terça-feira, 14 de agosto de 2012

2949) O futebol olímpico (14.8.2012)




E mais uma vez a medalha de ouro olímpica passou quicando entre as pernas dos nossos craques do futebol e caiu no ralo do esgoto.  Esta, aliás, é uma metáfora de muito mau gosto, e muito mal educada. Na verdade, a medalha de ouro foi para um destino muito melhor: como acontece com as medalhas de ouro, foi para quem soube merecê-la e lutar por ela.  O Brasil, mais uma vez não soube. A derrota para o México no jogo final surpreendeu muita gente, menos eu. Nunca botei fé nessa seleção, a mais fraca que vi nas Olimpíadas mais recentes. Vi quatro dos jogos anteriores à decisão, e em momento algum senti firmeza. Um time que tem que se desdobrar para ganhar de 3x2 de uma Honduras com dez jogadores? Fala sério. Esse jogo tinha sido um alerta, mas o injusto e desproporcional 3x0 na Coréia deve ter tranquilizado a Comissão Técnica, a CBF e a imprensa ôba-ôba. Eu mesmo não.

Nosso time tem três jogadores de Seleção: Thiago Silva, Marcelo e Neymar. (Todos têm defeitos, mas paciência, estamos em entressafra.) Tem quatro promessas: Leandro Damião, Oscar, Lucas e Paulo Henrique Ganso (a dúvida quanto a este é mais pela fragilidade física atual.)  Um jogador badalado como Alexandre Pato nunca me convenceu.  Hulk é uma promessa, mas vi-o jogar poucas vezes, e como é meu conterrâneo tenho a tendência de valorizar tudo que faz, sou suspeito. Mas as apresentações coletivas do time foram sempre atabalhoadas, misturando estrelismo, imaturidade emocional, e em muitos momentos uma deficiência técnica assustadora. Não gostei. Medalha pro México, que soube jogar e mereceu ganhar. Para nossos meninos, prata está até sobrando.

Os times de vôlei ganharam todo tipo de medalhas, e mesmo quando a gente fica chorando resultados específicos (como as decisões em que estávamos com o jogo na mão e deixamos virar), paciência, o jogo é assim, e quando somos nós que viramos achamos tudo muito normal. O vôlei olímpico está sempre nivelado pelo alto em meia dúzia de equipes, e é apenas a nossa carência afetiva que nos faz pensar que temos a obrigação de ser sempre os melhores.  Nos últimos vinte anos, estamos no lucro, e não temos o que reclamar dos atletas.

Ainda não sabemos administrar o nosso esporte. Quando dá resultado, o esporte vira um cabide de emprego e de negócios escusos, e quando conseguimos investimentos da iniciativa privada é sob a forma de contratos de propaganda cuja contrapartida é uma maratona de coquetéis, eventos, filmagens, badalações e negociatas que acaba virando a cabeça dos nossos atletas jovens que de uma hora para outra pensam que são craques (e não são) e que estão milionários (e não estão).

domingo, 12 de agosto de 2012

2948) Arte e entretenimento (12.8.2012)


Em seu livro Popular Fiction 100 Years Ago (1957), Margaret Dalziel chama de literatura popular “os livros e revistas que são lidos puramente por prazer por pessoas para as quais este prazer é incompatível com o dispêndio de esforço intelectual ou emocional.”  É o tipo de leitura praticado, p. ex., pelas mocinhas que leem revistas Bianca ou Sabrina.  

O livro de Dalziel é um estudo sociológico, de modo que existe um viés para dar um caráter de classe a essa definição, mas todo mundo lê assim em algum momento. Até intelectuais como Antonio Cândido ou Harold Bloom pegam de vez em quando um livrinho bobo para ler sem analisar, ler pelo prazer de ler, como aqueles craques internacionais que nas férias vão jogar futevôlei na praia. 

A mesma pessoa pode ler Proust ou Beckett com esforço intelectual durante o dia, e de noite, após o jantar, ler uma aventura de Tarzan. Não há uma divisão tão nítida entre quem só lê isto e quem só lê aquilo.

