terça-feira, 6 de agosto de 2013

3257) Vida e literatura (6.8.2013)


(D. F. Wallace, por Charlie Powell)

A vida é irredutível a palavras, como sabe quem já experimentou uma e quem utiliza as outras, mas é essa mesma incompatibilidade de essência que torna indispensável a tentativa. 

Verbalizar não produz uma síntese da experiência vivida, mas uma mera antítese a ela, uma expansão dela, a criação de um simulacro em tão alto grau de alteridade e de abstração que o simples ato de produzi-lo ou de absorvê-lo (ou seja, o ato de escrever e o ato de ler) turbina a intensidade da experiência vital, e chegamos a nos perguntar se faz sentido passar pela vida inteira sem experimentar esse simulacro que não a explica nem substitui, mas talvez a justifique.

No seu famoso ensaio “Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer” (em Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo, Cia. Das Letras, 2012), David Foster Wallace assim descreve o cheiro de detergente no banheiro de um navio de luxo: 

“...um desinfetante norueguês estranho, mas nada mau, cujo perfume se parece com o cheiro que existiria se alguém, que conhecesse a exata composição organoquímica de um limão mas nunca tivesse de fato cheirado um limão, tentasse sintetizar o perfume de um limão.” 

A escrita é um epifenômeno (um fenômeno secundário, consequência de um fenômeno principal) que na tentativa de evocar o fenômeno principal desenvolve estruturas expressivas de tal complexidade que adquire vida própria e essência independente, tornando-se tão ou mais digno de atenção quanto o fenômeno que, a princípio, tentava reproduzir ou sintetizar.

Wallace falou em limão mas a imagem que me ocorre é a de um caju. O caju não é uma fruta. O fruto do cajueiro é na verdade a castanha (que para nós é somente um caroço avantajado, como o do abacate ou o do pêssego); o caju é apenas “um pedúnculo carnoso”, que desenvolveu forma, cor, aroma, textura, massa esponjosa, cordames tenros, sucos adstringentes e doces, e, como uma atriz tarimbada contracenando com uma estrela mais jovem, dá um jeito coreográfico de colocá-la de costas para a platéia, ou sob luz desfavorável, invertendo assim o balanço hierárquico e tomando as rédeas da cena. 

Não desmerecemos o fenômeno principal (castanhas assadas são sempre uma delícia), mas igualmente há que se tirar o chapéu para a exuberância ontológica desse mero coadjuvante que, por méritos próprios, consegue redefinir o Universo em seus próprios termos.

Pois é isso que a Arte, mero efeito, faz com a Vida, causa essencial e primeira de todas as coisas, dela inclusive; e o único consolo dos que apenas vivem e não têm tempo para a Arte é dizerem, cobertos de razão, que quando íamos para os cajus eles já vinham das castanhas.






domingo, 4 de agosto de 2013

3256) O WC sobre o abismo (4.8.2013)




Em muitas áreas rurais de países montanhosos existe um costume que pode às vezes surpreender o viajante distraído. São as privadas ao ar livre na borda de um precipício. As alturas são vertiginosas nessas regiões, e as casas em geral dão os fundos para o abismo. Nada mais natural do que haver uma construção feita de tábuas, em geral protegida também por cima, com o respectivo assento, a abertura... e abaixo dela o abismo. Por uma razão simples. Fossas sanitárias são sempre um problema, exigem um trabalho estafante e desagradável, e podem ser fonte de doença. Para a mentalidade dos montanheses, parece mais prático despejar de pouquinho em pouquinho aqueles dejetos sobre centenas de metros de barranco, para que sejam ali lavados pela chuva e bebidos pela terra. Mais prático, mais higiênico e mais lógico.

A filha de Cordwainer Smith, escritor de FC norte-americano, conta que seu pai (que por muitos anos trabalhou na China) certa vez, em viagem pelo interior do país, foi num desses lugares. Era uma noite de clima agradável, e ele entrou uma privada que tinha dois assentos. Sentado num deles, olhou de lado e viu no fundo do outro assento uma luzinhas piscando. Pensou que fossem vagalumes. Então ouviu um ronco de motores de caminhão e percebeu que aquelas luzes eram os faróis dos veículos, lá embaixo, subindo a serra quase embaixo do lugar onde ele se encontrava.

