sexta-feira, 1 de março de 2013

3122) Repartição assombrada (1.3.2013)



Cuidado ao entrar ali, cidadão comum em busca de um atendimento ou da solução de algum problema! Aquele recinto povoado de funcionários, de mesas e de máquinas esconde em si um pesadelo, um drama que se confunde com a própria falta de sentido da existência. 

Ali, vagam fantasmas que interferem nos computadores durante o trabalho, apagando arquivos e retomando partidas de paciência ou de Tetris que um assistente administrativo deixou incompletas ao morrer. 

O cafezinho trazido na garrafa térmica desaparece antes de ser bebido; foi satisfazer alguma sede ectoplásmica, ou espantar o sono dos que mofam no Limbo. 

Ai de quem deixar vazia sua cadeira em certas horas próximas do crepúsculo, pois um paletó espectral surgirá no encosto, reivindicando a posse daquele espaço, mesmo que seu dono esteja agora a debater-se na Geena, o lugar onde há choro e ranger de dentes.

Não adianta comprar todo dia uma caixa nova de clips de papel; ao abri-la, será constatado que algum espírito penitente encangou todos eles numa correntinha que simboliza seu aprisionamento no âmbar pegajoso de algum Umbral. Ali, as tardes intermináveis do expediente se arrastam entre bocejos, suspiros, olhadas sorrateiras ao relógio que recusa-se a avançar. 

Que farfalhar de folhas de papel se escuta de vez em quando? Será o vento bonachão e corriqueiro deste mundo, ou uma corrente de ar vinda do outro, ao se abrir alguma das eclusas ou clarabóias que servem de passagem entre os dois? E essas esferográficas que secam sem aviso? E essas impressoras que, do nada, começam a esmigalhar as folhas A4 nelas inseridas? E essas fluorescentes que começam a piscar de forma intermitente, nem queimando de vez nem voltando ao normal?


Ah, esses homens e mulheres não sabem a profundeza do aquário que os acolhe todos os dias, entre uma e outra batida no relógio de ponto. Não sabem que das profundezas abissais do casulo de espiritualidade que os envolve começam a subir, atraídas pela sua presença, as hordas de lâmias famintas, de abantesmas espavoridas, de sanguessugas fantasmais que acessam nosso mundo para alimentar-se da sua luz e sua vida, às custas da energia vital dessas vítimas desavisadas que, ali, atrasam processos, esquecem empenhos, desperdiçam verbas, extraviam currículos e comprovantes, arquivam petições sem despacho, confundem agendas, protelam atendimentos, encalham tramitações, deixam telefones tocando em vão como bichos torturados, e, presos na gosma cinzenta do baixo-astral que os entorpece, olham pela centésima vez o relógio e pela centésima vez murmuram: “Eita!... Hoje dá meia-noite mas não dá seis horas!...” 





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

3121) Ser cineclubista (28.2.2013)





Minha vida de cineclubista ocorreu entre os 16 e os 30 anos. Nesse período eu tive várias atividades cinéfilas, nas cidades onde morava: Campina Grande, Belo Horizonte, Campina Grande de novo, Salvador. 

Mesmo quando não era um cineclube, era o espírito de cineclube que inspirava essas atividades. O espírito de amar o cinema, gostar não somente dos sofisticados e ambiciosos “filmes de arte”, mas de qualquer coisa besta relacionada ao cinema: o barulhinho treme-treme da película 16mm vibrando diante da luz, o cheiro ácido que se elevava das latas de filme ao serem abertas, a contagem regressiva da ponteira riscada que precedia o filme propriamente dito, a música que tocava antes da abertura das cortinas... 

A relação amorosa (eu quase diria: a relação sexual) entre nossa mente e aquela imagem luminosa gigantesca preenchendo o mundo à nossa frente. Uma relação ao mesmo tempo de desejo e desafio, entrega e controle. Por um lado, deixar-se embeber pelo filme, e por outro domesticar e subjugar o filme através de fórmulas mágicas criadas por mim mesmo, como estas linhas que escrevo agora.

Para os incréus, um cinéfilo é um intelectual pedante que diz entender filmes que ninguém entende, inclusive ele. Mas o cineclubista ou cinéfilo é o cara que não visa apenas “entender o filme”. Ele quer alcançar a vida que há por trás do filme. 

