do colégio, até que não aguentei mais. 
 
Convoquei Deus para uma reunião e expliquei: “O senhor deve ter visto que hoje de tarde eu estava lendo a História das Invenções de Hendrik Van Loon e a História da Raça Humana de Henry Thomas. Não são livros do colégio, mas são livros de estudo, certo? Vamos considerar assim: livros de estudo, pode”. 
 
Nunca fui sertanejo, que morre mas não quebra, quebra mas não entorta. Sempre tive esse caráter meio escorregadio, negociador, conciliador, disposto a regatear milagres com Deus desde que fosse para o bem de todos e felicidade geral da nação. 
 
Para encurtar a história, duas semanas depois estava Boaventura lépido e fagueiro correndo atrás da bola, e eu de olheiras fundas sem poder pegar o livro novo de F. Richard-Bessière ou de Bruno Fischer, enganando Deus com a leitura de alguma enciclopédia ou biografia (“livros de estudo”). 
 
E por trás de tudo isto eu chegava ao terraço e via os meninos de Seu Rodoval tangendo e guiando as duas vacas na sua saída eventual para não-sei-o-quê. Ainda hoje não entendo se as vacas são como os cachorros, que todo fim de tarde precisam sair para passear. 
 
E quando eram recolhidas à vacaria eu aparecia novamente ali, para sentir aquele cheiro de palha azeda, aquele cheiro de bosta de vaca que faz bem à saúde, para ver os estremeções da pele com que elas afugentavam algum inseto perfurador, para olhar aqueles olhos cuja expressão eu reencontraria depois nos versos de Caetano Veloso cantados por Maria Bethania, e que eu entendi com profundidade autobiográfica. 
 
Link
https://www.youtube.com/watch?v=shoYZ26Nr6o
 
Eram apenas duas vacas, e nem sequer eram minhas. Tornaram-se minhas porque dos que alisaram com a mão o seu pelo não restam muitos vivos, e me vejo hoje com mais este compromisso, de mantê-las vivas na lembrança de quem bebeu seu leite. 
 
Chamavam-se Estrelinha e Quixabeira. Estrelinha, porque era preta, e tinha a manchinha branca no meio da testa. 
 
Quantas pessoas, neste dia, neste instante, ainda se lembram delas? Meu irmão, minhas irmãs? Os meninos de Seu Luís, os meninos de Fred? Lembro eu, e celebro seus nomes. Não há nada como um nome para ancorar uma lembrança no cais, impedir que ela enfune velas e parta feliz rumo ao lugar para onde todas as lembranças acabam indo, mais cedo ou mais tarde. 

 


 
 






domingo, 18 de fevereiro de 2024

5033) "Anatomia de uma Queda" (18.2.2024)



 
Este filme multi-premiado e muito debatido tem uma porção de qualidades que bastam para justificar esse trelelê todo. Direção (Justine Triet), fotografia, elenco, tudo muito competente, e para mim a prova disto é que comecei a ver o filme às 3 da manhã e só fui dormir quando acabou. Se um filme me prende desta forma, alguma qualidade ele tem. Muitos clássicos e muitos blockbusters já me mandaram para o travesseiro após 15 minutos de teste. 
 
Sandra (Sandra Hüller) e Samuel (Samuel Theis) são um casal de escritores que mora nas montanhas, no interior da França, perto de Grenoble. Ela é acusada de assassinar o marido, que caiu-ou-se-jogou-ou-foi-jogado de um terceiro andar, no chalé isolado em que vivem com o filho, um garoto de 11 que ficou cego após um acidente. 
 
Segue-se uma longa batalha de tribunal, um promotor (Antoine Reinartz) altamente disposto a conseguir uma condenação, uma porção de provas circunstanciais que apontam todas para a culpa de Sandra, e o esforço do seu advogado (que é super na-dele, mas salta aos olhos que é perdidamente apaixonado pela cliente) para tirá-la do buraco.   



(Swann Arlaud, o advogado, e Sandra Hüller, a acusada)


O filho do casal, Daniel (Milo Machado-Graner) é o vértice dessa história toda, e o terror calmo e lúcido do garoto diante dessa ominosa possibilidade (“minha mãe assassinou meu pai”) ajuda a manter toda a narrativa equilibrada sobre esse fio-de-aranha de indecisão. Assassinou? Não assassinou? Essa é a grande questão do filme (há outras, menores, importantes), mas vê-se que desde o princípio (ao que tudo indica) os roteiristas (a própria diretora Triet, com Arthur Harari) decidiram não “bater o martelo”. Não tem resposta final. Eles deixam a interpretação a cargo do público. 
 
Eu tenho um gosto especial por filmes que não dão resposta final, não solucionam o mistério, não carimbam um desfecho dizendo “foi assim, não foi assado”. Por que? Talvez porque quando isso acontece o filme nunca se fecha em nossa mente, a gente leva o filme para casa, dorme com ele, acorda pensando nele... Aos poucos ele vai cedendo lugar a novos acontecimentos, mas sempre que alguma coisa faz barulho aquela luzinha na memória se acende. 



Uma luzinha que se acendeu na minha memória foi Dois São Culpados (“La Glaive et la Balance”, André Cayatte, 1962). Este é um dos mais curiosos filmes de tribunal já feitos. Há um sequestro e assassinato cruel de um garoto. Os dois sequestradores, mascarados, são perseguidos pela polícia e se escondem num farol. A polícia cerca o local, e prende três rapazes que encontra lá dentro (interpretados por Anthony Perkins, Renato Salvatori e Jean-Claude Brialy). 
 
Cada um dos três diz mais ou menos a mesma coisa: “Eu estava aqui no farol, passeando, e de repente apareceram esses dois caras, fugindo de alguém”. Nenhum tem álbi. Todos precisam de grana. O roteiro consegue encaixar bem os detalhes, e cria um ótimo suspense com essa situação inusitada: dois são culpados, um é inocente. Mas qual? 
 
A obra de André Cayatte tem uma porção de filmes de tribunal, e merece uma atenção sob este aspecto: a dificuldade de se saber a verdade quando tudo que temos são testemunhos, impressões pessoais e depoimentos de segunda mão. Como decidir sobre a vida e a morte de uma pessoa, com base no que outras pessoas dizem sobre ela? 
 
