quarta-feira, 27 de julho de 2011

2619) O absoluto literário (27.1.2011)



(ilustração: Wolstenholme)

Isaac Newton acreditava que o Tempo era um valor absoluto. Aliás, não só ele – ele e o resto da humanidade, que entendia do assunto menos do que ele. Einstein provou que o Tempo era relativo a cada observador – ou seja, se dois caras fazem trajetos diferentes pelo espaço, para um passam-se cinco anos, para outro passam-se 50. Isso desorientou os cientistas, porque não havia mais uma régua inalterável para medir as coisas.

Vejam conceitos como, p. ex., “qualidade literária”. Muita gente pensa que existe uma Qualidade absoluta, em algum ponto do Universo, servindo de parâmetro, e que livro bom é o que se aproxima daquilo. Quantas vezes já vi gente dizendo algo como: “Ora, mas se um livro é bom e a pessoa acha ele ruim, então a pessoa está errada”. Ou vice-versa.

Eu acho que Qualidade Literária se parece muito com Bolsa de Valores. As empresas cujas ações são negociadas na Bolsa têm algum valor intrínseco, sem dúvida. Não está errado imaginar que a Petrobrás ou a Vale do Rio Doce têm valor maior que o da editora de livros de poesia que funciona no fundo do quintal do meu vizinho. Mas basta haver, digamos, um boato, e as ações dessa empresas milionárias começam a despencar, sem que o seu valor material tenha decrescido um milímetro. Existe portanto um valor intrínseco (o que a companhia possui) e um valor atribuído: o conjunto das expectativas das pessoas sobre a empresa, que as faz correr atrás de suas ações e pagar qualquer preço por elas (quando acham que a empresa vai bem) ou então tentar livrar-se dessas ações o mais rápido possível e por qualquer preço (quando acham que vai mal).

A qualidade da obra de Proust ou de Coelho Neto depende muito disso. São autores que foram contemporâneos, que produziram obras extensas e complexas, e que foram considerados autores importantes quando vivos. Proust morreu em 1922; Coelho Neto em 1934. Desde então, as ações do primeiro se valorizaram sem parar, enquanto as do segundo caíram. Caíram a ponto de quem ler isto perguntar por que diabos eu estou comparando o genial Proust a esse cara de cujos cem livros ninguém ouviu falar.

Pois é. Os cem livros de Coelho Neto estão aí. Um deles, pelo menos (A Conquista, 1899), continuo achando magnífico. Outros são romances fantásticos dignos de leitura e merecedores de uma reedição (Esfinge, 1908; Imortalidade, 1926). Para o leitor de hoje, contudo, Coelho Neto está distante (e Proust está próximo) de um “absoluto literário” que ninguém consegue definir, a não ser usando tautologias (“é um grande escritor porque escreveu grandes livros”) ou o aval alheio (“a crítica inteira diz que ele é genial”). Qualidade deve ter pouco a ver com estilo ou enredos, e sim com um certo carisma verbal. Qualidade Literária é a medida da resposta provocada num público capaz de multiplicar e justificar essa resposta. Sem que isso aconteça, um livro é como uma vela apagada, um ventilador parado, uma ficha que não caiu.

terça-feira, 26 de julho de 2011

2618) A bola não quis entrar (26.7.2011)



Assisti somente o 2º. tempo da decisão da Copa América, quando o Uruguai derrotou o Paraguai por 3x0 e tornou-se merecidamente o campeão. Foi uma final disputada entre o time que tirou a Argentina e o time que tirou o Brasil, de modo que o resultado confirmou o momento difícil vivido pelas duas principais seleções do continente. O Uruguai, a terceira força, se impôs com um futebol competitivo, fechado, veloz no contra-ataque, jogado com a raça habitual e com a técnica que o futebol uruguaio tem, mas que às vezes é suplantada pela raça, a ponto de esta se transformar em truculência e botinada.

