sexta-feira, 20 de abril de 2012

2849) Rehab (20.4.2012)



O café da manhã seria o melhor momento do dia, se não fosse pelo café da manhã. Piada recorrente aqui na clínica. Gostamos do ambiente claro, acolhedor; gostamos de ver, na TV do refeitório, as reprises de I Love Lucy ou A Ilha da Fantasia. (Todas as TVs são ligadas num mesmo canal, para estimular a socialização e a troca de idéias). 

Gostamos do zum-zum-zum, do tilintar de pratos e talheres. Só não gostamos da comida. Não tem sabor nenhum, o que ressalta a textura repugnante de algumas delas. O Duque de Hagen comentou ontem comigo: “Mastigamos estas coisas insípidas e sem cheiro em busca de sofrimento. Só alimentam a ilusão de que nos fazem bem”.

Piscina com água pela cintura, olhares vigilantes dos salvavidas. Baralho ou gamão no Espaço Convivencial. Mme. Tepes, como sempre, passeia no jardim sem guarda-sol, rosto erguido; perdida em alguma viagem épica, triunfante. Eu caminho ao seu lado, ouço histórias suas de épocas passadas, mas todas pasteurizadas, irrepreensíveis. Com a idade que tem, não cansa de dizer que vive em função do futuro.

Hoje não recebi diálise, só as injeções e o rebatismo. Depois, caminhei em volta da clínica, que tem para isso uma pista larga, arborizada. Caminhar me faz bem, e é apenas nestes momentos que sinto algo próximo ao arrebatamento de quem se joga sem medo num abismo, de quem voa por sobre as nuvens guiado pela lua. 

O moleton está encharcado quando o dispo no banheiro; um chuveiro frio; uma roupa leve; e o detestável almoço, onde é ainda maior a quantidade de coisas pastosas que é preciso engolir, de coisas ásperas e úmidas que é preciso desfazer com os dentes.

Minha tardes são sempre melancólicas; costumo me alegrar com a companhia do Signor Polidori, sempre bem-humorado, com duas ou três anedotas picantes na ponta da língua. E quando a noite começa a cair e os enfermeiros nos conduzem para o prédio principal, tem início a parte terrível do meu dia, do dia meu e de todos. 

Trancafiados em nossos quartos, com portas e janelas protegidas, câmaras de vigilância piscando mecanicamente seu olho vermelho, entretemo-nos em ler A Bíblia na Linguagem de Hoje, revistas de modas ou de vida social. Uns assistem vídeos de Papai sabe tudo ou de Os pioneiros. Outros escutam MP3 de Pat Boone ou de Brenda Lee. 

Alegria e conforto são as palavras de ordem nessa noite interminável que se inicia e que todos nós temos que atravessar. A noite que agora precisamos temer e abominar, sem lembrar o tempo em que éramos seus imperadores, em que o mundo se estendia imenso por baixo de nossas asas abertas, e o prazer da vida borbulhava quente e saboroso por entre os nossos caninos.






quinta-feira, 19 de abril de 2012

2848) Millôr Fernandes (19.4.2012)



Não conheci Millôr pessoalmente. No lançamento de um livro, há quase 20 anos, num salão repleto de gente, vi-o a cinco passos de distância, conversando com alguém. Poderia ter ido até lá e dito a bobagem de sempre, “sou seu fã desde pequenininho”, a que ele responderia com bom humor e atenção, como me parece que era seu jeito. Paciência. Um autor tem vida própria, tem sua família, seus amigos. E tem seus leitores, que são uma espécie de amigos virtuais: nunca conviverão com ele, nunca tomarão um cafezinho na esquina ou um chope na calçada, nunca compartilharão confidências pessoais, nunca telefonarão um para o outro quando estiverem precisando trocar idéias ou reclamar da vida. Paciência; a vida é assim, não adianta reclamar.