Mesmo que os simbolismos ou hermetismos de Bergman ou Godard continuem sendo grego para ele, ele pode, mergulhando no estudo de Godard ou Bergman, entender quem são esses caras, e o que são os filmes que fazem. Um cinéfilo olha uma cena e vê algo além do retângulo luminoso que é tudo que o espectador comum enxerga. Ele percebe como aquilo foi feito tecnicamente. Ele sabe que aquele movimento de câmara deve ter exigido dias de ensaio. Ele entende que certo efeito de iluminação não está ali por acaso, foi discutido noites a fio ao redor de uma mesa.

O cinéfilo vê o filme e espreme o sumo do prazer estético do filme, sabendo, ao mesmo tempo, o sangue, o suor e as lágrimas (para não falar nos dólares e nos reais) que aquele filme exigiu de quem o fez. 

O público vê o drama dos personagens; o cinéfilo deduz, do que vê na tela, os dramas de toda aquela longa ficha técnica cujas funções ele conhece. Ele sabe dos bastidores, dos camarins, entende a luta pelo poder que resulta num diálogo, numa cena, num corte. O público se emociona com a história, vê o filme como se o vivesse. O cineclubista se emociona com a história dos que contaram essa história vista pelos outros. Ele vê a vida por trás do filme, e com isso aprende a ver a vida por trás da vida.







quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

3120) O olê e o olá (27.2.2013)




Estávamos tocando violão num terraço. No meio do pot-pourri, não me perguntem como, cantamos “Mulher Rendeira”. Depois, na hora do “o-tocador-quer-beber”, um estrangeiro fluente em português, amigo dos donos da casa, perguntou o que era “mulher rendá”. A gente se safou dizendo que o verso dizia: “mulher, rendar!”, algo como: “mulher, tá na hora de fazer renda!”. 

Não sei se ele acreditou. Eu (que dei a explicação) não acreditei. Fiquei matutando e tenho uma teoria.

É uma constante na música brasileira a presença de versos, títulos, refrões (principalmente refrões) que constam de dois elementos, um terminando em “Ê” e o outro terminando em “Á”. 

Acho que o mais típico é o famoso refrão do samba do Salgueiro em 1971, “Festa para um rei negro”: “Ô-lê-lê, ô-lá-lá, pega no ganzê, pega no ganzá” (ouça aqui: http://bit.ly/dUgjM.) Tão famoso que hoje é cantado (com outra letra, claro) pela torcida do Barcelona. 

Tanto quanto o “rendá” do exemplo anterior, o “ganzê” é uma palavra que em princípio não existia, entrou apenas para compor o dístico. Pega bem no ouvido do povo essa sequência de sons, ê-á, ê-á. Pega bem no meu ouvido, pelo menos – e imagino que pegue bem no da galera, pela quantidade de exemplos que tem por aí.

Chico Buarque se consagrou, aos meus ouvidos, não com “A banda”, mas com “Olê Olá” (“Não chore ainda não / que eu tenho um violão / e nós vamos cantar...” – em: http://bit.ly/dUgjM), a canção que deixou pelo menos uma frase-feita na língua brasileira: “a noite é criança, o samba é menino”.  

João Bosco tem o ótimo “Odilê, odilá... / Que que vem fazer aqui meu irmão? / Vim sambar” (em: http://bit.ly/7s1cw1). E reparem como mais uma vez um dos termos parece fazer sentido na frase e o outro não, porque “odilá” pode ser uma saudação à distância como “ó de lá”, uma possível resposta para “ó daqui!”; e o “odilê” não parece ter sentido verbal, o sentido é apenas melódico, para compor o dístico sonoro. 

Sem esquecer, aqui pertinho, Beto Brito com seu “Imbolê”: “Tá o maior imbolê / tá o maior imbolá / em me embolei com você / ninguém vai desembolar...” (em: http://bit.ly/9PsSNr).

Exemplos brasileiros são incontáveis, mas no remexer da cachola fiquei pensando: o “Ob-La-Di, Ob-La-Da” dos Beatles não obedeceria a uma lei sonora parecida? Ao que se diz, MacCartney pegou esse refrão de um amigo jamaicano que vivia zanzando em Portobello Road. 