Luís Buñuel conta uma memória de infância, em Molinos (Aragón): através do buraco de uma privada assim ele viu “um falcão voando em círculos por baixo de mim”. Ele faz uma referência a isto num dos diálogos surrealistas do Anjo Exterminador (1962). É fácil entender que essas imagens tenham alguma ressonância freudiana ou coisa parecida, mas o mais interessante é que elas exprimam, a seu modo, a noção de que mesmo o pior fundo-do-poço não é o mais fundo ainda, pode haver todo um planeta aberto lá embaixo.

Mergulhar na privada para emergir noutro mundo é uma idéia sugerida no começo de Quem quer ser um milionário? de Danny Boyle, e reconstituída literalmente em O Feitiço de Áquila de Richard Donner (não lembro se os personagens de O Conde de Monte Cristo e Os Miseráveis também usam esse caminho de fuga). O único problema que vejo com essa organização do espaço sanitário é o perigo de chuvas, deslizamentos e avalanches que ponham em perigo a segurança da casinha, fazendo o sujeito desmoronar morro abaixo num momento altamente desfavorável. Mas a verdade é que se um sujeito está num lugar onde ele olha para o fundo de uma privada e vê um falcão voando, então não tem muita coisa de que se queixar à vida.



sábado, 3 de agosto de 2013

3255) Clichês de capa (3.8.2013)


A gente vê no jornal ou na Internet a resenha de um livro interessante, fica com vontade de dar uma olhada, mas não consegue lembrar o título nem o nome do autor. Dias depois, no balcão da livraria, reconhece a capa e, sem refletir muito, leva o livro direto ao caixa. Quando chega em casa, surpresa: o livro não é o que a gente pensava. “Mas a capa é igualzinha!”, queixa-se o leitor. Pois é, rapaz. A capa era igualzinha. Isso é mais frequente do que a gente imagina.

Esta matéria no saite “Livros e Afins” (http://bit.ly/1aP82jQ) faz um apanhado muito divertido dessa tendência (com notável honestidade, o saite informa ter transcrito a matéria do saite estrangeiro BuzzFeed (www.buzzfeed.com). Muitas vezes uma série de livros de um autor de sucesso (Agatha Christie, Sidney Sheldon, etc.) recebe capas semelhantes, num mesmo estilo. Mas há grupos nítidos de capas quase idênticas em livros sem a menor relação uns com os outros.  Pode-se falar em imitação, em plágio, em furto de idéias... Pode até ser, porque tudo isso acontece no pega-pra-capar da indústria editorial. Mas vendo tantos exemplos juntos a gente tem que admitir que vai mais longe: são “tendências” (como gosta de dizer o pessoal da moda), são recursos que de repente viram um consenso na cabeça dos designers: “Isso aqui já funcionou antes, deve funcionar sempre.” 

A lista do saite mostra tendências interessantes: para histórias de mistério e suspense, imagens como “o homem na cerca”, “o assustador homem-silhueta”, etc. Para histórias dramáticas e românticas, vale usar vezes sem conta a mesma foto de uma mulher com vestido longo e costas nuas, ou imagens de mulher olhando o mar. Romances para yuppies apresentam capas em torno de elementos básicos: sapatos altos, jóias, tonalidades frias.

