quarta-feira, 13 de junho de 2012

2895) Longe muitas léguas (13.6.2012)


A vida de um migrante sofre uma fratura que nunca mais desaparece. É como um vidro trincado: pode não ter perdido nenhum pedaço, mas aquela rachadura vai ficar visível para sempre. A tragédia dele começa pelo fato de que vai embora a contragosto: falta de trabalho, falta de oportunidades, guerra, catástrofes naturais (a seca, etc.)...  Vejam que estou excluindo dessa lista o sujeito que simplesmente decide ir embora do lugar onde nasceu, pelo simples prazer de conhecer lugares diferentes, ter novas experiências. Esse não é propriamente um migrante – é um viajante, um aventureiro, um cara que foi tentar a vida noutro país ou cidade. O migrante é o que migra a contragosto, o cara que, pela sua vontade, nunca sairia daquele lugar.

Na terra alheia, começa o processo de endeusamento e mitificação do lugar que foi abandonado. Ele pensa: “Nada do que eu vejo se compara ao que eu já vi”. O migrante sonha com uma Era de Ouro que é geográfica, em vez de histórica.  Uma Era de Ouro situada no espaço e não no tempo, na distância e não no passado.  Teoricamente, uma Era de Ouro à qual ele pode voltar um dia – basta ver o açodamento e a euforia com que voltam tantos.  Porém, toda viagem no espaço é também uma viagem no tempo, e quando o migrante retorna percebe que seu lugar de origem mudou, que seu pé de serra sofreu interferências, que sua Era de Ouro está toda azinhavrada.

Este é o motivo pelo qual tantos migrantes preferem não voltar.  Não querem passar pela decepção do protagonista de “Viagem aos Seios de Duília” de Aníbal Machado, um sujeito de meia idade que retorna à cidade natal para rever os seios de sua namorada adolescente, o que resulta num desfecho pra lá de previsível.  Nenhum par de seios resiste à ausência de quem os avistou uma vez, e nenhuma terra natal se preserva intacta e disponível, eternamente, à espera do migrante que a abandonou por motivos de força maior.

Melhor não voltar, e deixar que a memória fique tirando fotos de si mesma. Melhor deixar que essa memória seja contaminada pela imaginação, o que é mais embelezador do que contaminá-la de realidade. Na memória só muda o que nosso desejo ordena.  Todo migrante faz do lugar de onde partiu a sua nova “terra do sonho distante”; torna-se um migrante ao contrário, que todos os dias abandona o presente e foge na direção de um passado onde tudo acontece de acordo com seu desejo e nostalgia. E todo migrante é feliz porque a Era de Ouro de sua memória nunca foge, nunca se perde, nunca se deteriora. Pelo contrário: todos os dias é aperfeiçoada, burilada por esse retorno incessante de quem criou uma miragem maior e mais duradoura do que os desertos.

terça-feira, 12 de junho de 2012

2894) Budista Tibetano 234 (12.6.2012)






Procurei o meu Mestre logo após o trimestre das Cerejeiras, e o encontrei lavando folhas de chá. “Olá, Kagyu. Ouvi dizer que teu pai havia sido preso”. Ainda ofegante pela subida da encosta, respondi: “Por dois dias apenas, mestre, e logo foi solto.  Houve um equívoco”.  “Um equívoco?!” disse ele. “A prisão ou a soltura?”. Expliquei: “Confundiram-no com alguém que tinha agredido uma família, mas ele foi solto assim que um dos agredidos concordou em fazer o reconhecimento”.  “O que poderia ter acontecido dois dias antes”, observou ele. “Claro, mas quem somos nós para discutir com a lei”, disse eu.  Pobre só tem razão quando pede desculpas.

