sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

3363) Saber ouvir (7.12.2013)



Ford Madox Ford disse, referindo-se ao diálogo literário, algo que eu já vira nos meus tempos do cineclubismo, dos debates por questões estéticas ou políticas. Ele observou que as pessoas, na verdade, não escutam umas às outras, porque enquanto “A” está falando “B” prepara o que vai falar em seguida. Toda conversa, portanto, não é mais do que uma intercalação de monólogos fatiados.  

Essa idéia de Ford foi encampada por seu amigo Joseph Conrad, e está esmiuçada com mais minúcias em cartas e artigos dos dois, num livro (a edição Norton de Heart of Darkness) que não tenho agora à mão.

Nas discussões de Jornada, nos debates, nas mesas-redondas, me acostumei a não olhar para o orador do momento, e sim para os que estavam discutindo com ele. Em sua maioria tinham aquela postura corporal meio contraída, de bote-armado, felino aguardando o instante de saltar sobre a presa; mas seu olho não era o olho vívido e consciente de quem recebe em tempo real as idéias emitidas pelo interlocutor, era o olho vidrado e ausente de quem está com 100% da luzinha vermelha do HD piscando em função de si próprio. 

Não estavam ouvindo, estavam verbalizando a plenas turbinas os argumentos que iriam desfechar sobre o outro no próximo minuto.

É, é difícil a gente ouvir o que o interlocutor diz. Nossos tímpanos captam a vibração das moléculas do ar, claro, mas achamos que isso basta. Discussões pessoais muitas vezes dão com os burros nágua por essa nossa incapacidade de perceber as palavras por trás dos sons, as idéias por trás das palavras, e as emoções por trás das idéias, porque é essa a hierarquia do discurso. 

A contraprova disso se dá quando estamos num país estrangeiro, de uma língua que desconhecemos, mas num ambiente fraternal, receptivo, com pessoas descontraídas e interessadas umas nas outras. Todas fazem um esforço (que não lhes custa muito, admito) para se entenderem. Nesses momentos, somos capazes de prodígios telepáticos diante de longas frases em alemão ou holandês.  Catamos uma ou outra palavra que imaginamos conhecer, e com que desenvoltura desenrolamos o resto!

Saber ouvir não é ceder os tímpanos, é ceder a retina, a pele inteira, a aura Kirlian e tudo mais que tivermos para captar as diferentes faixas de onda que o outro está emitindo. Sem isso não escutamos sequer um bom-dia.  

A literatura nos mostra pessoas dizendo umas às outras o que vai acontecer dali a duzentas páginas, e quando chega o momento percebemos que o outro escutou mas não ouviu, ou ouviu e não entendeu, ou entendeu mas não absorveu o que havia entendido. Todas as tragédias ocorrem quando as pessoas estão falando grego entre si.


3362) FC, fantasia e portais (6.12.2013)





Um Portal (“gateway”, em inglês) é uma abertura que liga dois universos diferentes, e visto assim parece uma coisa muito limitada. A questão é que universos são esses, e eles variam muito, se estamos lidando com ficção científica, horror, fantasia heróica, fantasia urbana, realismo mágico, humor absurdista... Alguns críticos dividem em dois grupos as histórias que envolvem portais. O primeiro seriam as fantasias de Portal propriamente dito: em nosso universo, personagens descobrem uma abertura que lhes dá acesso a um universo diferente. O segundo grupo seria feito do que Farah Mendelsohn chama de “fantasia intrusiva”: são as criaturas do outro universo que descobrem um portal para o nosso, e aparecem aqui, com resultados imprevisíveis.

A palavra “gateway” lembra ao leitor de FC a série homônima de romances de Frederik Pohl, em que a humanidade descobre naves à deriva, abandonadas, feitas por uma raça superior à nossa, naves com as quais é possível acessar outras regiões do universo. Outro portal famoso é o que Arthur C. Clarke abre para a passagem do astronauta Bowman em 2001, quando este descobre que o monolito é um aparente objeto mas na verdade é uma abertura no espaço-tempo. Coube a Clifford Simak, em Way Station, O Planeta de Shakespeare e vários outros romances, a idéia de um labirinto de portais cruzando a Galáxia como uma rede de metrôs, com guardiões secretos em cada “estação” ou entroncamento.