Falta o “Ê”, concordo, mas aí está o dístico meramente melódico, uma simples melopéia poundiana, rabisco sonoro sem intenção verbal, terminando em “á”... Resíduo africano, de cantilenas, ladainhas, estribilhos tribais? Um assunto a se pensê, um assunto a se pensar.




terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

3119) "O céu dos suicidas" (26.2.2013)






Já falei aqui, de vez em quando, num tipo de sujeitos que em Campina Grande a gente chama de “pertubados” (assim mesmo, sem um R). O “pertubado” é o sujeito atormentado por algo que nem ele nem ninguém sabe o que é. Uma infelicidade que o rói por dentro e o deixa instável, sujeito a ataques súbitos de irritação ou de fúria inexplicável. É um cara à beira de um ataque, eu não diria de nervos, mas de violência que ele próprio, no dia seguinte, não vai compreender. Há alguns retratos de “pertubados” na literatura. Charles Bukowski, Campos de Carvalho, Rubem Fonseca são os primeiros autores que me ocorrem que já mostraram personagens assim – problemas ambulantes, frascos de nitroglicerina prontos a explodir ao menor solavanco.

Um exemplo recente é o protagonista de O céu dos suicidas de Ricardo Lísias (Alfaguara, 2012), que tem o mesmo nome do autor. É um desses romances que correm o perigo de serem abandonados logo no começo da leitura, porque as primeiras 40 páginas são de uma tremenda monotonia. O cara é colecionador de selos, de tampinhas de garrafa, de outras coisas; é meio introvertido e macambúzio, e fala o tempo inteiro em coisas irrelevantes, repisando insistentemente detalhas sobre suas coleções... Todo colecionador faz isso; sou meio colecionador também, e conheço a compulsão de comentar, com estranhos, coisas que não lhes interessa nem um pouco. O livro vai se arrastando... até que Ricardo tem a primeira explosão.

Só nesse momento percebemos o que acontecia por trás daquela dureza, daquela falta de jogo de cintura. Revela-se que Ricardo é um transtornado, ovelha negra da família, criador de problemas, desencadeador de crises. Um dos motivos disso é o fato de ter expulsado do apartamento seu melhor amigo, André, que se enforcou dias depois. Ricardo acha que a culpa é dele, e uma dúvida o corrói: os suicidas vão para o céu?

A linguagem do autor faz o tempo inteiro, com enorme controle, um movimento de prende-e-solta, mostrando a auto-contenção de Ricardo tentando viver uma vida normal até que alguém diz uma vírgula fora do lugar e ele derrama sobre o interlocutor atônito uma saraivada de palavrões cabeludos e de insultos humilhantes. Poucas vezes a mente do “pertubado” foi descrita, ou melhor, reconstituída com tanta verossimilhança. É difícil não se comover com a tragédia de um rapaz que não é mau, mas cruza a vida como uma catástrofe engatilhada para si e para os outros. “O céu dos suicidas” é um romance (uma noveleta, na verdade) de capítulos todos do mesmo tamanho, como itens de coleção dispostos lado a lado para atenuar o tumulto de revolta e desorientação que ferve sob a superfície.



domingo, 24 de fevereiro de 2013

3118) O Convertido (24.2.2013)




Todos nós conhecemos o tipo. 

Pode ser o sujeito farrista e raparigueiro que um belo dia descobre a Bíblia e o culto de domingo à noite.  

Pode ser o rapaz de boa família burguesa que a certa altura descobre os livros de Marx e Che Guevara e fica rodando pela cidade atrás de companheiros para fundar uma célula subversiva e tomar lições de tiro ao alvo. 

Pode ser o pai de família discreto e moralista que na meia-idade começa a sair com uns rapazes exuberantes e em breve separa da mulher, vai morar com um deles, e passa a soltar a franga como quem quer tirar décadas de atraso. 

Pode ser o oposicionista implacável que sempre castigou com seu látego verbal todos os sucessivos governos mas de repente deixa-se cooptar por um deles e agora vive bordando elogios e mensagens de otimismo à mera menção do nome do caudilho da vez.  