O mestre perguntou a razão da minha vinda. Expliquei que decidira tornar-me um contador de histórias, não um sacerdote. “Bastaria essa frase para comprovar que tens pelo menos metade da razão”, disse ele, “porque nenhum homem com vocação de sacerdote diria o que acabas de dizer. Se serás contador-não-sei-das-quantas é problema teu, mas sacerdote não tens a menor condição de ser”.  Acolhi com resignação aquelas palavras que já esperava e beijei-lhe a mão. “Mestre”, continuei, “deves lembrar que ainda me deves uma resposta”. “Sem dúvida, disse ele, “porque dei-te a nona resposta no Mês do Vento passado, era algo que dizia respeito a um silogismo, não?” Ele virou-se meio impaciente e saiu andando.  Acompanhei-o na direção do pequeno pavilhão onde ele tinha sua oficina manual. “Sim, mestre”, insisti, “mas quero saber só mais uma coisa”.  Segurei-o pelo braço, mesmo vendo-o apressado.  Mas eu tinha que perguntar aquilo. “Como se conta uma história?”.

Ele parou, olhou em volta, apontou uma pedra no jardim. “Estás vendo aquela pedra, que parece tão pesada, tão sólida?” “Sim”, respondi. “Achas que posso fazê-la levitar?” Encolhi os ombros: “Mestre, como posso saber?”. “Então, olha”, disse ele.  Fiquei olhando para a pedra. Em algum momento me pareceu que ela estremecera, que se movera um pouquinho de nada, mas fiquei o tempo todo atribuindo aquilo à auto-sugestão. “Chega”, disse ele, relaxando os ombros, e me conduzindo-me pelo braço encosta acima. “Por quanto tempo olhaste a pedra?”, perguntou. “Não sei, uns dois minutos talvez”, respondi. “De que cor era ela?”, perguntou ele. Meu estômago se fez silêncio e minha mente se fez um branco. “Cor?”, perguntei. “Desculpa”, disse ele, “esqueci de avisar antes qual a pergunta que iria fazer”.  Deu-me um tapa no ombro que me fez balançar. “E agora que encerramos a nossa atividade docente, vamos almoçar. Minha sacerdotisa pessoal preparou ninhos de andorinha à mongol, um prato especial para quem conhece sua origem”.

domingo, 10 de junho de 2012

2893) Arte personalizada (10.6.2012)






Falei algum tempo atrás na nova arte literária que consiste em pegar romances clássicos e misturá-los, de maneira irreverente, com histórias de terror.  O exemplo mais conhecido é Orgulho e Preconceito e Zumbis (2007), onde o romance de Jane Austen foi interferido por uma narrativa macabra de Seth Grahame-Smith. Aqui no Brasil a moda está pegando, e aí está meu comparsa Lucio Manfredi que não me deixa mentir, com seu Dom Casmurro e os Discos Voadores (2010).  Como isso se dá apenas com obras que estão em domínio público, não há nenhum problema jurídico.  O problema, se houver, é estético, pois muitos leitores têm uma certa noção da intocabilidade da obra, e se assustam com essas interferências. Eu não vejo nada de mais, pois elas não prejudicam nem Jane Austen nem Machado de Assis.  Isso me lembra a história daquele roteirista que adaptou para o cinema um romance famoso. Após o lançamento do filme alguém o acusou: “Você mutilou o livro de Fulano!”, ao que ele respondeu: “Não mutilei nada. Pode ir na livraria ou na biblioteca, o livro dele continua intacto”.  Pois é.  “Pobrema” era se a cada paródia ou a cada adaptação a obra original fosse modificada irremediavelmente.  Não é o caso.

Existe uma nova moda, agora. A editora U Star aceita encomendas para fazer pequenas tiragens de livros clássicos trocando os nomes dos personagens originais pelos nomes indicados pelo cliente. (Ver aqui: http://bit.ly/HSgvrd). Olha que presentão para o Dia dos Namorados: uma edição do Romeu e Julieta de Shakespeare em que os nomes dos protagonistas serão trocados pelos do encomendador e de sua namorada, passando a peça a intitular-se, por exemplo, Wandergleysson e Tábatha Semyramis.  O regulamento diz: “Após escolher o livro desejado, você deve indicar sua capa preferida e dedicar 5 minutos ao preenchimento de um formulário, fornecendo os detalhes para a personalização do livro, o qual será impresso exatamente de acordo com as informações que você prestou, com exatamente a mesma grafia. Recomendamos que examine este aspecto, inclusive as letras maiúsculas dos nomes e dos lugares. Não devolveremos o dinheiro em caso de erros de grafia”.