A raça, quando entregue a si própria, vira botinada; a técnica, quando entregue a si própria, vira salto alto. Foi este o caso da Seleção Brasileira, que oscilou entre a apatia autoconfiante (“O gol vai sair naturalmente”) e a perplexidade esbaforida (“Que saco, esses caras que não jogam nada não estão deixando a gente jogar!”). Já vimos esse filme, não é mesmo? A Seleção Brasileira só é ela mesma quando consegue, além de administrar os poderosos fatores extra-campo, encontrar dentro de campo esse equilíbrio ideal entre vontade e capacidade, entre a disposição de buscar o gol e a competência para fazê-lo. Não ouvi nesta Copa América a inevitável frase dos nossos atacantes, “a bola não quis entrar”, mas certamente ela foi pronunciada. Se o Brasil não tivesse trazido nenhuma outra contribuição ao futebol, bastaria essa frase, exemplo perfeito da fuga à responsabilidade, para inscrever nosso país (de uma maneira não muito recomendável, concordo) na história do esporte.

A verdade é que alguns times, mesmo que não saibam produzir pedaladas ou dancinhas comemorativas, sabem fazer com que a bola entre. O Uruguai meteu três gols no mesmo Paraguai que bloqueou o Brasil durante 120 minutos e quatro pênaltis. O terceiro gol, no último minuto, foi uma pintura, pelo contra-ataque, pelo lançamento, pelo passe de cabeça de Suárez que encontrou Furlán um segundo antes de estar impedido, e pela conclusão firme deste, colocando a bola rente à trave, e dando a impressão, até o último segundo, de que ela não entraria. Ela deu toda a pinta de que não queria entrar, mas ele soube fazer com que ela lhe obedecesse.

O Brasil está decadente e nossos jogadores são medíocres? Que nada, o time é razoável, o técnico tem princípios que merecem confiança. A questão é que neste Mercosul do futebol o Brasil só entra em campo com ares de prima-dona. Antes do jogo a imprensa já pergunta aos atacantes se haverá pedalada, se haverá dancinha, como vão comemorar os gols, e os jogadores respondem, dando o gol como coisa certa. Enquanto isso, os adversários treinam para fazer com que a bola brasileira não queira entrar, e não sei que conspiração malévola é essa que mesmo com quatro pênaltis a condenada da bola não entra!... Não sofremos mais do complexo de viralata de que falava Nelson Rodrigues; temos complexo, sim, de “poodle” de madame.

domingo, 24 de julho de 2011

2617) Passou do ponto (24.7.2011)



São essas coisas que acontecem na vida das pessoas, elas se veem de repente numa situação que é um paraíso imprevisto, um paraíso não-sonhado, que aparece não como a conquista (enfim!) de um objetivo, mas como algo que cai já pronto em nosso colo, objetivo e conquista embrulhados juntos no mesmo celofane. De repente estava tudo tão bom, o ônibus agradável, o ar condicionado funcionando, a poltrona confortabilíssima e reclinável em três ângulos, as janelas amplas e transparentes, a companhia esfuziante dos outros passageiros... Estar cruzando a cidade (babilônica e luminosa) naquele ônibus tornou-se de repente não um meio mas um fim em si, e era um tal clima de festa, uma tal variedade de companhias, de conversas, de risadas, de confidências, de conspirações benignas e de planos para o futuro que parecia não existir nada mais além daquele espaço fechado em movimento. A cidade (sensual e festiva) passava lá fora como um loop de imagens em computação gráfica, espaço bidimensional que, se a gente se contentasse em vê-lo passar, cumpria plenamente a função. A vida verdadeira era ali dentro, tudo acontecia naquele corredor largo entre as poltronas, onde era possível caminhar em filas de mão e contra-mão, e havia frigobar em esquema de boca-livre (ou quem sabe incluído na passagem), televisõezinhas ejetáveis no teto, canais de música com fones de ouvido e menu de trinta opções... O ônibus em que iam conhecer o mundo transformou-se no mundo, transformou-se no único lugar a que ele dava atenção, no único lugar que ele via e ouvia. E ele passou do ponto.

