segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
4787) "Drive My Car" (24.1.2022)
Roça vez por outra também na obra dos Beatles (somos da mesma
geração). Ele tem um livro chamado “Norwegian Wood” (título de uma canção de
Lennon no LP Rubber Soul, 1965), e
tem contos intitulados “Honey Pie”, “Yesterday”, “Drive My Car”.
Este último resultou num filme (Drive My Car, 2021, Ryusuke Hamaguchi) que está sendo exibido no
Brasil, em salas e via streaming.
É um filme longo, com quase três horas de duração, embora
eu devesse dizer: “É um filme de duração mediana, no cinema atual.” Os filmes
tendem a ficar cada vez mais longos, e quanto começo a ver um deles é como se apertasse o cinto para uma viagem de avião.
Drive My Car,
apesar de ser um filme introspectivo, com muitos silêncios, e sem muita ação
física, não é um filme arrastado, e acaba parecendo mais curto do que é. O
diretor alterna cenas com vários personagens cortadas de forma não totalmente
consecutiva, produzindo com certa frequência pequenas necessidades de ajuste de
interpretação, que não deixam o espectador pegar no sono. E tem planos longos,
principalmente em trajetos de automóvel (um elemento essencial ao filme), que
nos dão a noção do peso desse “tempo morto”.
É a história de um ator e diretor teatral contratado para
dirigir, com dois meses de ensaio, uma adaptação do Tio Vânia de Tchecov, para um festival. O elenco tem várias
origens: alguns falam japonês, outros mandarim, outros coreano, e há uma atriz
que fala linguagem de sinais. Todos esses diálogos serão traduzidos para o
japonês, quando for o caso, num telão à vista do público.
A proposta, claramente, é de reforçar a idéia do teatro
como uma linguagem das emoções, comum a todos, até por se tratar de um texto
originalmente em russo.
Kafuku, o diretor da peça, vem de uma tragédia familiar recente,
e recebe esse convite como uma chance de ocupar a cabeça com outras questões,
mas não é fácil. Pode-se dizer que o filme é a história do lento
“descongelamento” desse personagem, que aparenta ser íntegro, ético,
compreensivo, mas fechado em si e capaz de uma certa rispidez no trato com
outras pessoas.
O fato do diretor usar
os longos trajetos de automóvel para ouvir as fitas com o diálogo produz o
inevitável (e proposital) contraponto entre os fatos e sentimentos de sua
própria vida e as falas da peça, que ele ouve recursivamente no som do carro. A
peça comenta a vida, e a vida comenta a peça.
O automóvel, o uso do automóvel, o modo de dirigir, é um
elemento importante no filme. O cigarro também. Nos filmes, as
pessoas acendem cigarros para terem algo que fazer com as mãos; por sua vez, os
diretores e os cinegrafistas gostam do modo como as baforadas de fumaça
produzem um efeito visual infinitamente renovado.
No filme de Hamaguchi, não se explora aquele plano
aproximado em que alguém acende o cigarro de alguém, que fecha os olhos enquanto
aspira a fumaça e solta uma baforada prazerosa. O equivalente na literatura é
sempre algo como :”Fulana acendeu o cigarro e aspirou profundamente o aroma
agradável do fumo, que lhe encheu os pulmões...”
Esse estilo meio porn
de descrever está geralmente ausente em Drive
My Car. As pessoas pedem para ir fumar lá fora. Vemos à distância como
acendem o cigarro, fumam sem dar atenção. Mas depois, já na reta final do
final, o ritual de fumar e mesmo de segurar o cigarro aceso ganha um contexto
ao mesmo tempo corriqueiro e simbólico.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2022
4786) Elza Soares, 1930-2022 (21.1.2022)
Quando eu tinha por volta de 10 ou 11 anos passava boa parte do meu dia ouvindo a Rádio Borborema, que na época era a rádio mais importante de Campina Grande, e onde meu pai tinha trabalhado por uns tempos como redator.