Aparecer com seu nome no lugar do nome de um personagem não é muito diferente de ir a um parque de diversões, ou a um restaurante como o Mangai, e tirar um retrato botando o seu rosto naquela abertura circular no rosto de um boneco. Uma brincadeira ingênua, como muitas outras que hoje podem ser feitas em 5 minutos no Photoshop. Mas algo me diz que a maioria das encomendas vai ser de gente querendo puxar o saco do patrão, dando-lhe livros em que ele se torna seu personagem preferido. 

sábado, 9 de junho de 2012

2892) Santuário (9.6.2012)


Matei três deles em combate leal, mas minha arma se partiu e o último conseguiu me derrubar, já exausto.  Quando voltei a mim estava com os braços amarrados às costas, enquanto ele me  puxava por uma corda, encosta acima, até a cratera. “Não quis ofender ninguém”, falei, mais uma vez, achando que não entendiam meu modo de pronunciar sua língua. “Não sabia que era um Santuário”.  Ele parou, recolheu a corda com rapidez, fazendo-me cambalear na sua direção, e me esbofeteou várias vezes. Era um homem enorme, e apesar de idoso devia ser muito mais forte do que eu. 

Continuamos subindo. Eu sabia onde estava. Tinha a idade em que a curiosidade satisfeita produz um intenso prazer, como se o simples fato de ter previsto uma coisa e ela de fato acontecer me transformasse numa espécie de Deus.  “Ouvi dizer que são eternos, que nunca morrem”, falei. “Não”, disse ele, e continuou, num tom de quem aceita algo sem compreendê-lo: “São como nós, só que seu arco de existência é muito mais amplo. Sua infância é longa, e sua velhice também. Assim como durante alguns anos nós precisamos ser protegidos de tudo, eles precisam de proteção durante alguns séculos, até se tornarem o que são.” 

Uma criatura com infância interminável, exposta, sujeita a ataques.  Isso não tornaria inteligente qualquer espécie?  Não é de admirar que quando ficam prontos nos pareçam onipotentes, avassaladores.  Uma criatura capaz de avaliar situações corretamente, prevenir-se, proteger-se.  Mas quando infantes não podem se proteger dos que além de inteligentes são curiosos, e além de curiosos são cruéis.  Eu não estava ali para constatar sua existência, que já era sabida.  Estava ali para matar um deles e levá-lo comigo, para provar que eram mortais como nós, que podiam ser observados, compreendidos, combatidos, derrotados.  Para mostrar que nenhum inimigo é um Deus.

O homem finalmente se deteve.  Sentou numa pedra à beira de um barranco e me puxou. Parei ao seu lado. A pedra da montanha se lascava bruscamente e descia, centenas de passos, numa face lisa e abrupta. Olhei para a cratera e vi aquela massa pulsante. A cavidade era feita de um calcário amarelado, e as formas pegajosas se aglomeravam em alguns pontos dela, como caroços numa romã. Arrastavam-se tateando, fugindo ao sol que reluzia em suas mucosas expostas, aninhavam-se uns aos outros para se proteger, cegos sob aquela luz.  Não eram dragões. Eram as criaturas vistas pelos primeiros que usaram essa palavra. Meu captor arrastou-me até um trecho, creio que a sudoeste. Abaixo, um manancial que escorria da rocha produzia um lodo espesso onde umas cem criaturas flutuavam. Ali ele me atirou.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

2891) Ray Bradbury 1920-2012 (8.6.2012)




(ilustração: John Sherffius)

Ray Bradbury escrevia bonito, e muitos leitores (e críticos) da FC dos anos 1950 se impacientavam ao perceber que ao invés de avançarem rapidamente pelo livro, virando página por página, estavam se detendo para reler e saborear um parágrafo especialmente rico em nuances de significado, inversões sintáticas, visualizações inesperadas, forte apelo sensorial.  Ele foi um dos primeiros estilistas da FC nos anos 1950, juntamente com Theodore Sturgeon, Cordwainer Smith e outros que não tiveram medo de escrever FC numa linguagem “poética”, esse terrível adjetivo que para muito escritor é o “beijo da morte”.

