terça-feira, 11 de outubro de 2011

2684) Dicionário Aldebarã II (11.10.2011)



A civilização humanóide de Aldebarã-5 possui uma complexa civilização influenciada pelos colonizadores terrestres. Seu vocabulário exprime a natureza de seu planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura. Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Wullygag”: a sensação de irrealidade que se tem no instante em que se recebe uma má notícia longamente prevista.

“Pergonix”: óculos especiais que permitem ver tudo como se fosse um antigo filme em preto-e-branco.

“Andiblons”: fruta local cuja característica é não ter qualquer aspecto fixo (forma, cor, tamanho), mas apenas o mesmo sabor.

“Hepernim”: abrigos contra o sol e a chuva, feitos de material heterogêneo (folhas, palha, vime, madeira, etc.), onde cada pessoa que se abriga tem que contribuir com mais um pedaço para a estrutura.

“Yand-nul”: a percepção instintiva do que existe dentro de um embrulho apenas olhando-o pelo lado de fora.

“Lundoos”: pequenos ídolos esculpidos que se acredita trazerem boa sorte, e que servem para escorar as portas, evitando que batam com o vento.

“Reschaft”: a silhueta de uma cidade vista ao longe por quem vem pela estrada, e que tem um formato diferente a depender do ponto cardeal por onde se chega.

“Empizyum”: a lembrança involuntária de um fato ou de uma pessoa, provocada pelo fato de ouvirmos, sem perceber, uma música que os evoca.

“Thufarli”: alguma coisa que, depois de passar muito tempo sem acontecer, começa em certo momento a acontecer várias vezes, em rápida sucessão.

“Ilkonno”: o terceiro braço (cibernético) que o Estado fornece a toda mãe de Aldebarã, para usar durante os primeiros dois anos de vida de cada filho.

“Amburenes”: cortinas feitas com padrões de fibras plásticas coloridas, que mudam de desenho ao longo do dia, conforme as frequências de onda e a intensidade da luz do sol.

“Gronem”: o involuntário grunhido de desagrado que os aldebarãs produzem, baixinho, sempre que lhes vem à lembrança um episódio incômodo que viveram.

“Woltell”: a imagem de uma coisa em nossa memória (um quadro na parede, p. ex.) que faz com que continuemos a vê-la mesmo depois de ela ter sido retirada dali, até que alguém nos chama a atenção para este fato.

“Anspurdys”: ao pé da letra, “ilhotas”, mas se refere a pequenos atos cotidianos, banais, que sempre se repetem da mesma maneira, não importa o quanto as circunstâncias exteriores da nossa vida tenham mudado para melhor ou para pior.

“Olgzum”: colar utilitário onde os aldebarãs penduram pequenos objetos de uso diário, documentos, remédios que precisam tomar, relógio, etc.

domingo, 9 de outubro de 2011

2683) John Lennon, 71 anos (9.10.2011)




“Você se lembra de quando era pequeno, e as pessoas pareciam ser tão grandes?” (“Remember”, 1970).

“Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor” (“God”, 1970).

“Eu estou farto de assistir cenas de primadonas esquizofrênicas, egocêntricas e paranóicas... Tudo que eu quero é verdade, me mostre alguma verdade” (“Gimme some truth”, 1971).

“A mulher é o negro do mundo – nós a obrigamos a pintar a cara e dançar” (“Woman is the nigger of the world”, 1972).

“Sim, estamos jogando juntos estes jogos mentais, projetando nossa imagem no espaço e no tempo” (“Mind Games”, 1973).

“Nós todos somos águas de rios diferentes, por isto é tão fácil ficarmos juntos; nós todos somos água num vasto oceano, e um dia vamos nos evaporar juntos” (“We’re all water”, 1972).

“O Karma Instantâneo vai lhe pegar e olhar seu rosto de frente... É melhor você se aprumar, querida, junte-se à raça humana” (“Instant Karma”, 1970).

“As pessoas dizem que eu sou maluco, desperdiçando minha vida em sonhos, e me dão conselhos para me salvar; mas eu estou numa boa, vendo as sombras na parede” (“Watching the Wheels”, 1980).