Na fantasia, temos desde o guarda-roupa em que os garotos chegam ao mundo de Narnia em O leão, a bruxa e o guarda-roupa de C. S. Lewis até o filme Salada Russa em Paris de Yuri Mamin, em que dois russos descobrem um acesso semelhante ligando São Petersburgo a Paris – neste caso, o portal liga dois “universos” metafóricos, países  socialmente diversos um do outro.  Mais ou menos como no conto de Julio Cortázar “O outro céu”, em que são as galerias dos prédios que permitem ao personagem entrar numa extremidade em Paris e sair na outra em Buenos Aires, ou vice-versa. No filme Orfeu de Jean Cocteau, como na Alice de Carroll, os espelhos são portais para outros mundos.

Um certo esgotamento da fórmula (os exemplos são incontáveis) leva histórias mais recentes a propor idéias mais rebuscadas (e mais divertidas) como a de Quero ser John Malkovich de Spike Jonze, em que um portal conduz do interior de um prédio em Manhattan para o interior da cabeça daquele ator. Na Encyclopedia of Fantasy, John Clute observa que quando uma pessoa encontra um portal ela foi, num certo sentido, encontrada por ele. Os portais são armadilhas (boas, más, indiferentes) esperando alguém que os faça funcionar.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

3361) Vida de detetive (5.12.2013)



No capítulo 21 do romance O Longo Adeus, Raymond Chandler interrompe a história que vinha contando para mostrar um pouco do cotidiano do detetive Philip Marlowe. Até aquele momento, Marlowe está encrencado até o pescoço por causa de um crime aparentemente cometido por um amigo seu, Terry Lennox, que ele ajudou a fugir para o México quando a polícia o perseguiu pelo assassinato. Lennox era genro de um magnata californiano, e Marlowe, por lealdade ao amigo, e por não responder as perguntas da polícia, acaba passando alguns dias na cadeia.

De repente, a história se interrompe. E no cap. 21 Marlowe atende três clientes muito diferentes. O primeiro é um sujeito rude que cria um cachorro em casa e vem se queixar de que a vizinha está jogando almôndegas envenenadas no quintal para matar seu cachorro, que late toda vez que um carro passa na rua. O cliente quer que Marlowe passe o dia e a noite escondido no quintal até flagrar a vizinha em mais uma tentativa de envenenamento. Marlowe lhe diz que isso não é papel para um detetive.

O segundo cliente é uma mulher humilde, que mora numa pensão, e desconfia que sua companheira de quarto está furtando dinheiro de sua bolsa. “Mas o que a sra. quer que eu faça?”, pergunta Marlowe. E ela: “Telefone para ela e lhe dê um susto!  Diga que é detetive e que está de olho nela!”. Marlowe, com alguma dificuldade, se livra da mulher.

O terceiro cliente é um homem meticuloso, polido, reprimido, cuja mulher pela quinta vez limpou sua conta bancária e fugiu com outro cara para Honolulu. Ele oferece 200 dólares para que Marlowe a localize e traga de volta, e insiste: “Diga a ela que eu não ligo, só quero que ela volte”. Marlowe aciona uma agência de detetives em Honolulu, explica o caso, a mulher vem de volta e ele transfere o dinheiro para a agência que fez o trabalho, cobrando uma pequena taxa para si próprio, mais despesas (telegramas, etc.).

Qual a necessidade desses episódios, que ocupam seis páginas, e são irrelevantes para o enredo? Eles têm a função de proporcionar ambiente, pano-de-fundo para a ação principal. Detetives costumam ser contratados (nos livros) por milionários excêntricos ou louras voluptuosas. O leitor ingênuo pensa que isso é a rotina deles, e não é. Chandler se preocupa em proporcionar contexto, efeito de contraste. Para avaliar um caso, é preciso compará-lo com outras tarefas que estavam sendo oferecidas ao detetive na mesma época. Chandler tinha essa percepção de que a aventura principal deve ser grande, significativa, e ela só o é comparada ao feijão-com-arroz cotidiano, assim como se deve comparar um autor com os contemporâneos dele, não com os nossos.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

3360) Garrafa ao mar (4.12.2013)




Era um Mago conjurador dos mistérios do Oculto, capaz de refletir no mundo dos homens a luz do Sagrado. 