Os programas geralmente tinham uma hora de duração, e durante
aquela hora o locutor/disc-jockey (eu ainda não conhecia este termo) escolhia
as músicas, tocava, às vezes fazia comentários.
Havia um programa chamado “Ele, Ela e a Canção”. Era um
cantor e uma cantora cujas faixas se sucediam alternadamente. Num dia eram
Cauby Peixoto e Leny Eversong... no outro eram Ataulfo Alves e Nora Ney... E
por aí, ia. E eu me lembro que um dia eu falei para minha mãe: “Se alguém me
mandasse fazer esse programa por um dia, eu fazia com Nelson Gonçalves e Elza
Soares”.
Conto esse episódio bobo porque é a recordação mais
antiga que tenho de Elza, e por ela deduzo que eu já era fã, e era mesmo, porque
fiquei comportadamente sentado ao pé do rádio quando ela veio a Campina Grande
e fez um programa inteiro cantando no auditório da mesma Radio Borborema, com
transmissão ao vivo.
“Beija-me”:
https://www.youtube.com/watch?v=k4deIBUviT8
Lembro que nesse tempo já ouvia falar nela como a maior
sambista brasileira, não como um “novo talento que desponta”. E os improvisos
em voz rouca, estrídula, suingada, chamavam a atenção. Era coisa para a gente
parar o que estava fazendo e ficar à escuta. Era diferente.
“Se acaso você chegasse”:
https://www.youtube.com/watch?v=xp72C7IIuLA&list=OLAK5uy_kuEV1LHg15pJgSQKg9_O0_Ak8thZ4RoJs
A rasgada rouca da voz de Elza era algo que ia além da
música, era como se fosse uma ilustração na página impressa de um livro, algo
que ia além do texto, trazia uma dimensão a mais, algo completamente diferente
mas que fazia parte.
Na época eu percebia esses “efeitos especiais” aqui e
acolá em diferentes artistas. Via algo parecido nos “cans-ganscans-gansculans”
dos Demônios da Garoa, cujas canções não eram apenas ilustradas por efeitos
vocais desse tipo, mas mostravam, apitos de trem ou de guarda, vozerio de
botequim, e em canções como “Cidade do Barulho” tinha todo tipo de efeito
sonoro. Tinha também Moreira da Silva, onde “O Último dos Moicanos” mostrava
não apenas disparos de revólver *”Cuidado Moreira!...”), como galinhas
cacarejando, índios ululando e tudo o mais.
Elza era também perita nos duetos de estúdio com outros
artistas, e para mim suas gravações com Miltinho, um dos maiores sambistas de
todos os tempos, são um documento da liberdade e da alegria de cantar, de
dividir, de atrasar, de correr pra pegar lá na frente, de cair na nota certa e
ainda dar um floreado a mais.
https://www.youtube.com/watch?v=k4deIBUviT8
https://www.youtube.com/watch?v=xp72C7IIuLA&list=OLAK5uy_kuEV1LHg15pJgSQKg9_O0_Ak8thZ4RoJs
Elza e Miltinho:
https://www.youtube.com/watch?v=9bTk4OsU_r4
O mundo gira, a Lusitana roda, o tempo vai passando e Elza desaparece do mapa, não por defeito dela, mas porque os anos 1970 foram (pelo menos na minha percepção) uma explosão da música brasileira em todos os gêneros, em todos os estilos. Mas foi, por essa mesma explosão, um período difícil para quem conheceu o sucesso na década anterior; basta lembrar os casos, tão próximos de nós, de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.
https://www.youtube.com/watch?v=fsqoCBfucYo
Flor do Lácio, sambódromo,lusamérica, latim em pó...O que quer, o que pode essa língua?
https://www.youtube.com/watch?v=6SWIwW9mg8s&list=OLAK5uy_ljuTdv2L0hDvvE28v5LPbwI80H9LlbiH0&index=2
Por volta de 2002, Ivaldo Bertazzo me
chamou para escrever o texto de um espetáculo de dança, Folias
Guanabaras, a ser encenado pelo Corpo de Dança da Maré (66 garotos e
garotas que dançam pra caramba), com DJ Dolores na trilha sonora, e no
elenco Rosi Campos, Seu Jorge e a própria Elza. E eu dei um jeito para
que a narrativa incluísse uma das minhas músicas preferidas de quando eu tinha 11
anos, “Eu e o Rio”, composição de Luís Antonio que ela tinha gravado naquele
tempo.