Cayatte dirigiu um díptico que nunca assisti, mas parece interessante: Jean-Marc ou La Vie Conjugale (1964) e Françoise ou La Vie Conjugale (1964). Os dois filmes contam a história de um casal sob o ponto de vista do marido (Jacques Charrier) e da esposa (Marie-José Nat). 
 
É sempre isto: a versão de cada um, a narrativa de cada um, a interpretação de cada um. O sistema judiciário ergue as mãos para o céu quando lhe trazem impressões digitais, imagens de câmeras de segurança, mancha de pólvora ou de sangue na mão do suspeito. Sinais mais ou menos inequívocos de que Fulano é culpado. Mas, o que fazer quando não se tem certezas físicas, e é preciso recorrer ao que outras pessoas acham que pode ter acontecido?




Um dos grandes trunfos do roteiro de Anatomia de Uma Queda é seu multi-lingüismo. A esposa é alemã, o marido morto era francês, os dois se comunicam em inglês. Cada palavra pesa. De tempos em tempos o debate se cerra em torno do significado de uma palavra, que o promotor que ouvir de um jeito (como “sedução”) e a testemunha insiste em interpretar de outro. A acusada, Sandra, recebe a determinação de falar em francês, já que o julgamento ocorre na França, mas volta e meia ela pede licença e pula para a língua inglesa para explicar melhor o que sente – e isso bota em atividade os tradutores simultâneos. Quem sai ganhando com a mudança? É golpe? É estratégia? 
 
Acabei me lembrando de um postulado meio radical de George Steiner, citado por Douglas Hofstadter em Le Ton Beau de Marot (1997): 
 
Deste modo, um ser humano pratica um ato de tradução, no pleno sentido da palavra, quando recebe uma mensagem verbal de outro ser humano. (...) Resumindo: no interior de uma língua, ou mesmo entre duas delas, qualquer comunicação humana é sinônimo de tradução. Um estudo da tradução é um estudo da linguagem. (trad. BT) 


 

Neste filme, uma mulher alemã é acusada de matar o marido e tem que se defender em duas línguas estrangeiras, seja o inglês que usava para conversar com ele, seja o francês que é a língua falada pelo juiz, pelo promotor, pela corte em geral. 
 
Para tornar ainda mais movediço esse terreno, tanto ela quanto o marido eram escritores profissionais, inventavam histórias, manipulavam personagens, escreviam coisas que não necessariamente reproduziam seus sentimentos e seus pensamentos. 
 
Um sub-tema acusatório que surge durante o julgamento é o de que ela teria plagiado um livro do marido, livro que ele jogou no lixo por desgosto, mas do qual ela salvou uma idéia “de umas 20 páginas” que desenvolveu mais tarde, criando outra narrativa, um romance de 300 páginas, que foi um sucesso, elogiado pela crítica... E o marido acabou se sentindo prejudicado. Com razão? Sem razão? 



(Antoine Reinartz, o promotor)
 

Anatomia de Uma Queda é um mistério criminal, é um drama de tribunal, é a história do naufrágio de um casamento, mas a costura que une todas estas dinâmicas é a palavra, o modo como se usam as palavras, como elas são cuidadosamente escolhidas para produzir efeitos específicos nas pessoas, e como elas têm que ser exaustivamente analisadas para que alguém possa tomar decisões a partir delas.    
 
Tribunais se fundamentam na palavra, no que é irremediavelmente pronunciado. Vale o que foi dito em voz alta. E gravado em fita magnética. E registrado pelas estenógrafas. Mas (como diz a ré a certa altura) nem sempre o que a gente grita em voz alta numa discussão é a totalidade do que a gente sente. Como diz o bolero: “A gente briga... Diz tanta coisa que não quer dizer...”  O que a gente diz é sintoma do inconsciente, mas o consciente está justamente à procura de um antídoto para isto, está tentando convencer o inconsciente de que ele está errado.  
 
O filme é mais um que mostra como réus e testemunhas se preparam para enfrentar a Corte: sendo interrogados de modo exaustivo pelos próprios advogados, para não serem apanhados de surpresa, para escolherem bem o vocabulário, para evitarem termos que podem servir de “gatilho” para deflagrar uma acusação. 
 
A mescla entre palavra e realidade é mostrada nos trechos em que vemos em flash-back a vítima, Samuel. 

Primeiro, na briga que ele gravou no celular e que é reproduzida para os jurados e o público – só nesse momento a narrativa mostra o marido e a esposa “em carne e osso”, discutindo. No momento da briga física, porém, a imagem volta ao tribunal; ouvimos os baques, as pancadas, mas não temos certeza de quem está batendo em quem, e mais uma vez temos apenas a palavra dela quando diz que o marido, em desespero, estava dando socos no próprio rosto, na própria cabeça. 


 
Depois, é o depoimento do filho, relatando a conversa que teve com o pai no carro, quando o pai lhe aconselhou a ficar preparado para a morte do cão, que era inevitável – e o garoto percebe que era sobre a própria morte que o pai falava. Mas nesta cena ouvimos apenas a voz do garoto. A imagem do pai, em sincronismo labial perfeito, diz o que o garoto nos disse que ele disse. Podemos confiar no garoto?  As “aspas”, as frases atribuídas a outra pessoa, nunca foram tão bem relativizadas como nesta cena. 
 
Acreditar é um ato da vontade, não da razão. Anatomia de Uma Queda mostra que, na ausência de provas físicas, científicas, incontestáveis, temos o direito de acreditar no que nos convém, ou, mais precisamente, no que se harmoniza melhor com as nossas experiências prévias, e com as nossas expectativas futuras. 
 
O filme nos acompanha para casa, após a sessão, e nega a resposta confortável que a maioria dos filmes nos oferece: “Fulano é inocente”, “Fulano é culpado”. Em quantos casos de culpa e inocência, na vida real, temos certeza da verdade? Em quantos casos não acabamos acreditando naquilo em que, para nós, é mais seguro acreditar? 