Não era todo-poderoso, no entanto; quando sua magia não cumpriu a contento as ordens de um Rei, foi exilado numa ilha deserta, que em seguida foi fechada com um selo mágico. Ali, ele tinha água, frutas, animais para caçar; mas jamais poderia fugir sem ajuda. 

Um dia, caminhando ao longo da praia para calcular a extensão da ilha, o Mago encontrou os destroços de um navio naufragado, onde havia baús com centenas de garrafas. Ele, que não bebia, teve uma idéia.

Passou a esvaziar e lavar as garrafas; e dentro de cada uma dela (por falta de material de escrita) arrolhou um pequeno “djinn”, materializado por suas forças. Um pequeno gênio rudimentar que conseguia apenas pedir socorro. E passou a jogar as garrafas ao mar. 

No começo, os djinns eram criaturinhas frágeis, meros girinos de gênios, que, uma vez aberta a garrafa pulavam para fora e choravam, apontando na direção da ilha. Com o tempo, ele os foi aperfeiçoando. Fez medições astronômicas, e as garrafas que jogava às ondas levavam dentro de si figurinhas humanas que diziam a latitude e a longitude aproximada da ilha onde estava preso.

O que pensava conseguir? As garrafas eram muitas, mas o mar é imenso. Era possível que alguém as achasse? Que as abrisse, e que se pusesse ao mar para ver de onde vinham? Quem abre uma garrafa achada nas ondas sabe que ela contém algo precioso, um último gesto desesperado de quem foi exilado do mundo.

Logo o Mago estava tão entretido com a criação de gênios, cada vez mais complexos e mais fortes, que sua própria salvação passou a ter importância secundária. Criou gênios que inventavam canções quando eram libertados. Criou gênios falastrões, que contavam mentiras, e no meio das mentiras a história verdadeira do Mago e o local da ilha. 

Gênios generosos, que concediam treze desejos ao seu libertador e esqueciam de pedir socorro para o Mago. 

Gênios malévolos que subjugavam, torturavam e matavam seu salvador. 

Gênios filósofos capazes de seduzir com sua oratória multidões inteiras.

Os anos se passaram e o Mago ia sentindo o mundo cada vez mais longe, cada vez menor. A vontade de ir embora dali foi sumindo. Cada garrafa que ele jogava ao mar e via se afastar boiando era uma pequena vitória para ele, era como se ele próprio se libertasse de novo a cada vez. 

Cada dia, de acordo com seu humor, com o clima, com a inclinação do momento, ele criava e jogava ao mar um novo gênio para dar trabalho ao mundo, gênios capazes de ressuscitar pequenos animais, capazes de escrever poemas, de provocar tsunamis, capazes de partir um coração.



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

3359) As duas Lolitas (3.12.2013)



O artigo, de Galya Diment, saiu no número de dezembro do New York Magazine, mas o vi na publicação online Vulture (em: http://vult.re/I7E5CF). Vejam só se não deixa a gente com a orelha na frente da pulga.

No final de 1953, a editora da revista The New Yorker, Katharine White, recebeu uma carta de Vera, a esposa de Vladimir Nabokov, avisando que o marido tinha terminado seu romance mais recente e queria mostrar-lhe o texto, para possível publicação de um ou dois capítulos na revista. Uma forma de publicidade muito comum no jornalismo literário, ainda hoje. Mas ela se recusava a mandar o manuscrito pelo correio, porque “algumas coisas tinham que ser explicadas pessoalmente.” 

O livro em questão era Lolita, que Nabokov queria publicar sob pseudônimo, pois sua posição como professor (e russo, ainda por cima) o deixava numa situação frágil para publicar um romance que poderia ser acusado (como acabou sendo) de apologia ao amor pedófilo. 

