quarta-feira, 25 de julho de 2018

4370) Os inimigos da Memória (25.7.2018)




(Palácio Monroe, Rio de Janeiro)

Muitos episódios recentes na Paraíba e no Brasil me levam a pensar nas pessoas que destroem nosso patrimônio cultural, que roubam obras de arte para vender, que deixam tesouros históricos se estragarem. Quem são essas pessoas? Por que fazem isto? Decidi tentar agrupá-las em algumas categorias.

Existe, por exemplo, o *Lucrador Predatório*. É uma figura típica do capitalismo selvagem que se alastra pelo Brasil como uma impingem fora de controle. O Capitalismo Selvagem é um processo que age às cegas, visando apenas o próprio lucro, cada vez maior, cada vez mais rápido. É diferente do Capitalismo Civilizado, que lucra, produz, enriquece os acionistas, mas ao mesmo tempo se preocupa com questões sociais, patrocina as artes, protege o meio ambiente, trata bem os operários.

O Capitalismo Civilizado é prudente, pensa no futuro, faz as coisas com a intenção de continuar existindo e faturando por séculos a fio. O Capitalismo Selvagem não: é um inseto predatório, que quer devorar tudo que aparece à sua frente, e no menor espaço de tempo possível. Destrói tudo que há à sua volta, e com isto acaba destruindo a si mesmo. Se o deixarem à solta, em 50 anos ele transforma a Amazônia no deserto do Saara, e morre de fome e sede.

O *Lucrador Predatório* é o cara que bota abaixo o prédio onde um jornal funcionou por 50 anos e faz ali uma farmácia. É o cara que está fazendo um filme e para filmar uma cena manda serrar uma árvore que já estava ali quando Pedro Álvares Cabral chegou em Porto Seguro. É o cara que derruba um chafariz do século 18 para construir uma garagem para sua camionete.

Ele não tem nada específico contra o patrimônio, contra a memória, a não ser quando eles prejudicam seus interesses. Ele é como um gafanhoto: quer apenas devorar o que aparece à sua frente.



(Castelo da Prata, Campina Grande)

Um tipo menos sinistro mais igualmente ameaçador é o *Modernizador Angustiado*. Este, quando destrói alguma coisa antiga, sabe muito bem o que está fazendo, e faz de propósito. Mas ele faz movido pelo que considera uma boa intenção.

Em geral ele foi criado numa comunidade muito conservadora, retrógrada, de mentalidade imobilista. No mundo em que ele cresceu, coisas novas eram vistas com suspeita. Todo mundo tinha que fazer as coisas exatamente como seus pais e avós tinham feito. Havia padrões eternos de comportamento a serem seguidos sem discussão.

Quando esse indivíduo fica adulto, ou consegue algum tipo de poder, ele começa a combater essa força repressora que o angustiou durante a vida inteira. Ele está tomado de ressentimento contra tudo que é velho, tudo que é arcaico, tudo que representa o passado. Ele se deixou seduzir pelas coisas novas e modernas que viu pelo mundo, ou das quais ouviu falar. Ele quer fazer com que estas coisas novas tenham uma chance; quer trazer um pouco de ar puro àquele ambiente tão asfixiado pelo passado, pela eterna repetição das mesmas coisas.

E nesse impulso ele começa a combater tudo que parece velharia. Não adianta dizer que tem valor histórico. Para o Modernizador Angustiado, o mundo já tem História demais, Passado demais. Ele é um fanático pelo futuro, e para impor o que ele acha ser o futuro é capaz de implodir a Catedral de Notre Dame ou de aterrar os canais de Veneza.



(Casa Navio, Recife)

Um terceiro tipo, muito curioso, é o *Desinformado Catastrófico*. Ele destrói sem saber que está destruindo. Muitas vezes por não ter tido educação, por não ter acesso a informações, ou apenas porque não prestou muita atenção no que estava fazendo.

É o sujeito que assume uma repartição e manda jogar no lixo aquelas caixas e caixas de papéis velhos “que só servem para ocupar espaço”. É a turma que vai fazer acampamento num parque florestal, acende um fogo para fazer café, e destrói não sei quantos mil hectares de Mata Atlântica, num incêndio que precisa de mil bombeiros para ser contido. É o síndico que não gosta de um mural e manda arrancar todos os ladrilhos, sem perguntar quem fêz aquilo ou quando.

O *Desinformado Catastrófico* fica compreensivelmente magoado quando a imprensa e as entidades civis caem de pau em cima dele, como se ele fosse um criminoso. Ele não se considera um criminoso. Os delitos que pratica não são dolosos (com intenção de prejudicar), mas são culposos, porque prejudicam.

Existem muitos outros tipos, mas acho que por enquanto bastam estes para dar uma idéia do quanto este problema é complicado. Um erro freqüente da imprensa e dos órgãos de proteção ambiental é não distinguir muito bem quem causou o prejuízo ao Patrimônio Histórico e por quê.

Existe gente que precisa de esclarecimento, de informação; gente bem intencionada mas que errou porque não avaliou bem o que estava fazendo. E existe gente mal-intencionada mesmo, que sabia muito bem o que fazia, e que precisa pegar uma boa punição para não fazer de novo.

Gostaria de lembrar também, nestas poucas linhas, que quando a gente protege um casarão antigo, um documento com séculos de idade ou um trecho do meio ambiente não faz isto apenas por amor ao Passado. É também por amor ao Futuro.

O Futuro, as gerações futuras, nossos filhos e netos, precisam conhecer o mundo em que viverão, e isto inclui conhecer aqueles objetos ou espaços que tiveram uma significação especial nos tempos já vividos por outras pessoas. É possível fazer coexistirem o amor pelo Novo e o amor pelo Antigo. Que melhor exemplo disto do que as cidades da Europa e da Ásia, onde se encontram casas com séculos de idade, ruínas com milhares de anos ao lado de arranha-céus modernos?