Pode ser o beberrão incontinente que depois de anos de vexame descobre uma terapia qualquer, cura-se e passa ser o arauto da temperança e da sobriedade, pra quem até um carro a álcool é um passaporte para o inferno.

Os exemplos são tantos que acabam convergindo todos para uma coisa só. O Convertido é simplesmente um radical que só sabe ser radical; sente tal volúpia na própria radicalidade que pouco importa em nome de quem ou do quê ela esteja sendo praticada. Depois que esgota um lado do problema, ele arregaça as mangas e começa a se dedicar ao outro.

A questão mais interessante é, para mim, a facilidade com que o cara se converte, a absoluta sinceridade com que o faz, e a felicidade esfuziante que experimenta com essa mudança. 

Na verdade, o Convertido é um sujeito que nunca havia se dado o trabalho de prestar atenção no lado oposto. Fez sua primeira escolha muito cedo na vida, ou talvez seja melhor dizer que a escolha foi feita por ele, e ele a aceitou, porque, como todo jovem, estava pensando noutra coisa. O tempo o fez roer essa outra coisa até os ossos. Instalou-se um vazio nele, e em volta dele.  

Um belo dia, sucedeu algo que o fez pela primeira vez prestar atenção naquelas pessoas a quem detestava ou desprezava, com quem se recusava a dialogar, e cujos argumentos desconhecia. Esses novos argumentos preencheram aquele vazio, fizeram-no abrir os olhos para um milhão de coisas novas que o invadiram por um flanco desguarnecido. A ficha caiu. 

Aliás, era um tal cair de fichas uma atrás da outra que o sujeito acabou se convertendo justamente àquelas idéias que se esforçara para ignorar, com as quais nunca debatera, aquelas idéias que nunca examinara, aquelas idéias para as quais ele sempre fechara os olhos e os ouvidos – vai ver porque sabia que era daquilo mesmo que estava precisando.



sábado, 23 de fevereiro de 2013

3117) O gozo da santa (23.2.2013)




(Bernini, "Êxtase de Santa Teresa", detalhe)


Uma piada irreverente diz que o lugar mais religioso do mundo é o Motel, porque se alguém pudesse sair escutando às portas ouviria em todas elas alguém gemendo: “Ai meu Deus... ai meu Deus do céu... ai minha Nossa Senhora... valei-me meu Jesus...”. Não é desrespeito, minha gente; aliás, se quem está por trás daquelas portas são casais cristãos e cheios de fé, melhor dizerem isso do que dizerem aquelas outras coisas impublicáveis que nos ocorrem nesses momentos.

O êxtase religioso e o êxtase sexual são um tema antigo na arte, e me referi dias atrás nesta coluna ao poema de Manuel Bandeira onde ele comenta a “transverberação” (=trespassamento) do coração de Santa Teresa de Ávila. Esta santa escreveu algumas das páginas mais belas da poesia cristã, junto com as de San Juan de la Cruz. Não li muitos poemas dela, mas sua sensibilidade e sua agudeza psicológica me lembram Emily Dickinson ou Cecilia Meireles.

A transverberação é um episódio biográfico em que ela assim descreve a visitação que recebeu de um anjo: “Vi na sua mão uma comprida lança de ouro, em cuja ponta de ferro havia um pequeno fogo. Ele parecia enfiá-la de vez em quando no meu coração, até perfurar minhas entranhas; e quando a puxava para fora arrastava tudo consigo, e me deixava em chamas, com um grande amor por Deus. A dor era tão grande que me fazia gemer; e no entanto era tão extraordinária a doçura dessa dor excessiva que eu não queria que ela parasse”.

Em 1652 o escultor Bernini traduziu esse episódio num famoso grupo de estátuas, em Roma, onde a imagem do rosto da santa, jogado para trás, olhos cerrados, boca entreaberta, é a pura imagem do gozo físico. (Ver aqui: http://bit.ly/a6WfOp). Bernini produziu outra estátua em 1674, da beata Ludovica Albertoni, em que o momento da morte e o momento do êxtase igualmente se confundem (ver: http://bit.ly/YeVUQ0). Para nós, são imagens que evocam de imediato o gozo feminino, o transporte de prazer que já foi chamado “a pequena morte”. A mistura de prazer carnal e transcendência espiritual é um dos aspectos mais curiosos de certas religiões, onde o êxtase pela fé é sem dúvida uma sublimação para o sexo (onde ele é vetado) ou uma focalização de suas energias (onde o sexo é parte de um ritual).