Vendo esses exemplos percebemos que a escolha da capa de um livro está sempre num movimento pendular entre “exprimir/comentar o conteúdo literário da obra” e “convencer o possível comprador de que aquele livro parece com outros de que ele gostou”. Como tantas vezes ocorre nas atividades humanas, é mais fácil apostar no que já funcionou antes do que tentar ver se uma coisa esquisita funciona. A capa do livro pertence àquele conjunto de elementos que não têm nada a ver com literatura, mas que, se contiverem demasiado “ruído”, não conseguem convencer as pessoas a quem cabe vendê-lo: o departamento de marketing da editora, o livreiro, o balconista. Se esses importantes personagens não se entusiasmarem com o aspecto do livro e com a sua descrição superficial, vai ser difícil chamar a atenção do leitor. Pode ser sucesso. Mas vai dar o dobro do trabalho.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

3254) Amarildo e Bruno (2.8.2013)






Amarildo de Souza é um pedreiro da Rocinha que no domingo 14 de julho, às 8 da manhã, foi levado de casa por policiais da UPP, para averiguação, e nunca mais foi visto. Na terça-feira dia 16 a família registrou o desaparecimento. Na imprensa, nas manifestações de rua, nas redes sociais, todo mundo ergue cartazes, posta mensagens e faz a pergunta: “Cadê o Amarildo?”. A polícia diz que Amarildo foi interrogado e liberado às 19:40 do domingo, mas as câmaras nas proximidades não registram sua saída; aliás, “as duas câmaras instaladas na frente da sede da UPP não funcionaram desde as 8h do domingo em que Amarildo desapareceu até o fim do dia.” Uma cômoda coincidência (ou incômoda, de acordo com o ponto de vista).

Já o caso de Bruno é diferente. Ele era um dos manifestantes que no dia 22 de julho protestavam na rua Pinheiro Machado, perto do Palácio do Governo. Preso pela polícia, foi acusado de estar portando uma mochila com mais de 20 coquetéis molotovs e de ter jogado um deles na tropa da PM. Bastaram dois ou três dias para que surgissem nas redes sociais dezenas de fotos e vídeos argumentando, com riqueza de detalhes, que: 1) Bruno não estava de mochila; 2) no arremesso do primeiro coquetel molotov ele estava bem visível na linha de frente dos manifestantes, e a bomba veio de trás; 3) que dois indivíduos, um deles com roupa semelhante à do que foi filmado jogando o coquetel (visto em outra imagem) saem da manifestação, correm para o meio da PM, são barrados, identificam-se aos gritos e em seguida os PMs permitem que os dois entrem no grupo e se refugiem na retaguarda. A tese de que os dois são P2 (policiais disfarçados, infiltrados para ações de provocação) levou a justiça a liberar Bruno, pela análise das imagens.

Dois episódios que mostram para onde o mundo está indo, mesmo que a gente não goste: para a “sociedade transparente” que David Brin avistava em 1998 (ver: http://bit.ly/152RX7J ), a cidade onde os espaços públicos estão vigiados por câmeras, gravando imagens que podem ser usadas para reconstituir as ações de qualquer pessoa.

Isso é bom? É ruim? Nenhuma tecnologia é boa ou ruim em princípio, o que conta é o modo como é usada. Estes dois casos mostram situações opostas. No caso de Bruno, o enorme número de câmeras ajudou a desmascarar uma acusação falsa e liberar um inocente. No caso de Amarildo, a inexistência de câmeras funcionando nos impede de saber se, quando e em que condições ele saiu das dependências da polícia. Só temos um caminho: aprender a conviver com a vigilância e a transparência, usá-las para o bem individual e coletivo, porque a opção de viver sem elas não existe mais.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

3253) A arte do repente (1.8.2013)




(Sebastião da Silva e Louro Branco)

A arte do repente é vítima de vários equívocos quando é estudada nos livros. Estudar o repente de violeiros num livro é muito útil, mas se o estudante não frequenta cantorias é como estudar futebol num livro e nunca assistir sequer um jogo de pelada. De que adianta?

O repente é um verso feito em poucos segundos com a obrigação de ser cantado naquele instante exato. O violeiro não pode “pedir pausa” enquanto dá uma ajeitadinha nas rimas ou na ordem dos versos. Verdade que em qualquer cantoria usa-se muito “balaio”, muito verso preparado. Isso é outra coisa. Estou falando daqueles momentos, no transcorrer de uma cantoria, em que a gente vê que tudo está sendo criado na hora, pra valer, no calor da batalha.