(Swann Arlaud, a diretora Justine Triet, Sandra Hüller, Milo Machado-Graner)






quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

5032) Há dez mil anos atrás (15.2.2024)




Existe no mundo de hoje uma “Polícia do Idioma” que George Orwell não foi capaz de imaginar quando escreveu a sua distopia 1984, há mais de 70 anos atrás. 
 
É uma polícia – ou melhor dizendo uma milícia, porque eles mesmos resolveram sair prendendo e arrebentando, sem que ninguém os contratasse – que cismou de encontrar erros em tudo que vê pela frente. São as Palmatórias do Mundo, cuja especialidade é castigar quem comete erros. Na verdade, não são fanáticos do acerto, são fanáticos do castigo. 
 
Eu cometo meus erros de português a três por dois, e em geral é por desconhecimento mesmo: eu não sabia que o certo era dizer X e dizia erradamente Y.  Me refiro a erros factuais, indiscutíveis (do meu ponto de vista). Quando me cutucam, corrijo e procuro me lembrar na próxima vez. 
 
Outras vezes são erros que se devem ao que chamamos de pensamento contra-intuitivo. Eu escrevo um errado que me parece certo, e vem uma pessoa e explica que devo escrever um “certo” que ao meu ouvido é errado. Até me esforço, mas não acostumo. Vida que segue. Escrevo como acho melhor. Podem me tirar um ponto na prova. 

O que eu gostaria de comentar agora é um dos termos mais escorregadios da nossa língua, que é o famoso “a’. Nós temos: 
 
1)      O “a” que serve como artigo definido: a porta / a janela / a parede. 

2)      O “a” que serve como preposição: Entreguei o prato a Fulano / minha casa fica a uma quadra do shopping / pergunte isso a minha mãe. 

3)      O “à” com acento grave, indicativo da crase, quando os dois “aa” anteriores se misturam num só: vamos à praia / andar à toa / viagem à França.

4)      E como se não bastasse, temos o “há” do verbo haver, que se pronuncia igual aos três anteriores: escrevi isto há um ano / há muita gente esperando / isto é tudo que há na gaveta. 
 
Uma maioria respeitável da população brasileira, comigo no meio, de vez em quando escorrega ao lidar com esses sósias. 
 
Uma coisa que sempre me incomodou foi redigir frases assim: Gosto de computador, mas também gosto de escrever a mão. Penso logo que esse “a” tem função de artigo. Eu estou escrevendo alguma mão? Mão de quem? Estou desenhando uma mão? Por isso prefiro escrever, para deixar tudo mais claro: Gosto de escrever à mão.  Mesmo que não haja nenhuma razão gramatical para esse acento. 
 
É o mesmo caso da expressão “à distância”: Fiquei observando tudo à distância, sem ser percebido. Tecnicamente falando, esse acento só deveria aparecer se eu estivesse me referindo a uma distância clara, precisa: Observei tudo à distância de vinte metros.  Mas continua parecendo estranha, aos meus olhos e ouvidos, uma frase assim: Não tenho muita simpatia com o ensino a distância. 
 
Transcrevo a explicação (que bate com a minha impressão pessoal) do websaite Língua Brasil, com o respectivo link:
 
https://www.linguabrasil.com.br/nao-tropece-detail.php?id=43
 
--- Tenho certa resistência em grafar ensino a distância, sem o acento grave indicativo de crase, como é comum encontrar nos documentos exarados pelo MEC. Alguns autores classificam tal ocorrência como crase facultativa. Podia comentar? Prof. José T. B. Neto, Umuarama/PR 
 
RESPOSTA – Não está errado o Ministério da Educação. Mas eu, assim como o professor, prefiro usar o acento – nessa e em outras locuções adverbiais femininas que indicam circunstância. O motivo é que a ausência do acento pode deixar o texto ambíguo. Em “ensinar/estudar a distância”, por exemplo, fica-se com a impressão de que é a distância que está sendo ensinada ou estudada. É o mesmo caso de viu a distância, escreveu a distância, curou a distância, fotografe a distância, permanece a distância [= a distância permanece] e assim por diante, que parecem melhor quando craseadas: viu à distância, escreveu à distância, curou à distância, fotografe à distância, permanece à distância. 
 
Em casos assim (vejam como a Língua é uma coisa curiosa) o acento grave não indica a crase – indica apenas que aquele “a” é uma preposição. Intuitivamente, o brasileiro vê o “a” sozinho como artigo (“convidei a comadre Sebastiana”), e quando sente que o “a” é preposição tem o impulso (geralmente equivocado) de mandar um acento grave: “já expliquei isso à você”. 
 
Outro caso que me deixa desconfortável é o de expressões como “há um ano atrás”. A regra básica a respeito disto é que quando é uma coisa situada no passado, usa-se “há”: Comprei este carro há quatro anos.  E quando é uma coisa situada no futuro, usamos “a” (preposição): Vou trocar de carro daqui a dois meses. 
 
Segundo os defensores da pureza da língua, esta regra já basta para esclarecer tudo, e portanto é errado dizer: Comprei este carro há quatro anos atrás. É desnecessário juntar na mesma frase a forma “há” e o termo “atrás” – ambos indicam passado, portanto um dos dois é desnecessário. 
 
Quando me cobram isto, eu digo: “É pleonasmo, é reforço, eu estou reafirmando de maneira inequívoca que é um fato passado; é um exagero normal da linguagem, como dizer ‘vi com os meus próprios olhos’.” 



Neste caso, contudo, me parece que a raiz do problema está na linguagem falada. A linguagem escrita, pela diferença gritante de grafia, nos permite distinguir entre “há” e “a”. Mas na linguagem falada, os dois sons são idênticos. Eu digo em voz alta: Comprei este carro há quatro anos, mas, no momento mesmo em que digo, tenho (até eu, o dizente) a sensação de estar dizendo: Comprei este carro a quatro anos. E aí, para reforçar minha intenção correta, coloco o “atrás”, para que não fique nenhuma dúvida de que me refiro a um fato passado. 
 