White não leu o livro. O ano de 1954 foi de idas e vindas do manuscrito a editoras que o elogiavam e recusavam. Ninguém queria se envolver com o que o autor alegava seu “o melhor livro que já tinha escrito em inglês”.

Nesse vai-e-vem o livro foi parar na mão de Edmund Wilson (autor de O Castelo de Axel), amigo de Nabokov, que, contra suas instruções, o deu a ler para vários amigos. Entre eles (é Galya Diment quem supõe) talvez estivesse Dorothy Parker (1893-1967), a poetisa e escritora (Big Loira, etc.) sobre quem já escrevi nesta coluna. 

Por que? Porque em agosto Dorothy publicou em The New Yorker o conto “Lolita”, a história de um homem de trinta anos que se envolve com uma mulher adulta e sua filha adolescente, que tem esse nome. Coincidência? Foi essa a pergunta que Nabokov fez numa carta à editora da revista, a qual, rabugenta, respondeu que se havia plágio talvez fosse dele imitando a história de Dorothy Parker.

A questão só não foi adiante porque no mês seguinte a Lolita de Nabokov saiu por fim, por uma editora parisiense, e a polêmica instantânea que despertou fez Nabokov se concentrar em outra frente de batalha. Mas há de fato indícios de que, através de Edmund Wilson, Dorothy Parker teria lido, em parte ou no todo, o romance de Nabokov e teria pegado uma caronazinha na idéia dele, embora haja muita diferença, claro, entre uma história curta e um livro de 400 páginas. 

Que ela, aliás, resenhou positivamente quando ele saiu nos EUA em 1957, dizendo: “É no plano da escrita que Mr. Nabokov transforma o livro numa obra de arte. Seu domínio da linguagem é absoluto, e seu Lolita é um belo livro, um livro notável... está bem, está bem – um grande livro.”


Continua aqui:

domingo, 1 de dezembro de 2013

3358) Pobre tangerina (1.12.2013)




Quando estou muito cheio de problemas, tenho um remédio que é tiro e queda. Começo a me preocupar com os problemas dos outros. Antigamente eu escolhia problemas distantes, como a fome na África e a questão israelense-palestina, mas tenho o cacoete literário de entrar na pele dos personagens, e aí começava a perder o sono de novo. Tudo ficava demasiado real. O que fazer? Fechar o foco, pensei; pensar num problemazinho pequenininho, focado em plano-de-detalhe, sem nenhuma escala catastrófica para me aperrear. E de preferência (volta aqui, agora de um jeito positivo, o cacoete literário) um problema que não existe. Um problema inventado por mim mesmo.

Foi o que fiz ainda agora, indo ao supermercado, com a cabeça latejando de preocupações variadas, insolúveis; como dizia Drummond: “nenhum problema resolvido, sequer colocado.”  Já com o carrinho pela metade, parei diante do balcão de tangerinas. Não há nada melhor, para o calor do Rio, do que tangerina gelada.  Peguei algumas, vi uma bem bonita, madura, e quando fui colocá-la no saquinho vi, do lado oposto ao que eu tinha olhado, uma mancha escura do tamanho de uma uva. Mancha de má aparência, meio afundada, se desmanchando. Um ponto focal de deterioração. Coloquei a tangerina de volta, mas nesse instante as outras (minha mente é assim, tipo desenho animado) começaram a se manifestar.

“Ele não te quis! Ele não te quis!” gargalhavam em uníssono para a desprestigiada, em tom escarninho. “Tu é feia!”  Percebi que no mundo das tangerinas existe também aquela planilha de critérios que nos ajudam a distinguir entre Angela Merkel e Audrey Hepburn. E me insurgi contra aquele erro de avaliação. “Nada disso,” pensei na direção delas, “ela é bonita, só está com uma mancha esquisita na... bem, na circunferência.” “Rá rá rá rá!” explodiram as outras, e o bullying recrudesceu. A tangerina em questão nem me olhava. Rejeitada, humilhada, ficou ali exposta à galhofa alheia.