(Cine Metrópole, Belo Horizonte)

Li certa vez uma entrevista de um escritor onde ele dizia ter visitado um moderníssimo prédio de escritórios em Londres. No andar térreo havia um saguão imenso, com uns 20 metros de altura, onde centenas de pessoas andavam em todas as direções, pegavam elevadores, etc.

No meio desse saguão, havia uma pequena capela dentro da qual cabiam talvez uns 15 pessoas. Era uma capela do século 10, construída pelos antigos habitantes daquela colina. Quando o edifício foi construído, o projeto, em vez de derrubar a capela, procurou restaurá-la e protegê-la, construindo em volta dela aquele saguão enorme.

E quando se entrava na capela, havia uma abertura no solo, que dava para uma escada de pedra, por onde se descia até as ruínas de um templo romano, muitos séculos mais antigo que a capela, que ficava por baixo dela.

Nessa imagem (edifício de 1980, capela do ano 900, templo romano de antes de Cristo) está sintetizada a noção do tempo histórico que podemos experimentar. Na História, o Novo não precisa necessariamente destruir o Antigo. Relíquias de diferentes épocas podem existir lado a lado. É só saber. É só cuidar. É só lutar para que alguém não destrua, seja por cobiça, por maldade, por descaso ou por mera desinformação.


(Uma primeira versão deste texto foi publicada no livro A Cadeia Velha de Pombal – Manifesto em Defesa do Patrimônio Histórico, org. José Tavares de Araújo Neto e Werneck Abrantes de Sousa / Pombal: 2004)









sábado, 21 de julho de 2018

4369) O Jardim das Cidades que se Bifurcam (22.7.2018)





O primeiro conto de Jorge Luis Borges publicado em inglês não saiu em nenhuma publicação acadêmica nem em algum volume hardcover das editoras de literatura erudita. Naquele tempo, nenhum curso universitário de literatura nos EUA e nenhum editor dos selos de maior prestígio já tinha ouvido falar naquele obscuro beletrista de Buenos Aires.

A honra da publicação coube a uma revista de contos policiais, o Ellery Queen’s Mystery Magazine, que sob a direção de Frederick Dannay procurava expandir os limites da literatura de mistério. Dannay publicava romances sob o pseudônimo “Ellery Queen” juntamente com seu primo, Manfred B. Lee; e editava, além da revista, numerosas antologias onde desencavava contos de crime ou de mistério escritos pelos grandes nomes da literatura.


(Frederick Dannay e Manfred B. Lee: "Ellery Queen"]

Em algumas antologias suas que tenho, aparecem nomes como os de Aldous Huxley, Mark Twain, Sinclair Lewis, Robert Graves, W. B. Yeats, Walt Whitman, Henry Wadsworth Longfellow...  Dannay era um  apreciador da grande literatura, e durante a vida inteira se esforçou para ver a literatura de crime ser também levada a sério pelos críticos.



No número de agosto de 1948 de sua revista, Dannay produziu uma edição especial intitulada “All Nations Issue”, publicando contos de autores da Inglaterra, Bélgica, Hungria, Portugal (“The Maul, the Sword and the Sharp Arrow” de Victor Palla), Rússia, França, Tchecoslováquia, Itália, Nova Gales do Sul (Austrália), Filipinas, África do Sul, Canadá e Argentina.



O conto argentino era “The Garden of Forking Paths” (“El Jardín de Senderos que se Bifurcan”), de Jorge Luis Borges, traduzido por Anthony Boucher.

Não se deve subestimar a participação de Boucher no processo, pois “Ellery Queen” (Dannay), em sua introdução a este conto, afirma:

Foi o sr. Boucher que teve a idéia de traduzir [o conto] e de persuadir o autor a submeter a história ao Terceiro Concurso Anual do EQMM. Somos gratos a esse duplo papel do sr. Boucher como parteiro de mistérios – porque de outra forma nenhum de nós teria o prazer de ler o que ele considera “um pequeno clássico”. Ao seu modo muito peculiar, [o conto] é exatamente isso – uma obra-prima em miniatura. (pág. 101)

Boucher é pouco traduzido no Brasil. Talvez tenham saído alguns contos seus, policiais e de ficção científica, em nossas revistas. Romances, só lembro de ter lido um: O Caso do Valete Amarrotado, que saiu nos áureos tempos da Editora Vecchi, no qual encontrei pela primeira vez a curiosa proposta do “xadrez quádruplo”, jogado simultaneamente por quatro pessoas.

O conto de Borges, aparentemente, foi bem recebido pelos leitores, porque voltou a ser publicado: saiu, juntamente com outros do “All Nations Issue”, na antologia de fim de ano The Queen’s Awards: 1948 (Boston: Little, Brown). Foi repetida ali a introdução de Queen, onde ele afirma a certa altura:

O Señor Borges é uma importante figura literária argentina – poeta, crítico, ensaísta e antologista. (...) Sua obra revela outro permanente subterfúgio: ele tem uma inclinação extraordinária pela falsa erudição. É capaz, por exemplo, de inventar um autor ou um movimento literário totalmente apócrifos, e depois escrever uma erudita dissertação sobre a esotérica importância desse indivíduo ou desse movimento imaginário; mas a fantasia e a sátira que ele tece com suas opiniões críticas não deixam de ter significado factual.



Como sabem os leitores, o conto é narrado na primeira pessoa por Yu Tsun, um espião chinês a serviço da Alemanha, na Inglaterra, durante a Primeira Guerra Mundial. Descoberto e perseguido pela contra-espionagem britânica, Yu Tsun pega um trem e vai a um subúrbio distante ao encontro de um sinólogo, o dr. Stephen Albert.