Quando alguém pratica muito, consegue fazer tudo mais depressa. Tem um repertório de saídas espertas para situações difíceis. Tem um processo qualquer para acessar rapidamente uma palavra, uma rima, uma informação guardada na memória. Já é capaz de dividir o problema, instantaneamente, em diferentes blocos, e resolvê-los em paralelo, quase que com diferentes cérebros. Tem o talento de desligar a chave da emoção, para que a angústia da dúvida ou o pânico de errar não o atrapalhem. A emoção se canaliza para o sensorial, e o cantador vê-se vibrando em uníssono com o diapasão do recinto; canaliza-se para a memória, para o “jogo de Lego” da verbalização metrificada.

A Cantoria é poesia acima de tudo, mas não é só a poesia, a palavra. Tem um lado indispensável que é feito de música; e tem outro, também essencial e meio indefinível, que pode ser chamado de performance, de canto, de representação teatral, de articulação oral, de histrionismo. A Cantoria não repousa somente na substância verbal de uma sextilha, mas (para os privilegiados que a acompanham ao vivo) o modo como se encaixou na sextilha do parceiro, o modo como a rebateu ou confirmou, o tom com que foi cantada, as nuances de voz ou de expressão. Um pouco disso passa para o vídeo, a TV, os clipes de cantorias no YouTube.

Para o livro, passa pouco. Por isso, talvez, criou-se desde muitos anos, na literatura sobre Cantoria, uma figura de linguagem quase obrigatória. Quando o autor quer citar uma grande estrofe, primeiro diz quando se deu o fato, faz uma breve descrição do ambiente, cita a sextilha precedente (ou mais frequentemente os dois últimos versos dela), e só então transcreve a sextilha que está citando. Porque sabe o quanto ela dependeu do momento, do contexto.

O valor do verso aumenta quando sabemos a “deixa” que recebeu, a pergunta que está respondendo, o erro que está ironizando, o assunto novo que está pegando no ar sem deixar cair.


quarta-feira, 31 de julho de 2013

3252) Fogo de inverno (31.7.2013)




As nevadas foram mansas durante aqueles meses na província de Wu Wei. Quando o dia clareava, o Budista Tibetano saía de sua confortável casa de madeira, cumpria às pressas as tarefas necessárias para que o mundo não se acabasse, e voltava correndo para dentro, onde sua assistente (ou concubina, segundo outras traduções) já lhe preparara um narguilê. Todo dia passavam por ali jornaleiros de bicicleta, distribuindo folhetos com a tinta ainda úmida. O Budista Tibetano lia e balançava a cabeça, desconsolado.

“Saques e depredações na capital,” queixou-se ele. O Pavilhão do Chá, a Ópera de Arame, o Museu do Olho, tudo estava conflagrado por quebra-quebras e por confrontos entre os soldados do Império e os estudantes da Universidade das Filosofias. “Eles acusam os militares de golpistas, mas são mais golpistas que qualquer um, só querem o poder agora se for agora. São capazes de dar a vida pela Revolução, mas não admitem esperar dez anos por ela.”  Tomou um gole de chá e tentou ser filosófico. “A tragédia do revolucionário jovem é querer que tudo aconteça no seu tempo de vida, e de preferência no auge de sua energia e disposição. Vai precisar delas, porque vai ter que bater a cabeça numa parede por trinta anos.”  A companheira pegou na bandeja um biscoitinho da sorte e o entregou. Ele quebrou o biscoito, desenrolou o papel, leu: “E você, o que sugere?”

“Bem observado,” disse ele, jogando o papelucho pela janela. “Vem cá.” Ela veio, bem obediente, os dois se encostaram no peitoril, e ele apontou: “Estás vendo toda esta encosta, com suas casas? Neve e fogo. Nevascas e fogueiras. Isso é a política. A neve é a natureza. São as coisas que acontecem acima da nossa vontade ou da nossa conveniência. A seta do tempo. É o corpo do universo começando a esfriar. Já o fogo é cultura, é revolta, é vida proibida, é a vingança do homem contra a natureza, por lhe roubar o sol no inverno.” 