“Quando você está sozinho, sem ninguém, basta dizer a si mesmo: segure as pontas” (“Hold On”, 1970).

“Eu não quero ser soldado, mãe, não quero morrer, eu não quero ser advogado, mãe, não quero mentir” (“I don’t wanna be a soldier”, 1971).

“Tudo que estamos dizendo é: experimentem a paz, para ver se funciona” (“Give peace a chance”, 1969).

“A gente nasce na prisão, cresce na prisão, e é mandado para uma prisão chamada escola. A gente chora na prisão, ama na prisão, vive na prisão como idiotas”. (“Born in a prison”, 1970).

“Parei numa esquina com Yoko, esperando por Jerry, surgiu um cara com um violão oferecendo maconha, e dizendo que o Papa fuma todo dia... Quê que é isso, New York?!...” (“New York City”, 1972).

“Todo homem tem uma mulher que o ama, chova ou faça sol, na vida ou na morte; se ele a encontrar vai ficar sabendo disto, quando encostar o ouvido ao seu peito” (“Every Man has a Woman who Loves Him”, 1980).

“Ninguém o ama quando você está velho e grisalho, ninguém precisa de você quando você está de cabeça para baixo” (“Nobody loves you when you’re down and out”, 1974).

“Quando estou no fundo do poço e sem contato, sem nada pra dizer, eu percebo que é apenas uma condição de ver as coisas como eu vejo; a intuição me leva até lá, me leva para qualquer parte” (“Intuition”, 1973).

“A vida é o que acontece com você quando você está ocupado fazendo outros planos” (“Beautiful Boy”, 1980).

“O que quer que lhe ajude a atravessar a noite está OK” (“Whatever gets you through the night”, 1974).




sábado, 8 de outubro de 2011

2682) Graciliano e Cândido (8.10.2011)




(Graciliano Ramos e Antonio Cândido)

Circula na Internet (deve estar no YouTube) um vídeo de uma palestra de Antonio Cândido sobre o escritor Graciliano Ramos e sua obra. 

Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=p3r-dY-0Ows 

Cândido, que deve ter uns 90 anos, é talvez uma das últimas pessoas vivas que conheceram Graciliano pessoalmente. 

Ele narra episódios de sua juventude no interior de Minas, quando ele e outros rapazes que gostavam de ler iam para a estação esperar a chegada do trem, onde vinham as caixas de livros para serem recebidas pelo dono da livraria local. E eles, que não eram bobos, compravam os livros ali mesmo no abrir da caixa, antes que chegassem à vitrine. 

Ele fala da importância das capas modernistas dos livros de Jorge Amado, Graciliano, etc., o quanto aquelas capas com desenhos diferentes produziam neles, jovens, a sensação de um mundo que estava mudando e de uma literatura que era (ironia das ironias!) o anúncio dessa mudança. Hoje, a literatura (não falo da ficção científica) é sempre a última a ficar sabendo.

Uma observação interessante de Cândido diz respeito ao Modernismo, que hoje é muito mais importante do que quando aconteceu. Cândido lembra que os livros modernistas vendiam pouco e eram pouco lidos. Sua influência se expandiu ao longo do século inteiro, mas, na época em que houve a Semana de Arte Moderna, o Brasil leitor a ignorou solenemente. Hoje, a gente fala da Semana como se ela tivesse tido em 1922 a repercussão de um Rock in Rio.

Outra coisa que ele destaca é o fato de que quando falamos em Romance Regionalista nordestino estamos nos referindo aos habituais suspeitos: Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Graciliano... 

Cândido lembra que escritores duradouros como estes surgem por entre outros autores, dos quais, a princípio, não se distinguem. Todos são novos, todos são vibrantes e estão dizendo algo nunca dito; e são todos lidos em conjunto. Com o passar dos anos, acontece uma decantação, uma filtragem. 

E ele diz: “Vou citar para os senhores alguns dos grandes autores dessa primeira fase do regionalismo, e penso que só os professores aqui presentes conhecerão algum”. 