Quando me afastei, não estava gostando nem um pouco desse desfecho. E, já que minha mente é meio desenho animado, voltei atrás, reescrevi a cena. Ao colocar a tangerina de volta, as amigas rolaram a abraçá-la. “Escapaste, irmã! Ele não vai te despedaçar com os dedos nem estripar com os dentes!” “Obrigada,” dizia ela feliz, entre lágrimas de sumo. “Vocês torceram por mim!” E elas: “Terás mais umas horas de vida até que alguém te leve, irmã, e, como sabes muito bem, cada hora de uma tangerina equivale a 20 anos humanos! Uma vida longa e feliz te espera!”  Esse impressionante resultado me acalentou o coração, e durante as horas seguintes fui (nada me custa imaginar) tão feliz quanto ela.


sábado, 30 de novembro de 2013

3357) Manly Wade Wellman (30.11.2013)




Mesmo nos EUA a obra deste autor não recebe a atenção que merece. Ele fez sua carreira nos pulp magazines dos anos 1930-40. Escreveu ficção científica, terror, fantasia, história de boxe, histórias de aventuras. Fez roteiros para histórias em quadrinhos, e foi um dos primeiros roteiristas do Capitão Marvel. No número 1 da revista assinou seu nome de uma maneira engenhosa (e cordelista): colocou cada letra como a inicial de cada um dos balões de diálogo. Anos depois, numa briga judicial envolvendo Superman e Capitão Marvel (o primeiro acusou o segundo de plágio) Manly pôde, com isto, provar no tribunal que tinha sido um dos roteiristas.

Foi um grande conhecedor do folclore norte-americano, da tradição dos índios e dos primeiros povoadores da América. Sua série de histórias ambientadas nos Montes Apalaches, tendo como protagonista John the Balladeer, ou “Silver John”, é uma excelente exploração desse material. John é um cantador andarilho ao estilo Woody Guthrie, que, levando às costas seu violão de cordas de prata, por onde passa vai se metendo em confrontos com o sobrenatural e resolvendo-os, muitas vezes, com a ajuda de seu conhecimento da literatura oral e de livros básicos (cujo conhecimento é perfeitamente plausível no ambiente social descrito) de alquimia, ocultismo, etc.

A excelente coletânea Who Fears the Devil? (1963) e os romances The Old Gods Waken (1979) e After Dark (1980) são os livros que li, e existe neles uma originalidade de ambiente e de voz narrativa que não tenho encontrado em outros autores de fantasia norte-americana (se alguém souber, favor me indicar). Na literatura fantástica dos EUA parece haver uma certa resistência a histórias inspiradas no folclore local. O leitor norte-americano parece achar mais nobre (ou mais escapista) uma fantasia baseada em elementos europeus: célticos, nórdicos, arturianos, etc.

Seu websaite (http://www.manlywadewellman.com/) traz um rico material biográfico, falando inclusive no episódio em que ele ganhou um concurso de contos policiais no Mistério Magazine de Ellery Queen, deixando William Faulkner em segundo lugar. Manly nasceu em Angola, onde seu pai era médico numa missão, e as histórias que ouviu na infância (só foi morar nos EUA aos seis anos) influenciaram seu interesse posterior pela literatura oral. Ele foi, na fantasia norte-americana, um representante daquela “Invisible Republic” que Greil Marcus estudou em seu livro homônimo sobre as raízes da música de Bob Dylan e The Band no álbum The Basement Tapes e sobre a Antologia da Música Folk compilada por Harry Smith. Uma conexão que, mesmo nos EUA, continua pouco estudada.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

3356) Gambiarra (29.11.2013)



Gambiarra é gato, é ligação clandestina, é fiação descoberta, é improvisação informal ligeiramente abaixo do piso de legalidade imposta aos autônomos em geral. 

Gambiarra é arranjo, é ajuste, é quebra-galho, é um pra-ver-se-cola alicerçado pelo norrau de quem faz isso o tempo inteiro.