Depois de uma erudita discussão sobre literatura e sobre uma teoria das ramificações do Tempo, Yu Tsun assassina Albert com um tiro pelas costas. Por que? Nas últimas linhas do conto, ele explica: precisava, “através do estrépito da guerra”, comunicar ao Estado Maior alemão o nome da cidade que abrigava as tropas aliadas e que devia ser bombardeada.

A cidade era a cidade francesa de Albert, perto da fronteira belga. Seu único recurso foi matar um homem inocente que tinha este nome, sabendo que o crime sairia em todos os jornais, junto com a notícia de sua prisão; e os alemães entenderiam o recado.

A primeira publicação do conto de Borges foi em 1941, no livro El Jardín de Senderos que se Bifurcan – depois reunido com outro, Artificios, e os dois saindo em 1944 com o título conjunto e definitivo de Ficciones.

Um aspecto interessante da tradução de Anthony Boucher é que ele, por conta própria (com ou sem permissão, ou conhecimento, de Borges?) trocou na versão em inglês a palavra mais importante do conto. Uma espantosa licença tradutória que raramente vi na vida.

De fato, a palavra-chave do conto é “Albert”, nome da cidade francesa ameaçada pelas tropas alemãs e nome do personagem assassinado pelo espião. Mas no texto em inglês, o sinólogo morto por Yu Tsun chama-se Stephen Corbie. “Corbie” é outra cidade francesa, próxima de Albert. Ambas foram envolvidas na Batalha do rio Somme (1916), uma das batalhas mais sangrentas da História, com mais de um milhão de mortos.



Talvez o tradutor tenha achado que para o leitor norte-americano de 1948 a cidade de Corbie evocava mais a Batalha do Somme do que a cidade de Albert.

Robert Irwin, num dos melhores livros já escritos sobre a obra de Borges (The Mystery to a Solution: Poe, Borges and the Analytic Detective Story, Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1994), discorre longamente sobre este conto, mencionando não apenas a cidade de Albert como a figura do rei Albert da Bélgica, um personagem heróico na resistência às tropas alemãs nesse mesmo período.

A troca de “Albert” por “Corbie” é um desses pequenos mistérios literários que dificilmente serão esclarecidos; há vinte anos que tento encontrar uma pista de como foi negociada essa substituição, sem resultado.

A Batalha do Somme foi um dos pontos altos da I Guerra Mundial, e foi travada quando Borges, com 17 anos, estava morando em Genebra (Suíça) com sua família. Pode-se imaginar a impressão que terá deixado em sua memória.

E este pequeno truque literário de fornecer disfarçadamente uma localização geográfica me lembra um outro episódio desse período. Que talvez não fosse desconhecido por Borges.

Em 1914, quando começou a I Guerra Mundial (que ainda não tinha este nome, é claro), muitos artistas e intelectuais franceses se alistaram para reagir à agressão militar alemã; era uma guerra que (acreditava-se na época) duraria apenas alguns meses.


(Guillaume Apollinaire]

Em 1915, o poeta Guillaume Apollinaire, então com 35 anos, estava alistado no 38º. Regimento de Artilharia, adestrando-se para ir para a frente de batalha. Apollinaire era italiano de nascimento, descendente de russos e poloneses, mas emigrou para a França e afrancesou seu nome original. Atribui-se a ele, entre outras coisas, a criação do termo “Surrealismo”.

Enquanto treinava em seu regimento, Apollinaire recebeu uma carta de outro poeta francês, seu grande amigo Blaise Cendrars, que já estava servindo na frente de batalha. (Cendrars viria a ter, depois, uma interessante participação no Modernismo brasileiro, sendo amigo de Oswald de Andrade e outros.)


(Blaise Cendrars]

Nessa carta a Apollinaire, Cendrars, sujeito à censura de correspondência de tempos de guerra, como qualquer soldado, escreve:

Não posso te dizer onde nós estamo.
(“Je ne peux pas dire où nous somme »)

O erro proposital na última palavra (que a censura não percebeu) revela que ele estava no norte da França, justamente na região do rio Somme. Onde ele viria a perder o braço direito em combate, pouco tempo depois.


(Cendrars, por Robert Doisneau)










quinta-feira, 19 de julho de 2018

4368) Conto com final, e conto sem final (19.7.2018)




Há mil maneiras de classificar o conto, como gênero literário. Miniconto e conto longo (ou noveleta); conto concreto  e conto abstrato; conto narrativo e conto descritivo; e assim por diante, mil emparelhamentos dois-a-dois.

Charles Kiefer tem um livro bastante útil, A poética do conto / De Poe a Borges, um passeio pelo gênero (Leya, 2011) onde ele propõe uma dessas divisões polarizadas. Para ele, existem, neste sentido específico, duas variantes do conto: a variante da modernidade ocidental, e a variante da modernidade oriental.

Na modernidade ocidental, pratica-se “o conto nascido com a industrialização, filho da locomotiva e da imprensa”: o conto propriamente narrativo, em busca de um efeito intenso e concentrado, teorizado principalmente por Edgar Allan Poe. O conto com começo, meio e principalmente fim – em geral um fim espantoso, ou inesperado, ou bruscamente revelador.

A modernidade oriental não se refere à China ou Japão, mas à influência do conto russo, aquele estilo cujo mestre foi Anton Tchecov. O conto que mostra um ambiente, narra o que sucede com algumas pessoas ali e se interrompe, ou se esvai, ou se prolonga até desaparecer. Nas palavras do autor:  o conto “que abre mão do final de efeito, em nome da criação de uma atmosfera. Nessa variante, se enquadrariam autores como Franz Kafka, Katherine Mansfield e Raymond Carver, por exemplo”.

