A literatura pode às vezes ser dividida em dois tipos: a literatura quebra-cabeças e a literatura calidoscópio.
sexta-feira, 21 de abril de 2023
4934) O quebra-cabeças e o calidoscópio (21.4.2023)
A literatura pode às vezes ser dividida em dois tipos: a literatura quebra-cabeças e a literatura calidoscópio.
E o que é um calidoscópio?
É um tubo cilíndrico forrado de espelhos por dentro,
colocados num ângulo tal que refletem uns aos outros infinitamente. Se
colocamos um pequeno objeto dentro do tubo (uma bola de gude, p. ex.) e
olharmos pelo visor, esse objeto vai aparecer multiplicado ao infinito nos
reflexos, nos reflexos dos reflexos, e assim por diante.
O passatempo do calidoscópio é colocar ali um elenco
arbitrário de elementos: contas de colar, pedrinhas coloridas, tudo que for
pequeno, leve, visualmente atrativo. A cada olhada pela extremidade do tubo,
essas coisas aleatórias estarão formando uma imagem simétrica – a simetria é
fornecida pelos espelhos.
Num calidoscópio, tudo é aleatório e tudo é simétrico –
uma aparente contradição. E tudo que é simétrico nos provoca uma sensação
agradável.
Vamos trazer para o campo da Literatura.
A “literatura quebra-cabeças” é aquela que parte de uma
resposta pré-existente, uma resposta final que será dada ao leitor (ou descoberta
por ele). Isto acontece com muita frequência, p. ex., na literatura policial, em
que nos defrontamos com um crime misterioso e aparentemente inexplicável, mas
juntamente com o detetive vamos reunindo as peças e descobrindo a resposta.
(Neste tipo de literatura policial, puzzle
e quebra-cabeças são termos de comparação frequentes.)
A “literatura calidoscópio”, pelo contrário, não tem uma
resposta. Ela lida com elementos aleatórios (tudo que a imaginação do autor
puder conceber) e uma certa aparência de ordem, fornecida pela narrativa
sequencial: “Aconteceu isto, e por causa disto aconteceu aquilo, e logo em
seguida esta outra coisa, e depois desta acabou sucedendo outra...”
A narrativa sequencial produz um efeito parecido com o da
simetria no calidoscópio: dá uma impressão de ordem. Uma impressão de causalidade,
mas isto não é obrigatório. A história não tem uma “resposta oculta” da qual
nos aproximamos durante a leitura. Cada página, cada episódio é a resposta a si
mesmo. Não conduz necessariamente a nada. E muitas vezes, quanto mais a gente
avança, mais caótica a história vai ficando.
Num livrinho que publiquei há alguns anos (A Pulp Fiction de Guimarães Rosa, João
Pessoa, Ed. Marca de Fantasia, 2008) fiz esta mesma divisão, argumentando que
estas duas literaturas se baseavam em protocolos
(=acordos implícitos com o leitor) diferentes: o Protocolo da Resposta e o
Protocolo da Pergunta.
O Protocolo da Resposta equivale ao quebra-cabeças: o
autor criou uma resposta final, uma resposta única e indiscutível, mas oculta.
Cabe ao leitor descobrir esta resposta ao longo da leitura.
O Protocolo da Pergunta não tem um objetivo final; cada
passo da narrativa a conduz numa direção diferente; o prazer não está numa
revelação, mas num estado constante de surpresa.
As duas formas de literatura são perfeitamente legítimas.
O quebra-cabeças está muito presente na literatura de mistério detetivesco.
Está na ficção científica hard, onde
há sempre um problema científico que se coloca no começo para ser resolvido no
final. Está em muitas literaturas que procuram ilustrar uma princípio
ideológico qualquer (uma mensagem política, uma mensagem social, etc.),
colocando um problema no início e indicando uma solução inequívoca no final.
Esse tipo de literatura é muito reconfortante, porque
fechamos o livro com a sensação real de que uma tarefa foi cumprida, um
mistério foi esclarecido, um problema complexo foi solucionado. (E mais uma vez
vale a advertência: nada disto tem a ver com a qualidade literária do texto; há
centenas de obras-primas indiscutíveis, e também milhões de livros péssimos,
seguindo esta fórmula.)