Na minha infância, “gambiarra” eram aquelas cordas esticadas no ar, com lâmpadas penduradas, numa praça onde ia haver um comício, numa festa ao ar livre, etc. Este me parece ser o sentido português do termo, porque a Wikipédia registra: “Em Portugal, o significado predominante seria ‘extensão de luz’. Entre outros significados, destacam-se ‘ramificação de luzes’ (Ferreira, 1999)”. 

Uma definição em inglês que vi recentemente circulando nas redes sociais diz (tradução minha): 

“Gambiarra é uma definição brasileira para o desvio informal de conhecimento técnico. É uma prática cultural generalizada, que consiste em todo e qualquer tipo de soluções improvisadas para problemas do dia-a-dia, com qualquer material que se tenha à mão”. 

Entre os sinônimos em inglês sugeridos, está o divertido “McGyverism”, que faz referência ao McGyver da série de TV, o agente secreto capaz de inventar soluções improvisadas para tudo. (Eis um saite de gambiarras de cinema/TV: http://shittyrigs.com/).

Gambiarra é quando alguém resolve um problema mecânico, hidráulico, elétrico, etc. usando recursos improvisados. Claro que tanto pode produzir coisas bem feitas quanto mal feitas. A boa gambiarra indica conhecimento do problema e habilidade para resolvê-lo, mesmo que os materiais sejam de má qualidade e que haja maneiras mais eficazes de solucioná-lo. 

A gambiarra mal feita pode produzir curto-circuitos elétricos, estouros / vazamentos / infiltrações hidráulicas, construções de alvenaria tortas e instáveis e assim por diante. A gambiarra não é garantia de trabalho eficiente nem é indício de incompetência.

Já vi amigos da área de Engenharia se queixando de que seus cursos não estimulavam a invenção, e sim a assimilação metódica do que já foi inventado É compreensível: em Elétrica, em Mecânica e em Civil a quantidade de soluções já encontradas é enorme, são séculos de conhecimento acumulado. Diante de tal problema, faz-se assim ou assado. 

O lado negativo, parece, é que quando um problema prático extrapola a tradição alguns engenheiros ficam de mãos atadas, porque não foram ensinados a pensar “fora da caixa”. Vai daí que todo curso prático (Engenharia, Medicina, Arquitetura, etc.) deveria uma cadeira chamada “Gambiarra” que percorresse o currículo do primeiro ao último ano. A arte do improviso, para fazer frente ao Acaso, ao Imprevisível, ao Imponderável.








quinta-feira, 28 de novembro de 2013

3355) "O Pescador de Ilusões" (28.11.2013)





Revi este filme antigo de Terry Gilliam, que talvez seja o filme menos “Terry Gilliam” de toda sua obra. O diretor é conhecido pelas suas superproduções com direção de arte fantástica e barroca, enredos mirabolantes, verdadeiras “extravaganzas” como Brazil, o Filme ou As aventuras do Barão de Munchausen. Sua obra tem um pé na ficção científica, outro no gótico, e elastecendo a metáfora posso dizer que tem outros pés espalhados pelo steampunk, o surrealismo, o macabro, a magia-de-palco do século 19. Gilliam surgiu no grupo cômico Monty Python, mas embora seus filmes compartilhem com o MP um tom burlesco, satírico, exagerado, não são filmes de humor. Seus filmes não são engraçados. Pelo contrário – são cheios de situações que têm potencial cômico mas uma poderosa força gravitacional os arrasta o tempo inteiro para o território da angústia e do pesadelo.

The Fisher King conta a história de dois homens cujas vidas foram destruídas, e depois ligadas, por uma brincadeira de mau gosto de um deles. Jack Lucas (Jeff Bridges) faz um locutor de rádio que um dia, para parecer cínico e “blasé”, sugere a um ouvinte (com quem conversa pelo telefone, durante a transmissão) que vá a um bar de “yuppies” e fuzile todo mundo. Mal sabe ele que o sujeito vai fazer isso mesmo. A chacina arruína a carreira radiofônica de Jack.

