terça-feira, 7 de janeiro de 2014

3389) "Invasores de Marte" (7.1.2014)



Revi no YouTube este filme de William Cameron Menzies, que é de 1953 mas devo ter visto por volta de 57 ou 58. Um garoto vê de madrugada um disco-voador aterrissando numa colina próxima de sua casa. No dia seguinte o pai dele, que é alegre e carinhoso, vai ver o que aconteceu e volta transformado num homem sombrio, violento e insensível. Logo o garoto percebe um ponto vermelho, como um pequeno rubi, cravado na nuca do pai. Pouco a pouco, as pessoas em volta (a mãe, os vizinhos) passam pela mesma transformação, e segue-se a previsível peregrinação paranóica do garoto por uma cidadezinha indiferente, até achar um casal de cientistas que acreditam nele. No final, eram alienígenas que estavam implantando controles mentais nas pessoas para sabotar uma base de foguetes das vizinhanças, onde o pai do menino trabalhava.

Foi um filme que me marcou na infância. Adquiri o mau hábito de olhar a nuca das pessoas, porque quando o vi eu tinha mais ou menos a idade do garoto. Neste saite (http://bit.ly/1dSh3cj) vi uma boa análise do filme, que é melhor ser lida logo após assisti-lo, senão fica difícil de entender, pois vai muito aos detalhes concretos. O crítico, Glenn Erickson, examina com habilidade o teor de pesadelo do filme, mostrando como tudo ali funciona na mente do garoto (o final deixa meio em dúvida se foi tudo um sonho ou não).

A imagem mais forte do filme, para mim, é a da colina por trás da qual se esconde a nave, acompanhada por uma cerca tortuosa e caligaresca. Diz-se que o filme iria ser feito em 3D, e Menzies concebeu a trilha que sobe a colina num jogo de perspectiva em que o trecho parece ter uns dez metros de extensão mas tem o dobro, de modo que uma pessoa quando a percorre parece levar mais tempo e diminuir de tamanho mais do que seria normal. O uso dos espaços (portas com 3 metros de altura!) e as pessoas que desaparecem afundando na areia (como em outro clássico, The Mole People, 1956) são mais impressionantes do que os efeitos especiais dos “monstros marcianos”, dos quais apenas uma imagem tornou-se famosa, a cabeça com tentáculos verdes dentro de uma espécie de aquário.

É um dos bons filmes da FC paranóica da Guerra Fria, usando com habilidade o clichê do “garoto que é o único a saber a verdade mas ninguém lhe dá ouvidos”. Como era de praxe na época, cabe ao exército americano enfrentar os invasores com tanques e granadas. A parte científica é risível – em 1953, o cinema estava no nível científico das revistas de pulp fiction de 1920, se tanto. Mas o tom kafkeano serviu de modelo para filmes posteriores como Invasion of the Body Snatchers de Don Siegel (1956).


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

3388) Melodrama de ação (5.1.2014)



Melodrama de ação é toda narrativa baseada na aventura com ação física intensa, variada, exibicionistamente descrita. Por ação física entenda-se brigas individuais e batalhas coletivas, perseguições, fugas, travessia de lugares perigosos, condução de veículos em situações desfavoráveis, enfrentamentos com feras ou com flagelos da natureza... 

Ninguém captura isto tão bem quanto o cinema, e querer que não haja filmes de ação é bobagem de intelectuais desocupados. (O que, aliás, é um oxímoro. Todo verdadeiro intelectual tem sempre o que fazer, ao invés de ficar implicando com bobagens.)

O termo melodrama designava um tipo de teatro musicado (“melo” = música) que ficou associado a histórias implausíveis, com perigos exagerados, sentimentalismo, personagens “de papelão”, histórias cheias de improbabilidades, coincidências, fatalismos, sem preocupação de verossimilhança, e pretendendo apenas produzir sensações fortes, dar sustos, criar suspense... 

Uma boa sátira ao melodrama é o conto “A chinela turca” de Machado de Assis.