O entretenimento, nestes termos, é uma atividade mental (ler, ouvir música, assistir um filme ou espetáculo) praticada por quem passou o dia numa concentração mental intensa, ou executando tarefas repetitivas, e quer continuar pensando, quer uma experiência mental variada, movimentada, mas sem compromisso. 

“Sem compromisso” significa que não é necessário conduzir nenhum processo até o final caso ele exija muito esforço. A leitura por entretenimento raramente requer que um trecho seja lido duas vezes para ser compreendido. O entretenimento se dá na esfera do já conhecido, e mesmo quando o leitor (erudito ou não) está buscando o novo, isto em geral acaba sendo com “um pouco mais daquilo mesmo”.  Sua expectativa é por uma combinação nova de elementos já familiares, ou pela presença de elementos novos numa estrutura que ele sabe prever (como no romance detetivesco).

Há outro tipo de entretenimento, no entanto: o das pessoas que não estão mentalmente cansadas, não precisam relaxar do trabalho. Na verdade, são pessoas desacostumadas a esse tipo de esforço. São pessoas que têm boa educação, bom poder aquisitivo, mas têm a vida voltada apenas para o lazer e a diversão. Fazer esforço mental diante de um livro ou um filme, para elas, é tão incômodo quanto trabalhar – uma atividade plebéia que nunca precisaram nem precisarão exercer, uma atividade que eles deixam “para os criados”. 

Esse grupo de gente abastada gosta muito, por exemplo, de ironizar os eruditos e de ridicularizar os artistas de vanguarda. Para esse grupo, a arte não deve servir para nada além da diversão e do lazer dos que já têm dinheiro e por isso não querem ser induzidos a qualquer atividade intelectual.






sábado, 11 de agosto de 2012

2947) Ser detetive (11.8.2012)



Na semana passada, César Dias, um rapaz que estava de moto com um amigo, foi morto em São Paulo pela polícia, a qual alegou “resistência seguida de morte” (http://bit.ly/Orxh2h). 

O pai do rapaz, um eletricista, não se conformou e foi à cena do crime, onde observou uma série de inconsistências no que os policiais afirmaram. Disse ele:

“Confio no César. Tinha o coração bom, nunca gostou de violência. Saí do hospital indignado e fui para a cena do crime, analisando tudo. Como eu trabalhava com informática, tenho a mente muito analítica. Vi erros grotescos logo de cara.

“Segundo os PMs, meu filho empreendeu fuga. Estranho: se ele estivesse fugindo, numa CB 300, você acha que a viatura o alcançaria? 

Segundo: de acordo com a PM, meu filho estava fugindo com o garupa atirando na viatura. A viatura estaria atrás e a moto na frente. Por que meu filho está com dois tiros no peito, um na lateral do tórax, um na virilha e outro na perna esquerda? E por que o Ricardo estava com três tiros na perna pela lateral e não por trás? 

Terceiro erro: se eles fugiam, estavam velozes ao perder o controle quando caíram da moto. Me mostra um arranhão nessa moto. Ela está intacta. 

Quarto: se meu filho estava fugindo, para ele perder o controle, tem de ter marca da frenagem da moto e da polícia. Não tem. 

Quinto: Se os meninos tivessem caído com a moto, eles estariam machucados. Os meninos não tinham hematomas. 

Sexto: os meninos foram supostamente socorridos na hora. Não foram. Pela quantidade de sangue, eles ficaram muito tempo no chão. 

Sétimo: se ele estivesse fugindo, as marcas de tiros na moto seriam em paralelo ou diagonal. Foram transversais. O PM começou a analisar a cena. Olhou para mim e falou: ‘Os policiais fizeram m...’.”

Os cinco policiais envolvidos foram detidos para investigação. E surge a questão do que é “ser detetive”. 

Para muita gente, um detetive é um membro da força policial que investiga crimes e identifica os seus autores. No presente caso, contudo, o único detetive foi o pai do rapaz. 

Um detetive é alguém que, como um cientista, observa fatos, interpreta detalhes que outras pessoas não perceberam, e extrai uma explicação, uma teoria sobre o que aconteceu. 