Saber ele sabia, que aquele ônibus não fazia o trajeto circular dos ônibus urbanos, era um ônibus com rota em linha reta, que partira de um A e chegaria hipoteticamente a um Z, e que nesse percurso havia um local bem específico que ele escolheria para descer. Havia um local que ele reconheceria, por todas as pistas que lhe seriam fornecidas, principalmente pelos outros passageiros, cuja conversa, por mais variada e ininterrupta, circulava sempre em torno desse tema, dessa idéia fixa: do lugar onde cada um estava pensando em descer, e por que motivo ali e não em outro local, e de que maneira seriam capazes, cada um, de reconhecer o próprio local de descida, se presumirmos que todos estavam fazendo aquele trajeto pela primeira (e única) vez, e tudo que sabiam sobre o espaço a ser percorrido eram suas próprias expectativas e as expectativas, suposições, lendas e imaginações dos outros a bordo. Todos tinham sua teoria, suas anotações; ele também. E a discussão era tão animada, tão enriquecedora e divertida, tão objetivo-final-da-coisa-em-si, que, punge-me dizê-lo, quando ele olhou já era tarde, as casas iam rareando, a cidade (feérica e monumental) cedera lugar a uma periferia de matagais e ruínas, um deserto soturno de charnecas; e de gelada constatação. O ônibus seguiu. Seguiu sempre em frente. E ele não precisou mais descer, é claro. Ele passou do ponto.

sábado, 23 de julho de 2011

2616) Denis Dutton (23.7.2011)



Falecido no fim do ano passado, Denis Dutton é um cara sobre quem não sei muita coisa. Sei apenas que escreveu um livro intitulado The Art Instinct, e foi o criador de um dos meus websaites preferidos, Arts and Letters Daily, um apanhado diário de artigos interessantes surgidos na imprensa de língua inglesa. Uma página de visual agradável (pequenos parágrafos sintéticos, dando uma idéia do assunto de cada artigo, acompanhados de um link para a página respectiva), cujo leiaute, tipologia, vinhetas e outras coisas nos dão a impressão de estar consultando um jornal das antigas. Quem quiser conferir, vá em: http://www.aldaily.com/ .

Numa entrevista sobre a cultura do mundo digital, Dutton afirmou: “É um erro muito grave na indústria editorial, quando falamos sobre a Internet ou sobre publicações impressas, ficarmos nos dirigindo a um repertório limitado de gostos já estabelecidos pelos nossos leitores. Alguns anos atrás, Bill Gates estava se vangloriando de que em breve teremos sensores capazes de, no momento em que entrarmos numa sala, fazerem tocar uma música de nossa preferência ou projetar nas paredes as nossas pinturas prediletas. Que coisa maçante! Que se danem as coisas de que já gostamos, vamos expandir nossos horizontes intelectuais!”.

O mundo digital criou um Caos de bilhões de informações instantaneamente acessíveis e está tentando criar uma Ordem estabelecida pelo nosso perfil, nosso passado. A Web sabe do que gostamos. Quando recebo um email da Amazon Books, ela só me oferece livros que me dão água na boca, pelo simples fato de que são escolhidos por associação de idéias com o que comprei lá com maior freqüência. A Amazon, a Powell’s, a Abebooks, a Livraria Cultura, etc., sabem do que eu gosto, mas o critério eletrônico não é capaz de me revelar um tipo de romance ou de assunto que nunca comprei ali.