Certo? Errado?  O critério de certo-e-errado é essencial para a Língua, e se eu não pensasse assim não quebraria tanto a cabeça tentando acertar. Mas há momentos em que mais importante do que o rigor gramatical é a clareza na informação. A comunicação sem mal-entendidos e sem solavancos. A possibilidade do entendimento imediato sem digressões e sem pausas para explicar um detalhe. 
 
O verbo “haver”, tão simpático, é um verbo danado de irregular. Parece ter sido inventado por M. C. Escher – é cheio de esquinas abruptas, desvios inesperados de som, de grafia e de sentido, e todas as vezes que a gente bota ele na conversa se arrisca a ir parar num beco sem saída. Não e de admirar que o brasileiro, em geral, prefira substituí-lo pelo seu primo-pobre, o verbo “ter” quando lhe veste o sentido. Tem muita gente que faz assim, e se safa. 



(M. C. Escher, "Relativity")
 
 




segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

5031) Uma biblioteca ou uma livraria? (12.2.2024)



 
Uma frase famosa de Jorge Luís Borges diz: “Sempre imaginei o Paraíso como uma espécie de biblioteca”. 
 
Borges tinha a inteligência de repetir de tempos em tempos suas melhores frases, para diferentes públicos e em diferentes contextos, pois sabia que esta é a melhor maneira de dar à frase uma vida longa. 
 
Em todo caso, o texto mais confiável e mais conhecido, no presente caso, é o seu comovente “Poema de los Dones”. Os poemas de Borges são republicados em diferentes livros. Tenho versões deste em El Hacedor (1960) e em El Otro, El Mismo (1969). 





 
No poema, ele diz:
 
Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.
(“Poema de los Dones”, 1955) 
 
Ao poema é atribuída a data de 1955. Ele parece ter sido escrito em função de dois eventos: a cegueira definitiva em que mergulhou o escritor, e a sua nomeação para a Biblioteca Nacional, após a queda do ditador Perón, que tanto perseguiu sua família. Ele se refere assim a este período em suas anotações memorialísticas Perfis
 
A por-tanto-tempo-esperada revolução veio em setembro de 1955. Depois de uma noite de ansiedade e insônia, quase toda a população saiu às ruas, aplaudindo a revolução e gritando o nome de Córdoba, onde a maior parte da luta ocorrera. Estávamos tão empolgados que por algum tempo nem percebemos a chuva que nos encharcava até os ossos. 
(Perfis, Ed. Globo/MEC, 1971, trad. Maria da Glória Bordini, p. 112) 
 
Todos conhecemos essas noites e dias de êxtase cívico, e mesmo o sarcástico Borges experimentou estas felicidades quase infantis de tão sinceras. Talvez seja a isto que ele se refere em seu “Outro Poema dos Dons”, uma espécie de “Gracias a la Vida” em que o poeta agradece as coisas que lhe deram alguma alegria, e diz a certa altura: “Gracias quiero dar... (...) por ciertas vísperas y días de 1955”. 
 
(...) Duas amigas minhas, muito estimadas, Esther Zemboraim de Torres e Victoria Ocampo sonharam com a possibilidade de eu ser indicado para a direção da Biblioteca Nacional. (...) Poucos dias antes, minha mãe e eu andáramos até a biblioteca à noite para dar uma olhada no edifício, mas sentindo-me supersticioso, recusei-me a entrar. “Não antes de conseguir o emprego”, disse. (p. 112-113) 
 

(A antiga B
iblioteca, na Rua México)
 

Borges foi nomeado, exerceu o cargo (na antiga sede da BN, na Rua México), mas já estava cego. Estava no Paraíso e fora dele. Como talvez ocorreu com Dante Alighieri, que encontrou no Paraíso a sua amada Beatriz, mas quem sabe, talvez tivesse preferido encontrá-la aqui mesmo, na prisão carnal. 
 
Não escapou ao autor de O Aleph a ironia dessa dádiva contraditória, o recebimento simultâneo de “oitocentos mil livros e a escuridão”. Ele abre o poema citado dizendo: 
 
Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite
esta declaração da maestria
de Deus, que com magnífica ironia
deu-me a um só tempo os livros e a noite. 
(trad. Josely Vianna Baptista)
 
É típica da serenidade que Borges procurava manter essa expressão “Ninguém rebaixe a lágrima”: esse “a” não é artigo, é preposição (como em “Foi promovido a diretor”). Desmanchado em prosa vulgar, o verso diz: “ninguém apequene, a ponto de transformar em choro, isto que me aconteceu”. 
 
O detalhe interessante é que “biblioteca”, em inglês, é “library”, e como Borges é abundantemente citado em inglês, muita gente entra em contato com essa frase via língua inglesa ou então via o “inglês-traduzido-ao-pé-da-letra”, essa planta daninha que está invadindo a nossa língua brasileira como a algaroba invadiu o Sertão e o eucalipto invadiu a África do Sul. 


Em A Personal Anthology (Grove Press, 1967), a estrofe é traduzida assim:
 
Within my darkness I slowly explore
the hollow half light with hesitant cane,
I who always imagined Paradise
to be a sort of library.
 
E em consequência de tudo isto as pessoas atribuem ao argentino a frase: “Sempre imaginei o Paraíso como uma espécie de livraria”. 
 
E isto produz um espelhamento interessante dessa idéia, porque livraria e biblioteca são duas coisas muito próximas e ao mesmo tempo opostas.Tirando por baixo, a biblioteca é para quem precisa ler livros de graça, e a livraria para quem pode pagar para ler um livro. 



Há uma certa tentação em ver nessa dicotomia uma oposição entre “comercialismo x não-comercialismo”. Sempre que vejo essa transcrição fico imaginando como seria a livraria do Paraíso. Quem estabelece os preços? E qual o critério? Qualidade? O livro de Borges será vendido por mil dólares, e o meu por cinco? 
 
Livraria e Biblioteca não são empresas antagônicas, antes são complementares, e se ajudam mutuamente. O que há de interessante neste deslize tradutório é o fato de alguém – um leitor de Borges, ou jornalista, ou professor, ou cristão sincero – ser capaz de imaginar o Paraíso como um estabelecimento comercial, onde as recompensas espirituais, da indulgência à beatificação, estão sempre disponíveis, mas é preciso antes dar uma passadinha no caixa. 
 