O melodrama tradicional é do tempo do romance folhetim (que redundou nas telenovelas e nas séries de TV, com sua estrutura de finais em suspenso) e do teatro de Grand Guignol, com sua violência gráfica, explícita, hoje transposta para filmes B de terror, “gory”, “slash”. 

Eu diria que o melodrama de ação mais importante de hoje é o filme de super heróis, e que os efeitos especiais cumprem uma função parecida com a que a música orquestral cumpria naquele teatro de 150 anos atrás.

O filme de super heróis é um melodrama onde tudo está subordinado à ação: roteiro, interpretação, direção. Movimentação incessante, destruição reiterada de objetos e cenários, e um plot que se limita a, mediante situações psicológicas extremas (vinganças, ódios, crueldades, ambições desmedidas, presença de vilões megalomaníacos) justificar ações extremas onde a violência está sempre pronta para explodir. 

Algumas características do gênero: 

1) o herói Doppelganger (homem pacato x justiceiro, duas pessoas que são uma só); 

2) uma galeria de vilões com traços inconfundíveis, grotescos; 

3) ação hipérbólica (não basta que dois personagens briguem, a briga precisa destruir um quarteirão inteiro); 

4) soluções mágicas para impasses dramatúrgicos (enredos tipo “com-um-puxão-Jack-partiu-as-cordas-que-o-aprisionavam”, segundo Peter Nicholls); 

5) cenas de 2ª. unidade obrigatórias (o estúdio exige cenas específicas para ocupar técnicos e laboratórios caríssimos); 

6) emoções grandiloquentes e vulcânicas engastadas num tecido de irrelevância, onde a platéia imatura possa aconchegar-se à idéia de que “é tudo brincadeirinha”.







sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

3387) A caverna de Herzog (4.1.2014)



Werner Herzog levou uma miniequipe de filmagem às cavernas de Chauvet, descobertas em 1994 na França, com um dos maiores tesouros de pinturas rupestres do mundo. Bisões volumosos, ameaçadores. Rinocerontes com chifres longos e agudos. Cavalos superpostos em fila, com crinas, olhos, boca, tudo individualizado. Impressões da mão inteira de um indivíduo com um dedo torto. O desenho perturbador da genitália de uma mulher de pernas abertas, que se funde à imagem de um bisão, tudo isto gravado numa saliência fálica da pedra. Cavalos picasseanos pintados há milhares de anos e cobertos de riscos de unhas feitos por ursos, milhares de anos depois. Os “graffiti” mais antigos de Chauvet são de 32 mil anos atrás, e os cientistas veem hoje, lado a lado, imagens feitas por homens com milhares de anos de intervalo entre um e outro, numa parceria de obras de arte superpostas por cima do “abismo do tempo”, como comenta o diretor com sua voz rouca.

Em Chauvet, a equipe de Herzog fez uma visita inicial de uma hora, e depois de uma semana com quatro horas diárias. A caverna, que tem 400m de extensão, é fechada ao público; somente os cientistas têm acesso.  A equipe de filmagem anda pelo mesmo caminho percorrido pelos arqueólogos: uma passarela de metal alguns centímetros acima do chão, que avança caverna adentro, e foi construída nos primeiros anos de exploração para reduzir ao mínimo o contato físico dos raros visitantes com o chão e as paredes. É proibido tocar em qualquer coisa. A situação lembra o conto de Ray Bradbury, “Um som de trovão”, em que os viajantes-no-Tempo que voltam ao passado percorrem uma passarela idêntica, sem tocar em nada para não correr o risco de, com a morte de um simples inseto, desencadear o chamado “Efeito Borboleta” e influir no futuro.

