domingo, 16 de setembro de 2012

2978) Tempestade de Dylan (16.9.2012)




O novo disco de Bob Dylan, Tempest está chegando às lojas (ou melhor, já pode ser ripado livremente). O Bardo aproveitou a ocasião para dar mais uma entrevista à revista Rolling Stone, na qual solta o verbo sobre os críticos com uma irritação que há um bom tempo não demonstrava (“all those motherfuckers can rot in hell”). Bem, como é tempo de política, ele deve estar se dirigindo aos críticos republicanos.

Já escutei uma faixa no YouTube, “Duquesne Whistle”, que mais uma vez não é rock, começa como uma daquelas cantigas “honey pie” dos anos 1930, com uma bateriazinha básica, guitarra slide, órgão de apoio... Tem um clima de botecos clandestinos da Lei Seca, ainda com um glitter e um charme dos anos 1920, mas já com um cheiro de fumaça, poeira e pólvora da Depressão dos 30. Não é rock, como aliás não têm sido os últimos álbuns de Dylan. É uma raiz melódica do rock, uma raiz mais remota que o blues, ainda que menos poderosa. Curiosamente, uma raiz que Dylan compartilha com os Beatles, cuja música entre 1967 e 1969 bebeu nessa fonte “antiquada”, graças principalmente a Paul McCartney, cujo pai tinha sido músico de banda nesse período.

Dylan retoma na entrevista a discussão sobre os versos que andou “pedindo emprestado” a outros autores em letras de canções recentes. Os casos mais notórios são o livro Confessions of a Yakuza de Junichi Saga e os poemas de Henry Timrod (1828-1867), dos quais Dylan teria usado frases inteiras. Diz ele:

“No folk e no jazz a citação é uma tradição rica e enriquecedora. Alguém aí já ouviu falar em Henry Timrod? Quem de vocês leu os livros dele ultimamente? E quem foi que o trouxe à evidência agora? Quem fez vocês se interessarem por ele? Perguntem aos descendentes dele o que acham dessa discussão. E se vocês pensam que é fácil citá-lo, e que isso pode lhes ser útil, vão em frente e vejam o que conseguem. Estou trabalhando dentro da minha arte, dentro das regras e das limitações dela. Existe aí gente autorizada que pode explicar isso melhor do que eu. Chama-se ‘escrever canções’. Tem a ver com melodia e ritmo, e depois disso vale tudo. Tudo que você usa fica sendo seu. Todos nós fazemos isso”.

E antes que qualquer zé-mané se meta a copiar versos alheios, faço eu minha advertência final: você só tem direito de copiar 10% do que usa, e seus 90% têm que ser melhores do que o material alheio que você vier a usar. É justamente o caso de Dylan. Ele usa o alheio, mas num contexto tal que o alheio fica valorizado e enriquecido pelo novo contexto. No caso de Junichi Saga, pelo menos, ele afirmou sentir-se honrado por ter frases suas citadas por Dylan.


sábado, 15 de setembro de 2012

2977) Na festa do mundo (15.9.2012)




(foto: "Paris, 1924", Henri Manuel)

"O mundo era uma festa, uma noite estrelada, o terraço de uma cobertura aberta para o oceano, a avenida da praia percorrida por pares de faróis em trânsito incessante, os edifícios com janelas iluminadas e terraços onde pessoas dançavam, gritavam rindo para nós, erguiam o copo numa saudação alegre à distância, sem nem saber que éramos. 

"Nós mesmos não sabíamos quem éramos, e isso não tinha importância; a vida era uma coisa tão boa que nos poupava de ser bons, era tão acelerada que nos poupava da menor iniciativa.  Erguíamos os braços com as taças se derramando, ouviam-se gritinhos femininos de prazer, e nos saudávamos como se toda noite fosse uma festa de reveillon, como se no futuro alguém fosse ler em todas as lápides: “Eles viveram como se toda noite fosse um reveillon”.  