O estilo poético proporcionou a Bradbury, que começara sua carreira nas revistas mais baratas de “pulp fiction”, a chance de publicar nas revistas chiques dos EUA, revistas que pagavam bem e serviam como vitrine diante da “intelligentzia” literária.  Com isto ele abriu duas frentes de leitores, simultâneas – os intelectuais que liam “Collier’s” ou “The Saturday Evening Post”, e a rapaziada da FC que lia pulp magazines como “Planet Stories” e “Astounding Science Fiction”.  Manter e unir esses dois públicos foi uma das muitas façanhas desse autor que sempre soube assegurar a ampliação e manutenção do seu contingente de leitores: foi roteirista de Hollywood (“Moby Dick”, de John Huston), teve dezenas de histórias adaptadas para a TV e os quadrinhos, e escreveu numerosas peças de teatro.

Quando Mikhail Gorbachev visitou os EUA e foi recebido por Reagan na Casa Branca, os únicos convidados cujo nome ele indicou pessoalmente foram Ray Bradbury e Isaac Asimov, com a explicação: “São os autores norte-americanos mais conhecidos e mais amados na URSS, e os favoritos da minha filha”.  A FC tem esse espírito eliminador de fronteiras geográficas e políticas. 

Assim como Asimov, Bradbury não dirigia automóvel e tinha medo de avião. Melhor para nós, porque cada vez que ele ficava em casa escrevia um conto como “O pedestre”, “Um som de trovão”, “Encontro noturno”, “O anão”, “A terceira expedição”...  Como escritor de FC, Bradbury sempre teve uma atitude crítica contra a tecnologia, a mecanização, a cultura de massas. Seu romance mais famoso, “Fahrenheit 451”, é um terrível panfleto contra uma sociedade dominada pela propaganda e por “reality shows”. “As crônicas marcianas” não são a história de um triunfo, mas de uma colonização brutal, em que os terrestres destroem impiedosamente a civilização marciana.  Seu temperamento sentia-se talvez mais à vontade na fantasia tenebrosa (“dark fantasy”) onde ele foi o mestre de uma mistura peculiar entre o lirismo, o fantástico, o terror e o humor. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

2890) Ganhando a vida (7.6.2012)





Dias atrás fui ao cinema e na saída encontrei uns conhecidos que não via há tempos.  Fomos tomar um chope ali perto, falamos de cinema (ou melhor, de como todo filme de Woody Allen parece uma continuação do filme anterior, só que com outros personagens), de futebol (e concordamos que nossos julgamentos sobre um clube de futebol dependem mais do resultado do último domingo do que de um século inteiro de altos e baixos), de política (concordei diplomaticamente com todos os absurdos que ouvi) e finalmente de dinheiro.  Cada um se queixou das dificuldades econômicas do país, e cada um descreveu como estava se virando.

Romualdo, por exemplo, revelou que vive de ser fiador.  Como assim?, perguntei.  Ele explicou que os pais, precavidos, botaram no nome dele a casa que possuem.  Como no Rio a procura por fiadores que possuam imóvel é grande, ele virou fiador-de-aluguel para amigos e conhecidos, cobrando a “uma agenda” de gente uma quantia mensal que vai de 100 a 200 reais, conforme o valor. “Todos pagam”, disse ele, explicando ainda que para quem consegue um bom apartamento na Zona Sul tanto faz pagar 2.500 como 2.600 reais por mês.  E a inadimplência?, perguntei.  Ele deu de ombros e afirmou que tinha uma “reserva técnica” que até então não fora necessária.

