terça-feira, 15 de março de 2011

2504) “O Besouro Verde” (15.3.2011)



Por tédio e por desfastio, topei assistir o mais novo filme de super-herói em cartaz nos bairros de Hollywood, essa rede urbana descontínua que se prolonga até os shopping-centers das cidades brasileiras. Cinema de shopping é algo tão norte-americano que em breve estarão dispensando as legendas, cobrando a pipoca em dólar e exigindo visto. E, por outro lado, não existe nada tão visceralmente norte-americano quanto o conceito de super-herói, o herói cheio de poderes sobrenaturais (Superman, Homem Tocha, Mr. Manhattan, etc.) ou tecnológicos (Batman, Wolverine, etc.). Neste sentido, os Estados Unidos vieram a produzir o mais complexo e impressionante panteão heróico dos tempos modernos, num delírio coletivo que se equipara ao da mitologia grega, mitologia nórdica e outras menos conhecidas (por mim).

O Besouro Verde não é um bom filme. Não porque tenha grandes defeitos, apenas porque não tem qualidades. Suas qualidades são as mesmas que poderiam ser encontradas num gibi de 2 reais. Não é preciso gastar tanto dinheiro para colocá-las na tela. (Segundo o IMDb, o filme custou 120 milhões de dólares.) As qualidades são uma imageria bizarra e aquela sensação de um sonho-em-forma-de-desenho-animado, que torna assistível qualquer filme de super-heróis, desde os que são bons (Watchmen, Batman Begins, etc.) até os que são totalmente irrelevantes e descartáveis, como este. Gastarei agora algumas linhas criticando o que sempre critico: as perseguições em automóveis, as explosões, as brigas de socos destruindo a mobília, a corrida contra o relógio para evitar que o mundo se acabe... O gênero se construiu em cima dessas besteiras; é pegar ou largar. Até os seus bons filmes precisam mostrar isso, senão perdem metade do público e dão prejuízo.

Fui ver o filme porque foi dirigido (ou pelo menos assinado) por Michel Gondry, que fez um dos mais intrincados e criativos filmes de FC dos últimos anos (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, de 2004, com Jim Carey). É como ficar sabendo que um mesmo sujeito dirigiu O Show de Truman e Uma Noite no Museu. O Besouro Verde não é um filme de Gondry; ao que tudo indica é um filme de Seth Rogen, que escreve o roteiro e interpreta o Besouro. Rogen é um desses adolescentes de 30 anos que veem o cinema como um imenso PlayStation onde podem se divertir à vontade. Seu roteiro e sua interpretação se sobrepõem a tudo. O filme é um “buddy movie”, um filme sobre dois carinhas imaturos que enfrentam inimigos, brigam, explodem metade da cidade, salvam a vida um do outro de dez em dez minutos; e ao mesmo tempo se comportam como um casal homossexual, cheios de ciúmes, de arrufos, de crises de possessividade e de “não-falo-mais-com-você”. O Besouro Verde e Kato (interpretado por Jay Chou) são mais um casal Batman & Robin que poderia dizer (como disse Antonio Carlos Magalhães de sua convivência com Fernando Henrique Cardoso): “entre nós houve tudo, menos sexo”.

domingo, 13 de março de 2011

2503) Um quarto só para si (13.3.2011)




(o gabinete de trabalho de J. G. Ballard)

Maurice Leblanc é o criador de Arsène Lupin, o ladrão de casaca, uma mistura de gatuno, espião, detetive, herói de folhetim, etc. Lupin está na mesma galeria de outros personagens que formataram a cultura de massas do século 20: Rocambole, Fantomas, The Shadow, Sherlock Holmes, Raffles, Doc Savage.

Não posso dizer que tenho as obras completas de Leblanc, mas tenho os 30 e poucos volumes lançados no Brasil pela saudosa Editora Vecchi, além da extensa biografia de Jacques Derouard (Séguier, 1989).

