sábado, 31 de março de 2012

2832) Proibido dinossauro (31.3.2012)




Como se sabe, hoje existe uma batalha cerrada sobre a criação do mundo e da humanidade. 

De um lado, estão os Evolucionistas, os que, com Darwin e a ciência, acham que o Homem é uma espécie animal como as outras, que evoluiu através de milhões de anos. (A fórmula popular “o homem veio do macaco” é uma simplificação inexata e grosseira do que Darwin afirmou.) 

Do outro lado, estão os Criacionistas, para os quais Deus criou o mundo e a humanidade já prontos, há poucos milhares de anos. Para estes, as provas geológicas, astronômicas e físicas de que a Terra é muito mais antiga são falsificações ou equívocos.

Acontece que nos EUA, que já foi o país da liberdade de expressão, está cada vez mais difícil ir de encontro aos Criacionistas. A CBS de Nova York informou (http://cbsloc.al/GTdyzT) que nas provas do Departamento de Educação da cidade estão sendo proibidas palavras que possam incomodar a sensibilidade de estudantes de determinadas crenças. 

“Halloween” não pode ser mencionado porque sugere paganismo; “dinossauro” também está proibido porque lembra a Teoria da Evolução, e os partidários do Criacionismo podem se sentir ofendidos; “aniversário” (“birthday”) também está proibido, porque as Testemunhas de Jeová não comemoram aniversários e também poderiam se sentir desconfortáveis vendo essa palavra escrita numa prova.

Tem mais. Outras palavras cujo banimento nos exames públicos está sendo estudado: álcool, armas nucleares, câncer, desemprego, divórcio, parapsicologia, pobreza, pornografia, religião, sexo, terrorismo... 

A lei não escrita que rege essas proibições é: coisas desagradáveis não devem ser ditas em voz alta, e principalmente não devem ser lembradas num exame público. Os argumentos contra essas palavras são cheios de atitudes defensivas, “não-me-toques”. Elas podem desagradar os estudantes, fazer com que se sintam incomodados, desconfortáveis, ofendidos. Parece haver da parte dessas autoridades um medo de ofender pessoas que são muito delicadas, têm sentimentos muito frágeis, precisam ser protegidas...

Quer saber de uma coisa? Não é bem assim não. 

O que as autoridades não querem é pisar no rabo do leão, catucar a onça com vara curta. Sabem que a cada ano avoluma-se uma Presença Ameaçadora no país, uma vasta comunidade de criaturas sorridentes e implacáveis capazes de destruir quem quer que seja em nome de fazer-lhes o Bem. 

Destruirão opiniões, pontos de vista, idéias; destruirão tudo que não reze pelos seus mandamentos. Os norte-americanos laicos vivem numa casa tomada. Convém pisar de leve, falar sussurrando, omitir as palavras tabus que fazem a Naja erguer a cabeça e abrir os olhos.





sexta-feira, 30 de março de 2012

2831) Hedy Lamarr (30.3.2012)




Me lembro do nome dessa atriz austríaca porque era uma das preferidas de minha mãe. Ouvi-a muitas vezes falar em “édi-lamár” antes mesmo de ver esse nome escrito. 

O filme que a levou para Hollywood foi Êxtase (1933), um filme tcheco em que aparecia nua e simulava um orgasmo. Nos EUA, por pouco não estrelou Casablanca. Seu grande sucesso foi Sansão e Dalila (1949), ao lado de Victor Mature. Largou o cinema cedo, porque não suportava Hollywood; era uma “atriz difícil”. Morreu em 2000, aos 86 anos. 

A julgar pelas fotos da época, era linda. Tinha um rosto que era uma mistura de Vivien Leigh e Ava Gardner. (Que coisa injusta, e inútil, é comparar os rostos de mulheres bonitas.)

Ela aparece hoje nesta coluna por outros motivos. Ainda na Áustria, nos anos 1930, foi casada com um poderoso industrial simpatizante do nazismo, em cuja mansão costumavam se reunir altos oficiais militares, discutindo tecnologia e armamentos. Falavam livremente na frente dela, que aos seus olhos era apenas uma esposinha atriz, do tipo bonita e burra. Não era. Era inteligente e tinha uma cabeça engenheira. 