Cresci numa época em que a revista O Cruzeiro era uma espécie de Fantástico, o Show da Vida impresso, que levávamos uma semana saboreando. Eu lia as reportagens sobre futebol, crimes e discos voadores; e lia as seções de humor, o Pif-Paf de Millôr, o Amigo da Onça de Péricles, a página de Carlos Estêvão, os cartuns de Appe ou Borjalo. Millôr saiu da revista brigado, por causa da sátira “A Verdadeira História do Paraíso”, que desagradou a Igreja. Fundou seu próprio Pif-Paf, depois entrou no Pasquim, tornou-se uma figura onipresente na minha vida adulta. Por causa dele conheci a obra de Steinberg, e a palavra “cartum” virou uma forma de arte. Li quase todas suas peças de teatro, a começar pela colagem Liberdade, Liberdade com Flávio Rangel (um dos mais célebres espetáculos anti-ditadura), e depois É..., Um elefante no caos, Os órfãos de Jânio, Computa, computador, computa!... Millôr era uma espécie de Bernard Shaw carioca. Seu teatro era engraçado, profundamente crítico, e cheio de teorizações sobre o Brasil e o mundo.

Foi o maior fazedor de frases do Brasil? Difícil dizer, porque este é um dos talentos mais espontâneos e viscerais do nosso povo. Mas mesmo nesta concorrência acirrada Millôr poderia reivindicar o título pelo mero fator quantidade (basta folhear A Bíblia do Caos). Era um agnóstico tranquilo e um individualista renitente. Brigava pelo direito de não usar cinto de segurança, o que me parece idiota na prática mas compreensível como atitude ideológica (“quem manda em mim sou eu, não o Estado”). Tinha uma independência de espírito que muitos intelectuais também poderiam ter, se para isso não fosse preciso ter a coragem de passar a vida batendo com a cabeça nas paredes e dando murros em pontas de faca. Millôr fez isso até o fim, e, pelo menos daqui de onde enxergo, as paredes e as facas nunca mais tiveram o mesmo poder sobre seus leitores virtuais.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

2847) No pé da página (18.4.2012)




Houve um tempo em que os livros eram copiados a mão nos mosteiros, em folhas de pergaminho. Obras importantes eram passadas a limpo por escribas hábeis, com caligrafias meticulosas que, vistas hoje, parecem ter sido impressas com tipos móveis, pela sua regularidade, harmonia e clareza. Ser escriba medieval exigia, além da caligrafia perfeita, boa cultura (para não cometer erros de grafia, e para poder eventualmente corrigir os erros da cópia que estava servindo de modelo), paciência e resistência física; porque em geral o escriba tinha que passar o dia inteiro debruçado sobre uma mesa, molhando a pena no tinteiro e desenhando letras após letras, hora após horas, dia após dia, ano após ano. Não era um serviço para qualquer um; e pelo menos uma grande obra literária, O Nome da Rosa de Umberto Eco, fez justiça a esses operários do saber, de um mundo que não existe mais.

O número da primavera da revista Lapham’s Quarterly (http://bit.ly/GDbCwa) traz uma matéria sobre o lado emocional desses artesãos anônimos: os comentários que eles deixavam anotados nas margens ou no cólofon das obras que copiavam. Ninguém é de ferro, não é mesmo? Esses monges de 800 anos atrás também não eram, e deixavam rabiscados, aqui e ali, seus pequenos protestos. “Estou com muito frio”, anota um. “Esta é uma página difícil dá muito trabalho para ser lida”, anota outro, lembrando-nos que estas cópias impecáveis eram muitas vezes feitas a partir de manuscritos muito velhos, danificados, com trechos arrancados ou ilegíveis. Alguns se queixam de pequenos problemas técnicos: “O pergaminho é peludo”, “A tinta é rala”, “Pergaminho novo, tinta rala, e não digo mais nada”. Alguns fazem uma autocrítica: “Esta página não foi escrita muito devagar”.