Leblanc não escreveu apenas romances policiais, mas também ficção científica (O Enigma dos Três Olhos, 1919) e novelas românticas e de costumes. Pertence a este grupo o volume de contos A Carta Anônima (“Le robe d’écailles rose”), “aventuras sentimentais e trágicas”, onde aparece o conto “Les fleurs mortes”, de 1911.

Neste conto, a sra. Jeanne Damoin começa a suspeitar que seu marido, Raul, tem uma amante. Os dois moram no 5o. andar de um prédio em Paris, e ela começa a perceber algumas ausências inexplicáveis do marido. Raul, que é escritor, reclama às vezes do excessivo carinho e da agitada vida social da esposa.

Jeanne acredita que está sendo traída; encontra no chaveiro do marido uma chave desconhecida (e faz uma cópia para si, que não é besta); e descobre através da “concierge” que um apartamento no 4o. andar do seu prédio foi alugado recentemente.

Assaltada por fúria e por presságios, ela aproveita uma ausência de Raul e entra no apartamento do quarto andar. Descobre com surpresa que o apartamento está vazio e empoeirado, com exceção de um quarto, cuja janela se abre para o céu. O quarto está limpo e mostra sinais de uso frequente; e tem apenas uma poltrona, uma cadeira e uma escrivaninha onde ela encontra um cinzeiro cheio de pontas de cigarro, e pilhas de papéis manuscritos, com a letra do marido. Num jarro, flores mortas, murchas. Jeanne não diz nada, compra flores novas e as coloca no jarro; e o casal nunca toca no assunto.

Este conto precede o famoso ensaio de Virginia Woolf Um quarto só para si (“A room of one’s own”, 1928), em que a autora defende a literatura feminina explicando que uma mulher, para ser escritora, precisa de dinheiro e privacidade. Precisa, acima de tudo, de um aposento em que não seja interrompida a todo instante para resolver querelas domésticas, familiares, etc.

Woolf parte do princípio de que os homens dispõem disto, mas a verdade é que nem sempre é assim. Por mais patriarcal que seja o mundo, sempre há homens que pedem aos céus (mesmo quando agnósticos) um quarto só para si, um lugar onde não sejam interrompidos pelos carinhos da esposa, pelos recados da empregada, pelas peraltices dos pimpolhos, pela cordialidade dos vizinhos, pelo Facebook, pelo Twitter.

Homens e mulheres podem ser adversários; escritores de qualquer sexo são parceiros de destino, e sabem do que um(a) escritor(a) realmente precisa: dinheiro para as despesas e um quarto só para si.






sábado, 12 de março de 2011

2502) A bazuca (12.3.2011)



Chegou-me pelo Correio um formulário impresso, pedindo-me para ir retirar a encomenda na agência, munido de um documento de identidade. 

Fui lá, entreguei o papel no balcão, o cara entrou, demorou e daí a pouco voltaram ele e outro puxando uma espécie de caixote comprido, com dois metros de altura, que parecia conter um poste de luz. Conferi o endereço: era mesmo para mim. Conferi o remetente: uma sigla incompreensível, com endereço numa cidade obscura, nos Estados Unidos. Como tenho amigos músicos por lá, pensei que se tratasse, sei lá, de algum instrumento, um rack de CDs... Mas, pra mim?! Cara de perplexidade. 

Com a ajuda dos funcionários do Correio levei a estrovenga até a rua, consegui enfiá-la dentro de um táxi e voltei para casa. Abri o caixote na sala e me deparei com a bazuca. 

Claro que soube logo do que se tratava, vejo filmes de guerra desde garoto, já vi centenas de vezes o sujeito pegando aquele cano largo e comprido, apoiando-o no ombro, agarrando a empunhadura, fechando o olho esquerdo para fazer mira, apertando o gatilho e disparando aquele morteiro mortífero que faz uma trajetória chispante pelo espaço e vai explodir em chamas lá na frente, a algumas dezenas de metros. 

Que era uma bazuca, não havia a menor dúvida; vinha inclusive com meia dúzia de projéteis, acondicionados de forma engenhosa nos espaços vazios da embalagem. Mas, quem a mandou? E por que para mim? 

