Este
texto (em Primeiras Estórias, 1962) é
conhecido como “o conto de ficção científica de Guimarães Rosa”. E é de fato um
conto de “visita de alienígena” para ninguém botar defeito.
O
enredo: na década de 1870, depois de uma tempestade cheia de visagens e
clarões, aparece num povoado do interior de Minas um rapaz muito alvo, sem roupas,
aparentando estar desmemoriado, e incapaz de falar a língua local. É amparado e
recolhido por uma família, e começam as especulações sobre quem seria ele, de
onde vinha, etc. Uma noite, ele pede ajuda a um negro velho das redondezas,
acende uma série de fogueiras numa elevação, e faz descer do céu um aparelho
luminoso, que o leva consigo para sempre.
Com
algumas adaptações poderia ser um esboço de sinopse para um filme como o E.T. de Steven Spielberg.
Já
escrevi mais longamente sobre este conto num dos capítulos do meu livrinho A Pulp Fiction de Guimarães Rosa (João
Pessoa: Marca de Fantasia, 2008).
https://marcadefantasia.com/livros/veredas/pulpfiction/pulpfiction-a.htm
Esse
capítulo foi traduzido para o inglês por Elizabeth M. Ginway e incluído na
coletânea Latin American Science Fiction
– Theory and Practice (New York: Palgrave Macmillan, 2012), editada por
Elizabeth M. Ginway e J. Andrew Brown.
O
conto foi publicado pela primeira vez em 29 de julho de 1961, em O Globo, onde Guimarães Rosa colaborava
periodicamente. Muitos textos publicados no jornal foram aproveitados em Primeiras Estórias (1962). Outras
colaborações desse período foram aproveitadas em Tutaméia (1967), que usou também material surgiu da coluna mantida
por Rosa em Pulso, um jornal de médicos
mantido pelo Laboratório de Sidney Ross, no Rio de Janeiro.
“Um
Moço Muito Branco” é o que poderíamos chamar de “conto de disco voador”, um
tema tão em voga na época, quando todo mundo estava de olho nas viagens espaciais
– o primeiro voo orbital de Yuri Gagárin foi em abril de 1961. A década
anterior foi talvez o auge do “filme de disco voador”, em obras como O Dia Em Que a Terra Parou (“The Day the
Earth Stood Still”, 1951) ou A Invasão
dos Discos Voadores (“Earth vs. Flying Saucers”, 1956).
Espaçonaves
humanas partindo rumo à Lua ou a Marte se misturavam no imaginário popular,
através da imprensa e do cinema, com espaçonaves extra-terrestres que nos
estudavam à distância ou se preparavam para nos invadir.
A
pulp fiction da época (que já havia
migrado das revistinhas populares para os livros de bolso) não ficava atrás.
(S.O.S. Soucoupes, 1954, de B. R. Bruss,
pseudônimo de René Bonnefoy)
Nessa
época, lá em casa já havia a tradução brasileira do best-seller de George
Adamski, Discos Voadores – a História de
suas Aparições – Seu Enigma e sua
Explicação (Ed. Globo, 1957), bem como o ilustradíssimo Discos Voadores (Ed. Melhoramentos,
1959) de J. Escobar Faria.
O
disco voador é uma das imagens mais fortes do imaginário dos últimos cem anos,
e digo isto porque ela precede em muito o famoso “primeiro avistamento” feito
por Kenneth Arnold em 1947. É um fenômeno de tal dimensão que o próprio Carl G.
Jung dedicou-lhe um livro inteiro, vendo ali um reflexo luminoso e elusivo de
conteúdos do nosso inconsciente coletivo.
Quem
duvidar, confira aqui mais de mil capas de revistas onde essa imagem aparece:
https://ufopop.org/ufopop_mags.php
E
quanto ao conto de Rosa?
Num
contexto desta natureza, não é de admirar que ele aderisse pelo menos uma vez
ao tema, usando-o com aquele tom que lhe era próprio, uma mistura de criança
séria e adulto brincalhão, erguendo alto a pipa da fantasia e puxando a linha
de volta com os pés plantados no passado barroco de Minas Gerais. (O
conto alude à atual cidade do Serro, antes conhecida como “Serro Frio”.)