A literatura calidoscópio me parece mais frequente no que
chamamos “romance absurdista”, e em certas obras de vanguarda como os romances
do pessoal da OuLiPo: Harry Matthews, Georges Perec, Raymond Queneau e outros.
São histórias que geralmente “não trazem uma mensagem”, não alcançam uma
resolução final (nem se propõem a isso): são uma sucessão de episódios
desconexos, que valem por si mesmos e pelo traçado ziguezagueante por onde
conduzem o leitor.
Há uma certa literatura meio lúdica onde a gente sente o
autor improvisando doidices à medida que escreve, como nas Confissões de Ralfo (1975) de Sérgio Sant’Anna, em Os Morcegos Estão Comendo os Mamãos Maduros
(1973) de Gramiro de Matos, em A Lua Vem
da Ásia (1956) de Campos de Carvalho... E não só nela, porque se olharmos
bem a prosa de Rabelais ou de Lautréamont vamos encontrar esse mesmo fluxo sem
direção obrigatória, esses mesmos saltos sem pouso.
Ocorre também em certa ficção popular, como a de alguns
autores de pulp fiction que começavam
a contar uma história sem saber onde iam parar, atraídos pela possibilidade da
invenção incessante, da surpresa, da imprevisibilidade. O Surrealismo, tanto
nos romances de André Breton quanto nos filmes de Luís Buñuel, elevou isso a um
grau máximo.
E, mais uma vez: há também grandes obras e obras péssimas
escritas de acordo com este impulso.
Parece existir, no entanto, pelo menos em nossa cultura
ocidental e em nosso século, uma predileção pelas obras fechadas, que têm uma
resposta única, que dão ao leitor a sensação tranquilizadora de uma conta
matemática que não deixa resto. Acho isto muito natural, porque aprecio esse
tipo de narrativa.
O problema surge quando um apreciador deste tipo de
narrativa abre um livro (ou assiste um filme, etc.), na ilusão de que se trata
de uma obra com esta característica, e se depara com um Livro Calidoscópio
(pense Raymond Roussell, R. A. Lafferty, Carlos Emilio Corrêa Lima, etc.) ou com
um Filme no Protocolo da Pergunta (pense David Lynch, Raúl Ruiz, etc.).
A solução seria talvez a de tentar agradar esses dois
tipos exigentes de consumidor, dando-lhes algumas respostas mastigadinhas que
abrandassem sua fome de solução-de-problemas, mas mantendo no ar certas
interrogações mais amplas, mais implicitas, mais abstratas.
Que é, no fim das contas, o que estes autores citados
fazem, porque muito dificilmente iremos encontrar modelos puros do tipo A ou do
tipo B. Mesmos praticantes ortodoxos da literatura puzzle, como Isaac Asimov ou Arthur C. Clarke, deixam-se seduzir,
em seus romances, por certos elementos irrespondíveis, certas dízimas
periódicas do pensamento que podem ser estendidas infinitamente sem fechar a
conta.
Ao fim e ao cabo, tude retorna àquela velha arte de comer
mel-de-engenho com farinha. Ficou muito molhado? Bota mais farinha. Ficou muito
seco? Bota mais mel.
terça-feira, 18 de abril de 2023
4933) O passe e a assistência (18.4.2023)
DE UM JOGADOR BRASILEIRO A UM TÉCNICO ESPANHOLNão é a bola alguma cartaque se levar de casa em casa:é antes telegrama que vaide onde o atiram ao onde cai.Parado, o brasileiro a fazir onde há-de, sem leva e traz;com aritméticas de circoele a faz ir onde é preciso;em telegrama, que é sem tempoele a faz ir ao mais extremo.Não corre: ele sabe que a bola,telegrama, mais que corre voa.
sábado, 15 de abril de 2023
4932) A tristeza e a música (15.4.2023)
E, aquilo, ele chorava, sem parar, e de um sentir que fazia pena... Não adiantava a gente querer engambelar nem entreter... Eu pelejei, pelejei, todo-o-mundo inventava coisa para poder agradar o desgraçadinho, mas nada d’ele parar de chorar... (...) ...O pretinho vinha comigo na garupa, dando soluços grandes, e molhando minhas costas de tanta lágrima... Então eu falei: — “Olha os bois também com saudade dos pastos lá da fazenda”... — Para que foi que eu fui dizer isso! Ele abriu ainda mais no bué, e começou a gemer: — “Ai, seu mocinho bom! Ai, seu mocinho bom! Me deixa eu ir-s’embora para trás! Me deixa eu ir-s’embora para trás!”...Quando ele viu que não adiantava nada pedir, garrou só a exclamar: — “Ai, seu mocinho ruim! Ai, seu mocinho ruim!... Eu só queria poder sentar agora, um tiquinho, naquela canastra de couro, que tem lá no rancho de minha mãe... Queria só ver, de longe, a minha mãezinha, que deve de estar batendo feijão, lá no fundo do quintal!”...