Procurei no Google, sem sucesso, pistas que me levassem ao remetente: a cidadezinha alegada (Junction, em Nebraska) não existia. Havia um manual de instruções explicando como finalizar a montagem (alguma peças essenciais, por precaução, vinham um saco plástico).  Montei o parangolé, só por curiosidade. Deixei-a na sala, pronta para o uso, já com um morteiro na agulha. 

Isto já faz um mês e começo a me impacientar. Nada no mundo acontece de graça, não é mesmo? Se alguém me mandou uma coisa tão cara e trabalhosa, foi com alguma intenção. Se mandou para mim, ou é porque me conhece, ou porque acha que sou alguém que pode fazer bom uso. O instrumento é de excelente qualidade, novinho em folha. Não usá-lo seria, por um lado, um desperdício de dinheiro e de trabalho industrial; por outro, o desperdício da chance de uma nova experiência. 

Sou daquele tipo de sujeito que não vive à procura de oportunidades, mas que também não as recusa quando elas lhe caem no colo. Nada acontece de graça. 

Da minha janela, tenho uma paisagem variada. Uma quadra cimentada onde crianças brincam. Um campinho de pelada onde sujeito grisalhos e barrigudos jogam futebol. Um boteco sempre rodeado de mesas e cadeiras de plástico, com rodas de samba, etc. Ruas de trânsito intenso. Apartamentos que se iluminam à noite, cheios de gente atarefada e desconhecida. 

Nada acontece de graça. Se isso veio parar nas minhas mãos é por algum motivo, e alguma coisa me diz que o acesso à resposta está no dedo indicador de minha mão direita.






sexta-feira, 11 de março de 2011

2501) Drummond: poemas da política (11.3.2011)




O livro de estréia de Carlos Drummond, Alguma Poesia (1930) tem alguns poemas cujo tema é a política; e tem alguns poemas que eu chamo de não-poemas, porque não passam daquelas brincadeirinhas modernistas para apoquentar os conservadores. 

Toda vanguarda é feita por jovens, e por jovens que acreditam que estão mudando o mundo. Daí que eles demonstrem uma certa arrogância, um desdém pelos que pensam diferente, e uma tendência a fazer piadas provocativas não pelo teor da piada em si, mas para se divertir com o desconforto que a piada provoca nos destinatários. 

Acho que estou errado em chamar esses textinhos de não-poemas; talvez devesse chamá-los de “poemas casca-de-banana”.

Não vejo outra maneira de interpretar esse primor de bobagem que Drummond intitulou “Política Literária”, e que diz, textualmente: 

O poeta municipal 
discute com o poeta estadual 
qual deles é capaz de bater o poeta federal. 
Enquanto isso o poeta federal 
tira ouro do nariz. 

O poema é dedicado a Manuel Bandeira, e é certamente uma alusão ao fato de que a imensa maioria dos poetas brasileiros minimamente significativos, naquele tempo, era composta de funcionários públicos, que trabalhavam para algum órgão dos três poderes.

O texto sugere a rivalidade (talvez real e agastada; talvez uma mera suposição lúdica de rivalidade) entre três amigos, poetas, com empregos diferentes. Não é difícil imaginar um empregado do prefeito indo tomar cafezinho no escritório de um empregado do governador e ficarem os dois por ali, mexendo o açúcar e destilando o veneno contra um colega mais bem aquinhoado que habita uma mesa de mogno do Palácio, na Capital Federal. 

É significativo também o uso da expressão “tirar ouro do nariz”, que exprime menosprezo e indiferença, e literalmente significa tirar meleca (ou tirar catôta, como dizemos na Paraíba). Existe aí uma sugestão freudiana (ouro = meleca = fezes) que não deixa de significar algo mais redondo abarcando as vidinhas dos três personagens. Teu emprego público, tão importante? Porcaria. Tua poesia, tão preciosa? Porcaria.