"Isso éramos nós, na pedra, no mármore e no bronze. A vida era uma comemoração do mero fato de haver a vida.  Uma celebração abstrata, um brinde e um beijo a toda e qualquer coisa, fosse um aniversário, um casamento, uma vitória, um festejo em comum. Os seres humanos do nosso mundo não perguntavam o  antigo “quem somos, de onde viemos e para onde vamos”.  Perguntavam: Como foi a festa de ontem? Como vamos nos preparar para a festa de hoje?  Alguém sabe onde tem festa amanhã?  

"Vivíamos erguendo os copos, arremessando serpentinas do nosso balcão ao balcão do sobrado em frente, vendo a rua fervilhar de dançarinos, o mundo era uma festa, e estávamos celebrando.  As águas subiam, e estávamos celebrando. As luzes falhavam, a comida acabava, a bebida estava quente, mas tudo era motivo para novos risos, novos gracejos, e celebração. 

"Onde havia uma avenida era agora correnteza; passavam boiando reses, carros, pessoas. Tudo era espetáculo para nossos comentários espirituosos, nossas apostas repentinas, nossos brindes.  Entrava noite e saía noite, nascia manhã e findava tarde, e íamos de lancha ao clube para onde antes íamos de carro, e onde os salões superiores estavam sempre apinhados de multidão e música, mesmo que lá embaixo a piscina estivesse submersa no lamaçal. Subiam colunas de fumaça, e apostávamos se o vento as empurraria para o nascente ou o poente. Prédios ardiam, e alguém murmurava um verso sobre “a beleza ancestral do fogo”.  As tropas chacinavam multidões famintas e tudo parecia um videogame.  Da vida só entendíamos o que ela tinha de festa, e é no espírito de festa que hoje, entre as ruínas, tomamos a sopa rude dos desabrigados que nos acolheram em seus barracos, e brindamos, com estes canecos enferrujados e esta cachaça impura, ao mundo que deixou de existir." 







sexta-feira, 14 de setembro de 2012

2976) "Trabalho Interno" (14.9.2012)






Em setembro de 2001, as Torres Gêmeas de Nova York foram derrubadas por aviões terroristas e o mundo inteiro ficou chocado. Dá para entender – morreram quase 3 mil pessoas, o prejuízo material foi enorme, e tudo isto foi obra de um atentado feito com enorme frieza e desprezo pela vida humana. 

Sete anos depois, um atentado de proporções muito maiores, inimagináveis, foi cometido. Em vítimas fatais deve ter feito um número equivalente; quanto ao prejuízo material, foi milhares de vezes maior.  No atentado das Torres, algumas centenas de empresas tiveram um forte abalo. No de 2008, bilhões de pessoas foram (e ainda estão sendo) sacrificadas.

O “atentado” de 2008 foi a queda de dominós provocada por especulações financeiras de Wall Street e arredores. A coisa explodiu em 2008, mas os “aviões” já vinham nessa direção há muito tempo.  Muita gente alertou, mas o enriquecimento brutal de alguns milhares de financistas e executivos funcionou como uma espécie de droga. Estava todo mundo bêbado de dinheiro, todo mundo cheirado de dinheiro.  Dinheiro é a mais viciante das drogas. Quando veio a rebordosa, milhões de norte-americanos perderam suas casas, seus empregos, suas economias da vida toda.  Se a gente juntar os suicídios, os enfartes, as mortes por causa da brusca penúria financeira de quem perdeu a poupança de toda a vida, dá mais vítimas do que a queda das Torres.

O filme Trabalho Interno (Inside Job, 2010) de Charles Ferguson é um documentário com entrevistas com os envolvidos (claro que nem todos aceitaram falar) e explicações simples de economia que até um leigo absoluto como eu entende por alto. O que aconteceu, basicamente, foi que o governo deixou aos poucos de regular as atividades financeiras e permitiu operações de alto risco,que enriqueciam os primeiros operadores e deixavam a conta para ser paga por quem viesse depois. É o famoso golpe da “pirâmide” (ou “Ponzi scheme” como se diz em inglês) que no Brasil se conhece tão bem.