Tiro e queda: dos nomes citados eu só conhecia Permínio Asfora (que ele pronuncia “Ásfora”), de quem meu pai tinha em casa, nos anos 1950, o romance Fogo Verde

E ele cita os demais, livros e autores que foram grandes quando surgiram e já não o são: Amando Fontes, Lauro Otaviano (Gororoba), Aurélio Pinheiro (Macau), Clóvis Amorim (Alambique), João Cordeiro (Corja), Cordeiro de Andrade (Cassacos)... Tirando Cândido e mais uma meia dúzia de macróbios, quem lembra desses heróis, que foram eclipsados por Graciliano & Cia?







sexta-feira, 7 de outubro de 2011

2681) Sugestão de pauta (7.10.2011)



Quando pisei pela primeira vez numa redação de jornal, aos quinze anos, tomei contato com uma das mais nobres instituições da imprensa, aquilo que chamamos informalmente de Tesoura Press. Era no tempo dos “Diários e Rádios Associados” de Assis Chateaubriand, expressão que meio século atrás tinha o mesmo peso que têm hoje os fonemas “Organizações Globo”. Os Associados tinham como principal órgão impresso O Jornal, editado no Rio de Janeiro, que servia a todos nós de fonte inesgotável de informação. Sendo ele o principal órgão da rede, qualquer jornal da rede podia impunemente (e na verdade devia) copiar qualquer matéria que ele publicasse. E tome a Tesoura Press a funcionar.

A bem da verdade histórica e do memorialismo, não cortávamos as matérias com tesoura: colocávamos a folha do jornal aberta na mesa, apertávamos uma régua marcando a linha do corte, na vertical e na horizontal, e puxávamos a folha de encontro à régua. Depois era só colar o recorte numa folha tamanho ofício, fazer as retrancas, ou seja, as indicações de tamanho, colunas, página, ilustração, etc., e descer via cordão pelo buraco do poço (uma abertura vertical através do piso, forrada de madeira, que ligava a redação no 1º. Andar e as oficinas no térreo). Beleza! Pausa para um cafezinho.

As famigeradas “sugestões de pauta” que hoje nos chegam pela Internet são um mero prolongamento dessa lei do menor esforço que preside o jornalismo mal pago. Para que quebrar a cabeça atrás de notícias, se já temos notícias publicadas no órgão líder da nossa cadeia, e basta recortá-las? Para quê, se chega às nossas mãos, diariamente, uma pilha de envelopes com “press-releases” impressos, de empresas de todo tipo, com a notícia que lhes interessa já redigidazinha, calibrada, no tom certo, doida pra saltar para a vitrine luminosa da página impressa? Pra que bater pernas nas calçadas e se esbaforir ao sol do verão em busca de coisas importantes que mereçam ser publicadas, se nossa caixa de emails (a minha, pelo menos) mostra diariamente 255 mensagens com o promissor título de “Sugestão de pauta”? É a tendência dos tempos, e em meio século só fez crescer.

O corolário: liberdade de imprensa deveria significar também iniciativa de imprensa. Pensamento próprio, idéias próprias, agenda própria de ação, de posições a serem tomadas. Um jornal (uma rádio, uma TV) não é um mero muro onde alguém chega e prega seu cartaz de propaganda. Um jornal é (ou teria que ser, idealmente) um muro que pensa, um muro com idéias próprias, que não exibe somente o que lhe pregam por cima. Um muro que pauta a si próprio, que só prega em si algo em que acredita.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

2680) Duas cidades numa só (6.10.2011)



Além da dimensão social e política que claramente tem, The City & The City de China Miéville (2009) é um romance sobre a mente humana, o olhar humano. Porque mesmo se cruzando nas mesmas ruas e praças, os habitantes de Beszel e de Ul Qoma, as duas cidades rivais e superpostas, são proibidos de perceber a presença uns dos outros. Dirigir-se a alguém da outra cidade, tocá-lo, ou mesmo olhá-lo e perceber sua existência é um crime, designado como “breach” (quebra, violação), e existe uma polícia política invisível vigiando todos, o tempo inteiro, e punindo severamente quem se esquece de não-ver e de não-ouvir os habitantes da outra cidade que circulam pelo mesmo espaço. A cidade, na verdade, possui bairros inteiros que pertencem só a Beszel ou só a Ul Qoma; e possui muitas áreas em que as duas se superpõem, e que são chamadas de “crosshatched” (hachuradas, ou seja, zonas cinza, intermediárias, que podem ser frequentadas pelas duas populações, desde que não se vejam).