Um médico faz a mesma coisa observando pacientes e seus sintomas; um mecânico de oficina idem, mexendo num motor com defeito. 

Um detetive não é necessariamente um funcionário do aparato policial do Estado (os detetives particulares surgiram na literatura para reforçar esse fato). Um detetive é alguém capaz de reconstituir fatos que não presenciou, a partir de indícios indiretos, de “ver as coisas com seus próprios olhos”, como dizia o Dick Peter de Jeronymo Monteiro. 





sexta-feira, 10 de agosto de 2012

2946) Locutores olímpicos (10.8.2012)


As transmissões esportivas durante os Jogos Olímpicos, com suas dezenas de esportes e de competições diferentes, mobiliza centenas de locutores e nos deleita com a espantosa variedade de tons de voz que acompanham essas transmissões, de acordo com a apoteose ou via-crucis que esteja sendo descrita. 

Existe, por exemplo, o tom “eufórico-estabanado”, aquele que o pessoal usa logo no início das competições, quando a adrenalina está solta, a cabeça está a mil, e os locutores sentem, como eles próprios dizem, “a História acontecendo diante dos nossos olhos”. Nessa hora vale tudo, vale o clichê, vale o grito de guerra, vale o grito de Tarzan. Quando o nosso time começa a massacrar o adversário, esse tom é substituído pelo “triunfalista-tripudiante”, em que o bravo falastrão começa a bordar firulas elogiando a ginga, a improvisação, o jeitinho brasileiro, aquele algo mais que nós temos e que é invejado pelos nórdicos, germânicos, orientais... Aí também vale tudo, inclusive zombar de quem está perdendo e puxar de um baú cheio de poeira resultados de 1900-e-cocada que estão sendo vingados agora.

As coisas não vão bem? O diapasão muda para o “roendo-raivoso-as-unhas”, quando o cara se irrita com os atletas, chama-os de estrelas mimadas ou de mercenários sem bandeira.  Ele havia trazido meia dúzia de bordões gozadores no bolso, e se desespera quando vê que não vai poder usá-los, porque a vaca está partindo rumo ao brejo. Os comentaristas também intervêm, e mesmo concedendo que muitos deles são sensatos e conhecem o assunto, nunca deixa de haver o tom de “titubeio-dos-mal-informados”, ainda mais quando se trata de esportes alienígenas como badminton ou luta greco-romana. Ouve-se claramente o roçagar das folhas de papel enquanto eles consultam os press-releases e os regulamentos.

No final de cada competição, fazendo a amarração final antes dos comerciais, ouvimos, dependendo do resultado, ou o “laudatório-ufanista-com-a-mão-no-peito”, quando o bravo apresentador nunca deixa de nos brindar com uma recordação pessoal de 15 ou 20 anos atrás, só faltando dizer que aquela vitória foi dedicada a ele em pessoa; ou então o “rancor-ressentido-contra-o-ídolo-que-não-correspondeu”, que usa uma retórica consoladora para destilar toda a decepção de quem mandou gelar o champanhe e não vai poder espoucá-lo. E tudo em geral se encerra com o tom “melancólico-conciliador-frente-à-crueza dos fatos”, quando a poeira mental começa a assentar e o sujeito sente-se no dever cívico de falar nas lições aprendidas, na necessidade de que as autoridades deem mais apoio ao esporte, e na esperança de que, “daqui a mais quatro anos...”.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

2945) Henry James em viagem (9.8.2012)



Estilo não é um conjunto de idéias aprendidas nos livros, e sim a expressão espontânea do modo de ser e de pensar de um indivíduo.  E um estilo literário é uma combinação única entre as qualidades e as limitações de um escritor, e é tão definido pelo que ele não sabe fazer quanto pelo que ele faz muito bem. 

Henry James foi um dos grandes escritores da virada do século 19 para o 20, e em seus romances (como Outra volta do parafuso, Washington Square, Pelos olhos de Maisie, Retrato de uma dama) a atividade mental dos personagens (sinuosa, contraditória, imprevisível) é recriada com uma prosa elegante e cheia de nuances. 