Os vaqueiros ficam naquela sinuca, porque todo mundo está comovido com o choro do garoto mas não fazia sentido voltarem atrás com boiada e tudo. E lá vão eles. Montam acampámento para passar aquela primeira noite.
E foi aí, bem na hora em que o sol estava sumindo lá pelos campos e matos, que o pretinho começou a cantar... ...Ah, se vocês ouvissem! Que cantiga mais triste, e que voz mais triste de bonita!... Não sei de onde aquele menino foi tirar tanta tristeza, para repartir com a gente... Inda era pior do que o choro de em-antes...
A voz do menino chega a lembrar (ou será que estarei me sugestionando?) a voz de um Milton Nascimento infantil mas já capaz das nuances futuras de um Milton Nascimento – que já era nascido quando Rosa publicou seu livro:
Era assim uma cantiga sorumbática, desfeliz que nem saudade em coração de gente ruim... Mas, linda, linda como uma alegria chorando, uma alegria judiada, que ficou triste de repente:
...“Ninguém de mimninguém de mimtem compaixão...”
Mas o mais grave de tudo é que quando acaba a reza – quando ele finalmente acaba a sua reza – ele ergue a voz e começa a cantar. Bem, o senhor sabe que a voz dele, quando fala, é doce como o mel; sabe como seria capaz de persuadir aquele cão de ferro do portão a descer os degraus e vir lamber-lhe a mão. Creia na minha palavra, isso não é nada diante da cantiga! Ah, ele se limita a entoar aqueles versos , numa voz tão doce e tão suave, ali no escuro, que faz a gente pensar que está no céu. (...) E ele canta: “Assim como eu sou – um coitado, um cego, um desvalido...” (...) E ele faz um homem se sentir o bruto mais ingrato e mais canalha que já existiu. E quando ele canta sobre a casa em que viveu, e sua mãe, e sua infância, e as lembranças de antigamente, e os amigos que morreram e se foram para sempre, isso traz para a mente daqueles homens tudo que eles amaram e perderam em sua vida...
(trad. BT)
Jo seguiu Ron por um corredor, passaram por uma escotilha, desceram uma pequena escada.– Os Lll estão aqui – disse Ron, diante de uma porta circular. Ainda estava segurando o braço do violão. Empurrou a porta, e alguma coisa agarrou o estômago de Comet Jo e o virou pelo avesso. Lágrimas cresceram nos olhos dele, e sua boca se abriu. Respirou com dificuldade.– É uma porrada, hein? – disse Ron em voz baixa. – Vamos entrar.Jo estava amedrontado, e quando penetrou naquela penumbra sentia-se afundar dez metros a cada passo. Piscou os olhos para clarear a vista, mas as lágrimas voltaram.– Esses são os Lll – disse Ron.Jo viu lágrimas no rosto queimado de sol de Ron. Olhou para diante.Eles estavam acorrentados ao piso pelos pulsos e tornozelos; Jo contou sete deles. Seus enormes olhos verdes piscavam na luz azulada do compartimento de carga. Seus torsos eram encurvados, as cabeças hirsutas. Seus corpos pareciam imensamente fortes.– O que é que eu estou... – Jo tentou dizer, mas tinha alguma coisa presa na garganta. – O que é que eu estou sentindo? – sussurrou ele, pois era o mais alto que conseguia falar.– Tristeza – disse Ron.E assim que recebeu um nome aquela emoção se tornou reconhecível – uma tristeza vasta, avassaladora, que sugava todos os movimentos de seus músculos, toda a alegria dos seus olhos.– Eles me deixam... triste? – perguntou Jo. – Por que?– São escravos – disse Ron. – Eles constroem; constroem de uma maneira muito bela, maravilhosa. São extremamente valiosos. Construíram metade do Império. E o Império os protege desta maneira.– Protege? – perguntou Jo.– Ninguém pode se aproximar deles sem se sentir assim.– Nesse caso, quem iria comprá-los?– Não muitas pessoas. Mas existem em número bastante para que eles sejam escravos incrivelmente valiosos.– Por que não soltam eles?! – perguntou Jo, e a frase soou no final quase como um grito.– Economia – disse Ron.– Como é que alguém pode pensar em economia sentindo-se deste jeito?– Não é muita gente que consegue – disse Ron. – Essa é a proteção dos Lll.Jo esfregou os olhos.– Vamos sair daqui.– Vamos ficar mais um pouco – retrucou Ron. – Vamos tocar para eles agora. – Ele sentou num caixote, empunhou o violão e fez um arpejo num acorde modal. – Toque. Eu lhe acompanho.(Empire Star, trad. BT)