China Miéville usa neste romance uma prosa clara, direta, límpida, diferente do estilo surreal-barroco-cyberpunk de Perdido Street Station, outro livro dele (que comecei e não terminei). Nos agradecimentos ele cita Raymond Chandler, Kafka, e outros. A estes nomes eu somaria George Orwell (1984: supervigilância, autoridade invisível e onipresente, paranóia)), Neil Gaiman (Neverwhere: uma cidade-dentro-da-cidade, espaços físicos que pertencem ao mesmo tempo a dois universos distintos). Não em termos de influência, mas de uma mentalidade semelhante, uma visão quântica da realidade urbana, em que duas realidades contraditórias coexistem no mesmo espaço físico.

Miéville diz que o livro surgiu da idéia de escrever sobre grupos de criaturas que vivem lado a lado, mas são de diferentes espécies, e por isso reagem ao mesmo ambiente de forma diversas, tendo diferentes tipos de casas; uma exageração do modo como homens e ratos habitam uma cidade. (Algo disso está em Perdido Street). Mas ele afirma que cientistas políticos do Departamento de Estado dos EUA chegaram a propor para o problema político da cidade de Jerusalém essa solução (que, para Miéville, funciona muito bem num romance mas não seria aplicável na vida real): um espaço urbano único em que diferentes cidadãos são regidos por relações sociais e jurídicas totalmente diversas, e sobre o qual se exercem duas autoridades políticas superpostas.

Quem já leu o livro e sabe como acaba (advertência obrigatória em romances de mistério) pode ler neste link (http://bit.ly/hj82H1) uma ótima entrevista de China Miéville sobre ficção científica, urbanismo, política contemporânea.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

2679) “The City & The City” (5.10.2011)



Este romance de China Miéville (2009), sem ser um livro de ficção científica, tem uma dessas premissas que só ocorrem a quem tem uma mente de FC, a quem raciocina em termos de FC. É a mente especulativa, capaz de criar cenários hipotéticos sem se preocupar com sua plausibilidade, pensando apenas na sua coerência interna. A premissa de Miéville é: “E se existissem duas cidades-estado (cada uma delas um país diferente, com idioma diferente, leis diferentes, economias diferentes) dividindo o mesmo espaço físico?” Para um visitante, seria uma cidade só; para as pessoas que ali vivem, seriam duas, e vivendo numa enorme tensão social e política, de modo que os habitantes de uma são obrigados a não-ver e não-ouvir (“to unsee, to unhear”) os habitantes da outra. Ignoram-se; do jeito que uma madame, ao sair da joalheria, ignora um mendigo que lhe estende a mão. Não existe. Não faz parte do seu mundo. Não está ali.

Claro que o livro desse autor tipicamente londrino lembra muitas situações da vida real. Buda + Peste; Berlim Oriental e Ocidental; a Jerusalém compartilhada por judeus e palestinos. Mas ele radicaliza essas situações. Tudo começa com um crime (é um romance policial) cometido na cidade de Beszel (que se situa imaginariamente na Europa Oriental) e cuja investigação leva o Inspetor Borlu a visitar ambientes e interrogar pessoas que estão na “cidade vizinha” de Ul Qoma. Habitantes de uma e de outra vivem lado a lado, cruzam-se na rua, trafegam com seus carros pelas mesmas avenidas, mas não podem se falar, nem sequer se ver. Para falar com alguém da outra cidade uma pessoa tem que passar por um gigantesco edifício cheio de passarelas e viadutos, apresentar passaporte, visto, etc., e depois voltar de carro, às vezes para a mesma rua onde mora, para poder bater na porta do outro. Porque, mesmo ocupando o mesmo espaço físico, aquela casa está em outro país. E a situação política entre os dois é de uma tensa rivalidade.