“Eu e o Rio”:
https://www.youtube.com/watch?v=AG7NishmSxw
https://www.youtube.com/watch?v=AG7NishmSxw
Elza é Spartacus. Uma prova disso é o musical Elza de Duda Maia, com texto de Vinicius Calderoni, direção musical de Pedro Luís, produzido pela “Sarau” de Andrea Alves, onde Elza era interpretada por Verônica Bonfim, Khrystal, Julia Tizumba, Larissa Luz, Janamô, Késia Estácio e Laís Lacorte.
terça-feira, 18 de janeiro de 2022
4785) A síndrome do impostor (18.1.2022)
sábado, 15 de janeiro de 2022
4784) Minhas Canções: "O Dia Em Que Faremos Contato" (15.1.2022)
Raramente vi uma mulher das classes altas, ou classes médias altas, que não trouxesse linhas de desagrado em volta da boca, e raramente vi uma mulher das classes trabalhadoras que não parecesse estar feliz e sorrindo e dando gargalhadas.(“El Vilvoy de Las Islas”, Isaac Asimov SF Magazine, agosto 1988, trad. BT)
Barracão de zinco, sem telhado, sem pintura...Lá no morro, barracão é bangalô.Lá não existe felicidade de arranha-céu;pois quem mora lá no morro já vive pertinho do céu...
Pois quem mora lá no morrojá vive perto do espaço sideral.
("A Invasão dos Discos Voadores", 1956)
("O Dia em que a Terra Parou", 1951)
(Lenine & BT)
Ficou da meia-noite ao meio-dia.
Saiu deixou uma gente tão igual e diferente:
falava e todo mundo entendia.
por que não desembarcaram
em São Paulo, em Brasília ou em Natal?
Vieram pedir socorro, pois quem mora lá no morro
vive perto do espaço sideral.
Igual a esse daqui...
A galáxia tá em guerra; paz só existe na Terra,
a paz começou aqui...
Cinco sentidos, terra, mar, firmamento – só tem aqui...
Essa coisa de riso e de festa – só tem aqui...
Baticum, ziriguidum 2001... – só tem aqui...
A nave estremeceu, subiu de novo
Deixou um rastro de luz no meio dia
Entrou de volta nas trevas, foi buscar futuras levas
pra conhecer o amor e a alegria.
cheia de ET vestido de orixá...
Vieram pedir socorro, e se derem vez ao morro
todo o universo vai sambar.
todo o universo vai sambar...
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022
4783) A comédia Udiálem (12.1.2022)
Estilo é uma coisa que caracteriza um artista, mas que muitas vezes pode ser absorvida por outros. Pode ser estudado; dissecado; meditado – e depois imitado, com maior ou menor sucesso.
É o caso de Um Amor
a Cada Esquina (“She’s Funny That Way”, 2014) de Peter Bogdanovich, que
assisti agora em meio às homenagens e lembranças provocadas pela morte do
diretor. Revi também Essa Pequena é uma
Parada (“What’s Up, Doc?”, 1972), e para mim são dois tipos diferentes de
comédia.
A crítica chama tudo de “screwball comedy”, “comédia amalucada”, e de fato o rótulo cobre as
duas. Há uma leveza, uma inverossimilhança dramática. Por um lado as emoções
são reais, o que garante o suspense imediato (“Meu Deus! Ela vai descobrir
tudo”) mas por outro a gente sabe que é tudo brincadeira, e que entre mortos e
feridos vai sair todo mundo sem um arranhão. É o mundo fabuloso das comédias
onde ninguém morre e só os chatos vão presos.