Essa correntezinha de invejas ao longo de uma cadeia hierárquica não passa sem me lembrar também o famoso soneto de Machado em que um vagalume inveja uma estrela, uma estrela inveja a lua, a lua inveja o sol, e o sol se queixa: “Por que não nasci eu um simples vagalume?”. 

Leio numa pequena cronologia biográfica que Drummond, quando publicou Alguma Poesia, trabalhava na Secretaria de Educação estadual, e só se tornaria “poeta federal” em 1934, ao acompanhar Gustavo Capanema quando este foi nomeado Ministro, levando o poeta consigo para o Rio, como chefe de gabinete.  

É de se supor, então, que fosse ele o poeta estadual. Seria Bandeira o municipal? Sua biografia no saite da ABL registra que de 1927 a 1929 ele trabalhou no Recife como “fiscal de bancas examinadoras de preparatórios”. 

É típico dos poetas exercerem, para sobreviver, as menos poéticas das funções.






quinta-feira, 10 de março de 2011

2500) A tradução sonora (10.3.2011)





(ilustração: Wolstenholme)



Traduzir literatura é como fazer caricatura. 

Como é impossível reproduzir o original (como reproduzir, com nanquim preto sobre papel branco, um rosto em três dimensões, a cores, de carne e osso, cheios de nuances incapturáveis?), o caricaturista precisa identificar alguns detalhes que “saltam aos olhos” e passá-los para o papel de modo que qualquer leitor olhe aquilo e numa fração de segundo diga: “É Fulano de Tal! Puxa, está igualzinho!”. 

Não, não está igualzinho, perderam-se inúmeros aspectos do rosto e da expressão de Fulano. Mas alguns, essenciais, foram trazidos para o papel de modo reconhecível.

Mesma coisa é traduzir qualquer texto que vá além do “the book is on the table”. E um aspecto que muitas vezes se desdenha é traduzir o som, além do sentido. Porque a expressão literária é feita das duas coisas. O som das palavras (na poesia como na prosa) é uma melodiazinha que faz parte de sua essência. 

Como traduzir, por exemplo, o mero título do poema de Eliot, The Waste Land? Uns dizem “A Terra Sem Vida”, outros dizem “A Terra Devastada”, outros “A Terra Destruída”, outros “A Terra Desolada”; já vi em espanhol “La Tierra Baldía”. 

Talvez “devastada” seja o melhor adjetivo, porque a partícula /vast/ evoca a palavra /waste/ do original; e foi isto que levou Paulo Leminski a sugerir a tradução híbrida “Devastolândia” que é a de sonoridade mais próxima a “The Waste Land”. 

Uma tradução anticonvencional, ousada, que pelo seu próprio exagero caricatural (na sua tentativa de chegar ainda mais perto do som da expressão inglesa) mostra a dificuldade de traduzir sentido e som ao mesmo tempo. 

A principal restrição que se pode fazer ao termo proposto por Leminski é estilística: ele destoa das três palavras comuns e severas usadas no título original, propõe um neologismo surpreendente, e com isto se afasta do tom de voz (toda poesia tem por trás de si uma voz) usado por Eliot.

“Le Bateau Ivre”, o grande poema de Rimbaud, é traduzido em português como “O Barco Bêbado”, “O Barco Embriagado” e “O Barco Ébrio”. As três se equivalem em sentido; mas a tradução mais próxima, para meu gosto, é a terceira, porque “ébrio” tem a sonoridade mais próxima de “ivre” e reproduz, sem forçar o sentido, a melodiazinha do título original.

Reli dias atrás as traduções feitas por Carlos Drummond de algumas canções do Álbum Branco dos Beatles. 

Ele traduz “Blackbird” por “Melro”. Eu discordo, não semanticamente, mas no aspecto sonoro. “Melro” tem também duas sílabas, mas “blackbird” são duas sílabas fortes, explosivas, sendo que “melro” tem uma forte e uma fraca. 