Um leitor há de se perguntar sobre os milhares de pequenos quiproquós que podem surgir a partir de uma situação como esta; Miéville dá a sensação de que previu todos, e os esclarece satisfatoriamente no transcorrer da narrativa, a ponto de sentirmos a presença física e contraditória das duas cidades, que têm arquiteturas diferentes, roupas diferentes, carros diferentes. Uma é mais rica, a outra é mais classe média; uma é mais ocidentalizada, outra mais oriental (e aqui evoca-se Istambul); uma é mais conservadora, a outra é mais cosmopolita. É um romance de mistério policial com forte conotação política e uma premissa fantástica discreta, velada, onipresente e invísivel.


terça-feira, 4 de outubro de 2011

2678) Rock in Rio (4.10.2011)



Esperar espírito roqueiro num festival concebido e realizado por publicitários, financistas e fazedores de dinheiro é como ser um peixe, ver uma minhoca pendurada na ponta de uma linha, e imaginar que aquilo é um almoço gratuito. O Rock in Rio é uma briga de foice entre gravadoras (sim, ainda existem), empresários e patrocinadores para ver quem consegue colocar seus garotos-propaganda na frente de cem mil pessoas. Ficar discutindo que Fulano não deveria estar lá porque usa sequências harmônicas que não são típicas do rock, ou que Sicrano não faz música contestadora, equivale a achar que numa eleição só deveriam concorrer representantes autênticos do povo. Aquela galera está no Rock in Rio pelos mesmos mecanismos por que aquela outra galera está no Congresso Nacional.

Vi o Multishow, em parte para rever artistas que fazem parte da minha trilha sonora autobiográfica (Stevie Wonder, Elton John). Perdi outros que acho competentes (Metallica, Red Hot Chili Peppers). Vi um pouco do Slip Knot (estava trabalhando), que ainda acho uma incógnita; vi o Motorhead, que tem um guitarrista veloz e um vocalista com visual Dennis Hopper e voz mais rouca do que o cantador João da Silveira. Algumas surpresas interessantes (Josh Stone, Janelle Monáe) e coisas indescritíveis como KeSha, que parece uma integrante perdida do Spinal Tap.

Recorro ao depoimento de um dos meus gurus no assunto rock, o insuspeito Anderson Foca, que postou no Facebook: “A turma leva a sério demais o nome rock, quando na verdade o rolê é coxinha desde o início: Ivan Lins, Elba Ramalho, Al Jarreau e afins. O forte do rolê não é música, é entretenimento e diversão para quem paga o ingresso. Todos os festivais de grande porte são assim... Quem gosta de música vai a pubs, festivais indies, tours de bandas e afins. Quem vai a festival hype, vai pela vivência... Estamos no Brasil e os grandes festivais também são aqueles que trazem grandes artistas, isso termina resvalando em fãs de música que querem ver aquele show esperado e não têm outra oportunidade. Aí, tem que aguentar o rojão e ir mesmo ao grandes festivais. Resumo da ópera: tá valendo, vai quem quer e depois não reclame que tava apertado, que não tem como voltar, que foi roubado...”

O x do problema é a necessidade de botar o nome rock, que tem, para a galera de 20 anos, a credibilidade e o apelo que o nome jazz, digamos, tem para a de 40. Quem daria aquela pequena fortuna para ir a um festival chamado “Chiclete-Music in Rio” ou “Enganation in Rio”? Tem que chamar de Rock. E o bom é que, criada a fórmula, alguma coisa de rock vai ter que entrar na programação, pra poder vender o resto.

domingo, 2 de outubro de 2011

2677) Espaçonave assombrada (2.10.2011)



No fim da Torre de Comando ficava a Sala de Reuniões, com a mesa octogonal ao centro, coberta de monitores embutidos e touch-pads. O Capitão Barbosa me fez sentar e iluminou uma tela. “Esta é a primeira imagem que preservamos”, disse ele. “Depois que entendemos o que era, ativamos todas as câmaras da nave para que registrassem tudo nessa frequência de onda”. Surgiu a imagem do corredor dos alojamentos, oito portas de cada lado. “Foi por acaso,” prosseguiu ele. “Anteontem, alguém aplicou à câmara do corredor o Modo Multi-D, que só aplicamos às câmaras voltadas para o espaço exterior à nave. Eis o resultado”.