Quando largou o marido e foi para Hollywood, ficou amiga do compositor e roteirista George Antheil, que morou em Paris e era amigo de Man Ray, Stravinsky e Ezra Pound. 

Em 1940 os dois começaram a conversar sobre a guerra de submarinos que afundava os navios aliados, e começaram a trabalhar juntos num projeto de controle de torpedos pelo rádio. Hedy procurava criar um comando de rádio que mudasse de frequências, e Antheil sugeriu usar uma fita perfurada com as das pianolas mecânicas. 

Nesta página (http://bit.ly/sotDzn), vê-se uma cópia da patente requerida pelos dois, com data de 1942. (Um sistema semelhante é usado hoje nos celulares, para evitar interferência.)



Em 1997, a Electronic Frontier Foundation concedeu-lhe (e, postumamente, a Antheil) um prêmio pelo desenvolvimento pioneiro dessa tecnologia, chamada de Salto de Frequência ou FHSS (Frequency Hopping Spread Spectrum).

Antheil escreveu sobre ela: “Hedy é uma ótima garota, mas meio maluca, que além de ser muito bonita passa a maior parte do tempo livre inventando coisas. Ela acabou de inventar um novo tipo de ‘soda pop’, que está patenteando, imagine só”. 

O engenheiro Nino Amarena, que a entrevistou em 1997, disse: “Nunca achei que estava conversando com uma estrela de cinema, mas com uma inventora, uma colega. Quando duas mentes afins falam sobre tecnologia, desaparece a idade, o sexo, a experiência de cada um”. Todos dizem que a beleza de Hedy foi uma espécie de maldição que a jogou num ambiente que ela detestava, o “star system” dos estúdios de cinema.






quinta-feira, 29 de março de 2012

2830) “Fellini: The Game” (29.3.2012)



Você acorda num quarto de hotel, veste o terno que tira do armário. Ao se olhar no espelho, vê Marcello Mastroianni. 

A porta se abre. Você começa a ser assediado por produtores cobrando prazos, assistentes de direção em busca de tarefas, atores e atrizes à espera da hora do teste, jornalistas fazendo perguntas equivocadas, e todos insistindo que devem começar a rodar o filme o mais depressa possível, mas que ainda não têm o roteiro. 

Suas tentativas de fazer um filme serão, daí em diante, “O Jogo”. Você tem vários roteiros prontos para filmar: conquistas românticas e duelos de espadas em Casanova, prodígios, combates e superpoderes em Satyricon, nostalgia provinciana em Os Boas Vidas, delírios do cotidiano em Julieta dos Espíritos... 

Fellini: The Game foi ironizado por parte da crítica, ao ser lançado em 2025, como um “Windows Movie Maker para velhinhos”. Errado. Cada título da obra inteira de Fellini está aqui em estado potencial, esperando para ser refeito à maneira do jogador, e sabendo que ninguém conseguirá, mesmo que tente, refilmar o que Fellini filmou. (Assim como o Pierre Menard, de Jorge Luís Borges, dificilmente conseguiria reescrever o Dom Quixote, como pretendia.) 

Tomando como ponto de partida a indecisão criativa do diretor Guido em Oito e Meio, o jogo se transforma na possibilidade de montar 17 quebra-cabeças diferentes, 17 filmes que, de acordo com a inclinação do jogador podem ser minuciosamente reconstituídos ou completamente alterados do começo ao fim. 

É um jogo para quem sente prazer em dirigir uma equipe de cinema, e de fato é emocionante quando, depois de horas explicando tudo e ensaiando, o diretor consegue reconstituir na tela uma versão autêntica da cena do navio em Amarcord ou a melodia das taças de cristal em E la nave va, ou a festa de carnaval em Os Boas Vidas

E é ao mesmo tempo um jogo de personagens femininas de rara complexidade em busca do amor (Cabiria), da paz de espírito (Giulieta dos Espíritos), da sobrevivência num mundo bruto e mouco (Gelsomina de A Estrada) ou da dominação mundial pura e simples (Cidade das Mulheres). Poucos jogos atuais têm feito tanto sucesso no segmento de mulheres de 20 a 45 anos. 