O filme de Ferguson passa um pente fino na farra financeira, que aliás não terminou, pois o esquema (que não se limita aos EUA) foi criado no governo Reagan, fez seu carnaval nos governos Bush 1/ Clinton /Bush 2, e foi reconduzido ao poder por Barack Obama. Logo Obama?! Por que? Um entrevistado diz: “É um governo governado por Wall Street”. As finanças do mundo foram consertadas, às custas de alguns trilhões de dólares e das economias dos gregos, dos espanhóis, etc. e outros que vêm por aí. A economia globalizada é agora um avião cujas asas caíram e foram colocadas de volta com esparadrapo, fita crepe e Super-Bonder. O avião levantou voo de novo, e estamos todos dentro.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

2975) "Godard: The Game" (13.9.2012)



"É irônico que um dos videogames mais populares de 2031 se baseie, ao invés de numa HQ de super-heróis, na obra de um diretor tido como um dos mais herméticos e de menor índice de entretenimento do século 20.  

"Explica-se pelo fato de que Jean-Luc Godard, que em seus filmes cultivava uma intenção fanática de não emocionar o público, baseava-se quase sempre num tipo de literatura que visava o contrário.  Pode-se assim dizer (como grande parte da “intelligentzia” tem se queixado) que o game é infiel ao espírito de Godard; mas a verdade é que ao lançar mão de suas fontes de inspiração (o romance e o filme “noir” americanos, as histórias em quadrinhos, a cultura de massas, etc.) os produtores e game designers da Omegaville Inc. produziram um dos mais excitantes conjuntos de aventuras dos últimos tempos.

"Aqui, os godardmaníacos encontrarão inúmeras narrativas entrecruzadas, numa webwork hábil e que felizmente não se sente obrigada a dar muitas explicações.  

"O jogador que perseguir a trama policial de Made in USA pode se envolver a qualquer instante no thriller político de O Pequeno Soldado, e sair deste para um ambiente de guerra de Les Carabiniers.  Nana, a prostituta de Viver a Vida, é inteligentemente utilizada como ponte por onde o jogador passa de uma para outra das histórias parisienses: a aventura criminal de Acossado, os pequenos delitos de Bande à part, as conspirações subversivas de A Chinesa, as intrigas amorosas de Masculino Feminino, Uma mulher é uma mulher, etc.

"Há tiros, socos e perseguições na medida certa para os que não passam sem isso; discussões existencialistas e políticas podem atrair o leitor mais “old fashioned”, enquanto que as cenas de sexo (não apenas com Nana) são de uma franqueza quase jornalística, o que de imediato fez do game um divisor de águas.  

"A lamentar apenas a ausência de uma trama de FC: os direitos de Alphaville foram comprados por outra empresa e deverão resultar num game independente.  Mas Lemmy Caution, personagem daquele filme, é uma figura onipresente, com sua imagem de avatar frankmilleriano.  

"Só resta avisar ao jogador que quando os desfechos de todas as tramas se entrelaçam e elas começam a colapsar uma a uma, entramos no universo de O desprezo, o universo de um filme (no caso, um videogame) que está sendo feito, e todos os mistérios se esclarecem nessa nova situação.  

"Um final metalinguístico (que não é nem um pouco prejudicado por essa revelação) bem à altura do diretor que fez do cinema o tema principal de seus filmes. Aqui, o game é o tema principal do game, e o jogador sabe disto desde os primeiros movimentos.  Cotação: 5 estrelas."







quarta-feira, 12 de setembro de 2012

2974) Paralímpico? (12.9.2012)




Não sou a única pessoa que se surpreendeu ao ser avisado, pela TV, que os Jogos Paraolímpicos chamam-se agora Jogos Paralímpicos. Não vi a menor razão para isso, porque mesmo que fosse necessário eliminar uma dessas vogais do meio da palavra (“...ao...”) o resultado, ao meu ver, deveria ser algo como “parolímpico”.  Por que?  Porque olímpico vem de Olimpíadas, palavra que por sua vez vem de Olimpo, o monte Olimpo da Grécia, onde viviam virtualmente os deuses antigos. Pra mim não faz o menor sentido mutilar a raiz da palavra amputando esse “O” inicial. Se alguma vogal tem que cair, que caia a do prefixo, ora. Não dizemos “hidrelétrico”?