Mais comovente são os desabafos mais longos, que expressam bem o sentimento provocado por esse trabalho estafante: “Agora acabei tudo, pelo amor de Deus me deem algo para beber”. “São Patrick de Armagh, libertai-me do ofício de escrever”. “A escrita é um trabalho enfadonho. Ela enverga nossas costas, cansa nossa visão, torce o nosso ventre e as nossas ilhargas”. “Eu estava gelado enquanto escrevia, e o que não pude copiar aos raios do sol terminei à luz de velas”. “Assim como a visão do porto é bem vinda ao marinheiro, a da última linha o é para o escriba”. “Isto é tão triste! Oh, pequenino livro. Chegará um dia em que alguém lerá esta página e dirá: A mão que a escreveu não existe mais”. São pequenas queixas de homens anônimos que humanizam essas obras centenárias. É como encontrar na argamassa de uma catedral a marca de uma mão ou de dois joelhos humanos.

terça-feira, 17 de abril de 2012

2846) Bob Dylan no Rio (17.4.2012)



(Dylan em Copacabana. Foto: Nana Tucci)

Não fui ver Dylan no Citibank Hall. É a quinta vez que ele canta na cidade, e vi todas as outras quatro. Pra que ver mais? Dylan é uma espécie de Ronaldinho Gaúcho: a gente não vai assistir pensando no que ele pode fazer, mas para agradecer o que ele já fez. Isso não impede nenhum dos dois de eventualmente produzir algo genial. Os monstros sagrados nunca morrem de todo. Quando menos se espera, as cinzas começam a se juntar sem que nenhum vento esteja soprando.

Dylan cantou no Rio pela primeira vez em janeiro de 1990, na Apoteose. Abriu o show com “Subterranean Homesick Blues”. Eu estava no gargarejo, e o cara que ajeitou o pedestal do microfone dele era mais alto do que eu. Dylan tem 1,65m. Cantou a primeira estrofe inteira de guitarra em punho, para um microfone apontado para sua testa (no fim da estrofe, ajeitou rapidinho). O show foi uma mistura de gente emocionada e gente reclamando. No meio de “Hattie Carroll” estourou uma briga perto de onde eu estava, ele cantou a música inteira olhando para os brigões.

Em agosto de 91, ele cantou no extinto Imperator, no Méier. Um show fechado, acolhedor. A certa altura faltou energia na casa inteira. O baterista fez um longo improviso acompanhado com palmas pela platéia. Em 1998, ele abriu o show dos Rolling Stones, novamente na Apoteose. “Apoteose” é um eufemismo para a cena em que, no show da banda principal, ele voltou ao palco para cantar “Like a Rolling Stone”. Na turma que foi a este show estava minha filha Maria, então com 20 anos. O quarto show de Dylan aqui foi na Arena Multiuso, em março de 2008 (ver: http://bit.ly/HL8N0L). Fui com meu filho Gabriel, então com quase 16 anos. Dylan abriu o show com “Rainy Day Women # 12 e 35”, levantando a platéia, cantou razoavelmente bem algumas músicas, o tempo todo em pé, num tecladinho.

Por que não fui agora, além do preço? Não sei. Ano passado vi Milo Manara aqui no Rio, autografando quadrinhos. Vinte anos atrás eu passaria uma madrugada sob a chuva para pegar um autógrafo dele. Desta vez, esnobei. Não, não esnobei ele, nem Dylan, nem qualquer outro. Esnobei a necessidade de guardar uma prova palpável de que por alguns minutos compartilhamos as mesmas coordenadas espaçotemporais. Dizem que com a idade a gente vai ficando mais indiferente às pequenas coisas; já ouvi alguém dizer que velho não guarda lembrancinhas porque não vai ter muito tempo para lembrar. Eu diria que a idade torna meio irrelevantes esses rituais. O mundo é dos jovens. Pessoas como eu e Dylan estamos por aqui curtindo a música da festa, a inebriação do vinho; mas na verdade já estamos na calçada, esperando o táxi.

domingo, 15 de abril de 2012

2845) Evolução dos games (15.4.3012)



(The Elder Scrolls V: Skyrim)

Quando Thomas Edison inventou o fonógrafo, não pensou que aquilo serviria futuramente para vender canções para bilhões de pessoas. Achava que a máquina ajudaria no estudo de línguas estrangeiras. Quando os irmãos Lumière inventaram o cinema, acharam que era uma “invenção sem futuro”, e foi preciso o gênio de Georges Méliès (homenageado agora com o belo filme A invenção de Hugo Cabret) para descobrir o potencial de narração e de fantasia daquelas imagens em movimento. Alguma coisa parecida (numa escala diferente, e de mistura com outras variáveis) está ocorrendo com os videogames nestas décadas iniciais de seu desenvolvimento. O avanço técnico dos gráficos e da jogabilidade está sendo muito mais rápido do que o dos aspectos (digamos) dramatúrgicos e literários.