Afinal, é a isto que está se reduzindo a experiência religiosa entre nós. (Resisto a imaginar que a Borges, o rei do duplo sentido, não terá passado despercebido logo este.) 
 

 


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

5030) "O Barão nas Árvores" (9.2.2024)




Ítalo Calvino é um dos grandes fabuladores do nosso tempo, um desmentido vivo àquela falsa dicotomia que opõe os “contadores de histórias” aos “estilistas”, ou a “literatura de enredo” à “literatura de estilo”. Calvino é mestre nas duas. 
 
O Barão nas Árvores (1957) é o segundo livro de uma trilogia que inclui O Visconde Partido ao Meio (1952) e O Cavaleiro Não-Existente (1959). 
 
Este último já comentei aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/05/4938-o-cavaleiro-nao-existente-352023.html
 
O Barão é, nos primeiros parágrafos da história, apenas um garoto, filho da aristocracia rural da Ligúria (noroeste da Itália), que na hora da refeição recusa-se a comer um prato que lhe desagrada, bate-boca com os pais, foge pela janela, pendura-se nos galhos de árvore mais próxima e jura de pés juntos que nunca mais pisará no chão, em sinal de protesto. E o faz. 
 
Cosimo passa a viver de galho em galho, como Tarzan, saltando pelos cipós, dormindo em forquilhas confortáveis. Nos primeiros capítulos, enquanto a família se desespera e tenta negociar, Calvino explica como o rapaz, que é inteligente cheio de recursos, resolve durante os meses seguintes os seus novos problemas de sobrevivência – comida, dormida, higiene, roupas, etc. 




Daí em diante são muitas as aventuras. Um escritor contemporâneo (leitor dos manuais que nos pressionam a “fazer suspense”, “obrigar o leitor a virar páginas com rapidez”, etc.) passaria a inventar situações cada vez mais melodramáticas em que o rapaz estivesse a ponto de ser forçado a botar o pé no chão, mas escapasse por um fio. 
 
As situações até se apresentam – perseguições armadas, lutas contra piratas, amizade com salteadores, invasão do exército francês... Até mesmo um encontro pessoal com Napoleão Bonaparte, o imperador em seu cavalo e Cosimo no seu galho. Mas a essa altura o leitor nem se interessa se ele vai descer ou não. O autor impôs, com seu estilo de narrar, um novo conceito de normalidade. Não queremos saber se Cosimo “vai voltar” ou não. Ele criou uma nova regra para o mundo em que vive. 
 
A história é narrada na primeira pessoa pelo irmão mais novo de Cosimo, o que permite um certo distanciamento muito útil. Quando algum detalhe da história não se encaixa direito, ou quando falta uma explicação, o narrador simplesmente diz: “não sei como aconteceu, há várias versões” – e estamos conversados. 



(ilustração: Yan Nascimbene) 
 

É uma história ambientada na virada do século 18 para o 19 (acompanhando os mais de 60 anos da vida de Cosimo), e tem um formato aparentado aos “contos filosóficos” daquele tempo, semelhança ainda maior quando pensamos que o Barão Cosimo, acima de tudo um estudioso, se corresponde com Voltaire, Rousseau e outros intelectuais da época.
 
Ele se torna, inclusive, autor de um Projeto Constitucional para uma Cidade Republicana, com uma Declaração dos Direitos do Homem, Mulheres, Crianças, Animais Selvagens e Domésticos, incluindo Aves, Peixes e Insetos, e toda a Vegetação, sejam Árvores, Legumes ou Grama. 
 
Calvino, como já falei, é um grande contador de histórias, e indivíduos com esse talento geralmente sabem extrair uma história de cada personagem que lhes passa pelo teatro da mente. Os membros da família de Cosimo Rondò vão sendo apresentados ao longo da narrativa, e cada qual tem sua cena, seu episódio marcante, antes que o narrador retorne à vida do tarzã-da-Ligúria.


 
O argumento do livro lembra um pouco aqueles indivíduos imprevisíveis que um belo dia tomam uma decisão meio gratuita, meio absurda, mas mantêm-se fiéis a ela pelo resto da vida. É o velho pai de “A Terceira Margem do Rio” de Guimarães Rosa, que embarca numa canoa e passa seu resto de vida remando à toa, na água, sem falar com ninguém e sem voltar à terra firme. É o “Wakefield” de Nathanael Hawthorne, que um dia não volta para casa, apenas desaparece, e durante vinte anos fica espreitando de longe a esposa e vendo como ela reage ao seu desaparecimento. É o “Bartleby” de Herman Melville que, do dia para a noite, prefere não fazer nenhuma das tarefas que o patrão lhe atribui, no escritório. 
 
Essas venetas repentinas, que podem parecer sintoma de loucura, correspondem, no seu rigor e na sua gratuidade, a certas “contraintes” (“constrições, limitações auto-impostas”) que um escritor pode impor a si mesmo, e que são um elemento fundamental do pensamento do grupo de que Calvino fez parte, a OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle, “Oficina de Literatura Potencial”). 



(ilustração: Yan Nascimbene) 


Os membros da OuLiPo (Calvino, Georges Perec, Raymond Queneau, Jacques Roubaud, Harry Matthews e outros) consideravam que uma liberdade plena acarreta uma frouxidão plena, e que a criatividade do autor é estimulada e potencializada quando ele impõe para si mesmo uma regra arbitrária, inventada, sem nenhuma razão-de-ser aparente, mas apega-se a ela e procura criar a obra escrupulosamente dentro desses limites. 
 
É o que faz o Barão Cosimo. “Nunca mais pisarei no chão!” – e por mais de cinquenta anos ele vive de galho em galho, ali ele mora, namora, dorme, passeia, trabalha, ajuda a apagar incêndios, ajuda a organizar uma resistência armada durante a guerra. Ali ele estuda e escreve obras filosóficas; e essa limitação auto-imposta torna-se parte de sua personalidade, de sua biografia. A tal ponto que depois de certa altura seria impensável um Cosimo caminhando no chão, pelas alamedas do castelo da família. 
 