À maneira típica de Delany, vários conceitos estão expostos de forma entrelaçada nesse trecho: o esboço rápido das relações econômicas do Império interplanetário, a dominação de uma raça por outra, o conceito aparentemente contraditório de que um escravo é protegido pela tristeza que desperta nos outros (o que os trancafia na esfera do “não quero pensar nisso”); e o uso da música como fator de equilíbrio ou tentativa de comunicação. Sem falar no nome da raça escravizada – os “Lll”, um nome impronunciável, um conceito que (do ponto de vista do leitor, que neste momento é o mais “alienígena” de todos) pode ser lido mas não pode ser compartilhado em voz alta.
quarta-feira, 12 de abril de 2023
4931) A Invenção de Morel (12.4.2023)
Um tema recorrente na ficção científica é o tema da fuga
para outros planetas, antes ou durante um cataclismo qualquer. Como a Terra
está em vias de destruição, preparam-se algumas “arcas de Noé” que decolarão
rumo a um planeta habitável, onde a humanidade terá um novo recomeço.
Um clássico do cinema nessa veia é O Fim do Mundo (“When Worlds Collide”, Rudolph Maté, 1951). A
questão principal é: quem vai nessa Arca?
Quem serão os felizardos? No filme, o milionário que financia a
construção da espaçonave exige o direito, bastante compreensível, de escolher
os convidados. Briga-se muito, e a escolha acaba sendo feita por um sorteio de
loteria, que dá origem a vários desdobramentos melodramáticos.
No recente e premiado conto de N. K. Jemisin, Emergency Skin (2019; no Brasil, na
antologia Forward, Ed. Intrínseca, 2021),
a Terra está em pleno colapso e os bilionários constroem uma frota de
espaçonaves para a fuga. Depois que eles vão embora, os que ficaram para trás
conseguem reverter a situação, uma vez que os causadores da situação migraram
em massa.
Numa catástrofe, salvam-se os que podem.
Se um cientista inventar um dia uma máquina de
imortalidade, ou de imortalização, quem serão os primeiros beneficiados?
Provavelmente as pessoas a quem ele tem acesso, as pessoas que são importantes
para ele.
É mais ou menos o que acontece com o Morel imaginado por
Adolfo Bioy Casares no seu clássico La
Invención de Morel (1940). No Brasil, o livro saiu pela Expressão e Cultura
como A Máquina Fantástica (1974,
trad. Vera Neves Pedroso), republicada em 1986 pela Rocco como A Invenção de Morel.
Fiz mais acima uma distinção entre imortalidade e
imortalização, e esta é essencial na concepção da história. Morel (não farei
aqui um resumo do enredo do romance) inventou uma espécie de cinema em 3D ou
4D, que registra e conserva, de forma perfeita, a presença e as ações de
pessoas num ambiente. Uma espécie de cinema total, onde as imagens são
tridimensionais, e têm uma materialidade concreta que falta, por exemplo, aos
hologramas.
E durante uma semana ele traz seus amigos para a ilha
onde tem uma mansão (com jardim, piscina, etc.) e todos se divertem, bebem,
riem, cantam, dançam, praticam esportes, namoram, desfrutam daquele lazer um
pouco tenso e um pouco ruidoso dos ricos que, não precisando ganhar a vida,
precisam, o tempo inteiro, inventar pretextos para preencher seus dias imensos,
longuíssimos, dias e noites que não acabam mais.
O que Morel descobre não é a imortalidade, que seria o
prolongamento indefinido da vida daquelas pessoas. As pessoas morrerão, sim.