Sempre ressalvando (é claro) que a maioria dos autores, principalmente os que publicaram muito, podem oscilar (por influências e motivações diversas, ao longo do tempo) entre uma modalidade e a outra.


Há um episódio curioso no Grande Sertão: Veredas em que Guimarães Rosa, à sua maneira solerte e pretextual, teoriza um pouco sobre essas duas maneiras de narrar.

Rosa (tenho falado isto com frequência) praticou todo tipo de conto: o narrativo, o descritivo, o curto, o longo, o realista, o fantástico, o trágico, o cômico. Se a gente fizesse antologias temáticas relativas a tudo isto ele apareceria com brilho em todas.

No Grande Sertão, Riobaldo conta a certa altura (pág. 81-82 da 2ª. edição) a história de dois jagunços amigos, o Davidão e o Faustino, do bando de Antonio Dó, que fazem um pacto.

(Já começa pelos nomes: Davidão é aumentativo de Davi, um Davi metido a Golias; Faustino é um diminutivo do Doutor Fausto, um pactário de renome.)

Com medo de morrer, Davidão trata com Faustino, mediante algum ritual, dar-lhe dez contos de réis para, chegada a hora dele, Davidão, quem morra seja ele, Faustino. O outro aceita, em parte pelos dez contos, em parte porque “no poder de feitiço do contrato ele muito não acreditava”.


Seguem-se alguns combates, nenhum dos dois morre. E Riobaldo comenta ter contado esse “causo” a alguém.

Pois, mire e veja: isto mesmo narrei a um rapaz de cidade grande, muito inteligente, vindo com outros num caminhão, para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse? Que era assunto de valor, para se compor uma estória em livro. Mas que precisava de um final sustante, caprichado. O final que ele daí imaginou, foi um: que, um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão não aceitava, não queria, por forma nenhuma. Do discutir, ferveram nisso, ferravam numa luta corporal. A fino, o Faustino se provia na faca, investia, os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso, por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do Faustino, que falecia...

Portanto, o “rapaz da cidade grande, muito inteligente” era um defensor da “variante da modernidade ocidental” de um conto. Achava a idéia do pacto ótima – mas faltava nela o que? O desfecho incisivo, dramático, surpreendente. O “efeito” defendido e buscado por Edgar Poe.

Riobaldo, no entanto, comenta isso com finura oriental:

Apreciei demais essa continuação inventada. A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este mundo de outros movimentos, sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar.

Riobaldo elogia o desfecho imaginário proposto pelo rapaz urbano (visivelmente um tênue substituto do “senhor” a quem o Grande Sertão é narrado). Mas lamenta que a saída sugerida seja mais ficcional do que realista. O rapaz lhe pergunta qual tinha sido, mesmo, o fim da história dos dois.

E ele me indagou qual tinha sido o fim, na verdade de realidade, de Davidão e Faustino. O fim? Quem sei. Soube somente só que o Davidão resolveu deixar a jagunçagem – deu baixa do bando, e, com certas promessas, de ceder uns alqueires de terra, e outras vantagens de mais pagar, conseguiu do Faustino dar baixa também, e viesse morar perto dele, sempre. Mais deles, ignoro.

Ou seja: não houve desfecho dramático. O pacto ficou por isso mesmo. Na vida real não existe um clímax para o qual tudo se encaminha. Riobaldo tem consciência disso:

No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso...

As coisas acabam com menos formato, claro. Não há roteirista nem romancista “pelejando por exato”, regendo as peripécias do que acontece aqui, fora dos livros.

A literatura segue a “modernidade ocidental”; a vida de verdade rege-se pela “modernidade oriental”. Deve haver alguma lição filosófica a extrair disto, mas como estamos na vida-de-verdade, deixo a história morrer por aqui, sem sugerir um final para ela.



(ilustrações: Poty Lazzarotto)






segunda-feira, 16 de julho de 2018

4367) A casa entre as sombras (16.7.2018)




A arte de contar histórias é uma arte que se fixa como camadas sucessivas. Você tem que escutar dezenas, centenas de histórias (na infância, de preferência) até dominar mentalmente os mecanismos de “aconteceu isso, e por causa disso aconteceu aquilo”, ou “e agora, o que vai acontecer, isso ou aquilo?”, ou “enquanto isso está acontecendo aqui, aquilo está acontecendo noutro canto”...

É a sintaxe básica dos enredos, das narrativas onde existem relação de causa e efeito entre os personagens.

Quando o autor sabe que pode contar com leitores habituados a isso, ele pode comprimir um enredo como quem comprime uma mola – fazendo-o ocupar um lugar menor mas mais carregado de energia.

Um bom conto é como um romance comprimido no menor espaço possível. A gente tem a sensação de que se encostar a pontinha do dedo na página o conto dá um salto no ar e se transforma num livro de 200 páginas.

E numa fase muuuito posterior à infância o leitor chega àquele ponto em que basta uma frase inicial estalando o dedo para que ele comece a fantasiar, cheio de expectativa.


Vi um texto de Dwyer Murphy, no saite Electric Literature, comentando o trailer do filme The Big Sleep de Howard Hawks (1946). No trailer, Humphrey Bogart, vestido como Philip Marlowe, entra numa biblioteca, pede ajuda à bibliotecária, e ela lhe oferece o livro The Big Sleep de Raymond Chandler. Ele abre, folheia, e começa a ler:

Às vezes me ponho a imaginar que estranho destino me conduziu, numa noite de tempestade, àquela casa que se erguia sozinha no meio das sombras...

Essa frase não está nem no livro de Chandler nem no filme. Ela apenas sugere o sangrento confronto final, que de fato é numa casa afastada, na zona rural, numa noite de chuva. Deve ter sido escrita pelo roteirista do trailer. (Que aliás nunca é o roteirista do filme).