Há nas histórias uma tensão sexual permanente, cheia de
subentendidos e provocações, entre pessoas mais escoladas e pessoas mais
reprimidas ou ingênuas. Pessoas simpaticamente cínicas azarando pessoas simpaticamente
românticas, ou vice-versa. Os mal-entendidos envolvem geralmente namoro,
azaração, infidelidade, “imagem pública”...
Os diálogos deste filme não chegam a ser woodyanos, mas,
e daí? Bogdanovich é apenas um cinéfilo que virou diretor. Allen era um
comediante stand-up, cujas frases de
uma-linha foram mortais durante meio século, o que não é pouco. Não importa, neste
caso: Bogdanovich arranjou um elenco que se vira com espontaneidade e leveza, e
é tudo que o filme pede.
domingo, 9 de janeiro de 2022
4782) Mortes romanceadas (9.1.2022)
Não é aconselhável criticar pessoas reais do passado, quando você lhes atribui palavras que afinal são suas. Isto se mistura ao problema ético de todo biógrafo, um problema que eu mesmo não gostaria de encarar. Howard Waldrop, por exemplo, demonstra uma afeição verdadeira pelos “personagens reais” que retrata, e isso pode contornar o problema, mas se você está criticando esses “personagens reais” eles não passam de alvos que você cria para poder derrubar.
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
4781) O mundo sem os Beatles: "Yesterday" (6.1.2022)
Um truque frequente da ficção fantástica é imaginar o nosso mundo quase igual ao que é – mas com uma mudança essencial, radical. Tudo igual – menos aquilo.
E mais: tudo igual, menos aquilo... e as consequências daquilo. Há inúmeras histórias alternativas em torno de premissas como (olha o maior clichê de todos) a vitória de Hitler na II Guerra Mundial. Ou a derrota da União, na Guerra Civil norte-americana. Ou um império romano onde não existiu Jesus Cristo. Ou um mundo onde a América não foi descoberta.
Adolfo Bioy Casares imaginou um mundo sem os celtas (“A Trama Celeste”). Kim Stanley Robinson imaginou um milênio inteiro sem a Europa (que teria sido dizimada pela Peste Negra), em The Years of Rice and Salt. E assim por diante.
Essas ausências podem ser menores, e mais idiossincráticas, mais peculiares. Georges Perec imaginou um mundo sem a letra “E” (La Disparition), e Damon Knight imaginou um mundo sem a letra O (“O”). Stanislaw Lem imaginou uma máquina capaz de “desexistir” qualquer coisa começando com “N” (The Cyberiad).
E Danny Boyle, com seus roteiristas Richard Curtis e Jack Barth, imaginou um mundo de pesadelo onde os Beatles jamais teriam existido. Existe o rock, os produtores, os executivos de gravadora, existem bandas... mas não os Beatles.
Yesterday (2019) é um filmezinho simpático de sessão da tarde, cujo argumento bem poderia ter sido concebido para uma série tipo Além da Imaginação.
Jack Malik (Himesh Patel) é um roqueiro comum, tentando decolar na carreira. Tem a seu lado a amiga e empresária Ellie (Lily James), apaixonada por ele em segredo. Uma noite, ele sofre um acidente no instante em que um fenômeno totalmente Twilight Zone interrompe por doze segundos toda a energia do globo. Quando sai do hospital, ele constata que o mundo é o mesmo – só que ninguém conhece os Beatles. Nem mesmo o Google.
O passo seguinte para ele (com um remorso e uma hesitação bem desenvolvidos no roteiro) é dizer a todo mundo que é o autor de musiquinhas como “Back in the USSR”... “Yesterday”... “Hey Jude”...
O enredo é sem muitas surpresas. Em seguida à premissa inicial, brotam piadinhas menores, bem distribuídas. Além dos Beatles, no novo mundo de Jack Malik não existem nem cigarros nem Coca-Cola – e ninguém percebe. Nada é insubstituível.
O Danny Boyle deste filme nem parece o autor de Trainspotting (1996), aquele filme cru, debochado, angustiado e cínico sobre rapazes escoceses que não têm o que fazer da vida. Trainspotting é um filme alternadamente pessimista e bem-humorado, fala de droga, de crime, de trambique, de solidão, de amizade, de autoritarismo, de carinho.