Santa Teresa afirmou num poema: “Deus não tem outro corpo senão o teu / nem mãos, nem pés sobre a terra senão os teus; / são teus os olhos com que a compaixão de Deus contempla o mundo”. Poderíamos teorizar que o orgasmo é uma das raras ocasiões em que o ser humano se torna completo, em que corpo e alma se tornam uma coisa só, e Deus (aceitando a premissa de que haja um Deus) habita alguém por inteiro.



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

3116) Antídoto contra o tédio (22.2.2013)




Os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, criadores do Concretismo paulistano com Décio Pignatari, costumavam mencionar em seus livros o mistério que cercava uma palavra do antigo idioma provençal. Era a palavra “noigandres”, que nenhum linguista conseguia entender o que era. 

Virou um pequeno enigma, tão fascinante que foi a palavra escolhida para dar nome à revista literária que os concretistas começaram a publicar em São Paulo em 1952. (E eu a citei ao chamar de “Campinoigandres” a cidade imaginária onde ocorrem alguns dos meus contos e meu romance A Máquina Voadora).

Quem quiser saber a história detalhada, leia aqui o ótimo artigo de Antonio Risério (http://bit.ly/YwwnlS); basta dizer que o provençalista Emil Lévy pesquisou a palavra e concluiu que seria uma forma abreviada de “d’enoi gandres”, onde “enoi” é uma forma aparentada ao termo francês “ennui”, tédio; e “gandres” viria de “gandir”, proteger. 

A expressão significaria, portanto, algo que protege contra o tédio. Um antídoto contra o tédio – para ser fiel ao amor concretista pelas assonâncias. E, por uma casualidade serendipícia, é uma boa descrição para a injeção de novidade e estranheza que o Concretismo aplicou em nossa poesia, em nossa crítica literária.

Isto sempre me trouxe à mente a famosa frase de Maiakóvski, que dizia: “É melhor morrer de vodka do que de tédio”. Melhor naufragar na tormenta do que apodrecer na calmaria. Maiakóvski, o futurista “de estatura quilométrica”, com sua camisa amarelo-berrante, dizendo: “A anatomia ficou maluca comigo: sou coração dos pés à cabeça”. 


E me lembra também o conto de Ray Bradbury, no livro homônimo, A Medicine for Melancholy (1959). É a história de uma linda mocinha londrina do século 18, que está definhando de fraqueza e nostalgia. A família coloca sua cama na calçada, em frente à casa, para pedir opiniões aos transeuntes. Um jovem lixeiro aconselha que ela passe a noite ali fora, porque a melancolia que ela sente só pode ser curada por um remédio: a lua. Seguem seu conselho, e durante a noite quem aparece não é a lua, é o próprio lixeiro, agora limpo e cheiroso, que se enfia entre os lençóis da moça e a cura da melancolia com o mais antigo dos remédios.

E não acho que exagero quando vejo na letra de Cazuza em “Todo Amor que Houver Nessa Vida” um pouco disso tudo: “Transformar o tédio em melodia... algum veneno antimonotonia... algum remédio que me dê alegria...”. 

Tudo que as pessoas buscam na vodka, na droga, no amor, na música, na poesia. A novidade, a estranheza, a intensidade, o furacão, a tempestade, a alucinação dos sentidos, a eletricidade na medula, o antídoto contra o tédio: noigandres.