A frase não tem nenhum grande mérito literário, mas é uma espécie de invocação mágica para leitores de histórias de mistério. É uma frase que nos joga no território arquetípico da Narrativa Em Redor Da Fogueira (ou da lareira do clube londrino, etc. etc.).

“Às vezes me ponho a imaginar que estranho destino me conduziu...”:
É uma história na primeira pessoa; aconteceu à pessoa que a conta. Sabemos logo que pelo menos o narrador “escapou para contar a história”.

“...que estranho destino...”:
Forças invisíveis e poderosas moldaram a história. O herói pôde no máximo antevê-las e adaptar-se.

“...numa noite de tempestade...”:
A noite escura da alma, a floresta selvagem onde nos perdemos à noite, no meio do caminho desta vida. A Natureza convulsa é um dos símbolos mais antigos de um Inconsciente indócil.

“...àquela casa que se erguia sozinha...”:
A casa isolada, sem ninguém por perto; símbolo do espaço fechado, a ilha cercada de vazio por todos os lados, “onde ninguém ouvirá você gritar”.

“...no meio das sombras...”:
No meio da nossa incapacidade de pressentir o que vai acontecer, de corresponder ao que está acontecendo, de entender totalmente o que aconteceu.

O trailer pode ser visto aqui:

Se me dou o trabalho de fazer essa análise toda é porque essa frase inicial me emociona atavicamente, e dificilmente deixarei de ler (ou pelo menos tentar) um conto ou livro que comece assim.

É uma espécie de “Era uma vez...” para adultos que apreciam o romance gótico ou o conto fantástico.


E me trouxe à memória uma homenagem feita por Osman Lins em A Rainha dos Cárceres da Grécia. É um romance sobre a literatura: após a morte de uma escritora, seu companheiro lê e comenta com o leitor trechos do romance que ela deixou inacabado.

Refletindo sobre histórias narradas numa roda de amigos, ele diz:

(...) O núcleo da situação – o conto, o narrador, o ouvinte e o abrigo – permanece:

Havia sobre a mesa uma pequena lâmpada com abajur. Guarneciam a lareira um itinerário, um almanaque, o tinteiro com uma pena e meio bastão de lacre. Ele pedira dois conhaques duplos com o café e estava encolhido na poltrona. Envolvia-nos a esquisita sensação de intimidade que proporcionam as salas repousantes e silenciosas do Hotel Plaza.
– Serei importuno se lhes contar o caso? Sucedeu com um amigo do meu tio e, desde então, oitenta anos se passaram.

A citação é imaginária, unindo fragmentos de Dickens e de Maugham. Que romancista, entretanto, não reconhece aí o ofício de contar, a união com o leitor e a ânsia de ser ouvido longe do tumulto do mundo?
(págs. 80-81)

O romance contemporâneo que se pretende objetivo, seco, realista, tem incontáveis virtudes, mas há uma faixa muito grande de leitores que, como eu, gostam de ler uma história sabendo que é história, uma história que já se assume como coisa contada desde as primeiras palavras.










sexta-feira, 13 de julho de 2018

4366) Adivinhações juninas (13.7.2018)




O São João nordestino é cheio de tradições que nós conhecemos “desde a mais tenra infância” e nos acostumamos a considerar nossas, tipicamente nossas, afetivamente nossas.

O que esquecemos às vezes é que essas tradições, por mais que deixem uma marca na nossa memória afetiva (na minha deixaram muitas, e profundas) não são pessoais, são coletivas. E vêm de longe.

Por exemplo: a tradição das “moças casadoiras”, na véspera do São João, antes de irem dormir, deixar uma mesa posta para uma pessoa, na sala de jantar, com a casa fechada e as luzes apagadas. As moças ficam à espreita (alguém imagina que elas estão dormindo, por acaso?) porque reza a lenda que o “fantasma” do futuro noivo virá aparecer, atraído pela ceia.

Outro exemplo: segurar nas mãos uma bacia cheia dágua, junto à fogueira, para tentar ver o próprio reflexo à luz do fogo. Reza a lenda que se a pessoa conseguir se enxergar direito, estará viva no próximo São João. Se não, não.

Sempre racionalizei esta última superstição desse modo: se a pessoa está com saúde  e mantém a bacia firme, ela se vê refletida. Já uma pessoa que balança a bacia o tempo todo (prejudicando o reflexo) é porque está enfraquecida e pode morrer. (Uma racionalização meio tênue, mas, enfim...)

A música junina guarda essas tradições.

Como em “Advinhação” (sic), de Aldemar Paiva, gravada por Marinês:

Botei a mesa com tanta alegria,
dormi pensando e meu amor não veio...
Não veio, não veio...
E tristeza se meteu no meio...
Não quero mais saber de adivinhação,
não posso mais sofrer nem esperar em vão;
desculpe São João mais resolvi
pedir a Santo Antonio um pistolão.
(Aqui, com Marinês:

Ou no clássico eterno “Brincadeira na fogueira”, de Antonio Barros e Cecéu:

Tem tanta fogueira, tem tanto balão...
Tem tanta brincadeira, todo mundo no terreiro
faz adivinhação.
Meu São João eu não, meu São João eu não
eu não tenho alegria...
Só porque não vem, só porque não vem
quem tanto eu queria...
Danei a faca no tronco da bananeira
não gostei da brincadeira
Santo Antonio me enganou...
Saí correndo, lá pra beira da fogueira
ver meu rosto na bacia
a água se derramou!

(Aqui, com o Trio Nordestino:


São tradições nossas? Sem dúvida. Mas são nossas inclusive num sentido mais amplo, um sentido que nos aproxima de culturas e épocas muito diferentes. São de todos. Nossa festa junina assimilou rituais antigos que em princípio nada têm a ver com ela.