(Como dizia Millôr Fernandes, “injustiça social mesmo era se uns morressem, e outros não”.)
O livro de Bioy Casares mostra a criação de uma máquina
capaz de captar e reproduzir trechos da realidade, de forma tridimensional (ou
quadri-dimensional, pois se dá ao longo do tempo), e material. É
cientificamente improvável? Talvez – tanto quanto máquinas do tempo ou
espaçonaves mais velozes do que a luz.
Como disse Jorge Luís Borges, no famoso prefácio que
escreveu para este livro:
“Adolfo Bioy Casares, nestas páginas, resolve com felicidade um problema talvez mais difícil. Desdobra uma odisséia de prodígios que não parecem admitir outra chave senão a alucinação ou o símbolo; e a decifra satisfatoriamente mediante um único postulado fantástico, mas não sobrenatural.”
domingo, 9 de abril de 2023
4930) Primeiras Estórias: "Substância" (9.4.2023)
(ilustração: Luhan Dias)
“Substância”, o décimo-nono conto do livro Primeiras Estórias (1962; 3ª. edição) de Guimarães Rosa, é uma experiência interessante de conto com um foco único. Como se fosse um quadro, uma pintura, com uma imagem centralizada – e outros elementos irradiando-se a partir dela. Um quadro que é possível apreender com a visão, de golpe, num instante, e depois examinar os detalhes.
“Deram-lhe, porém, ingrato serviço, de todos o pior: o de quebrar, à mão, o polvilho, nas lajes. (p. 152)“Ela é que quer, diz que gosta. E é mesmo, com efeito...” (p. 152)“Só no pino do meio-dia – de um sol do qual o passarinho fugiu” (p. 152)“Alvíssimo, era horrível, aquilo. Atormentava, torturava: os olhos da pessoa tendo de ficar miudinhos fechados.” (p. 152)“Também, para um pasmar-nos, com ela acontecesse diferente: nem enrugava o rosto, nem espremia ou negava os olhos, mas oferecidos bem abertos – olhos desses, de outra luminosidade.” (p. 153)“Sua beleza, donde vinha? Sua própria, tão firme pessoa? A imensidão do olhar – doçuras. Se um sorriso; artes como de um descer de anjos.” (p. 153)“Maria Exita era a para se separar limpa e sem jaças, por cima da vida; e de ninguém. Nela homem nenhum tocava.” (p. 154)“Servia o polvilho – a ardente espécie singular, secura límpida, material arenoso.” (p. 154)“Os raios reflexos, que os olhos de Sionésio não podiam suportar, machucados, tanto valesse olhar para o céu e encarar o próprio sol.” (p. 155)“Entregou os olhos ao polvilho, que ofuscava, na laje, na vez do sol.” (p. 156)“Você, Maria, quererá, a gente, nós dois, nunca precisar de se separar? Você, comigo, vem e vai?” (p. 156)
Guimarães Rosa disse, no Grande Sertão, que viver é rasgar-se e remendar-se. Na mesma toada
podemos sugerir que escrever é plantar, colher, moer e purificar. Como Rosa era
notoriamente um estudioso do hermetismo e das ciências ocultas, não há como não
ver no conto alusões alquímicas ao processo de transmutação da matéria, onde
ocorre a fase do albedo, que
corresponde à purificação e decantação da matéria, atingindo pura
espiritualidade.
Primeiras Estórias
é todo composto de histórias assim, e sem dúvida assustou os leitores acostumados
com as obras anteriores. Este livro ganhou um formato-de-conto que Rosa não
tinha explorado até então. Os contos de Sagarana
(1946) são contos longos e largos, que se expandem como um rio correndo
devagar, sem pressa de chegar a lugar nenhum. Contos com 30 ou 40 páginas, e
até mais.
Esse formato se expandiu ainda mais nas 7 noveletas que
compõem Corpo de Baile (1956).
A prosa torrencial do Grande
Sertão: Veredas (1956) é o ponto máximo dessa exuberância narrativa de quem
tem muito o que dizer e quer dizê-lo vastamente.
O grande ponto de inflexão na vida e na obra de J. G.
Rosa, a grande “virada de esquina” em sua vida é justamente no período entre
1956 (publicação de Corpo de Baile e
de Grande Sertão) e 1962 (publicação
de Primeiras Estórias).