O saite oficial do Comitê Paralímpico Internacional diz apenas: “A palavra paralímpico deriva da preposição grega ‘para’ (= ao lado de, ou ao longo de) e a palavra ‘Olímpico’. Seu significado é que os Jogos Paralímpicos são jogos paralelos às Olimpíadas, e ilustram como os dois movimentos existem lado a lado”.  Ninguém me explicou até hoje por que motivo os ingleses derrubaram o “O” olímpico, e espero que haja uma boa razão linguística e morfológica para esse absurdo, porque sentido aparente não há nenhum. (Talvez quisessem evitar a semelhança com “parole”, liberdade condicional?...)

O professor Pasquale Cipro Neto veio ao meu socorro em sua coluna (intitulada “Paralímpico: haja bobagem e submissão”) na Folha de SP (http://bit.ly/RnCAwl), que cito a seguir:

“A formação de ‘paraolímpico’ é semelhante à de termos como ‘gastroenterologista’, ‘gastroenterite’, ‘hidroelétrico/a’, ‘socioeconômico’, das quais existem formas variantes, em que se suprime a vogal/fonema final do primeiro elemento (mas nunca a vogal/fonema inicial do segundo elemento): ‘gastrenterologia’, ‘gastrenterite’, ‘hidrelétrico/a’, ‘socieconômico’. O uso não registra preferência por um determinado tipo de processo: se tomarmos a dupla ‘hidroelétrico/hidrelétrico’, por exemplo, veremos que a mais usada sem dúvida é a segunda; se tomarmos ‘socioeconômico/socieconômico’, veremos que a vitória é da primeira. O fato é que em português poderíamos perfeitamente ter também a forma ‘parolímpico’, mas nunca ‘paralímpico’, que, pelo jeito, não passa de macaquice, explicitação do invencível complexo de vira-lata (como dizia o grande Nélson Rodrigues)”.

Resumindo: os países de fala inglesa produziram a forma “paralímpico” e a impuseram aos demais países, que vêm a reboque na criação de organismos internacionais, entidades, eventos, etc. Estes se sentiram na obrigação de adotar essa forma, mesmo que ela não faça o menor sentido em seu próprio idioma. Não é o primeiro nem será o último caso em que isso acontece.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

2973) Roberto Silva (11.9.2012)





“Hoje não tem ensaio na Escola de Samba... / O morro está triste e o pandeiro calado”. A manhã de domingo trouxe a notícia temida há muito tempo: a morte de Roberto Silva, o maior sambista brasileiro. Tinha 92 anos, e meses atrás eu lera que estava muito doente.  Soube agora que tinha câncer de próstata.  Os sambas de Roberto Silva marcaram minha infância e adolescência, porque foi durante os anos 1950-60 que ele lançou sua coleção de quatro LPs Descendo o Morro, cujas canções tocaram nas rádios do Brasil inteiro. Veio a Jovem Guarda, veio o Tropicalismo, o Rock-BR, e Roberto desapareceu. Ressurgiu com força total aos 80 anos, e foi num artigo de Ruy Castro que fiquei sabendo do relançamento em CD da série Descendo o Morro, um CD duplo que traz todos os quatro discos.

Maior sambista brasileiro?  Que história é essa? E Paulinho da Viola, Martinho da Vila, etc.?  Bem, em primeiro lugar Roberto corre noutra raia, porque é mais cantor do que compositor, é do tempo do cantor intérprete, que grava as composições alheias. Em segundo lugar, se você fizer uma enquete com todos os candidatos a maior sambista brasileiro e tocar no nome “Roberto Silva”, o mais provável é que todos eles ponham um joelho em terra e peçam-lhe a bênção. Ele foi um artista fundador de um estilo, com sua voz grave, encorpada, expressiva, capaz de sutilezas de ironia ou de romance; uma espécie de Orlando Silva com gingado de malandro e repertório de morro.

