E é isso, “Têcão”... cada um de nós vive na
medida dos seus sonhos e das suas saudades.
(Marcelo, com suas
irmãs Patricia e Bernadete)
Artigos de Braulio Tavares em sua coluna diária no "Jornal da Paraíba" (Campina Grande-PB), desde o 0001 (23 de março de 2003) até o 4098 (10 de abril de 2016). Do 4099 em diante, os textos estão sendo publicados apenas neste blog, devido ao fim da publicação do jornal impresso.
Quando uma balada tradicional mostra lacunas em sua narrativa, é porque se presume que o público já conhece a história, e pode se encarregar de preencher os claros por conta própria. (trad. BT)
Estou cada vez mais convencido de que o diálogo, tal como é escrito nos romances e nas peças de teatro, não corresponde nem um pouco à mecânica da verdadeira linguagem falada (não falo nem das palavras, mas do movimento, do ritmo, do modo real de discutir, de berrar, do modo como uma idéia se emenda ou não se emenda a outra). Aos poucos, depois dos primeiros romances do gênero “realista”, acabamos nos habituando a uma espécie de realismo mecânico, uma espécie de fixação convencional da fala, que não tem absolutamente nada a ver com a fala verdadeira. Existe em nossa linguagem falada algo muito mais vivo: mais desalinhado, mais arrebatado, com mais mudanças de movimento, uma sintaxe lógica que nunca foi verdadeiramente captada.
Doukipudonktan? (RQ)Pômakifedô. (IMHC)Donde parte este cheirete? (AR)Dondekevemtantofedô? (PW)
Um explorador pode descer em nosso planeta mil vezes seguidas e nunca avistar com um tigre. E contudo os tigres existem, e se ele se deparar com um deles na selva, pode ser devorado. Existem selvas na atmosfera superior, e elas são habitadas por criaturas piores que os tigres.
Pararam hesitantes no meio do largo. Tílburis moviam-se lentamente; de quando em quando um partia à disparada. A ronda passava vagarosa; os animais caminhavam como sonâmbulos, maquinalmente, a cabeça baixa e os soldados, derreados, iam como embebidos na luz magnífica que o astro branco vertia. O “Stadt Coblenz”, a “Maison Moderne”, o “Caboclo” regurgitavam iluminados; às portas, grupos discutiam aos berros, agitando bengalas e, mais adiante, o “Príncipe Imperial” transbordava. O povo enchia o saguão e despejava-se amontoadamente espraiando-se em direções diferentes, e as luzes do frontão do teatro extinguiram-se subitamente ficando a rua em treva. Rodavam carros abertos, bondes enchiam-se e, de longe, vozes diferentes anunciavam com furor “empadinhas de camarão”.
(...) A cidade dormia. Começavam a varrer as ruas. Uma nuvem densa de poeira empanava o brilho dos lampiões e, dentro dessa bruma espessa, dum tom alourado, moviam-se homens cantando e atirando vassouradas: carroças rodavam parando de quando em quando. Raras mulheres, debruçadas às janelas, cochilavam; tílburis passavam à disparada e os dois, em passos apressados, seguiam cosidos aos muros, com os lenços à boca. Apitos trilaram ao longe e, com estrépito sonoro, os soldados da ronda passaram a toda a brida através da poeira como dois cavaleiros fantásticos. Vinham rapazes cantando num vozeirão atroador. (Cap. 1)
Vozes atroaram o silêncio e uma célere trepidação de rebanho em marcha fez com que os rapazes parassem colando-se à parede e logo dois campeiros surgiram, a cavalo, estalando chicotes, cantarolando e, em seguida, uma boiada a trote, os animais muito juntos, em bolo, silenciosos. Os grandes chifres entrebatiam-se e homens atiravam os cavalos à calçada ou passavam por entre os mansos animais, bradando, como nos campos: “Ehôoo!... toca! Junta... êeh!...” E a manada seguia e perdeu-se na poeira dourada donde apenas vinham os gritos dos guieiros.– É o bife.– Para onde vai isso?– Para Niterói, creio eu.Um bêbado resmungava cambaleando, às guinadas. Ouviram tinidos de campainhas e uma tropa de burros desfilou, sacolejando ceirões, a caminho do mercado.“Vou-me embora... Vou-me embora!É mentira, não vou não...Se eu vou m’embora, faceira,Deixo aqui meu coração”,cantava languidamente o tropeiro escarranchado na bestinha viajeira, puxando a récua.– Pleno sertão.– É verdade. (Cap. 1)
E há também a história do rei Sous, que, cercado pelos clitorianos numa área seca e pedregosa, sem acesso a água, foi forçado a negociar com eles um acordo: devolveria a eles todas as terras que havia conquistado, sob a condição de que ele e seus homens pudessem matar a sede na fonte mais próxima. Depois dos juramentos e ratificações de praxe, ele reuniu seu soldados, e declarou que se algum deles abrisse mão da água receberia seu reino como recompensa; e quando nenhum deles foi capaz de aceitar, e depois que todos eles foram de um em um matar a sede, Sous caminhou por último até a fonte, lavou o rosto sem engolir uma só gota, diante da tropa inimiga, e recusou-se a entregar-lhes as terras conquistadas, uma vez que, de acordo com os termos do acordo, “ele e seus homens” não haviam matado a sede. (trad. BT)