São os anos da fama, da consagração e da polêmica, e anos
de trabalho intenso no Itamaraty. O tempo escasseia, os contos encolhem. A
profusão de histórias para contar é a mesma, mas diminuiu o tempo que ele pode
dedicar à literatura, e o tempo de vida que sente ter pela frente. Rosa era
cardíaco, fumante compulsivo, e dizia: “Eu sou médico, e sei muito bem qual é a
minha condição de saúde.”
Ele passou a publicar uma página semanal em O Globo – bem remunerada, certamente – num
espaço com tamanho mais ou menos fixo. Daí que os contos de Primeiras Estórias, que é a reunião
desse material em livro, tenham todos aproximadamente a mesma extensão.
Algo parecido ocorreria depois com seu último livro, Tutaméia (1967), cujos contos tiveram primeira
publicação numa revista médica (Pulso,
RJ) e têm um tamanho-padrão ainda mais curto.
Rosa era um ficcionista “fractal”: cada história sua
contém muitas outras histórias incrustadas. Na reta final da carreira, foi
obrigado a concentrar seu foco criativo num espaço de texto mais estreito e
mais intenso. O que era arco-íris concentrou-se em raio laser.
A vida dá o tom do trabalho, impõe um ritmo e um formato.
Rosa é um estressado, apesar do permanente bom humor. É um consciencioso, um
perfeccionista, um “perseguidor” também – no sentido cortazariano do termo, do
artista que não sabe direito o que está criando enquanto não o cria e o
contempla.
Aproveitando a referência a Julio Cortázar, podemos dizer
que em Primeiras Estórias e em Tutaméia Guimarães Rosa se dedicou a
vencer o embate com o leitor por nocaute, e não por pontos. Adotou, por conta
própria, a fórmula do autor argentino, adepto do conto uni-direcional, do
conto-flecha, do conto que é disparado e leva o leitor consigo como um
trem-bala.
É o contrário, por exemplo, dos contos de Sagarana, que eram contos-caravana,
histórias que têm um destino mas abominam a linha reta, preferem o caminho tortuoso
de quem se desvia para abastecer num oásis, visitar um vilarejo, evitar uma
tempestade.
quinta-feira, 6 de abril de 2023
4929) A arte de escrever difícil (6.4.2023)
Um espectro assombra a literatura brasileira desde que ela começou: o espectro do “falar difícil”. Num país que em 1920 tinha cerca de 70% de analfabetos, e não possuía nenhuma universidade, a prática da literatura era um nítido diferencial de classe. (Não que os analfabetos não praticassem suas formas literárias – a literatura oral, os contos populares, os cantos, os versos, os romances recitados, a própria literatura de cordel, cujo grande nome, Leandro Gomes de Barros, morreu em 1918.)
Por ali passavam tropas mineiras d’além-Paranaíba – rijos tocadores palmilhando as alpercatas de couro cru pela extensão ardente e arenosa das estradas poentas, ladeadas às vezes de barrancos escarpados e esfarinhentos de pedra-canga, por cujas erosões, vincadas, medrava tenaz o catingueiro parasitário dos morrotes. Por ali passavam, barulhentos e ralhadores, de peregrinações distantes, após haver trilhado as rechãs esturradas d’argila vermelha e sapé bravio dos chapadões, onde apenas, a quebrar a uniformidade dos horizontes, apareciam de vez em vez, ao longo dos carris profundos deixados à passagem pela roda ferrada dos pesados carros de bois, a fronteira do lobo e os coqueiros de macaúba, como tênues, fugaces teias de sombra espalmadas sobre a crosta recozida do solo. (W. Martins, p. 70)
“Poento”, aliás, é um adjetivo euclidiano que Ariano Suassuna confessadamente assimilou (ele se refere a isto em seu discurso de posse na A.B.L.).