Tive a alegria de vê-lo ao vivo no Cine Odeon, na Cinelândia, num histórico show de samba em que ele subia ao palco acompanhado de uns 20 músicos para cantar seus grandes sucessos como “Amanhã eu volto”, “Ai que saudade da Amélia”, “Emília”, “Errei, erramos”, “Falsa baiana”, “Agora é cinza” e por aí vai.  Como todos os cantores de sua época, gravou diversos estilos, incluindo bolero e samba-canção. Uma das minhas preferidas é “Jornal da Morte”, que comentei nesta coluna no ano passado (http://bit.ly/RA39i1).

O samba, que já foi o “centrão” da música brasileira, foi cedendo espaço a novos ritmos a cada década que passou, e hoje não é mais o centro, não é mais o “mainstream”, é um gênero como os demais.  Isso não significa que esteja decadente. Jornalistas param de ouvir samba e começam a achar que com a ausência deles o samba morreu. Não morreu, mas quase foi fagocitado por subgêneros de sucesso como o pagode, tanto o pagode verdadeiro de fundo de quintal quanto o pagode estilizado e “axézado” das bandas de show na praça. O samba continua a se multiplicar em talentos e não perdeu a medula rítmica, melódica e poética que foi consolidada pela geração a que pertenceu Roberto Silva.


domingo, 9 de setembro de 2012

2972) Os precogs de Dick (9.9.2012)


(Philip K. Dick)


Em Realidades Adaptadas, coletânea de contos de Philip K. Dick (Ed. Aleph, 2012), aparecem alguns contos do princípio da década de 1950 em que Dick começou a fazer experiências com os personagens a que viria a chamar de “precogs”, pessoas dotadas de precognição, a capacidade de adivinhar o futuro. A palavra “adivinhar”, neste caso, é um barbarismo, e a usei apenas para denunciar o quanto os maus hábitos verbais prejudicam nossa capacidade de entender as coisas. Adivinhar é pensar numa coisa de maneira meio aleatória, sem justificativa, sem nenhum esforço especial, e aquilo depois se revela verdadeiro. Não é isso que acontece com os precogs de Dick. O conto “Relatório Minoritário” (que deu origem ao filme Minority Report, de Spielberg) ajudou muito a popularizar esse conceito.  Os precogs são capazes de antever os diversos futuros possíveis a partir de um determinado momento; enquanto certos atos não são praticados, vários resultados podem coexistir.  O presente, para eles, é como um dado rolando, só que eles conseguem perceber que há mais fatores induzindo que dê, por exemplo, o 2 e o 5 do que o 4 ou o 3 – e essas condições mudam sem parar, a cada minuto que passa.

O que acontece, segundo Dick, é que esses futuros possíveis são instáveis. A melhor comparação com isso, na vida real, é a cobrança de um pênalti no futebol. Quando o jogador parte para a bola, várias coisas podem acontecer, na verdade estão a “um tantinho assim” de acontecer, mas estão sujeitas a micro-decisões que o chutador e o goleiro tomarão nos segundos finais.  No conto de Dick, os três precogs que trabalham para a polícia preveem os crimes antes que eles sejam cometidos, mas nunca há 100% de certeza de que o crime acontecerá, como no pênalti não se tem certeza de que o gol acontecerá. Daí que a visão de cada “precog” dê origem a um relatório sobre esse crime possível, e quando dois desses relatórios (a maioria) coincidem, a polícia entra em ação para fazer com que o crime não aconteça. A trama do conto de Dick é baseada na existência do terceiro, o “relatório minoritário”, que ele usa para tornar o enredo mais surpreendente, cheio de reviravoltas.

O filme de Spielberg foi um dos poucos casos em que a idéia original de Dick foi respeitada, encorpada e aperfeiçoada. O uso de painéis holográficos superpostos para representar as visões dos precogs é notável, e transmite bem a idéia sugerida por Dick de que o futuro já existe neste momento presente, mas existe num estágio de larva, de embrião, alguma coisa frágil e trêmula que luta para se impor e acontecer; e cada futuro que acontece sacrifica a existência de todos os demais.

sábado, 8 de setembro de 2012

2971) O tradutor e o estilo (8.9.2012)



(Sarolta Ban)


Uma obra literária consta basicamente de enredo e estilo. A história que é contada e as palavras escolhidas para contar essa história. (Sim, sei que tem muito mais coisas, mas bora em frente.) Tem gente boa de enredo e que escreve apenas mais-ou-menos, e tem gente que escreve super bem mas só imagina histórias banais. A grande e a pequena literatura estão cheias de exemplos.