Os videogames surgiram amparados no binômio ação-aventura, modelo que entrou em crise com o esvaziamento do militarismo. Nesta metade do século, a tendência à introspecção é irreversível. Os jogos estão se transformando cada vez mais em aventuras narrativas cujo inexorável realismo gráfico tem em contrapartida uma profundidade psicológica que o cinema do século 20 (hoje tão homenageado) pôde apenas aflorar. Cotação: 5 estrelas.







quarta-feira, 28 de março de 2012

2829) O neurônio numérico (28.3.2012)



Alguns saites consistem em intermináveis listas de coisas consideradas interessantes para algum tipo de platéia. Os assuntos variam, mas há um padrão sempre seguido nos títulos e na organização das matérias: “9 coisas que não se deve dizer a uma criança”; “10 truques fáceis para uma pele perfeita”; “12 atores de Hollywood que sofrem de acne”; “21 sinais de que você está numa relação emocionalmente abusiva”; “8 passos para escrever um romance”.

É o mesmo fenômeno que a gente observa na maioria das revistas que encontra nas bancas (principalmente, mas não com exclusividade, as revistas femininas): “140 modelos de blusas para este verão”; “99 truques de maquilagem”; “18 maneiras de prender seu namorado”; “85 tipos de sandália alta”; “253 arranjos de flores para sua sala”... E por aí vai.

Tenho uma teoria. Esses números não-redondos, aparentemente aleatórios, têm uma credibilidade (uma possibilidade de que sejam verdadeiros) maior do que se tudo se resumisse a uma série interminável de listas de dez ou de vinte. “Vinte modelos de toalhas de mesa” dá uma impressão mais vaga, menos específica, do que “Dezesseis modelos de toalhas de mesa”. O número quebrado parece verdadeiro, como se dissesse: “Olha, são só dezesseis mesmo, poderíamos ter inventado quatro só para fechar um número redondo, mas preferimos ser honestos e dizer somente o que é verdadeiro”.

Acho que temos um neurônio, ou uma família inteira deles, cuja função é registrar as referências numéricas. Ele nos ajuda a pensar, porque o número é um conceito claro, nítido. Dezesseis é diferente de quinze ou de dezessete. Ou é isto, ou é aquilo. O número nos dá segurança, certeza, a gente sente firmeza na informação, muito mais do que se lesse na capa de uma revista: “Vários arranjos para buquês de noivas. Numerosos conjuntos de mobília para a beira de sua piscina. Muitos truques de maquilagem para disfarçar olheiras. Uma porção de estampas bem coloridas para o verão que se aproxima”.

Algo na minha mente de redator considera essas frases chochas, vagas, imprecisas, e acha que não vão despertar confiança nas leitoras. Mas os neurônios numéricos dela darão logo um pulinho satisfeito quando lerem uma chamada tipo “31 receitas de doces sem açúcar” ou “14 filmes para assistir de mãos dadas”. O número é uma reiterada certeza neste mundo. Certos enunciados imprecisos, subjetivos, nos provocam insegurança, e por isto desconfiança. Ouvir falar em “muitos” ou “vários” é um pouco como olhar uma fotografia fora de foco. A isca do número passa uma idéia de informação concreta, de honestidade técnica, de segurança absoluta do que se está dizendo.

terça-feira, 27 de março de 2012

2828) Eu já matei um cara (27.3.2012)




Faz tantos anos e foi num lugar tão remoto que dá para contar agora e fazer de conta que não aconteceu. Eu estava viajando pelo Brasil, fazendo um trabalho. Em cada cidade me hospedava em casas de funcionários da empresa. Desconhecidos que recebiam em suas casas, por 2 ou 3 dias, um colega que vinha da matriz e tinha pouco tempo para transmitir uma porção de informações, reestruturar funções, coisas assim. À noite a gente encerrava pelas 9 horas e ia em algum lugar tomar cerveja, relaxar, jantar alguma coisa.