O cinzento selenial dos horizontes, a negrura obsidiânica de certos pauis; a transparência hidrofânica das neblinas pairando sobre os altos cabeços longe; o lento lacrimejar das estrelas, triste como a dolorosa marcha fúnebre de Chopin; o brazido avernal dos estios; a beleza dos estendedouros das campinas; as ondas dos ventos frios arrepiando a pele da água voluptuosa; as barcaças maciças, pesadas, movidas pelas zingas; o arredondado zimborial do firmamento; a grandeza zenital das esperanças da minha Pátria; os beijos tímidos das lavandeiras pelos velhos campaniles; a bombinela da noite a descerrar-se para surgir o fulgor do sol levante; todas estas coisas vistas ou sentidas através dos canais, impressionam e fazem vibrar poderosamente a minha energia sensorial.(W, Martins, p. 158)
Sussurram ainda as trovas brejeiras dos simplórios campônios, nos festins seqüentes ao mourejar diurno, nos roçados esmeraldinos de minha terra; balam, mansuetos, os lanígeros pelas várzeas; cambalhotam, endiabrados, os caprinos pelas quebradas sáxeas e gemem as fontes múrmures queixas de despedida em rumo do mar longínquo, ao grimpar céleres os socalcos de jusante... O luar dos sertões infiltra uma suave melancolia no psiquismo desses modernos Anteus, cuja grandeza de labor secular contra os caprichos da terra e contra as cruezas do éter desafia rivalidades!(W. Martins, p. 248)
Não há conjugado mais poderoso, devassando os segredos da vida, catalogando, seriando, na escala dos hidrocarbonetos, com o metro, a proporcionalidade das progressões aritméticas formando o encadeamento dos corpos cíclicos e acíclicos; coordenando, compondo, concertando, atando e desatando, com uma regularidade surpreendente, a prova de algarismos – os dez que nem mil todo-poderosos cíngulos dígitos do Grande Ser, que empolgassem as formas concretas do universo, na tarefa de as enumerar, multiplicar, dividir e subdividir. Quando esta molécula se complicou, tivemos um caos bíblico, que não a desordem, pois o magno coordenador, o carbono, não o permitira, logramos porém uma página harmônica da vida do globo, que não soubemos deletrear, porque não pudemos fixar em o nosso entendimento a equivalência de suas expressões, o eco de suas ressonâncias.(W. Martins, p. 307-308)
segunda-feira, 3 de abril de 2023
4928) Dicionário Aldebarã XXIV (3.4.2023)
O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres. Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura. Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.
“Ospronk”: sonhos que constam quase totalmente de experiências
corporais: a sensação de estar sentado num lugar banhado de sol, de tocar numa
parede que vibra, de ter os cabelos remexidos por um vento forte... a tal ponto
que é impossível narrar o sonho em palavras, porque mesmos as palavras que usamos
não guardam nenhuma relação com a sensação que pretendem descrever.
“Corduflans”: certas explicações improvisadas que as
pessoas dão ao serem apanhadas de surpresa numa situação qualquer, sem tempo
para preparar uma versão convincente; e depois é preciso distorcer uma porção
de fatos ou de relatos para que nada daquilo entre em contradição com a
explicação que foi inventada sem muito preparo.
“Amburo”: pequeno fogareiro escavado no chão de terra,
nas cabanas do interior, sempre cheio de cinzas e brasas, para aquecer comida.
Em muitos lugares serve também como disfarce para o local onde estão enterradas
jóias, dinheiro, economias da família, etc.
Como o uso de tal disfarce é tradicional e de conhecimento público,
gerações sucessivas de pessoas o descartam, por inútil, e depois voltam a
adotá-lo.
“Smirro”: tarefas úteis executadas coletivamente e sem
pressa, como derrubar uma árvore, remover uma pedra, aterrar um brejo. Cada
pessoa que passa pelo local faz um gesto: o machado fica ao lado da árvore para
qualquer um dar um golpe, a pedra fica ao longo da estrada para qualquer um
revirá-la uma vez, há uma pá perto do brejo. Subentende-se que é proibido uma
pessoa sozinha assumir o trabalho; tem que ser feito por todos.
“Chussamp”: pequenas canções meio narrativas, com letras
absurdas e engraçadas, cantadas sempre numa mesma cadência, e que servem de
marcador de tempo para algumas tarefas domésticas, principalmente na cozinha.
Cantar do princípio ao fim Eu Vi Vocês na
Corda-Bamba marca o tempo ideal de preparação do chá de zuinn, que tem um bom efeito sobre a
atenção e aumenta a nitidez na vista.
“Ankh-ankh”: cavalos ou cães um tanto rebeldes que passam
a ser repassados para sucessivos donos, a fim de serem amansados de acordo com
um pequeno menu de regras básicas que todos tentarão aplicar, até que o animal
é devolvido ao dono original. Por trás desta prática vigora o princípio de que,
tal como um animal, uma pessoa tem que ser educada pela coletividade inteira, e
não apenas pela sua família de origem.