Além do mais, “melro” não é uma palavra tão instantaneamente visualizável. A saída (se não for uma tradução para ser cantada) talvez fosse esquecer o ritmo do original e apelar para o aspecto visual: talvez “Pássaro Preto”, com o /pp/ evocando o /bb/ do termo inglês. 

Dizem os grandes tradutores que toda tradução é perda; mas é preciso, sempre, vender caro a derrota!






quarta-feira, 9 de março de 2011

2499) Os 400 queijos (9.3.2011)



Sempre que se fala em políticas públicas para a cultura eu me lembro da frase impaciente do General De Gaulle, quando era presidente da França: “Como se pode governar um país que tem 400 marcas de queijo?”. A beleza deste desabafo é que ele não vem de um “enfant terrible” como Daniel Cohn-Bendit ou de um contestador como Sartre. Vem de um dos mais caretões dos militares que já encarnaram A França Profunda; vem da reserva moral da velha Gália. Pois é, general. Uma coisa é acreditar em símbolos, outra muito diferente é produzir uma legislação que acomode e contemple reivindicações específicas. Ora que diabos, 400 tipos de queijo?! Por que não resumimos isto a uma dúzia, e estamos conversados?!

A cultura tende a se diversificar e a se ramificar fractalmente, subdividindo-se cada vez mais, em instâncias minimamente particularizadas e individuais. A cultura é o reino do único, do personalizado. Por outro lado, a administração (e as suas correspondentes legislações e instâncias regulatórias) tende a generalizar, a colocar mil coisas diferentes sob uma única denominação, para ganhar tempo e poupar papel, além de deixar claro que todos são iguais perante a lei. Ou seja, a lei que organiza a produção e comercialização dos queijos tem o dever republicano de tratar todos os queijos como iguais. Só que cada queijo francês (e “queijo francês” se pronuncia com o tom de voz de “catedral gótica” ou “concerto barroco”) exige ser tratado como algo excepcional, fora de série, irredutível às generalizações. E chegamos àquele impasse tão comum quando tratamos com objetos culturais: a Cultura é uma regra composta totalmente de exceções a ela mesma.

Um governo resolve eliminar um imposto qualquer sobre o livro, para ajudar a literatura. Mas os romancistas reclamam que a mudança favorece também os livros de auto-ajuda, que, segundo eles, são mais inimigos da literatura do que as fogueiras da Inquisição. O que fazer? Liberar do imposto apenas os romances? Apenas os bons romances? Apenas os romances bem escritos? Apenas os romances com mensagem social e verdade filosófica? E o que dizer dos livros de contos? E da poesia? Por outro lado, talvez os romances publicados pelas pequenas editoras talvez precisem mais dessa isenção do que os das editoras grandes, que têm mais jogo-de-cintura financeiro. E por aí vai.

Toda lei é uma desumanização, porque implica numa generalização, numa recusa a reconhecer o que cada Ser tem de único. Temos o hábito de dizer que “cada caso é um caso”; essa frase bate de frente com um dos pilares da democracia, que é a noção de que todos devem ser iguais perante a lei. Todos acreditamos que a lei não pode favorecer ninguém, não pode abrir exceções para beneficiar alguém considerado “um caso especial”. O fato de que mesmo assim toda lei abre tais exceções mostra o quanto é difícil praticar a democracia (que se baseia na pressuposição de igualdade) no reino da diferença.

terça-feira, 8 de março de 2011

2498) Literatura e joguinhos (8.3.2011)




Os videogames são uma das formas de narrativa mais interessantes inventadas nas últimas décadas. (Neste caso, estou colocando no mesmo saco produtos distintos, como o game de PC, que roda através de um CD-Rom ou DVD, e o game de console, que é plugado na TV e roda com cartucho). Ele é a confluência entre os jogos de mesa-e-tabuleiro como War ou Banco Imobiliário, o cinema de animação e a TV.