Na noite de 11 de novembro de 1872, na comarca do
Serro Frio, em Minas Gerais, deram-se fatos de pavoroso suceder, referidos nas
folhas da época e exarados nas Efemérides. (p. 99)
Começa
assim o conto, e prossegue com o aparecimento do rapaz, que traz uma comoção
duradoura àquele lugarejo onde não acontece nada. A simples presença do rapaz
produz reações emocionais exaltadas em muita gente, e ele se comporta como
alguém amnésico e incapaz de falar o idioma local.
Há
uma estranheza permanente em torno dele, embora ninguém demonstre hostilidade. O
fato de ter descido do céu é atestado por um preto velho local, José Kakende,
meio aluado, testemunha do que aconteceu na noite de sua chegada. No meio da
tempestade, Kakende avistou no céu
uma artimanha amarelo-escura, avoante trem, chato e
redondo, com redoma de vidro sobreposta, azulosa, e que, pousando, de dentro,
desceram os Arcanjos, mediante rodas, labaredas e rumores. (p. 101)
E
é a Kakende que o rapaz recorre no desfecho da estória, para ajudá-lo a acender
fogueiras numa elevação, numa noite escura, e assim atrair uma outro geringonça
que desce dos céus e leva o rapaz embora.
José Kakende contava somente que o ajudara a
acender, de secreto, com formato, nove fogueiras; e, mais, o Kakende soubesse
apenas repetir aquelas suas velhas e divagadas visões – de nuvem, chamas,
ruídos, redondos, rodas, geringonça e entes.
Com a primeira luz do sol, o moço se fora, tidas asas. (p. 104)
As
descrições feitas por Kakende nos lembram, além das histórias de discos
voadores propriamente ditos, as visões do profeta Ezequiel na Bíblia (a partir
do Capítulo 1),visões que numerosos ufólogos citam como indício de que
prodígios emelhantes vêm sendo avistados desde a Antiguidade.
EZEQUIEL 1
(...)
4 Olhei e vi uma tempestade que vinha do
norte: uma nuvem imensa, com relâmpagos e faíscas, cercada por uma luz
brilhante. O centro do fogo parecia metal reluzente,
5 e no meio do fogo havia quatro vultos
que pareciam seres viventes. Na aparência tinham forma de homem,
6 mas cada um deles tinha quatro rostos e
quatro asas.
7 Suas pernas eram retas; seus pés eram
como os de um bezerro e reluziam como bronze polido.
8 Debaixo de suas asas, nos quatro
lados, eles tinham mãos humanas. Os quatro tinham rostos e asas,
9 e as suas asas encostavam umas nas
outras. Quando se moviam, andavam para a frente e não se viravam. (...)
15 Enquanto eu olhava para eles, vi uma
roda ao lado de cada um deles, diante dos seus quatro rostos.
16 Esta era a aparência das rodas e a sua
estrutura: reluziam como o berilo; as quatro tinham aparência semelhante. Cada
roda parecia estar entrosada na outra.
17 Quando se moviam, seguiam nas quatro
direções dos quatro rostos e não se viravam enquanto iam.
18 Seus aros eram altos e impressionantes
e estavam cheios de olhos ao redor.
19 Quando os seres viventes se moviam, as
rodas ao seu lado se moviam; quando se elevavam do chão, as rodas também se
elevavam.
20 Para onde quer que o Espírito fosse, os
seres viventes iam, e as rodas os seguiam, porque o mesmo Espírito estava nelas.
https://www.bibliaon.com/ezequiel_1/
Guimarães
Rosa faz neste conto uma infusão de memória bíblica, tradição oral e documentação
obscura, e com isso propõe uma pequena alegoria mística em que falta pouco para
dizer que o moço muito branco é um anjo sem asas, como os de Wim Wenders em Asas do Desejo, tornado material e
visível por um acidente-de-percurso qualquer.
É
um conto com medula religiosa e mineira, mas contaminado pelo imaginário
cósmico-espacial do momento em que foi composto. Comentei com mais detalhes
este aspecto, ao falar sobre outro conto de Primeiras
Estórias com influência da ficção científica e dos voos espaciais:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/10/4632-primeiras-estorias-terceira-margem.html