A escritora Edith Wharton, que foi sua grande amiga, conta um episódio típico da personalidade de James. Os dois viajavam de automóvel pelo interior da Inglaterra. Perderam-se, e estavam tentando encontrar a direção de King’s Road, a estrada principal. Ao ver um camponês, pararam o carro no acostamento e James dirigiu-se ao homem.

“Meu bom homem, se pudesse ser gentil e aproximar-se um pouco... Bem, para resumir tudo em duas palavras, eu e esta senhora estamos vindo de Slough, ou, para ser mais exato, acabamos de atravessar Slough em nosso trajeto, pois estamos voltando de Windsor para Rye, que foi o local de onde partimos originalmente.  Visto que fomos surpreendidos pela escuridão, ficaríamos extremamente gratos se pudesse nos dizer agora onde nos encontramos em relação a, por exemplo, High Street, que, como o sr. certamente sabe, conduz ao Castelo quando viramos à esquerda após a estação ferroviária.”

O homem, que era bem idoso, fez uma cara de perplexidade e James continuou:

“Em resumo, o que quero lhe expor numa palavrinha é: supondo que já tenhamos (como tenho todos os motivos para supor) passado direto pela entrada à esquerda na estação ferroviária (a qual, neste caso, estaria situada agora não à nossa esquerda, mas à nossa direita), onde será que nos encontramos agora em relação a...”

Nesse ponto Ms. Wharton não agüentou mais e disse: 

“James, pergunte a ele onde fica King’s Road”. E ele:

“Ah! King’s Road? Isto mesmo. Muito bem. Será que poderia, meu bom homem, dizer-nos onde, em relação à nossa localização presente, fica King’s Road?”

O homem abriu a boca pela primeira vez e disse:

“É esta estrada aqui.”

Isto, amigos, é uma justaposição de estilos. Na grande maioria das vezes, estilo literário não é uma ideologia racionalmente estruturada, é a expressão verbal completa dos processos mentais de um indivíduo, cujo desenho total é personalizado, único, irrepetível e precioso.








quarta-feira, 8 de agosto de 2012

2944) Kishotenketsu (8.8.2012)


(esquema gráfico do Kishotenketsu)


Dizem os manuais de roteiro que toda história se baseia num conflito entre A que deseja uma coisa e B que serve de obstáculo; a narrativa é a descrição das ações de A para suplantar B e obter o que deseja. 

Em geral, as histórias desse tipo têm uma estrutura em três fases, tipo apresentação / conflito / resolução, bem parecida com a famosa tríade marxista do tese / antítese / síntese, e que se baseia, igualmente, na noção de conflito. 

Não nego a importância dessa teoria porque grandes filmes se baseiam nela.  Mas daí a dizer que é a única maneira de contar histórias vai uma longa distância. 

Os japoneses têm uma outra estrutura (chamada “kishotenketsu”) que divide a narrativa em quatro partes.  Estas partes seriam, mais ou menos (cada fonte traduz esses termos de uma maneira diversa): 

1) situação; 
2) intensificação da situação inicial; 
3) um elemento deslocado, “non sequitur”, aparentemente sem nenhuma relação com o que viera antes; 
4) o modo como a situação inicial assimila esse elemento e se transforma.  

Uma nomenclatura diz: Situação, Expansão, Contraste e Resultante. 

Outra os chama de Introdução, Desenvolvimento, Reviravolta e Conclusão.

Um exemplo: 

1) Um garoto chega a um rio. 
2) O garoto tenta em vão apanhar peixes com as mãos.  
3) Noutro local, o vento arranca o chapéu de um homem e o joga no rio. 
4) O menino usa o chapéu para apanhar peixes. 

Note-se que não houve conflito, não houve (como nas histórias ocidentais) um confronto de forças, de vontades, de agressividades nem de espertezas.  

A estrutura oriental mostra a confluência de duas linhas de acontecimentos. A primeira linha ocupa os passos 1 e 2; a outra linha aparece, de forma aparentemente gratuita e inexplicável, no passo 3; e no passo 4 as duas linhas se cruzam com uma resolução satisfatória e inesperada da situação inicial. 

(Ver aqui um bom exemplo e boa teorização: http://bit.ly/Mehp1r).