Ela assentiu, e disse: “Lindo, mas e os estudantes, que podem perder a qualquer momento os dentes ou o nariz? Enquanto isso, ficas aqui bebendo e fumando. Neve e fogo! Ora muito bem! O que tem isto a ver com os estudantes de filosofia e os guardas do palácio?” O Budista Tibetano espantou-se: “Mas em que é que a política ou o mundo podem te interessar?” E ela: “Não me diga que só porque você é homem, é filósofo, tem trinta papiros publicados, tem direitos que eu não tenho!” O Budista Tibetano se maravilhou, porque sabia que acabava de testemunhar a primeira frase feminista dita no Himalaia nos últimos mil anos. Fechou a janela e levou-a para dentro, pensando: “Administrar um Império deve ser mais fácil, mas administrar uma mulher é mais divertido.”


terça-feira, 30 de julho de 2013

3251) Galo! (30.7.2013)



Os torcedores do Treze que me desculpem, mas é do Galo mineiro que vou falar hoje. Para muita gente o conceito de torcer por mais de um clube é tão inadmissível quanto o de rezar para mais de um Deus. Se for assim, eu assumo: sou politeísta em matéria de futebol. Tenho vários altarezinhos com bandeiras e camisas de cores diferentes. E presto minhas homenagens a cada um desses santos, principalmente quando um deles faz milagre.

“Milagre” chega perto de descrever a façanha do Atlético-MG em conquistar a Taça Libertadores das Américas, no final de uma campanha tanto heróica quanto imprevisível. Faz parte do karma dos grandes clubes que todo mundo, a começar pela torcida e pela imprensa, lhe cobre a conquista de títulos importantes. O Atlético tem títulos regionais mas não ganha há cerca de 40 anos um Campeonato Brasileiro que já foi conquistado por times de menor projeção, como Coritiba, Guarani de Campinas e Atlético Paranaense. “Bateu na trave” algumas vezes, principalmente na derrota de 1977 para o truculento São Paulo de Rubens Minelli, e no ano passado, quando afracou na reta final e deixou o título, de mão beijada, para o Fluminense.

Depois de uma primeira fase arrasadora, em que “passou no rodo” todos os adversários, o Atlético sofreu nos jogos decisivos. Nessa fase final, raramente repetiu as atuações confiantes da primeira metade do torneio. Parecia haver um milhão de toneladas de concreto pesando nos ombros dos jogadores. Permitiu gols bobos, perdeu gols incríveis, deu aquelas mancadas que nos grandes times estão associadas ao apagão mental de quem está chegando próximo ao limite. Fez gols salvadores nos últimos minutos, quando tudo parecia perdido; e o goleiro Vítor defendeu pênaltis históricos em momentos cruciais.

Falei em milagre porque o Atlético criou, para si mesmo, problemas quase insuperáveis, e acabou superando-os, quase que sadicamente, só para fazer a torcida gemer mais fundo. Não sou torcedor de acompanhar o time, até porque os jogos do Atlético só passam na TV quando ele enfrenta os times do Rio. Destes seis últimos jogos, vi cinco, e em todos passei perto do enfarte. Logo eu que me considero muito mais torcedor do Treze ou do Flamengo. Quando o Flamengo trouxe Ronaldinho Gaúcho, fiquei imaginando que uma alegria muito grande estava reservada para mim. E estava mesmo, só que não para o flamenguista,  e sim para o atleticano. Podem torcer o nariz, mas essa vitória de Ronaldinho, comandando um time com muito talento e muita garra, valeu tanto quanto qualquer outra. Ele não é mais o mesmo que foi no passado. Nenhum de nós será, no futuro. O Atlético é campeão no presente. Viva o Galo.


domingo, 28 de julho de 2013

3250) Os Idealistas (28.7.2013)




(foto de Robert Frank)

Eles estão por toda parte. São pessoas que têm uma visão idealizada do mundo, uma visão excludente que procura o tempo inteiro distinguir o que se aproxima de um ideal estabelecido por eles, e depois descartar o resto. 