Seu universo se reorganiza de forma a ter como centro a folhagem das árvores, as quais felizmente são abundantes naquela região. Mas o narrador, a certa altura, conta como ele, chegando aos limites de suas propriedades, se depara com um espaço vazio, não-arborizado: 
 
Esse descampado, para Cosimo, era uma visão que o enchia de desconforto. Tendo vivido sempre em meio à vegetação espessa de Ombrosa, com a segurança de poder chegar a qualquer lugar seguindo seus próprios caminhos, bastava ao Barão ver diante de si um espaço vazio e intransponível para ser tomado por uma sensação de vertigem.
(The Baron in the Trees, Picador, trad. ing. Archibald Colquhoun, trad. port. BT)
 
Em Viagem ao Centro da Terra, Jules Verne fazia seus personagens, antes de descerem ao mundo subterrâneo, subirem à torre da igreja para tomar “lições de abismo”. A lição de abismo de Cosimo é horizontal. Não haver árvores, para ele, equivale a não haver chão. É um espaço inacessível que lhe causa terror; um não-espaço. 



(ilustração: Yan Nascimbene)
 

O irmão-narrador confessa:
 
Eu acompanho o noticiário, leio livros, mas eles me desnorteiam, o que ele tinha para dizer não se encontra ali, porque ele compreendeu alguma coisa a mais, alguma coisa que abrangia tudo, e ele não conseguia explicar isso com palavras: somente vivendo como vivia. Somente sendo tão autenticamente ele mesmo, como meu irmão o foi até sua morte, ele poderia deixar alguma coisa para todos os homens. 
 
Em seu clássico Cidades Invisíveis, Calvino enumera dezenas de cidades fantásticas e a certa altura sugere que a humanidade sonha com uma espécie de “cidade contínua” onde todas se misturam; algo disso já existe nas grandes metrópoles de hoje, onde espaços de serviços se repetem (aeroportos, supermercados, shopping centers, hotéis, etc.) de tal modo que podemos mudar de cidade sem mudar de ambiente. Cosimo criou para si uma cidade contínua feita de diferentes bosques, diferentes jardins, diferentes matas selvagens, mas seu universo era definido pela existência ou não de árvores. 
 
Para os que entendem inglês, aqui há uma simpática sessão de leitura e debate, em que o ator Richard Gere lê trechos de The Baron in the Trees, e depois debate a obra com Giovanna Calvino, filha do escritor. 
 
https://www.youtube.com/watch?v=BYx5VkYf7eY
 
 
 
 
 
 



terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

5029) As armadilhas da língua (6.2.2024)

 


Rola pela web um meme com trechos de um programa de Sílvio Santos onde as pessoas têm que sugerir letras para completar palavras num painel, e ganhar prêmios. O apresentador pede sugestões, e aí vem um picotado de respostas absurdas, que fazem a platéia gargalhar. 
 
-- L de elefante!...
-- C de Sebastião!...
-- R de ervilha!...
 
E o pessoal rola de rir. Eu também acho graça; no meu caso pelo inesperado da coisa, porque há uma fração de segundo entre o enunciado da letra, em voz alta, e o enunciado da palavra; e a palavra sempre é uma que eu menos esperava. 

Na televisão a gente sempre acha que tudo é combinado, tudo é pegadinha. Mas, supondo que não seja uma encenação combinada... As pessoas devem ser precariamente alfabetizadas. Podemos dar também o desconto do nervosismo. Estar sendo submetido publicamente a um teste, principalmente na TV, é duro. A pessoa sabe que a família inteira está assistindo, a vizinhança inteira, o Sistema Solar. 
 
Guardei por muitos anos uma prova de quando eu tinha 8 ou 9 de idade, prova em que me perguntaram em que dia a América foi descoberta, e em vez do dia 12 coloquei “24 de outubro” – que estava na minha cabeça, talvez, por ser o aniversário do meu pai. E a professora botou “Certo” na minha resposta! 
 
Acho que ela corrigia essas coisas mecanicamente, de noite, depois de tirar a mesa do jantar... Enfim. O analfabetismo não sacrifica apenas os analfabetos, mas desgasta os alfabetizadores. 
 
Mas nas três respostas que coloquei acima, eu percebo um paralelismo. Posso estar “viajando”, mas tenho a sensação de que essas pessoas, quando pensam nas palavras, não pensam em palavras escritas letra-a-letra, pensam em palavras faladas sílaba-a-sílaba.  
 
Esta diferença é uma das distinções essenciais entre a linguagem escrita e a linguagem falada. Talvez seja o hábito de escrever e recitar versos metrificados, mas quando estou falando eu sinto que estou pronunciando sílabas inteiras, nem me lembro que são (em geral) uma combinação de vogais e consoantes. Nem me lembro de como se escreve aquilo. Só lembro na hora de digitar no teclado ou de rabiscar com a caneta.  
 
O homem que diz: “L de elefante” está dizendo algo que corresponde à experiência dele com essa palavra, que pelo visto é apenas uma experiência de ouvir e de dizer. (Pouco importa se ele assina o nome ou não, se é capaz de ler uma placa ou não; o domínio da língua é sempre gradual e se expande aos poucos. E nunca termina.) 
 
Essa palavra é feita de três pequenas explosões sonoras: ele – fan – te. (Note-se que a primeira pequena explosão envolve duas sílabas, e/le, mas na cabeça desse cidadão elas parecem, plausivelmente, estar coladas e serem uma coisa só: ele
 
As letras servem para explicar, num código visual, como deve ser a explosãozinha de cada sílaba. A outra sílaba é FAN? Então temos o “F” para explicar que é preciso tocar o lábio inferior com os incisivos superiores, o “A” para indicar qual é o som básico que a garganta deve modular, e o “N” para indicar que esse som deve ser nasalizado. Três coisas para descrever uma. 

Por este mesmo raciocínio, entendo a pessoa que disse: “C de Sebastião”. E apois?!  Sebastião não começa com “sê”? E “ervilha” não começa com “err”? 