Essa divisão de tarefas mentais explica, parcialmente, a existência de grandes tradutores. Tem gente que diz que o tradutor é um escritor frustrado.  Não vejo bem assim. Há mil influências pessoais e variáveis de vida que conduzem um indivíduo a essa profissão quase mediúnica, mas eu diria que muitos tradutores são pessoas que são refinadas em estilo mas não têm (ou não tentam ter) capacidade fabulatória, capacidade para inventar histórias, imaginar personagens a partir do zero, produzir peripécias. Escritores assim muitas vezes tornam-se tradutores, porque na tradução é proibido mexer no enredo, mas é preciso saber reproduzir inúmeros estilos.

O que é traduzir?  É escrever um livro que já está escrito, só que escrevê-lo em português. O livro está lá, prontinho da silva, em russo, alemão ou espanhol.  O tradutor não pode cortar cenas nem adicionar cenas.  Não pode mudar o desfecho. Não pode reduzir uma descrição demasiado longa, mesmo que não goste dela. Não pode alterar um diálogo. Por outro lado, toda essa lista do “não pode” pode ser revertida, positivamente, para um “não precisa”: ele não precisa fazer nada disso, porque já está feito, o autor russo ou alemão já se deu o trabalho de arrancar tudo a fórceps do próprio cérebro, e entregou a história finalizada para que ele, o tradutor, faça o que mais gosta: tecer sua prosa como uma aranha tece sua teia.  E acreditem, amigos, existem poucos prazeres superiores ao de tecer mentalmente uma frase inteira e colocá-la no papel antes que o vento (ou a campainha do telefone) a leve embora.

Claro que o processo não é indolor, mas se a gente avisar o quanto dói os jovens saem correndo e vão fazer o concurso do Itamaraty. Melhor falar do prazer de ler uma história brilhante e bem escrita e aceitar o desafio de reescrevê-la de tal modo que ela continue brilhante e dê a impressão de ter sido escrita em português. O tradutor é um camaleão de estilos, um coringa de vozes narrativas. Ele se veste na pele do autor a quem traduz, introjeta sua personalidade, consegue pensar igual a ele como o Pierre Menard de Borges sonhava pensar igual a Cervantes. Enredo? O enredo é um presente que o autor original lhe dá de graça, e ao qual ele deve retribuir com uma prosa feita de sangue, suor e café.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

2970) Anedota búlgara (7.9.2012)


(Drummond jovem)


Faz muito tempo que os czares saíram da paisagem política do mundo, e periga uma boa parte dos jovens de hoje não terem a menor idéia do que significa essa palavra. Ela deriva, aliás, do título de “César” que os imperadores romanos passaram a se atribuir em homenagem a Julio César; o termo gerou “Czar” em russo e “Kaiser” em alemão. Mas no tempo em que Carlos Drummond publicou seu primeiro livro, Alguma Poesia, ou seja, em 1930, os czares tinham desaparecido há bem pouco tempo, mais precisamente em 1917, quando a Revolução Russa não apenas os arrancou do poder mas fuzilou sumariamente a família inteira, crianças inclusive. Os czares foram no século 19 um símbolo da sofisticação e da gastança desbragada de todos os potentados. O Museu Hermitage, em São Petersburgo, é um resíduo da riqueza cultural patrocinada pelos czares, cujos equivalentes no mundo de hoje seriam os xeiques de Dubai e seus palácios de mil-e-uma-noites high-tech. 

Em todo caso, Drummond não se referia aos czares da Rússia, mas aos da Bulgária, em seu poema “Anedota Búlgara”, que diz: “Era uma vez um czar naturalista que caçava homens. / Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas, / ficou muito espantado / e achou uma barbaridade”. A Bulgária teve seus próprios czares até 1943, quando morreu o último deles, Bóris III, que era apenas oito anos mais velho do que o próprio Drummond. Não deve ser ele o personagem do poema, pois consta que era um bom sujeito, tendo inclusive peitado Hitler durante a II Guerra e se recusado a permitir a extradição de judeus.