Lembra os filmes britânicos dos anos 1960 sobre rapazes sem rumo das vilas operárias e da baixa classe média, filmes como Billy Liar (1963) ou Saturday Night, Sunday Morning (1960), ou Gosto de Mel (1961), ou The Loneliness of the Long Distance Runner (1962) e tantos outros. Nada de Hollywood, na Grã-Bretanha daquele tempo. Uma vida amarga, uma vida em preto-e-branco, uma vida sem graça, sem amor, sem liberdade, sem alegria, sem pílula, sem sexo. Uma vida onde os Beatles (ainda) não existiam.
Um ponto de inflexão na carreira do diretor talvez seja o premiado Quem Quer Ser Um Milionário? (2008), que é uma história beeeeem Hollywoodiana (ou “Bollywoodiana”) sobre o rapaz humilde que vira milionário.
Jack Malik, o herdeiro espiritual dos Beatles em Yesterday, nada tem dos rapazes de Trainspotting: Não é um personagem visível (mesmo com o esforço do ator que o interpreta). É uma silhueta de papelão destinada pelo roteiro a ser um milionário, num filme todo articulado com a previsibilidade de um conto-de-fadas para adultos. (Ao que parece, todo adulto, hoje em dia, acredita que pode se tornar milionário.)
O mais interessante no filme de Boyle é o modo como o mundo fantástico procura acomodar suas camadas. A natureza tem horror ao vácuo. Uma vez postulada a existência de um universo paralelo onde os Beatles nunca se formaram, a narrativa se desenvolve como se aquelas canções continuassem latentes, num limbo, pedindo para serem escritas, pedindo para surgir à tona.
E Jack Malik percebe a sua enorme responsabilidade. Como somente ele (aparentemente) lembra da existência dos Beatles, cabe-lhe trazer ao mundo todo o cancioneiro do quarteto de Liverpool. Um momento particularmente amargo do filme é quando vemos que Jack não lembra a letra de “Eleanor Rigby”, com a aterrorizante certeza de que, se ele não lembrar, a canção nunca vai ser gravada.
Carl Sagan, em seu livro Cosmos (1980), comenta a facilidade com que os tesouros culturais se perdem com o passar dos milênios, e a gente não se dá conta. Sagan lembra que das 123 peças teatrais atribuídas a Sófocles apenas sete sobreviveram. Como podemos ter certeza de que eram estas as melhores?
É como (diz ele) se conhecêssemos apenas duas peças de um tal William Shakespeare: Coriolano e Conto de Inverno, e tivessem chegado a nós apenas os títulos de outras, como Hamlet, Macbeth, Romeu e Julieta...
É este o drama de Jack Malik, porque tudo passa a depender da memória dele, da sua capacidade de recordar letras, melodias, harmonias, concepções de arranjo... Porque ele corre o risco de ficar existindo num mundo onde se perderam “For No One”, “Happiness Is a Warm Gun” ou “Here Comes The Sun”, mas em compensação talvez ele consiga lembrar tintim por tintim “Not a Second Time”... “Little Child”... “The Night Before”...
É um pouco como o drama do personagem de Borges no conto “Pierre Menard, autor do Quixote”. O fictício escritor francês quer reescrever “de memória” o livro de Cervantes. Por sorte, o livro não se perdeu, tudo é apenas um projeto quixotesco do autor, mas vendo Yesterday não há como não pensar que reescrever de memória algumas canções dos Beatles é quase tão difícil quanto reescrever o Quixote.
O filme de Danny Boyle é bobinho, é sessão-da-tarde, mas acaba sendo indiretamente uma homenagem à memória, à capacidade de salvar alguma coisa através da lembrança. Como no Fahrenheit 451 (livro de Ray Bradbury, filme de François Truffaut), em que num futuro onde os livros são proibidos a existência de uma obra depende apenas da sobrevivência de uma pessoa (uma só, em toda a humanidade) que traz aquele livro todo de cor em sua lembrança.
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