Dizem que os literatos e os intelectuais em geral têm preconceito contra os games. Bem, talvez esse preconceito exista “em geral”, mas sei de numerosos casos particulares em que sujeitos sérios (como eu) se afeiçoam a certos jogos e não acham que estão perdendo seu tempo. Nos casos em que o preconceito existe, ele usa, curiosamente, termos parecidos com os das pessoas que não gostam de ficção científica. Ou seja: 1) É coisa de garoto, não de adulto; 2) É coisa de americano, não tem nada a ver com a realidade brasileira; 3) Só trata de guerra, violência, monstros. São verdades parciais, e todo preconceito é alimentado por verdades parciais que alguém transforma em generalizações definitivas. Não importa se um milhão de negros são trabalhadores; basta o preconceituoso ver um negro com preguiça para dizer: “Tá vendo? Todo negro é preguiçoso”.

Sugiro a leitura deste artigo (http://tinyurl.com/6aupee5) no saite da Livraria Saraiva, em que escritores brasileiros jovens (Daniel Galera, Antonio Xerxenesky, Samir Machado, Simone Campos) dão seu depoimento sobre sua vivência com os games e o modo como eles estão sendo assimilados em seus romances e contos.

A grande contribuição dos games é quanto à narrativa, porque eles propõem uma interatividade que a literatura-de-livro só pode oferecer até um certo ponto. Existem games violentos, mas porque o mercado se estruturou assim. E por falar nisso, também existem livros violentos. Assim como temos hoje histórias em quadrinhos adaptando a obra de Proust, nada impede que daqui a algumas décadas tenhamos um videogame do Ulisses de Joyce, em que o jogador passeará por Dublin, terá acesso à infância de Stephen Dedalus, encherá a cara com Bloom num bordel, poderá bisbilhotar as aventuras extraconjugais de Molly... Se houver mercado para isso, acontecerá.

Nada impede que tenhamos um dia um game da Guerra de Canudos, usando material fornecido por Euclides da Cunha, Vargas Llosa, Manuel Bombinho e outros. Nada impede que o Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, possa virar um imenso universo interativo, reproduzindo antigas e novas aventuras. O que era literatura (texto, palavras, frases) pode virar game (imagens, som, movimento, narrativa, interatividade), com alguma perda estética neste processo, mas também com a possibilidade de ganhos estéticos. É irrelevante essa discussão boba de “quem é melhor, a literatura ou o game”. O melhor meio é o que atrai maiores talentos individuais. Já foi a literatura, mas nada obriga que seja assim eternamente.

2497) A Era do Monjolo (6.3.2011)




Nasci no Condado de Gurtz, no ano 2557 da Era do Monjolo. Minha infância foi uma fuga constante em lombo de burro, no temporal ou na poeira, comendo frutas verdes ou carne estragada, meu pai matando um salteador por dia, minha mãe perseguindo coelhos e acendendo fogueiras. Às vezes demorávamos numa choupana o tempo suficiente para que eu me acostumasse ao desenho das palhas no teto, ao som do vento, ao meu cantinho de dormir, o mesmo canto todas as noites, e pensei uma vez que gostava daquele canto como se ele fosse uma pessoa. Nunca demorava muito, porque chegavam os cavaleiros do Khan, archotes em punho, devastando aquela aldeia, incendiando as florestas e cravando cabeças nas estacas. O Khan demonizou nossas vidas até quando, na época da minha primeira barba, conheci jovens rudes e queimados do sol que me levaram para uma reunião numa gruta. Fiquei sabendo que ali se reuniam os inimigos do Khan, que preparavam a sua derrubada. Perguntaram-me se gostaria de me unir a eles. Minha resposta foi puxar a faca que trazia à cinta, cravá-la no chão e ajoelhar-me.