Na minha antologia Detetives do Sobrenatural (Casa da Palavra, 2014) incluí o conto de Manly Wade Wellman “A Ceia Silenciosa” (“Dumb Supper”, 1954). É uma aventura do seu “detetive do sobrenatural”, John the Balladeer: um cantador repentista que trazendo às costas seu violão com cordas de prata anda pelas estradas dos Montes Apalaches, defrontando-se com mistérios do outro mundo.

Wellman (1903-1986) era profundo conhecedor do folclore e da cultura popular dos EUA, e utilizava esse material em seus livros.

No conto, John the Balladeer se perde na floresta à noite, durante uma tempestade, e acaba chegando a uma casa misteriosa onde encontra uma mulher jovem, que está com uma mesa posta para uma pessoa. John acabou de ouvir, na vendinha do vilarejo, uma história sobre um crime acontecido ali, anos atrás. E a mulher lhe pede que empunhe o violão e cante, para chamar alguém.

Mas eu não conseguia parar de olhar para o modo como ela tinha arrumado aquela ceia silenciosa. Sabendo que ninguém fazia mais aquele tipo de coisa, e tendo ouvido falar nela naquela mesma noite, eu estava maravilhado em encontrá-la. Minha mente ficou repassando o que tantos professores diziam sobre esses costumes, que eram coisas provenientes da Velha Europa, em que ceias silenciosas eram preparadas no início dos tempos. (p. 146)

O “noivo” acaba aparecendo; há um desfecho terrível em que o crime antigo acaba se esclarecendo, mas para mim o grande detalhe do conto é a tradição de preparar a ceia para atrair o “fantasma”.

Virando a página:

Somerset Maugham (1874-1965) é para mim um dos grandes contadores de histórias da língua inglesa. Seu conto “Honolulu” (1921) se passa no Havaí, onde o narrador conhece um jovem capitão de navio e sua bela namorada.

O capitão conta que tempos atrás o imediato do navio se apaixonou pela namorada dele (que viajava a bordo), e botou-lhe um feitiço no qual ele, sendo ocidental, se recusava a crer. A namorada (que era havaiana, como o imediato) insistia com ele: enquanto o imediato estivesse vivo, o feitiço estaria funcionando – e ele acabaria morrendo.

A moça então explica ao capitão que se o sujeito

... fosse persuadido a olhar dentro de uma cabaça, cheia de água a ponto de produzir um reflexo, e esse reflexo fosse destruído ao se agitar a água, ele morreria, como se tivesse sido atingido por um raio; porque aquele reflexo é a sua alma.

Assim é feito, o imediato morre, e o capitão escapa.

Nem vou entrar aqui no gigantesco capítulo antropológico do uso da imagem como equivalente da alma ou da vida: a imagem no espelho, a imagem na fotografia, a imagem num pequeno boneco.

Volto ao ponto anterior: essas tradições são nossas porque são de todos. De todos os lugares e de todas as épocas. Antropólogos não têm feito outra coisa, de James Frazer a Lévi-Strauss, senão traçar esses mapas comparativos de imagens recorrentes. Tão recorrentes que fizeram C. G. Jung propor a teoria de um “inconsciente coletivo” que alimentaria todas as culturas humanas, como um profundo lençol freático de coisas que nos emocionam antes que sejamos capazes de explicá-las.












terça-feira, 10 de julho de 2018

4365) Os meninos e a caverna (10.7.2018)




A história dos garotos tailandeses de um time de futebol que ficaram presos nas cavernas durante vários dias chamou a atenção do mundo inteiro.

A gente não sabe o que admirar mais: se a serenidade e a fibra dos garotos e do técnico, que aguentaram firme esse tempo todo, no escuro e no frio: se a coragem e o esforço das dezenas de mergulhadores que se revezaram nos túneis submersos (um deles acabou morrendo); se a solidariedade do governo local e dos agricultores da região, que perderam suas plantações, inundadas pelo esforço de retirar água da caverna, mas não se queixaram.

Como sempre tem alguém querendo punir alguém, muita gente quis botar a culpa no técnico, que teria levado os garotos para uma “roubada”, por imprudência.

Pelas matérias que li, o técnico e vários dos meninos já tinham feito, sem sustos, essa mesma exploração das cavernas. É uma espécie de rito de passagem para eles. A intenção era levar um dos meninos, que estava aniversariando, para inscrever seu nome numa parede remota no fundo da caverna, como outros já tinham feito.

É uma bravata? É, sim. Corre-se um risco? Corre-se. Não acho que seja um risco maior do que fumar cigarro e beber álcool – riscos que eu corro, sabendo o que estou fazendo, sabendo que posso morrer por causa disso. Cada um escolhe os perigos que quer enfrentar.

No Nordeste, para quem mora perto de açudes, existe um desafio tradicional: mergulhar até o fundo do açude e emergir com a mão cheia de barro – para provar que se tocou o fundo. É um risco? É uma bravata? Sem dúvida. Garotos e garotas já morreram afogados por causa disso – ficaram enredados em plantas, ou sei lá o quê.

Chegar na fronteira da morte é uma bravata que jovens do mundo inteiro praticam, desde que o mundo é mundo. Pesando os dois lados da coisa, minha constatação é de que poucos estavam tão bem preparados para isso quanto os “Javalis Selvagens”, nome do time de futebol dos garotos.

É um rito de passagem.

Me veio à mente o belo livro de Alan Garner The Stone Book (1976). É a história de uma menina cujo pai trabalha nas pedreiras, na região de Cheshire (Inglaterra). Numa cena perto do fim do livro, o pai conduz à menina ao interior de uma caverna e dá-lhe instruções sobre o que fazer, quando chegam a uma abertura muito estreita.