Já escrevi aqui sobre a cultura vitrola e a cultura rádio. Cultura Vitrola é aquela em que a gente só ouve a música que já possui, uma cultura fechada em si. Cultura Rádio é aquela em que o que ouvimos é aleatório, sujeito a influências e sujeito a acasos; uma cultura aberta. O interesse do Super-Capitalismo (http://tinyurl.com/5rqexhg) é reunir o maior número possível de informações sobre cada mercado, depois sobre todos os grupos que constituem cada mercado, e depois sobre cada indivíduo que constituem cada grupo, a fim de poder direcionar da melhor maneira possível suas futuras invasões virais de propaganda. A tal ponto que mal conseguiremos caminhar nas ruas sem sermos assaltados a toda hora por propostas irrecusáveis, propagandas de roupas, livros, CDs, delineadas exatamente de acordo com o nosso gosto. (Já vimos uma amostra disto em Minority Report, de Spielberg.) Abaixo isso! Queremos o acaso, queremos o caos, queremos ouvir falar do que não conhecemos para que venhamos a conhecer. O Super-Capitalismo é um lance de dados viciados que quer abolir o Acaso.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

2615) O tempo não para (22.7.2011)




No filme Uma Mente Brilhante, Russell Crowe interpreta John Nash, o matemático esquizofrênico que, já na idade madura, enclausurado em si mesmo pela doença, acabou recebendo o Prêmio Nobel de Economia por causa de uma teoria que desenvolvera na juventude.

No filme, Nash tem fantasias recorrentes, incessantes, em que está sendo cooptado para trabalhar em projetos de espionagem para o governo, ajudando a decodificar mensagens da URSS. Sua loucura cria também amigos imaginários que o acompanham durante a vida inteira.

Um momento comovente do filme é quando ele descobre, por conta própria, que está doido – porque uma pessoa com quem ele convive há anos continua sempre com a mesma idade! Mesmo já tendo se passado uns 20 anos desde que ele a conheceu, a sobrinha de um amigo seu continua uma garota de dez anos. E Nash percebe que está louco, que aquela pessoa não existe, é uma alucinação paranóide.

A loucura é uma entre várias disfunções mentais, e tudo são tentativas de descrever situações em que partes da nossa mente deixam de dialogar com outras, ou estacionam no tempo enquanto o restante evolui.

 Todos nós sabemos exemplos de crianças que por um problema qualquer têm seu desenvolvimento interrompido num certo estágio, e vivem o resto da vida com uma idade mental estacionária. Não são loucos; são diferentes. (Acho que falta a Ciência investigar casos curiosos em que um cara de 50 anos estacionou numa idade mental de 25, e reclama que os outros não o compreendem.)

Achamos que só é real (realidade física, consensual) o que está submetido às leis do tempo. Nos contos de fadas e narrativas folclóricas, se um personagem tem acesso ao Reino das Fadas, ao Mundo Subterrâneo, etc., ele constata que ali o tempo não corre no mesmo ritmo que no mundo real.

Thomas the Rhymer vai para o Reino das Fadas para uma festa no castelo, e quando volta ao mundo real na manhã seguinte descobre que sete anos se passaram. A festa no castelo das fadas é de certa forma a fantasia em que a mente fica aprisionada, entretida consigo mesma, enquanto do lado de fora o tempo não para.

Viver é aceitar envelhecer? Sim, mas não no sentido de aceitar passivamente a decadência ou a deterioração de si mesmo. Viver é acompanhar a passagem do tempo, o desaparecimento de algumas coisas, a permanência de outras e o aparecimento de mais outras.

Quando era jovem e antissocial, Nash criou uns amigos imaginários com quem mantinha conversas silenciosas, amigos que diziam o que ele gostava de ouvir, que lhe davam conselhos, etc. Era essencial, para sua fantasia, que esse amigos ficassem sempre do jeito que eram. Vê-los crescer, envelhecer e mudar seriam uma fonte a mais de insegurança e angústia.

Nash percebeu que eles não existiam quando percebeu que para eles o tempo não passava. Tudo que é imune ao tempo existe apenas na mente, que é, curiosamente, o único lugar em que o Tempo pode ser acessado da forma randômica, não-linear.






quinta-feira, 21 de julho de 2011

2614) Penelopismo (21.7.2011)



(Penélope desfazendo sua Tapeçaria, por Leandro da Ponte Bassano)

Penélope, esposa de Ulisses na Odisséia. Rodeada de pretendentes. Marido demora anos para voltar da guerra. Viúva bonita e rica. Verdadeiro “chama” para gregos desocupados. Palácio de Ítaca cheio de candidatos ao golpe do baú. Ela insiste: marido vivo, vai voltar cedo ou tarde. Bola uma desculpa: não pode casar porque está bordando tapeçaria. Quando acabar o trabalho, casa. Passa a tecer de dia, destecer de noite.