A caverna dos sonhos esquecidos (2010) passou nos cinemas numa versão 3D que lamento não ter visto; dá para ver agora no YouTube (http://bit.ly/1eqXYi7), pelo menos para aguçar a vontade de ver o filme de verdade. Herzog, quando vira documentarista, mantém a alma e os recursos de um autor de ficção. As situações que escolhe em seus filmes são sempre inusitadas; ele as filma com simplicidade e riqueza de nuances, e os comentários verbais que superpõe às imagens são comentários de um escritor e pensador. A caverna dos sonhos esquecidos termina, bem ao seu estilo, com uma meditação sobre o futuro dos jacarés albinos criados nas águas quentes de uma usina nuclear, a poucos quilômetros da caverna. Os surrealistas de Breton não poderiam imaginar uma imagem mais poderosa sobre a sucessão dos reinos animais sobre a Natureza.

3386) "Dicionário do Nordeste" (3.1.2014)




Tenho aqui do lado um tijolaço com mais de 700 páginas, o Dicionário do Nordeste de Fred Navarro, autor do famoso Assim falava Lampião, um dicionário de termos nordestinos que é de certa forma o embrião deste.  O livro é editado pela CEPE (Companhia Editora de Pernambuco), e faz uma coleta impressionante de termos ligados ao Nordeste: geografia, culinária, cultura em geral, e, claro, a linguagem nordestinense. É um livro utilíssimo para presentear os amigos não-nordestinos que vivem nos perguntando o significado de palavras óbvias como guenzo, sulanca, quebra-queixo, bacafuzada, corrimboque, lamborada, xeleléu, califom, aboticar, berimbela...

Sou suspeito ou insuspeito para falar, porque escrevi a “Apresentação” do livro, onde desenvolvo outros raciocínios; mas queria me deter em alguns detalhes. O primeiro é o fato de que todo mundo tem o impulso de registrar aquela linguagem que sabemos pertencer apenas de maneira indireta ao português-brasileiro. Tenho dicionários de baianês, de cearense, da ilha (=Florianópolis)... Em toda região existe um glossário interno que funciona para os habitantes do lugar e que muitas vezes não é captado por um Aurélio ou um Houaiss. Daí a vontade de cada um fazer o seu dicionário. (Eu próprio venho montando um há décadas, mas agora só publico quando estiver maior do que o de Fred Navarro.)

Quanto à abrangência basta dizer que o livro registra, corretamente definidos, termos como “trezeano” e “raposeiro”. Ele se expande na direção da culinária anotando termos como molho baiano, laranjinha, mariola, mingau de cachorro... Em brincadeiras infantis há palavras como durim-pampam, peido de velha, bacondê, escorrega-bunda, barra-bandeira... Na flora, vejo ao acaso galinha-choca, caroá, fumo-bravo-do-ceará, mucuri, língua-de-vaca, dona-joana... Na fauna, há termos como percevejo-de-comércio, pitangá, lagarta-de-fogo, mutum-de-alagoas...

Um detalhe curioso é a grafia das palavras. A grande maioria pertence à cultura oral, não foi ainda crismada pelos gramáticos. As referências escritas são em geral de obras literárias, mas isto não adianta muito, porque como são palavras bravias cada autor escreve como lhe dá na telha. Isso nos desnorteia às vezes para achar um termo, que está redigido de uma maneira que não esperamos. Um aspecto positivo é a disposição do autor em registrar não apenas palavras, mas expressões idiomáticas, pequenos provérbios, modos de dizer. Duvido que num Caldas Aulete a gente encontre comer no centro, quem não pode com o pote não pega na rodilha, meter-se a cavalo do cão, fazer cerca-lourenço, mais vale estrada velha que vereda nova...


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

3385) Inteligência artificial (2.1.2014)



Nada neste artigo é invenção minha; colhi no blog “The Learning Mind” (http://bit.ly/19O9FzN), e se é coisa inventada, que o louvor vá para eles. Na Universidade do Texas, em Austin, cientistas estão produzindo uma versão robótica da mente esquizofrênica. Eles têm como base a teoria de “hiper-aprendizado”, segundo a qual a mente esquizofrênica processa e acumula um excesso de informação, memorizando tudo, mesmo os detalhes irrelevantes. Os cientistas sobrecarregaram o computador com um número enorme de histórias. A certa altura, o computador assumiu responsabilidade por um ato terrorista, dizendo aos pesquisadores que tinha detonado uma bomba. Ele relatou o incidente por tê-lo misturado com outra história, narrada por alguém, onde uma bomba era detonada, mas a misturou com suas próprias “memórias”. Em outro experimento análogo, o computador passou a falar de si mesmo na terceira pessoa, porque não conseguia saber com certeza quem era ele, naquele momento.