Ali, o pai se detém, porque não pode passar; a menina entra sozinha, fica de pé num espaço apertado, e ali encontra marcas feitas por crianças de séculos atrás.

Ela entende que quando se tornar adulta não poderá entrar mais ali, porque estará grande demais e não poderá passar pela abertura – como seu pai não passou, e ele tinha entrado ali quando era menino. É um espaço simbólico a que só se tem acesso na infância, e que se perde ao virar adulto.

Histórias assim têm um significado profundo, e não duvido que na cultura dos garotos tailandeses esse tipo de coisa seja levada a sério.

Nós, que levamos a sério tantos rituais idiotas da vida social urbana, que direito temos de achar que eles estão fazendo bobagem?

Cavernas, grutas e passagens subterrâneas têm um poder simbólico muito grande na cultura dos povos que vivem na sua proximidade.

Perto de Campina Grande, milhares de pessoas se arrastam todos os anos por baixo da Pedra de Santo Antonio, inclusive moças que tentam com isso arranjar um casamento. Se arranjam ou não, não sei, mas qualquer pessoa pode fazer o mesmo, e me lembro dos brilho nos olhos da minha mãe quando voltava para Campina depois de praticar essa pequena façanha.

Não é por acaso que um dos primeiros contos publicados por Guimarães Rosa, Makiné (1930) transcorre na gruta desse nome, que fica nas proximidades de Cordisburgo, sua terra natal.

No conto, um mago fenício tenta controlar os selvagens “peles vermelhas” locais, entra em choque com eles e é forçado a se refugiar no interior da gruta:

Numa cripta escura do algar, o mago procurou o orifício bem seu conhecido, que descia alguns côvados como um poço, para mudar logo depois de direção, escavando-se em comprido corredor horizontal. No fim dessa galeria jaziam os diamantes de Summér, o “Sumé” dos vermelhos.

Gruta que ele já havia celebrado num dos poemas de seu livro Magma (1936; publicado em 1997):

Bafio quaternário. O preto
da imensa noite, anterior ao mundo,
com pesadelos agachados
e pavores dormindo pelos cantos,
enrolados nas caudas de gelatina fria,
vem comprimir o peito e os olhos.
E ao acendermos as velas e as lanternas,
a treva se retrai, como um enorme corvo,
das paredes paleozóicas,
salitradas.
("Gruta de Maquiné")

Quem mora em região de cavernas é como quem mora em região de rochedos, região de rios. Tem com essas coisas uma relação que por um lado é simbólica, por outro lado anímica.

Muito mais perigo do que os garotos tailandeses correm os turistas brancos sedentários que uma vez por ano resolvem saltar de “bungee jump”. (É um direito deles, também; e quem sou eu para dizer que não façam.)

Ainda no capítulo dos romances, uma expressão que me veio várias vezes à mente durante este episódio foi o título do belo romance juvenil de Susan Cooper, o primeiro dos cinco que compõem a série “The Dark is Rising”: Over Sea, Under Stone (1965).

“Acima do mar, por baixo da rocha”. É o ambiente claustrofóbico das grutas à beira-mar, espaços às vezes ocos, às vezes inundados, onde só se pode penetrar com segurança em certos períodos. No livro de Susan Cooper, três garotos mergulham ali para descobrir uma espécie de Graal ou objeto sagrado que lhes foi revelado num mapa.

Toda iniciação envolve um risco. O mergulhador que morreu durante as tentativas de salvamento sabia o risco que estava correndo, e tenho certeza de que não se arrependeria.

Talvez a pior coisa que tenha acontecido aos garotos dos “Javalis Selvagens” tenha sido a fama repentina, a exposição à mídia, a badalação. Uma coisa que me parece totalmente contrária ao espírito budista que eles cultivam.

Em toda iniciação se paga um preço, e torço para que esse preço a ser pago pelos meninos não se revele mais alto do que eles poderão pagar pelo resto da vida. 










sábado, 7 de julho de 2018

4364) Outra vez Matraga (7.7.2018)



Sagarana foi escrito no Brasil, reescrito na Alemanha, quando Guimarães Rosa era diplomata. Ele próprio relata, num texto importantíssimo escrito para os arquivos do jornalista João Condé, e recolhido por sua filha Vilma Guimarães Rosa em Relembramentos (Nova Fronteira, 1983):

O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez).

Como receita não pode haver melhor. Basta apenas lembrar que a primeira versão é a que perdeu um concurso literário em 1938, porque Graciliano Ramos votou contra. E Rosa, depois, deu-lhe razão: o livro ainda estava “verde”.

Comentando o livro do colega, Graciliano (num texto recolhido em Em Memória de João Guimarães Rosa, José Olympio, 1968) dizia, da nova feição do livro Sagarana em sua primeira edição oficial:

Eliminaram-se três histórias, capinaram-se diversas cousas nocivas. As partes boas se aperfeiçoaram: “O Burrinho Pedrês”, “A Volta do Marido Pródigo”, “Duelo”, “Corpo Fechado”, sobretudo “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, que me faz desejar ver Rosa dedicar-se ao romance. (p. 44)

Guimarães Rosa afirmou que todos os contos desse livro buscavam uma forma específica de expressão, que ele foi descortinando aos poucos, conquistando por todos os flancos, e que surgiu pronta na derradeira história. “Matraga”, o último texto do primeiro livro, seria, por este julgamento, o primeiro texto a empregar todos os recursos de que o escritor já se sentia capaz.

A história tem um desenho simples. Nhô Augusto Esteves é um homem sem empatia, que pratica maldades cercado de capangas. Trata com desdém a esposa e a filha, vive raparigando, bebendo. Até que um dia se mete com um coronel poderoso, leva uma surra homérica, é dado como morto.