Um tripulante cainhava para o elevador. À medida que andava, o corredor retilíneo pareceu se desdobrar de dentro de si como um leque, multiplicando-se ortogonalmente em corredores parecidos, em ângulos retos uns aos outros, em diferentes eixos. O efeito era o de imagens repetidas num calidoscópio, só que cada uma delas povoada por pessoas diferentes. Três tripulantes caminhavam juntos por um deles; noutro, um homem entrava na primeira porta; noutro, um homem e uma mulher conversavam, parecendo de cabeça para baixo em relação aos outros corredores. O Capitão congelou e inverteu a imagem. “Theo Accioly e Délia Bertol”, disse ele. “Você os conheceu, não?”. Respondi: “Estudei com ambos na Academia do Espaço. Morreram há dois anos, num vazamento do reator”. O Capitão ampliou a imagem na parede ao fundo, em tamanho natural. Délia apoiava a cabeça na porta, sorrindo para Theo, que acariciava o rosto dela com os dedos. “Esta imagem foi captada uma hora atrás. Tudo indica que isto se deve aos saltos no Hiperespaço”, comentou. “É como se a cada mergulho a nave salvasse, por segurança, todas as versões anteriores de si mesma, comprimidas neste mesmo espaço”.

Olhamos os dois, em silêncio, as cadeiras aparentemente vazias em volta da mesa, e aqueles dois fantasmas imobilizados e faiscantes na parede de cristal líquido. “Se esta sala aos nossos olhos é um cubo”, prosseguiu ele, “na verdade é um tesserato que contém os momentos de todas as pessoas que por aqui passaram. Um cubo contendo em si infinitos cubos do seu próprio tamanho”. Revendo o rosto de Délia não senti saudade, nem de novo o desespero, nem incredulidade. Pensava na aparente incongruência geométrica entre o Espaço, que imaginamos ser esférico, e esse Tempo composto de infinitos cubos; essa idéia de um Tempo eriçado de eixos em dimensões paralelas, perpendiculares, ortogonais. Ramificações rumo ao passado e ao futuro, como cristais de uma neve imortal, que nunca se derrete, porque não pode ser tocada por dedos humanos.

sábado, 1 de outubro de 2011

2676) “A Morte Cansada“ (1.10.2011)



Este é um clássico do cinema mudo que eu não conhecia e vi agora em DVD. Der müde Tod, de Fritz Lang (1921), é distribuído também com o título inglês de “Destiny” e o francês “Les Trois Lumières”. 

O título original, A morte cansada, se refere ao personagem principal, que é a Morte propriamente dita. Ao levar consigo um rapaz e ver sua noiva pedi-lo de volta, a Morte explica que está cansada de levar gente para o túmulo, mas o faz por obrigação. Compadecida, ela dá um jeito de fazer o casal existir de novo em três épocas e países diferentes, e diz que se eles conseguirem evitá-la em apenas uma dessas três chances terão o direito de ficar juntos. 

Esta é a narrativa-moldura; e dentro dela surgem os três episódios, passados na Pérsia, em Veneza e na China, em que três casais (interpretados pelos mesmos atores, Lil Dagover e Walter Janssen) vivem três histórias trágicas. 

Este filme, ao que se diz, era o filme preferido de Alfred Hitchcock, e o filme que fez Luís Buñuel tomar a decisão de fazer cinema. Há um pouco dele nos casais acometidos de “amor louco” em Um Chien Andalou (1928) e L’Âge d’Or (1930). Além desses dois, há uma influência visível sobre Bergman: a Morte de O Sétimo Selo é claramente inspirada no sombrio personagem que Bernhard Goetzke interpreta aqui. 