São chamados às vezes de elitistas, mas o seu elitismo social, que de fato existe, talvez não seja a origem de tudo. A origem de tudo é essa atitude filosófica, digamos, de quem diz mais ou menos: “Só o que é Bom merece existir”.

É uma atitude meio torre-de-marfim, sem dúvida, e que atrai com muita força aquelas pessoas ansiosas pela ascensão social, pelo reconhecimento intelectual ou pela criação de um ambiente utópico e superficialmente perfeito que lhes dê a ilusão de estar vivenciando O Mundo Como Deveria Ser. 

É uma atitude assim que deu origem àquelas expressões que vemos com tanta frequência em colunas sociais: “Sábado passado, a sociedade carioca esteve presente nos salões do Copacabana Palace para a festa de casamento de...”. Ora, “a sociedade carioca”, em termos realistas, pressupõe a totalidade dos 6 milhões de habitantes do Rio de Janeiro. Para quem se exprime assim, no entanto, “a sociedade carioca” são alguns milhares de pessoas que realmente contam, que têm de fato importância. O resto não existe.

No jornalismo cultural acontece o mesmo. Ele reflete a mentalidade das pessoas para quem rock-and-roll não é música, ficção científica não é literatura, cordel não é poesia, e assim por diante. 

Os defensores dessa visão definem cada uma dessas atividades a partir do perfil das obras que eles consideram importantes. Já que existem as grandes obras literárias, para o restante não basta dizer que são má literatura, é preciso dizer que não são literatura, que estão excluídos do campo literário, das discussões literárias.

Para esse idealismo, só “é” de fato o que corresponde ao seu ideal. Os idealistas têm uma concepção seletiva do mundo. Só existe o que se aproxima do modelo. São eles os primeiros a dizer: “Esse criminoso não é um ser humano”. Dizer que esse indivíduo não é um ser humano os autoriza a negar-lhe tudo que somos obrigados a conceder aos seres humanos por força da lei ou das tradições não escritas. 

Enquanto o ideal de ser humano foi o homem branco, considerava-se que as mulheres não tinham alma e que os negros eram animais.

O contrário dessa visão é a visão realista, que nos diz: cada grupo de seres inclui o que tem de melhor e de pior, e é pelo seu conjunto que deve ser julgado. De nada adianta um país ter dez milhões de milionários se nele ainda existirem dez mil miseráveis. 

O retrato de um país não é sua camada superior, é a justaposição e a comparação entre seus pontos extremos.







sábado, 27 de julho de 2013

3249) Mídia transparente (27.7.2013)



Vamos voltar um pouco ao tema da Mídia Ninja e das tecnologias de vigilância mútua entre o aparelho do Estado (e das Corporações) e a população civil. A onipresença das câmeras de segurança em nosso mundo urbano torna possível vigiar em tempo real (ou reconstituir “a posteriori”) os movimentos dos cidadãos através de uma cidade. A grande imprensa mostrou as deslocações do brasileiro Jean Charles antes de ser equivocadamente morto pela polícia londrina, sob suspeita de terrorismo, em 2005, e o modo como o carro da juíza Patrícia Accioly foi seguido pelos policiais que a mataram em Niterói, em 2008. Reconstituições assim poderão ser possíveis (em tese) em relação à maioria das pessoas, pois todas elas estarão em algum momento de seus trajetos urbanos passando pelo campo visual de uma câmera.

Nos EUA, carros da rádio-patrulha levam uma câmera apontada para a dianteira do carro; desse modo, quando os patrulheiros detêm um suspeito e param atrás do carro dele, todas as ações subsequentes (descer, mandar o motorista descer, revistá-lo, algemá-lo, dar-lhe uns safanões quando necessário) estarão sendo registradas para posterior avaliação no tribunal, se for requerido por alguém.