Durante muitos anos li aqui e acolá referências à personagem surrealista “Rrose Sélavy”, criada por Marcel Duchamp e glosada por Robert Desnos. Esse “R” duplo no começo do nome sempre me embatucou, mas debitei na mesma conta que já corria em nome de Sir Andrew Ffoulkes, um dos heróis do romance Pimpinela Escarlate. Excentricidades européias!
 
Só algum tempo depois li uma interpretação que me clareou tudo. O “R” duplo tinha a função de carregar ainda mais a pronúncia, porque o sentido do trocadilho é dizer: “Éros c’est la vie”. Eros é a vida. 
 
Os surrealistas tinham, entre outras qualidades, um senso de humor cortante, e um gozo inesgotável em saborear palavras. Desnos, em Corps et Biens (1930), enumera variações trocadilhescas em torno dessa personagem erótica e viva. E diz a certa altura: “Rrose Sélavy connaît bien le marchand du sel”. Rrose Sélavy conhece bem o vendedor de sal ? Pode ser, mas é desse modo que ele mascara o nome “Marcel Duchamp”. 
 
Uma brincadeira que pode parecer, aos de-fora da Tribo Trocadilhesca, uma perda de tempo, ou um esnobismo intelectualóide. Não é. É o prazer de brincar com as palavras, o mesmo que faz o cantor Xangai gracejar com o nome dos amigos, e em suas conversas referir-se de vez em quando a “Ivanova Vilanildo” ou “Virias Fatal”. 
 
Voltando à ponta da meada: as palavras faladas não são feitas de letras, elas são feitas de sons. Passamos dezenas de milhares de anos usando as palavras como simples sons feitos com a boca e escutados com a zurêia. A escrita só surgiu muito depois – e é limitada, incompleta, depende muito da interpretação do leitor (o que pode ser uma vantagem, às vezes).
 
E a escrita não é uma transcrição da linguagem falada. (Esta seria a “escrita fonética”). É outro conjunto de convenções, que corre em paralelo; procura servir de mapa para a fala, que é o território. Ouvindo meus rockzinhos na adolescência eu ficava besta em ver como os ingleses rimavam “girl” com “world” ou com “pearls”, e mais: como essas grafias nada tinham a ver com o som gutural que essas palavras têm na vida real – na fala.
 
Bob Dylan:
https://www.youtube.com/watch?v=jJ4QrBFVIBM
 
Uma coisa que acho legal no linguajar pop-escrito de hoje em dia, em inglês, é o modo como o pessoal usa números e letras maiúsculas para substituir sílabas.
 
“Nothing Compares 2 U” = Nothing compares to you
“4ever” = forever
“2NE1” = “to anyone”
“INXS” = “in excess”
 
…e por aí vai. O que pode ser visto como a linguagem falada invadindo domínios da linguagem escrita, forçando a existência de novas grafias. Tal como acontece em nossas comunicações online, onde usamos “kd vc”, “tb”, “rs rs rs”, “kkkkkkk”, “pqp”, etc.
 
Isso é escrever certo? É escrever errado? A Gramática condena ou autoriza esse tipo de escrita? Eu acho que não cabe à Gramática condenar nem autorizar: cabe a ela examinar, entender como funciona, descrever seu funcionamento e registrar: “É fato. Está acontecendo.”
 






sábado, 3 de fevereiro de 2024

5028) Christopher Priest, 1943-2024 (3.2.2024)



 
Faleceu neste 2 de fevereiro, aos 80 anos, um dos escritores mais inquietantes da ficção científica e do fantástico na Inglaterra. 
 
Christopher Priest é um autor capaz de desconcertar o público com a mesma eficiência de um David Lynch – são histórias contadas com um profundo senso de realismo, descrevendo ambientes reconhecíveis, pessoas “reais” vivendo situações e emoções “reais”, numa narrativa clássica, que nos conduz com a fluidez de uma novela-das-oito... 
 
E de repente acontece alguma coisa que faz em estilhaços toda aquela realidade aparente e, como nos melhores livros de Philip K. Dick, percebemos que existe uma realidade mais vasta, mais complexa, e geralmente mais ameaçadora por trás daquilo tudo. 


 
Seu livro mais conhecido é talvez The Prestige (1995), porque serviu de base ao ótimo filme de Christopher Nolan, O Grande Truque (2006). Até onde pude investigar, sua literatura continua inédita no Brasil.   
 
Ele não deve ser confundido com seu homônimo norte-americano, roteirista de numerosas séries de quadrinhos (Terminator, Liga da Justiça, etc.), principalmente para a DC Comics. Por outro lado, o Christopher Priest britânico escreveu roteiros para a série Dr. Who e novelizações de filmes, entre eles o eXistenZ (1999) de David Cronenberg. 
 
Um tema recorrente na obra dele é o das realidades mentais paralelas e a possibilidade de cruzar de uma para outras. Em várias histórias (não todas, claro) seus personagens vivem numa espécie de “realidade Escher”, onde tudo é perfeitamente lógico e normal dentro de certos limites, mas, dando-se um passo a mais, a gente está num universo contíguo, onde tudo (o país, a cidade, as pessoas em volta) não são exatamente os mesmos que eram um instante atrás. 


 
Isto é muito visível no romance The Glamour (1985). O título se refere à capacidade que algumas pessoas têm se se tornarem invisíveis, podendo entrar e sair fisicamente de um ambiente sem serem percebidas. Não é uma invisibilidade tecnicamente produzida por meio da física, da óptica, como na FC tradicional (H. G. Wells, etc.).  É uma invisibilidade induzida psicologicamente, como uma espécie de hipnotismo. 
 