Essa progressão é usada em quadrinhos, em tirinhas (chamadas “yonkoma”), em poemas, em contos populares, em artigos.  Também em poemas: eis um exemplo poético no verbete inglês da Wikipédia: 

1) Itoya tem duas filhas; 
2) Uma tem 16 anos e a outra 14; 
3) Ao longo da História os guerreiros matavam seus inimigos com arco e flecha; 
4) Mas as filhas de Itoya matam com os olhos.  

A referência aparentemente despropositada no item 3 é explicada no 4: ela serve de metáfora para caracterizar os “olhos matadores” das belas filhas de Itoya.

Existem incontáveis maneiras de estruturar uma narrativa por mais simples ou mais complexa que seja.  Nem toda história é A Jornada do Herói de Campbell; nem tudo está nas receitas-de-ferro dos manuais de roteiro de Syd Field.







terça-feira, 7 de agosto de 2012

2943) Nome que dá sorte (7.8.2012)



Os adeptos da numerologia vivem mudando os próprios nomes para fechar uma conta cabalística qualquer, aí é uma tal de duplicação de consoantes, de inserção de “h” mudo a torto e a direito...  Funciona?  Sei lá. Mas a verdade é que quando um sujeito não se dá bem com o próprio nome, melhor mudá-lo por alguma coisa escolhida por ele mesmo. Dá mais certo do que os nomes que recebemos, à nossa revelia, quando nascemos e somos registrados.  A tradição do “nome artístico” vem um pouco daí, misturando a necessidade de evitar nomes excessivamente comuns, ou pouco eufônicos, por alguma coisa mais decorativa.  O cinema e a música popular estão cheios disso, e ainda hoje é um passatempo habitual das revistas de variedades fornecer uma relação de nomes banais ou impronunciáveis para que o leitor tente adivinhar quem é o famoso a que cada um deles pertence.

Alguns casos são mais interessantes.  Vi uma vez na TV um documentário sobre Bill Wyman, o baixista dos Rolling Stones (que já não pertence mais à banda desde 1993), no qual ele comentava o nome artístico que escolhera (seu nome original é William George Perks).  O verbete sobre ele na Wikipedia diz que ele quis homenagear um amigo com quem serviu na Força Aérea, mas nesse documentário que vi ele afirma que Bill Wyman era um colega de escola que era craque no futebol, e pelo qual ele tinha muita admiração.  E ele afirma: “Meu nome original estava associado a uma infância pobre, sofrida, numa família que não me compreendia e não me aceitava como eu sou.  Quando passei a me chamar Bill Wyman, foi como se tivesse me tornado outro indivíduo, mais seguro, mais tranquilo, e daí para a frente tudo mudou”.

Algo parecido aconteceu com Voltaire, o famoso escritor e enciclopedista.  Seu nome original era François-Marie Arouet, mas ele o detestava. Adotou o pseudônimo de Voltaire, em parte porque também tinha relacionamento difícil com a própria família, em parte porque aquele nome, em si, o desgostava.  Numa carta a Jean-Baptiste Rousseau, ele pediu que a resposta fosse endereçada a “Monsieur de Voltaire”, dizendo: “Fui tão infeliz sob o nome de Arouet que adotei outro, para não ser confundido com o poeta Roi” (no que parece estar se referindo a Adenes le Roi, poeta famoso da época).

Auto-estima e auto-imagem são duas coisas muito ligadas, e na impossibilidade da gente virar outra pessoa (como em filmes tipo Seconds de John Frankenheimer ou O passageiro de Antonioni) às vezes basta trocar de nome, e passar a atribuir a esse nome um personagem com qualidades que a gente não tinha e sem os problemas que nos infelicitavam

domingo, 5 de agosto de 2012

2942) Pergunte não, bróder (5.8.2012)



(Louise Bourgeois) 