Deram-me um fuzil, um nome novo, e treinamento. Assinei contratos com sangue, bebi pólvora misturada ao álcool, permiti que me fotografassem degolando um desconhecido, ou beijando a mão de um desconhecido, ou na Praça, erguendo um cartaz em língua desconhecida. Unimo-nos em volta dos exércitos comandados pelo Raij, a nêmese do Khan, o homem que jurara cortar sua cabeça pessoalmente e acabar com o terror na península. Possuídos por uma fúria sagrada, chocamo-nos contra os exércitos do Khan em sucessivos combates, até fazê-los refluir para dentro das muralhas da capital. Na véspera do assalto derradeiro, pude entrever o Raij à distância; ele passou em seu cavalo branco, exortando as tropas. No dia seguinte, desfilamos durante horas diante da estaca, à frente do palácio, em que a cabeça do Khan nos esperava, e a música das nossas trompas de caça emergiu das janelas do palácio, onde se debruçavam mulheres como nunca mais vi.

É duro implantar o Bem numa terra que o mal devastou durante gerações. A violência que o Khan propagara morava agora na memória dos aldeões, contaminava sua vida. Assaltos e emboscadas contra as tropas do Raij se multiplicavam. Descobrimos (a esta altura eu era centurião) que a morte do Khan não mudara muito o mundo, e que o Mal era como um monstro que sobrevive mesmo depois de decapitado. À frente das minhas tropas, comandei incursões de Norte a Sul, enquanto meus cabelos embranqueciam e os incêndios empobreciam as florestas. Vi erguerem-se contra nós as tropas andrajosas e mal-armadas dos seguidores do Valoong, o guerreiro envolto em peles de urso que jurou queimar vivo o Raij e seus seguidores. Hoje, à véspera de mais uma batalha, escrevo estas linhas à luz dos archotes, os mesmos que empunharemos amanhã no momento de massacrar outra geração de insurgentes, devastar suas florestas e cravar suas cabeças nas estacas.

2496) Contraintes (5.3.2011)




“Contrainte” (con-TRÉNT): palavra francesa que pode ser traduzida como “restrição auto-imposta”. É quando um artista diz: “Proponho-me a fazer uma obra sem ultrapassar tais e tais limites, ou na qual será obrigatório proceder assim ou assado”. 

Parece um convite à excentricidade, mas a verdade é que toda obra de arte principia por aí. Quem compõe uma música para cavaquinho só pode lidar com as notas que cabem num cavaquinho. 

O crítico Rudolf Arnheim escreveu um dos melhores livros sobre a linguagem do filme, A Arte do Cinema, defendendo com brilhantismo a teoria de que a riqueza da linguagem cinematográfica decorre de suas limitações iniciais: ser mudo, ser em preto-e-branco, ter a imagem limitada pra um retângulo, etc.

Na literatura temos “contraintes” famosa como o formato obrigatório de muitos gêneros poéticos, como o hai-kai, o soneto, etc. E existem aquelas “contraintes” excepcionais, como a de Georges Perec e de Ernest Wright, que escreveram romances inteiros sem usar a letra “E”. 

Fiquei sabendo agora de outra obra que para mim é prova da existência de mais um autor fora-de-esquadro. Trata-se do livro Never Again, de Doug Nufer (http://www.amazon.com/o/asin/0971248567/ws00-20), que parece ser a história de um jogador compulsivo que quer se regenerar. O livro tem uma “contrainte” que é coisa de maluco: como o título indica, o autor se compromete a não mais usar qualquer palavra que venha a aparecer no texto. 

Ou seja, cada palavra só pode ser usada uma vez. Imagine a dificuldade de alguém para omitir as palavras mais comuns da língua (o, a, os, as, um, uma, uns, umas, de, em, para, que...).

O livro começa parecendo um livro normal: “When the racetrack closed forever, I had to find a job. Want ads made wonderlands, founding systems barely imagined”. (“Quando a pista de corridas fechou para sempre, tive que procurar um emprego. Anúncios de ‘procura-se’ projetavam fantasias, criando sistemas que mal se poderia imaginar.”). 

Veja-se que logo no comecinho do livro o autor já queimou algumas palavras essenciais: “When”, “the”, “I”, “to”, “a”. E por aí vai. 