Diz uma personagem:
 
Eu dividia um apartamento com duas outras garotas da faculdade. Embora eu me tornasse plenamente visível a elas quando necessário, durante a maior parte daqueles três anos elas simplesmente supunham que eu estava ali por perto, trancada em meu quarto, ausente. Foi a primeira mudança que precisei aceitar, porque através delas aprendi que uma pessoa invisível é simplesmente ignorada, presume-se que ela esteja ali, mas não de modo funcional. Elas me percebiam quando eu precisava, e no restante do tempo agiam como se eu não estivesse ali. (The Glamour, V, III, trad. BT) 
 
Alguém já sugeriu galhofeiramente a criação de um subgênero da ficção científica e do fantástico, as “Histórias do Que-que-tá-contecendo”. São um gênero fascinante porque são uma espécie de caminhada na corda-bamba: um pequeno deslize ou forçação de barra por parte do autor, e o leitor, desorientado, incomodado, acaba fechando o livro e pensando: “Eu não tou entendendo nada, vou é ler outra coisa.” 
 
Isso se dá com os leitores que exigem – e é um direito seu – um lógica constante, uma coerência sólida, na história que está sendo contada; o leitor (principalmente) que gosta de ver num livro uma reprodução do mundo real. E existe o leitor que tem curiosidade por essas quebras-de-realidade, pelo mistério nunca totalmente explicado, pela impossibilidade permanente de fechar-a-conta na explicação de uma narrativa. 
 
The Glamour aborda temas permanentes na obra de Priest: a sugestão mental, a amnésia, as versões conflitantes de um mesmo fato... A invisibilidade, que numa narrativa comum seria fonte inesgotável de aventuras, serve aqui a uma narrativa mais complexa, revelando um mundo organizado de uma maneira que nós, os “caretas”, não suspeitamos. 
 
Foi Nial quem me mostrou como entrar nos bancos, roubar os correios, mas nunca precisávamos do dinheiro. O furto num banco era sempre um desafio, algo feito por diversão, entrando na área dos funcionários à vista de todos, pegando um punhado de notas da gaveta do caixa, misturando-as nas mãos diante dos olhos deles. Às vezes levávamos algumas moedas, uma ou duas notas, só para provar que era possível. Nunca estávamos em silêncio durante esses roubos, conversávamos o tempo todo, às vezes rindo alto ou cantarolando pelo puro prazer de sabermos que ninguém nos via, ninguém nos escutava. (V, V)
 
Os personagens vão penetrando aos poucos nesse submundo dos invisíveis, onde existe todo um jargão técnico para explicar o fenômeno: 
 
O segundo fator de unificação era a nuvem. (...) Cada indivíduo invisível é cercado por uma aura, uma certa densidade de presença, que pode ser detectada por outras pessoas. (...) Os invisíveis pegaram esse vocabulário e o incorporaram ao seu jargão. Todos sabem a respeito da nuvem, e a chamam assim. As pessoas comuns são as carnosas, o mundo real eles chamam de duro. Chamam a si mesmos os glams. Isso faz parte de sua paranóia, defensiva mas gabola: achar que são glamurosos. (V, III)
 
Isso é ficção científica? Eu acho que sim, porque conheço poucos temas mais científicos do que o estudo da mente humana, da percepção humana, do modo como os seres humanos organizam suas percepções sensoriais e as codificam no cérebro de maneira a organizar seu comportamento individual e coletivo.




The Prestige (filmado como O Grande Truque, com Christian Bale e Hugh Jackman) é a história de dois mágicos-de-salão na Inglaterra vitoriana, super bem sucedidos e mortalmente rivais. Priest usa os truques de mágica como um modo de ver as fronteiras da ciência – em que momento um truque deixa de ser truque e se torna uma violação das leis da física. O mago Rupert Angier assim comenta em seu diário:
 
Um mágico, normalmente, revela um efeito que é “impossível”: um piano parece sumir no ar, uma bola de bilhar magicamente se reproduz, uma mulher passa através de um espelho. A platéia, é claro, sabe que o impossível não se tornou possível. (Parte IV, 4-2-1901, trad. BT)
 
O que acontece, então? É o mago Alfred Borden quem explica:
 
Eu aprendi a arte do desvio da atenção, na qual o mágico se vale da experiência cotidiana do espectador para iludir os seus sentidos – a gaiola de metal que parece rígida demais para ser dobrada, a bola que parece grande demais para ficar escondida na manga, a espada cuja lâmina de aço temperado jamais poderia, não é mesmo? jamais poderia se envergar. (I, 3)
 
O livro é uma batalha fascinante entre Angier e Borden, ídolos do público de Londres, batalha de trucagens e talentos que chega ao clímax com um número espetacular onde cada um deles descobre uma maneira de sumir numa extremidade do palco e reaparecer, instantaneamente, na extremidade oposta. O fato de que um deles acaba viajando aos EUA e recorrendo a Nikolas Tesla arrasta a narrativa numa direção inequivocamente de ficção científica.
 
Priest usa a magia, neste livro, quase como um substituto da literatura ou do cinema: um modo de tornar possível o impossível, de tornar presente algo que não existe, de fazer o público ver e ouvir uma coisa que não está lá. Sua visão da profissão de mágico não é muito distante de uma visão do autor de ficção científica: 
 
Um mágico que seja inventivo abraça com entusiasmo qualquer inovação. Qualquer engenhoca, qualquer brinquedo, qualquer invenção que aparece no mundo deve lhe produzir esta reação: “Como posso usar isso para inventar um truque novo?”. (...) E se uma nova mágica original chega a ser produzida, é somente uma questão de tempo até que esse efeito seja reproduzido por outros. (II, VII)
 
Mágica de salão, ciência, literatura, cinema, tudo são ângulos diferentes por onde enxergar uma dualidade fundamental: o Real, que nunca conheceremos, porque nossos sentidos e nosso intelecto e nossos instrumentos são limitados; e as Aparências do Real, que criamos mediante estes sentidos, intelecto e instrumentos.
 
É uma pena saber que Christopher Priest morre sem que nenhum de seus livros tenha sido publicado no Brasil. (Se conhecerem algum, agradeço a correção.) Sua literatura não é fácil – na verdade, quando terminamos de ler um livro dele temos a sensação de que somente agora estamos prontos para lê-lo de verdade. E é uma leitura que sempre vale a pena.
 
Aqui, o website do autor:
https://christopher-priest.co.uk/
 
E aqui, o verbete a seu respeito na “SF Encyclopedia”:
https://sf-encyclopedia.com/entry/priest_christopher