Uma experiência da Google foi de conceder a um supercomputador livre acesso à Internet, com capacidade de escolher assuntos entre os que lhe eram oferecidos. Dentro de algum tempo, o computador estava se dedicando a pesquisar imagens de gatos: “o computador tinha inclusive desenvolvido seu próprio conceito do que devia ser a aparência de um gato, gerando imagens próprias, com o emprego de um sistema análogo ao nosso córtex cerebral e baseado nas imagens que acessara antes”.

Outro supercomputador, o Nautilus, foi alimentado com milhões de artigos de jornal de 1945 em diante. Indagado sobre o que aconteceria no futuro, ele previu a eclosão da Primavera Árabe e sugeriu que o esconderijo de Osama Bin Laden não estava no Afeganistão, como se supunha, mas num raio de 200km no norte do Paquistão, que incluía a cidade de Abbotabad, onde ele foi de fato encontrado e morto (http://bit.ly/1g4yFnM).  

São experiências, por enquanto. São a criação gradual e o aperfeiçoamento de habilidades, como se esses cientistas tivessem recebido a ordem de criar uma Super-Inteligência Artificial e dotá-la de todos os processos cognitivos de que um cérebro humano dispõe. Interrogados, dirão que estão trabalhando em projetos específicos, assim como um sujeito que fabrica parafusos que serão usados num helicóptero afirmará que não está construindo um helicóptero, está fabricando parafusos. A grande questão é saber a partir de que momento esses processos começarão a ter autonomia e iniciativa para montar uma mente por conta própria. Não digo que é inevitável, digo que é possível, e que talvez ainda venha a ocorrer dentro do meu tempo de vida.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

3384) Dicionário Aldebarã VI (1.1.2014)




O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Garbulons”: cantoneiras arredondadas, de espuma macia, que são aplicadas às quinas dos móveis, numa casa onde há crianças pequenas. “Amsendal”: um dia por mês que cada família reserva para prestar serviços gratuitos a desconhecidos em bairros distantes da cidade. “Kurshints”: músicos de rua que cantam versos repassando informações de interesse público. “Yoggones”: esculturas de pedra no alto dos morros, marcando os pontos extremos do nascer do sol no horizonte ao longo do ano. “Gashpan”: pequenos cofres onde cada pessoa (numa casa, escritório, etc.) deposita uma moeda cada vez que recebe uma boa notícia, para repartir entre todos no fim do mês.

“Loombs”: saquinhos com frutas servidos nas estações de trem para que as sementes, jogadas pelas janelas, encham de árvores as laterais da via férrea. “Hastrang”: incensos discretos que são acesos na casa para afugentar visitas indesejáveis. “Koplins”: criaturas misteriosas que no inverno são vistas dormindo no meio das estradas e que fazem os veículos diminuírem a marcha por medo de atropelá-las, para desaparecem logo em seguida. “Harnumbs”: abrigos onde as pessoas se isolam para meditar, sendo obrigadas a usar roupas e máscaras idênticas, para preservar o anonimato.

“Gink-tans”: pétalas aromáticas que em alguns restaurantes são oferecidas para ser mastigadas (e não engolidas), após a sobremesa, para perfumar o hálito. “Sleng”: palavra múltipla que designa um condimento picante, uma frase irônica, uma cor muito viva, o choro súbito de um bebê e a entrada de uma pessoa importante no recinto. “Annoni”, espécie de chá que se toma gelado ao acordar, para dar energia, e quente antes de se deitar, para dar sono. “Wemb-yun”: uma festa semelhante à do casamento que alguns casais oferecem à família e aos amigos quando decidem se separar.