Numa cidade de cujo nome não quero lembrar, fiquei na casa de um cara que durante a noite trabalhava noutra coisa. Me deu a chave da casa e a do outro carro dele. Almoçávamos juntos, mas à noite ele ia no outro “bico” que fazia e eu saía sozinho. Na minha última noite lá, saí para dar um rolé, fui comer numa palhoça. Lá pelo fim da noite, houve uma confusão e uns caras brigaram, caíram por cima da minha mesa. Troquei uns sopapos e uns insultos com eles. Coisa de bêbo. Depois tudo serenou e os amigos os levaram embora. Finalizei meu uísque, paguei e saí. Tudo deserto. O carro estava distante, era um bairro cheio de matagais, poucas casas, o restaurante já apagando as luzes. Quando dei por mim, um dos caras da briga me atacou. Tinha voltado e estava me tocaiando. Rolamos agarrados, felizmente ele não estava armado, porque era maior do que eu. Dei-lhe uma gravata, e estava meio apavorado, puxei com muita força, senti um estalo no pescoço e o cara afrouxou.

Fiquei uma eternidade ali, num terreno baldio cheio de moitas, caído no chão e o corpo do cara esfriando, até que o larguei. O que fazer agora? Ninguém tinha visto nada. Vou chamar a polícia? Estragar minha carreira? E o que ia dizer a minha mulher? Que tinha matado um cara sem nem saber quem era? Esse terreno onde eu estava parecia os fundos de uma vacaria, havia uns estábulos, umas cocheiras. Tudo fechado. E havia um poço tampado. Arrastei o cara e o despejei lá embaixo, ouvi os trambolhões da queda e o baque, pelo menos uns dez metros. Pus de novo a tampa de madeira, pesada. Peguei o carro, voltei, entrei sem ninguém me ver, tomei um banho, escondi as roupas sujas no fundo da mala. No dia seguinte viajei. Passei dois anos num verdadeiro inferno, esperando a toda hora uma investigação vagarosa chegar até mim. Nunca mais botei os pés naquele Estado. Quando ouço às vezes o nome da cidade, na TV, sinto uma pontada no coração, até hoje. É fogo. Mais de trinta anos depois e de certa forma eu continuo acordado no fundo daquele poço. Faz tanto tempo e foi num lugar tão longe que dá para contar agora e fazer de conta que é um conto.

domingo, 25 de março de 2012

2827) O Princípio Peter (25.3.2012)




A Lei de Murphy diz que “o pão com manteiga sempre cai com a manteiga pra baixo”, ou, mais genericamente, que “se uma coisa tem alguma possibilidade de dar errado, dará; e se puder dar mais errado ainda, pode contar com isto”. Há muitas “leis” assim, informalmente criadas, e que guardam o nome dos seus criadores. E no meio delas fala-se muito num tal de “Princípio Peter”, que não é tão conhecido e precisa sempre ser explicado.

De tanto ouvir falar nele sem entendê-lo por completo fui consultar a mãe-dos-burros. (Se o pai-dos-burros é o dicionário, a mãe é a Wikipedia.) O “Peter Principle” foi formulado por um canadense chamado Laurence J. Peter e diz apenas: “Numa hierarquia, cada empregado tende a subir até alcançar o nível de sua incompetência”. O livro com o nome desse princípio foi lançado em 1969 e tornou-se um best-seller.

O que Peter afirma é simples. Quando um sujeito se destaca em seu trabalho ele é promovido, porque seus chefes veem suas qualidades e querem aproveitá-las num nível mais alto. Se ele se destaca de novo, torna a ser promovido e vai subindo. (“Promoção”, num trabalho sério, é um pouco como subir de nível num videogame: seu prêmio é ir recebendo incumbências cada vez mais difíceis.) Chega então um momento em que o sujeito começa a não corresponder, a não se desempenhar tão bem quanto fazia nas funções inferiores. Ele atingiu (nas palavras de Peter) seu nível de incompetência. E ali ele fica.