“Sabe por quê?  Porque quem menos pergunta mais vive. Perguntar é acender uma luz, e depois que essa luz acende ela fica acesa, e quando quiserem saber quem foi que acendeu, foi você.  Está tudo lá.  Pergunte não.  É a luta entre a Nova Ordem Mundial e o Comando Universal dos Sete Poderes.  Deduza, porque é melhor ficar vendo as ondas baterem nas rochas – ou outra metáfora, desde que seja essa a idéia. A idéia é que depois que a onda bate mil vezes na rocha você sabe como se comporta uma, e sabe que a outra pode surpreender. Pense  nos bastidores das reuniões de cúpula nos hotéis sete estrelas (sim, existem!), nos conciliábulos madrugada adentro em salas à prova de gravação. A gente nunca pode tocar no assunto.  É briga de espantar cachorro grande, altas corporações sem registro, governos transnacionais... Não, é melhor fazer de conta que não está lá.  O problema (a solução) é que tanto quanto nas conferências em carne-e-osso quanto nas conferências web-online é sempre possível alguém ver sem ser visto, ficar sabendo sem ser percebido, colher as informações de que precisa sem que ninguém ao seu redor tenha a mais remota idéia de que aquela pessoa está ali com aquela finalidade.  Os monstros, as aberrações, o barroquismo teratológico, tudo isso são bois de piranha para sorver a atenção alheia.  Os verdadeiros Funcionantes estão indo direto onde importa, onde resulta, onde se traça e cristaliza o wireframe do futuro, e o resto é vinheta.  Pergunte não. Pense numa conveniência de não perguntar!  Tu quer ser o que? Um sem-teto sem-noção oferecendo rolete de cana aos membros da Guarda Vermelha durante o desfile militar de Pyong Yang?  Desinfeta, véi!  Os Lordes nem sabem que tu existe.  Não precisa temer os Lordes.  Quem existe pra cuidar de gente como tu são os Executores, da Divisão Tática do Departamento Estratégico (no Comando da Ordem Mundial) ou os agentes do Ministério do Know-How, da Central de Segurança dos Sete Poderes.  Quem vai deletar você é o equivalente ao segurança do estacionamento do estádio de um time da Série D.  Os Lordes seguirão suas vidas de ozimândias, de sibaritas high-tech.  Não pergunte quem são os Lordes. Os Lordes são consequência de você, eles existem financiados pelo seu trabalho e pela sua ignorância monitorada via Internet e TV. Vá trabalhar, vá ver futebol, vá votar. Pergunte não, porque se alguém soubesse a resposta a essa pergunta deletaria essa resposta pelo bem da Humanidade. Quando chove canivete careca não vai à praia. Esqueça que o mundo existe, e o mundo esquece que você sabe ver, sabe ouvir, sabe falar. Pergunte não.”

sábado, 4 de agosto de 2012

2941) Nem todo elogio (4.8.2012)






Há quem venda a alma e alugue o corpo por um elogio, mas um elogio pode nos trazer mais desgostos do que satisfação. Nem vou falar no elogio que ilude ainda mais um iludido: “Fulaninha, seu disco é ótimo, acho que tem tudo a ver você copiar a voz, o cabelo e os arranjos de Amy Winehouse!”  Fulaninha embarca na conversa e dá com os burros nágua. Não, estou me referindo a outras ramificações dessa arte tão escorregadia, a arte de falar bem, tão complexa quanto a de falar mal.

Existe o elogio equivocado, aquele que em que o crítico ou o amigo não entendeu absolutamente o que você fez, e o elogiou por imaginar algo diferente.  Ocorre muito quando a gente usa a ironia.  Um texto é lido por pessoas de diferentes visões estéticas, políticas, etc. Às vezes a gente publica uma coisa sarcástica, e surge alguém que leva o texto ao pé da letra e acha aquilo maravilhoso.

Um tipo que me incomoda é o elogio que aproveita para falar mal de terceiros, ainda mais se são meus amigos. “O livro de BT é infinitamente melhor do que as medíocres tentativas de A, B ou C...”  É o que basta para o alfabeto inteiro ficar com raiva do meu livro. E muitas críticos só sabem criticar assim, por exclusão – algo só é bom ao ser comparado a outra coisa que o crítico acha ruim (e que ele às vezes não percebe ser bem melhor que a obra que elogiou).