Tapeçaria de Penélope é todo trabalho que demora a ser concluído, levando a supor que alguém o está desmanchando na calada da noite para evitar que ele um dia chegue ao fim. Virou um clichê da imprensa. O Chinese Democracy do Guns’n’Roses, que as revistas chamavam de “o disco mais caro da história do rock”, passou anos dando despesas (de 1994 a 2007). Lançado em 2008, não sei se compensou a espera, porque ignoro solenemente o Guns’n’Roses. Outro exemplo é a antologia de FC The Last Dangerous Visions, que o organizador Harlan Ellison prometeu para 1973. Reuniu uma porção de contos de autores diversos e até hoje não a publicou. Isto já gerou brigas, processos judiciais e até um livro-libelo do autor Christopher Priest (The Book on the Edge of Forever), descascando Ellison.

O penelopismo pode ter as origens mais variadas. O filme Chatô de Guilherme Fontes nunca ficou pronto (dizem os jornais) por descontrole orçamentário. O “livro novo” de Ariano Suassuna (continuação do Romance da Pedra do Reino) nunca fica pronto porque todo dia Ariano tem uma idéia, faz correções à mão e depois tem que redatilografar as mil páginas do texto (que outro motivo pode haver?). Caso clássico de romance que ficou incompleto e mesmo assim foi publicado é O Processo. Kafka escreveu o começo e o fim, e ficou um tempão trabalhando no meio do livro, sem nunca concluí-lo. Jorge Luís Borges (o primeiro tradutor argentino de Kafka, em 1938) observou, com a perspicácia habitual, que é da própria natureza de um livro labiríntico como O Processo que o autor jamais conclua a sua redação: “A crítica lamenta que nos três romances de Kafka faltem muitos capítulos intermediários, porém reconhece que esses capítulos não são imprescindíveis. Eu tenho para mim que essa queixa indica um desconhecimento essencial da arte de Kafka. O ‘pathos’ desses romances inconclusos nasce precisamente do número infinito de obstáculos que detêm e voltam a deter seus heróis idênticos. Franz Kafka nunca os terminou, porque o primordial era que fossem intermináveis”.

Alguns desses penelopismos são involuntários, ou seja, o autor tem a intenção sincera de finalizar aquele troço algum dia, simplesmente não está conseguindo. Devem ser raros os casos de penelopismo verdadeiro, de alguém que não quer terminar aquilo de jeito nenhum. Por insegurança quanto à recepção dos leitores? Por excesso de perfeccionismo? Porque o prazer de estar fazendo é mais importante do que o alívio por ter feito?

quarta-feira, 20 de julho de 2011

2613) A criação através de um erro (20.7.2011)




O erro é muitas vezes um auxiliar da criação, porque nos leva a dizer ou fazer coisas que normalmente jamais nos ocorreriam. 

Nem todo erro é criativo e talvez a imensa maioria deles seja uma simples atrapalhação que é preciso voltar atrás e corrigir; mas cabe a quem cria estar atento para as colaborações do Acaso, e saber incorporá-las quando vale a pena. 

Um engano trazido pelo Acaso pode fazer surgir uma informação nova, enigmática, inquietante, num lugar onde antes havia apenas um obeso Lugar Comum, bocejando e lixando as unhas.

Reza a lenda que William Burroughs estava em Tânger enviando para seus amigos Jack Kerouac e Allen Ginsberg, pelo correio, os fragmentos de textos que iriam compor seu primeiro romance. Quando terminou, fez uma ligação internacional para os EUA para conversar com Kerouac, e pediu-lhe uma sugestão para o nome do livro. A ligação estava péssima; Kerouac sugeriu Naked Lust, “Luxúria Nua”. Burroughs entendeu Naked Lunch, e o livro tornou-se famoso até hoje como “Almoço Nu”. 