Quando chegamos à página 4, o autor já descarregou todo seu suprimento de conectivos e palavrinhas curtas, e as frases vão ganhando um aspecto assim: “Tilt? Nodded acceptance unclogs processional drainpipe. Headtalk gestures convey protodocuments: workpass, memo allocating stingy directional information”. Lamento, mas não vou perder meu tempo tentando traduzir.

Uma regra como esta pode produzir boa literatura? Talvez não, mas a verdade paradoxal é que a literatura não tem como objetivo apenas produzir boa literatura. A literatura serve para sabermos os limites do que é possível fazer com palavras. “Boa literatura” é uma pequena fatia dessa pizza, a fatia que uma cultura, numa época qualquer, resolve considerar mais significativa ou mais deleitável que as outras. A Boa Literatura é um efeito colateral, e não o objetivo da literatura.





sexta-feira, 4 de março de 2011

2495) “Fuck” e o Rei da Inglaterra (4.3.2011)



(O Discurso do Rei)

O item mais recente na minha coleção pessoal de coincidências envolve o filme de Tom Hooper O Discurso do Rei, visto algumas noites atrás, e um livro que estive lendo naquela mesma tarde. 

The Other Victorians, de Steven Marcus, é um estudo da moral mediana da Inglaterra durante a época da Rainha Vitória (aproximadamente a segunda metade do século 19) através de alguns textos básicos. 

Entre os textos estudados por Marcus, está o gigantesco e anônimo livro pornográfico My Secret Life, um clássico da literatura subterrânea, de autor até hoje não identificado com certeza. Ao longo de milhares de páginas, o autor descreve com riqueza de detalhes as aventuras sexuais que teve (com prostitutas e mulheres do povo, de modo geral) ao longo de toda sua vida adulta.

A certa altura de My Secret Life, o autor conta seu envolvimento com duas garotas interioranas que foram fazer a vida em Londres, garotas gostosinhas mas incultas. E ele se diverte contando a obsessão de uma delas com o palavrão “fuck”, que ainda hoje é meio tabu no mundo de língua inglesa, tanto que costumam referir-se a ele como “a palavra com F” (“the F-word”). Diz ele (melhor não traduzir os palavrões, para manter o sabor do original):

“Quando estávamos os três juntos, ela sentava quieta junto ao fogo, e de repente dizia em voz alta para si mesma: Fuck. Lembro de como penteava o cabelo ao espelho, quando eu e Nell estávamos sentados, e de como ao seu jeito vulgar e rude, e sua voz esganiçada, ela dizia: Fuck, fuck, fucky, oh, fuck, fuck, fuck, fuck her and fuck him, and fuck, fuck, fuck”.

É a propriedade terapêutica e libertadora do palavrão, não é mesmo? A garota provavelmente era reprimidíssima em sua zona rural de origem, e talvez ficasse mais eufórica com a liberdade para dizer palavrões do que com a liberdade para fazer “ménage à trois” com a amiga e o cliente. 

Que o diga o Rei George VI, que, incentivado pelo terapeuta, dispara num jorro interminável de “fuck” e “shit”, que aos poucos vão desinibindo seu aparelho fonador.

Diz o IMDB que o filme recebeu uma censura etária um pouco alta pelas 17 vezes em que a palavra “fuck” aparece, mas essa censura foi reduzida com a ressalva: “Contém linguagem forte num contexto de terapia da fala”. O que é bem diferente das centenas de vezes em que “fuck” e o onipresente adjetivo “fucking” aparecem em qualquer filme policial norte-americano, especialmente os de Quentin Tarantino. 

A verdade é que palavrões como “fuck” são, primeiro, um tabu verbal quase intransponível. Depois viram uma blasfêmia euforicamente libertária, inebriando o paciente até uma espécie de orgasmo fonoaudiológico. 

E por fim o termo se empobrece (à medida que se multiplica), transformando-se num expletivo inócuo e cada vez mais vazio, um cacoete cansativo para quem está ouvindo os personagens martelando sem parar aquelas sílabas. Deixa de ser um Tabu do Proibido para se transformar num Tabu do Obrigatório.