No seu livro Extra Lives (2010), Tom Bissell afirma: “Games são produtos de entretenimento corporativo, criados por dúzias de pessoas, com uma grande expectativa de ganhar dinheiro. Eles têm mais inteligência formal ou estilística do que são capazes de utilizar; e não têm nem um traço de inteligência temática, emocional ou moral”. O julgamento é duro, mas como é feito por um sujeito que se confessa viciado em games, talvez não seja preconceituoso. Bissel justifica esse desenvolvimento defeituoso com uma razão principal: “Um número desproporcional de designers de games hoje em atividade vem de um background de sistemas, programação ou engenharia, o que contribuiu para formar suas personalidades e interesses. Uma consequência disto é que os designers imaginam os games de dentro para fora: Que variável posso inserir no sistema para produzir um efeito interessante?”.

Ou seja: os games não foram inventados por artistas, mas por técnicos. Quem os criou estava tentando reproduzir o movimento de corpos num espaço tridimensional através de pontos luminosos. Eu sou dos primórdios dos games de computador (raramente joguei games de console, tipo PlayStation ou Xbox). No tempo dos computadores pré-Windows, usei joguinhos em que os personagens eram representados por letras maiúsculas, os muros da prisão eram uma série de XXXX maiúsculos, a jóia que eles procuravam roubar era um asterisco, e assim por diante, tudo isso em letras verdes sobre fundo preto. Ou seja, “mó toskera”, como diriam os jovens de hoje. Desse mundo para o de Mass Effect 3, vai uma distância que foi coberta em vinte anos. Diz Bissell: “A indústria dos games, que começou com uma cultura de engenheiros, transformou-se num negócio, e agora, como um milionário talentoso que se volta para a poesia, está cheia de aspirações confiantes, mas inseguras, de se transformar numa arte”.

sábado, 14 de abril de 2012

2844) Reescrever um livro (14.4.2012)



(Neil Gaiman, por Mizzy Chan)

Grande parte das carreiras literárias são resultado de uma experiência inesquecível de leitura que faz alguém pensar: “Quero escrever assim também”. Ninguém começa a escrever sem ter lido algo que o emocionou, que lhe deu uma nova maneira de pensar, de ver as coisas. Jean-Paul Sartre, na infância, copiava à mão romances de aventuras, trocando os nomes dos personagens e algumas peripécias, e os assinava com seu próprio nome. August Derleth era um fã tão ardoroso das histórias de Sherlock Holmes que inventou um detetive praticamente idêntico, mas para poder publicar as histórias trocou o nome do personagem para Solar Pons. Outras vezes, a motivação pode vir de um livro ruim. Diz-se que Fenimore Cooper trabalhava como marinheiro e um dia, numa daquelas longas esperas a que os marinheiros são submetidos, estava lendo um livro de aventuras. A certa altura jogou-o para um lado dizendo: “Que coisa idiota, até eu seria capaz de escrever um livro melhor do que este”. Os amigos riram dele, fizeram algumas apostas, e Cooper escreveu O Último dos Moicanos.

Neil Gaiman, o autor de Sandman, falou numa palestra sobre a impressão que lhe causou a leitura de O Senhor dos Anéis de Tolkien. Totalmente arrebatado pela obra, diz ele, “cheguei à conclusão de que O Senhor dos Anéis era, provavelmente, o melhor livro que poderia ser escrito, o que me colocou numa espécie de sinuca. Eu queria ser um escritor quando crescesse. Não, não é verdade: eu queria ser um escritor naquele momento exato. E eu queria escrever O Senhor dos Anéis. O problema é que ele já tinha sido escrito”. Esse tipo de entusiasmo é resolvido, hoje, pela existência do que chamamos “fan fiction”, histórias escritas pelos fãs utilizando o universo e os personagens de uma obra que admiram. Prolongamentos, extensões amadorísticas de uma obra profissional em sua origem. É uma atividade ironizada por muita gente, mas que acho positiva, porque ajuda o jovem fã a treinar sua mão dentro de um contexto dramatúrgico que ele já conhece bem e onde sabe se movimentar.