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

3115) O lutador de Bandeira (21.2.2013)




("Êxtase de Santa Teresa", de Bernini)


Manuel Bandeira refere-se também, a respeito dos seus poemas feitos pelo inconsciente, a “Lutador”, soneto que aparece no livro Belo Belo (1948). Diz ele que a idéia surgiu de uma conversa com sua prima Maria do Carmo do Cristo Rei, monja carmelita, que lhe contou uma viagem feita por umas amigas dela a Ávila, onde viram o coração transverberado da santa local. O poeta impressionou-se com essa palavra, “transverberado” (=trespassado, atravessado) e passou o dia com esta palavra na cabeça, mas sem tentar compor nenhum poema. Diz ele: 

“No dia seguinte de manhã acordo com o soneto pronto na cabeça, com título e tudo. ‘Believe it or not’. Não sei até hoje quem seja o lutador. O primeiro quarteto não permite supor que se trate de Cristo: aplica-se, sim, a Beethoven, cuja biografia escrita por Romain Rolland li e reli comovidíssimo aos vinte e tantos anos. Tanto este soneto como a “Palinódia” [em Libertinagem, 1930] são coisas que tenho que interpretar como obra alheia”.

Eis o soneto: 

Buscou no amor o bálsamo da vida, 
não encontrou senão veneno e morte. 
Levantou no deserto a roca-forte 
do egoísmo, e a roca em mar foi submergida! 

Depois de muita pena e muita lida, 
de espantos caçar de toda sorte, 
venceu o monstro de desmedido porte 
a ululante Quimera espavorida! 

Quando morreu, línguas de sangue ardente, 
aleluias de fogo acometiam, 
tomavam todo o céu de lado a lado, 

e longamente, indefinidamente, 
como um coro de ventos sacudiam 
seu grande coração transverberado!.

Impressionante o cara compor dormindo um soneto que eu não faria nem duplamente acordado. Os versos “levantou no deserto a roca-forte do egoísmo, e a roca em mar foi submergida” são titânicos, uma mistura de Gustave Doré com El Greco. E essa “ululante Quimera espavorida” não é menor que Goya ou (mais obviamente) Géricault. (Relendo o trecho percebo que só me ocorreram comparações com pintores, não com poetas; a forte visualidade das imagens, domesticada por decassílabos quase perfeitos, mostra o duplo nível de criação e elaboração que resultou em “Lutador”).

O coração “transverberado” de Sta. Teresa foi retratado na famosíssima escultura de Bernini em que um anjo atravessa seu coração com uma seta; é a escultura que foi chamada de “o santo orgasmo”, pela intensa expressão de êxtase da santa. Na memória inconsciente de Bandeira, fundiram-se talvez a prima, Beethoven, a escultura de Bernini, a sexualidade sublimada, as imagens extremadas e delirantes de paixões reprimidas. Libido sublimada em imagens, imagens sublimadas em versos. Quem é poeta mesmo, é poeta 24 horas por dia, queira ou não queira.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

3114) "Persona" (20.2.2013)












Revi este clássico de Ingmar Bergman, um dos mais meticulosamente belos que ele executou. É a história de uma atriz que teve um esgotamento nervoso e ficou muda (Liv Ullmann) e a enfermeira encarregada de cuidar dela (Bibi Andersson). O filme todo é um “pas-de-deux” entre elas. Logo no início do tratamento, vão para uma casa na praia, e lá ocorre o filme quase todo. A expressão “uma casa na praia” é uma das mais vulneráveis à geografia. A praia sueca de Bergman é pouco mais que um sertão: uma região em preto-e-branco coberta de rochedos, pedregulhos, lajedos partidos cheios de arestas e quinas agudas, um mar cinzento que fustiga sem cessar essa superfície árida, estéril. Uma praia que reaparece em outros filmes do diretor, como O sétimo selo, A hora do lobo, etc. Uma praia inóspita, cruel, sofredora. Depois não digam que eu não avisei.


Elizabeth (a atriz) não diz uma palavra; Alma (a enfermeira), fala compulsivamente, sem parar. E então, na convivência solitária das duas, algo começa a acontecer. Ao invés da enfermeira tratar da doente, é a doente que parece tratar da enfermeira, impondo sobre ela aquele terrível e pressionante silêncio do psicanalista sobre o falante indefeso que dá com a língua nos dentes no divã. Alma fala o tempo inteiro, sobre seus planos, seus projetos de vida, seu passado. Há uma cena famosa (que Godard confessa ter imitado em Week-end à francesa) em que ela conta ao longo de infinitos minutos uma experiência sexual que teve na praia, com uma amiga e dois rapazes desconhecidos. Alma se abre, se derrama sobre a sua suposta paciente, e esta, pacientemente, mantém seu silêncio. Como se as duas fossem vasos comunicantes e Elizabeth, num plano mais abaixo, sugasse para si tudo que há na outra.