O poema de Drummond, com sua malícia inocente, é uma polaroidezinha da psicologia desses potentados. Um poderoso cria sua própria escala de valores, seus próprios dez mandamentos, sua própria declaração dos direitos do homem. Ao invés de ser um sujeito apenas sádico, ele mistura sadismo e humanismo e os projeta em direções inesperadas. A biografia de qualquer imperador mostra que até os piores entre eles têm qualidades e virtudes que seríamos capazes de admirar em alguém. Mandam matar milhões numa guerra, mas protegem as artes e as ciências; são cruéis com os súditos mas são maridos carinhosos e pais dedicados; e assim por diante. O czar drummondiano é um personagem de cartum retratando, com a aparente ingenuidade de uma pintura de Chagall, essa deformação de perspectiva. Não é muito distinto de outros personagens do mundo de hoje: torturadores que ouvem Mozart, ditadores que financiam bienais de arte, pedófilos que são bons chefes de família, bilionários capazes de deixar anêmica a economia de um país e depois dar-lhe de presente uma dúzia de creches.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

2969) A arte do photoshop (6.9.2012)




O termo “photoshop” virou hoje em dia sinônimo de alteração, interferência ou falsificação de uma imagem. A técnica digital fez com que até um desocupado e leigo como eu seja capaz de pegar uma foto e apagar a presença de uma pessoa, coisa que antigamente só o Departamento de Propaganda do Kremlin era capaz de fazer. Engana-se quem pensa que isso surgiu com a imagem digital. No tempo do negativo em celulóide e da cópia em papel havia mil técnicas para interferir na imagem, como aliás o Kremlin (e o Pentágono) faziam a dar com o pau. Claro que nem sempre isso era feito por manipulações maquiavélicas. Os fotógrafos antigos interferiam na imagem, em geral, para obter efeitos estéticos mais interessantes, ou até (vejam só a ironia!) para produzir imagens mais parecidas com a realidade (ou com o modo como a realidade é vista a olho nu). Os negativos antigos, por exemplo, reagiam de forma desigual à luminosidade do céu e à luz refletida na paisagem, de modo que era hábito, cem anos atrás, tirar duas fotos do mesmo ângulo, com medições de luz diferentes, e depois recortar e colar o céu de uma e a paisagem de outra.

A interferência na imagem, portanto, pode ter como objetivo produzir: 1) imagens mais realistas; 2) imagens fantásticas ou impossíveis; 3) imagens esteticamente mais interessantes onde o realismo fica em segundo plano (as fotos do Instagram, hoje em dia, produzem coloridos fantásticos que nossos olhos não veem); 4) imagens que sutilmente querem se fazer passar por autênticas, sem dar a perceber que foram manipuladas (o efeito Kremlin-Pentágono).

O museu Metropolitan (Nova York) vai inaugurar em outubro uma exposição intitulada “Falsificando: a Fotografia Manipulada Antes do Photoshop” (ver: http://bit.ly/KHaYSc), com mais de 200 amostras produzidas entre as décadas de 1840 e 1990. São exibidas diversas técnicas de manipulação: múltipla exposição (várias imagens num só negativo), imagens combinadas (colagem de partes de diferentes negativos), fotomontagem, pintura e retoque tanto de negativos quanto de cópias em papel.

Quase dois séculos de existência da fotografia produziram uma cultura extremamente dependente da imagem, onde cada pessoa se transforma num São Tomé (“só acredito no que vejo”), mas um São Tomé ingênuo (“já que estou vendo, deve ser verdade”). O fato de hoje sabermos que uma fotografia é tão pouco-ou-muito confiável quanto um desenho ou uma pintura não desvaloriza nenhuma dessas técnicas. Apenas nos deixa mais cautelosos quando quisermos usar uma foto como prova de qualquer coisa, inclusive de que o mundo é real e que nós existimos de fato.