Oficialmente desaparecido, é recolhido por um casal pobre, tem uma sofrida convalescença durante a qual torna-se religioso, rezador, trabalhador. O oposto completo do que tinha sido antes. Com o casal de pretos velhos, emigra, vai morar num povoado distante; e os anos se passam.

Na sequência final, testemunhando uma injustiça de um chefe jagunço contra uma família de pobres, volta a ser o valentão que fora e volta a pegar em armas, mas agora em defesa de um ideal nobre.


Robert Heinlein gostava de resumir numa frase os enredos básicos das narrativas de ficção (não apenas da ficção científica). Um dos seus resumos favoritos era: “A man learns better”, um cara aprende uma lição. Ou seja: um sujeito obstinado, cascudo, cheio de si, sofre uma rebordosa. Essa crise de grandes proporções pulveriza suas certezas e o obriga a se recompor – mas agora em outros termos. Obriga-o a se recriar.

Essa é a narrativa básica de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”.

Como bonecas russas umas dentro das outras, vemos que o Augusto rezador, pequenininho, já estava dentro do Augusto valentão. Vinha desde a infância, através da avó que o encorajava a rezar. Quando o valentão entra em crise, vai sendo recoberto por fora pela capa de um novo Augusto, que repete fanaticamente o mantra ensinado por um padre: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso!”

Quem assistiu a magnífica adaptação de Roberto Santos para o cinema, de 1966, deve lembrar o ator Leonardo Vilar (em sua hora e vez, e melhor momento da carreira) orando essa pequena prece até gritá-la furioso.

E o que começa a brotar ali é a síntese final entre o Augusto brabo e o Augusto manso e humilde de coração. Nesse momento de conversão na marra, ele brada a frase que ficou famosa:  “P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!...”.

O primeiro encontro com os jagunços comandados por Joãozinho Bem-Bem ajuda a ressurgir em sua alma a força masculina, yang, que estava adormecida. Ele recorda seus tempos de brigador, dos quais ao mesmo tempo se envergonha e sente saudade, como quando se lamenta junto à preta velha que o adotou:

E eu já fui zápede, já pus fama em feira, mãe Quitéria! Na festa do Rosário, na Tapera... E um dia em que enfrentei uns dez, fazendo todo-o-mundo correr... Desarmei e dei pancada, no Sergipão Congo, mãe Quitéria, que era mão que desce, mesmo monstro matador!... E a briga, com a família inteira, pai, irmão, tio, da moça que eu tirei de casa, semana em antes de se casar?!...


Os jagunços vão embora mas o olho clínico de Joãozinho Bem-Bem o faz convidar Nhô Augusto para juntar-se ao bando, o que ele agradece mas recusa. Ainda não está pronto.

O tempo vai passando e um dia ele acorda vendo as maitacas em migração, aves ruidosas nas quais ele vê um sinal. Que está na hora de partir. Para onde? Ele não sabe.

Sagarana é um livro onde os personagens estão o tempo todo em movimento, viajando, passeando, migrando, fazendo aquelas intermináveis viagens a burro, a pé ou a cavalo, ao longo das quais acontecem variadas coisas e se encontram personagens aleatórios. Nhô Augusto deixa-se conduzir pelo jumentinho, deixando que ele decida:

E aí o jumento andou, e Nhô Augusto ainda deu um eco, para o cerrado ouvir:
– “Qualquer paixão me adiverte...” Oh coisa boa a gente andar solto, sem obrigação nenhuma e bem com Deus! (...)
E também, nas encruzilhadas, deixava que o bendito asno escolhesse o caminho.  (...) Mas, somadas as léguas e deduzidos os desvios, vinham eles sempre para o sul, na direção das maitacas voadoras. (...)
– Não me importo! Aonde o jegue quiser me levar, nós vamos, porque estamos indo é com Deus!

E a esta altura um Deus está conduzindo Matraga, por linhas tortas, para sua hora e vez, para o encontro com seu destino. Esse Deus o leva de volta aos arredores do arraial do Murici, onde a história começou. E é um Deus diferente do Deus de todo mundo. Matraga transformou-se num ronin, um samurai errante, sem tropa e sem patrão. E o seu deus é um Deus guerreiro:

...num sonho bonito, no qual havia um Deus valentão, o mais solerte de todos os valentões, assim parecido com seu Joãozinho Bem-Bem, e que o mandava ir brigar, só para lhe experimentar a força, pois que ficava lá em-cima, sem descuido, garantindo tudo.

Reencontrando os jagunços, Nhô Augusto reata por minutos a amizade mas logo se pôe em confronto, para impedir que Joãozinho Bem-Bem, que quer vingar um capanga morto à traição, cometa uma crueldade contra uma família indefesa. Trava-se o combate, e o narrador onisciente já começa a transferir a história para o plano da lenda futura, ao usar o ponto de vista do povo que assiste tudo:

E aí o povo encheu a rua à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes.

E ele garante que a história seja bem contada, trazendo um figurante crucial, “o João Lomba, conhecido velho e meio parente”, que reconhece Nhô Augusto, ouve suas últimas palavras e garante que a identidade do herói seja corretamente atribuída.

“Matraga” tem sido descrito como uma parábola de redenção, uma jornada de transcendência. Eu o vejo às vezes como uma briga de um indivíduo com a violência em si mesmo, uma briga simbolizada no filme de Roberto Santos pela cena (ampliada a partir de uma ceninha de nada no livro) em que Nhô Augusto domestica um cavalo, um “poldro bravo” e rebelde.

Em momento algum ele deixa de ser violento. Quando está em desespero, sai embaixo de chuva para o mato, de machado em punho, e tome a derrubar troncos. Ele é um homem feito para a violência, e só na violência encontra sua redenção final. Só que desta vez uma violência com propósito; e com sacrifício, porque é o confronto com um amigo a quem admira.