A sutileza é que na vida profissional há outros fatores envolvidos além da mera apreciação e avaliação da competência. Quando um sujeito passa por promoções sucessivas, ele vai acumulando tempo de serviço, respeito, admiração dos colegas, temos dos subalternos, força política. Se só contasse a qualidade do desempenho, ao atingir seu nível de incompetência ele seria rebaixado para o posto anterior, onde chegou a se destacar. Mas não é isso que acontece. O sujeito, que lutava para ser promovido, percebe que está meio perdidão e faz o possível agora para não ser rebaixado. E geralmente consegue. Há uma quantidade imensa, em qualquer empresa, de funcionários que estariam se saindo muito melhor num cargo inferior ao que efetivamente ocupam; mas para descobrir seu nível de incompetência foi preciso promovê-los para uma função de onde agora é difícil tirá-los.

Claro que todo mundo acha uma saída. Exércitos, bancos, multinacionais dão um jeito de “premiar” o cara com um cargo bem remunerado em Singapura ou Cabrobó. Num artigo na revista “Edge”, Nicholas G. Carr diz: “A viga mestra do sonho americano, o desejo de subir a escadaria do sucesso, tornou-se uma receita para a mediocridade em massa”.

sábado, 24 de março de 2012

2826) Primeira pessoa (24.3.2012)




(René Magritte, La Reproduction Interdite)

Alan Garner conta que passou por uma tremenda crise pessoal quando supervisionava a filmagem do seu romance The Owl Service. Todo dia de filmagem ele sofria tremores, suores frios, acessos de vômito. Foi a um terapeuta e narrou seu drama. 

O terapeuta perguntou-lhe se o livro original estava escrito na terceira pessoa e no tempo passado, ou se era na primeira pessoa e no tempo presente. Garner disse que era na terceira, e no passado. O analista lembrou-lhe que o filme – qualquer filme – se passa no presente (a ação, mesmo quando em “flash back”, tem a imediaticidade de qualquer ação vivida). E que sendo um livro autobiográfico era insuportável para ele reviver, no presente, aquelas situações. 

Não posso botar minha mão no fogo pelo diagnóstico, mas o relato de Garner, em Science Fiction at Large (1976), afirma: “Ele foi direto ao centro da minha dor, e me absolveu dela”.

Isto dá uma medida do quanto (para alguns autores, não para todos – é bom que fique bem claro) o ato de escrever envolve catarse, libertação, descarrego. Muita gente diz que escreve para poder lidar com seus “demônios” e “fantasmas”. Por que recorrem a essas imagens para exprimir o que acontece dentro de suas cabeças? 

No caso desses autores (não de todos, insisto) existe algo incomodando, e escrever é uma maneira de ficar sabendo o que é e de dar-lhe um fim. Todo mundo conhece a metáfora do grão de areia na ostra; aquilo incomoda tanto que a ostra cobre o grão intruso de madrepérola, e de repente, voilà! O grão de areia virou uma obra de arte.

Voltando ao uso da primeira pessoa: quando o autor é jovem, inexperiente, ou descuidado, ou está escrevendo sob forte tensão, ou está mexendo com coisas que lhe são dolorosas, acontece muito que o “eu” que representa o personagem comece a ser contaminado pelo “eu” da pessoa que escreve. 

Isto ocorre menos quando se está escrevendo na terceira pessoa, porque para transferir para outra pessoa um sentimento muito íntimo (“Fulano estava se sentindo assim porque...”) é necessário um mínimo de distanciamento, e isso funciona como um estalar de dedos que acorda o escritor, dizendo-lhe: “Êpa! É do personagem que você tem que estar falando, não de você!”. 

Quando estamos usando o “eu”, contudo, deslizamos com muito mais facilidade para esse tipo de equívoco, escrevemos sem refletir, projetamos os pensamentos na página sem ficar checando, de instante em instante, se o personagem estaria mesmo dizendo/pensando/sentindo aquilo. 

A pressão interna das coisas querendo ser ditas é tão fortes que elas se apossam do canal mais à mão, o trabalho literário, e escorrem para dentro da página.








sexta-feira, 23 de março de 2012

2825) Treze 1x1 Botafogo (23.3.2012)



Na disputa pela Copa do Brasil, o Treze jogou bem em Campina contra o Botafogo-RJ e conseguiu no último minuto o gol que tornou mais justo o placar. No Rio, 4ª.-feira passada, entrou para jogar no contra-ataque, fez um gol de pura sorte logo no início, e contou com a tradicional neurose botafoguense (“se não tiver sofrimento não é o Botafogo”, dizem meus amigos alvinegros) para segurar um jogo difícil. Só recuou pra valer quando ficou com 10.