Lang já mostra algo das concepções arquitetônicas que desenvolveria em Metrópolis (1926), como o muro gigantesco por trás do qual a Morte se esconde. Os três episódios históricos sobre um mesmo tema parecem uma influência do Intolerância de Griffith (1916), e todos têm estilos próprios de cenografia, figurino, direção de arte; no total, são quatro filmes bem distintos, do ponto de vista visual. 

Como todo filme mudo, principalmente filmes fantásticos, tem algo de folheto de cordel. Seu subtítulo original, “ein Deutsches Volkslied in sechs Versen” (“Uma canção popular alemã em seis versos”) tanto indica sua fonte de inspiração quanto cria uma ponte inesperada de parentesco. 

Outra conexão que não sei se alguém terá percebido é o fato do filme talvez ter influenciado Carlos Drummond a escrever a sua “Balada do Amor Através das Idades” do seu livro de estreia, Alguma Poesia (1930): “Eu te gosto, você me gosta / desde tempos imemoriais. / Eu era grego, você troiana...” 

Como no filme de Lang, o casal do poema se encontra em ambientações históricas diferentes, se apaixona, e morre tragicamente. No final (a surpresa modernista!) reencontra-se no mundo moderno, e “eu, herói da Paramount / te abraço, beijo e casamos”. A referência cinematográfica no fim, portanto, pode ser um indício de como veio ao poeta a idéia original.






sexta-feira, 30 de setembro de 2011

2675) Livros Proibidos IV (30.9.2011)



Checando as estatísticas de livros denunciados ou proibidos no período 1990-2010 nos Estados Unidos, temos números interessantes. Razão das denúncias: sexo explícito, 3.169; linguagem ofensiva, 2.658; violência, 2.289; livros inadequados para a faixa etária do grupo-alvo, 2.232. Drogas? Lá embaixo na lista, com 382. Política? Idem, com 319. Esses números claramente se referem ao universo escolar, infanto-juvenil, que é onde se exerce o peso da censura e do puritanismo nos EUA. Nesse mesmo período, os números dizem (por ordem decrescente) que a origem das denúncias veio das seguintes instituições: escola, 4.048; biblioteca escolar, 3.659; biblioteca pública, 2.679. Universidades aparecem com apenas 141 denúncias.

Nos EUA, existe liberdade para discutir idéias políticas, mas por outro lado o país é vítima de um puritanismo alucinado que cria as situações mais estapafúrdias. Tipo aquelas notícias em que um garoto de seis anos é acusado de assédio sexual porque beijou na escola uma coleguinha de cinco. Os EUA sempre me deram a impressão de um país onde é mais fácil publicar um livro propondo a derrubada do capitalismo do que um livro em que os personagens façam sexo oral.

No Brasil, já foram proibidos mais livros pelo seu conteúdo político do que por conteúdo sexual. Dizem que Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca só foi proibido porque um figurão do governo militar se escandalizou com a linguagem e o tema do conto-título (marginais invadem uma festa de reveillon de ricaços, estupram e matam quem bem entendem) e não descansou enquanto o livro não foi proibido. Algo parecido ocorreu com Zero de Ignácio de Loyola Brandão. Não me lembro de livros infantis proibidos pela ditadura.

Aqui no Brasil está surgindo uma censura do politicamente correto em que indivíduos ou grupos se julgam insultados porque um personagem de um livro diz alguma ofensa contra eles, e pedem a proibição do livro. É a democratização da censura. Em breve chegaremos ao aperfeiçoamento final desse método, quando qualquer pessoa pode denunciar um livro e solicitar oficialmente sua proibição, alegando que foi prejudicado.

As filhas de Garrincha conseguiram proibir a biografia do jogador, escrita por Ruy Castro; Roberto Carlos conseguiu tirar das livrarias sua biografia escrita por Paulo César de Araújo. Ora, há uma porção de livros-de-fofocas e livros maledicentes por aí, sobre gente famosa. Como digo sempre, a liberdade de expressão significa, também, a liberdade de expressão para ao maledicentes – os quais, se for o caso, terão que pagar por isso de alguma forma. Nem toda censura é política, mas toda censura é censura.