Valdir, que tem vinte e poucos anos, ganha a vida como ressuscitador de dados.  Como assim?, perguntei.  Ele explicou que uma das coisas mais comuns hoje em dia é gente que tem arquivos importantes (orçamentos familiares, diários, relatos de viagens, TCCs e teses de mestrado, etc.) gravados em mídias que a maioria dos computadores de hoje não lê mais, como os famosos “floppy disks”, os disquetes de 3.5”, CDs gravados com softwares meio defasados (Wordstar... WordPerfect...) e assim por diante.  Como o sogro dele trabalha na “oficina digital” (setor de consertos) de uma grande empresa, ele tem acesso a variados de tipos de computadores 286, 486 e outras mídias jurássicas.  E na maior parte dos casos consegue recuperar os dados perdidos, atualizar seu formato e transferi-los para um pendraive ou outra engenhoca moderníssima.  “Tendo a certeza absoluta”, diz ele, “que daqui a 10 anos a mesma pessoa me virá com o pendraive pedindo-me que transfira os dados para a interface bioquântica que ela mandou implantar no cérebro”.

Um grande financista disse uma vez que onde existir uma necessidade humana existirá uma oportunidade para se ganhar dinheiro. Uma sociedade cada vez mais complexa aumenta exponencialmente essas oportunidades. Por que me maravilho com isto?  Talvez porque eu ganho a vida exatamente como milhões de pessoas ganhavam cem, duzentos anos atrás.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

2889) O repórter robô (6.6.2012)


(ilustração: Mark Allen Miller)



Sempre me perguntam como consigo redigir um artigo por dia. Mal sabem que recorro aos serviços da Narrative Science, empresa de Chicago (http://www.narrativescience.com/) cujos softwares redigem matérias jornalísticas a partir de bancos de dados. Os programas da NS já conseguem produzir relatos sucintos e precisos de 10 ou 15 linhas sobre jogos de beisebol da Little League norte-americana (uma espécie de campeonato nacional de juniôres, como se diz aqui). Segundo a revista Wired de maio, na matéria “The Rise of the Robot Reporter” (http://bit.ly/JXNvKq), a história começou em 2009, com um software simples: “Eles colocaram os dados, o placar e um resumo minuto-a-minuto, e em 12 segundos o programa citou exemplos de 40 anos da Liga Profissional, redigiu uma sinopse da partida, escolheu a melhor foto e escreveu a legenda”. A equipe de 30 pessoas da NS conta com “meta-escritores” que produzem os templates de texto, ou seja, as frases a serem usadas para exprimir as ocorrências do jogo, depois dos dados serem interpretados.

Diz Steven Levy, autor da matéria, que softwares desse tipo podem extrair significado de quantidades gigantescas de dados; finanças e esportes são duas áreas especialmente propícias para isto. Há muito otimismo na empresa, para quem “qualquer pessoa que precise verbalizar e explicar grandes quantidades de dados pode se beneficiar deste serviço. (...) Há muita gente disposta a pagar para converter todas aquelas informações confusas em alguns parágrafos legíveis que ressaltem os pontos principais”. Outras empresas estão entrando neste ramo ainda recente, como a Automated Insights (ex-Stat Sheets) da Carolina do Norte.  O custo de produzir esse tipo de informação é tão baixo que torna-se rentável até mesmo redigir relatórios específicos para um único cliente.

A NS pensa em ampliar seus serviços até para áreas de lazer como os videogames, produzindo, p. ex., sinopses de sessões de World of Warcraft, cujos jogadores teriam acesso a um resumo detalhado do jogo, uma narrativa que soaria como se um jornalista os tivesse acompanhado ao longo da aventura. David Rosenblatt, na NS, diz: “A Internet gera mais estatísticas do que qualquer outra coisa que já tenhamos visto, e a nossa companhia se dedica a transformar estatísticas em palavras”. O artigo de Levy considera que algoritmos e repórteres poderão trabalhar lado a lado no futuro, seja com os computadores interpretando dados e pessoas redigindo os textos finais, seja com repórteres humanos entrevistando pessoas e formalizando os dados que depois serão transformados em textos pelos softwares. As possibilidades, como sempre, são infinitas.

terça-feira, 5 de junho de 2012

2888) "Game of Thrones 2" (5.6.2012)




A temporada 2 de Game of Thrones encerrou-se com dois episódios bem diferentes. O 9, “Blackwater”, mostrou o cerco de King’s Landing pela esquadra de Stannis Baratheon: a aproximação dos navios, a batalha em mar, a batalha em terra, o triunfo final dos defensores.  Obedecendo a uma unidade de tempo e de espaço que acho ser rara em séries desse tipo, o episódio se pareceu mais com um filme do que com uma série (e a gente diz isso como antigamente dizia: “nesse momento, o filme fica parecendo uma peça teatral”).  No episódio 10, “Valar Morghulis”, a ação voltou a se multiplicar pelas várias aventuras simultâneas. Gente caiu e gente subiu ao poder. Longe dali, pouca gente se importava.