Depois da fan fiction, entretanto, pode surgir a literatura profissional. Neil Gaiman não reescreveu Lord of the Rings, em compensação criou a série Sandman de quadrinhos e uma porção de ótimos romances, como Neverwhere, American Gods, The Graveyard Book. Será que são tão bons e tão historicamente importantes quanto obra de Tolkien? Não importa: são os livros de Gaiman, os livros que ele tirou de sua própria imaginação e de sua memória afetiva, livros modernos ambientados em Londres, nos EUA, em cidadezinhas imaginárias... Livros que Tolkien não poderia ter escrito.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

2843) Obsolescência (13.4.2012)



Uma página interessante faz uma avaliação do grau de obsolescência de vários tipos de controles e consoles para games, desde os mais antigos. Christian Sandvig (http://bit.ly/Iu8p6J) é professor de “Tecnologias da Comunicação e Sociedade” na Universidade de Illinois, e comenta: “Minhas tecnologias tornaram-se obsoletas, em sua esmagadora maioria, devido a avanços tecnológicos ou a defeitos. Além disso, algumas se tornaram obsoletas devido ao aparecimento de produtos mais atraentes injetados no mercado pela cultura de consumo intenso cada vez mais presente nos EUA. Concordo com quem diz que as tecnologias estão sendo substituídas muito antes de se tornarem de fato obsoletas. Um bom exemplo disso é quando Slade diz que telefones celulares fabricados para durar cinco anos estão sendo descartados depois de dezoito meses”.

Pode-se “tomar o pulso” do descontrole industrial de uma civilização quanto ela vai na direção de um destes extremos: 1) ser incapaz de substituir produtos obsoletos por produtos novos que cumpram bem a função; 2) aposentar cedo demais produtos ainda válidos, simplesmente para convencer o consumidor a comprar um produto novo do qual ele, na verdade, ainda não precisa. No primeiro caso, a economia vai mal porque está lenta, preguiçosa, recessiva, ou então não tem o know-how necessário para resolver seus próprios problemas. No segundo caso, está acelerada demais, como uma pessoa que tomou estimulantes em excesso e perdeu a capacidade de administrar direito o que faz.

Diz Sandvig: “As empresas que produzem eletrônicos deviam ser obrigadas pelo governo a oferecer algum tipo de subsídio para motivar e ajudar o comércio num plano de recolhimento e reciclagem do lixo eletrônico. Até mesmo o consumidor poderia ganhar um pequeno desconto na compra de um equipamento novo se trouxesse o equipamento velho e o devolvesse. Isto manteria o fluxo da inovação tecnológica, diminuiria o lixo eletrônico, e manteria satisfeitos os consumidores”. É um ponto de vista correto, mas parece mais próprio da sociedade norte-americana. Aqui no Brasil, pela minha experiência, um eletrônico só vai pro lixo quando já deu tudo que tinha que dar. Televisão, celular, notebook, monitor de PC , tudo isso é repassado para outra pessoa (filho, pais idosos, amigo, empregada, porteiro do prédio) quando a gente compra um novo. A obsolescência é gradual – quando a gente está com mais grana, compra um modelo novo, e repassa o antigo para quem não pode comprar. A ida pro lixo não é imediata, é o fim de uma longa cadeia de presentes ou de transações informais, numa sociedade de classes mais próximas e mais permeáveis.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

2842) 500 contos de fadas (12.4.2012)



A literatura oral é um sambaqui de narrativas despedaçadas e sepultadas juntas. A maior parte da literatura oral que conhecemos hoje em dia é, ironicamente, literatura-oral-por-escrito: as coletâneas dos Irmãos Grimm, de Sílvio Romero, de Câmara Cascudo, etc. Ninguém mais conta histórias em casa. Quem conta é a televisão, cujo encanto não discuto; e já existe a profissão de contador de histórias com cobrança de ingresso. É uma oralidade diferente daquela dos tempos dos Irmãos Grimm.