Depois, pressionado para explicar à imprensa (esta loura de microfone em punho, sempre carente de explicações) o significado do título, disse: “Significa aquele momento, congelado no tempo, em que todo mundo enxerga o que está na extremidade de cada garfo”.

Muitas vezes o erro é de leitura feita às pressas e resulta numa frase diferente da que de fato estava impressa. Uma vez, procurando algum livro na minha estante, vislumbrei de relance um título numa lombada, A Borboleta é a Morte. Fiquei intrigado, porque não me lembrava de ter nenhum livro assim chamado. 

Durante alguns segundos imaginei um romance policial, talvez de Dorothy Sayers ou de Celia Fremlin, em que uma misteriosa borboleta funcionaria como ameaça de morte iminente ou como pista provocativa deixada por um assassino. Ledo engano! Era o saboroso livro de Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite.

Uma vez eu ia de ônibus por uma rua qualquer quando vi, pichado num muro: “Desajuste ama”. Achei parecido com certas pichações que a rapaziada fazia em Olinda anos atrás, como “Se você me ama, deixe um recado na cama”. 

Fui em frente. Dias depois, no mesmo ônibus, na mesma rua, lembrei e resolvi conferir. Ah, que anticlímax. A frase era apenas “Jesus te ama”.

Eu vinha num carro com uma turma de amigos e ao passar diante de uma igreja um deles comentou: “Que coisa esquisita nessa igreja! Missa dos Infernos!”. Tive uma visão fugaz de um ritual satanista, cruzes invertidas, imagens de Belzebu. Sosseguei apenas quando olhei pela janela do carro e pude ver que se tratava apenas da “Missa dos Enfermos”, celebrada ali periodicamente. 

Igual alívio senti quando meu filho leu num muro: “Mercenários - Armados”, e depois percebeu que era apenas “Marceneiros – Armários”. Às vezes entrevemos uma palavra que nos é pouco familiar, e nossa tendência é ver, no lugar dela, uma palavra mais freqüente no nosso repertório do dia-a-dia.





terça-feira, 19 de julho de 2011

2612) O melhor amigo do homem (19.7.2011)





Rex, abre a janela e se estiver fazendo um dia bonito dá três latidos. Beleza. 

Rex, vai na cozinha. Tem uma chaleira com água, em cima do fogão. Torce o botão com a boca, aperta o acendedor com o focinho. Deixa que o resto em mesmo faço. 

Uaaaaah. Agora vou tomar meu banho. Rex, depois vai no meu quarto e forra a cama, visse?

Rex, vê só as ironias da história. Pacote de biscoito? Obrigado. A humanidade desperdiçou bilhões de dólares tentando fabricar robôs de metal, com juntas articuladas, circuitos eletrônicos, garras preênseis de alumínio e titânio, na esperança boba de que essas catrevagens conseguissem nos ajudar nas tarefas cotidianas. Quebraram a cara, não foi? 

Me passa aqui a geléia. Valeu. Pois é, podem servir para montar carcaças de automóveis em Detroit ou Betim, mas eu mesmo é que não queria uma daquelas aranhas niqueladas tilintando por dentro da minha casa. Não tenho empatia com máquinas. Máquina não sente a dor de uma topada, e por isso é indiferente às nossas. Máquina pensa como inseto. 

O ser humano precisa de um ambiente mamífero à sua volta. Pega aqui o jornal, bota no balde de lixo, o de lixo de papel pra reciclar. Obrigado.

Rex, leva os pratos pra pia e liga meu notebook enquanto eu escovo os dentes. Acho que o ser humano se encantou demais com essa besteira de instrumentos. Acha que todo o trajeto evolutivo do ser humano tem que ser por aí. Besteira. 