Duas das histórias secundárias ganharam força, e acabam sendo duas investidas de dois gêneros diferentes contra um terceiro que está no poder.  Game of Thrones é uma fantasia heróica de configuração medieval, como as obras de Tolkien e tantas outras. É fantasia no sentido de que decorre num mundo imaginário onde não existem as nações da Terra, as religiões da Terra, as referências da Terra. Dentro dessa estrutura, deverão ganhar força na temporada do ano que vem duas “invasões genéricas”: a espada-e-feitiçaria através de Daenerys, a lourinha dos dragões; e o horror através dos Caminhantes Brancos, os zumbis de além-Muralha.

O seriado tem personagens que na tela, mesmo talvez não tão bem esmiuçados quanto no livro, parecem plausíveis e às vezes surpreendentes, pela malícia do seu pensamento e pela ocasional nobreza de suas ações. A intriga cortesã e todo o xadrez das traições políticas são bem armados, embora alguns personagens ainda sejam muito de-uma-nota-só.  O anão Thyrion perdeu poder mas ganhou respeito entre as tropas, o que nas histórias de conspirações militares sempre ajuda. Robb Stark, o imperador do Norte, tinha provado ser melhor general do que se esperava, e agora vai ter que provar que é marido. A guerreira Brienne está conduzindo Jaime Lannister, numa situação meio sargento-getúlio, rumo a um destino ignorado, porque antes disso pode um matar o outro, ou podem acabar se casando. Os dragões de Daenerys virão aquecer uma possível situação de calmaria, assim que Lannisters, Greyjoys, Starks etc. consigam um naco suficiente do que estão querendo; aí, sai a parafernália Tolkien e entra a de Anne McCaffrey.  A menina Arya viverá mais aventuras dickensianas nas senzalas dos castelos, antes de empunhar a espada e abrir caminho até o rei Joffrey.  E vem por aí uma ameaça de além da Muralha, que vai mostrar um problema de verdade e a enorme infantilidade e irrelevância do jogo dos tronos e do choque dos reis.

domingo, 3 de junho de 2012

2887) Uma xícara de café (3.6.2012)




Sempre que alguém me pergunta coisas positivas (“Como você se mantém tão jovem?”, “Como você consegue escrever um artigo por dia?”, etc.) dou sempre a mesma resposta: “Café”.  É bem verdade que respondo o mesmo quando me perguntam se sou viciado em alguma droga, porque de todas as drogas que já experimentei o café é a única que preciso tomar diariamente para não me transformar num bagaço de ser humano, desorientado e trêmulo.  Meio litro por dia, no mínimo; às vezes um litro inteiro.  Faz bem.  Tonifica, energiza, dá um upgrade nos neurônios e uma sacudidela no sistema neuro-vegetativo.  Com algumas ressalvas.  O café não pode ser muito forte: um “espresso” pequeno, desses que a gente toma no balcão, equivale a uma xícara grande das que faço em casa.  Para ser tomado quantitativamente, o dia inteiro, o café precisa ser um pouco diluído.  Se eu tomar 2 ou 3 espressos ao longo de uma hora, a sensação é de gastura e sobrecarga.

Tudo isto me vem à mente quando descubro, através do inestimável saite BoingBoing, um estudo (http://bit.ly/JkGKav) publicado neste mês de maio no “New England Journal of Medicine”, assinado por cinco cientistas, sendo quatro deles PhDs. (Como o leitor sabe, artigo científico é como samba-enredo de Escola, nunca tem menos de quatro autores). O artigo se intitula “Association of Coffee Drinking with Total and Cause-Specific Mortality”.  Trocado em miúdos, ele informa que foram estudados entre 1995 e 2008, nos Institutos Nacionais de Saúde (imagino que seja algo como o INSS de lá) um total de 229.119 homens e 173.141 mulheres na faixa etária de 50 a 71 anos, sendo excluídos do exame pacientes que já tivessem doenças mais graves como câncer, doenças cardíacas e derrames cerebrais.