Por falar neles, foi descoberto na Alemanha o arquivo de um historiador amigo deles, Franz Xaver vom Schönwerth (1810-1886), que dedicou-se, naquela mesma época, a escutar e copiar histórias narradas à viva voz por camponeses, trabalhadores, pessoas idosas. Seus trabalhos foram publicados em três livros saídos em 1857, 1858 e 1859, mas não obtiveram a mesma repercussão dos livros dos Grimm, e logo foram esquecidos. Agora, uma pesquisadora, Erika Eichenseer, deu uma geral nos arquivos dele e encontrou cerca de 500 contos orais por ele transcritos, muitos dos quais jamais registrados em outras coletâneas.

Muita gente se pergunta: quem cria os contos de fadas? É o mesmo que perguntar: quem inventa as anedotas? Dificilmente vemos uma anedota ser atribuída a alguém – não me refiro a episódios pitorescos da vida real, mas às piadas de português, de bêbado, de papagaio, etc.; o feijão com arroz da mesa de botequim. Quem inventa essas piadas, e quem inventa contos populares como Chapeuzinho Vermelho ou Rapunzel? Já vi artigos bastante sérios discutindo se esses contos orais tinham “origem erudita” (eram inventados por escritores cultos e depois propagados pelo povão) ou “origem popular” (eram inventados pelo povão e depois propagados pelos escritores cultos). É uma dicotomia típica de quem divide a humanidade em eruditos e populares. Eu divido a humanidade em pessoas com talento fabulatório (capazes de criar histórias) e pessoas sem talento para inventá-las, mas que gostam de ouvi-las e repeti-las. Em qualquer classe social encontramos esses dois tipos.

Saber inventar histórias não é efeito colateral de ser pobre nem de ser rico, é algo que depende de outros fatores. Sugiro a leitura do longo prefácio de Ítalo Calvino para suas Fábulas Italianas, onde ele confessa na maior cara-de-pau que, após registrar algumas variantes de um conto popular, decidiu mudar o final por conta própria porque achava que assim ficava melhor. Atitude não de erudito, mas de fabulador. Quem inventa as histórias? Gente como Ítalo Calvino, amas-de-leite, professoras de italiano, sapateiros... Fabuladores, de todas as classes sociais.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

2841) Dinheiro é droga (11.4.2012)




O Capitalismo começa como uma espécie de realismo pragmático, mas depois de um certo ponto degenera em delírio quantitativo. 

No começo, ele é materialista até a medula. Escarnece da religião, faz pouco das ideologias, torce o nariz para a arte, dá um chega-pra-lá em todos os subjetivismos e diz que no mundo somente as coisas materiais contam. Só conta o que dá resultado, o que gera riqueza, o que produz. 

É nessa fase, por exemplo, que as manifestações artísticas são enxotadas para o sótão dos “Passatempos Para Gente Desocupada”. Por que perder tempo com coisas que provocam apenas prazer estético e enriquecimento espiritual? Já que ninguém pode quantificar prazer estético, ninguém pode lucrar planejadamente com ele. Quanto ao enriquecimento espiritual, pra começo de conversa não existe essa coisa chamada espírito.

Na sua fase produtiva, o capitalismo impõe um culto à produção, à matéria, às transformações das matérias primas em produtos. Esse culto é tão forte que contaminou o próprio comunismo, em suas tentativas falhadas de substituir o adversário. Estatizando o Capital e glorificando o Trabalho, o comunismo perpetuou e ampliou as ladainhas à máquina, à indústria, à produtividade, à transformação da natureza. 

Materialista por definição, o comunismo foi, neste aspecto, uma mutação avançada do capitalismo. Só existe o que é “material”.