Anos depois, ele, numa tremenda pindaíba, acaba conhecendo um morador de rua, Parry (Robin Williams) e descobre que Parry caiu na miséria depois que perdeu a esposa, morta justamente na chacina que ele involuntariamente ordenou. Daí em diante, começa uma história fantasiosa, tortuosa (o roteiro é cheio de três passos para a frente e dois para trás), às vezes sentimentalóide, mas geralmente simpática, em que esses dois sujeitos tentam reequilibrar suas vidas.

O “rei pescador” do título é, na lenda do Rei Artur, um rei ferido que busca sem sucesso o Santo Graal e acaba encontrando-o por acaso quando diz estar com sede e um maluco qualquer lhe oferece água numa taça. O maluco não sabia que taça era aquela: queria apenas dar a água. O Graal é a água, a empatia, a caridade, o desejo de ajudar alguém sem pedir nada em troca. É o contrário do gesto cruel de Jack, que deflagra a chacina (uma crueldade gratuita tão comum nos “humoristas” de hoje e nas redes sociais). O filme contrapõe estes dois gestos, o impulso da maldade-pela-maldade, só para se divertir, e o impulso da solidariedade desinteressada. São dois impulsos igualmente fortes no ser humano, e eu diria que a luta entre os dois é pelo menos tão importante quanto a disputa de duas facções políticas por cargos administrativos.


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

3354) Orwell e o futebol (27.11.2013)






(Orwell, by Felipe Muanis) 

Dias atrás nas redes sociais foi postado um artigo de Lima Barreto em que ele descia a ripa no futebol, jogando-lhe em cima todos os defeitos e vícios possíveis. É conhecida a antipatia de Lima pelo jogo de bola, talvez aumentada pelo fato de que em sua época era um esporte de rapazes brancos e ricos, como são hoje o hipismo e o golfe. 

Já comentei aqui um ótimo livro de Mauro Rosso, Um Fla-Flu Literário, que contrapõe os artigos sobre futebol de Lima Barreto (contra) e de Coelho Neto (a favor). (Ver: http://bit.ly/13yAvnj).

Isto me lembrou outra diatribe famosa contra o esporte bretão, desta vez de um autor não menos bretão. George Orwell (1984, A Revolução dos Bichos) publicou em dezembro de 1945, no Tribune, um artigo devastador intitulado “O espírito esportivo” (“The sporting spirit” – aqui: http://bit.ly/4IGPTc). 

O gancho jornalístico foi a excursão do Dínamo de Moscou pela Inglaterra (certamente numa daqueles campanhas de boa vizinhança do pós-guerra), enfrentando clubes ingleses. Orwell começa dizendo que “se uma tal visita teve algum efeito nas relações anglo-soviéticas foi apenas a de torná-la um pouco piores do que estavam antes”.

Orwell vê o mal em todos os esportes competitivos (não poupa o boxe), e diz: 

“Joga-se para vencer, e o jogo não tem muito sentido a menos que se faça todo o possível para vencer. (...) No momento em que fortes sentimentos de rivalidade são despertados, a idéia de jogar de acordo com as regras desaparece. As pessoas querem ver um time por cima e o outro humilhado, e esquecem que não faz sentido uma vitória obtida através de trapaças ou da intervenção da torcida.” 

Orwell escreveu numa Europa esgotada pela guerra, onde os antagonismos nacionais persistiam: 

“O pior não é o comportamento dos jogadores, mas a atitude da torcida, e, para além da torcida, das nações que entram em fúria a propósito dessas competições absurdas, e acreditam seriamente – pelo menos por algum tempo – que correr, pular e chutar uma bola são testes para as virtudes nacionais”.

Ele observa com agudeza que entre o Império Romano e o século 19 o esporte não foi levado muito a sério, e que então, nos EUA e na Inglaterra, começou a ser tratado como uma atividade de altos investimentos. E diz: 

“Se alguém quiser aumentar a má-vontade já considerável que existe no mundo, não teria nada melhor a fazer senão promover jogos de futebol entre judeus e árabes, alemães e tchecos, indianos e ingleses, russos e poloneses, italianos e iugoslavos.”  

O que pensaria Orwell se tivesse visto os “hooligans” ingleses, as hecatombes de arquibancada, as batalhas campais dos torcedores em cidades pacíficas?