Nem deveria falar do elogio sem substância, o elogio que nada diz a não enfileirar adjetivos, mas esta é uma praga que parece residir no tipo de tinta usado na imprensa, então cumpre combatê-la.  Publico um conto, o crítico X diz apenas que é “instigante, envolvente”. Já o crítico Y diz que é “uma mistura, que não deu certo, da temática de Henry James com a prosa de Machado de Assis”. Este último, mesmo não gostando, talvez tenha me mostrado algo que eu não tinha percebido.

Existe um certo tipo de elogio interesseiro que todos nós praticamos, conscientemente ou não.  Consiste em louvar a brasa alheia trazendo-a para perto da nossa sardinha.  Faço um mea-culpa, por exemplo, no que diz respeito à literatura fantástica e à FC. Muitas vezes nós, militantes destas duas excentricidades, acabamos elogiando uma obra que nem é tão boa assim, mas que nos parece boa porque vemos nela o mesmo tipo de “persuasão” que cultivamos. O elogio é interesseiro porque não nos interessa tanto o valor daquela ovelha desgarrada, o que queremos na verdade é engrossar nosso rebanho.

O bom elogio é o que não usa adjetivo algum (desconfie de termos como “magistral”, “genial”, etc.). O bom elogio limita-se a descrever com clareza as qualidades da obra.  Se são de fato qualidades, o bom leitor saberá reconhecê-las.



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

2940) Chris Marker (3.8.2012)


Faleceu dias atrás, aos 91 anos, o cineasta Chris Marker, o autor de La Jetée, talvez seu filme mais conhecido.  Mesmo na tribo dos cinéfilos há muita gente que o desconhece, porque Marker escolheu aquela forma peculiar de invisibilidade que é a direção de documentários.  E ainda por cima aqueles documentários que jamais se enquadrariam numa programação tipo Discovery Channel ou National Geographic. Marker foi um dos sujeitos que mexeram no software do documentário, tanto quanto Robert Flaherty, Jean Rouch, Eduardo Coutinho. Em 2009 o CCBB do Rio de Janeiro exibiu uma enorme mostra de quase toda sua obra, que nos deu a medida da variedade de seus interesses e da quantidade de material que produziu.

Os filmes de Marker foram chamados de “ensaios cinematográficos” e de fato eles são o equivalente aos ensaios literários que misturam o relato jornalístico, a ilustração com pequenos episódios ficcionais, a associação livre de idéias, o memorialismo, o humor, o panfleto, a análise.  Marker faz isso com imagens (de arquivo, ou registradas por ele mesmo), áudio, e principalmente através de narrações em “off”, recurso que ele sempre usou de maneira muito pessoal e enriquecedora.  A narração em “off” virou no documentário o que alguns diretores chamam, com bom humor, de “o último reduto dos covardes”, ou seja, quando o sujeito não sabe usar as imagens para passar uma informação, ele joga a toalha e manda um locutor dizer. Mas nos filmes de Marker as narrações fazem um contraponto incessante com as imagens, e em alguns casos pode-se dizer que são dois fluxos paralelos, um de imagem, outro de som, que parecem realizados um à revelia do outro, mas convergem e se misturam na mente do espectador.

La Jetée (1962), história de FC sobre uma viagem no tempo para tentar evitar uma catástrofe, é conhecido como “o filme que inspirou Os 12 Macacos”, mas li por aí que inspirou também o videogame Fallout.  É um filme feito inteiramente sobre fotos fixas em preto e branco, acompanhadas de narração. A Embaixada (1973) mostra um numeroso grupo de pessoas que se refugiam numa embaixada estrangeira para fugir a um golpe militar que está fuzilando gente nas ruas; somente nas últimas imagens ficamos sabendo que aquilo ocorre em Paris.  O fundo do ar é vermelho (1977) é uma colagem fascinante sobre as guerras e os movimentos políticos do século 20, enquanto O sexto lado do Pentágono (1968) documenta a famosa marcha sobre o Pentágono em protesto contra a Guerra do Vietnam. Marker criou um cinema só seu mas do qual todo cineasta tem o que aprender, e não duvido que daqui a 50 anos sua obra ainda sirva de referência.