O que destruiu o capitalismo e vai destruir o mundo (não se enganem) é o estágio seguinte, em que a Matéria cede lugar ao Símbolo. 

O capitalismo deixa de ser concreto e passa a ser abstrato. Já não conta mais quantas moedas de ouro você possui, e sim quantos zeros você acumula em suas contas bancárias. 

O Capitalismo Financeiro sucedeu ao Capitalismo Produtivo e começou a tirar milhões de coelhos virtuais de dentro da inesgotável cartola das manipulações bancárias. É irônico que um sistema de pensamento tão voltado para o que é sólido tenha se desmanchado no ar com tanta facilidade; e que as “águas glaciais do cálculo egoísta” tenham se evaporado nessa neblina impalpável, nessa nuvem dos trilhões de dólares inexistentes que são negociados todos os dias nos mercados mundiais. 

Trilhões de zeros que bancos, empresas e países vendem, compram, revendem, emprestam, dividem, partilham, multiplicam, como se esses zeros todos valessem alguma coisa, como se existisse algum lastro produtivo (ouro, prata, grãos, capim, sei lá, qualquer coisa que servisse para algo no mundo real). 

O Capitalismo embebedou-se de Capital, passou a se alimentar não de produção mas de ficções financeiras, como um drogado que deixa de comer e de beber água, para poder continuar se drogando.





2840) Detetives psíquicos (10.4.2012)



(At the European Concert, Seurat, 1887-1888)

A paranormalidade é uma zona crepuscular entre a ciência e as doutrinas espiritualistas. Envolve uma quantidade enorme de fatos extraordinários (telepatia, precognição, psicometria, clarividência, etc.), para os quais a ciência ainda não tem explicação. As doutrinas espiritualistas os explicam com a sua hipótese padrão, a de que os seres humanos possuem uma alma que sobrevive à morte do corpo físico e é capaz de se comunicar com os vivos, em circunstâncias especiais. Os dois grupos trabalham com critérios e parâmetros diferentes, e cada um recusa os parâmetros do outro. É como aquela discussão entre um cosmólogo e um bispo, em que o cosmólogo se queixou de que ninguém era capaz de provar cientificamente a existência de Deus. O bispo retrucou que ninguém conseguira provar teologicamente a existência do Universo. (Talvez o bispo não estivesse bem informado, porque me parece que muitos dos filósofos cristãos aceitam, sim, a existência do Universo – se bem que como um efeito colateral da existência de Deus.)

Teorias à parte, o que existe é um impressionante acúmulo de fatos paranormais. Como não há explicação científica para eles, muitos cientistas tentam desqualificá-los com acusações de charlatanismo, auto-sugestão, alucinação, coincidências, histórias mal contadas, testemunhas não confiáveis, etc. Colin Wilson é um dos mais dedicados pesquisadores desses fatos, conhecido dos leitores brasileiros, nessa área, pelo ótimo O Oculto (Ed. Francisco Alves). Estive relendo The Psychic Detectives (1984), em que ele examina a paranormalidade em geral e depois se concentra na atividade dos detetives psíquicos, indivíduos a quem a polícia recorre quando não consegue elucidar um crime ou localizar uma pessoa desaparecida. Esses “psíquicos” (a palavra em português é apenas adjetivo, mas em inglês é usada também como substantivo, designando a pessoa que tem essa capacidade) são capazes de “ver” flashes do crime apenas pegando numa peça de roupa, numa fotografia, num papel manuscrito ou em qualquer objeto que tenha estado em contato com ela. Às vezes basta-lhes olhar um mapa para indicar com precisão o local do crime ou o local onde a vítima foi oculta.

Wilson compara esses psíquicos a concertistas musicais, e diz: “Esse nível de habilidade é mantido por uma prática constante, esforço constante; até mesmo um grande pianista sabe que precisa praticar várias horas por dia. Uma das razões pelas quais os psíquicos são muito mais erráticos do que os pianistas é, sem dúvida, que eles tendem a ser preguiçosos a respeito do seu dom, aceitando-o como algo natural, que não precisa ser desenvolvido”.