“Albalahn”: pequenas cerimônias íntimas que correspondem
a um “pré-aniversário”, e onde a pessoa acende velas, ergue um brinde, recita
preces ou versos e executa outras manifestações de esperança e respeito, tudo
isto com vistas a alguma coisa que deverá acontecer dali a exatamente um ano, e
que ela, ainda sem saber o que será, comemora e agradece por antecipação.
“Escarts”: assentos feitos de placas de vime, dobráveis,
que podem ser levados às costas (são muito leves) e depois desdobrados. Podem ser
usados em passeios, caminhadas, eventos ao ar livre, etc.; além da praticidade
para quem usa, são muito apreciados pelos artesãos que os fabricam, os quais
estão sempre inventando novos desenhos de encaixe e desdobramento, a ponto de
fazerem um banco para três pessoas caber, depois de dobrado, dentro de uma
mochila.
“Abforn”: o percurso sentimental que uma pessoa se obriga
a fazer quando visita sua cidade natal, e prepara uma lista de alguns lugares
para visitas obrigatórias: a casa de amigos, a escola onde estudou, o prédio
onde trabalhou, etc. É um percurso não
obrigatório, mas que a maioria das pessoas procura cultivar, como uma maneira
não apenas de revisitar boas ou más lembranças, mas de constatar a passagem do
tempo e as transformações que produz.
“Calbug-tan”: prece informal cuja primeira parte as
pessoas recitam quando perdem algum objeto (geralmente na própria casa, em meio
aos afazeres domésticos) e querem que lhes seja revelado onde está. A tradição
avisa que daí em diante virão “pistas” aleatórias sobre a localização dele,
através de palavras ouvidas à distância, referências a um aposento ou móvel,
etc. Ao ser encontrado o objeto perdido,
a pessoa deve recitar a parte final da prece.
“Lank-umm”: a percepção instintiva (e impossível de
explicar) que algumas pessoas têm com relação à casa em que vivem, e que lhes
permite saber intuitivamente, sem fazer esforço, em que parte da casa ou de
seus arredores está cada morador, em qualquer momento do dia; um talento tão
mais admirável quando se sabe que as famílias aldebaranes, somando seus
moradores, agregados e hóspedes, são sempre muito numerosas.
“Dik-dikken”: brincadeira de salão em que cada pessoa
escreve uma frase de duas ou três linhas, sobre um tema qualquer, com a
intenção de não revelar através dela a própria identidade; esses papeizinhos
são dobrados, misturados e depois lidos de um em um, enquanto as demais pessoas
da roda se arriscam a adivinhar quem escreveu cada trecho.
“Daoulb”: o individuo que se vê numa posição de
intermediário entre dois grupos, ou dois antagonistas, com a obrigação de
apaziguar um conflito e conduzir as duas partes a um acordo comum; em geral,
cada um dos lados o vê com desconfiança, encarando-o como um mero representante
dos interesses do seu adversário.
“Herlegan”: personagem folclórico, reconhecível por suas
roupas coloridas e seu comportamento meio distraído, meio anárquico; qualquer
pessoa que se vista assim e saia à rua será tratada de acordo, mas se por algum
motivo precisar “ficar séria” tem que tirar imediatamente a fantasia ritual,
sob pena de detenção por mau comportamento.
“Eswurten”: artesãos que, como atividade paralela de seus
ofícios (marceneiro, escultor, ferreiro, ourives, etc.) dedicam-se a produzir
cópias perfeitas de objetos fornecidos pelos clientes, seja para substituir um
original danificado, criar uma imitação para desviar a atenção de possíveis
ladrões, presentear alguém, etc. O termo
é usado muitas vezes em tom pejorativo, com a conotação de “falsário, fabricante
de mentiras”.
“Panj”: licor de
sabor forte e adocicado, que misturado a bebidas destiladas como o rum produz
um forte coquetel alcoólico; muito usado em ocasiões festivas quando as pessoas
se reúnem para beber e cantar a plenos pulmões, e invariavelmente descambam para
uma sessão de improvisação de versos de duplo sentido, em formas fixas
tradicionais, que provocam maior hilaridade quando recorrem ao absurdo e ao
despropósito.
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