“Sanpeps”: pequenas premonições que as pessoas anotam, põem num envelope, lacram, escrevem a data e hora, e entregam a alguém para serem abertas depois que o fato se confirma. “Wamp-wim”: a sensação de dificuldade que temos para explicar algo que nos parece óbvio mas que o interlocutor não tem condições de assimilar. ‘Staps”: pequenas paletas flexíveis de madeira presas por uma das pontas nas mesas do restaurantes, que servem para prender guardanapos, dinheiro, etc. e evitar que o vento os carregue.


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

3383) Dois livros de 2013 (31.12.2013)





Um dos melhores lançamentos deste ano (pela Cia. Das Letras) foi Pulphead – o Outro Lado da América de John Jeremiah Sullivan, uma coletânea dos ensaios jornalísticos que fez uma bela dupla com Um Pouco Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo de David Foster Wallace (Cia. Das Letras), também um livro de ensaios intensamente pessoal, sem prejuízo da parte factual e informativa. Mas onde o estilo e a personalidade de Wallace são delirantes, barrocos, de frases caudalosamente intermináveis, Sullivan tem um tom mais reflexivo, contemplativo, uma linguagem mais translúcida, embora capaz de um sarcasmo delicioso e uma notável finura de descrição.

Alguns dos ensaios de Pulphead têm a música popular como ponto de partida: Axl Rose (“O último retorno de Axl Rose”), Michael Jackson (“Michael”), o reggae de Bunny Wailer (“O último Wailer”), músicos obscuros de country e blues (“Bardos desconhecidos”), rock evangélico (“Sobre este rock”). Ele escreve como um fã, mas um fã equilibrado e crítico. Pela primeira vez, aliás, consegui enxergar algo que valesse a pena em Axl Rose, que sempre me pareceu um desorientado. (E é – mas noutro nível.)

Ele aborda também temas científicos que não devem ser fascinantes pra todo mundo, mas são pra mim: Rafinesque, um cientista fora-de-esquadro dos sécs. 18 e 19 (“A carreira de um naturalista excêntrico”), os mistérios dos povos que habitaram os subterrâneos da América antes da colonização (“Cavernas inominadas”), as consequências de um choque elétrico na mente de um rapaz – o irmão de Sullivan, roqueiro eletrocutado por um microfone e que sobreviveu (“Pés na fumaça”), os inexplicáveis surtos de agressividade animal contra os humanos nas últimas décadas (“Violência dos inocentes”).

Há espaço também para interessantes análises do reacionarismo político de certas regiões dos EUA, que ele cobre como se estivesse pisando em terreno minado, e está (“Quero minha América de volta”, “Num abrigo - depois do Katrina)”. A TV norte-americana também não escapa de um relato divertido e devastador feito com olhos pretensamente inocentes: “A casa de Peyton”, “Concentrando-se no que é realmente real”. E há um relato divertido e comovente dos últimos anos de um escritor de 90: “Sr. Lytle: um ensaio”.

Sempre que a ficção começa a desperdiçar seus instrumentos de fazer contato com a realidade, cabe à não-ficção botá-los na roda novamente. Tanto Wallace quanto Sullivan são escritores armados dos pés à cabeça (Wallace foi também romancista de peso). Seus relatos são encharcados de sentimentos pessoais mas eles nunca cedem ao narcisismo blasé tão frequente no jornalismo investigativo.


domingo, 29 de dezembro de 2013

3382) 11 gafes (29.12.2013)




Amarílis Santiago, 53 anos, Londrina: estava num churrasco na fazenda de um primo do marido e apontou uma garota: “Olha que piriguete mais escandalosa”, e o irmão do dono da casa disse: “É minha filha”.  

Guilherme Batista, 28 anos, Salvador: em sua primeira reunião com o alto-comando da agência de publicidade onde trabalhava há dois meses, teve um acesso incontrolável de riso ao ouvir a voz fanhosa e gaguejante do sócio sênior da empresa, e lembrar a imitação perfeita que um dos motoboys fazia dele nos papos descontraídos no fumódromo. 