Milhares de câmeras portáteis nas mãos de manifestantes, cobrindo o tumulto de uma passeata, podem ser uma arma poderosa, se não para dissuadir a polícia de praticar as barbaridades costumeiras, pelo menos para atribuir responsabilidades “a posteriori”. Outra arma importante seria (não sei até que ponto isto já é contemplado pelas nossas leis atuais) a exigência de que qualquer procedimento policial fosse obrigatoriamente registrado em vídeo e áudio; e que no caso de a polícia não fornecer essas gravações, quando solicitadas por um juiz, isto fosse considerado um indício de possível culpabilidade. Uma micro-câmera numerada no capacete de cada policial envolvido na repressão de manifestações de rua. (E só faltava agora eles quebrarem a câmera com a mesma cara-de-pau com que arrancam o nome da farda.)

Câmeras no interior das delegacias, principalmente nas salas de interrogatório. É possível? Câmeras nos guichês de atendimento do Detran e outras repartições notórias pelo descaso, corrupção ou bagunça. É possível? Câmeras onde quer que ações governamentais e corporativas possam estar se chocando com o interesse da população. É possível? Se for, é preciso votar para que isto se transforme em lei, e que os bancos de imagens sejam acessíveis à sociedade organizada. Em termos enxadrísticos, o Povo precisa deixar de jogar com as peças pretas. Precisa jogar com as brancas, tomar a iniciativa contra (e colocar em xeque) Governos e Corporações.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

3248) Fenda no espaço (26.7.2013)




Seu Claudionor ajeitou o boné, limpou as sobrancelhas e olhou de novo o relógio de pulso. Quase meio-dia e o ônibus das onze, que passava ali onze e meia, estava atrasado. Sentado no tronco, ele puxou mais uma vez a maleta para perto de si, embora estivesse sozinho na beira da estrada, à sombra de uma mangueira. No sábado e na quarta aquela estradinha tinha um movimento danado, mas em dia comum era um eterno problema. Seu Claudionor olhou a cerca às suas costas, e por trás dela a pastagem que se estendia em colinas bem verdes sob um céu bem azul, parecendo uma foto que tinha no computador do filho dele.

De repente ele deu um pulo, porque ouviu um barulho atrás, como uma coisa se dilacerando, só que muito alto, alto mesmo, como uma vez que ele ia passando do lado daquelas caixas pretas depois de deixar as sobrinhas num show e partiu dali um guincho indescritível que o deixou quase surdo uma semana, um problema médico que o namorado da sobrinha lhe explicou depois chamar-se microfonia. E viu que junto com o ruído às suas costas a paisagem colorida se rasgava, verticalmente se dilacerava, abrindo uma obscena boca vertical alargada à força, com emprego de músculos e de puxões, por dois homens que pareciam passar através dela, cruzá-la, até tombarem os dois quase desfalecidos a três metros de distância.

E pela fresta saía uma luz escura, uma tenebrosidade de treva reluzente, mas era possível avistar por trás uma parede de coisas como massas moventes cobertas de sinais coloridos em líquido cristal. Os dois homens vestiam roupas resistentes e (Seu Claudionor só então percebeu) capacetes transparentes que cobriam o crânio e o rosto com uma folga interna de um centímetro. Tiraram os capacetes, sem olhar para Seu Claudionor. “Eu lhe disse que se aumentasse demais ia romper a película, e olha aí o que você aprontou,” disse um. E o outro: “A medição disse que podia. O que fazemos agora?”. O outro deu um tapinha na palma da mão esquerda, leu alguma coisa nela. “Temos que esperar quase dois minutos, até que ela se recomponha.”  Ergueram os dois o olhar. “Tem um nativo aí.” “Fornique-se o nativo. Valem menos que um algoritmo em alta.”

Eles falavam um português de sotaque arrevezado e de palavras desconfortáveis, mas falavam português. Seu Claudionor abaixou-se, pegou a maleta, abriu a maleta, tirou a doze, armou a doze, detonou os miolos de ambos, guardou tudo de novo. Só então foi até lá, enfiou um e depois o outro por aquela fenda que já se fechava. Sentou de volta, limpou as sobrancelhas, olhou o relógio, pensou no ônibus, deu uma passada geral em torno, viu a paisagem verde-azul, cuspiu de lado e disse: “Vôte”.