E elas começam a se fundir, como duas partículas subatômicas que, submetidas a uma experiência, permanecem ligadas, mesmo distantes. Como se uma soubesse o que se passa na mente da outra. Há uma cena com dois monólogos sucessivos em que Alma, parecendo ler a memória de Elizabeth, descreve de maneira impiedosa os comos e os porquês de sua repulsa emocional pelo único filho. Ou na cena (de sonho?) em que o marido de Elizabeth confunde Alma com a esposa e Elizabeth, ao lado, aparentemente sem ser vista por ele, força a enfermeira a abraçar-se com ele, dialogar com ele em seu nome.

Bergman fazia um cinema de prospecção de camadas profundas da mente e da memória, que não se pode alcançar sem altos custos e sem altos sacrifícios. Tirando este aspecto, o filme é de uma linearidade e uma limpidez espantosas, graças às atrizes, à fotografia de Sven Nykvist e à música de Lars Johan Werle.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

3113) "Literatura Nazista" (19.2.2013)





Não sei se foi Jorge Luís Borges quem inventou a biografia literária como gênero da ficção (Pierre Menard, Herbert Quain, etc.), mas o chileno Roberto Bolaño produziu um dos mais saborosos e intrigantes títulos desse gênero: A Literatura Nazista nas Américas (1996). Não sei se já saiu no Brasil. 

[ Saiu agora, pela Companhia das Letras, em tradução de Rosa Freire d'Aguiar. ]

É uma coletânea de biografias curtas de 30 escritores de variadas tendências direitistas. Os capítulos variam entre duas e trinta páginas. A imaginação de Bolaño é notável, mas mais notável ainda é seu olho jornalístico: os personagens que ele descreve são caricaturas ou esboços descritivos de escritores em que a gente esbarra em qualquer esquina.

Há por exemplo os irmãos Ítalo e Argentino Schiaffino, chefes da torcida organizada do Boca Juniors, envolvidos com gangsters, celebrantes da violência física e da briga de rua, e colocando a culpa de todos os problemas do país na burguesia judaica e nos intelectuais comunistas. 

Há o plagiador inveterado Max Mirebalais, haitiano, cuja obra é uma gigantesca antologia de autores obscuros cujos poemas ele copia e assina. 

Há a socialite argentina Luz Mendiluce Thompson, cuja maior honra foi ter posado nos braços de Hitler quando era bebê e sua mãe visitou a Alemanha. 

Há o norte-americano Zach Sodenstern, autor de romances de ficção científica sobre o super-herói Gunther O’Donnell, que é acompanhado por seu cão, “um pastor alemão mutante, com poderes telepáticos e tendências nazistas”. 

Há o poeta Rory Long, que cultiva a poesia falada e funda a Igreja Carismática dos Cristãos Californianos. 

Há a poetisa mexicana Irma Carrasco, que afirmava estar “apaixonada por Deus, pela Vida, e pela Nova Aurora Mexicana, à qual se referia indiscriminadamente como ‘ressurreição’, ‘despertar’, ‘sonho’, ‘apaixonar-se’, ‘perdão’ e ‘casamento’”.

Deixo para depois o comentário sobre os dois brasileiros que entram no catálogo imaginário de Bolaño. Os autores que ele inventa (ou que recompõe das memórias de suas andanças por América Latina e Europa) não são todos propriamente nazistas. São aquela mistura informe e desorientada (que aliás não é privilégio da Direita) de vaidade, tacanhez espiritual, leituras desordenadas e cheias de lacunas, alpinismo social, idealismo egoísta, fervor missionário. 

Seus “nazistas” na verdade não passam desses indivíduos que ouvem dez galos tecendo a manhã em diferentes pontos cardeais e querem descobrir todos ao mesmo tempo. 

O único personagem realmente ameaçador é o último, Ramírez Hoffmann, que Bolaño retomou brilhantemente, com o nome de Carlos Wieder, no romance Estrela distante, já comentado aqui nesta coluna (http://bit.ly/SgYxoE).