O pênalti perdido por Léo Rocha no final, tentando imitar a “cavadinha” de Loco Abreu e se dando mal, desmoronou todo mundo. O goleiro Beto, que havia feito uns 5 milagres ao longo do jogo, defendeu dois pênaltis, e Léo Rocha teve a chance de empatar a disputa. Brincou. Quis fazer chinfra e entrar para a História; não bastava o gol, tinha que ser um gol para achincalhar o adversário. Perdeu. O mundo caiu em cima de sua cabeça.

Devemos puxar as orelhas do jogador, que cometeu uma imprudência desnecessária, mas não devemos crucificá-lo. Ele fez aquilo em nome da torcida. Se tivesse feito o gol e o Galo vencesse, todos (eu disse: todos) os torcedores e dirigentes trezeanos comemorariam aos berros em todas as mesas de bar, do Catolé ao Alto Branco: “Ganhamos do Fogão!!!! Lá deeeentro!!! E com cavadinha, pra desmoralizar Loco Abreu!!!”. Torcedor é assim, não é mesmo? Sou torcedor também, e conheço meu gado.

Ao torcedor não basta a vitória, é preciso desmoralizar o adversário, tripudiar sobre ele. Ainda mais se for um time do Rio, desses que ganham de nós há cinco gerações. O sofrimento acumulado é grande, e o desabafo precisa ser maior. Não basta fazer o gol, tem que escrachar. Quantos criticariam Léo Rocha, se a cavadinha dele virasse gol? Ele não está sendo condenado porque tentou, e sim porque tentou e não conseguiu.

Gostei das palavras serenas do goleiro Beto, o melhor em campo, após o jogo. O futebol ( o esporte em geral) é uma escola de vida, porque em nenhuma outra atividade as grandes vitórias e as grandes derrotas se sucedem com tanta rapidez. O atleta não deve se deixar contaminar pela visão do torcedor, que é paixão pura, puro desejo, desespero e euforia. Admiro a ousadia de Léo Rocha, como admirei a ousadia da cavadinha de Loco Abreu na Copa do Mundo. Mas na guerra julgamos um soldado pelas decisões que toma, e julgamos essas decisões pelos seus resultados. Na hora do pênalti, o atleta não pode correr para a bola pensando na torcida, na imprensa, na manchete, na comemoração. Perdemos os pênaltis quando na hora em que corremos para a bola pensamos em qualquer outra coisa que não seja FAZER O GOL.

quinta-feira, 22 de março de 2012

2824) Sou contra a Copa (22.3.2012)



(foto: Muhammed Muheisen)

Não sei se já falei a respeito aqui nesta coluna, mas sou contra a realização da Copa do Mundo no Brasil, nos termos atuais. Sou doido por futebol (pra gostar de futebol precisa ser meio doido). A primeira Copa que acompanhei foi a de 1962, pelo rádio, e desde então sou daqueles que em época de Copa param tudo. Eu adianto o trabalho o máximo que posso nos meses anteriores à Copa, para no dia poder assistir, sei lá, Polônia x Costa Rica às 8 da manhã, Croácia x Costa do Marfim ao meio-dia e Canadá x Irã às 4 da tarde. É bonito ver estilos de futebol tão diferentes testando-se uns aos outros. É bonito acompanhar craques anônimos que, vendo-se pela primeira vez diante de uma platéia de milhões, superam-se e fazem uma Copa inesquecível, viram heróis mesmo que seu time não seja campeão. A rapidez de uma Copa do Mundo, com jogos diários, comprime no espaço de poucas semanas as emoções de um campeonato inteiro. Um time apontado como virtual campeão da 2ª.feira desmorona e é eliminado na 5ª.