O antropóide primitivo usou um pedaço de pau ou de osso pra quebrar algum galho, deu certo, e daí em diante ele só conseguiu enxergar a evolução social em termos de pedaços-de-osso-artificiais. Feito aquele macaco de 2001, Rex, aquele que você late sempre que vê na tela. Do osso para a espaçonave. Um milhão de anos de equívocos. Pega ali meu celular na mesinha de cabeceira.

Bem, como eu ia dizendo, não era por aí. Desprezamos a convivência das criaturas biológicas para perseguir essa devaneio bobo de fabricar criaturas de metal. Rex, se ao invés de construir o primeiro simulacro humano tivéssemos feito o primeiro upgrade num cachorro, teríamos queimado um milhão de etapas. 

Tocaram a campainha, vai lá. Se for o síndico bota pra correr. 

Foi preciso uma crise econômica mundial para que esquecêssemos esse delírio de produzir engenhocas. Para que investíssemos em escolas de humanização de animais domésticos, de interfaces semióticas, de socialização em nosso benefício mútuo. 

Era o Sedex? Põe na escrivaninha. Descobrimos que cães, chimpanzés, golfinhos, corvos e muitos outros são um exército-reserva de bilhões de operários, secretários, mordomos em potencial, bastando apenas que lhes sejam dados os benefícios da bio-graduação e da escolarização especializada. OK, vou trabalhar, pode ligar a TV e assistir Os Simpsons. 

Não troco você pelo R. Daneel Olivaw de Asimov nem pela Rose dos Jetsons. Melhor do que você, Rex, só mesmo Gisele Bundchen de avental, mas machismo hoje é proibido por lei.




domingo, 17 de julho de 2011

2611) Escritores e marketing (17.7.2011)




Fala-se muito que os escritores hoje em dia estão mais preocupados em fazer marketing do que em escrever. Que injustiça com o século. Quem foi que teve pela primeira vez a bela idéia de fazer lançamento de um livro com noite de autógrafos? Um marqueteiro “avant la lettre”. Fico imaginando um autor sisudo como Tolstoi recebendo uma carta de seu agente literário:

“Prezado Leo Nikolayevitch: Tive uma excelente idéia para o lançamento de Guerra e Paz. Ao invés de mandar os exemplares para as livrarias e cruzar os dedos, podemos fazer da aparição deste romance um acontecimento de que toda a Rússia tomará conhecimento, o grande acontecimento de 1869. Primeiro, reservaremos um espaço público, bem conhecido, bem frequentado. Pode ser uma livraria, um restaurante. Divulgaremos através da imprensa que nessa noite você estará presente, em pessoa, e que cada leitor que comprar um livro terá direito a dirigir-se a você e pedir não apenas seu autógrafo, mas uma dedicatória personalizada! Como deve aparecer muita gente, deixaremos uma mesa reservada só para você fazer isto, e se houver muita gente pediremos que se organizem numa fila.

“Pensei em tudo: como você vive se queixando de má memória, a pessoa que vender os livros e passar o troco escreverá o nome do comprador num papel e o colocará dentro do livro, para que você possa fazer aquela encenaçãozinha: “Mas que beleza, que honra tê-lo aqui... esta noite... me prestigiando... meu caro Fiódor Mikhailovitch!!!...’ Sacou? Aproveitaremos para servir um coquetel, provavelmente vinho branco servido naquelas tacinhas de plástico que quando cheias ficam mais pesadas na parte de cima do que na de baixo e se desequilibram com a maior facilidade, principalmente quando colocadas na beira das prateleiras de uma livraria. Creio (um romancista como você me dará razão!) que pequenos imprevistos assim conferem uma sensação de espontaneidade e verdade psicológica ao evento.