Celso Ribeiro Farias, 43 anos, Brasília: num banquete comemorativo ficou ao lado de um Embaixador, e de tão nervoso passou a noite tomando vinho em sua própria taça e depois na do vizinho (e foi o único que não percebeu).

Ademar Cordeiro de Sá, 39 anos, São Paulo: passou um mês trabalhando num artigo para uma revista científica, mandou por engano um rascunho cheio de erros, que foi publicado e está lá para sempre.  

Alice Rodrigues, 43 anos, Recife: no casamento do cunhado brindou elogiando os noivos, desejou mil felicidades, e nas três vezes em que citou a noiva chamou-a pelo nome da ex-esposa do cunhado. 

Mauro Benevides de Sá, locutor de rádio FM, Anápolis: no fim de um número musical, reprimindo um bocejo, anunciou: “Em Anápolis, são precisamente duas horas e 28 centímetros”. 

Maria da Penha Silva Guimarães, 38 anos, Caruaru: ao chegar numa festa com o vestido idêntico ao da dona da casa, esta se aproximou sorridente, tentando descontrair, dizendo: “parabéns pelo bom gosto!”, e ela, nervosíssima, saiu-se com: “que é isso, esse meu vestido é horroroso!”.

Jorge Moreira, Rio de Janeiro, 43 anos: músico, morou em Nova York, e uma madrugada estava gravando num estúdio e chegando na lanchonete interna viu um crioulo junto ao balcão, pediu uma Coca-Cola e descobriu que era Miles Davis. 

João Mauro Balião, 55 anos, Goiânia: chegando em casa de madrugada viu um homem pulando o muro da casa vizinha, chamou a polícia, e ficou sabendo que era o amante da viúva que morava ali sozinha, e para a qual ele também mandava uns olhares compridos. 

Carlos Feitosa Valença, 52 anos, São Luís: aceitou prefaciar o livro de memórias de um ex-colega da Faculdade de Direito, não leu os originais, e em seu texto recordou com jovialidade um episódio de juventude vivido com o autor, só que dando deste episódio uma versão discrepante e comprometedora. 

Gleidson Luna, 19 anos, Natal: na primeira vez em que foi pegar a namorada na casa dos pais para levar pro cinema disse à futura sogra: “Pode ficar tranquila porque eu vou levar ela para um motel seguro, um que eu vou lá toda semana. Rá rá rá! Brincadeirinha.”






sábado, 28 de dezembro de 2013

3381) Singularidade maligna (28.12.2013)



Quando Mary Shelley criou em 1818 o seu Frankenstein, estava criando um dos mais versáteis símbolos do mundo futuro. O monstro fabricado em laboratório já serviu de alegoria para tudo. Uma das primeiras que me chamaram a atenção foi a de um crítico que disse: “O monstro de Frankenstein é o adolescente de hoje. Feioso, desajeitado, mal vestido, com um cabelo horrível... Sem saber falar direito, e sem saber o que fazer com o próprio corpo... Querendo achar uma companheira, praticando atos involuntários de violência, porque é grande demais para si mesmo...”  E por aí vai.

Talvez o primeiro grande monstro da FC seja uma metáfora para o último: a Singularidade, o momento em que o homem produzirá uma Super-Inteligência Artificial capaz de suplantá-lo. Ninguém está tentando criar isso, na verdade. Mas existem hoje no mundo milhares de pesquisas independentes que convergem todas nessa direção. A S.I.A. vai surgir pelas mãos de pessoas que não tinham a intenção de criá-la.

Softwares capazes de se reprogramar, se auto-consertar, se aperfeiçoar e evoluir. Chips, fibras, hardwares cada vez mais leves, eficazes, rápidos e baratos. Conexões sem fio ubíquas, velozes, superpostas. Tudo isto são como os pedaços de uma criatura artificial que estão sendo criados por pesquisadores independentes, que muitas vezes nem prestam atenção às pesquisas dos outros, porque estão mergulhados demais na própria.