Os pesquisadores estabeleceram critérios para avaliar riscos de mortalidade (por exemplo, pacientes mais velhos, ou que fumavam, foram classificados como de maior risco).  E descobriram uma relação inversa entre o consumo de café e a mortalidade, tanto a mortalidade por causas específicas (cardíacas, respiratórias, ferimentos e acidentes, diabetes e infecções, menos por câncer) quanto a mortalidade em geral, incluindo todas as causas.  Os cientistas concluem: “O consumo do café apresentou uma relação inversa com a mortalidade total e a mortalidade por causas específicas.  Se isto é uma relação causa-e-efeito ou apenas de ordem associacional, não pôde ser determinado pelos nossos dados”.  Com tantas más notícias que a TV vive nos dando, mostrando que tudo faz mal, não custa nada comemorar esta, não é mesmo?  Adivinha o que eu vou fazer agora.

sábado, 2 de junho de 2012

2886) "Zero History" (2.6.2012)



(foto: hdesbois)

Nos últimos dez anos recrudesceu a discussão sobre a posição dos romances recentes de William Gibson dentro da ficção científica.  Depois de duas trilogias futuristas, Gibson mergulhou num mundo que é visivelmente equivalente ao nosso, sem futurismo, sem elementos fantásticos, sem nada que viole as leis da natureza ou que nos transporte para um mundo diferente.  Isto é FC, se a definirmos como “a literatura que enfoca as mudanças produzidas em nossa vida pela ciência e pela tecnologia”. Uma definição incompleta, claro, mas que serviu para muitos autores clássicos e deve servir também para o “poeta noir do ciberespaço”. O qual, meio a sério, meio brincando, já disse que seus livros eram FC porque a ação transcorria “cinco minutos no futuro”.

Se é assim, “Zero History” (2010) deve ser o primeiro livro na história da FC que tem como tema central a fabricação de jeans. Só que não é um jeans comum.  Os personagens do livro vivem caçando uma marca “cult” de jeans, “Gabriel Hounds”. São calças, casacos, etc., fabricados não se sabe por quem, comercializados de maneira artesanal, sem divulgação, usando táticas quase de guerrilha. Neste sentido, assemelha-se ao “McGuffin” usado por Gibson em “Reconhecimento de Padrões” (2003): um filme misterioso feito não se sabe por quem e distribuído de forma anônima e clandestina pela Internet.

O que torna especiais os Gabriel Hounds?  Além do fato de serem tecnicamente impecáveis, eles são algo que têm personalidade própria pelo simples fato de não estarem carregados de personalidade alheia, de não parecerem com nada.  Diz alguém: “É uma questão de atemporalidade.  Uma questão de pular fora da industrialização da novidade.  Algo que vai num código mais profundo”.  Essa novidade às avessas, esse paradoxo zen, se assemelha a “The Footage”, o filme “cult” do outro romance, que fascina a protagonista Cayce Pollard porque é algo que não tem marca, não tem logo, não tem ferro em brasa marcando, não tem assinatura, não tem local, não tem data.  O contrário da moda e da publicidade.

OK, não há alienígenas nem espaçonaves, mas o que Gibson faz é uma ciência do presente, uma ciência da cultura, da percepção, dos universos simbólicos que criamos e que nos manipulam de volta. Dentro da Mídia Ambiente que nos impede de ter idéias próprias (podemos apenas reagir às idéias dela), os Gabriel Hounds e a Footage são o inominável, um produto da cultura (ambos exibem técnica impecável) mas que não foi apropriado pela Hidra de Dez Milhões de Cabeças.  Eles exprimem não só uma possibilidade de linguagem pré-Babel, mas de uma literatura que não tenha gênero, rótulo, griffe, etiqueta costurada.