Tudo isto é para dizer que sempre sonhei ver uma Copa no Brasil, não para ir ao estádio, mas para que essa festa toda acontecesse fisicamente ao meu redor, como um Carnaval ou um São João. O que acontece é que a Copa mudou muito, tornou-se (nas mãos da FIFA, que em termos de passar-por-cima e faturar grana faz inveja a Eike Batista) um dos eventos mais lucrativos do mundo. Sou um crítico da Fifa (coloco-a numa prateleira próxima à da Vale e da Halliburton) no que diz respeito a transformar o futebol, um esporte para multidões, num esporte para ricos. Já falei aqui nesta coluna sobre o curioso espetáculo de muitas torcidas numa Copa. Não são torcedores, são turistas endinheirados. Gente que não sabe o que é um impedimento ou um chute de três dedos, mas que tem dinheiro para comprar os pacotes caríssimos da Copa – ou tem a sorte de trabalhar numa multinacional que distribui esses pacotes como prêmio para funcionários que se destacaram.

Por onde passa, a Fifa exige que os países atendam suas exigências, que às vezes resultam em efeitos positivos (hotelaria, transportes, segurança, comunicações), mas que deixam prejuízos onde a porta do cofre vive aberta.. O futebol da Alemanha tem como absorver os novos estádios que o país construiu para a Copa, mas os da África do Sul estão fechados, cobrando ingressos aos turistas que vão fotografá-los. O Brasil ironicamente, vai sofrer o mesmo. O futebol de vários Estados incluídos na Copa não tem como encher um estádio desses, a não ser numa decisão regional ou na vinda de um time de fora. O Brasil vai ter mais prejuízo do que benefícios, e é uma pena que seja assim.

quarta-feira, 21 de março de 2012

2823) Jonathan Carroll (21.3.2011)




Jonathan Carroll é um romancista nascido nos EUA e que mora em Viena há mais de 30 anos. Faz mais sucesso na Europa do que em seu país, e é um autor de romances fantásticos pouco convencionais, que não seguem um modelo previsível, e nos quais tudo (quase tudo) pode acontecer. Mesmo autores delirantes como Philip K. Dick ou Lucius Shepard têm uma certa lógica em seus processos, que depois de assimilada se torna previsível. Carroll não, ou talvez tenha, mas nos quatro romances que li ainda não deu para me prevenir por completo. É um dos poucos escritores de quem eu aceito fazer um animal falar.

Diz ele que não sabe até agora quem é o seu público: “Por exemplo: na Polônia, onde vendo uma porção de livros, todos os meus leitores são mulheres entre 20 e 30 anos; na França, são aqueles acadêmicos esnobes; na Alemanha, são punks”. Estou lendo um conjunto de seus romances chamado “O Sexteto das Preces Atendidas”, seis livros que contam histórias meio surrealistas ocorridas com um grupo de pessoas que se conhecem entre si. Cada livro aborda a vida de uma delas e as demais aparecem como figurantes, ou são citadas de passagem. Bones of the Moon (1987) conta a história de um dona de casa, Cullen James, que tem sonhos que transcorrem noutro universo; Sleeping in Flame (1988) é a história de Walker Easterling, um ator que sonha com vidas passadas e tem um mistério na infância; A Child Across the Sky (1989) fala de dois cineastas amigos, Weber Gregston (intelectual e cult) e Philip Strayhorn (diretor de uma série de filmes B de terror); Outside the Dog Museum (1991) conta como o arquiteto Harry Radcliffe recebe a incumbência de construir um museu de cachorros no Oriente Médio. Ainda não li After Silence (1992) e From the Teeth of Angels (1993).

Esses livros têm como protagonistas artistas de classe média, alta, ou simplesmente ricos, no eixo EUA/Europa (Viena aparece em quase todos), cujas vidas são tomadas de assalto por fatos inexplicáveis e grotescos, que os forçam a difíceis decisões éticas. São freqüentes as alucinações, abortos, morte violenta de personagens simpáticos, crianças em perigo, crianças bizarras, coincidências estranhas, animais que falam, reconstituição moderna de mitos do passado... Carroll tem sido comparado aos autores do realismo mágico latino-americano ou ao pintor Magritte, o que é correto, mas não esgota suas surpresas. É um desses casos raros de um autor fantástico que cria suas próprias regras e suas próprias exceções – o que acaba incomodando de início o leitor, acostumado a ver livros que são façanhas acrobáticas diferentes com os mesmos malabares de sempre.