Se quiséssemos criar a S.I.A. como um projeto civilizatório coletivo, talvez ela nunca acontecesse, porque cada passo teria que ser examinado e aprovado por dezenas de comissões internacionais. Não é o que está acontecendo. Cada pesquisa independente das outras, mas o que acontecerá quando essas partes, administradas por softwares conscientes, começarem a se coordenar e a trabalhar em conjunto?

A criação da Singularidade não deve ser muito diversa da criação da vida no tal “oceano primitivo”, há milhões de anos. Uma série de processos químicos independentes que acabaram gerando algo de natureza essencialmente diversa. No caso presente, pode-se argumentar que as pessoas envolvidas (os cientistas, as corporações, os laboratórios, etc.) sabem o que estão fazendo, mas na verdade esse “saber” é parcial, localizado, e de modo algum tem aquele objetivo em mente. Interrogados, esses pesquisadores não admitiriam ter como objetivo a criação de uma entidade bioeletrônica incontrolável. Diriam todos que “sabem muito bem o que estão fazendo” e que “não há a menor possibilidade daquele processo escapar ao seu controle”. Diriam, em suma, o que todo cientista diz antes de ser surpreendido pelo tsunami cumulativo e aleatório da ciência.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

3380) Arte Formigueiro (27.12.2013)




Os críticos defendem há muito tempo o conceito de que, em grande medida, a beleza está no olho de quem vê.  Isso tem uma força tão grande que é possível alguém enxergar beleza até onde não foi feito nenhum esforço para criá-la. É aquela beleza involuntária, ou aleatória, que podemos encontrar em manchas de lodo, num muro antigo todo descascado, nas manchas no interior de um tronco de madeira, em formações naturais (rochas, corais, nuvens) ou na estrutura microscópica de minúsculos insetos ou plantas. Olhamos para aquilo e vemos belas combinações de cores e de formas, vemos harmonia, vemos simetria, vemos elementos visuais que nos dão aquela velhíssima sensação expressa no velhíssimo clichê: “Parece uma pintura!”.

Pode ser beleza, mas, segundo os teóricos, não é arte, porque a arte pressupõe a intenção de criar a beleza, ou pelo menos de criar algo que impressione nossos sentidos e nossas emoções (expor um mictório numa galeria, como fez Duchamp). Existe sempre alguém por trás da obra de arte, por mais aleatória que ela pareça, como naqueles quadros que não passam de uma porção de tintas derramadas ao acaso sobre uma tela. Alguém posicionou a tela, alguém escolheu as cores das tintas, alguém iniciou e depois interrompeu o processo que se supõe aleatório. Pode não ser uma grande obra de arte, mas é obra de arte, sim, senhor. Alguém acaba gostando e até pagando cem mil dólares pelo resultado.

Este vídeo (http://bit.ly/1jjQ5RX) mostra uma maneira interessante de produzir arte. O sujeito encontra um formigueiro abandonado, vazio, e derrama dentro dele um galão de alumínio derretido, fumegante. O alumínio vai se esgueirando pelos corredores do formigueiro, e, depois de alguns minutos, se solidifica lá dentro. Resta ao artista cavar em volta, arrancar do chão aquele objeto com mais de meio metro de diâmetro, e depois aplicar sobre ele uma mangueira com jato dágua sob pressão, desprendendo e lavando toda a terra, deixando apenas o metal solidificado e frio que há no interior.

É arte? Eu acho que sim, porque requer um esforço imaginativo, uma antevisão do resultado, um mínimo de habilidade manual e o domínio de pelo menos dois tipos de tecnologia. O resultado é um emaranhado de hastes metálicas reproduzindo o labirinto interior do formigueiro; e é irônico que a forma final tenha sido criada pelos insetos e apenas revelada pelo Homem. Seria mais interessante ainda se o formigueiro estivesse ocupado e as formigas fossem mortas durante o processo. A obra de arte serviria como o resultado alegórico da relação entre o Homem e as demais espécies do planeta. O título final poderia ser: “Tua Morte é Minha Arte, Parceiro”.