“Leo, meu caro... Conheço meu gado! Sei que a esta altura você estará franzindo o sobrolho e erguendo objeções mudas a esta minha estratégia. Mas pense na concorrência, rapaz! A Rússia tá pegando fogo de escritores bons, está cheia de jovens pitbulls das letras rosnando em seus calcanhares, para não falar em futuristas como Maiakóvski, que ainda nem nasceram mas que herdarão a Terra. Você não pode dormir sobre seus triunfos. Temos que usar os poucos recursos de que dispomos, tendo em mente inclusive que Hollywood ainda não filmou o romance e isto inviabiliza meu plano de botar a foto de Audrey Hepburn na capa da edição em pocket. Você diz que seu compromisso é com os leitores? E então? Dê aos seus leitores aquela ilusãozinha de que são amigos seus, de que você, durante os poucos segundos que dura um autógrafo, tomou conhecimento da existência deles. O século 20, meu caro Leo, vai ser de quem convencer a platéia de que ela é mais importante do que o palco. Grave isto. No mármore.”



sábado, 16 de julho de 2011

2610) Superpoderes (16.7.2011)



Os heróis com superpoderes sempre nos fascinaram. Não há muita distância entre as Metamorfoses de Ovídio e os gibis da Marvel ou DC Comics. Freud escreveu um ensaio muito lúcido sobre o Herói na literatura popular. Quem é, pergunta ele, esse sujeito invencível, que conquista todas as mulheres, surra todos os inimigos, escapa de perigos catastróficos, deslinda mistérios impenetráveis? Ora (responde), é o Ego, é nosso rosto quando nos penteamos ao espelho, é aquilo que queremos ser. (Talvez não “queiramos” no sentido de ter isto como um objetivo concreto; mas fantasiamos sê-lo, para compensar nossas deficiências. Se você não pensar que é James Bond, não consegue azarar sequer a caixa do supermercado. Se você não pensar que é Napoleão, não consegue encarar uma reunião de condomínio.)

O filme Heróis (“Push”, 2009), de Paul McGuigan, mostra um grupo de pessoas com superpoderes desenvolvidos artificialmente por uma agência de espionagem. São tantos poderes que fiquei meio perdido e depois do filme fui consultar o saite. Olha só a lista dos poderes, de acordo com cada grupo:

“Movers”, que podem mover objetos com a força da mente. “Pushers”, que podem controlar os pensamentos de outras pessoas. “Watchers”, que podem ver o futuro. “Bleeders”, que emitem gritos em ultrassom, capazes de romper vasos sanguíneos do adversário. “Sniffs”, que podem rastrear pessoas. “Shifters”, que podem mudar temporariamente a aparência de um objeto aos olhos de outras pessoas. “Wipers”, que podem apagar memórias alheias. “Shadows”, que podem proteger a si mesmos e a outras pessoas próximas contra a detecção (dos Sniffs). “Stitchers”, que podem curar pessoas ou desfazer uma cura já feita.

É uma bela galeria daquilo que Freud apontou, no ensaio The Uncanny (“O Estranho”) como “a Onipotência do Pensamento”, a fantasia infantil de que somos capazes de modificar o mundo material com a mera força do pensamento, somos capazes de materializar idéias, de interferir no mundo físico sem mover um dedo. Os superpoderes do super-herói clássico, o Super-Homem, são da mesma natureza: poder voar, ser invulnerável, ter força descomunal, enxergar através das paredes, etc. A proliferação de histórias do gênero foi ampliando esse repertório. Em Scanners, os heróis são capazes de fazer explodir a cabeça de alguém. Em Jumpers, podem saltar fisicamente de um lugar para outro, bem distante. Se recorrermos ao repertório da Marvel e DC Comics, a lista não tem fim.

Cada superpoder das histórias de fantasia corresponde a uma impotência da vida real; cada um deles é inventado para suprir algo que somos incapazes de fazer. Cada superpoder é a compensação para os pequenos traumas da educação infantil, quando recebemos a terrível notícia de que não somos o Imperador do Mundo, não podemos fazer chover nem parar o sol no céu, não podemos comandar mentalmente o comportamento das outras pessoas, somos incapazes de mexer objetos sem levantar um dedo.